Marcos Falchero Falleiros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cronologia de Graciliano Ramos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edição do Autor

2024

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Graciliano Ramos, o construtor

 

            Graciliano Ramos estreou na literatura aos onze anos de idade, com o conto “Pequeno pedinte”, publicado no jornalzinho da escola em Viçosa, O Dilúculo, que ele e o primo haviam criado sob orientação do professor de geografia Mário Venâncio, uma figura exótica que apareceu na cidade como novo agente do correio, literato e, em 1906, suicida. Foi esse amável profeta que, mais ou menos um ano antes de tomar ácido fênico, disse ao menino Graciliano que ele seria escritor – e o deixou aturdido com a novidade, andando pelas ruas, cego e surdo, aos tropeções.

            Graciliano confessa que o conto de estreia e as outras publicações que apresentou no jornalzinho eram completamente refeitas pelo mestre, o que muito o envergonhava, pois era claro que todos perceberiam o embuste. Mas se dermos um desconto ao acirrado senso crítico do autor, podemos entender que os arrebiques e as interpolações no texto, praticados por Mário Venâncio, mais estragaram do que aprimoraram a história de meia página: nela vemos a voz narrativa condoída e irmanada à condição de desamparo de uma criança nas mãos da hipócrita caridade – um nível de percepção e sensibilidade que era o embrião das muitas manifestações do adulto que culminaram em Vidas secas.

            Há antecedentes, entretanto, mesmo para a manifestação precoce do menino: trata-se de sua alfabetização torturada por palmatórias, gritos, impaciência do pai, grosseria generalizada de escolas precárias, que o pequeno superou ansiosamente para poder decifrar as histórias que o fascinavam. Assim, há em sua vida um vínculo estreito entre alfabetização e literatura, de tal modo que, “quase analfabeto” aos nove anos, como conta em Infância, aos onze era um pequeno escritor jornalista e a partir dos quatorze publicava em revistas como O Malho, no Rio, e em jornais e revistas de Maceió, sonetos e outras formas poéticas com imagens muito bem elaboradas, revelando domínio de vocabulário erudito e de regras de versificação, além das manobras sintáticas impecáveis. Era o resultado de quem desistira das escolas infames para entregar-se com muita competência ao autodidatismo. O evento “Graciliano Ramos” pode, portanto, encher a humanidade de entusiasmo, quando vemos a possibilidade do surgimento de um intelectual extremamente refinado saído de um ambiente tosco e brutal, tanto quanto um basbaque do século XXI, amamentado por internet, pode se espantar com o ambiente sertanejo sofisticado que Graciliano e seus amigos criavam nas brenhas, entre Viçosa e Palmeira dos Índios, providos de jornais e obras vindas longinquamente de carroça.

            As cartas de sua juventude são tão intelectualizadas e fascinantes quanto o que se encontra de melhor na correspondência de grandes escritores pelo mundo afora –  cheias de gaiatices, humildes e sem pedantismo. Depois da experiência frustrante de um ano no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 1915, aos vinte e dois anos de idade, voltou para junto da família em Palmeira dos Índios, casou-se, assumiu do pai a loja de tecidos e de variedades, batizou-a “Loja Sincera”, teve quatro filhos, enviuvou. Em 1921 participou durante três meses do jornal O Índio, que Padre Macedo havia inaugurado no início do ano – também nesse caso com produções literariamente históricas. E, após sete anos de viuvez, no início de 1928, tornou-se prefeito da cidade e casou-se novamente. Os dois relatórios de prefeito para prestação anual de contas ao governo estadual, escritos em 1929 e em 1930, entraram para a literatura, tal a qualidade inesperada desses textos que, como acontece normalmente, deveriam ser acanalhados, demagógicos, burocráticos e enfadonhos. Ao contrário, os textos dos dois relatórios são diretos, de um humor que soma a sátira à picaretagem que o cerca com a precisão da honestidade produtiva e dinâmica. Northrop Frye mostra a dificuldade de definir o que é literatura devido às duas direções da linguagem: a direção interna, para a literatura, e a direção externa, para a referência das coisas. O crítico observa que os textos externos às vezes sobrevivem em razão de seu estilo depois que sua funcionalidade para a representação dos fatos se perdeu. No Brasil temos os exemplos dos sermões de Vieira e, com Euclides da Cunha, Os sertões, instalado inegavelmente na literatura como não romance. Podemos considerar assim também os relatórios do prefeito Graciliano. Fizeram sucesso.

            O poeta Augusto Frederico Schmidt, com editora no Rio, leu os relatórios e adivinhou que o prefeito deveria ter algum romance pronto. De fato, entre 1924 e 1925, Graciliano, viúvo e acabrunhado, tinha retomado a elaboração ou iniciado a escrita de três contos: “A carta” – serviria de ponto de partida para S. Bernardo, ainda que descartado o texto inicial; “Entre grades” – seria desdobrado em Angústia; o terceiro conto espichou-se e virou Caetés. Esse era o romance que em 1930 Graciliano tinha para apresentar a Schmidt, em resposta ao contato que o editor adivinho estabelecera com o prefeito desconhecido.

            Graças à demora na publicação, Graciliano pôde desfazer o negócio, com alívio. A vida inteira ele manifestou ojeriza por essa “porcaria”, para usar seus termos ao referir-se especialmente a Caetés. Ainda que insistente nesse comportamento, Graciliano nunca deu sinais de encenações de falsa modéstia. Bem pensadas, suas observações revelam um espírito crítico qualificado, que localiza com clareza os problemas de seus livros. Como disse Antonio Candido, Caetés é um livro “temporão”, nascido tarde: cheira a Eça de Queiroz do século XIX, sendo um misto: vê-se nele a cópia da cópia que o português fez de Madame Bovary, filiando-se à família dos romances de adultério, e, com um traço próprio muito significativo, mostra-se fundamentalmente baseado em A ilustre casa de Ramires. No entanto, é modernamente límpido, posto em linguagem direta e bruta. Antonio Candido considera que a obra tem um ar de treinamento, como se fosse um exercício para que o escritor se preparasse para a grande obra que realizaria a seguir. Caetés é, portanto, um romance cheio de atrativos e aspectos inquietantes de novidade em meio a sua velhice – se emprestarmos de Manuel Bandeira o que ele disse sobre os poemas inaugurais de Mário de Andrade, podemos dizer que Caetés é de um “ruim esquisito”.

            Antes de enviar a Schmidt o livro, Graciliano renunciou ao cargo de prefeito nos inícios de 1930, vendeu a Loja Sincera e mudou-se com a mulher e filhos para Maceió, convidado pelo governador para o cargo de Diretor da Imprensa Oficial. Lá retrabalhou bastante o texto do romance em meio à Revolução de 30. Assim, as andanças da história da modernização conservadora no Brasil deixavam sua obra de 1925 mais ainda para trás. No final de 1931, demitiu-se do cargo em que tinha sido mantido apesar dos tenentes de Getúlio, mas que não conseguiu suportar. Voltou para Palmeira dos Índios e, no final de 1932, S. Bernardo já estava pronto, ao mesmo tempo em que ele pedia ao editor do Rio que cancelasse a publicação e devolvesse a cópia de Caetés.

            Entretanto, Jorge Amado havia lido os originais na livraria de Schmidt e, jovem autor entusiasmado pelo aparecimento de um novo colega, foi a Maceió, em 1933, para conhecê-lo. Com a ajuda da esposa de Graciliano, Heloísa, sequestrou o Caetés de volta para Schmidt. O ambiente intelectual de Maceió era na época uma concentração de talentos, não só dos locais, como também daqueles que haviam chegado: por exemplo, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. É engano considerar que as características marcantes da obra de Graciliano Ramos foram sendo desvendadas ao longo de sua produção pelos anos seguintes. As resenhas surgidas imediatamente à publicação de Caetés, no final de 1933, já mostravam o grande autor, a quem as casualidades da história ofereceram um ninho primoroso de acolhimento em Maceió. Jorge Amado destacou seu estilo geométrico. Aurélio Buarque de Holanda disse que o amigo escrevia com a economia de quem passa telegrama.

            Graciliano foi convidado no início de 1933 para ser Diretor da Instrução Pública de Alagoas. Assim, enquanto começava a escrever Angústia, ao mesmo tempo realizava uma pequena revolução educacional no estado – o que certamente influiu para sua prisão em 1936, quando foi levado para os presídios do Rio de Janeiro, durante a grande caçada que o fascismo de Getúlio Vargas lançou, enchendo as prisões do país com todo tipo de cabeça pensante e pensamento crítico, após o chabu da tentativa revolucionária comunista de 1935. Mas a exposição clara e cruel do que é a propriedade privada em S. Bernardo, publicado no final de 1934, também deve ter entrado nas considerações doentias dos algozes ao elaborar sua listagem dos que mereciam cadeia. S. Bernardo, portanto, é o achado, o começo e o ponto de partida de sua grande obra, afinal equacionada por um marxismo refinado e independente, verdadeiramente materialista e dialético – uma saída que não lhe permitiu o mundo estagnado de Caetés.

            No Rio de Janeiro, em meio aos dez meses e dez dias de prisão, foi publicado Angústia, em agosto de 1936. Após sair da cadeia, enquanto Heloísa voltava para Maceió para organizar a mudança, Graciliano foi para uma pensão, onde ficou escrevendo Vidas secas paralelamente à produção de artigos para ganhar uns cobres. Com a chegada da esposa e das duas filhas menores, ficaram todos no quartinho, onde elas ouviam a leitura do pai e acompanhavam a sina dos retirantes. Escrevia os capítulos e, para a sobrevivência, publicava-os nos jornais como contos, de tal modo que seu colega de pensão, Rubem Braga, chamou Vidas secas, afinal publicado em 1938, de “romance desmontável”, sem dar-se conta de sua organicidade – pois além dos capítulos inteiriços, para vendê-los isolados como contos, Graciliano os escreveu cronologicamente fora da ordem final, enquanto mentalmente organizava sua futura distribuição, indesmontável, ainda que possamos ler os capítulos com sentidos coerentes cada um por si.

            Com isso ele fechou sua ficção principal. Seu modernismo brutalista assimila na economia gráfica do texto o chão rachado da seca, que se retrai em sulcos negros, para falar claro contra a “bruma obsoleta e antidemocrática, a dissipar, fraudulenta no fundo” – como nos termos de Roberto Schwarz ao tratar da poesia de Oswald de Andrade. Disse Álvaro Lins que o estilo de Graciliano tem algo de hierático. É que, em parelha com o feitio gráfico acima mencionado, soma-se o aspecto do deserto bíblico em sua textualidade, que tanto impressionou o menino ao ouvir histórias do Velho Testamento, associando-as ao sertão pernambucano onde viveu na tenra infância de Buíque.  Mas no seu deserto sem Deus, a vontade-de-ordem como vontade-de-justiça equaciona-se nessa cabeça prodigiosa por meio de uma imaginação limitada ao que foi vivido com os pés no chão, sob a geométrica racionalidade de seu construtivismo. Trata-se de um estilo de retábulos, de quadros que parecem irmanados ao corte seco e áspero das xilogravuras nordestinas dos cordéis – o que explica a via-crúcis do “romance desmontável” de Vidas secas, o “caos organizado”, que Antonio Candido viu em Angústia, e a confissão de Leon Hirzsman de que encontrou, ao filmar S. Bernardo, o roteiro pronto no livro – e assim, ao se estender a caracterização do retábulo para o estilo de fotograma, confirma-se a grande vocação cinematográfica da obra de Graciliano Ramos, que fez Alfredo Bosi ver em S. Bernardo uma “série de tomadas cortantes”.

            Se o essencial de sua obra, que até aqui percorria o trajeto da ficção, já trazia marcas inescapáveis da biografia do autor, a seguir ele passa, como diz Antonio Candido, da necessidade de inventar à necessidade de depor. Sua literatura se desdobrará de maneira imediata no memorialismo, formando um todo fluido em que ficção e confissão se confundem nas ranhuras da verdade realista. Antes de ser preso, enquanto escrevia Angústia com tantos aspectos de sua vida, veio-lhe a ideia de tratar diretamente dela e vários títulos de capítulos que seriam do futuro livro, Infância, foram anotados. Depois, no Rio, ao sair da prisão, passou a escrevê-los de 1938 até 1945, quando o livro foi publicado. Como já comentavam na época as resenhas, não se trata de um memorialismo pitoresco, mas de um estudo de caso sob demorada prospecção – isto é, o que temos na verdade é a gênese de sua obra.

            Indo à outra ponta da biografia, a partir de 1946, Graciliano finalmente conseguiu escrever rotineiramente – até o final da vida – Memórias do cárcere, a sua projetada denúncia da prisão em 1936 – não só testemunho, mas outra prospecção, como em Infância, agora ampliada por tantas interrogações subjacentes que fazem estremecer o que se constata com solidez. Sendo um dos documentos mais importantes da história do Brasil, foi escrito com independência humanista e sem atrelamentos políticos por este militante do Partido Comunista a partir de 1945.

            Mesmo o conjunto completo de sua produção desde os onze anos de idade, apesar de todas as vicissitudes que poderiam tornar a obra dispersiva, mantém uma organicidade que vai da poesia à crônica, da crítica literária ao manifesto, do conto à tentativa (abandonada, é certo) de teatro, da literatura infantil ao folclore, e se encerra com a esperança ressabiada de Viagem, a narrativa de sua visita à URSS e ao mundo comunista dos anos 50. Mas, desse amplo conjunto, ressalta a obra principal, a essência do evento “Graciliano Ramos”: S. Bernardo, Angústia, Vidas secas, Infância e Memórias do cárcere.

            Vê-se então o mapeamento do que se eleva substancialmente acima do todo. Sem planejamentos esquemáticos, sem intenções proselitistas, avesso a forçar teorizações de linha política, a conceptualização marxista de Graciliano deu uma das respostas mais importantes às aporias da arte engajada. As cinco obras revelam sua orgacidade construtivista alcançada pelo autor, mais por consequência lógica que por uma premeditação programática.

            Essa mente sistemática percorreu na ficção, com sua genialidade distraída, o trajeto das três classes, de modo descendente: iniciou revelando a “construção do burguês”, como Carlos Nelson Coutinho qualificou S. Bernardo, que Graciliano adaptou ao enfoque rural frente a seu contexto não industrializado; no mundo urbano de Maceió, abordou a falta de saída do “parafuso”, como o próprio autor qualifica a condição de pequeno-burguês de Luís da Silva – ou a classe “anexa”, por ele assim definida em carta ao filho; encerra, então, o ciclo ficcional, com a proletarização a caminho, em Vidas secas, apontando no final da narrativa o caminho para o Sul industrializado como um inchaço-bomba, profecia comprovada nas décadas seguintes pelos movimentos operários de um povo que tinha amadurecido seu nível de consciência. Restava, assim, as balizas da autoria: a gênese da obra, em Infância, e sua consequência na história, com Memórias do cárcere.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cronologia de Graciliano Ramos[1]

 

1892-1895 – Quebrangulo

 

Graciliano Ramos de Oliveira[2] nasceu no dia 27 de outubro de 1892[[3]], em Quebrangulo (município então denominado Vitória[4]), interior de Alagoas, na região de Palmeira dos Índios e Viçosa. Foi o primogênito de Maria Amélia e de Sebastião Ramos de Oliveira, casados no ano anterior – o pai, “negociante miúdo”[5], com cerca de trinta e um anos de idade, e a mãe, a Mariquinha[6], da família Ferreira Ferro, em torno dos treze[7]. O casal viria a ter, até 1921, dezesseis filhos, quatorze se criaram.[8]

 

Os ascendentes paternos são senhores de engenho arruinados, reduzidos à precária situação do avô Tertuliano Ramos de Oliveira, natureza sensível, propensa às artes, com a qual irá o neto dizer-se identificado no futuro. Pelo lado materno, a criança descende de prósperos criadores de gado; e o patriarca Pedro Ferro conserva a propriedade e a autoridade na família.[9]

 

Antes de Graciliano completar três anos de idade, e menos de um ano após o nascimento da irmã Leonor, o pai distribuiu à praça o folheto:

 

Ao público

Resolvendo mudar-me desta vila, liquidei meu estabelecimento de fazendas. Agradeço ao comércio de Maceió a confiança com que sempre me honrou.

Aos meus amigos ofereço o meu pequeno préstimo, na fazenda Pintadinho, município de Buique, Estado de Pernambuco, para onde sigo com minha família no dia 13 deste.

Vitória, 9 de junho de 1895.

Sebastião Ramos.[10]

 

Vagos clarões entre nuvens espessas, como rasgos num tecido negro, são vistos pelo escritor de Infância como a primeira memória do menino: um vaso cheio de pitombas escondido atrás de uma porta, e, na escola que serviu de pouso para a viagem de mudança, umas crianças que berravam o bê-á-bá sob o comando de um velho de barbas longas.

 

E sons estranhos também surgiram: letras, sílabas, palavras misteriosas.[11]

 

1895-1899 - Buíque

 

Na Fazenda “Pintadinho”, a manhã da consciência se abriu para a criança. O escritor maduro escavará rigorosamente essas “impressões da infância” (título preterido de Infância).[12]

 

Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes.[13]

 

Hibernação e clarões: surgiu a percepção das diferenças de classe e de poder graças ao contraste entre o gibão enfeitado do pai e as figuras dos humildes empregados: o casal Sinha Leopoldina e Amaro Vaqueiro, de gibão remendado, e o capanga José Baía, que o acalentava com histórias de onças, onomatopeias, gargalhadas, galopes com a criança sobre os joelhos, rodopios e uma cantiga. Os personagens e a cantiga ressurgirão em sua obra: em Angústia com o próprio nome, José Baía, ou fictício em S. Bernardo, Casimiro Lopes, que acalenta o filho abandonado de Madalena.

 

Eu nasci de sete meses,

Fui criado sem mamar.

Bebi leite de cem vacas

Na porteira do curral.[14]

 

Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, batecum de sapatões no tijolo gasto. Retalhos e sons dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor.[15]

 

Uma de suas irmãs naturais[16], acolhida na família, era a evidência doméstica de faltas antigas do pai. A cabeleira negra, os beiços vermelhos, os olhos provocadores de Mocinha levavam a mãe ao desespero.

 

E com certeza se amofinava, coitada, revendo-se em nós, percebendo cá fora, soltos dela, pedaços de sua carne propícia aos furúnculos. Maltratava-se maltratando-nos.[17]

 

Depois de viver o inverno sertanejo, em torno dos cinco anos de idade viu a seca devastar a propriedade do pai.

 

Espanto, e enorme, senti ao enxergar meu pai abatido na sala, o gesto lento.[18]  

 

O pai o acusou de ter dado sumiço a seu cinturão que, na verdade, estava dentro da rede de onde tinha acabado de se levantar. O menino apanhou de chicote, aterrorizado por um interrogatório aos gritos. Ao perceber seu equívoco, o pai não se desculpou.

 

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.[19]

 

Numa visita à fazenda vizinha, de uma família cujo luxo escandalizava sua gente cautelosa, o pai distanciou-se com o proprietário para tratar de negócios. Graciliano e a mãe, bisonhos, ficaram cercados de saias: cálices de licor foram servidos pela senhora da casa e suas filhas, uma delas grande, morena, vermelha, que se perdeu mais tarde com a decadência do pai perdulário. Estimulado pelo álcool, o menino sentiu precisão de carícias do outro sexo, acamaradou-se com as desconhecidas encantadoras, esfregando-se na morena. Tornou-se loquaz, perguntava e repetia, depois das explicações, a mesma pergunta sobre uma árvore que no início da visita havia instigado sua curiosidade encabulada:

 

– Minha filha, que pau é aquele?

 

A mãe, potência abafada pelas gargalhadas, procurava contê-lo.

 

Não me ocorria que ela se restabelecesse, voltasse comigo à casa triste, me fustigasse e puxasse as orelhas. Parecia-me que as moças ruidosas e a senhora encanecida iriam, no futuro, trazer-me a garrafinha, os cálices e a bandeja, escutar-me os devaneios.[20]

 

Em meio à seca, a família deixou a fazenda “Pintadinho”[21] e se instalou na vila ao lado, Buíque-PE[[22]], onde Sebastião Ramos abriu um pequeno comércio.

 

Na vila de Buíque, o menino causou grande rebuliço em casa ao acordar a família, aos gritos, assustado com a visita de quatro ou cinco almas do outro mundo. Ganhou notoriedade e tentou sem êxito reduzir os exageros da repercussão.[23]

 

Ficou-me, entretanto, um resto de pavor, que se confundiu com os receios domésticos.[24]

 

Embora tivesse apaziguado o pânico descabelado da mãe ao descartar convicto o fim do mundo com a próxima passagem de um cometa, notícia que ela havia lido em publicações salesianas[25], algum tempo depois Mariquinha lhe aplicou várias chineladas quando o menino abusado negou a existência do inferno. Experiência depois aproveitada em Vidas secas.

 

– A senhora esteve lá?

 

– Os padres estiveram lá?

 

– Não há nada disso.

 

– Não há não. É conversa.[26]

 

Com o moleque José, agregado de ascendência escrava, seu modelo de atitudes e de sotaque, que o conduzia em passeios ao sítio de Sebastião Ramos, Graciliano acompanhou, montado em seu carneiro branco e humilhado pela inocência, sem-vergonhices com flores peludas, pregadas na areia pela molecada que se juntava a eles no caminho e esperava a reação irada das mulheres que por lá passavam. Sentiu satisfação quando o moleque revelou-se falível num equívoco, achando que seu bisavô vinha ao longe. Graciliano, entretanto, apegou-se com entusiasmo a sua expressão, encontrando nela um dístico que declamou e depois cantou, mesmo com as reprimendas cortantes da mãe, irritada com a idiotice do menino.

 

Seu Ferreira de gibão

No cavalo de seu Afro.

 

Entre outras lições, aprendeu com o parceiro-pajem a participar do sofrimento alheio, quando, num ímpeto de perversidade, ficou do lado da Lei para ajudar o pai que surrava o pequeno criado. Mas o tiro saiu pela culatra e o filho também apanhou, castigado pelo enxerimento.[27]

 

Sofreu uma crise de nervos e de fé ao ver, reduzido a um tronco escuro com escorrimento verde pelas fossas nasais, o cadáver da pretinha que havia tentado salvar de sua choupana incendiada uma imagem da Virgem Maria.[28]

 

Culpas indecisas o condenavam à prisão na loja do pai, castigo útil para que vigiasse o estabelecimento. Configurou seu diminuto senso moral através de exames demorados de consciência ao tentar decifrar quais as ações prejudiciais e quais as inofensivas. Sem poder adivinhar o arbítrio das acusações, curvou-se à fatalidade, aspecto que marcou sua personalidade. Num misto de inveja e receio, observava as crianças da rua com quem era proibido de brincar. Sozinho, apegou-se a aranhas e baratas, um mundo liliputiano sem gritos e agressões.

 

Divagava imaginando o mundo coberto de homens e mulheres da altura de um polegar de criança.[29]

 

Além dos lobisomens, invisíveis e de pouco efeito, o soldado José da Luz, caboré enxerido de farda bem passada, vermelha e azul, e o Padre João Inácio, com seu terrível olho de vidro, eram instrumentos de repressão, as figuras da ordem, representantes da polícia e da religião que os adultos usavam para intimidar suas travessuras. Padre João Inácio, pobre mas pertencente à poderosa família Albuquerque, chefe de partido, autoritário e independente, injuriava a todos, principalmente os desvalidos – “arreda, povo, raça de cachorro com porco” – mas cuidava de variolosos sem medo de contágio. José da Luz, pachola e palrador ocioso às custas do Estado, entretanto, foi-lhe benéfico, desanuviou-lhe a pusilanimidade.

 

Um anarquista.[30]

 

O pai, o Tentador, impôs a escravidão ao menino oferecendo-lhe ardilosamente o aprendizado da arma terrível de gente sabida:  adivinhar os sinais pretos em um papel amarelo. Iniciou, com a violência da palmatória e dos gritos, sua alfabetização. A mãe e a irmã natural, Mocinha, tentavam protegê-lo. Quando conseguiu familiarizar-se com as letras, vieram outras com o mesmo nome mas com outros feitios: maldades maiúsculas, minúsculas, impressas, manuscritas: atordoamento, preguiça, desespero. A entrada na escola se deu a seguir pelas mãos meigas, incapazes de qualquer violência, de uma professora cheirosa: D. Maria.[31]

 

Resignei-me – e venci as malvadas. Duas porém se defenderam: as miseráveis dentais que ainda hoje me causam dissabores quando escrevo.

 

Livrara-me do aperto crismando as consoantes difíceis: o T era um boi, o D uma peruinha. Meu pai rira da inovação, mas retomara depressa a exigência e a gravidade.

 

Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. E as duas letras amansaram. Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas se reuniam, formavam sentenças graves, arrevesadas, que me atordoavam.

 

“Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”

 

– Mocinha, quem é o Terteão?

 

Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão.[32]

 

A tirada racista que Graciliano proferiu em linguagem de cozinha, surpreso ao ver limpo e bem vestido um negro velho, provocou o elogio que lhe fez na infância Sebastião Ramos, fazendo a observação do menino repercutir na loja por deturpações exageradas dos fregueses e parceiros, como se o pai expusesse o filho com o entusiasmo de um negociante ao anunciar sua mercadoria vagabunda.

 

“Estão vendo esta maravilha? Produto meu.”[33]

 

A mãe aplicou-lhe dois apelidos: de bezerro-encourado, graças a seus trajes sempre desengonçados, feitos por costureira módica, e de cabra-cega, devido a uma inflamação nos olhos que o perseguia na meninice.

 

Bezerro-encourado é um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão, que neste disfarce é amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal.

 

Essa injúria revelou muito cedo a minha condição na família: comparado ao bicho infeliz, considerei-me um pupilo enfadonho, aceito a custo.

 

Minha mãe tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia.

 

Na escuridão percebi o enorme valor das palavras.[34]

 

Tomou consciência da diferença entre fachada pública e intimidade doméstica com o comportamento do solteirão Chico Brabo, o vizinho amável na janela mas violento em casa com seu empregado João, uma criança.[35]

 

O caráter sereno de José Leonardo e a sua fazenda produtiva, um modesto oásis verde, aquoso, limpo, fora do padrão regional, deram-lhe a experiência do equilíbrio que o dispôs a sentimentos benévolos.

 

Nunca me havia ocorrido que as rapaduras fossem consequência do trabalho humano.

 

O luar feria pedrinhas alvas nos caminhos. Achei que uma delas brilhava mais que as outras – e José Leonardo obrigou-me a aceitá-la. Conservei alguns anos a preciosidade que faiscava na treva.

 

Mudei-me, fui viver na cidade. A pedra faiscante sumiu-se – e o meu quarto, rezadas as orações, apagado o candeeiro de querosene, escureceu.[36] 

 

Mocinha fugiu depois que o pai, certamente preocupado com despesas de enxoval e de festa de casamento, proibiu sua aproximação com um jovem de família importante em Buíque. Renegada pelo pai, casou-se sem festa, na missa das sete, e após alguns anos de equilíbrio e felicidade foi abandonada pelo marido.

 

Mocinha desapareceu e não deixou vestígio.[37]

 

1900-1904 – Viçosa

 

Com algum restabelecimento econômico, a família retornou para Alagoas em fins de 1899, mudando-se para Viçosa (ou “Assembleia”[38]) quando Graciliano estava com sete anos.

 

José Leonardo e Antônio Vale despediram-se – e com eles o sertão desapareceu. Xiquexiques e mandacarus foram substituídos por uma vegetação densa e muito verde; nos caminhos escuros os chocalhos calaram-se; surgiram regatos, cresceram, transformaram-se em rios e atrasaram a marcha.[39]

 

Como informa Moacir Medeiros de Sant’Ana:

 

chegaram a um engenho, onde durante meses ficaram hospedados, antes de seu pai montar casa, na Rua do Juazeiro, bem próximo da cadeia pública, e instalar loja na cidade, numa esquina do largo principal da mesma. O engenho era o “Aquidabã”, então de fogo morto – de propriedade de João Leite dos Passos – dez anos mais moço do que seu primo Sebastião Ramos – erguido nas cercanias do riacho Veados, bem próximo da vila de Anel.[40]

 

Novas palavras e objetos inexistentes no sertão deixavam desorientado o menino que agora estava cercado de tios menores que ele, de uma parentela confusa e respeitável, com mulheres ásperas e de cachimbo, homens enrugados, duas primas bonitas, que findaram tuberculosas, e uma nova irmã natural, morena, grossa, feia.

 

O pai abriu em sociedade, gora, com Manuel Costa, uma loja em Viçosa, de tecidos, miudezas, ferragens, perfumaria, em prédio vistoso de esquina, várias portas e o letreiro vermelho e negro “Ramos & Costa”, feito por Joaquim Correntão, que pintava índios empenachados e falava muito em chimpanzés e orangotangos.

 

A terra era um lamaçal cheio de ladeiras.[41]

 

Aos sete anos de idade, enjoado pelo desentendimento de Camões e pelo tom proverbial e moralizante das cartilhas de Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas[42], o menino retomou em Viçosa as regras de pontuação do terceiro livro, numa escola pública com setenta alunos. Senhores de engenho, pais de Adelaide, a prima rica de Graciliano,  haviam deixado a menina na cidade, sob a guarda da traiçoeira professora mulata Maria do Ó, que a submetia à condição de criada espezinhada da casa, apesar do fornecimento farto com que a família de Adelaide a presenteava. Tal crueldade e torpeza provocaram no menino equívocos de ódio racista, acrescido a seguir, com a mudança de escola, de repulsa à volubilidade e aos trejeitos afeminados de um professor[43] alheio ao ensino, que, durante as aulas, entre dengoso e irritadiço, conforme o resultado, dedicava-se obsessivamente a empoar-se e a alisar o cabelo com azeite e banha.

 

surgiu uma novidade que me levou a desconfiar da instrução de Alagoas: no interior de Pernambuco havia 1899 depois dos nomes da terra e do mês; escrevíamos agora 1900, e isto me embrulhou o espírito.[44]

 

Com o esforço para aguentar-se e trepar, Sebastião Ramos sofria síncopes, desacordava, alarmava os filhos chorosos, órfãos. Após as visitas duras e cerimoniosas de parentes da lavoura, aos quais procurava nivelar-se, abatia-se, deitava-se, em tremuras, anunciava aos gritos que ia morrer.

 

Vinha o Dr. Mota Lima, dava-lhe um vomitório de substância, encorajava-o pregando-lhe os óculos grossos de míope. O doente se envergonhava daquele barulho – e horas depois lisonjeava os proprietários, colaborava na política.[45]

 

Durante o enterro de uma criança, Graciliano ficou com as mãos úmidas e a vista turva ao sentir-se espiado no ossuário por uma caveira indiferente e com dentes arreganhados que pareciam zombar dele, em meio a arcarias de costelas e a rosários de vértebras. Deu-se conta do próprio esqueleto, que tateou ao anoitecer, demoradamente, impressionado.

 

Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia jeito de eliminá-la.[46]

 

Tornou-se coroinha, de moderado a fervoroso, ambicionou o seminário, mas trapalhão com os trâmites litúrgicos, logo desistiu.

 

Um dia, no quintal, descobri uma de minhas irmãs vestida na batina, mascarada, fazendo carnaval. Indignei-me, depois encolhi os ombros, insensível à profanação.[47]

 

Passou a frequentar com familiaridade Seu Nuno, o devoto que o encaminhara para ajudante de missa. As moças da casa, risonhas e tranquilas, moviam-se como peças de máquina vagarosa. Com elas aprendeu a ironia, misto de malícia e bondade, quando elogiaram com insistência brejeira o seu paletó cor de macaco.

 

Percebi afinal que elas zombavam, e não me susceptibilizei. Longe disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das grosserias a que me habituara.

 

Ainda hoje se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco.[48]

 

As passagens bíblicas contadas pelo jovem Padre Pimentel, da família de Seu Nuno, em cujos cenários o menino via a imagem do sertão pernambucano[49], as histórias de Trancoso contadas por D. Agnelina, professora pouco alfabetizada mas talentosa para, durante as demoradas visitas noturnas a sua casa, despertar-lhe afeição a mentiras impressas, e o estímulo do pai à leitura, impaciente após três noites, interrompendo a estória de uma família perdida na floresta – acenderam-lhe o fascínio pela literatura. Com o exemplo dos astrônomos, capazes de ler céu e estrelas, a prima Emília o encorajou a enfrentar sua agonia por desvendar as letras para decifrar até o fim a estória que o pai lhe sonegara.[50]

 

Padre Pimentel era uma santa criatura e insinuou-me alguns conhecimentos, os primeiros que aceitei com prazer. Narrou-me a viagem de Abraão, a vida nas tendas, a chegada à Palestina. Usava linguagem simples, comparações que atualizavam os acontecimentos. Não hesitei, ouvindo a mudança de homens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldeia no interior de Pernambuco.

 

Aos nove anos eu era quase analfabeto.[51]

 

Nasceu sua afeição pelo estudo dos dicionários além da mera consulta, aprendeu história e geografia nas figuras e bandeiras dos exemplares encalhados da loja do pai, decifrou jornais, folhinhas, almanaques.[52]

 

Sempre trêmulo e balbuciante quando acuado por zombarias, guinchos, insultos e desprezo de dois empregados da loja do pai e de um frequentador boçal, sentiu-se por fim silenciosamente seguro quando tripudiaram sobre sua pronúncia de “Samuel Smiles”, que o professor Rijo lhe havia indicado com firmeza.

 

Imbecis. Tinham decidido por maioria que Samuel era Símiles.[53]

 

A prima Emília[54] acusou horrorizada a procedência maligna, protestante, do folheto O menino da mata e o seu cão Piloto, que ele encontrara como uma dádiva na loja do pai. Afligido pela censura, não conseguiu terminar de ler o livrinho.[55]

 

Era obrigado a suportar o frequentador da loja do pai, Fernando, capanga aparentado do coronelismo local. Saco de pancada do chefe poderoso, o rapaz espoliava os pobres e desgraçava suas filhas. Graciliano, ao ler sobre Nero no dicionário, duvidou que o facínora romano pudesse ser mais malvado que ele. Surpreendeu-se quando Fernando, dobrando a marteladas pregos de uma madeira de embalagem largada no chão da loja, repreendeu o desleixo dos empregados que poderia causar acidente em crianças descalças: uma bondade inesperada, que abalou sua visão do mal.[56]

 

Conseguiu, afinal, empréstimos de livros com o tabelião Jerônimo Barreto, num rompante inexplicável de sua timidez para a ousadia do pedido. Aos dez anos[57], leu seu primeiro romance, na “prosa fofa” de O guarani. A seguir, seu benfeitor o encaminhou para os folhetins, que o menino lia, durante as aulas no Internato Alagoano do professor Jovino Xavier, escondidos em meio ao atlas, onde ele procurava os trajetos dos enredos, povoando os mapas com fuzuês de Rocambole, estradas e caleças. Passou a ser visto como um indivíduo esquisito.

 

Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem.[58]

 

Sebastião Ramos, circunstancialmente juiz substituto, aproveitou a autoridade momentânea e mandou prender o mendigo Venta-Romba, que havia assustado a família ao entrar sem licença em sua casa, para peditórios. Ao ver aquela ruína, banhada em lágrimas, levada pelo soldado, tropeçando ladeira abaixo, o menino Graciliano sentiu, lúgubre, um aperto no coração e um vago remorso.

 

Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e grosseiro – e julgo que a prisão de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter contribuído também para a desconfiança que a autoridade me inspira.[59]

 

Conheceu a figura exótica do novo agente do correio, Mário Venâncio, também seu professor de geografia, que sugeriu nas aulas a fundação de um jornalzinho. Graciliano e o primo Cícero Teixeira de Vasconcelos (futuro Monsenhor e senador constituinte[60]) apegaram-se encarniçadamente ao fogo de palha e tornaram-se diretores e redatores de O Dilúculo, publicação quinzenal[61] de duzentos exemplares impressos em Maceió. O Dilúculo teve dezessete edições, de 24-06-1904 a 16-04-1905. Durante esses quase dez meses de existência, foi inicialmente apresentado como “Órgão do Internato Alagoano” e passou a propriedade e redação exclusivas de Graciliano em janeiro de 1905[[62]]. Em editorial de inauguração assim se explicava o título[63]:

 

Dilúculo por quê?

 

Também a inteligência do homem, se, na infância, se manifesta de um modo vago, indeciso, mais tarde, em pleno zênite, poderá ofuscar com o esplendor do talento.

Não; não é esta a nossa comparação. Não nos levamos pela vaidade de estabelecermos uma comparação absurda.

 

O título do jornal dá a entender, apenas, que é ele redigido pela infância, – o dilúculo.[64]

 

Aos onze anos, publicou suas primeiras produções literárias, refeitas pelo mentor[65], como o conto “Pequeno pedinte” no primeiro número, de 24-06-1904, assinando G. Ramos, ou “Paisagem”, em 11-08-1904, assinando Ramos Oliveira.[66]

 

Pequeno pedinte

 

Tinha oito anos.

A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmolas aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.

Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração.

Pobre pequeno mendigo.

Quantas noites passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.

Quantas vergonhas não passara quando ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo. Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis.

É domingo.

O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de Deus.

Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida.

Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.

Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida.

 

G. Ramos[67]

 

Paisagem

(Ao professor Jovino)

 

Na eminência, muito branca, com o seu vasto alpendre povoado pelo rumor das colmeias, surge a campesina habitação, dominando a várzea. O sol, flamejante, mergulha por trás das altas serranias, refletindo seus derradeiros raios nas quietas águas do açude, onde os palmípedes deslizam entre os nenúfares. Não longe, despida de reboco, com a sua elevada chaminé, de onde se desprende um vapor negro, destaca-se a casa do engenho, do verde pérola da colina. As senzalas distendem-se mais à distância. Os rebanhos, guiados por um rapazola trêfego, voltam ao aprisco.

E o gado manso no serviço dos campos, rumina tranquilamente, sobre os resíduos da cana. Pela ladeirinha que conduz ao mais alto da colina, desce um velho africano com grande feixe de lenha à cabeça. Mísero! Tão velhinho já, e ainda condenado àquele penoso trabalho!

Súbito, o silvo do vapor que faz rolar as moendas, corta o silêncio do campo, que já vai adormecendo no crepúsculo.

A tarde brumosa e melancólica extingue-se lentamente e a noite desce cheia de estrelas. Branca, como a prece da infância, a lua sobe para o azul translúcido.

 

Ramos Oliveira[68]

 

Frequentava as tertúlias e a redação de O Dilúculo na residência-agência-de-correio de Mário Venâncio, no morro do Pão-sem-Miolo, convertida em “asilo de doidos”. O mestre viu em seus escritos sinais de Aluísio Azevedo, de Coelho Neto e profetizou o futuro escritor, orientando-o, para seu desgosto, à insipidez e obscuridade da grande literatura.

 

Não me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos, viagens, questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos.

 

Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os meus exercícios eram composições tolas, não prestavam. Sem dúvida, afirmava o adivinho. Mas eu faria romances.

 

E, desatento, andava na rua aos encontrões, meio cego, meio surdo. Nunca descreveria um candeeiro como o de metal amarelo que iluminava com azeite e difíceis pavios, duas páginas das Cenas da vida amazônica. Os candeeiros me passavam despercebidos. E seriam necessários?[69]

 

Em meio a escapadas aos folhetins de Ponson du Terrail, Pérez Escrich, Paul de Kock, o menino Graciliano lia Julio Verne, Cervantes, Swift, Defoe, Victor Hugo, Zola, Aluísio Azevedo, Balzac[70]. Com moedas roubadas da loja do pai, encomendava livros pelo correio, através dos catálogos da Garnier e da Francisco Alves.

 

Esses delitos não me causavam remorso. Cheguei a convencer-me de que meu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitamente.[71]

 

Passou a frequentar a Escola Dramática Pedro Silva[72], a Sociedade Amor e Caridade, a Sociedade Recreativa e Instrutora Viçosense: “uma vasta sala com duas estantes que constituíam a biblioteca, a mesa comprida no centro cheia de jornais e revistas do país e do estrangeiro, que recebíamos gratuitamente da França, Inglaterra, Itália, Portugal, Argentina, Estados Unidos” – como lembrou em 1953 o amigo Pinto da Mota Lima[73]. Em Infância, Graciliano confessou a lembrança envergonhada do precoce orador:

 

O discurso que fiz na Amor e Caridade foi um desastre.[74]

 

Um hóspede intruso, encarregado de fundar loja maçônica na cidade, entre manifestações de malandragem ponderosa, depreciou o conto “Pequeno pedinte”. Para alívio vingativo do menino, o líder maçom fez o pai desinteressar-se pelo Supremo Arquiteto do Universo depois de dar-lhe um golpe com empréstimo de dinheiro.[75]

 

Apreendeu confusamente o interdito homossexual com o colega que, sempre acuado como por um processo secreto, levava cotidianamente surras violentas, aplicadas na escola pelo diretor, e, em casa, pelo pai. Tinha cheiro de formiga e mofo, era desprezado por todos e assediado pelos alunos mais velhos com bilhetes, acenos, remoques. Com o tempo, tornou-se um criminoso cruel e protegido, bacharelou-se ameaçando examinadores, fundou um jornal, vingou-se do velho diretor empobrecido dando-lhe um emprego mesquinho, teve mulheres e foi assassinado.[76]

 

Brotou a sexualidade inflamada que desorientou o precoce. Apesar da afeição pelas heroínas loiras dos folhetins, apaixonou-se pela colega sabida em sintaxe, a moreninha Laura. Substituiu tamancos e camisas de algodão sem colarinho por gravata vermelha, terno e chapéu. Recostado à janela da Escola Dramática, alheio aos ensaios de seu grupo, permanecia secretamente ansioso até ao anoitecer para vê-la ao longe em sua casa. Para suprimir as indecências, embrulhou e escondeu O cortiço. Atenazado pela figuração da amada, em fantasias oscilantes entre a espiritualidade e o sexo, foi  aconselhado à segunda via pelo amigo empregado da loja, que o alertou para o risco de loucura e conduziu o menino de onze anos de idade à prostituta Otília da Conceição.

 

Entrei em casa nauseado, engolindo soluços.

Correram semanas. Adoeci. A artrite amarrou-me à espreguiçadeira, o meu desgraçado corpo se cobriu de manchas. Capengando, abri a estante, exumei O cortiço, desempacavirei-o, restituí-o à convivência dos outros romances. Não me inspirava curiosidade. E já não era objeto de aversão.[77]

 

Presenteado pelos avós maternos, tornou-se proprietário, como conta Clara Ramos:

 

Aos doze anos, ele recebera dos avós maternos o pedaço de terra que lhe dá os rendimentos de sua própria criação de gado.[78]

 

1905 – Maceió

 

Aos doze anos, Graciliano mudou-se para Maceió como aluno do Colégio Quinze de Março, internato do Prof. Agnelo Marques Barbosa.

 

No colégio de Maceió, onde estive pouco tempo, fui um aluno medíocre.[79]

 

Tornou-se autodidata, estudou línguas, leu traduções dos russos Gogol, Tchecov, Andreiev, Dostoiévski. Antes de fixar sua simpatia, acima de tudo, por Tolstói[80], impressionou-se  inicialmente com Gorki, Eça de Queiroz[81] e Casa de Pensão.

 

1906-1910 – Viçosa

 

Aos treze anos, de volta a Viçosa[82], lançou o quinzenário Echo Viçosense, a 1º de fevereiro de 1906, referido no corpo de redatores como “Oliveira Ramos”[83], ao lado de Rodrigues Maia, Constantino Falcão, Saturnino Accioly, Julio Accioly e Mário Venâncio[84]. Após o suicídio de Mário Venâncio, o jornal encerrou suas atividades no segundo número, publicado em edição extraordinária para homenageá-lo.

 

Esse amável profeta bebeu ácido fênico. Levantei-me da espreguiçadeira, onde me seguravam as novidades e os sofrimentos da artrite e de uma novela russa, fui encontrar o infeliz amigo estirado no sofá, junto a uma mesa coberta de papéis, brochuras, pedaços de lacre, almofadas e carimbos.[85]

 

Graciliano publicou no primeiro número do Echo Viçosense:

 

Dolente

I

– Perdi amor e esperança; acabaram-se as minhas ilusões! E o rapazito trêmulo enxugava, convulsivamente, os olhos chorosos e vermelhos à manga curta da jaqueta parda.

– Perdi o meu amor! Morreu aquela a quem tanto amava, sim, morreu em meu coração!... Novas lágrimas orvalharam-lhe os olhos que se fixavam em um ponto do horizonte onde as trevas da noite se amontoavam. O peito do mísero arfava com força; um tremor convulso se apoderava dele, sua cabeça ardia, tinha horror de si próprio!

Na escura cabana o silêncio da noite era apenas interrompido pelo arfar de seu peito.

Na escuridão do céu algumas estrelas reluziam, apenas. Em sua grandeza a floresta inteira afigurava-se-lhe uma lúgubre procissão de espectros. Formas brancas apareciam e desapareciam como fantasmas. Às vezes pios lúgubres quebravam o silêncio: eram as corujas empoleiradas nos esguios ramos dos salgueiros.

O vento sibilava através da folhagem.

 

II

Amanhecia.

No azul, muito branca e muito pura desmaiava a estrela matutina. Uma forte rajada havia varrido as nuvens tenebrosas.

Um pastorzinho conduzindo o seu rebanho passara cantando uma trova campestre e sorria descobrindo o mísero que, sentado à soleira da cabana, tinha ainda os olhos úmidos do pranto vertido naquela noite de desespero. No entanto, ele olhava, distraidamente, o verde mar das florestas. Ah! Mas bem depressa um frêmito percorrera-lhe os membros. Todo ele tremia.

A aragem fresca da manhã trouxera-lhe aos ouvidos perfeitas gargalhadas argentinas, e ela, ela, a cruel, passara em um grupo de crianças, passara altaneira sem ao menos lançar-lhe um olhar de compaixão! Ele, no entanto, com um olhar súplice, implorava a piedade daquela a quem amava tanto!

– Morreu, morreu para o meu coração que já não tem vida, morreu a minha última esperança! soluçava sentido.

 

Viçosa, 16 de janeiro de 1906                                Feliciano[86]

 

Aos quatorze anos publicou sob pseudônimo[87] dois sonetos em O Malho. Graciliano dedicou-se à poesia aproximadamente por oito anos, de 1907, com 14 anos de idade, até 1914[[88]], quando, no Rio de Janeiro, aos 22 anos,  encerrou sua carreira de poeta.   

 

Segue a lista[89] em ordem cronológica de todos os poemas e pseudônimos encontrados nos periódicos[90], com indicação das datas de publicação antecedidas pelas siglas: M – O Malho (com o número da edição), JA – Jornal de Alagoas, CM – Correio de Maceió, AG – Argos, e, para o crédito dos pesquisadores que os localizaram: [FAC] – Fernando Alves Cristóvão e [MMS] – Moacir Medeiros de Sant’Ana[91]:

 

-Incompreensível-Feliciano Olivença-M-250,29-06-1907[MMS] 

 

-Confissão-Feliciano de Olivença-M-251,06-07-1907[MMS] 

 

-Céptico-Almeida Cunha-JA,10-02-1909[MMS]

 

-Sonho de um doudo - S. de Almeida Cunha - JA,13-02/ M-340, 20-03-1909 [MMS]

 

-Noite de inverno-Almeida Cunha-JA,18-02-1909[sem transcrição][MMS]

 

-Esperança morta-Almeida Cunha-JA,26-02-1909[sem transcrição][MMS]

 

-Inverno-Almeida Cunha-JA,04-03-1909[sem transcrição][MMS] 

 

-A gôndola - Soares de Almeida Cunha - JA, 10-03-1909 [sem transcrição] [MMS]

 

-O mar-S. de Almeida Cunha-JA,24-03-1909[MMS]

 

-Pela estrada do amor-Almeida Cunha-M-342,03-04-1909[FACeMMS]

 .

-A tormenta-S. de Almeida Cunha-JA,23-04/M-356,10-07-1909[MMS]

 

-Por estas noites-S. de Almeida Cunha-M-360,07-08-1909[MMS]

.

-Triolets-S. de Almeida Cunha-M-380,25-12-1909[FAC]

 

-Geyser-S. de Almeida Cunha-JA,12-01-1910[MMS]

 

-Olhando um quadro-S. de Almeida Cunha-JA,16-01-1910[MMS]

  

-Partenza tua - S. de Almeida Cunha - JA,12-03/ M-417, 10-09-1910 [FACeMMS]

 

-Devaneio-S. de Almeida Cunha-M-414,20-08-1910[FACeMMS]

.

-Na penumbra-S. de Almeida Cunha-M-420,01-10-1910[FACeMMS]

 

-Argos-Soeiro Lobato-AGn.2,out 1910/M-575,20-09-1913[FACeMMS]

 

-A coruja-Soeiro Lobato-AGn.5,jan 1911/M-456,10-06-1911[FACeMMS]

 

-Velhas páginas-Soeiro Lobato-M-434,07-01-1911[FACeMMS]

.

-Um soneto-S. de Almeida Cunha-M-450,29-04-1911[FACeMMS]

.

-Never Mind!!-Soeiro Lobato-M-459,01-07-1911[FACeMMS]

 

-Desejo infrene-Soeiro Lobato-M-463,29-07-1911[FACeMMS]

 

-Desterrado-Soeiro Lobato-M-466,19-08-1911[FACeMMS]

 

-Batalha-Soeiro Lobato-CM,21-09/M-475,21-10-1911[FACeMMS]

 

-A caminho-Soeiro Lobato-CM,22-09-1911[MMS]

 

-A aranha-Soeiro Lobato-CM,01-10/M-482,09-12-1911[FACeMMS]

 

-Último sonho de Cleópatra-Soeiro Lobato-CM,03-10-1911[MMS]

 

-O piolho-Soeiro Lobato-CM,06-10-1911[MMS]

 

-Cobra mansa-Soeiro Lobato-M-489,27-01-1912[FACeMMS]

 

-Balada-Soeiro Lobato-M-492,17-02-1912[MMS]

 

-Balada-[outro poema]Soeiro Lobato-M-495,09-03-1912[MMS]

 

-Na Igreja-Soeiro Lobato-M-520,31-08-1912[FACeMMS]

 

-A cavalo-Soeiro Lobato-M-565,12-07-1913[FACeMMS]

 

-Ritorno-Soeiro Lobato-M-569,09-08-1913[FACeMMS]

 

-A velha cruz-Soeiro Lobato-M-571,23-08-1913[FAC]

 

-Cemitério campestre-Soeiro Lobato-M-572,30-08-1913[FACeMMS]

 

-O velho tronco-Soeiro Lobato-M-640,19-12-1914[FAC]

 

O menino que aos nove anos era quase analfabeto revelou, desde a estreia, riqueza e propriedade de léxico, forte domínio tanto de articulação textual como de aproveitamento imagético e muita habilidade para a versificação:

 

Incompreensível[92]

 

                                       À Alda.

 

Ouve, querida, não te compreendo:

Outrora, mesmo como um passarinho

Alegre e saltitante sobre o ninho

Vivias rindo e do amor descrendo.

 

Então sobre teu rosto eu ia lendo

Que a tua alma tão pura como o arminho

Não trilhava de amor esse caminho

Que eu trilhando tão triste ia vivendo.

 

Tudo mudou, teu rosto agora é triste,

A palidez de cera cobre-o todo,

E de alegre em teus olhos nada existe;

 

Hoje, se te pergunto, não respondes

Por que andas tão triste deste modo...

Baixas os grandes olhos e os escondes.

 

Maceió.                   Feliciano Olivença   

 

(O Malho, 22-06-1907, ed. 249, t. 31)

 

Publicou o segundo soneto em O Malho, no mês seguinte, com o pseudônimo agora preposicionado: 

 

Confissão[93]

 

                        (À senhorita Aurea Accioly)

 

Não quero merecer um sorriso de amor

Daquela que atormenta e que fere meu peito;

Não quero mitigar ao menos minha dor

De lágrimas regando um coração desfeito.

 

Tragarei sem tremer a taça do licor

Amargo que o destino a mim sempre tem feito

Beber, mas sem mostrar o profundo terror

Que o coração me empolga e o lacera sem jeito.

 

Lamentarei, sozinho, a forte dor tão funda

Que o peito me devora, esta dor lancinante,

Que mata, lentamente, e que afinal é oriunda

 

Dos agrores do amor, e da sinistra sorte,

Que me persegue sempre, embora, agonizante,

Eu só possa esperar a placidez da morte...

 

Maceió                      Feliciano de Olivença

 

(O Malho, 06-07-1907, ed. 251, t. 14)

 

Nestes últimos anos de residência em Viçosa, Graciliano aprofundou a amizade de afinidades intelectuais com os irmãos Rodolfo e, principalmente, Joaquim, entre outros filhos do vizinho farmacêutico Dr. Mota Lima[94]. Não há registro de publicação de poemas durante o ano de 1908. Em 1909 adota o pseudônimo “Almeida Cunha” e variações como “S. de Almeida Cunha” e “Soares de Almeida Cunha”.[95]

 

Céptico[96]

 

                                                             A Vasco Tavares[97]                  

 

Quanto mais para o céu ergo o olhar compungido,

De tristeza repleto e de esperança vazio,

Mais encontro impiedoso, agitado e sombrio

Sempre o céu que me abate e me torna descrido.

 

É em vão que a crença busco, embalde fantasio

Meu passado sem névoa, meu passado perdido...

Só sinto o coração pulsando dolorido[98]  

Ao peso glacial de um cepticismo frio.

 

Tenho a cabeça em brasa e o pensamento enfermo.

A alma se me compunge e tudo é triste e ermo

Nos arcanos sem fim de um peito esquelético.

 

Pesada treva envolve o meu olhar ardente,

E mais fico agitado e mais fico descrente

Quanto mais para o céu ergo os olhos de céptico.

 

                                         Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 10-02-1909)

 

A partir de 1909, o poeta adolescente passou a enviar para O Malho também alguns dos poemas que havia publicado nos periódicos de Alagoas[99]:

 

Sonho de um doudo

 

                                   Às minhas visões

 

Como num sonho oriental submerso,

Às vezes fico a meditar, cismando,

Longe da terra o pensamento voando,

O olhar exangue de ilusões asperso.

 

Vejo em revoada, pálido e disperso,

De belas formas feminis um bando

Que, vaporoso, foge se evolando

Em brancas nuvens diáfanas imerso.

 

Bocas vermelhas, palpitantes e úmidas,

Pomas ebúrneas, rígidas e túmidas

Vejo através do pensamento infrene...

 

E quando acordo, pálido e tristonho,

Por essas formas virginais de sonho

Sinto um desejo lúbrico e perene...

 

Viçosa, Alagoas     S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 13-02-1909;  O Malho, 20-03-1909, ed. 340, t. 42)

 

Publicou mais quatro poemas no Jornal de Alagoas (sem acesso)[100]:

 

Noite de inverno, de  Almeida Cunha, Viçosa - 12-02-1909, em  18-02-1909

 

Esperança morta, de  Almeida Cunha, Viçosa - 15-02-1909, em  26-02-1909

 

Inverno, a Manoel Teixeira de Vasconcelos, de Almeida Cunha, 04-03-1909 

 

A gôndola, de  Soares de Almeida Cunha, em  10-03-1909

 

O Jornal de Alagoas noticiou, em 18-03-1909, a visita à redação do “inteligente moço Graciliano Ramos de Oliveira, nosso apreciado colaborador”, como registra Moacir Medeiros de Sant’Ana.[101]

 

Parte da obra, entretanto, o poeta federal de O Malho limitou à projeção estadual, como neste poema publicado, aos dezesseis anos, no Jornal de Alagoas:

 

O Mar[102]

 

No profundo rugir doloroso, tristonho

Que vives a soltar nas grandes noites ermas,

Interpreto o sofrer prolongado, medonho

Dessas ondas enfermas.

 

Não sei que dor te vence, ó soluçante e cavo

Neurastênico mar convulsivo e impetuoso,

Quando quebras na praia, enlouquecido e bravo,

Teu dorso espumoroso.

 

Em teu longo prantear, que a tristeza derrama

Em minh’alma, eu traduzo a tortura de um céptico

Que se estorce, desvaira e, compungido, brama

Com fúrias de epiléptico.

 

Qual um doido a bramir, continuamente em febre,

Vives como expiando um torvo e horrendo crime...

Quem há que esse grilhão da mágoa horrível quebre

Que te doma e te oprime?

 

De teus gritos de dor, lancinantes e fundos,

Nada posso entender, atro oceano queixoso...

Nem te posso sondar os arcanos profundos,

Velho mar misterioso.

 

Maceió, 17 de Março de 1909     S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 24-03-1909)

 

O cosmopolitismo da revista carioca O Malho, com linha editorial de sátira política[103], atualizava e alimentava o jovem provinciano. A partir dos dezesseis anos, além da participação local em Jornal de Alagoas, Correio de Maceió e Argos, Graciliano intensificou o envio de poemas para esse importante periódico de circulação nacional. A Caixa do Malho, seção da correspondência conduzida pelo burlesco Dr. Cabuhy Pitanga[104], entre várias respostas desaforadas, apresentou respeitosamente, em uma de suas manifestações a sério, a listagem de poemas aceitos para publicação, incluindo o Pela estrada do amor, de Almeida Cunha.[105]

 

Pela estrada do amor 

 

Venho trilhando pela estrada incerta

Cheia de espinhos e de abrolhos cheia

Onde te vi seguir risonha e alheia

À agra saudade que meu peito aperta.

 

Para beijar-te a minha boca anseia

Em convulsões, doridamente aberta,

E o meu olhar ensanguentado, alerta

A estrada sonda, ressequida e feia.

 

Vejo-te ao longe, o vulto iluminado

Pela cáustica luz de um sol ardente...

E exausto, doido, ansioso e desvairado,

 

Corro, mas tombo dolorosamente,

Os pés sangrando e fito o olhar magoado

Num céu de bronze ensanguentado e quente.

 

Viçosa, Alagoas.       Almeida Cunha

 

(O Malho, 03-04-1909, ed. 342, t. 40)

 

Assim, publicou periodicamente poemas no Jornal de Alagoas e em O Malho, como também, com menos intensidade, no Correio de Maceió e em Argos.

 

A tormenta

 

Um diabólico alvor de relâmpagos brilha

Sinistramente no ar umedecido e baço.

Tudo negror. E o vento entoando em tonadilha

Queixas e maldições, arqueja de cansaço.

 

Ribomba a quando e quando, em lúgubre fracasso

Um trovão demorado, e a tétrica mantilha

Que se ergue apavorante e densa no ar, de espaço

A espaço um raio fende e, ensanguentado, trilha.

 

No profundo negror dos encharcados ermos

Julgo ouvir, no rolar merencório das águas,

Lamentações de dor e gemidos de enfermos...

 

Pavor em tudo e em tudo um tiritar de morte,

Coaxam sentidas rãs. E um soluço de mágoas

Voa no atro rugir gargalhante do norte.

 

(Viçosa, Alagoas)       S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 23-04-1909; O Malho, 10-07-1909, FCRB, nº 356, t. 28)[106]

                   

           

Por estas noites...

 

Não sei que febre de pecar me invade

Por estas noites tácitas e quentes,

– Noites cheias da tíbia claridade

Dos astros – noites tristes e silentes.

 

Nestas horas – que horror! – embora nade

Um luar de prata pelo espaço, ardentes

Os lábios sinto. E que cruel saudade

Aos olhos traz-me lágrimas ferventes!

 

Tremo excitado, em lúbricos anseios,

Lembrando ebúrneas formas femininas

De rijos colos e marmóreos seios...

 

E ao perpassar das grandes noites, teimam

Me enebriando estas visões divinas

Que a minha mente enfebrecida queimam.

 

(Viçosa, Alagoas)        S. de Almeida Cunha

                                                 

(O Malho, 07-08-1909, FCRB, nº 360, t. 36)[107]

 

 

Triolets[108]

 

Segue a viagem, minha amada,

Que é necessário que tu partas

Nada de dor, de pranto, nada...

Segue a viagem, minha amada.

Tens de prazer a alma cansada,

Temos de amor as almas fartas...

Segue a viagem, minha amada,

Que é necessário que tu partas.

 

Oculta a dor da despedida,

Ostenta o riso no semblante.

Por que soluças comovida?

Oculta a dor da despedida

Não se desvende na partida

Teu coração febricitante.

Oculta a dor da despedida,

Ostenta o riso no semblante.

 

Com tanto amor a carne cansa,

Com tanto amor a alma não pode.

Se de prazer tens esperança,

Com tanto amor a carne cansa.

Meu coração hoje descansa,

Teu coração que se acomode.

Com tanto amor a carne cansa,

Com tanto amor a alma não pode.

 

Por que mostrar tanta tristeza

Em teu semblante doentio?

Tua pupila em fogo acesa

Por que mostrar tanta tristeza?

Tu tens a vista ardente presa

Em meu olhar triste e vazio...

Por que mostrar tanta tristeza

Em teu semblante doentio?

 

Já tanto amamos, no entretanto

Para gozar inda palpitas...

Levas o olhar raso de pranto...

(Já tanto amamos, no entretanto!...)

E em tanto amor, em gozo tanto

Que de carícias inauditas!

Já tanto amamos, no entretanto

Para gozar inda palpitas.

 

Levas a ebúrnea palidez

Na bela fronte alva de neve.

(Quanta mudança num só mês!)

Levas a ebúrnea palidez

No rijo colo ardente, em vez

Do róseo tom mimoso e breve,

Levas a ebúrnea palidez

Na bela fronte alva de neve.

 

Teu níveo seio imaculado,

Ora palpita, ora estremece,

A recordar-se do passado.

Teu níveo seio imaculado,

Lírio no hastil desabrochado,

Ao rijo sol da dor fenece.

Teu níveo seio imaculado,

Ora palpita, ora estremece.

 

Quanta tristeza em tua boca,

A mesma boca que sorria

Ébria de amor, de gozo louca!

Quanta tristeza em tua boca

Que, contraída, agora evoca

Todo um passado de alegria!

Quanta tristeza em tua boca,

A mesma boca que sorria...

 

Vamos! Sufoca na garganta

Este soluço que te invade.

Este gemer, que não me espanta,

Vamos! Sufoca na garganta

De tanto amor, ventura tanta

Que mais guardar, senão saudade?

Vamos! Sufoca na garganta

Este soluço que te invade.

 

E, francamente eu te confesso,

Já chega o tempo da fadiga

Também nos cansa o amor em excesso...

(E, francamente eu te confesso)

Dentro do peito eu já começo

A me esquecer da quadra antiga

E, francamente eu te confesso,

Já chega o tempo da fadiga.

 

S. de Almeida Cunha    Viçosa (Alagoas)

 

(O Malho, 25-12-1909, ed. 380, t. 33)

 

 

Geyser

 

Nas estranhas regiões da alva Islândia nevoenta

Muitas vezes do solo incerto, acidentado,

Rompendo a crosta branca, o terreno gelado,

Do "geyser" rijo e forte o alto jato rebenta.

 

Assim também, senhora, em meu peito fermenta

O amor feroz, o amor – o gérmen do pecado –

A bramar, a rugir, num furor concentrado,

Num doido tumultuar de rígida tormenta,

 

Que importa que a aparência impassível e calma

Do semblante não mostre o que vai dentro d'alma

– A fúria das paixões em convulsiva guerra –

 

Se a contrastar, feroz, com a calma do semblante

Ruge no peito o amor, o indomável gigante

Como um "geyser" queimando o coração da terra?

 

                                             S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 12-01-1910)[109]

 

 

Olhando um quadro

 

Bela tarde outonal de nuvens tremulantes:

Umas cor de safira, essas verdes, aquelas

Raiadas de opalina, essas outras cambiantes,

Com laivos cor de sangue e listras amarelas.

 

Tarde cheia de odor de rosas desfolhadas,

Plena do sussurrar indistinto de insetos

Zumbindo, do arvoredo ocultos nas ramadas,

Melodiosas canções nuns acordes secretos.

 

Da cordilheira, ao longe, a velha grimpa escura

Rompe do firmamento as nuvens multicores

E com o vivo matiz do ocaso se mistura

Pondo na terra inteira um contraste de cores.

 

À tíbia luz solar cambiante que desmaia,

Há um misto de alegria e um misto de tristeza

Das gramíneas em flor na fronde verde-gaia

Destacando-se ao pé do sarçal que se enfeza.

 

Tremulam do bambual tristonho, quando e quando

As hastes sacudindo, as velhas ramas pecas

Enquanto passa no ar, em revoada bailando,

Uma nuvem febril de inquietas folhas secas.

 

Para as bandas do oriente, oculto já nas sombras

Da noite, se distende o capinzal que ostenta

Entre verdes frouxéis de viçosas alfombras

Uma vegetação de cor amarelenta.

 

Olhando em derredor, tudo o que a vista alcança

É um fulvo milharal, um infinito tesoiro

Que brilha muito vivo e fulge à semelhança

Dum estranho painel feito de espigas de oiro.

 

Volateando pelo ar, um cardume de araras

Conversa alegremente e, a conversar parece

Que fala da colheita, analisando as searas,

E discute, parlando a abundância da messe.

 

Em tudo a calma, em tudo a paz das coisas santas:

Nas hortas, nos casais, no bosque, no gramado

No maduro pomar, cujas frutas são tantas

Que rolam pelo chão de folhas tapetado.

 

E, ao último fulgor do dia que se deita

E com triste negror da noite já se alterna,

Ri-se a moça aldeã de volta da colheita,

Mostrando ingenuamente um pedaço da perna...

 

                                    S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 16-01-1910)[110]

 

 

Partenza tua

 

Hoje que não te vejo, hoje que ausente,

Não posso olhar-te, tudo me convida

A só pensar naquela despedida

Que me anda agora a revolver a mente.

 

E – a alma plena de angústia, a alma ferida

Inda recordo dolorosamente

Teu olhar, negro olhar, olhar ardente

Derradeira lembrança da partida.

 

Vejo teu vulto a se perder na curva

Da estrada, e – a vista carregada e turva

A demonstrar a dor que me domina –

 

Creio inda ver, ao longe, no ar suspenso,

A se agitar, um pequenino lenço

Entre a cerrada névoa matutina.

 

S. Paulo[111]            S. de Almeida Cunha

 

(Jornal de Alagoas, 12-03-1910; O Malho, 10-09-1910, ed. 417, t. 29)[112]

 

 

Devaneio  

 

Tantas passaram, gárrulas, em bando

Tantas que já nem me recordo a conta,

Foram-se rindo, o meu olhar fitando

Numa constante e destemida afronta:

 

E ainda a turma feminina aponta

A rir... No entanto, aflita, doidejando,

Minh’alma é sempre a mariposa tonta

A meiga luz de teu olhar buscando,

 

– Formas risonhas de mulheres belas

Passai! vamos, passai! Deixai comigo

Minhas quimeras pálidas, singelas.

 

Ela somente eu busco apaixonado,

Ela, talvez o derradeiro abrigo

Deste meu velho coração fanado.

 

S. Paulo            S. de Almeida Cunha

 

(O Malho, 20-08-1910, ed. 414, t. 34)

 

Em entrevista descoberta em 1959 pelo pesquisador Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano aparece aos dezessete anos no Jornal de Alagoas de 18-09-1910, convidado como um dos caçulas da intelectualidade alagoana[113], a qual vinha respondendo,“à maneira do que na capital federal fez João do Rio”, a “Um Inquérito”, promovido sob a chamada: “A Arte e a Literatura em Alagoas – O que são, o que pensam, o que leem nossos artistas e literatos – Qual a escola predominante entre nós – O Jornalismo”. O jovem Graciliano discorreu sobre literatura brasileira, contrapondo à ingenuidade do indianismo de suas primeiras leituras de menino crédulo, historiadores e cronistas do descobrimento, como Léry, Gabriel Soares e Southey, que descreveram a selvageria dos nativos. Ainda assim considerou a poesia indianista de árcades e românticos a única expressão autêntica de arte nacional. Confessou suas atividades líricas e afirmou ser afeiçoado à poesia parnasiana, apesar de preferir a prosa e o realismo, a “escola do futuro”, sublinhando suas predileções pelo “realismo nu” de Adolfo Caminha, pela “linguagem sarcástica” de Eça de Queiroz e pelo afrontamento da sociedade atrasada na fatura sincera de Aluísio Azevedo, com destaque a Casa de pensão. Apontou o jornalismo como fundamental, não só para a literatura. Entendeu que a literatura brasileira era pouco divulgada fora do país por ser o português a língua menos conhecida entre as “novo-latinas”. Posicionou-se sem radicalismo quanto a linha fonética ou etimológica na ortografia, seguindo a usual por falta de conhecimento para praticar a etimológica. Foi ponderadamente entusiasta em relação à cultura alagoana e à evolução do pensamento brasileiro. Citou em francês Pascal e crônica de teatro, com minucioso conhecimento de atores, teatros e peças, de dramaturgos, como Martins Pena, de seus críticos, como Sílvio Romero. Criticou a proposição de uma academia alagoana de letras, que seria uma “panelinha acadêmica”, mera caricatura da brasileira. Assinou: G. Ramos de Oliveira.

 

Antes de penetrar no labirinto mais ou menos intrincado deste Inquérito, cujos quesitos não poderei responder com precisão, devo dizer que o Jornal de Alagoas cometeu um erro grave colocando-me entre os literatos alagoanos.

Minhas ideias tem pouco valor, porque de literatura pouco conheço.

Não quis ser dos primeiros, desejaria mesmo ser o último.[114]

 

Continuou com as publicações de poemas, principalmente em O Malho, usando pela penúltima vez, dentre o que foi localizado, o pseudônimo S. de Almeida Cunha:

 

Na penumbra

 

Esta sombria e lúgubre vereda,

Cheia de sombras rígidas, conjuntas,

Nem mais um traço mostra da alameda

Onde passaram nossas almas juntas.

 

Tudo é floresta emaranhada e treda

Onde só se ouvem as lúgubres perguntas

Que triste, o vento, a soluçar segreda

Nas ramagens das árvores defuntas.

 

E eu habito este bosque, e, na penumbra,

Muitas vezes, assim como um bom sonho

Meu vivo olhar teu vulto além vislumbra.

 

Fico, porém, sem forças no caminho,

Febril, exausto, pálido, tristonho,

Frio, arquejante, trêmulo, sozinho...

 

S. Paulo             S. de Almeida Cunha

 

(O Malho, 01-10-1910, ed. 420, t. 30)[115]

 

Como transcreve Moacir M. de Sant’Ana em A face oculta de Graciliano Ramos, a revista Argos nº 2, de outubro de 1910 anunciou, com entusiasmo, carta à redação, datada de Viçosa, 29 de setembro, assinada por Manoel Maria Soeiro Lobato:

 

Reside na florescente e adiantada cidade de Viçosa esse moço talentoso e modesto, que, oculto à sombra do nome glorioso do velho clássico lusitano, surpreendeu-nos agradavelmente com uma boa carta literária acompanhada de inspirados e bem trabalhados versos intitulados “Argos”...[116]

 

O remetente ofereceu o soneto à nova revista maceioense e fingiu ser apenas um leitor da série de entrevistas do Inquérito do Jornal de Alagoas, para, de acordo com um quesito que lhe chamou a atenção pela relevância, propor o desenvolvimento das letras alagoanas através de revistas como aquela, desejando-lhe vida mais longa que uma publicação anterior, Exedra (julho de 1907)[117]. Garantiu que o poema foi produzido “em janeiro do ano passado”, antes do aparecimento da revista, a coincidência da homonímia não tendo, portanto, nenhuma intenção bajulatória. Se por falta de outra coisa quisessem publicar o soneto, pediu que não fosse alterada a ortografia de palavras ali transcritas de acordo com a lição de Cesare Cantù.

 

Eu mesmo, se tivesse de dizer alguma coisa sobre as questões que o “Jornal” apresenta aos literatos de nosso estado, lembraria a criação de uma revista que, como O Malho, aceitasse colaboração dos literatos incipientes.

Mas não sou literato, nem poeta, nem simples amador. Escrevo pouco, raramente publico o que escrevo.

Tenho sempre pensado comigo mesmo que não tenho o direito de cultivar coisas que minha inteligência não chega a compreender.

 

Argos [118]    

 

Na grande nave grega, olhos limpos, serenos,

Fitando o manto azul dos vastos horizontes,

Corta os mares da Thracia, em busca de Propontis

A heroica expedição dos rígidos helenos.

 

Longe, no imenso azul, destaca-se de Lemnos

A forma secular dos altaneiros montes;

Ouve-se o marulhar de peregrinas fontes,

Soam flautas febris em cristalinos trenos.

 

E desliza, a correr mansamente, a grande Argos,

Sulcando, descuidosa, os mares vastos, largos,

Da Kolchis fantasiando o mágico tesoiro.

 

Que o instrumento de Orpheus serenamente embale-a,

E um dia volte à patria o povo da Thessalia

Conduzindo, triunfante, o rico velo de oiro.[119]

 

                                               Soeiro Lobato

 

1910 -1914 – Palmeira dos Índios

 

A irmã Leonor, depois de casada, mudou-se para Palmeira dos Índios seguindo orientação médica que lhe recomendara o clima seco do sertão. Sebastião Ramos avaliou a praça e resolveu que a família deveria acompanhar o jovem casal[120]. Como relata Valdemar de Souza Lima:

 

Assim, entre outubro de 1910 e janeiro de 1911, sob o pretexto de salvar a filha enferma, Sebastião Ramos, já então “promovido a coronel”, mudou-se com os seus para Palmeira dos Índios, a fim de começar vida nova.[121]

 

Sebastião Ramos, depois de sondagens cuidadosas e negaças, adquiriu uma loja em Palmeira dos Índios, e também, por meio de barganhas depreciativas, um sítio com terreno útil para a criação de gado e instalações precárias de máquina a vapor para descaroçar algodão.[122]

 

No dia 27 de outubro de 1910, chegado pela manhã, Graciliano entrou no estabelecimento, pôs o paletó no cabide e foi ajudar o pessoal que suava na formulação do balanço. Exatamente naquela data ele completava 18 anos.[123]

 

Em janeiro de 1911, Sebastião Ramos alugou uma casa na Rua de Baixo e mandou buscar o restante da família, então ainda residindo em Viçosa, e nela a instalou.[124]

 

Na primeira das cartas coligidas pela viúva Heloísa Ramos e publicadas em 1980, Graciliano Ramos em 14-11-1910 perguntava à mãe sobre a saúde das crianças mais novas da família, as irmãzinhas Marili e Carmem. Com gaiatice de verve intelectualizada reclamou por suas ceroulas – “estou quase nu” – e prometeu aparecer dali a uns dez anos.

 

Aqui estamos todos bons nesta santa Palmeira, terra que, se não é boa, sempre é menos ruim do que eu julgava. Aqui não há cafés, há maus bilhares, pouca cerveja, nenhum divertimento. Enfim, gasta-se pouco dinheiro e vende-se alguma coisa, isto é, ganha-se mais do que se gasta.[125]

 

A revista Argos, nº 5, de janeiro de 1911, divulgou nova carta assinada por Manoel Maria Soeiro Lobato, datada de Viçosa, 19-12-1910. Extasiado com os elogios e a publicação de seu soneto, o jovem Graciliano comparou sua gratidão com a de um judeu que recebeu uma dívida, e seu acanhamento, com o de um sapo igualado a um boi. Desenvolveu, com bisonho exibicionismo de conhecimento da mitologia e da história da Grécia antiga, uma longa e jocosa figuração com a nave Argos, na qual viajava como um hilota incapaz de proezas, acolhido benevolamente pela tripulação de heróis da revista. Valendo-se dessa generosidade, ofereceu-lhe mais um soneto, “A Coruja”, publicado neste mesmo número.

 

Geralmente o indivíduo de procedência humilde, sentindo-se colocado em um plano superior, fica pretensioso, torna-se fátuo e pedante. Comigo dá-se exatamente o contrário: sempre que alguém elogia qualquer coisa que eu faço, seja merecida ou imerecidamente, julgo estar aquém do juízo feito a meu respeito.

 

Como pode o noviço ouvir de ânimo sereno a exaltação de uns pobres versos feitos apressadamente, entre algumas baforadas de fumo, em um momento de “spleen”?

 

Tinha pensado de mim para mim que a nave heroica só recebia em seu bojo os argonautas arrojados que, em busca das regiões sonhadas do ideal, esperassem descobrir no fim da penosa jornada o Velocino lendário.

 

Pois bem, o trovador mostrará seus versos, mas fala assim ao rapsodo: “Guardai-os bem num modesto recanto da revista, num retiro ignorado, para que não façam contraste com os cantos inspirados do marido de Eurídice”.[126]

 

A coruja[127]

 

                                      A Severino Leite:

 

Baixe o quarto crescente a sua branca toalha

Ou o plenilúnio esparja a sua luz vermelha,

Ei-la sempre a gritar numa voz que assemelha

O agoureiro rumor de um rasgar de mortalha.

 

Se da noite silente o negro véu se espalha

Sem o pisco luzir de uma fulva centelha,

Ela põe-se a piar de uma casa na telha

Ou no simples beiral de um casebre de palha.

 

Triste e reconcentrada, é a predileta filha

Da treva. É singular que sempre a noite escolha!

Dizem que à luz do sol o seu olhar não brilha.

 

Aos cemitérios vai. E ali, de tulha em tulha

De ossos, mexe, remexe um garrancho, uma folha,

Sempre e sempre a fazer a costumada bulha.[128]

 

Maceió                         Soeiro Lobato

 

(versão publicada em O Malho, 10-06-1911, ed. 456, t. 37)

 

Iniciou 1911 mantendo, predominantemente na forma reduzida de “Soeiro Lobato”, o pseudônimo “Manuel Maria Soeiro Lobato” com que tinha se apresentado à Argos entre setembro e outubro de 1910. Publicou em O Malho, com gaiatice nos dados biográficos fictícios e datação retrospecta, a série de quatro sonetos[129], apresentados como se fossem provenientes de Portugal, Porto, e o tema “Velhas páginas” percorrendo o ciclo das estações do ano ao modo europeu:

 

Velhas páginas  

 

                        I

Maio varria o campo, enfeitava as florestas,

Engrinaldando a serra e os montes perfumando,

Quando eu senti no peito as agudas arestas

Deste amor insensato a minh’alma rasgando.

 

Em volta a primavera, a sacudir o pando

Véu das ramagens, doida, a celebrar as festas

Do amor, descorolava o odorífero bando

De violetas gráceis, de dálias e de giestas.

 

Eu te amei, tu me amaste, ambos nós loucamente:

– Eu, mostrando o fervor de uma alma rude e austera,

– Tu, a ardência febril de um coração ardente.

 

E o nosso amor cresceu ao perpassar da calma

Estação, a caçar à luz da primavera

O róseo despontar da primavera d’alma.

 

                        II

Com que dor rememoro e com que mágoa lembro

O dia em que partiste! Um dulçor erradio

Pairava, álacre, no ar. E o abrasador setembro[130]

Corria à clara luz de um claro sol de estio.

 

Muita vez vem-me n’alma o desejo sombrio

De volver ao passado. E idealizo e relembro

O teu grego perfil, enquanto um calefrio

O ser me agita, fibra a fibra, membro a membro.

 

Como recordo, então, aquelas manhãs claras

De estio: o sol ardente, altaneiro e brilhante

Rutilando no campo, a fecundar as searas.

 

Eu, sozinho, a sentir a profunda vontade

De chorar, exibindo ao verão cintilante

O verão de minh’alma, o verão da saudade.

 

                        III

Fulva tarde de outubro. A despertar de um sono

Prolongado, lá vão, como um triste lamento

Do verão que se foi, num lânguido abandono,

Folhas em profusão levadas pelo vento.

 

Voltas. E eu torno a ver-te o rosto macilento

Macerado de amor. Mas agora tenciono

Transformar em meu peito este amor tão violento

A contrastar com a calma e a doçura do outono.

 

Não vês? À loira luz do sol que já se deita

Anda um rancho febril pelo verde gramado

A dividir, feliz, os frutos da colheita.

 

Pois bem! Vamos nós dous, repletos de desejos,

Gozar o nosso amor num retiro encantado

E viver da colheita ideal dos nossos beijos.

 

                        IV

Enquanto no papel, a relembrar a tua

Imagem, vou deitando estas linhas singelas,

Anda o vento a varrer soturnamente a rua,

Agitando os portais, sacudindo as janelas.

 

E o céu, a se tingir de negras aquarelas

Pela aproximação da noite, se acentua,

Sem astros a luzir – doiradas sentinelas

Na vasta superfície imensamente nua.

 

Olho – e apenas descubro a neve carregada,

Escuto – e apenas ouço o gargalhar desfeito

Do vento e o gotejar da chuva na calçada.

 

E sinto a aguilhoada, indiferente e absorto,

Do frio enregelar, medonha, no meu peito

Mortas recordações de um sentimento morto.

 

Porto, 1900                        Soeiro Lobato (1)

 

1 - Manuel Maria Soeiro Lobato, brasileiro, nosso amigo, residente em Viçosa – Estado de Minas  – e que, por muito tempo, residiu também em Portugal. (N. da R.)

 

(O Malho, 07-01-1911, ed. 434, t. 37)

 

Dentre o que foi localizado, utilizou pela última vez o pseudônimo S. de Almeida Cunha:

 

Um soneto  

 

Disse-me alguém que ainda favorece

Aquele afeto que por mim nutrias:

– “Ela mostrou-me um vívido interesse

De ler uns versos que escreveste há dias.

 

Vamos! Manda-lhe os versos. Obedece.

Fantasias de crianças! Fantasias!

Mas, dize lá, se acaso ela quisesse

Um sacrificio teu, tu que farias?”

 

E eu te mandei, de amor arrebatado

(Que doidice, querida, que doidice!)

Breve, um soneto rápido e sucinto.

 

Mas me arrependo de te haver mandado

Esses versos, que neles eu não disse

A vigésima parte do que sinto.

 

                                  S. de Almeida Cunha   

 

(O Malho, 29-04-1911, ed. 450, t. 37)

 

Entre junho e julho de 1911, passou uma temporada na Fazenda de Maniçoba, dos avós maternos, na região de Buíque. Clara Ramos comenta:

 

Não há hemoptises na época. Nem haverá depois provas que lhe confirmem o diagnóstico. Mas o período o marca e Graciliano há de referir-se, por toda a vida, a essa tuberculose dos 18 anos.[131]

 

De Maniçoba, Graciliano escreveu cartas

 

– à mãe, referindo-se a personagem muito engraçada, que será assunto de sua futura crônica “Ciríaco”, em Cultura Política[132]:

 

Quando chegar aí – está compreendendo? – hei de ter o corpo pesando 70 quilos e a alma leve de pecados, tão leve como os vagons que levam material para a construção da estrada de ferro de Palmeira.[133]

 

Por aqui nada de novo, tudo na santa paz do Senhor... não, há uma coisa de novo: o Siriaco, o velho Siriaco, o impagável, o incomensurável Siriaco.

 

NB: Mando dizer ao Antônio Panta que guarde todos os meus Malhos.[134]

 

– e ao pai, menciona os futuros personagens de Infância:

 

Encontrei-me com o padre João Inácio e com o José Leonardo. Ambos mandam-lhe lembranças.[135]

 

Conheceu o bisavô, que aos noventa anos, pai de uma criança de seis, apresentava uma velhice “pura, limpa, isenta de pigarro, de bronquite”, que será retratada décadas depois na crônica Um antepassado, publicada na revista Cultura Política.[136]

 

– Doente?

Balancei a cabeça, esmorecido, bambo. E, num gesto vago, mostrando o organismo chinfrim:

– Um bando de cacos.

– É o que se ganha na rua.[137]

 

Começou esquadrinhando os livros que se arrumavam em cima dum caixão. Abriu um volume.

 

Encostou a página de letra miúda aos olhos muito azuis, afastou-a, aproximou-a: – Quelques? Que diabo é quelques?[138]

 

O Jornal de Alagoas, em matéria assinada por Nababo, publicou em 08-07-1911 o Perfil de um tipo “alto como uma pirâmide, esguio como um cipreste”, “modesto e retraído, algumas vezes acanhado e tímido”:

 

ora debruçado sobre um lote de fazendas, como a cismar na vida e no futuro, até que um freguês impertinente venha arrancá-lo de sua meditação, para regatear-lhe o preço de um lenço “de rapé”; ora traçando sobre o papel grosseiro do estabelecimento algumas linhas abstratas, sem ordem e sem significação; ora com o dedo índex entre as folhas de um livro e os olhos fitos no teto, como que para melhor concentrar sua atenção sobre o conteúdo da respectiva página; ora retirado a um canto do salão, desdobrando algumas tiras de papel entrelinhadas, que outro qualquer não poderia compreender; ora recolhido à sua vasta e silenciosa “república”.[139]

 

Nababo assegura que a aparência de misantropo e egoísta do retratado, com dezoito  anos, esconde uma “alma nobre, generosa, um espírito excepcionalmente grande”:

 

Mas, quem é esse personagem de dezoito anos de idade, alto, esguio, entregue aparentemente às relações da vida comercial, singelo, reservado, humilde e retraído de sua honrosa profissão, pela atração irresistível dos livros? (...) Pois não adivinham?

É Graciliano Ramos![140]

 

Publicou, dentre os localizados em periódicos de 1911, onze poemas. Além dos já transcritos, mais estes:

 

Never Mind!!

 

Que importa! Junto de teu níveo seio,

Seio túrgido, branco, imaculado,

Irei gozar no derradeiro anseio

A inefável delícia do pecado...

 

Falam que importa? – de teu corpo amado,

E eu, surdo a tudo e a tudo absorto e alheio,

Tremo ao ver-te comigo, lado a lado,

Volvendo o corpo num gentil meneio.

 

Tem veneno o teu beijo. À luz ativa

De teu olhar, minh’alma fica morta,

Presa, encantada, tímida, cativa...

 

Que eu morra embora, meu amor, que importa?

Bendigo a boca meiga e compassiva

Que fere e mata, mas também conforta.

 

Alagoas                       Soeiro Lobato

 

(O Malho, 01-07-1911, ed. 459, t. 37)

 

 

Desejo infrene

 

Não sei como passar esta noite soturna

De um silêncio ermo e frio, um silêncio nefasto...

Tem um peso de bronze a calma taciturna

Do moroso volver destas horas que arrasto.

 

Fica junto ao meu quarto a tua alcova. Gasto

Horas a ouvir-te a voz. Na densa paz noturna,

No intenso turbilhão das trevas, negro e basto,

De viela em viela andando, o vento se encafurna.

 

E a noite avança. E eu sei que estás aqui bem perto

De mim a um passo ou dous apenas de meu leito,

Ouço, perscruto a treva, estendo o olhar incerto...

 

E não poder unir, num mudo abraço estreito,

Teu corpo, estranho vale ao meu amor aberto,

Sobre o alvor de teu peito a ardência de meu peito.

 

Maceió – 1911                   Soeiro Lobato

 

(O Malho, 29-07-1911, ed. 463, t. 37)

 

 

Desterrado              

 

                                 a Rodolpho Motta[141]:

 

Quem dera demonstrar tudo que sinto! Entanto,

Terra bendita, mãe piedosa, tu nem pensas

Que, ao deixar o teu solo imaculado e santo,

Ferem-me o coração punhaladas intensas.

 

Ah! Não podes saber quanta tristeza e quanto

Fel encerra este adeus a tuas matas densas.

– Terra que me bebeste o primitivo pranto,

Terra que me embalaste as primitivas crenças.

 

Pátria que me abrigaste os dias mais risonhos,

Berço de meu amor, de meus primeiros sonhos,

Túmulo erguido sobre as cinzas de um passado,

 

-Guarda, ó patria abençoada!estes meus versos cruentos

Que são queixas febris, soluços e lamentos

Formando o derradeiro adeus de um desterrado.

 

Buíque, Pernambuco                 Soeiro Lobato

 

(O Malho, 19-08-1911, ed. 466, t. 37)

 

 

Batalha

 

Luta medonha, desigual contenda,

Esta em que me empenhei, esta em que vivo

Contra o teu vulto airosamente altivo

De uma amazona impávida de lenda,

 

Redobras de furor p’ra que se renda

Minh’alma aflita. E quanto mais me esquivo,

Mais se enfurece o teu calor lascivo

Para vencer esta batalha horrenda.

 

E lutas corpo a corpo. Estou vencido!

Não mais a fúria do teu níveo braço

– Clava pequena de marfim brunido.[142]

 

Não mais minh’alma tímida castigues

Com teus olhares maus, lâminas de aço,

Pontas delgadas de aguçados piques.

 

                                             Soeiro Lobato

 

(Correio de Maceió, 21-09-1911; O Malho, 21-10-1911, ed. 475, t. 37)

 

 

A caminho[143]

 

Afronto a tempestade, o vento afronto

Para transpor este caminho extenso.

Vem de uma estrela o pequenino pranto,[144]

Frio, cortante, mau, ríspido, intenso.

 

Ando à toa, a cismar, nervoso e triste,

A ver se a trilha alcantilada venço.

Raios coriscam no ar, trovões sem conto,

Céu carrancudo de um negror imenso.

 

Viajo a noite inteira. E, quando o dia

Vence a tormenta tétrica e pesada,

Alcanço o fim de minha romaria.

 

Mas não acho conforto nem poisada

– Tua casa pequena está vazia

Tua janela há muito está fechada.

 

                                     Soeiro Lobato

 

(Correio de Maceió, 22-09-1911)

 

 

A aranha[145]

 

               A Braulio Cavalcante[146]:

 

               Diedi parimente retta ad un bel ragno

               che tappezzava una delle mie pareti.

                      Silvio Pellico – Le mie prigioni[147]

 

Em dias de verão, na minha alcova cheia

Da luz do sol, que, lado a lado, a doira e banha,

Minha antiga inquilina, uma peluda aranha,

Entre a parede e o teto o seu vulto passeia.

 

É uma amiga pontual. Sempre arrepiada e feia,

Ergue e balança no ar a sua forma estranha,

Sobe, desce e no fio as pernas emaranha,

Enquanto vai tecendo a complicada teia.

 

Não lhe tenho aversão, não me aborreço dela,

Pois vive egoisticamente a preparar a tela

Que treme semelhando uma diáfana rede.

 

Mesmo um facto anormal dá-se às vezes comigo:

Fico inquieto em não vendo o velho insecto amigo

Sempre no seu lugar    o canto da parede.

 

Pernambuco                   Soeiro Lobato

 

(Correio de Maceió, 01-10-1911; O Malho, 09-12-1911, ed. 482, t. 37)

 

 

Último sonho de Cleópatra[148]

 

                                     (A Octavio Cavalcanti)[149]

 

Da tarde queda e calma à luz morna e dormente,

Das sombras sai, contruído em primoroso estilo,

O grande paço real alteando o peristilo

De pedras do Sinai, de mármores do Oriente.

 

Mudos, fitando o albor do deserto tranquilo,

Velam colossos fora. E, o alvo corpo pendente

Ondeando, ergue a rainha os braços vagamente,

A beber, extasiada, a viração do Nilo.

 

É o derradeiro sonho. Aperta o níveo busto

Num mudo abraço, estende os lábios ressequidos,

Talvez, num beijo errante, a procurar Augusto...

 

E, ao sol que doira o alvor do mármore lacônio

Vê passarem de manso os vultos esquecidos

De antigos cortesãos, de César e de Antônio.

 

                                              Soeiro Lobato

 

(Correio de Maceió, 03-10-1911)

 

 

O piolho[150]

 

Namorei noutro tempo uma moça, um peixão,

A menina Guiomar,

Filha de um tal Gouveia.

De certo era a melhor de todo o quarteirão

(É preciso notar

Que o dito quarteirão só tinha gente feia).

 

Eu andava esquecido e macambúzio; andava

Pensando na urdidura

De um bando de sonetos...

Sonetos! Versos maus que eu fazia e mandava

Àquela criatura

De olhos gázeos, azuis, e cabelos bem pretos.

 

Era mesmo um martírio, uma paixão do diabo!

Tornei-me em breve tolo.

Às vezes mesmo chego

A meditar que o amor podia até dar cabo

De meu rico miolo

E dos cobres mensais de meu querido emprego.

 

Sim, porque todo dia era um brinde, um presente,

Uma coisa qualquer,

Uns agrados diversos,

Que sonetos ja não serviam, finalmente,

À matreira mulher;

Presentes preferia a meus sentidos versos.

 

Um dia – há coisas tais que a gente nunca esquece –

Entre acontecimentos

Vários, inda me lembro.

Foi... não sei dizer bem a data, mas parece

Ter sido em novecentos

E sete, dia santo, a oito de setembro.

 

Que os leitores perdoem-me eu ser prolixo. Agora

Vou resumir o conto:

Não quero interrompê-los

Mais tempo. Certo dia – ó ceus! maldita hora! –

Estando como tonto,

Pedi a minha amada um cacho de cabelos.

 

Muitos dias levei esperando o tal cacho.

A catadura brava,

Sombrio e carrancudo,

Sem comer, sem dormir, sentia que o ígneo facho

Da paixão me queimava

O sangue, o coração, as tripas, bofes, tudo.

 

Depois de uma semana, um dia, muito cedo,

Uma negrinha farta

De carnes, muito feia,

Sorrateira e manhosa, entregou-me, em segredo,

Uma pequena carta

De minha namorada, a filha do Gouveia.

 

Findava assim:  “Meu bem, meu querido Manoel,

Papai agora anda

De nós a desconfiar.

Por isso, antes não pude enviar-te o lindo anel

De meus cabelos. Manda

Um frasco de Houbigant. Tua noiva Guiomar.”

 

Vinha dentro da carta um molho de cabelos.

Muito tempo, enlevado

Beijei o negro molho,

Ansioso, sem pensar em mim, quando, ao volvê-los,

Ao virá-los para um lado,

Vejo dentro – Jesus! – um bicho branco, um piolho...

 

                                                     Soeiro Lobato

 

(Correio de Maceió, 06-10-1911)

 

Ao completar dezenove anos, escreveu em 27-10-1911, de Palmeira dos Índios para Viçosa, carta ao amigo, o “meu Pinto velho dos pés compridos”, Joaquim Pinto da Mota Lima Filho. Disse que estava para responder uma carta a Rodolfo mas precisava do endereço do ex-futuro membro da Academia Brasileira de Letras – ex, já que abandonara covardemente aquela obra monumental que “estávamos a escrever”, com o pseudônimo de M. Soares[151]. Ressaltou jocoso, insinuando um pseudônimo de Joaquim, que o motivo principal da carta era pedir informações sobre um tipo talvez aparentado com o nosso ex-embaixador de Haia e com S. M. D. Pedro Banana, “que o diabo tenha debaixo de sua santa guarda” – “Rui d’Alcântara”, de quem lera no Jornal de Alagoas uma violenta crise de caiporismo: Rui escapou de comer cuscuz com cabelos e de tomar café pelo bico do bule. A seguir pediu notícias da Argos. Perguntou se Joaquim finalmente passara a cultivar o realismo, superando sua tendência ao imaginário, ao impossível. Dizendo-se mártir dos tipógrafos, lamentou que em sua resenha (talvez sua primeira publicação de crítica literária[152]) sobre a tradução Il cacciatore di smeraldi, tivessem colocado grego, estragando o trocadilho feito com o nome do tradutor na frase que pretendia ser: “Se o senhor Carlo parla greco”. Convidou o amigo para no ano vindouro passar com ele dois meses no sertão, onde poderia dedicar-se a Histórias das Mil e Uma Noites e a Contos da Carochinha. Perguntou se ele ainda estava muito apegado a lendas. A propósito de lendas, falou do recém-fundado Grêmio Literário Correia Paes, que se propunha a ensinar leitura a muita gente boa de Palmeira. Mandou lembranças aos familiares e ao “Revmo. Mota Lima”.

 

Creio que esse Rui d’Alcântara é um falsário, um indivíduo que, antigamente com o nome de Aníbal não sei de quê, – uma mistura de italiano com espanhol – andou viajando pelos Andes, pendurado nas garras de uma águia. Mas o Alcântara foi mais infeliz que o Aníbal, porque ao menos este não passou um dia sem comer. Também cabelo não é lá muito bom alimento, principalmente para um pobre de Cristo que passa uma horrível noite de penitência, em risco de morrer afogado, vendo uma coisa que ninguém nunca viu – uma trovoada em junho. Dize ao Rui, se o conheceres, que Santo Antônio é muito nervoso e tem um medo danado de relâmpagos e trovões.[153]

 

Graciliano atuou na Escola Dramática Palmeirense, como lembra sua irmã Marili Ramos:

 

Padre Raul Silva fundou em 1912 ou 1913, em Palmeira dos Índios, a Escola Dramática Palmeirense, com o seguinte elenco: Graciliano Ramos, Levino Moura, Marçal José Oliveira, Francisco Cavalcanti, Flora de Zé Maria, Lalá Lima e José de Souza Soares.

 

Grace traduziu do francês uma peça teatral, que foi levada à cena por ele e outros do grupo.[154]

 

Dentre os poemas localizados, encontram-se apenas quatro publicados em 1912:

 

Cobra mansa[155]

                       

                                Ao Tobias Filho[156]:

 

Flexível, devagar, pouco a pouco desdobra

O corpo enovelado em seu cabaz redondo

E lá vai, pachorrenta, indolente, transpondo

A rua lado a lado a retorcer-se a cobra.

 

Bicho assim ninguém viu – tem mansidão de sobra:

Apenas a um sinal do domador, o hediondo

Corpo move, indo e vindo, a colear, expondo

A quem quer assistir, sua estranha manobra.

 

Seu olhar um poder magnético exerce,

Duro olhar de metal, que fixamente brilha,

Enquanto ela vai e vem, sempre e sempre a mexer-se.

 

Enfim, quem há que a veja e não a admire e aplauda,

Quando ao braço de alguém devagar se enrodilha,

A agitar, secamente, os cascavéis da cauda?

 

                                               Soeiro Lobato

 

(O Malho, 27-01-1912, ed. 489, t. 29)

 

Nos dois poemas a seguir, os títulos repetidos sugerem a intenção do exercício da forma fixa que os nomeia:

 

Balada[157]

 

Todas as vezes que te vejo,

Angelical, branca visão,

Fulge-me o olhar num mau lampejo,

Pulsa-me forte o coração.

Rio em te vendo e tremo e arquejo

Num sofrimento mudo, atroz,

Se não consigo achar ensejo

De ver-te o rosto e ouvir-te a voz.

 

És a Canaã de meu desejo,

Terra ideal da promissão.

Barco sem leme, em vão bordejo

Pr'a conquistar-te, Amor... Em vão!

Por que meu fado malfazejo

Se mostra assim tão mau, feroz?

Chamo-te, bramo e lacrimejo...

Perde-se no ermo a minha voz.

 

Único bem que busco e almejo

Das sombras desta solidão,

Sobe-me ao rosto a cor do pejo,

Se logro enfim premer-te a mão.

Louco, insensato, o sol invejo,

Que ousa ficar contigo, a sós,

E o vento que, num doce arpejo,

Leva o rumor de tua voz.

 

Em minhas cismas antevejo

O gozo extremo de ambos nós,

Se unir pudesse o mesmo beijo,

A tua voz à minha voz.

 

                            Soeiro Lobato

 

(O Malho,  09-03-1912, ed. 495, t. 29)

 

 

Balada[158]

 

Venho de longe. E, caminhando

Às intempéries  da estação,

Venho, mendigo, me arrastando,

Lento, arrimado ao meu bordão,

De meu passado, a quando e quando,

Recordo o tempo encantador,

A quadra antiga relembrando

De teu amor, de meu amor.

 

Velho romeiro, o passo errando,

Incerto o olhar, trêmula a mão.

Só com chorar a dor abrando,

Deste meu velho coração.

Que ponto ignoto enfim demando?

Nem sei dizer, nem posso expor...

Sei que ando à toa, aos tombos ando,

Só pelo amor... só pelo amor...

 

Meu velho manto, à aragem pando,

Cai-me em farrapos pelo chão.

Nem posso andar, os pés sangrando

Pela inclemência do verão.

Trôpego, incerto, a esmo, expondo,

À luz de um sol abrasador,

De quentes lágrimas um bando,

Recordações de nosso amor.

 

Enquanto eu vago só, guardando

Dentro do peito a minha dor,

Manda-me um olhar sereno e brando

Que inda reanime o meu amor.

 

                                     Soeiro Lobato

 

(O Malho, 17-02-1912, ed. 492, t. 37)

 

 

Na Igreja[159]

 

Quando, na igreja aberta à luz do dia,

Com esta turba devota me confundo,

Ralando os joelhos sobre a laje fria,

Ao ver dez círios crepitando ao fundo,

 

Prende-me um sonho místico e profundo,

Um sentimento estranho me inebria...

E, olhando o céu, menos prezando o mundo

Fanatizado, eu rezo: Ave Maria!

 

Rezo, rezo comigo...Ah! se soubesses...

Não é à Virgem que eu dedico preces

E tantas mágoas e palavras tantas:

 

Ralando os joelhos sobre a laje dura,

Eu rezo a ti, ó santa criatura,

Bendita entre as mulheres e entre as santas![160]

 

Maio    Buíque (Pernambuco)  Soeiro Lobato

 

(O Malho, 31-08-1912, ed. 520, t. 46)

 

Marili Ramos[161] registra episódios de sua vivência com Graciliano nesses tempos, o irmão quatorze anos mais velho. Ela, aos seis anos, tendo saído à rua de calcinha e colete, ouviu da janela um autoritário “meia volta!” do rapaz adulto, cujo significado ignorava, mas pôde perceber do que se tratava quando ele foi buscá-la puxando-a pela orelha. De outra vez, foi retirada, agora pelas duas orelhas, do alto de um guarda-comida (“o mesmo citado em Infância”) que ela havia escalado para servir-se de conhaque. Graciliano, à mesa, fazia as refeições concentrado em leituras, alheio a tudo: o pai trocou o açúcar por sal, mas a brincadeira não teve graça: depois de tomar o café com a mistura, saiu da mesa vermelho, irritado, recolhendo-se a seu quarto em silêncio.

 

Ele saía, sempre, da mesa machucando miolo de pão, fazendo bolinhas que nos jogava no rosto.

Lavava as mãos, com sabão, uma infinidade de vezes. Para não as sujar novamente pegando em dinheiro, não raro abria a carteira e apresentava-a para que a pessoa se pagasse do devido.

Gostava de tomar banho cantando, de preferência Mestiça e O Luar do Sertão.[162]

 

Escreveu ao “meu velho” amigo Pinto, desculpando-se do atraso no agradecimento pelo Almanaque do Malho[163], encomenda que pretendia pagar para não parecer “presente pedido”. Justificou a falta em razão de nos últimos tempos estar doente “como um corno”, um saco de moléstias por todas as partes do corpo, inclusive as “partes inconfessáveis”. Não fora ao carnaval de Viçosa, pois o queixo inchado não faria bonito como máscara natural, mas esperava que o amigo, “grandíssimo bandalho!”, cumprisse a promessa de vir a Palmeira passar uns dias com ele, sem risco de “moer o resto de tuas carnes” com maus cavalos, agora que havia a estrada de ferro de Viçosa até Quebrangulo. Disse que não estudava mais italiano – “já sei muito” – e que não tomaria o conselho de Pinto para que estudasse francês, “língua miserável inventada pelo diabo”. Propôs trocarem temporariamente o seu manual de línguas método “Brunswick”, que não lhe servia para nada, pelo “Pereira”, que o amigo utilizava.

 

Não gozarás aqui de grande conforto – mas sempre encontrarás um quarto com duas cadeiras e uma mesa, um bocado de livros, uma bilha d’água, papel, penas e tinta, enfim o necessário a um indivíduo que tem fumaças de literatura.

 

espero que afinal venhas iluminar minha pobre palhoça com tua presença e minha velha cabeça com as luzes de teu espírito.

 

Não te esqueças de trazer contigo umas noites de penitência...

 

P.S. Eu já não leio jornais. Se vires no Malho alguma coisa minha, faze-me o favor de cortá-la e meter dentro de alguma carta que me escreveres.[164]

 

Publicou apenas cinco poemas em 1913, a crer no que foi localizado em periódicos. Com publicações ocorridas exclusivamente em O Malho,  teria sido, assim,  escassa a produção dos últimos anos de poeta, mas quantia não muito diferente dos anteriores, à exceção de 1909 e 1911, com onze poemas encontrados em cada um desses anos.

 

 A cavalo[165]

 

Tarde. A noite a cair. Monto à pressa o cavalo

E a rédea solta ao vento, em disparada, à toa

Deixo a vila dormente e pelo campo abalo,

Galopando, a trilhar, a margem da lagoa.

 

Chove. Ergo o braço no ar. A vergastada soa,

Vibrada fortemente em prolongado estalo.

E, ao tropel do animal, que parece que voa,

Pela estrada sem fim, rápido, o monte escalo.

 

Chego ao alto. Demoro. Admiro com desgosto

Aquela casa branca... E, enternecido, aflito,

Algo sinto de quente umedecer-me o rosto...

 

Serão lágrimas?Céus! Será a chuva? Partamos!

Esporeio o animal – Corre, corre, maldito,

Não te demores mais, anda, rebenta, vamos!...

 

Recife                            Soeiro Lobato

 

(O Malho, 12-07-1913, ed. 565, t. 37)

 

 

Ritorno[166]

 

Quanto tempo! Há treze anos, mais ou menos,

Que eu te não via, ó pequenina vila,

Onde os dias passei, lentos, serenos,

De minha infância, límpida e tranquila.

 

            Ao sair era criança!

E tão mudada, diferente, agora

            Venho encontrar-te!

            Encontro em toda a parte

            A mesma paz de outrora.

A mesma calma pachorrenta e mansa.

 

Tudo o que vejo lembra-me o passado,

            A larga e  velha rua

Conserva o mesmo alinhamento antigo.

            De um lado e de outro lado

A mesma fila estreita e pequenina

De casas tristes, úmidas, serpeja.

Ao fundo surge o presbitério amigo,

            Junto à pequena igreja,

Que tem na frente uma inscrição latina

            Sobre a fachada nua.

 

            Enleado, soturno,

Absorto fico, a contemplar, à toa,

            Os contornos da serra,

Onde se estende o denso véu noturno,

Ao longe as margens curvas da lagoa,

            Mais longe ainda, os muros

            Tristes e escuros

Do cemitério, tímido e modesto,

Onde, de certo a desfazer-se estão,

            Na umidade da terra,

            De minha alma algum resto,

Bocados soltos de meu coração.

 

Amo-te, vila de costume antigo,

De prédios velhos, de feição tranquila.

            Povoado vetusto,

            Simpatizo contigo.

E, após um mês, ao separar-me a custo

De ti, fere-me o peito a garra adunca,

            E negra da saudade.

            P’ra mim não mudas nunca

            Dizem que hoje és cidade,

Mas gosto sempre de chamar-te vila.

 

Por que te adoro, pobre lugarejo?

Por que guardo, devoto, dentro da alma

Este culto profano de pagão?

É que, em desilusões e desenganos,

            Tudo em mim transformou-se

            E agora vejo,

Depois de tantos e tão longos anos,

            Que és sempre quieto e são.

Tens a mesma aparência doce e calma

E a mesma vida cristalina e doce.

 

Recife                           Soeiro Lobato

 

(O Malho, 09-08-1913, ed. 569, t. 37)

 

 

A velha cruz

 

Quanta tristeza ao ver a velha cruz tristonha,

Velha cruz secular firmemente plantada

Entre os verdes frouxéis da floresta risonha

E o regato que corre a marginar a estrada!

 

Velha cruz...Quer, virente, a natureza ponha

A alegria vivaz no campo, quer fechada

Se mostre, indiferente, assim como quem sonha,

Ela fica a cismar como uma alma penada.

 

Ali – há quem suponha, há mesmo quem garanta

Morreu assassinada uma campônia santa,

Cujo corpo foi feito em mais de mil pedaços!

 

E, ao ver a velha cruz, sempre tristonha e firme,

Inda hoje no sertão existe quem afirme

Que a alma penada vaga à sombra de seus braços.

                                              

                                               Soeiro Lobato

 

(O Malho, 23-08-1913, ed. 571, t. 37)

 

 

Cemitério campestre

 

Junto à ermida campestre, a um mísero canto

Da aldeia, da montanha às abas encostada,

Velha e nua, erma e triste, a provocar o espanto

Das almas rudes, ei-la, a agoirenta morada.

 

Cruzes em toda a parte, enchendo o campo-santo,

Cruzes aqui, ali, cruzes além. Mesclada

Ao cardo que rebenta em flor, em cada canto,

Uma vegetação mais ou menos fanada.

 

Nem um túmulo erguido. Em toda a parte apenas

Covas em profusão – canteiros de açucenas,

Crótons, dálias gráceis, saudades roxas, vários

 

Lírios do campo. Mas o que infunde respeito,

E crença, ao mesmo tempo, é o firme, o grave aspecto

Da grande e velha cruz coberta de rosários.

 

                                              Soeiro Lobato

 

(O Malho, 30-08-1913, ed. 572, t. 37)

 

Republicou o poema Argos em O Malho, um ano antes de sua ida para o Rio de Janeiro.[167]

 

Segundo o que foi coletado em Cartas, houve no primeiro semestre de 1914 frequente correspondência    de Graciliano, aos 21 anos, com o amigo Pinto Mota Lima, 24[[168]], principalmente em fevereiro, com quatro cartas, seguidas de uma carta em abril, e, por último, a carta de julho, em que Graciliano se propôs a acompanhar o amigo ao saber de seu projeto de mudança para o Rio de Janeiro. Sudra e As estrelas, de Graciliano, e Désillusion, Mirage[169], e, para brincar com O Malho, Cornucópia, de Pinto Mota Lima, foram as produções dos jovens literatos citadas nesse momento.

 

Mesclando a dinâmica dos namoros com a prática literária a que os dois se dedicavam, cheio de sagacidade intelectual nas alusões a peripécias e galanteios, com  refinamento irônico de formulações referidas a personagens e passagens desses eventos, como “tempos pautílicos, helvéticos discursos, preceptoras luzentes, cacetadas olímpicas, augustas festas de igreja”, o moço Graciliano frisava nesse início de 1914 as pautilificações[170], termo com que nomeava o flerte entre Pinto Mota Lima e Pautila Cavalcanti por ocasião de uma recente temporada do amigo em Palmeira dos Índios, entregue a impagáveis rezas e correrias doidas por entre bancas de jogos, em busca de uns grandes olhos negros e de uns cabelos complicadamente encaracolados. Perguntou, sob irônica ameaça, se Pinto o autorizava entregar como recordação a Pautila uma camisa, um pente e um espelho que o amigo esquecera em sua casa, mas posteriormente avisou que os objetos, os dois últimos tendo-lhe sido muito úteis, estavam à espera dele para que viesse matar a saudade dos ares pautílicos, onde encontraria a mesma enxerga, as mesmas tiras de papel, os mesmos romances franceses e o amigo velho. Em julho, na última carta do período, ainda insistia no convite ao amigo, que, segundo diziam, vivia em Viçosa metido numa misantropia, desgostoso e apaixonado.

 

E as pautilificações? Continuas ainda muito equestre?[171] A rosa daquela noite já murchou?[172] Manda-me dizer alguma coisa sobre o estado de tua alma. Eu nunca mais a vi. De longe apenas, algumas vezes. Não aparece mais à janela. Creio que o sol lhe tinha queimado o rosto. Pudera! um mês inteiro recebendo aquela quentura na cara. (02-02-1914)[173]

 

Lamentei que vocês não tivessem feito relações mais íntimas. E disse: “ – Perderam muito tempo. Dois meses somente em olhares e sorrisos! E a calçada da Intendência aí tão próxima...” (18-02-1914)[174]

 

E ela ria com aquele modo preguiçoso que tu conheces... Os olhos lânguidos, os braços caídos, todo o corpo pendido para a frente num abandono... Fizeram-se confidências. Ah! se tu estivesses aqui. (18-02-1914)

 

Está magnífica! Cada vez mais lânguida, com aquele ar sorna e velhaco de quem tem preguiça até de falar, até de olhar para a gente. (13-04-1914)[175]

 

Graciliano, negando ser um daqueles augustinos[176] que viviam adulando as imperatrizes romanas, pediu, nada realista, que Pinto providenciasse umas contas de aljôfar prometidas a uma aparição deliciosa de saia estreita, olhos lânguidos, nariz levemente recurvado, que desceu um dia do céu para reclamar, num tom de angelical indignação, a falta do produto em Palmeira dos Índios. Mas prescreveu, nada romântico, instruções pragmáticas a Pinto para aquisição e envio das contas, brancas, pequenas, boas, encomenda reiterada com ênfase e urgência na carta seguinte.

 

Uma das estratégias de flerte era a frequência à igreja[177], a que naquele momento se dedicavam uns amigos, lá ouvindo rezas intermináveis, feito dois malucos, ansiosos pelas devotas do outro lado, de olhos negros, de cabelos encaracolados. Nessas cartas, Graciliano referiu-se constantemente a conversas com a tua Dea, para quem lera a tradução do poema em francês de Pinto, Désillusion, durante uma das badernas formidáveis promovidas pelo Dr. Helvécio, o patrono da gente moça, com uma cervejada levada do diabo, moças em quantidade e a lei da atração levando a gente a ficar ali até três e meia da madrugada, apesar de, afinal, ser tudo burla, todos a serem enganados de muito boa vontade e a causa de seus maiores pesares não valer uma lágrima. Disse, também, que apesar do primeiro impulso, tinha pensado bem e visto que seria tolice traduzir para ela o Mirage, pois a moça teria mandado o pretendente às favas ao ouvir todas aquelas mentiradas poéticas.

 

Quanto às atividades intelectuais, Graciliano cobrou de Pinto uma récua de alexandrinos e uma diatribe contra o menino sublime[178], em preparo. Sempre dizendo-se burro pra burro, incapaz de escrever, pois logo a imaginação escapava para a rua e punha-se a doidejar por aqui, por ali, falou, na primeira das cartas, de um conto de quase setenta tiras, difícil de concluir, pois ele se metera em funduras. Na carta seguinte disse que Sudra estava com 86 páginas e, em outra, que o tinha abandonado já com 150 páginas. Além disso, só conseguira produzir o seu pobre As estrelas. De nenhum livro que estava lendo, passara das vinte páginas: Origem das espécies, O capital, A adega, Napoleão – o pequeno, A campanha da Rússia[179], e uma infinidade de gramáticas e outras cacetadas. Em abril disse que, pondo em ordem suas coisas, com um pressentimento ruim, tinha feito um caderno com trinta e seis cadernos de papel, onde estava copiando tudo o que fizera no ano anterior. Comentou que desconhecia a métrica francesa e suas diferenças com o que sabia a respeito da portuguesa e brasileira através do Tratado de versificação de Bilac e Passos. Ironizou os alexandrinos sem sentido[180] que o amigo tinha mandado a O Malho juntamente com uma carta assinada por Japuru, cheia de uma seriedade idiota de indivíduo que tinha muita certeza de estar fazendo coisa boa. (Entretanto, o soneto Cornucópia seria publicado normalmente em O Malho, frustrando a intenção de fazer piada com a revista). Elogiou, entusiasmado, a facilidade do amigo para a fabricação de sonetos, e   animal extraordinário fazê-los em francês, mesmo como principiante. Enquanto o poeta dos sonetos filosóficos ainda reformava o Désillusion, Graciliano dedicava-se a traduzi-lo, e traduzia também o Mirage, que, bem superior ao outro, recomendava não enviar ao Jornal de Alagoas, pois se a tipografia do periódico desgraçava trabalhos em português, em francês o poema seria ali certamente esculhambado. Na carta de julho aludiu a um mal-entendido sobre suas observações a respeito dos poemas em francês, pois Pinto irritado lhe respondera ser a língua francesa adequada a eufemismos e a outras coisas de pronúncia difícil... Graciliano referiu-se às publicações dos versos em revistas do Rio e pediu que ele enviasse os recortes, lembrou que o tinha aconselhado a publicá-los em folhas como o Figaro, de lugares onde havia civilização, segundo ouvira dizer vagamente.

 

Quando viste publicada no Malho essa extraordinária Cornucópia[181], o fruto mais perfeito da parvoíce humana, com que cara ficaste? Puseste ao lado, na margem, um grande ponto de interrogação. E eu respondo, muito naturalmente: – Sei lá! Naturalmente, não leram a droga. Se leram, são uns burros. O Policarpo Japuru esperou pregar uma troça ao Malho, mas saiu logrado[182]. Ah! V. julgava estar fazendo coisa sem sentido? Não, senhor, tudo aqui está muito bom, fique v. sabendo. (18-02-1914)

 

Graciliano, “infecundo”, pedia versos ao amigo:

 

Quanto soneto já fizeste depois de Mirage? Parlapatão! Mentiroso! Passeios, beijos, palavras açucaradas...Patife! Tu algum dia passeaste com ela, safado? Algum dia beijaste a moça? Toda essa corja de sujeitos que fazem versos mente, e mente muito. Detesto semelhante gente. (13-04-1914)

 

Quanto às relações familiares e de amizade, observou a respeito de um retrato recebido de Rodolfo Mota Lima que ele estava gordo como o diabo, pediu, em saudação de despedida, a bênção apostólica de Dr. Mota Lima e prometeu enviar-lhe Les morts que parlent[183]. O velho Sebastião, interpelando-o quatro vezes para que fizesse a correspondência comercial, estava a vigiá-lo como um Cérbero, raivoso das tolices do filho, que se fazia de desentendido.  Comentou a sério, em segredo, pois se recusava a dar justificativas, que alguém daí andava acusando-o de maldizê-la. Além dessa pessoa, enfrentava uma velha senhorita palmeirense que estava fazendo a seu respeito amáveis referências, como canalha, miserável, pulha, até assassino, toda a linguagem que costumava usar a boa imprensa alagoana. Considerando tudo um bando de tolices, com muitas verdades, não tinha se zangado, pois respeitava as ideias dos outros. Previra tudo em seu Sudra, mas não tinha a mania das perseguições, como Jesus... Anunciou a chegada da Paulista[184] a Palmeira, com esperança de que seu Sebastião assim procurasse outro meio de vida e ele pudesse abandonar aquela porcaria. Estava pensando seriamente em ser padre: “Parece-me que é a única profissão compatível com o meu gênio”.     

 

Informou ao amigo Pinto Mota Lima, em julho de 1914, que começara a dar aulas.

 

Depois de procurar por muito tempo alguma ocupação, resolvi-me a ensinar alguma coisa à rapaziada palmeirense. Tenho quinze alunos. Posso dizer que pela primeira vez em minha vida tenho ganho algum dinheiro honradamente. Falta-me uma pessoa que ensine aritmética. Tenho pensado em ti... (20-07-1914)[185]

 

Começava a partir daí a se criar a alcunha de Mestre Graça que o consagrou, como lembra Clara Ramos:

 

Graciliano iniciara então sua carreira de professor de roça, que deverá estender-se, com períodos de interrupção, até 1932.[186]

                                                                                                                 

Quanto ao ambiente intelectual da cidade, em carta de julho, lamentou que Pinto não fosse mais gordo, com os bigodes de Emílio de Menezes, para enfrentar um letrado de Palmeira que o considerou sem jeito para poeta, ...sem ter lido seus poemas. Divertiu-se com o debate entre dois advogados sobre a diferença entre o verbo e a preposição a, cuja distinção um deles conseguiu equacionar flexionando em hão com um exemplo do verbo impessoal. Um terceiro bacharel pretendeu que élite fosse proparoxítona, causando grande trabalho a Graciliano para lhe explicar que em francês não havia vocábulos esdrúxulos. Além desses, apareceu por lá um russo, com muita leitura, que lhe falou sobre o anarquismo e pronunciava mijares e mijões, e, pela primeira vez naquela terra, surgira um homem ilustrado, espírita, falava como se estivesse trepado numa cátedra, mas para a mentalidade local dava a impressão de palhaço, como quando atirou uma diatribe ao catolicismo. E foi fundada uma sociedade de dança, a terceira talvez, em que o presidente não sabia ler mas marcava com o francês as quadrilhas. Era o mais atrasado de seus alunos: Graciliano tinha de fazer-lhe em breve um discurso para uma sessão solene.

 

Depois de morder toda essa gente, manifestando seu desagrado em viver na mesquinhez interiorana, lembrou, a propósito de dentes, um disse-me-disse sobre viagem do amigo para o Rio de Janeiro, duvidando da notícia, entretanto, por ele não lhe ter mencionado nada a respeito. Confessou que não se conformaria com a libertação de um forçado que vivia com ele no mesmo banho, preso à mesma grilheta.  Antes de enviar a carta no dia seguinte, porém, acrescentou um N. B. para contar que durante o dia e a noite anterior tomara uma grande resolução: “Parece-me que vou para o Rio. Queres ir comigo?”, perguntou com picardia, enxerindo-se no projeto do amigo e revirando-o em convidado. Sugeriu correspondência detalhada sobre o assunto e que ele viesse a Palmeira para pautilizar um pouco e combinarem a viagem: “Vens ou não vens? Vais ou não vais? Eu vou”.

 

Aquela pinta que uma velha te ofereceu[187] já não é a mesma – fez-se grande e bonita; é possível que esteja a concorrer para o desenvolvimento da espécie. Manda-te lembranças.

 

Expressou com veemência bem-humorada sua aversão à vida provinciana:

 

Se resolveres deitar fora a tanga, se arribares para essas bandas onde dizem que há gente civilizada, não me escrevas um cartão, que te não hei de responder palavra. Eu não escreverei nunca a um sujeito que trabalhe em um jornal do Rio de Janeiro. Sabes por quê? Porque vendo chita na Palmeira dos Índios. (20-07-1914)[188]

 

Seguia cerrado o namoro com Maria Augusta de Barros, costureira, filha de Rita Bezerra de Amorim e de Aprijo de Barros, pequeno lavrador e criador, como conta Valdemar de Souza Lima:

 

Faziam assim: ele se debruçava na janela com as costas voltadas para a via pública, a costureira punha a cadeira do lado de dentro e, bem ligadinhos, permaneciam em doce colóquio.

 

Às vezes chovia e os fuxicos aumentavam:

 

As goteiras largavam então água em catadupas sobre o traseiro dele. A cena era jocosa. Uns passavam e se detinham a apreciar o quadro, bufando; enquanto outros, dando pela marmota, torciam a cara, aborrecidos com a licenciosidade.[189]

 

Graciliano combinou os projetos da viagem com a namorada, que o encorajou e se dispôs a esperá-lo. Marili Ramos relembra:

 

Papai não via com bons olhos tal namoro, muito avançado para a época. Contavam que, na véspera da viagem para o Sul, ao despedir-se dela, ele lhe cortara, com os dentes, um cacho de cabelo, para levar no bolsinho do paletó, bem perto do coração, uma parte dela.

Correspondiam-se com regularidade.[190]

 

Discípulos e companheiros organizaram a despedida. Graciliano deixou Palmeira dos Índios em 16-08-1914[[191]]. Na estação de Quebrangulo, tomou o trem para Viçosa.

 

E realizaram, na véspera do bota-fora, uma serenata realmente tão completa e retumbante, que ficou célebre nos anais do burgo. E no dia seguinte, uma cavalgada de cinquenta figuras escalou o paredão da serra do Muro, indo impor Graciliano até Quebrangulo.[192]

 

Já em Viçosa, Graciliano escreveu um bilhete ao pai, refugando irritado sugestões de gente de Maceió, relativas a indicação para o Rio de Janeiro de emprego no comércio.

 

Vou procurar alguma coisa na imprensa, que agora, com a guerra, está boa a valer, penso.[193]

 

O Jornal de Alagoas noticiou em 25-08-1914 a partida no dia anterior dos dois amigos, que haviam comparecido à redação para as despedidas.[194]

 

1914 -1915 – Rio de Janeiro

 

Graciliano e Pinto Mota Lima embarcaram no navio Itassucê, em Maceió, a 24-08-1914, e chegaram ao Rio de Janeiro em 29-08-1914. Interpretando, corrigindo e filtrando os dados[195], o percurso dos endereços de Graciliano no Rio pode ser assim sugerido:

 

Rua Costa Bastos, nº 88, casa 3 (até 19-10-1914)

Rua do Passeio, 110 - Largo da Lapa (de outubro de 1914 a abril de 1915)

Rua Riachuelo, 19 (em torno de abril a julho de 1915)

Rua Maranguape, 13 (em torno de agosto 1915).

 

Das cartas publicadas, cinco foram desse segundo semestre de 1914, principalmente para a mãe e a irmã Leonor. Graciliano falou das dificuldades de moradia e de trabalho, do vestuário, da alimentação, de suas produções intelectuais, manifestou saudades, a intenção de persistir e, gregário, despedia-se sempre amorosamente, com abraços ao pai, à mãe, beijos nos pequenos, “a lista inteira enfim”, incluindo figuras da cidade.

 

Na primeira dessas cinco cartas, deu um carão em Leonor, exigindo, como faria durante todo o período, que lhe escrevessem mesmo que não houvesse assunto – as doidices de Terto Canuto, criação de galinhas, morte do Papa (Pio X faleceu a 20 de agosto de 1914). Em carta posterior, confessou que largava tudo para entregar-se a demoradas releituras delas. Estava escrevendo às quatro horas da madrugada: ia às vezes à casa de Rodolfo, ou ficava dormindo na agradável companhia de percevejos, ou lia um livro pau de história. Acordava ao meio-dia, e, na mesma rua do quarto em que morava, tomava café-da-manhã em uma pensão, onde, às sete da noite, jantava. Trabalhava na revisão do Correio da Manhã das nove às duas da madrugada, com intervalo à meia-noite para duas enormes xícaras de café, dois pães e um pedaço de queijo: “e não sei quando poderei chegar a alguma coisa”. Dali a uns dias, contou à mãe e às irmãs Leonor, Otília, Otacília, que depois de muita pesquisa e pechincha, mudara-se para uma casa de pensão bem mais confortável, onde finalmente ouvira seu nome, com a dona da casa chamando: “O café para seu Ramos”: “Estou admirado!”, “Enfim tenho um nome”. Vê uma ruma de livros num quarto fronteiro: “Bom sinal”. A família serve-se em mesa separada: “Melhor sinal”. Mas ouve a filha da dona rebentar lá fora as teclas de um piano: “Não é bom sinal...”

 

Meu antigo quarto da Avenida tinha um metro de largura, uma cama onde havia um bando de animais, um toucador e uma cadeira; entrava-lhe pela única janela que possuía uma inundação de sol; pelos corredores e por toda a parte hóspedes gritavam, cantavam, desciam escadas e subiam escadas; e o barulho da rua que apenas se modificava um pouco depois das duas da madrugada, era capaz de endoidecer um surdo. Custava-me cinquenta mil réis aquele chiqueiro, onde às vezes o criado passava três dias sem entrar, para fazer a limpeza. (20-10-1914)[196]

 

Apresentou uma cronologia de seus feitos e argumentou que poderia voltar, mas só depois de lutar por um bom tempo. Pinto, mesmo próximo dos familiares, andava triste, nostálgico – “ele, eu, todos enfim”. Confessou ser um animal estúpido, que dizia não gostar de café com leite sem nunca o ter experimentado. Agora descobrira que era, com um pouquinho de café e muito açúcar, uma das coisas melhores que havia sobre a terra. Tinha raros contatos com alagoanos e acreditava que a colônia alagoana, conforme diziam, era mesmo a pior de todas. Entre os do Rio, por quem tinha mais antipatia, certamente mútua, era um sujeito[197] que lhe havia prometido lugar na redação de O Século.

 

23 de setembro – entrei para o Correio da Manhã na qualidade de foca; 11 de outubro – passei a suplente de revisão; 16 de outubro – ganhei os primeiros cinco mil réis em novo emprego; (20-10-1914)

 

pode juntar abaixo da última linha: 18 de dezembro: – Entrei, como suplente de revisão, para O Século; à noite, no Correio. Não faço ainda nada, porque sou suplente. (18-12-1914)[198]

 

É o diabo! A gente nunca perde a esperança. A esperança foi a única coisa que ficou dentro da caixa que Júpiter ofereceu a Pandora. Mas... vocês não sabem nada de mitologia, e eu estou aqui a dizer uma chusma de tolices. (20-10-1914)

 

A Leonor, sempre em tom mais íntimo de amorosa fraternidade, respondeu que estava claro que o pai lia as cartas, mas não havia segredos nelas. Comentava as novidades de Palmeira, entre outras, a de sua fazenda, onde o gado diminuía, a do irmão Clodoaldo, que agora montava em bicicleta, a da morte de uma figura querida da cidade, e, à lembrança do alegre dr. Helvécio e do casamento da simpática senhora Donana, repeliu a da desagradável D. Luz, mandando para o diabo todas as professoras analfabetas que havia por lá.

 

Meu pai mandou-me dizer que vocês estavam magnificamente e que esse Pinga-Fogo[199] era um paraíso. Deu-me o conselho de voltar, caso fosse caipora, prometendo-me aí uma penca de felicidades. É o que farei, não tem dúvida nenhuma. Mas depois, quando tiver lutado muito tempo e quando me sentir inteiramente desanimado. (20-10-1914)

 

Então meu pai está mesmo feito uma espécie de padre? Interessante... (08-12-1914)[200]

 

Quanto à ida de Leonor para Maniçoba, fez uma listagem irônica da paisagem que a esperava – macambiras, quipás, mandacarus, xique-xiques, alastrados, coroas-de-frade, rabos de raposa, palmatórias – e recomendou que levasse muitos livros. Com ares de escritor, pediu dados detalhados sobre a cidade.

 

Tu me farás um favor. Manda-me dizer circunstancialmente tudo o que se passar aí durante o Natal. Novenas, missas, procissões, tudo. Fico-te agradecido. (08-12-1914)

 

Andando sempre com a mesma roupa desde que chegou, pretendia comprar um terno. Outra despesa extraordinária foi a compra de um dicionário de 50$ por 24$, num sebo, além de material de papelaria. Contou, procurando assunto, que tinha ocorrido um extraordinário rebuliço na pensão, com o casamento, em São Paulo, da senhorita Lili, que lhe devolveu um livro, por intermédio da mãe, juntamente com um botão de flores de laranjeira: “Se eu soubesse fazer versos líricos, tinha hoje um assunto magnífico...” Por sua vez, a mãe da moça emprestou-lhe o pavoroso La trouée, de Pedro Eremita, algum idiota que se fez santo. Graciliano disse à senhora que ia ver se conseguia ler o livro. Preocupado com a saúde da mãe, beijando-lhe as mãos, agradeceu sua carta, que Rodolfo tinha levado ao Correio da Manhã, e garantiu a reciprocidade no prazer que ela manifestara em receber as do filho.

 

Estou quase satisfeito, porque ontem, depois de maduras reflexões, comprei duas caixas de papel, uma de penas, uma de grampos, um livro em branco, um tinteiro e a caneta com que te estou a escrever. Tudo por 6$. Creio que agora poderei continuar a trabalhar em meus contos. (08-12-1914)

 

Vou escrever agora um soneto para o jornal de um amigo que me pediu qualquer coisa para publicar. Quanta honra para um pobre marquês... (08-12-1914)

 

Pois é verdade – não tenho assunto e estou condenado a entregar, dentro de quatro dias, um soneto e um artigo[201] para dois jornalecos de dois rapazes que trabalham na revisão do Correio. (14-12-1914)[202]

 

Nos momentos finais de seu tempo de poeta, publicou o último soneto[203], dentre os localizados:

 

O velho tronco   

 

No florido pomar o velho tronco dorme,

Tristemente isolado. Eu creio que é ironia,

Raiva ou sátira cruel, capricho ou zombaria

Do acaso estar ali aquela cousa informe.

 

E foi grande. E, estendendo a galharia enorme,

Muita vez, a agitar a ramagem sombria,

Amantes abrigou. O sonho, a fantasia,

Jazem mortos ao pé do tronco desconforme.

 

Vede. Agora – coitado! – é um teto que declina,

Um corpo que apodrece, uma pesada ruína,

Um ser exposto à chuva e ao sol, ermo e fanado.

 

Não vive mais o grande, o velho confidente

De amores, e, se vive, eu creio que é somente

Para carpir desgosto e chorar o passado.

 

Recife                                  Soeiro Lobato

 

(O Malho, 19-12-1914, ed. 640, t. 30)

 

Joaquim Pinto da Mota Lima Filho, em “Pensando em Graciliano”, Diário de Notícias, 01-11-1953, por ocasião do falecimento de Graciliano, relembrou o tempo de juventude em que viveram no Rio:

 

Antes de arranjar trabalho, ia ver Graciliano todos os dias na pensão do largo da Lapa.

No Passeio Público líamos as cartas de casa, à sombra das velhas árvores, olhando as cegonhas à beira do lago artificial.

 

A vida era fácil. Graciliano pagava oitenta mil réis por mês na pensão de d. Helena, uma das muitas casas que hospedavam estudantes. O primeiro terno que fizemos no Rio nos custou cem mil réis. As botinas, vinte e cinco, o mais que então se pagava por um calçado.

 

A gente tomava seu café, abria o Jornal do Brasil  e procurava casa na coluna Aluga-se. Escolhia o bairro e ia ver com toda a calma.

 

Graciliano frequentava o teatro: Leopoldo Fróis e principalmente os portugueses, Chaby, Cristiano de Sousa, Adelina e Aura Abranches, na companhia de Alexandre Azevedo.

 

Fazíamos às vezes longas caminhadas. Uma noite fomos a pé, contornando a praia, com um companheiro de jornal, da ponta do Leme à igrejinha de Copacabana.

De outra vez deixamos nosso quarto da rua Riachuelo, certa madrugada, com uma chuvinha fina, tomamos um bonde no largo de São Francisco e descemos no fim da linha de Piedade para andar nas ruas suburbanas, àquela hora desertas e quase às escuras.[204]

 

No primeiro semestre de 1915, o último de sua estada de um ano no Rio de Janeiro, foram publicadas onze cartas, à mãe, ao pai, à irmã Leonor e uma à irmã Otacília. Confirmando o gosto pela prosa, confessado na entrevista dos dezessete anos, citou contos ou novelas que vinha escrevendo: uma sobre um padre, A carta, O discurso, Maldição de Jeovah, Um retardatário. Oscilante entre possibilidades que se abriam a ele, como as providenciadas por Ildefonso Falcão[205], e a resolução de voltar, definida em maio de 1915, bem antes, portanto, dos acontecimentos trágicos em Palmeira dos Índios, Graciliano entrou em estado de desorientação em agosto, transtornado com as notícias imprecisas dos telegramas sobre a morte do irmão Clodoaldo e a enfermidade que atingira a mãe e a irmã Leonor.

 

No início do ano de 1915, em carta ao pai, manifestava alívio pelo seu restabelecimento e o aconselhava a continuar com a medicação, para evitar recaída. Contava que apesar de só ter conseguido três vezes trabalho em O Século, persistia apresentando-se à redação do jornal só para não fazer desfeita ao intratável e rude chefe da revisão do Correio, que o colocara entre os preferidos e o encaminhara para lá. Mesmo com as intriguinhas do ambiente, encontrava alguns bons companheiros, como um velho português. Com todas essas dificuldades, preferia a revisão ao balcão “aí”, onde estaria condenado à preguiça. Tinha feito a revisão em O Século das últimas notícias sobre Nilo Peçanha, mas não sabia bem do que se tratava: “a cidade está agitada”[206]. Mais à frente, em carta de fevereiro à mãe, após eleições para deputados e senadores em 30-01-1915, mandaria dizer ao pai que o processo era o mesmo que conheciam: atas falsas, livros roubados, atentados. Divertiu-se com um colega que lhe perguntou se “o nosso partido” tinha vencido. Graciliano soube então que pertencia ao Partido Liberal. 

 

Entre eles, conheço um velho, um português paupérrimo com quem trabalho sempre, boa criatura com quem me entretenho em longas palestras e que lamenta que indivíduos mais ou menos preparados como nós (é amável e não é modesto) vivam na miséria, enquanto se empregam uns boçais... Pensam que eu vivo na miséria, porque ganho pouco. Não digo o contrário por dois motivos – não desejo que me arranquem os dias de trabalho nem que me peçam dinheiro emprestado. (09-01-1915)[207]

 

Em carta a Leonor, num mar de suor, zumbidos, olhos que ferviam e letras que dançavam, reclamou do terrível calor no início do ano, que já havia matado quatro pessoas. Saudoso, com vontade de voltar, mas decidido a permanecer e não abandonar a luta, comentou singelamente todas as notícias de Palmeira, os ensaios de carnaval, mas no Rio, “carnaval de verdade”, já tinha iniciado desde o fim do ano. Prometeu enviar-lhe o figurino que ela pedira.

 

Tranquilizou a mãe, garantindo que não estava doente, os cento e vinte mil-réis que ganhava por mês eram suficientes para lavadeira, bondes, cafés, teatros e lhe deixavam com a consciência tranquila pelos cobres ganhos por esforço próprio e sem adulações, com uma vida melhor que a dos soldados e burros-sem-rabo. Almoçava às duas, quando – se lá houvesse trabalho – voltava de O Século, à tarde dormia, escrevia ou lia, jantava às sete, passeava de bonde ou ia ao cinema antes de ir às oito e meia para o Correio  – se lá houvesse trabalho. Voltava às duas da madrugada, ou às duas e meia, a pé, quando não havia mais bondes, tomava café, dormia sonhando com provas e pastéis, acordava às nove.

 

Pediu à mãe que contasse a Leonor que ele havia passado pela Rua das Marrecas, 27, relembrando a leitura com as irmãs das personagens e peripécias engraçadas  relacionadas ao endereço de A família Agulha[208]. Protestou que cobrassem muito caro o que chamavam hereticamente de frutas-do-conde, as sagradas pinhas palmeirenses. Lamentou que tudo no Rio dependia da semostração: tudo era reclamo, o burro falando em voz alta às vezes convencia os mais burros, e os que tinham algum talento, não falavam, pregavam, pontificavam, vitrinas expunham joias, mulheres aprimoravam-se em encantos fictícios, a imprensa publicava autoelogios, trocas do elogio pago, necrológios mentirosamente laudatórios, homens sérios abordavam a multidão: “Experimentem a pílula do dr. X”. Contou um caso de propaganda performática: num café, um indivíduo começara a fazer escândalo, com gestos violentos, protestando contra a patifaria –  mas, esclarecendo a seguir: “Descansem, meus senhores. Não é aqui, nem agora. É hoje à noite, no Recreio. É a nova peça A moratória conjugal, uma peça de gênero livre, somente para homens”. Um pobre-diabo tímido, como ele, estava condenado: ao ser apresentado a um poeta como literato, tinha negado a condição ao invés de “dizer tolices sobre a arte e sobre outras coisas que não conheço”.

 

Disse a Leonor que recebera a carta de Clodoaldo, de janeiro. Estava acostumado com coisas espantosas, mas a notícia, dada a ela por uma senhora, de que Graciliano fora visto embarcando para Natal-RN, era de arromba. Estava comovido pelos cuidados com a sua vida, tinha vontade de chorar. Soube, agradecido, da resposta da irmã, muito amável, muito delicada, à carta de Maria Augusta que pedia notícias da saúde de Seu Sebastião. Mostrou algum arrependimento por ter dispensado a pensão que recebia da família, pois talvez os cento e vinte mil-réis que estava ganhando não fossem suficientes. Mas não lhe agradava viver às sopas de casa. Quanto às doenças do filho de Leonor, era urucubaca hereditária, pois, além de afilhado, “o homem” era seu sobrinho. As lembranças enfáticas a Olímpia, irmã de Francisco e Octavio, podem ter inspirado o futuro Caetés.

 

N. B. Lembranças, muitas lembranças, à d. Olímpia Cavalcanti. (09-02-1915)[209]

 

Pinto deixara a casa de Rodolfo, dormia no quarto de Graciliano havia uma semana e comia na casa de Costa Rego, seu primo, que lhe dera recomendações para a Tribuna e para Álvaro Paes[210]. Pinto ganhara, finalmente, desde a chegada, cinco mil-réis no Correio, onde trabalhara uma noite. De chapéu sujo e amarelo[211], tinha dado uma série de cabeçadas. Talvez tomasse juízo, a dona da pensão de Graciliano lhe arranjara um quarto em Riachuelo, na casa da irmã dela. Graciliano reclamou dos bons amigos que não lhe escreviam. Despediu-se logo da irmã, pois andava muito ocupado em modificar “A Carta”.[212]

 

Escreveu a Otacília em 18-02-1915 festejando tanto a diminuição do calor, graças a N. S. Jesus Cristo, quanto o fim do carnaval, um pau com formigas: “o de lá[213] é muito melhor”. Mandou um conselho a Clodoaldo: que mandasse ao diabo o namoro e deixasse de ser idiota. Sobre a compra de uma vaca, disse que foi um roubo, ele conhecia bem o negociante, grande vocação para ladrão. Otília tinha colocado um N. B. na carta de Otacília, chamando Graciliano de preguiçoso. Ele mandou dizer-lhe que ela é que era preguiçosa, a tratante. Elogiou a letra de Otacília: “Nem pareces minha irmã...”

 

Brincando com Leonor, em carta de 20-03-1915, chamou de inqualificável procedimento de um animal relativamente civilizado e mais ou menos batizado, ela ter ido para Maniçoba vestida numa tanga, viver com onças e outros bichos, antes de lhe enviar “umas linhas tortas que ele publicara no Jornal de Alagoas[214]. Mas dava-se conta de que ela perceberia que sua reclamação era invejosa de sua viagem como a da fábula da raposa: “Estão verdes!” Vivia agora com três ortografias diferentes: a do Correio, a do Século, e a dele próprio. Disse que era muito desagradável morar com um imbecil: para fugir desse pau com formigas, deixaria a pensão e talvez fosse viver com o Pinto. Mandou lembranças a todo o pessoal sertanejo e bênçãos a dois afilhados de crisma que deveria ter por lá: um filho do Gato e um menino que tinha nome de mulher.

 

Escreveu para a mãe na sexta-feira santa, 02-04-1915, divertindo-se com todo tipo de provocação: disse que soube que estavam na semana santa casualmente, vendo um cartaz de cinema[215]. No grande dia em que a cristandade chorava alegremente a morte de seu Deus, d. Helena surrupiara-lhes piedosamente o almoço e o jantar. Mergulhou na leitura de A relíquia, de A loucura de Jesus e de O evangelho de S. Mateus[216]. Jejuou segundo os preceitos da Santa Madre Igreja, mas como achava o peixe do Rio de Janeiro ruim como o diabo, preferiu jejuar com carne, muita carne, feijão, arroz, verduras. Perguntou se Leonor ainda estava vivendo entre os quipás, mandacarus, coroas-de-frade e xique-xiques da deliciosa Maniçoba. Reclamou notícias de Palmeira, que há muito tempo não recebia: as últimas que recebera não eram boas: “Vive tudo a morrer”. Lançou a respeito uma série de interrogações sobre a rotina da cidade.[217]

 

Ontem, quinta-feira, para quebrar a monotonia da semana santa (que parece não ser aqui muito diferente das outras semanas), joguei bilhar[218] até uma hora da madrugada com três companheiros – o Jaime, o Carvalho, o Sílvio. Cinco partidas devotas, quinhentos pontos, numa sala chique com mais de vinte bilhares. Prejuízo de minha parte – oitocentos réis. (02-04-1915)[219]

 

Em abril, passou a colaborar, assinando com as iniciais R. O.[220] a coluna “Traços a esmo”, no Paraíba do Sul, jornal do interior do estado do Rio, a convite de Ildefonso Falcão. Rodolfo Mota Lima ali também publicava crônicas.

 

Oh! Aquilo é delicioso! Eu adoro o cinema. Gosto dos automóveis, dos passeios a barco, daqueles terríveis e invariáveis castelos com subterrâneos, dos lugares escusos onde os ladrões se reúnem, mascarados, depois de haverem passado pela complicação de uns corredores sombrios que têm alçapões traiçoeiros e veios de água a cantar. Admiro as florestas da Índia, os palácios exóticos, os ritos bárbaros do Oriente, todas as cópias dos velhos carapetões que o Júlio Verne pregou à humanidade. (Paraíba do Sul, 13-05-1915)[221]

 

Em maio, Graciliano resolveu voltar para Palmeira e deixou de procurar trabalho no Correio da Manhã e em O Século.

 

Em final de maio escreveu ao pai anunciando sua resolução de voltar. Mas achava que não deveria ir, pois tinha consciência de que era um tipo não propriamente equilibrado e sua presença em Palmeira seria dispensável. No Rio não era santo, mas ia no caminho do céu, apesar de o pai considerá-lo ateu: “Eu não me pareço ateu, como está em sua carta. Sempre o fui, graças a Deus, como dizia o saloio”. Argumentou que muitos santos foram ateus que entraram para a igreja com medo da fogueira: é que eles preferiram queimar a ser queimados, como dissera um moderno escritor socialista. Mas a religião havia perdido sua força: o Deus estava morto, coitado! Ainda insepulto, mas morto a valer, como os infernais hereges da atualidade afirmavam. Observou que a carta estava perdendo o fio da meada e atribuiu a culpa às dúvidas do pai sobre sua religiosidade, que, por todos os atos de sua vida, parecia suficientemente demonstrada. Disse que só havia dado desgostos ao pai: jogara, metera-se em farras, pintara a manta, nada teria de útil para fazer na terra adorável. Entretanto, sendo também inútil no Rio, preferia ser inútil em Palmeira. Abandonara o Correio e o Século e dedicava seu tempo agora a fazer nada, esperando comprar a passagem e umas gravatas: “Eu sou sempre o homem das gravatas”. Mas um amigo do Século, o velho Cordeiro, que Graciliano anteriormente havia favorecido, sendo agora chefe de revisão do Rio, iria propor à casa que o colocassem, por quatro mil réis, como efetivo, no lugar de dois animais que não sabiam ler e recebiam, cada um, dois mil e quinhentos. Rodolfo continuava insistindo para que ele ficasse, procuraria algo cavável na Gazeta de Notícias. Sabendo que essas coisas envolveriam conversas repassadas de um para outro, foi despedir-se do amigo. 

 

Para que servia eu aí? Para ensinar gramática aos rapazes? Mas eu sou burro como o diabo. Demais pode-se muito bem aprender gramática sem professor. E eu era, positivamente, um professor avacalhado.

 

Entretanto, se o velho Cordeiro, o único português passável que há no Rio, conseguir minha entrada no jornal de que falei, como efetivo, é claro, e o Rodolfo arranjar-me qualquer coisa na Gazeta, parece-me que fico. (24-05-1915)

 

Nessa situação indecisa, despediu-se com um adeus, ou até logo, conforme as circunstâncias: que o pai pedisse a Deus que o inspirasse, afinal Graciliano nunca tivera encrenca séria com esse cavalheiro, talvez viessem a ser amigos, mas duvidava um pouco. Se Leonor já tivesse voltado de Maniçoba, ele lhe enviaria uns jornais com artigos seus. Não os enviava para Otília, não só para ser equitativo, mas também por terem suas crônicas uma linguagem imprópria para uma ignorante provinciana que vestia saias largas, que não tocava piano, não dançava quadrilhas, não falava francês, não comia com garfo, não tinha doze dúzias de namorados. Mandou lembranças a todos, que talvez abraçasse em breve, sem levar nada do Rio, nem o é! sim!, nem o uê!!!

 

Não sei se será conveniente continuarem aí a escrever-me. Está claro que, aparecendo qualquer coisa de extraordinário, devem avisar-me, porque afinal pode ser que, por acaso, eu fique. E se for, o que é mais provável, o Pinto terá o cuidado de mandar-me as cartas que me forem endereçadas.

 

Os tais artiguetes são um bocado duros. Eu só escrevo coisas alegres, mesmo quando estou triste. Coisas tristes, faço-as também, às vezes, mas para meu uso particular, para a gaveta e para as traças. (24-05-1915)

 

Em 10-07-1915, desculpou-se com Leonor pelo papel miserável da carta, pois as tiras ele tinha gastado, bem, nas cartas aos pais, e mal, talvez, nas folhas que cobriu de traços[222] enviados ao Paraíba do Sul. Desculpou-se também por não lhe ter dado boas-vindas pelo seu retorno de Maniçoba, mas a culpa era do padre: “um padre ordenado por mim”: a novela que escrevera nos últimos dias e que haveria de ter um êxito considerável em Palmeira[223]. Compensaria com egoísmo os dois meses sem resposta à Leonor del mio cuore, falando de suas reles produções, já que nem a mãe entenderia o assunto, nem o pai, homem de negócios, muito positivo.

 

Os traços[224] não eram Arte, revelavam mais habilidade que talento e, feitos de graça, serviam para relações por interesse, que, segundo Balzac, eram as amizades mais fortes – para Graciliano a observação seria talvez maliciosa, mas com um fundo de verdade. Após inimizade inicial com Falcão, devido a uma teima boba entre eles no Correio, fizeram as pazes durante o carnaval. Depois o novo amigo, que era redator de O Século, lhe encomendara uma notícia sobre um livro, tinha gostado, pedira um artigo[225] e a seguir o convidara para sustentar a seção no Paraíba do Sul. Além das novelas A carta e O discurso, já conhecidas por Falcão, mostrou-lhe Maldição de Jeovah, numa tarde magnífica, fazia um mês, que passaram na companhia de Pinto, que ainda morava com Graciliano. Falcão antes o julgava burro, agora viera visitá-lo para que opinasse sobre os originais de um livro que iria publicar[226]. Recentemente, no Café do Rio, trazendo o álbum de uma poetisa para Graciliano escrever nele uns versos[227], Falcão lhe pedira uma de suas novelas para suprir o convite de publicação que recebera da Revista Americana, pois ele mesmo não tinha nada pronto. O Café do Rio era o ponto de encontro dos amigos como Rodolfo, onde discutiam coisas transcendentes e tomavam copos de água... gratuitos, à exceção do Velho Cordeiro, que às vezes se dava ao luxo de uma xícara de café ou de um cálice de anis.[228]

 

Falcão ali reapareceu, entusiasmado, parabenizando Graciliano pelo conto[229] que lhe havia passado: Um retardatário[230]. Abraçando-o, veio com a seguinte estória: antes de levar o texto para a Revista Americana[231], encontrara o secretário da revista Concórdia, publicação tão importante quanto a outra, no formato da Ilustração Francesa, em papel couché. O secretário da Concórdia começara casualmente a folhear o texto,  acabara arrebatado, uma a uma, pelas 25 páginas do conto – e o tomara para sua revista, lamentando que só os cabotinos apareciam, enquanto talentos como aquele ficavam na obscuridade: “Uma caterva de patranhas enfim”, Graciliano observou a Leonor. O amável Mecenas, entretanto, preferiria que a publicação ocorresse na Revista Americana, de sujeitos graúdos. Havia ainda outras duas novelas[232] para lá publicar, que Graciliano achava ruins, mas se insistissem, ele se convenceria de que não eram más. Tinha medo de aparecer e não tinha a fotografia que o sujeito da Concórdia exigia juntamente com umas notas a seu respeito. Mas Falcão queria que Graciliano aparecesse, estava disposto a escrever ele mesmo as notas e viria buscá-lo para tirar o retrato. Com tergiversações minuciosas, Graciliano mandava ao diabo a modéstia, a timidez e o receio de expor na maturidade sandices a público, submetendo-se àquele mundo em que tudo era fita, era preciso ser afoito, imodesto, cínico, fazer réclame, estudar pose. Afinal, justificava, se suas produções ficassem inéditas nunca poderia saber se prestavam. Portanto, iria publicar em revistas sérias, de gente grande, coisas sobre Palmeira dos Índios, único lugar que conhecera um pouco desde que tivera idade de pensar[233]: que Leonor dissesse ao pai que ele não estava perdendo tempo. Se desse certo, poderia conseguir alguma coisa, se não, paciência... E que Leonor mandasse ao diabo preocupações com estar tuberculosa, ele, que era magro, nunca havia pensado nisso[234]. Tinha muito ainda o que fazer no dia, eram três horas da tarde e até às seis precisava de estar com umas quinze tiras prontas. Em N. B., combinou: se publicasse, mandaria as novelas para Leonor desde que ela não as mostrasse absolutamente a ninguém, pois não queria provocar animadversão com certas personalidades que pudessem reconhecer-se em suas alusões.[235]

 

E pensando bem, chega-se a esta conclusão – um animal que, aos treze anos[236], publicava sonetos idiotas no Correio de Maceió e no Malho (barbaridades, está claro!) pode, talvez, aos vinte e três, quase, não tendo perdido todo seu tempo, fazer qualquer página passável. É verdade ou não é verdade? (10-07-1915)

 

Graciliano, atarantado depois de receber um telegrama anunciando a morte do irmão Clodoaldo, escreveu ao pai em 06-08-1915. A notícia era contraditória, pois nas últimas cartas,  com data posterior à do telegrama, não tinham dito nada a respeito de doença do irmão, o que o levou a imaginar alguma blague, hipótese descartada pela crueldade que implicaria uma brincadeira desse tipo, mas que, desorientado, ele repisou, para a seguir afastar novamente tal possibilidade. O telegrama havia demorado muito para chegar. Espantava-se com a notícia repentina: teria sido um acidente, um desastre?

 

Garantiu que ele próprio estava com a saúde perfeita, não havia motivo para a preocupação manifestada pelo pai. Indicado por amigos, preparava-se para entrar, justamente no aniversário de sua saída de Palmeira, dia 16, em dois jornais ricos[237] que seriam inaugurados. Mas diante da notícia trágica, dava-se conta de que nada disso se realizaria. Para evitar ser levado pelo primeiro impulso, atitude sempre desaconselhável, não tomaria o próximo paquete, esperaria esclarecimentos. Indicou seu endereço: Rua Maranguape, nº 13.

 

Em carta ao pai, de 26-08-1915, comentou que tudo se esclarecera com as cartas dele recebidas no dia anterior, que lhe informavam o erro na data do telegrama. Fez reflexões sobre a perda de um ente querido, sobre a felicidade dos que vão e a infelicidade dos que ficam. Nunca se era feliz, quando se conseguia experimentar algum contentamento relativo partia-se o anel da cadeia que nos prendia à vida. Mas não era injustiça perder um filho pequeno, antes era um grande favor que se fazia a uma criança[238] livrá-la das torpezas da vida: o nosso pesar era egoísta.

 

Como Deus é mau e injusto! Como seria mau e injusto, quero dizer, se existisse! (26-08-1915)

 

A carta de Palmeira dos Índios, de 18-08-1915, dizia haver febre de mau caráter na cidade, mas garantia que todos em casa estavam bem de saúde. Entretanto, o telegrama de 19-08-1915 informava que Leonor e a mãe, doentes de febre, tinham sido atacadas no mesmo dia. Graciliano advertiu que via maus presságios de coisas tristíssimas, o diagnóstico para Clodoaldo parecia equivocado, possivelmente de médico novato, as febres talvez fossem epidêmicas em razão da seca que o norte vinha sofrendo.

 

Retomou o assunto de carta anterior sobre sua presença inútil, prejudicial ou aborrecedora em Palmeira: o que o entristecia e apavorava era ter lá uma vida parasitária, a pior das vergonhas, o emprego na loja era uma sinecura, já bastava o que lhe vinha acontecendo, envergonhava-se da mesada que recebia, um roubo a seus irmãos. Seria possível arranjar lá um trabalho de verdade?

 

Dos ”dois jornais ricos”, acima referidos por Graciliano, ficaram notícias apenas de A Tarde[239].  Assumira a oferta de trabalho em A Tarde pensando na possibilidade de uma circunstância imprevista que o obrigasse a ficar, ou para passar o cargo para Pinto, caso voltasse a Palmeira, como pretendia. O emprego lhe parecia suficiente para manter-se. Poderia também conseguir trabalho à noite em outro jornal, alcançando no total cerca de trezentos mil-réis, ou dar lições em algum colégio, embora achasse que não sabia nada, ou tornar-se sem muita dificuldade redator de qualquer coisa, com a desvantagem de levar calote de quando em vez. Empregos públicos sem pistolões não eram fáceis. Sem dizer nada sobre sua volta, o pai deixava-o indeciso, falava em ser sua carreira prejudicada, mas Graciliano não sabia bem se tinha carreira: as perspectivas eram aquelas, com ordenado medíocre, sem futuro de outra espécie à vista. Tinha o bom senso de julgar-se aproximadamente analfabeto, embora houvesse analfabetos que venciam, mas ele era uma espécie de idiota que não sabia cavar como os outros. Contava isso tudo ao pai com sinceridade, como se estivesse falando consigo mesmo, mas queria saber sua opinião.

 

Tinha se encontrado com um conterrâneo, que estava encantado, achando o Rio um paraíso. Talvez pudesse aproveitar sua companhia para a volta: que o pai escrevesse logo, Graciliano estava apreensivo, com receio de receber outras notícias más naquele funesto mês de agosto.

 

Não me tenta a Palmeira. Mas acredito que com o sacrificar-me, não sacrificarei grande coisa.

 

O que é mau é abandonar a gente uma coisa que começa a aparecer depois de uma espera longa. (26-08-1915)

 

Muitos habitantes de Palmeira dos Índios, fugindo do surto de peste bubônica, abandonaram a cidade, entre eles a família de Maria Augusta. Ela, entretanto, recusou-se a ir: hospedou-se na residência dos Ramos, auxiliando no tratamento dos doentes e costurando mortalhas para os que sucumbiram. Marili Ramos relembra:

 

Papai surpreendeu-se. Pediu-lhe que considerasse o que fazia. Ela, calma, respondeu que morreria contente morrendo conosco. Com tal expediente ela venceu a prevenção que havia, tornou-se membro da família, e tratou com desvelo os doentes.[240]

 

Faleceram três irmãos e um sobrinho de Graciliano: primeiramente Clodoaldo, logo depois a Leonor del mio cuore (1894-1915, 20 anos), seu filho Heleno (sobrinho e afilhado de Graciliano, daí contaminado duplamente por sua urucubaca, como ele dissera em carta anterior) e Otacília (1900-1915, 15 anos). A mãe e a irmã Marili, atacadas pela peste, sobreviveram.[241]

 

Depois de trabalhar como suplente e revisor escassamente no Correio da Manhã, quase nada em O Século, possivelmente alguns dias em A Tarde, produzir contos, algum poema e publicar crônicas no Paraíba do Sul e no Jornal de Alagoas, Graciliano voltou para Palmeira dos Índios aos 22 anos de idade. A menina Marili viveu o retorno do irmão moço:

 

Estávamos em setembro. Uma noitinha, Grace chegou.

Corri para a calçada. Vi um rapaz alto, delgado, com um grande lenço roxo no pescoço, desmontar e entregar as rédeas a um criado. Achei lindo o lenço. Elogiei-o. O rapaz tirou-o do pescoço, sacudiu a poeira, e o pôs em meus ombros. Radiante, embrulhei-me nele, e fiquei querendo muito bem ao meu irmão rapaz.[242]

 

1915 -1930 – Palmeira dos Índios

 

Perto de um mês depois de voltar do Rio, às vésperas de completar 23 anos de idade, Graciliano providenciou os papéis para se casar em 21-10-1915 com Maria Augusta de Barros, dezenove anos[243], depois de os pais da moça terem retornado a Palmeira dos Índios, com o fim do surto bubônico. Marili Ramos lembra:

 

A família de Maria Augusta voltou. Ela, porém, continuou conosco. Um dia, seu pai, senhor Aprijo Barros, tomava café lá em casa, quando Grace entrou na sala de jantar, com um braço sobre os ombros da namorada e disse: “Seu Aprijo, eu vou casar com esta pequena. Que acha?”

 

Maria Augusta, moça alegre, muito simpática, um tanto bonita, de cabelos castanhos claros, longos e cacheados, era boa costureira, econômica, trabalhadora e tinha um jeito especial para arrumar a casa e conservá-la caprichosamente asseada. Ótima companheira, votava particular afeição a Otília e a mamãe, a quem chamava madrinha.[244]

 

Para escândalo mudo dos circunstantes e constrangimento da noiva católica, casaram-se apenas no civil, depois de Graciliano improvisar mobílias e alugar uma casa. Valdemar de Souza Lima e Clara Ramos comentam:

 

casa que Terto Canuto possuía no Pingafogo, para onde transportou, cedidos que lhes foram, uma mesa de jantar, meia dúzia de cadeiras de cipó, um guarda-comidas e outros trastes usados [245]

 

Apesar da advertência da sogra de que, se concordasse com a mancebia legalizada, jamais teria uma união religiosa e real, a moça conseguirá do marido, meses depois, os sacramentos que lhe apaziguarão a consciência.[246]

 

Graciliano, casado e comerciante, tentou – de 1915 a 1920 – abandonar as leituras e a prática da literatura, como prometia nas cartas do Rio de Janeiro.[247]

 

Com a instalação em Palmeira dos Índios do Tiro de Guerra nº 384, Graciliano, casado, prestou o serviço militar.[248]

 

O primeiro filho do jovem casal, Márcio Ramos, nasceu em 14-09-1916.[249]

 

Sebastião Ramos de Oliveira publicou reiteradamente esta nota em maio de 1917:

 

Declaração

Faço saber a todos aqueles a quem interessar possa esta declaração que no dia 30 de abril, próximo passado, me retirei da firma Ramos & Filho, que nesta cidade existia, ficando daquela época em diante responsável pelo Ativo e Passivo da citada casa meu filho e antigo sócio Graciliano Ramos, que continuará a negociar com sua firma individual.

Palmeira dos Índios, 6 de maio de 1917.[250]

 

Segundo Marili Ramos, a partir daí o estabelecimento passou a se chamar Loja Sincera:

 

Logo depois de casado, Grace estabeleceu-se na casa comercial que pertencera a papai. Deu à casa o nome de Loja Sincera. Ficava essa loja no Quadro, hoje Praça da Independência[251]

 

Nasceu em 13-09-1917 Júnio Ramos[252], o segundo filho de Graciliano e Maria Augusta.

 

Dois anos depois do nascimento de Júnio, nasceu em 29-09-1919 Múcio Ramos[253], o terceiro filho do casal.

 

Marili Ramos lembra como, depois de seus doze anos de idade, o irmão foi importante para sua formação, em “conversas que iam além das onze horas da noite, nos dias em que não havia cinema”. A menina sentia-se à vontade para expor suas dúvidas a ele, que lhe dava verdadeiras aulas sobre reprodução, história, física, astronomia, despertando sua grande simpatia por Galileu, revelando seu espírito crítico para os desmandos dos poderosos e da Igreja.

 

ele informava, sem constrangimento, que Lutero, sendo interrogado pela irmã católica, qual a melhor religião, dissera: “Para a vida, a minha; para a morte, a sua”.

 

Recordo-me do dia em que ele, muito pensativo, disse: “Onde estará, realmente, a verdade? Você não sabe como é feliz quem tem fé”.[254]

 

Colaborava com a esposa nos afazeres domésticos, como registra Valdemar de Souza Lima:

 

Dona Amália Ramos, irmã dele, contou-me que Graciliano, nos dias de domingo, quando se achava despreocupado em casa, munia-se de um pano para limpar os móveis da sala de visitas. E uma amiga do casal, indo, certa manhã, tratar de um negócio com Maria Augusta, ficou surpreendida com ele na cozinha, uma toalha enrolada na cabeça, ralando, pachorrentamente, o milho do cuscuz, enquanto a mulher de lado cuidava de outros arranjos, pouco se lhe dando a ele que a sua performance se tornasse conhecida lá fora e o tachassem de “dominado”.[255]

 

Além da compra de livros, acompanhou pelos jornais eventos como a Revolução Russa e, posteriormente, a Semana de Arte Moderna de São Paulo, como contou a Homero Senna:

 

Tendo vivido quinze anos completamente isolado, sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da revolução russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me daqui, do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.[256]

 

Faleceu Maria Augusta, aos 24 anos, em decorrência do parto da menina nascida em 23-11-1920, batizada com o nome da mãe: Maria Augusta Ramos[257]. Marili Ramos relembra esse momento lancinante[258], em que Graciliano, aos 28 anos, tornou-se viúvo, com quatro filhos para criar:

 

Ficou-me gravada na memória a figura dele, sentado na cama, tendo na perna a cabeça da morta[259], alisando-lhe os longos cabelos, molhando-se com abundantes lágrimas, esquecido de todos, esquecido de tudo, entregue à dor que o avassalava.

 

Não pensando em se casar novamente, não querendo ficar com empregada nem voltar para nossa casa, convidou Daia para cuidar das crianças. Ela, com 16 anos, aceitou o convite e encarregou-se dos sobrinhos.[260]

 

Há menção de que, nesse período, lecionava no Colégio Sagrada Família.[261]

 

Graciliano passou a vestir-se de negro e raspou o cabelo.

 

Durante um ano, tudo nele era preto – do chapéu aos sapatos, tudo preto.

 

Nos primeiros tempos de viuvez, deu-lhe na telha também mandar cortar o cabelo rente, e mais tarde, achando que isso ainda era pouco, recomendou ao cabeleireiro que lhe raspasse definitivamente a cabeça.[262]

 

Ainda que tenha sempre ironizado o Espiritismo, dedicou-se a leituras sobre teorizações, por exemplo, do astrônomo e estudioso de paranormalidade Camille Flammarion, cujas obras, anos depois, Ricardo Ramos encontraria na estante do pai: Avant la mort e Autour de la mort, sob o título geral de La mort et son mystère.

 

Enviuvara, a primeira mulher morta de parto. Do dia para a noite, ele e três filhos pequenos, mais uma coitada recém-nascida. De dia, tentava ocupar-se dos meninos. Mas as noites eram longas, solitárias, ampliavam a lembrança. Em volta, o clima de interior, de crendice, as empregadas viam a antiga dona da casa no seu quarto, penteando os cabelos. Sugestionado, passou a invocá-la. O tempo corria, nada, nem sombra. Desconfiado procurou informar-se, e leu, leu muito.[263]

 

Cinco anos depois da experiência frustrada no Rio de Janeiro, que pusera fim a suas atividades de escritor e jornalista, o jovem viúvo passou a colaborar com o novo semanário de Palmeira, O Índio - Jornal Independente, Literário e Noticioso[264], a convite de seu fundador, o Padre Francisco Xavier de Macedo. Há marcas de seu estilo em textos sem assinatura, como artigos, respostas a correspondência, notas[265], mas os textos de autoria identificada com mais persistência são aqueles assinados com os pseudônimos[266]: X para a coluna Garranchos, Anastácio Anacleto para versinhos, ditos ou pequenas notas de cunho epigramático na coluna Factos e fitas, de curtíssima duração[267], e, para as crônicas de Traços a esmo, J. Calisto. Durante três meses, Graciliano, aos vinte e oito anos, participou ativamente das quatorze primeiras edições do jornal, desde o número inaugural em 30-01-1921 até a edição de 01-05-1921[[268]]. Depois “retirou-se”.[269]

 

Enquanto atuou, Graciliano publicou crônicas como esta:

 

O futebol não pega, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos.

As grandes cidades estão no litoral; isto aqui é diferente, é sertão.

 

Reabilitem os esportes regionais, que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência![270]

 

Não há notícias de identificação comprovada de autoria dos textos não assinados de O Índio. Os traços de estilo de Graciliano Ramos são insuficientes para identificá-lo sem risco de equívoco, uma vez que, além da influência que pudesse exercer sobre os companheiros de redação, disseminando tais marcas, sua ingerência editorial parece ter sido ampla, a crer no seu depoimento em carta de 04-08-1921, ao amigo Pinto: “Durante o tempo que ali trabalhei, esforcei-me por melhorar os artigos dos outros. Mas quem melhoraria os meus, que eram quase todos?”[271]

 

Correspondência

 

As respostas à correspondência para O Índio, que Ivan Barros atribui a Graciliano[272], ainda que predominantemente mais cordatas e contidas, têm muito do espírito esculhambador do Dr. Cabuhy Pitanga de O Malho, com o qual o amigo Pinto e ele se divertiam na juventude. Alguns exemplos:

 

MATUTO ATREVIDO – Não publicamos panegíricos. O amigo excedeu-se em elogios individuais, o que é contrário a nossa índole. De resto os fatos de que trata seu artigo já foram comentados por este jornal debaixo de um ponto de vista diferente. Publicaremos, sendo feitos com algum jeito, artigos de interesse geral. (13-02-1921, ed. 3, t. 4)

 

S. L. – Caramba! hombre! O sr. atirou-nos tantos elogios que estamos  positivamente confusos. Fala em nosso engenho sublime... Francamente, é excessivo. Não somos o que o sr. diz: somos apenas uns pobres diabos que aqui nos arriscamos a rabiscar papel como Deus é servido. Demais seu trabalho tem defeitos graves. Começa a explicar o motivo pelo qual nos aparece. Diz em seguida que não tem absolutamente nenhuma ideia, o que é estranhável em quem escreve. Entra depois a prodigalizar-nos elogios em penca e termina com a descrição de um pôr de sol. Há, portanto, em seu trabalho, ausência completa de unidade. Entretanto, aproveitaremos, quando houver espaço, o fim de sua produção, convenientemente modificado, porque o princípio e o meio – valha-nos Deus! – nem com a mão do Padre Eterno. (20-02-1921, ed. 4, t. 4)

 

MOACYR – Sua carta é tão amável, tão modesta, que, depois de a ter lido, estávamos positivamente predispostos a seu favor. O sr. tinha pelo menos cinquenta por cento de probabilidades de ser bem aceito. Com a leitura dos originais, ficamos um pouco desapontados. Com a breca! O sr. emprega umas palavras tão difíceis... Tem uma linguagem muito campanuda. Não compreendemos bem as charadas, que nessas coisas de tratos à bola não somos fortes. Os Traços estão fracos. Parece-nos que o sr. teve a preocupação de substituir ideias por palavras. O soneto “Descontente” tem alguns defeitos. O segundo e o penúltimo versos estão positivamente quebrados. Há ali rimas forçadas e alguns cochilos de gramática, como nessa e esse, nos dois primeiros versos do primeiro terceto, por os, no penúltimo verso do último terceto. O destino em pugilato só pode entrar por necessidade de rima. Temos para com o amigo uma franqueza assim porque sua carta nos inspirou muita simpatia. Os Traços serão aproveitados, quando houver espaço. Os versos e as charadas não. Só publicaremos versos por exceção. (27-02-1921, ed. 5, t. 4)

                                                              

L. (S. Miguel de Campos) – Recebemos seus Traços do carnaval. Temos aqui uma chusma de trabalhos com o título de Traços. Começando por nosso amigo, correligionário e quase parente J. Calisto, que faz Traços à toa, a esmo, como ele muito bem diz, nossos colaboradores entraram a traçar tanta coisa que é mesmo um nunca acabar.

Ora, os Traços que o amigo nos mandou chegaram com um atraso lamentável. Como quer que demos notícia de coisas que se passaram pelo carnaval? Valia quase o mesmo noticiar a chegada de D. João VI ao Brasil – ou D. João vi, como diz um respeitável e pitoresco assinante desta folha. Pode, pois, o amigo gabar-se de ser um perfeito repórter-tartaruga. Até admira que um homem tão moço escreva coisas tão velhas... (06-03-1921, ed. 6, t. 4)

 

JOÃO DA LUA (Maceió) – Apesar do nome, queremos acreditar que o senhor não vem do mundo da lua. Deve ser um cidadão cá da terra, visível, palpável, como os outros. Entretanto, permita que lhe digamos que achamos em seu trabalho um certo modo de lunático, o que justifica perfeitamente o nome que adota. Tanta palavra gasta para dizer que gosta da noite... Nós também gostamos dela, graças a Deus, pois o travesseiro sempre é mais agradável que a mesa dura em que escrevemos; mas não vamos tão longe. O Coliseu, os Ciclopes, Hécate, Cômodo, Hebe, a fonte de Hipocrene, Febo, Glauco, Ione e o mistério, tudo de mistura a propósito da noite, a encher duas tiras – francamente – parece-nos excessivo. Receberemos com prazer coisa menos complicada, acessível à percepção do vulgo. Que nós, afinal, como toda a gente, só compreendemos o que é feito para ser compreendido. E o seu trabalho é confuso como o oráculo de Delfos, já que a mitologia lhe agrada... (13-03-1921, ed. 7, t. 4)

 

HPITO SBEM (Arapiraca) – O senhor tem muita graça. Não ouviu daí as gargalhadas que nós demos? Pois nós nos rimos muito. É pena que esteja a gastar tanta verve em Arapiraca. É conveniente ler com atenção e não ver em tudo frivolidades. Há coisas que são mais sérias do que parecem a um espírito que busca em tudo palhaçadas, sem penetrar nunca a essência do que lê. Não recebemos seu presente. Tenha a bondade de mandá-lo à senhora sua avó. (20-03-1921, ed. 8, t. 4)

 

MOEMA – Ficamos espantados. V. Excia. escreveu uma página demasiado vermelha. Até admira que uma senhora possa fazer uma descrição que a nós, bichos barbados, pareceu um tanto escabrosa. Não teríamos escrúpulo em assistir àquela cena. Sentiríamos mesmo muito prazer em desempenhar qualquer papel nela. Não nos atrevemos, porém, a aqui apresentá-la ao público...Et pour cause... (03-04-1921, ed. 10, t. 4)

 

PAULO DIAS (Rio de Janeiro) – O conto é longo demais. Não sabemos se nos será possível encontrar aqui espaço para ele. Talvez o publiquemos em folhetim. Os dois sonetos são frios, graves, dão uma impressão de imobilidade que entristece. O senhor parece-nos um conhecedor perfeito da técnica, mas não é poeta. Não há poesia em seus versos. Está tudo muito bem contado, medido, mas sem vida. Nunca publicamos versos. Vamos ver se abrimos aqui uma exceção para os seus. (03-04-1921, ed. 10, t. 4)

 

LOBISHOMEM (Viçosa) – Estava o Calisto posto em sossego, de suas crônicas colhendo o desenxabido fruto, quando lhe chegou, dos saudosos campos da Viçosa, a carta homo-lupina que o senhor lhe mandou. Magnífico assunto, sim senhor. O homem lhe agradece e promete desemaranhar-se da incumbência como Deus for servido. (10-04-1921, ed. 11, t. 4)

 

J. LUCIANO (Palmeira) – É impossível a publicação de seu artigo. Há nele uma confusão lamentável. Tenha o amigo paciência e vá escrevendo, escrevendo sempre. Com algum tempo de estudo e experiência, é muito possível que venha a fazer coisa razoável, se tiver gosto. É conveniente não desanimar e ir para diante, apesar do insucesso, que é muito natural nas primeiras tentativas. Há gente que, tendo começado como o senhor, tem conseguido bons resultados. Tem ainda muito tempo para queimar as pestanas. (17-04-1921, ed. 12, t. 4)

 

Artigos

 

O humor abusado de Graciliano certamente contaminou os colegas na redação e deu o tom da linha editorial de O Índio: combate ao analfabetismo e crítica ferina à falta de escolas na cidade, ao comportamento da cidadania, ao fornecimento da luz[273], da água, ao funcionamento do cinema, junto à reivindicação persistente por mais civilização e pela estrada de ferro, empacada em Quebrangulo. As referências bem informadas de geografia, literatura, mitologia, história antiga e contemporânea, a ironia que inclui caracterização da preguiça e do imobilismo no campo semântico do “dormir”, do “digerir”, do “bocejo”, ou se vale da hipérbole, principalmente para retratar descontroles com “guinchos”, “coices”, “urros”, são marcas de estilo que sugerem a autoria de Graciliano. Avesso ao efeito altissonante do enlevo canastrão, da patriotada campanuda, das fórmulas comparativas do tipo “o mar, qual líquida esmeralda”, Graciliano a essa altura já evitava o “algo”, mas as exclamações e as reticências ainda tinham boa frequência em sua escrita[274]. Desde jovem, apesar dos sonetos, aplicava uma sintaxe clássica sob versão materialista e brutalizada, que trocava “lábios” por “beiços”[275] e usava um “aquilo” depreciativo para tudo e todos, sem deixar, entretanto, de exercitar pleno domínio gramatical na solução precisa e árida dos períodos, sempre com elegância e ritmo, por exemplo, na colocação de pronomes à antiga, como em “Já se não usam arco e frecha e tacape” (13-02-1921, ed. 3, t. 1). Além do apego a termos como “tira” para folha de papel, “vermelho” para o erótico, “telegrama” para notícias do exterior, “arame” para telegrama, “ordinariamente” para significar “normalmente”, seu estilo peculiar faz uso de vocabulário com significado rigorosamente dicionarizado, mas não usual, o que revigora o sentido original da palavra pelo estranhamento, dando-lhe voltagem irônica, por exemplo, quando em Infância fala da mãe, que lhe aplicava “chineladas e outros castigos oportunos[276], ou, de modo mais sutil, na crônica  providenciada por sugestão do “velho amigo Lobisomem”, quando menciona o “casamento maximalista efetuado no Rio”, ao invés de “realizado” ou “ocorrido”. Ao lado do tom asseverativo, com autoridade insubordinável, típico de suas frases nominais, como em “Tolice”[277] (13-02-1921, ed. 3, t. 1), a obra futura confirmaria o traço estereotípico de seu estilo, marcado por uma impressionabilidade no reconhecimento do mundo, que repetiria obsessivamente peças fixas significando “assim-que-as-coisas-são”.

 

Entretanto, a localização de certas características não garante a comprovação de sua autoria, assim como não é suficiente o contexto de Caetés que os artigos possam retratar, pois estariam refletindo uma percepção do ambiente comum a todos, aproveitada posteriormente pelo romancista em chave própria. Na verdade, há dificuldades de identificar a autoria em certas passagens mesmo após os pesquisadores terem descoberto seus pseudônimos e seções pelas quais foi responsável, por exemplo, na coluna “Garranchos”, quando o autor faz conclamações solenes de moralismo, como se fosse Padre Macedo, tanto quanto em certas passagens transcritas a seguir. Marcas típicas da escrita de Graciliano podem ser efeito de seu copidesque sobre textos alheios. Os textos abaixo, dentro do conjunto de artigos e notas não assinados de O Índio, limitam-se, desse modo, tão somente a exemplificar o espírito do jornal vigente nesses quatorze primeiros números, apanhados como uma coleta de objetos de pesquisa para potencial identificação de autorias. Por exemplo:

 

Nosso povo

 

O estado em que se encontram as nossas populações sertanejas – não nos iludamos – é a mais profunda barbaria. Já se não usam arco e frecha e tacape, já se não come carne humana, mas não se está longe do tempo em que se fabricavam instrumentos de música com as canelas dos inimigos derrotados.

Somos talvez o povo mais ignorante do mundo. O cruzamento de raças que estão colocadas nos degraus mais baixos da escala humana deu em resultado o ser obtuso que nós conhecemos, perfeitamente tapado – o homem-toupeira.

Além de essencialmente estúpido, é um ente que vive abandonado. Não consta que haja quem, praticamente, se tenha preocupado com a sorte do pobre hilota que, entre nós, nasce, cresce, trabalha na roça, procria, bebe cachaça e morre. Outra coisa ainda não aprendeu a fazer o infeliz. As mais rudimentares noções são-lhe vedadas; ignora a existência dos objetos mais simples, de coisas absolutamente indispensáveis à existência de uma criatura.

Não tem desejos. Vive numa animalidade que espanta. Parece que em seu cérebro exíguo não há lugar senão para as sensações que mais de perto se relacionam com os atos essenciais da vida. Dir-se-ia que não pensa.

Parece incrível que se possa viver como vivem pobres diabos meio selvagens, quase bichos, sem nenhum conforto. As casas em que moram são ainda as habitações do homem primitivo, não muito mais cômodas talvez que as cavernas dos trogloditas. Uma saleta acanhada e uma cozinha onde ninguém se pode ter em pé, tão baixo é aquilo, tal é a morada. Juntam-se ali, numa promiscuidade de causar pasmo, às vezes famílias numerosas, que o sertanejo é de uma fecundidade admirável.

Não pode haver criaturas mais sujas. A roupa escassa que usam é imunda. Dormem juntos, em camas de varas, no chão, em esteiras, moços e velhos. Raparigas chegadas à puberdade, pobres crianças quase, na idade dos sonhos doidos e dos desejos violentos, assistem à vida conjugal do pais, nua, viva, perfeitamente animal. A verdade não dissimulada, sem nenhum véu, passa-lhes diante dos olhos. É ali que a prostituição vai buscar um número fantástico de vítimas.

A quantidade de casamentos que se desfazem, por culpa da mulher ou por malandragem do homem, que apenas quer colher o fruto virginal que a fêmea lhe pode dar, é inacreditável. Carne para o alcoice.

O matuto não tem religião. A religiosidade que há nele reduz-se a práticas da mais triste superstição, do mais grosseiro fanatismo. Adora litografias esquisitas, pedaços de papel []. Deus e o Padre Cícero são iguais. – Eles dois se cortam, diz o romeiro convencido.

Aqui mesmo, há meses, num arrabalde a menos de um quilômetro da cidade, multidões se reuniam aos domingos para render culto a um cajueiro desfolhado, em que os devotos pretendiam ver a forma de uma cruz.

Falou-se em cortar a árvore. Tolice. Seria difícil derrubar todos os cajueiros. E quando não houvesse mais cajueiros, poderiam aqueles desgraçados adorar outros []. O que é necessário não é cortar árvores numa pobre terra que se transforma em deserto, por falta de florestas.

O essencial é cortar o fanatismo.

E o fanatismo só se corta espalhando-se a instrução. (13-02-1921, ed. 3, t. 1)

 

*** Seria interessante fazer-se uma estatística dos mendigos que há por aqui. Talvez não haja terra que, em relação ao número de seus habitantes, possua mais pedintes. Eles aqui e os cães em Constantinopla. É uma inundação de cegos, manetas, coxos, mutilados de todos os gêneros, doentes de todos os feitios. Há ainda a considerar o retirante e o romeiro, um que vem do sertão, por causa da seca, outro que vai para o sertão, por amor do Padre Cícero. Tudo é gente que não trabalha, braços roubados à lavoura. Malandros robustos, a vender saúde, cobrem-se de farrapos, inventam um pai doente e lá se vão a cantar lamúrias, pelos balcões e pelas esquinas, a embromar a caridade papalva dos tolos. Má compreendida caridade essa que se limita a dar esmolas à gente que pede pelas portas, a cantar. Ordinariamente, os mais necessitados são justamente os que mais acanhamento têm de pedir. O verdadeiro altruísmo não é o que distribui cobre aos mendigos, comprando um vintém de céu, como dizia o bispo Myriel, de Victor Hugo. Quantos pedintes precisam realmente de uma esmola? É necessário defender-se a gente da praga da mendicidade fingida. Enquanto não aparece outra ideia, aqui lançamos uma, que é a mais simples: Façamos greve contra os pedintes. Abra-se uma exceção para os cegos, que aqui não podem trabalhar, e a alguns indivíduos a que faltam membros de importância – e obrigue-se o resto a arrebentar-se de fome ou a pegar no cabo da peroba. (13-02-1921, ed. 3, t. 1)

 

Nossa índole

 

A nota característica de nossa gente é a preguiça – um desalento geral, contagioso, que se apodera tiranicamente dos indivíduos, que penetra os organismos, estendendo-se do dedo grande do pé ao coiro cabeludo. Todos nós sentimos uma grande frouxidão de ânimo, uma disposição especial para o repouso. Nutrimos singular aversão a tudo quanto é movimento. Gostamos de estar parados. Não nos incomodem – e tudo vai bem. Quando estamos em pé, desejamos encostar-nos; encostados, procuramos uma cadeira; sentados, suspiramos pela cama. Dormir – eis aí o estado ideal do homem.

Ausência completa de ação. Evitamos tudo quanto possa exigir de nós qualquer esforço. Nem sequer pensamos, que o pensamento é doloroso.

Trabalhamos constrangidos, e a cada passo – uff! – achamos a tarefa demasiado pesada. Se encontramos meio de deixar o serviço para o dia seguinte, somos quase felizes; se conseguimos deixá-lo para sempre, a felicidade é completa.

Vimos um dia um matuto cortar uma árvore a machado. Tivemos a pachorra de observar a operação minuciosamente. O homem coçava a cabeça, fazia uma viagem em torno do pau, cuspia, acendia o cigarro, deixava cair a ferramenta, apanhava-a, jogava-a contra o tronco, desanimado, num desespero por aquilo ser tão duro. A cada instante suspendia o trabalho, limpava o rosto com a manga do casaco, olhava o curso do sol, carrancudo como um condenado. Depois de quatro horas, tinha dado quatro mil e seiscentas machadadas e tinha cortado metade do pau.

Assim somos todos nós. Qualquer exercício deixa-nos exaustos. Encontrar aqui uma criatura que saiba trabalhar com método e vontade é extraordinariamente difícil. O que sabemos superiormente é desperdiçar o tempo com palavreados inúteis. Gostamos de cavaquear. Ao começar qualquer empresa, perdemos em discutir a maneira de executá-la o duplo do que seria preciso para levá-la ao fim. Temos a arte de parolar, estragar palavras para não dizer coisa nenhuma.

Cheguem a uma esquina onde haja três homens. Se estiverem ali nove cadeiras, todas elas estarão ocupadas. Cada pessoa serve-se de três – uma para sentar-se, outra para colocar os pés, a terceira para encostar os ombros. Ouçam o que dizem. Faz pena. Maluqueiras, pulhices... Não há ali coisa que se aproveite.

De resto muita ignorância, toleima de causar lástima, uma presunção de quem traz o rei na barriga. Cada um de nós imagina-se pelo menos igual à soma de todos os outros juntos. Conhecemos um cidadão que costumava dizer a respeito de indivíduos que andam cá por baixo, julgando-se muito em cima, como o batráquio da fábula:

– Se aquele sujeito fosse a milésima parte do que julga ser, nem o czar era igual a ele.

(Nesse tempo havia um czar em certo país que se chamou Rússia, de que talvez ainda se recordem alguns antiquários que se preocupam com as épocas pré-históricas anteriores a 1914.)

A observação é sagaz. Que afinal somos apenas isto – criaturas extremamente vaidosas, indolentes e papagueadoras... (20-02-1921, ed. 4, t. 1)

 

Ao correr da fita

 

O cinema de Palmeira tem a extravagante particularidade de fazer de um film em oito atos uma estopada em oitenta ditos. Quer isto dizer que em cada ato a projeção se interrompe pelo menos dez vezes. A gente paga para assistir a uma seção de uma hora e acaba passando três horas a ver aquele jogo interessante de apagar e acender. Custando uma hora de projeção seiscentos réis, o espectador passa um formidável calote no proprietário do cinema se o triplo do tempo custa igualmente seis tostões. É claro! De resto é uma coisa extremamente agradável estar-se ali. A companhia é ótima. Há uma chusma de pessoas caridosas, que nos fazem o favor de ler aos nossos ouvidos as letras que por ali aparecem, naturalmente porque nos sabem analfabetos. Indivíduos há que gostam de comentar a fita em voz alta e dão-nos explicações muito pitorescas a respeito. Em suma, está-se lá muito bem. Ah! ali é o “ponto preferido da élite palmeirense”, como dizem os cartazes. Concordamos em absoluto. Dá até vontade de dormir naqueles bancos tão cômodos, a que, por maior comodidade, vão tirando os encostos. Infinitamente agradável. Quando está claro, é aquela beleza de meu Deus. Aqui e ali senhoras de palito na boca... É delicioso ver uma senhora em um teatro, a remexer um dente cariado. De vez em quando – crac! – rebenta um banco. Não é nada de extraordinário, nestes tempos de câmbio baixo, quando até bancos de outra natureza quebram a valer. É magnífico! Só temos a louvar o esforço que o proprietário do cinema tem empregado para dar a um film em seis atos elasticidade suficiente para levá-lo em três horas...(20-02-1921, ed. 4, t. 1)[278]

 

Estradas e votos

 

Hoje, eleição para deputados e senadores. Este jornal traz uma notícia a respeito. Trabalho inútil, porque o povo de Palmeira conhece perfeitamente quando se avizinha a época das eleições... por causa da estrada.

Acham disparate? Pois não é. Existe em não sei que ponto do globo um caminho de ferro que, por artes de certa companhia inglesa de parceria com o governo, tomou a grande resolução de estender um de seus braços até esta pouco heroica e leal cidade dos enduapes e das tangas. São coisas da geração passada, faz já um horror de anos. Todos os meses a estrada chegava ali pelo Pinga-Fogo. Vem hoje, vem amanhã, vem, não vem... o caminho de ferro ficou em caminho. Desde então, de três em três anos, quando se aproximam as eleições federais, a população palmeirense se alvoroça como formigueiro em vésperas de trovoada.

– Aí vem a estrada, tenham mais um pouco de paciência, é questão de meses. Não desanimem os eleitores, que desta vez a coisa é séria.

– Mas homem, diz o matuto, desconfiado e indeciso, coçando a orelha, eu já estou tão habituado a ouvir essa cantiga... Parece que isso não pega.

– Não, senhor, pega. Das outras vezes não valeu, mas agora é deveras. É um negócio como outro qualquer – uma simples troca de dormentes por votos.

Ora aí está como vamos ter, mais uma vez, a suspirada estrada. Pouca gente acredita, mas que!... Se até já saiu qualquer coisa a respeito no “Diário Oficial”! Ouvindo falar assim em coisas difíceis, o matuto convence-se. Tem ao “Diário Oficial” o vago medo que nos inspiram as coisas sobrenaturais.

Enfim, vamos esperar. E se ainda não for agora, será de hoje a três anos. Será em qualquer tempo, para o futuro, quando toda a gente tiver asas e ninguém precisar mais de estradas de ferro. (20-02-1921, ed. 4, t. 2)

 

No claro e no escuro

 

A propósito de um comentário que fizemos a respeito do cinema que há nesta cidade, o empresário da novel casa de diversões abespinhou-se sem motivo e deu-nos na tela uma resposta que talvez lhe tenha parecido espirituosa. Oferece-nos o homem assunto para quando por qualquer motivo se acabe o que há cá por casa. Não compreendemos bem o sentido da oferta. Não percebemos se o senhor empresário nos dá seu cinema como fonte de assunto, o que seria exigir muito do público, ou se quer trabalhar conosco a fabricar artigos, notícias, comentários e outras coisas pouco divertidas. Ora isto aqui não é casa da viúva Fagundes, mas enfim seremos muito felizes se o proprietário do cinema nos quiser dar a honra de sua colaboração, que naturalmente, a julgar pelos cartazes, terá muito valor. (27-02-1921, ed. 5, t. 3)

 

Sangue

 

Sangue, sempre sangue! Estamos ainda muito perto do homem primitivo, do troglodita, que não encontrava outro meio de defesa além da luta corporal. Se em algumas coisas evoluímos, se um certo progresso, geralmente de ordem material, entre nós se acentua, não resta dúvida de que, moralmente, não estamos distantes do selvícola antropófago e bruto, vingativo e cruel, sanguinário e traiçoeiro.

Há dentro em nós uma alma de caraíba. Admiramos ainda o assassino, glorificamos o criminoso, celebramos os feitos do bronco herói das estradas. Uma indulgência estranha, mesclada de respeito e de um não sei quê de ternura, atira-nos a perdoar os homicidas, engrandecendo-os, emprestando-lhes mesmo uma auréola que talvez eles nunca tenham ambicionado.

Matar um homem! Que ação! É-se respeitado, sobe-se no conceito público, toma-se ar de importância, é-se temido pelos outros. Daí a facilidade com que os crimes se desenrolam.

A impunidade, mas impunidade absoluta, que em nosso meio existe – ai de nós! – completa a obra da desmoralização. Rigorosamente falando, não há entre nós um tribunal para julgar crimes: há uma comédia ridícula representada por oito malandros, que sistematicamente se encarregam de jogar à rua o rebotalho do povo, estragando em um minuto o resultado de longos e pacientes trabalhos.

O júri é a instituição mais pulha que já foi enxertada nestas pobres terras de botocudos que andam vestidos. A mentalidade do juiz de fato balança entre as duas pontas deste dilema – perversidade fria ou inconsciência absoluta. De resto, quando se dá qualquer crime, põem-se em jogo tantos elementos em favor do criminoso, executa-se tal trabalho subterrâneo, exploram-se interesses, lisonjeiam-se vaidades, fazem-se pedidos indiretos, insinuam-se promessas, movem-se em suma tantas forças em favor de um miserável que a gente chega a desconfiar, a perguntar se todos os homens serão bandidos ou malucos.

Em nosso número passado demos uma notícia que nos encheu de tristeza e asco. Uma criança de onze anos cometeu um assassínio. Matou friamente, covardemente, enquanto a vítima dormia.

Um assassino de onze anos! Que será para o futuro um pequenino monstro que em idade assim tenra já se mostra um infame e traiçoeiro matador? Que dirão dele os protetores que, naturalmente, há de ter? Que é pequeno, que não pensa, que praticou o crime como teria praticado uma travessura insignificante...

Maluqueiras...potocas... Mas podem afirmar que de hoje a três meses estará em liberdade. Coisa triste! (06-03-1921, ed. 6, t. 1)

 

Cavalos, cordas e amores

 

Não é muito dizer que para andar-se pelos passeios de Palmeira é necessário ser-se um pouco acrobata. É que nos quer parecer que as calçadas cá da terra não se fizeram para o transeunte circular com facilidade, mas... para amarrar cavalos. Chega um cavaleiro, apeia (ou desapeia), deixa o animal na rua, puxa-lhe o cabresto, que amarra à dobradiça da porta que fica fronteira ao bicho. Donde se conclui que as dobradiças têm aqui função dupla: garantem a segurança das moradas e servem com eficiência para prender as cordas dos sendeiros. Aos sábados, então, são tantos os cavalos que não apenas dificultam, mas chegam a interromper o trânsito pelos passeios.

Para uma criatura passar ali, necessário se faz o emprego de uma ginástica complicada: saltar a corda, arriscando-se a embaraçar as pernas e quebrar as ventas, num trambolhão, ou baixar-se em curvaturas difíceis, que põem a espinha de um cidadão num arco.

É um exercício muito recomendável às pessoas que padecem de reumatismo. Apenas as senhoras não se sentem dispostas a executá-lo em plena via pública. Aquilo tem algum perigo, pois não só lhes ameaça a integridade das canelas, mas pode obrigá-las a atitudes desagradáveis, expondo a olhos curiosos particularidades que não devem ser exibidas. Têm, portanto, de abandonar a calçada, tornando o caminho mais longo, cheio de curvas e ziguezagues.

Há ainda a observar que não somente animais machos enchem as ruas. Há também éguas (com o perdão da palavra). Não raro uns e outros se aventuram a praticar atos que, francamente, não estão de acordo com o que se poderia esperar de quadrúpedes bem educados...

Não haveria um meio de se proibir que, pelo menos aos sábados, em plena feira, esses desavergonhados bichos nos viessem interromper o caminho e exibir-nos seus amores crus? (06-03-1921, ed. 6, t. 1)

 

O espírito da terra...

 

A plateia, a deliciosa plateia de Palmeira... Não sabemos bem se vamos ao cinema assistir às magníficas projeções que há ali ou admirar o espírito que grande número de espectadores exibe. É realmente admirável a graça que certos rapazes desta encantadora cidade possuem. É de a gente morrer de rir. Apenas a sala fica às escuras, começam os trabalhos. São guinchos, gritos, patadas nos bancos, urros, cacarejos e outros interessantes rumores onomatopaicos. Se na tela um sujeito beija uma rapariga, estalam nos bancos beijos em chusma, num barulho irritante que mexe o sistema nervoso de um pobre homem que não esteja habituado àquilo. Os comentários que se fazem às figuras que ali há são coisas incisivas, numa linguagem que não abusa de metáforas, de uma clareza admirável. Muito espirituosa a plateia... Cogita-se seriamente de acabar de rebentar a pitoresca mobília daquela interessante sala. É o que parece, pois muitos espectadores – que naturalmente gostam de deitar-se cedo – confundem aquilo com a cama, recostam-se, espreguiçam-se, escancaram a boca num bocejo e... lá vai o encosto do banco cair em cheio nas pernas da gente que está à retaguarda. É uma gargalhada que se ouve no Xucuru. Sim, senhor, boa troça rebentar os móveis. Nada mais pândego que um sujeito comodista, que gosta de dormir, dar um pontapé na cadeira que lhe fica em frente, virar para trás e ir cair em cheio por cima de uma senhora, por exemplo. Tem graça, tem muita graça. O senhor empresário, pelo menos, acha naquilo muito espírito. Tanto que não gosta que se façam referências a seu estabelecimento. Perde a mobília, mas o prejuízo é pequeno, que os bancos não prestam. (13-03-1921, ed. 7, t. 2)

 

Pois façamo-las[279]

 

No artigo com que hoje inicia sua colaboração nesta folha, Lambda, um experimentado escritor que modestamente se exime de declarar seu nome, ocultando-se à sombra de um pseudônimo com que há tempos assinou magníficos artigos na imprensa da capital, emprega esta frase que não devemos deixar passar sem comentário: “Tratemos de fazer muitos leitores, criando escolas e mais escolas”.

Aí está o que devemos fazer. Fundemos escolas, muitas escolas. Não esperemos que o governo federal, o governo estadual, o governo municipal cogitem da educação do povo. Os poderes públicos têm outras coisas em que pensar – eleições, negociatas, arranjos...

Cuidemos nós mesmos de fundar estabelecimentos de ensino...

Há tempos que a imprensa carioca se esforça em combater o analfabetismo, numa campanha intensa, que tem encontrado apoio em todas as classes sociais, menos na classe dos políticos. Ora isto é uma classe que não tem nenhum interesse em que a desgraçada gente que está embaixo saiba ler ou não. É até preferível para eles que o país esteja cheio de analfabetos. Uma pequena minoria de pedantes empavonados, de anel no dedo, governa o resto.

Um rebanho de bestas é mais fácil de conduzir que uma sociedade de homens que conheçam seus deveres e seus direitos.

Os antigos partas tinham o hábito de furar os olhos aos inimigos vencidos, para melhor dominá-los.

O método adotado pelo governo brasileiro não é muito diverso. Não pode mergulhar na ignorância as almas que saíram dela, mas conserva cuidadosamente nas trevas os que ainda estão cegos.

Lambda tem razão. Abramos escolas, muitas escolas. Somos os interessados.

Deixemos o governo dormir, digerindo o que nos arranca, enquanto não aparece coisa melhor para substituí-lo. (03-04-1921, ed. 10, t. 2-3)

 

Esforços perdidos

 

Muito precisamos do serviço censitário em nosso país, a fim de conhecermos exatamente a população de nosso solo. Infelizmente, ainda nos é impossível obter com precisão o recenseamento geral de todo o território brasileiro. Para colhermos dados exatos seria preciso que o nosso povo estivesse mais aproximado da civilização. Mas como poderemos ser civilizados, se não temos escolas? Em nossos sertões, especialmente no Norte do Brasil, a proporção de analfabetos assusta. Ordinariamente, os indivíduos aqui não sabem se são brasileiros, ignoram sua idade, havendo até quem não saiba como se chama. Que se pode esperar de pessoas meio selvagens, que fogem à vista do agente censitário, julgando-o representante do anticristo?

Parece-nos patente que principiamos pelo ponto em que deveríamos terminar. Nosso maior esforço devia ser empregado em combater a grande enfermidade que atrofia a população brasileira – o analfabetismo. Abri escolas, senhores dirigentes deste miserável país, para que nós possamos ser verdadeiros brasileiros. (17-04-1921, ed. 12, t. 2)

 

Para onde?

 

Hoje, dia do trabalho. Parede geral, demonstração da força dos operários, os conscientes, está claro, os que sabem o que têm a reivindicar.

Entre nós, tudo bem, graças a Deus, como no conto de Gervásio Lobato.[280]

Mas lá fora o mundo ferve. A classe média, pálida, faz concessões... E o proletariado, unido, com os olhos fitos no oriente, onde uma nova estrela brilha, a cada concessão que recebe mais exigente se torna.

A velha ordem esbarronda-se. As coroas caem desastradamente. A qualidade é superada pela quantidade. O número vence.

Uma extraordinária revolução de Spartacus, terrivelmente aumentada, infinitamente maior que a que se fez na Roma antiga, ameaça estender-se por todo o orbe. A eclosão de uma sociedade diferente da nossa está iminente.

Onde a opressão foi maior, a reação foi tremenda. E aí está a terra eslava, banhada em sangue, a espalhar pelo ocidente uma assustadora torrente de ideias avançadas.

Para onde vamos?

Todos os meios empregados pelos governos conservadores da Europa têm sido inúteis contra a sanha revolucionária dos russos. O ouro, a perfídia, as ameaças, tudo falhou. Debalde a Inglaterra engrossou a voz, mostrando o espantalho do bloqueio. Em vão a França atirou contra a república dos conselhos as hordas de Koltchak e Denikine. Inutilmente a Polônia lutou contra o gigante moscovita, que tinha a ladrar-lhe aos calcanhares as matilhas do general Wrangel.

A onda cresce. Para onde nos levará ela?

Neste período de transição, nesta época terrível de violências e de sonhos, neste Maelstrom de paixões antagônicas, qual das partes sairá vencedora – a ordem rubra que fez de Gorki, banido pelos Romanov, uma figura importante na política russa, ou a ordem prudente, velhaca, oportunista, que meteu Debs na prisão?

Parece claro que a primeira vencerá.

E depois? Será realizado o ideal dos trabalhadores? Será o sacrifício da burguesia compensado por vantagens correspondentes à classe operária? Não estará esta destinada a atirar seus próprios filhos às entranhas de fogo de um novo deus, feroz e sanguinário como a antiga divindade fenícia?

Se os telegramas não mentem, os sovietes, pouco depois da revolução, suspenderam o direito de greve e aumentaram o dia de trabalho para doze horas. Isto não é animador para o proletariado... De resto a ânsia de liberdade é tão velha como o homem, e não se sabe bem se ele hoje será mais feliz do que no tempo em que havia escravos.

E que será amanhã?

Provavelmente o que foi ontem, o que será sempre... (01-05-1921, ed. 14, t. 1)

 

Graciliano continuou como comerciante na Loja Sincera, além das atividades de magistério e da retomada das leituras intensas a que se dedicava desde menino. Assim, após o retorno do Rio em 1915[[281]], passou os quase quinze anos[282] seguintes, descontada a recidiva do viúvo nos três meses em O Índio, sem outras publicações jornalísticas e literárias. Um manuscrito de 1923, “Os filhos da coruja”, assinado “J. Calisto”, preservado no Arquivo Graciliano Ramos, IEB, não teve publicação na época, segundo o que foi localizado[283]. O Dr. Cabuhy Pitanga em O Malho, 26-08-1922, respondeu a “J. Calisto” de “Palmeira - Alagoas” que seu interessante conto “Um louco”, poderia talvez ser publicado após uma segunda leitura[284]. Mas, se nada disso foi localizado como publicação, o estilo surpreendente dos relatórios de prefeito em 1929 e 1930 revelaria o literato.

 

Marili Ramos[285], adolescente, tinha livre acesso aos livros da biblioteca do irmão:

 

Grace deixava a estante dos livros sempre aberta. Aconselhou-me a que lesse o que quisesse e, achando alguma coisa de que não gostasse, deixasse. Foi desse modo que li: Quo vadis, A retirada da Laguna, Inocência, Ouro sobre azul, O oficial de fortuna, A arte de escrever, A ilustre casa de Ramires, O mandarim, Os Maias, As cidades e as serras, As minas de Salomão, Ilusões perdidas, O lírio do vale, A guerra dos mundos, Os primeiros homens na lua, Terra, Napoleão, alguns livros de Walter Scott e todos os de Machado de Assis.[286]

 

Em 1922 Graciliano deu aulas de “português, aritmética, história, geografia e francês” na Intendência Municipal, segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana.[287]

 

Desde jovem, antes de sua viagem ao Rio de Janeiro, referia-se a seu aprendizado de italiano, cujo indício se encontra em resenha, em títulos e epígrafe de seus poemas.[288]

 

Quanto às aulas de italiano que possivelmente teria ministrado, não há informações sobre período e circunstâncias. A notícia mais detalhada a respeito é uma crônica do autor, imaginosa e hilariante, com um quê de O homem que sabia javanês, de Lima Barreto, publicada em Maceió, 1929: “Professores improvisados”: 

 

Por motivo de ordem econômica, resolvi um dia, a exemplo de toda a gente, ministrar aos outros alguns conhecimentos proveitosos a mim.

 

Procurei matéria exótica, de verificação difícil. Imaginando, sem grande esforço, que na Itália existia uma língua, pedi catálogos ao Garnier e dispus-me resolutamente a estropiar o italiano com a ajuda de Deus. Anunciei: “Italiano rápido e barato a cinco mil-réis por cabeça, mensalmente. Aproveitem. Lições em todos os dias úteis e inúteis. Tempo é dinheiro, como diz o gringo.”

– Isto deve ser fácil, pensei. É só arrumar no fim das palavras one ou ine. De estrangeiro cá na terra ninguém entende. E se aparecer por aí um carcamano, adoeço e perco a fala.

Pois, senhores, não me dei mal. Matricularam-se cerca de trinta idiotas: comecei a trabalhar com energia e confiança. Ainda estaria trabalhando, se dois alunos, finda a primeira quinzena, não entrassem em concorrência comigo, deslealmente, fundando escolas que italianizaram toda a localidade.[289]

 

Quanto ao aprendizado e ensino de esperanto, há o informe de Valdemar de Souza Lima, sem indicar data específica das atividades:

 

No fim da Primeira Guerra Mundial surgiu o esperanto entre as camadas cultas de vários Estados do Nordeste Oriental.

 

Na cidade serrana formaram com ele [o divulgador do movimento em Maceió, Paulino Santiago] o vigário local, João Guimarães Lessa, o Juiz Olegário Vilela, o promotor público e também educador Helvécio Souza e Graciliano Ramos.

Integrando-se numa classe bem ajustada, com seis meses de treinamento, já haviam feito relativo progresso; e então resolveram instalar uma escola para ir transmitindo os rudimentos desse idioma internacional a outros que se mostrassem interessados no assunto.

A escola de esperanto ficava na Rua de Baixo, num prédio amplo,

 

As aulas eram ministradas três vezes por semana, à noite, pelo espaço de duas horas. Um dos últimos remanescentes dessa plêiade é o ex-tabelião Cícero Silva Pereira. Aliás ainda hoje ele conserva um dicionário de esperanto – oferta de Graciliano, com a dedicatória de seu próprio punho.[290]

 

Há registros da compra em 1923 de sua casa em Palmeira dos Índios – que a partir de 1973 tornou-se a Casa Museu Graciliano Ramos, tombada pelo IPHAN graças a uma campanha encarniçada liderada por Valdemar de Souza Lima desde 1959.[291]

 

Nessa época, segundo Valdemar de Souza Lima e Clara Ramos, Graciliano se dedicava ao bilhar, ao ciclismo, fumava cigarros Rachel e, à noite, recolhido a sua residência, lia Sociologia Criminal, tomando café e conhaque Palhinha.[292]

 

O dono da Loja Sincera frequenta, na Rua da Cadeia, o Café Genésio, de Genésio de Matos Moreira, a quem apelidou Bacurau e irá mencionar, estabelecimento e proprietário, no livro que dentro em pouco escreverá.

Mestre Graça dá longos passeios de bicicleta a Palmeira de Fora, vestindo calças de flanela branca, camisa branca, um boné branco a encimar-lhe a branca figura. Tornou-se também assíduo à casa de diversão de Balbino Freire, cuja afluência quadruplicou com os torneios de bilhar travados com Manuel Leal.[293]

 

A partir de 1924[[294]], Graciliano escreveu três contos: “A carta”, “Entre grades” e um  terceiro, que deu origem a Caetés. Terminou o romance em torno de 1925, mas ainda em 1930 o reformava para a publicação a convite de Augusto Frederico Schmidt.

 

Há alguns anos porém, achei-me numa situação difícil – ausência de numerário, compromissos de peso, umas noites longas cheias de projetos lúgubres. Esforcei-me por distrair-me redigindo contos ordinários e em dois deles se esboçaram uns criminosos que extinguiram as minhas apoquentações. O terceiro conto estirou-se demais e desandou em romance,

 

Publiquei-o oito anos depois de escrito, por insistência de Augusto Frederico Schmidt, que tinha virado editor. É uma narrativa idiota, conversa de papagaios.[295]

 

Em 1925, Graciliano reunia à noite, em sua casa, para aulas de gramática, alguns rapazes[296], e duas irmãs, Marili e Daia. Como só Marili cumpria as tarefas e trazia redações para a aula, tornava-se alvo de atenção, sentindo-se apreensiva e envergonhada com as observações jocosas do irmão durante a leitura elogiosa de seu texto. O conto, em que uma pobre mulher morria num casebre, em noite de tempestade, deixando uma filha, era comentado pelo irmão:

 

Por que matou a pobre mulher? Que é que vai fazer com a menina?[297]

 

Depois de passar aos alunos a tarefa de descrever uma partida de futebol, o irmão (quatorze anos mais velho) pediu que Marili esperasse após a aula, corrigiu seu exercício e a fez compreender ser indispensável a crítica.

 

Encontrando-nos com mamãe, fez cara séria, dizendo: “Parabéns, dona Maria, sua filha é uma escritora”.

 

Certa vez, depois de folhear à noite o periódico Revista Feminina, de que era assinante, Marili, muito decepcionada, não encontrou um conto seu que havia enviado secretamente para publicação na seção de principiantes, “Jardim Fechado”. Pela manhã, refolheando a revista, ali afinal o encontrou, com grande surpresa. Radiante, foi mostrá-lo ao irmão:

 

Nem a mim, Badida (era assim que ele me chamava na intimidade) você mostrou?

 

Ele, o seco, o introvertido, o agreste, queixava-se com mansidão e afagava em seguida. À noite, nesse dia, ele me levou a uma festa em casa do senhor Leobino Soares da Mota.[298]

 

Marili Ramos conta que, em 1926, Graciliano e amigos organizaram o grupo “Os 13”, em que cada membro, por rodízio sorteado, era responsável por oferecer aos restantes e a suas famílias o almoço aos domingos – festa que durava o dia todo (e “terminava à hora do cinema”), com músicas, cantos, declamações parnasianas. Nessa época, Graciliano participou com as irmãs do corso no carnaval, com lança-perfume, confete, serpentina e batalhas carnavalescas. Compôs a letra a ser cantada com a música de “Cabôca de Caxangá” (de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, 1913), dedicando cada estrofe a figuras da cidade.

 

Seu comissário é capitão, é bicho brabo,

Sabe coisa como diabo,

É boticário, é doutor,

É cartomante, é quiromante, é necromante,

Prende a gente num instante,

Tem barba de espanador.

 

Não sei que faz o Olivar, cabeça fraca,

Pra banda de Arapiraca

Que é terra que ninguém quer

Bebe água fria

Pra curar dispepsia,

Ensina filosofia para uso de mulher.

 

Sentou-se um homem, no cinema, inda outro dia,

De uma cuja em companhia

Não me lembro mais quem é

E um cachorro estava perto, no escuro,

Pisou o rabo grosso e duro,

Julgando pisar um pé.

 

O Cavalcanti, aquele tipo tão solene,

Não vende mais querosene,

Não vende mais bacalhau

E trinca aqui, trinca acolá, pintando o sete,

Só pensa em four de valete,

Só pensa em trunfo de pau.[299]

 

No final de 1926, o “major” Graciliano foi nomeado Presidente da Junta Escolar de Palmeira dos Índios.[300]

 

Em Palmeira dos Índios, o major[301] Graça não queria intimidade com ninguém. Tratava bem a todos, é verdade. Portas a dentro, sua vida era outra. Fechava-se com os livros e não dava trelas. Um belo dia apareceu por lá um cidadão de Maceió, político influente: foi à loja e começou a conversar. O homenzinho era literato.

 

O cidadão de Maceió citava romances e mais romances, Eça pra cá, Anatole pra lá. Estava era provocando. Então Graciliano desandou a falar do luso e do francês, que foi um nunca acabar. O fato é que conhecia um e outro muito mais que seu interlocutor.

 

Pouco tempo depois Graciliano Ramos era surpreendido com a nomeação de Presidente da Junta Escolar do município. Pensou em recusar, mas acabou aceitando a prebenda, que tomava tempo e não dava dinheiro algum.

 

No fim do ano, o presidente da Junta Escolar escreveu o seu relatório, mandou imprimir um folheto, enviou-o ao diretor da Instrução Pública. O relatório impressionou de tal forma que o autor acabou sendo indicado para o cargo de prefeito de Palmeira dos Índios.[302]

 

Em 1927 conheceu José Lins do Rego, iniciando a amizade forte que se manteria até o fim de sua vida, apesar de algumas rusgas fraternas[303]:

 

O tabelião de Mata Grande nos havia dito:

Os senhores vão encontrar em Palmeira dos Índios o homem que sabe mais mitologia em todo o sertão.

 

O prefeito nos apresentou:

– Este é o professor Graciliano Ramos.

– Professor de coisa nenhuma – foi nos dizendo ele.

E ficou para um canto da sala, encolhido, de olhos desconfiados, com um sorriso amargo na boca, enquanto o governador falava para os correligionários. Quis provocá-lo, e tive medo da mitologia. Mas aos poucos fui me chegando para o sertanejo quieto, de cara maliciosa. Falou-me de uns artigos que havia lido com a minha assinatura, com tanta discrição no falar, com palavras tão sóbrias, que me encantaram.[304]

 

Em depoimento de 1939 a Joel Silveira, Graciliano mencionou, com o traço típico de seu humor, uma outra avaliação do amigo, que havia sido feita em 1934, no artigo “O romancista Graciliano Ramos”.

 

Projetos não tenho. Estou no fim da vida, se é que a isto se pode dar o nome de vida. Instrução quase nenhuma. José Lins do Rêgo tem razão quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaque.[305]                            

 

Em meados de 1927, amigos ligados ao Partido Democrata, os irmãos Francisco e Otávio Cavalcanti, liderados pelo deputado palmeirense Álvaro Paes, que seria a seguir governador de  Alagoas, propuseram a Graciliano a candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios.

 

Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando, e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.[306]

 

Aos 35 anos, Graciliano, sem comício, sem campanha e sem entusiasmo, foi candidato único na eleição de 7 de novembro de 1927[[307]]:

 

Ele compareceu à sua secção, votou e sumiu-se. Do arquivo da Prefeitura Municipal consta a ata da respectiva apuração, que, como se sabe, na República Velha, realizava-se dez dias depois da eleição. Presidiu o ato o conselheiro José Caetano de Morais Filho, pai do candidato a vice-prefeito, secretariado pelo tabelião Cícero Silva Pereira, da qual extraí os seguintes dados:

Para Prefeito – Graciliano Ramos – 433 votos

Para Vice-Prefeito – José Alcides de Morais – 433 votos.[308]

 

Simultaneamente, dez cidadãos foram eleitos para o “Conselho Municipal”.[309]

 

Em dezembro de 1927, Graciliano conheceu Heloísa Leite de Medeiros, antes de que ela completasse dezoito anos de idade. Depois de relutância por parte da moça, começaram o namoro às vésperas do ano novo. Valdemar de Souza Lima relata[310]: Graciliano, eleito aos 35 anos, viúvo com quatro filhos, viu Heloísa, que visitava a cidade na companhia da avó Austrelina para assistir à primeira missa de seu primo Padre José Leite, ordenado recentemente e convidado pelo Padre Macedo para oficiá-la em Palmeira. Acompanhada de outras pupilas de Padre Macedo, Heloísa vendia bilhetes da quermesse para fundos de construção da Igreja Matriz. Graciliano, além de comprá-los abundantemente, passou a frequentar a igreja com assiduidade – o que fez seus amigos gaiatos lhe enviarem bentinhos embrulhados para presente em papel de seda e fita. Quando Heloísa estava para regressar a Maceió, em 31 de dezembro, finalmente cedeu ao pedido de namoro e Graciliano conseguiu que ela e a avó ficassem para sua posse na semana seguinte, em 7 de janeiro de 1928[[311]]. Durante a festa na residência do Pinga-Fogo, Padre Macedo quis se retirar com suas hóspedes, alegando ser hora das obrigações espirituais. Graciliano mandou que buscassem seu breviário e o trancou em um cômodo. Ao terminar as rezas, o vigário teve de socar a porta, aos berros, para ser libertado. Graciliano incumbiu-o de ir a Maceió providenciar junto ao pai de Heloísa, Américo Medeiros, o consentimento do matrimônio. Logo a seguir, ainda em fevereiro, o casamento religioso foi oficiado em Maceió pelo primo de Heloísa, o Padre José Leite, antes do casamento civil em Palmeira dos Índios. Enquanto Graciliano já atuava como prefeito, os noivos, durante um mês, trocaram muitas cartas.[312]

 

Dança-me na cabeça uma chusma de ideias desencontradas. Entre elas, tenaz, surge a lembrança de uma criaturinha a quem eu disse aqui em casa, depois da prisão do vigário, nem sei que tolices. (16-01-1928)[313]

 

És uma extraordinária quantidade de mulheres.

 

Na sexta-feira, antevéspera de tua partida, encontrei pelo menos vinte. No sábado, em nossa casa, havia uma na sala, outra na sala de jantar, dez ou doze ao pé da janela.

 

O pior é que todas me agradam, não posso escolher. (18-01-1928)[314]

 

O José Leite quererá casar-nos? Eu, como te disse anteontem, não entendo de confissões, nunca me confessei. (20-01-1928)[315]

 

Logo começas aplicando-me dois nomes feios: hipócrita e romântico. Isso, depois de me haveres chamado pau d’água, é duro.

 

A vinte e quatro de dezembro eu julgava que te chamavas Ana Leite, a sete de janeiro era teu noivo.

 

Achas extraordinário que me ajoelhe a teus pés e te adore? Por que não me ajoelharia, se não tenho deuses e o sentimento de religiosidade de que sou capaz se concentra em ti? (24-01-1928)[316]

 

Ainda alguns pontos das tuas cartas: esquecer a baiana? É possível. Não é só possível, é certo.

 

Pesada a minha consciência porque vivi no Rio? Que ideia! Que imaginas tu que eu tenha estado a fazer no Rio? Julgas que procurei companheiros entre a gente da Saúde[317], que passei dinheiro falso com Albino Mendes[318], que furtei cofres, que usei navalhas, que surripiei joias das estrangeiras do demi-monde?[319]

 

Mas vê se me livras da confissão. Isto agora é sério. Estou pronto a fazer o que quiseres no convento, mas essa história de confessar a um padre não está certa. (31-01-1928)[320]

 

A propósito: que história é essa de posição elevada? Enganaram-te, minha filha. Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos a menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio.

 

“Sonho do meu poeta”? Que é lá isso?

 

Pensarás acaso que eu, quitandeiro e homem de ordem, me entregue a ocupações tão censuráveis?

 

Padre Macedo esteve aqui em casa agora à noite, saiu às onze horas. Desculpou-se de uma pequenina indiscrição[321] que aí cometeu contra mim e disse coisas transcendentes sobre o céu, o inferno, a metafísica e outras instituições terríveis. (04-02-1928)[322]                                                                    

                                                                                                                                             

O “déspota esclarecido”[323] administrou a cidade pondo efetivamente em prática o que a “demagogia tenentista” (para usar seus termos[324]) alardearia como programa no contexto da Revolução de 30. Cartas anônimas, entre azedumes e sátiras, eram postas sob a porta da Loja Sincera. Provocavam encrencas as realizações do prefeito, que mandou matar cachorros, proibiu porcos, gado vacum, ovino, caprino soltos na rua, deixou a cidade limpa. Logo após a posse, fez os funcionários procurarem na prefeitura o “Código Municipal”. Foi encontrado um de 1865, do Império, utilizado até que o novo código fosse criado e referendado pelo Conselho Municipal, Lei nº 197, após o primeiro semestre de seu governo, como relata Valdemar de Souza Lima:

 

Esse código de posturas[325] de 28 de agosto de 1928 é bastante curioso. Compõe-se de 82 artigos, fora os parágrafos. Por alguns de seus dispositivos e sob pena de pesadas sanções, era proibido, por exemplo: “açambarcar gêneros alimentícios em tempos de carestia”; “manter estabelecimentos comerciais abertos depois das nove horas”; “pescar no açude da cidade”; “vender carne de reses doentes”; “estender couros em lugares habitados”; “escrever palavras indecorosas ou pintar figuras obscenas em prédios, portas, muros ou passeios, bem como deitar pasquins nos referidos lugares”; “vender ou distribuir gratuitamente impressos imorais ou gravuras ofensivas ao pudor”[326]; “transitar a cavalo em corridas pelas ruas da cidade”; “dar estalos com relhos”, “ter cães soltos sem mordaça”; “fazer cercas em praças ou ruas da zona urbana”; e o farmacêutico que vendesse drogas sem receitas ou sem autorização do médico estava sujeito à multa de dez mil-réis (essa quantia em dobro para quem vendesse “carne fresca no açougue da cidade sem que houvesse antes pago o imposto devido”); finalmente, os hoteleiros eram obrigados “a ter livros em que se inscrevessem os dias de entradas e saídas de hóspedes e manter em lugar bem visível a tabela de preços das refeições e das diárias, assim como das rações para animais” e outras coisas que usassem fornecer, não podendo cobrar preços mais elevados que os publicados na tabela, “multa de vinte mil-réis para os infratores”.[327]

 

Segundo registro da Câmara Municipal de Palmeira dos Índios:

 

O artigo 50 do Código de Graciliano Ramos decretava: "É proibido mendigar”.[328] 

 

Logo, um dos conselheiros municipais veio a Graciliano reclamar ter sido interpelado pelo fiscal quando preparava sua carne no açougue, contestando a obrigação de pagar antecipadamente o imposto de acordo com a nova lei (que ele próprio assinara).[329]

 

Como o turuna, do partido conservador, chefe da oposição, Major Aureliano Wanderley, continuou fazendo abates de gado miúdo debaixo de árvore, mesmo depois da proibição pelo novo código e da consequente construção de um matadouro municipal, o prefeito mandou cortar o “imbuzeiro do Major”. Um dia, quando estava no barbeiro, Graciliano ouviu-o na calçada dizendo impropérios aos circunstantes:

 

o prefeito se suspendeu da cadeira com a toalhinha estendida no peito, uma banda da cara ainda coberta de espuma, descreveu uma curva por detrás do fígaro apalermado, e plantou-se diante do inimigo, pronto para dar-lhe o troco.[330]

 

Sem registro de altercação às vias de fato, afora boatos, o entrevero teve grande repercussão.

 

O fiscal Muritiba confessou seu constrangimento para multar seu Sebastião, que tinha deixado vacas soltas na rua. Graciliano ordenou que multasse, proferindo a frase: “Prefeito não tem pai”. Ricardo Ramos relembra como Graciliano lhe contou o caso:

 

Eu paguei a multa, peguei o recibo, de noite falei com seu Sebastião: “Olhe aqui, veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing. Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque do coração. Por isso eu mesmo paguei”. O velho impou, estourou esbravejando, subiu nas tamancas. E terminou me devolvendo o dinheiro.[331]

 

Criou pioneiramente posto de saúde na cidade (o primeiro no interior de Alagoas): o “Posto de Higiene”, que viabilizava inclusive o cumprimento do novo código de posturas que tornava a vacina obrigatória.[332]

 

Fez reforma geral na instrução primária[333], aumentou o número de unidades escolares e de matrículas, aumentou o salário dos professores.[334]

 

Seu empenho de construtor comprovou-se na reforma do prédio da prefeitura, no terrapleno da Lagoa, na construção da Estrada de Palmeira de Fora e no projeto de sua extensão até Santana do Ipanema, que chegou a 27 quilômetros até o momento de sua renúncia. No seu segundo e último relatório ao governador, de 11-01-1930, poucos meses antes de sua renúncia, anunciou[335]:

 

Abandonei as trilhas dos caetés e procurei saber o preço duma estrada que fosse ter a Sant’Ana do Ipanema. Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despesa avultada. Os seiscentos mil-réis ficariam perdidos entre os barrancos que enfeitam um caminho atribuído ao defunto Delmiro Gouveia e que o Estado pagou com liberalidade: os sessenta contos, caso eu os pudesse arrancar ao povo, não serviriam talvez ao contribuinte, que, apertado pelos cobradores, diz sempre não ter encomendado obras públicas, mas a alguém haveriam de servir. Comecei os trabalhos em janeiro. Estão prontos vinte e cinco quilômetros. Gastei 26:817$930.[336]

 

Percebendo que cerca dos 40 trabalhadores das obras passavam fome, aumentou-lhes o salário, provocando grande procura de emprego na prefeitura, segundo Valdemar de S. Lima[337]. Anos depois, os “Arquivos implacáveis” de João Condé, entre outros itens biográficos sobre Graciliano, registravam na coluna “Flash”:

 

Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construir estradas.[338]

 

Nasceu em 04-01-1929 o primeiro filho do casal, Ricardo de Medeiros Ramos.[339]

 

Graciliano enviou ao amigo palmeirense Álvaro Correia Paes[340],  governador do estado, dois relatórios anuais, datados de 10 de janeiro de 1929 e de 11 de janeiro de 1930, relativos aos exercícios de 1928 e de 1929. Publicados no Diário Oficial do Estado de Alagoas[341], houve, desde o primeiro, divertidas repercussões no país, causando entusiasmo[342] pela inteligência das tiradas em registro desburocratizado, que desmascaravam mazelas crônicas do Brasil com a ironia honesta e precisa de uma administração vigorosa: a “ordem”, revolucionária, que o prefeito impunha à cidadezinha, significava vontade-de-justiça, comprovada nas prestações de contas que se apresentavam nítidas na imprensa oficial. A harmonia entre a forma e o conteúdo crítico indicava que a prática ética moldava sua linguagem[343]. Jornais reproduziram integralmente os documentos ou destacaram partes deles, que revelavam, pelo texto desempolado e antidemagógico, a existência de um grande escritor[344]. Praticamente todos os trechos dos relatórios tornaram-se famosos. São muito citados. Por exemplo:

           

1º relatório – 1929:

 

Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela - dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.

Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.

 

Os litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em outras desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de querosene e caixões de sabão, a que arrancavam tábuas, para enganar o comprador. Fui descaradamente roubado em compras de cal para as trabalhos públicos.

 

No cemitério enterrei 189$000 - pagamento ao coveiro e conservação.

 

Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama[345]. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1556 D. Pero Sardinha foi comido pelos caetés.

 

Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças.

Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.

 

Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento da ideia de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.[346]

 

2º relatório – 1930:

 

Pensei em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiriam a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.

 

A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920[[347]], aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente a claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.

 

Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada.

 

E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada.[348]

 

Favoreci a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor.

 

Canafístula era um chiqueiro. Encontrei lá o ano passado mais de cem porcos misturados com gente. Nunca vi tanto porco.

 

Não pretendo levar ao público a ideia de que os meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou microcóspio.

Quando iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo Município.

Agora mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei.

 

Bons Companheiros

Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis.

Quase tudo foi feito por eles. Eu apenas teria tido o mérito de escolhê-los e vigiá-los, se nisto houvesse mérito.

 

Esforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me.

 

O esforço empregado para dar ao Município o necessário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de métodos administrativos originais. Em conformidade com eles, deveríamos proceder sempre com a máxima condescendência, não onerar os camaradas[349], ser rigorosos apenas com os pobres-diabos sem proteção, diminuir a receita, reduzir a despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém vive sem comer, deixar esse luxo de obras públicas à Federação, ao Estado ou, em falta destes, à Divina Providência.[350]

 

Nasceu o segundo filho do casal, Roberto de Medeiros Ramos, em 22-01-1930, ainda em Palmeira dos Índios. A criança faleceu nesse ano, agosto, em Maceió.[351]

 

Álvaro Paes, em mensagem ao Congresso Legislativo, celebrou o sucesso da administração dinâmica do amigo, destacando a importância das obras construídas e  das reformas, a implantação inédita de serviços públicos e a retidão das receitas e dos orçamentos apresentados nos relatórios: “exemplo de trabalho e honestidade”.[352]

 

Segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana, o Jornal de Alagoas, declarando “uma grande sensação de surpresa agradável” “no espírito público”, publicou o relatório de 1929 na íntegra, no dia seguinte à edição do Diário Oficial. O pesquisador acrescenta:

 

Diversos periódicos alagoanos, como O Semeador, órgão católico de Maceió, A Semana, de Penedo[353], o Correio da Pedra, pertencente à antiga fábrica de linhas fundada por Delmiro Gouveia, além de outros, como o Jornal do Brasil, A Esquerda, e o órgão católico União, estes do Rio de Janeiro, não só discorreram sobre aquela peça administrativa, da qual reproduziram trechos, como também de idêntica forma procederam acerca da segunda do mesmo gênero,[354]

 

De cunho jocoso, no espírito do retratado, O Semeador publicou três artigos a respeito, com passagens desse tipo:

 

O Sr. Graciliano, porém, deu cabo dessa república chinesa, reduzindo-a a uma monarquia em que ele de fato reina e governa.

 

Em questão de limpeza, o Sr. Graciliano é ali, no duro! Quer Palmeira asseadinha, varridinha, sem os memoráveis montões de lixo. Depois não quis que criassem bichos brabos pelas ruas. Mandou matar os cães “boêmios”.

 

Olha S. Excia. que o seu relatório fez surgir muito comentário azedo. Avalie só que certo amigo nosso disse coisas brabas, coisas cabeludas a seu respeito, chamando o Sr. Graciliano até de “futurista”... Que injúria, Santo Deus![355]

 

O Jornal do Brasil publicou trechos do primeiro relatório sob o título “De uma prefeitura alagoana – onde se foi aninhar um grande humorista”, assim apresentados:

 

Chama-se Graciliano Ramos. É Prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Dispensa apresentações outras que a da leitura de seu relatório, que o “Diário Oficial” daquele Estado registrou sem o devido destaque, no meio da vulgaridade dos documentos públicos[356]

 

Marques Rebelo, logo após a morte do amigo, publicou “Encontro com Graciliano” numa série de seis artigos, que, na verdade, em meio a breve contextualização, suspendiam a palavra de sua coluna “Conversa do Dia”, do jornal Última hora[357], para entregá-la abundantemente a trechos dos relatórios. Ele conta que soube de Graciliano quando viu Rômulo de Castro, secretário de Schmidt, lendo folhetos com capa cor de telha, num bar próximo da Livraria Católica, que era ponto de encontro dos intelectuais nos inícios dos anos 30 no Rio de Janeiro. Eram os relatórios do prefeito de Alagoas, circulando em edição própria, que Rômulo retinha com entusiasmo e sovinice. Não conseguindo se apoderar dos folhetos, Marques Rebelo escreveu para o prefeito de Palmeira dos Índios pedindo exemplares.

 

E, quando chegaram, vieram acompanhados de carta em estilo tão seco e agressivo como o dos próprios relatórios, mas agradecendo o interesse e prometendo amizade.

 

E fui para a casa de Francisco Inácio Peixoto[358], para assombrá-lo com a minha descoberta.

 

Marques Rebelo relata a reação do amigo cataguasense da revista Verde:

 

Caramba, seu Marques, trata-se de um grande escritor!

 

O teor dos relatórios evidenciou que o prefeito tinha atividades literárias. Com a repercussão nacional e a circulação deles no Rio de Janeiro, Augusto Frederico Schmidt, farejador de talentos propícios a impulsionar os inícios de sua Livraria Schmidt Editora, ex-“Católica”[359], buscou contato com Graciliano, adivinhando que o prefeito fosse autor de algum romance.[360]

 

Graciliano Ramos renunciou ao cargo de prefeito em 10-04-1930, segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana.[361]

 

Jornais anunciaram a renúncia: o Diário de Pernambuco, 25-04-1930, na coluna de pequenas notas “Notícias do Nordeste” – “Alagoas”, comentou:

 

Renunciou o mandato de prefeito do município de Palmeira dos Índios o consagrado jornalista Graciliano Ramos, sendo ignorada a causa que o levou a tão inopinada resolução.

O ex-prefeito de Palmeira dos Índios ligou seu nome a muitos melhoramentos locais de alta monta, merecendo especial notação a rodovia que liga o citado município ao de Sant’Ana do Ipanema.[362]                                                             

                                                                                                                                            

Antes de se mudar com a família para Maceió, Graciliano se desfez da Loja Sincera.[363]

 

1930-1936 – Maceió

 

Imediatadamente após a mudança, com esposa e filhos, para Maceió, no final de maio, Graciliano assumiu o cargo de Diretor da Imprensa Oficial[364]. Mais de uma semana depois, ele comunicou ao pai:

 

Fomos muito bem de viagem: doze horas de chuva, lama, rios cheios e atoleiros. Podia ser pior. Chegamos quase vivos. E aqui estamos vivendo com a graça de Deus (ou sem a graça de Deus, não sei bem), na Rua da Boa Vista, 384.[365]

 

No período em que Graciliano viveu em Maceió, entre 1930 e 1936, concentrou-se na cidade, como um ninho para acolher a revelação do escritor[366], um grupo significativo de intelectuais. Moacir Medeiros de Sant’Ana descreve detalhadamente o tempo e o ambiente em que eles se reuniam: no Café do Cupertino, também chamado Ponto Central[367], então recentemente inaugurado, em frente ao Relógio Oficial no centro de Maceió, ou no Bar Alemão, onde festejaram a despedida para o Rio de Janeiro de Jorge de Lima e de Aloísio Branco. Participavam:

 

Alberto Passos Guimarães, Aloísio Branco, Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio, Jayme de Altavila, Jorge de Lima, Manuel Diégues Júnior, Mário Brandão, Moacir Soares Pereira, Raul Lima, Valdemar Cavalcanti e José Lins do Rego, que residiu naquela capital durante quase dez anos, de 14 de dezembro de 1926 a 11 de abril de 1935.[368]

 

Outros intelectuais chegavam, como Theo Brandão[369], Aderbal Jurema, o artista plástico Santa Rosa (capista de presença marcante nas obras literárias do período),

 

e, em 1934, a cearense Rachel de Queiroz[370], na época já a conhecida autora de O Quinze e João Miguel, e finalmente o pernambucano José Auto, que, a exemplo de Santa Rosa, era funcionário da agência local do Banco do Brasil.[371]

 

Apesar de sua aversão ao Modernismo, quiçá respondendo com silêncio ao que sentisse como falso antagonismo, Graciliano não se dedicou a Gilberto Freyre e a debates vinculados ao presumido Manifesto Regionalista de 1926, ao contrário de José Lins do Rego. Ironizou repetidamente no seu estilo estereotípico tanto o Modernismo quanto os vermelhões crepusculares e as enchentes do regionalismo. Sua obra construtivista de “clássico experimentador” (Carpeaux)[372] parece responder com um modernismo brutalista e escorreito ao que considera dois equívocos em disputa. Ainda em Palmeira dos Índios, o viúvo dizia em carta ao amigo Pinto, de 18-08-1926, sobre o “Poema” de Mário de Andrade:

 

Li hoje uma poesia que tem este começo:

‘Neste rio tem uma iara...

De primeiro o velho que tinha visto a iara

Contava que ela era feiosa, muito!’

Isto é bom, com certeza, porque há quem ache bom. Naturalmente os meus netos aí descobrirão belezas que eu não percebo. Questão de hábito. Se me não engano, é opinião de M. Bergeret. Acreditas que no Brasil possa aparecer alguma coisa nova? Em vista da amostra, eu dispensava o resto.

 

E mais à frente:

 

Outra coisa: vê se me arranjas aí uma gramática e um dicionário de língua paulista, que não entendo, infelizmente. E manda-me dizer se é absolutamente indispensável escrever sem vírgulas.[373]

 

Mas ainda que sempre chamasse o Modernismo de “tapeação”, mostrou-se de certo modo adepto ao movimento – a crer no registro de seu relato por Francisco de A. Barbosa, em Homenagem a Graciliano Ramos: “Verificou que, apesar do português impecável, a sua literatura era dura, descolorida, sem plástica. Não tentara ainda o diálogo, com medo de fracassar. O movimento moderno encorajou-o. E se o fizesse tal como se fala de verdade? Da tentativa nasceu Caetés[374]. Os dois polos, “vermelhões regionalistas” e “tapeações modernistas” aparecem juntos na crônica “Justificação de voto”, Dom Casmurro, 13-07-1940[[375]], em que Graciliano fala sobre mais uma de suas participações como jurado num concurso de contos:

 

Contemplei vários poentes, ensanguentados, é claro, como todos os poentes que se respeitam, e reli as duas descrições úteis a românticos e realistas: a queimada e a enchente.

 

Junto a esses, alguns cidadãos, poucos, enveredavam pelo modernismo e, adotando cacoetes postos em moda de 1922 a 1930, arrumavam frases curtas, telegráficas, confusas, trocavam os lugares dos pronomes, começavam nomes próprios com letra minúscula.

 

Afastei isso tudo. E como era necessário escolher treze contos, separei casos simples e humanos, alguns bem idiotas, mas sem francês, sem inglês, sobretudo sem a ponta de faca da honra cabocla, mentirosa e besta, sem ritmos infalíveis, o binário e o ternário, sem enchente e queimada, sem as tapeações do modernismo.

 

Para os equívocos em debate, ver: “O Modernismo morreu?” em Dom Casmurro, com depoimento de Graciliano em 12-12-1942.[376]

 

Intensificaram-se as combinações para a publicação de Caetés, como deixa ver a carta[377] datada de Rio, 17-06-1930, remetida por Rômulo de Castro, com p.s. de Augusto Frederico Schmidt:

 

Meu caro Graciliano:

            Só hoje obtive resposta à minha carta de 9 de maio. Já estava pensando que v. queria se ver livre dos incômodos de mais uma afeição. Já estava farto delas...

            Hoje lhe mandei registrada uma prova  em dois volumes da simpatia de Tristão de Athayde.

            Quem me disse que o Álvaro Paes era seu cunhado, foi um outro admirador seu, que atende pelo nome de Arthur Gaspar Viana.

            Quanto à sua obra, já não lhe direi mais nada além disso: você conta com os dois maiores críticos do Brasil, Tristão e Agrippino, mas você obterá um êxito formidável.

            Fiquei muito satisfeito com a sua resolução no pós-escrito: “Vou publicar Os Cahetés”.

            Estou pronto a lhe prestar a chusma de favores. A Livraria Católica se encarregará, se lhe convém, da distribuição e reclamo do livro. Espero que você me diga alguma coisa sobre esta questão. Eu sou empregado dessa Livraria, da qual é sócio o Schmidt.

            Você lê muito? Qual é o gênero da leitura que prefere? Terei muito prazer em lhe enviar de vez em quando alguns livros.

            Bem, Graciliano, por hoje chega. À sua inteira disposição está o seu amigo de fato.                                                                                                                     

                                                  Rômulo de Castro

 

P.S. – Ia me esquecendo de lhe responder quanto à “história dos folhetins”; é que pretendíamos publicar nalgum jornal ou revista daqui o seu romance, em folhetim. Mas, em vista de sua resolução em publicá-lo, “mortus est pintus in casca”.

                                                  Rômulo                                                                                                                

P.S. –  Sr. Graciliano:

Pedi licença ao meu amigo e companheiro de trabalho Rômulo para reforçar o pedido dele Rômulo, para que fique a Livraria aqui depositária do seu romance Cahetés.

Estou absolutamente certo do sucesso do seu livro, me autorizando a pensar assim o capítulo que mandou ao Rômulo. A edição deve ser grande. Quem sabe se o sr. não logrará o êxito de A bagaceira, por exemplo?

Saudações,

            A.F. Schmidt

                                                                                                                                

Em meio à “roda de Maceió”[378], já desde 1930, algumas notas de jornais anunciavam Caetés, que seria publicado somente em 1933. O Correio da Manhã, em julho de 1930,  dizia:

 

Da Bahia e de Recife chegam notícias do próximo aparecimento de um romance, que promete barulho: Os Cahetés, da autoria do sr. Graciliano Ramos, romancista de Palmeira dos Índios, em Alagoas, inteiramente desconhecido aqui, isto é, na Avenida e na rua do Ouvidor.[379]

 

Depois dos três meses de 1921 em O Índio, Graciliano somente voltou a publicar artigos nove anos depois, em Maceió, inicialmente com o pseudônimo “Lúcio Guedes”, ao mesmo tempo em que firmava o nome que o tornaria nacionalmente conhecido. Há registros de sua participação no Jornal de Alagoas, na revista de curta duração, Novidade, em 1931, assim como em periódicos de estados circunvizinhos. Com suas publicações no Rio de Janeiro, capital do país, Graciliano consolidaria em Boletim de Ariel e em Literatura o reconhecimento do romancista expressivo de Caetés, 1933, e de S. Bernardo, 1934.  

 

Ao apresentar em 1972 resultados de pesquisa minuciosa nos periódicos alagoanos, Vivice M. C. Azevedo em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, com contextualização e transcrição de trechos, registra a descoberta das seguintes publicações de Graciliano, que ainda usou em 1930 o último dos pseudônimos localizados, “Lúcio Guedes”:

 

- “Macobeba pré-histórico”- Jornal de Alagoas, 27-04-1930 - Lúcio Guedes

 

- “Macobeba antigo” - Jornal de Alagoas, 29-04-1930 - Lúcio Guedes

 

- “Prefeituras municipais I ” - Jornal de Alagoas, 31-07-1930 - Lúcio Guedes

 

- “Prefeituras municipais II” - Jornal de Alagoas, 08-08-1930 - Lúcio Guedes

 

Ao mesmo tempo, Graciliano deixava de usar pseudônimos e passava a assinar “G.R.” ou “Graciliano Ramos”, sem o “Oliveira”, abandonado há tempos, estendendo ou comprimindo aquele “G. Ramos” da estreia dos seus onze anos com o “Pequeno pedinte” de 1904 em O Dilúculo. Se aos dezessete anos seu nome “G. Ramos de Oliveira” aparecia como intelectual alagoano na entrevista ao Jornal de Alagoas de 18-09-1910, na mesma época a descrição-homenagem de “Nababo” anunciava em 1911 o “Graciliano Ramos” - que assinou em 1929 a sátira “Professores improvisados” publicada na Revista de Ensino, 09 e 10-1929 [[380]] e nomeou o prefeito conhecido pelos relatórios, citado pela imprensa, apresentado como autor de Caetés: pelos anos seguintes, o nome “Graciliano Ramos” seria consagrado como um dos mais expressivos escritores da literatura brasileira. Ainda segundo os achados de Vivice M. C. Azevedo, as publicações assinadas são:

 

- “O álcool” - Jornal de Alagoas, 21-06-1930 - G. R.

 

- “Sertanejos” - Novidade, 11-04-1931, ed. 1, t. 10 - Graciliano Ramos

 

- “Lampião” -  Novidade, 25-04-1931, ed. 3, t. 3  - Graciliano Ramos  (em Viventes das Alagoas)

 

- “Chavões” - Novidade, 30-05-1931, ed. 8, t. 7  - Graciliano Ramos

 

- Capítulo XXIV de Caetés- Novidade, 06-06-1931, ed. 9, t. 5 e 12 - Graciliano Ramos

 

- “O testa de ferro” - Jornal de Alagoas, 16-08-1931 - G. R. 

 

- “Milagres” -  Novidade,  n. 14, 07-11-1931, ed. 14, t. 3   -  Graciliano Ramos  (em Linhas tortas)

 

- “Mulheres” -  Jornal de Alagoas, 20-05-1933 - Graciliano Ramos

 

- “Comandante de burros”- Jornal de Alagoas, 27-05-1933 - Graciliano Ramos (Carlos A. Dória, Leia Livros, nº 118, ago. 1988)

 

- “Doutores” -  Jornal de Alagoas, 11-06-1933 - Graciliano Ramos

 

- “D. Maria Amália” - Jornal de Alagoas, 18-06-1933 -  Graciliano Ramos (em Viventes das Alagoas)

 

- Capítulo 7 e 19 de S. Bernardo - Jornal de Alagoas, 31-05-1933 – Graciliano Ramos

 

Vivice Azevedo agradece a Moacir Medeiros de Sant’Ana a indicação e a localização de “Comandante de burros” e “Doutores”. Sobre o texto “O álcool”, a pesquisadora destaca o tom jocoso da crônica, crítico de um nacionalismo estreito, avesso à seriedade solene com que então se enfocava o assunto – ver, por exemplo, a notícia relativa à campanha do álcool-motor, em que Álvaro Paes é citado: Diário de Notícias, 25-07-1930[[381]]. Sobre o texto “Mulheres”, ver contextualização da pesquisadora sobre feminismo na imprensa da época, especialmente no Jornal de Alagoas. (Com o mesmo título, já no Rio de Janeiro, Graciliano publicou em 1937, Vamos Ler!, a crônica “Mulheres...”[382] – trata-se de outro texto, que termina ironizando o moralismo fascista de Plínio Salgado). Dos textos descobertos pela pesquisadora, os que eram inéditos em livro e ainda acessíveis foram reunidos em coletânea póstuma, de 2012: Garranchos, edição de Thiago Mio Salla. Carlos Alberto Dória, juntamente com o texto “Comandante de burros”, apresentou “Antonio Silvino”, indicando este último como publicação do Jornal de Alagoas de 18-09-1938[[383]]: portanto, um período subsequente ao de Maceió, quando Graciliano, após a prisão, vivia no Rio de Janeiro. As duas crônicas, a primeira com o título estropiado pelo plural em comandantes, foram incorporadas a edições posteriores de Viventes das Alagoas – sem notificação editorial. Ver: Viventes das Alagoas, 15. ed., Record, 1992, onde, além disso, foi suprimido este último parágrafo de “Antônio Silvino”, publicado por Carlos Alberto Dória: “O trabalho desse sertanejo deve ter sido enorme, mas a verdade é que ele não se transformou para realizá-lo. Homem de ordem, indispôs-se com outros homens de ordem, fez tropelias no sertão, caiu numa cilada e penou vinte anos para lá das grades. Continuou, porém, a ser o que era, apesar da cadeia: homem de ordem, membro da classe média, com todas as virtudes da classe média”. O pesquisador anotou na publicação Leia Livros, 1988: “Inexplicavelmente inéditas em livro, as duas crônicas de Graciliano Ramos, aqui publicadas, somam-se a outras seis publicadas em Viventes das Alagoas compondo um dos mais lúcidos conjuntos de textos sobre o cangaço”. Ricardo Ramos elenca a produção do pai sobre o tema e ressalta sua percepção a respeito (“Graciliano nunca idealizou Lampião”), citando uma passagem que a sintetiza de modo conclusivo: “Abastardamo-nos tanto que já nem compreendemos esse patife de caráter e inadvertidamente lhe penduramos na alma sentimentos cavalheirescos que foram utilizados como atributos de outros malfeitores. Deixemos isso, apresentemos o bandoleiro nordestino como é realmente, uma besta-fera”[384]. A coletânea Cangaços, editada em 2014 por Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla, sugere ser obra de Graciliano Ramos (colocando-a sem discriminação, misturada a textos do autor) uma entrevista-piada, sem assinatura, que ficcionaliza um “encontro” covarde e precavidamente “telepático” com Lampião, publicada em Novidade, 16-05-1931[[385]]. Mas como acontece com os textos de O Índio não assinados nem mesmo por pseudônimo, frente à possibilidade de influência e produção coletiva, o rigor de pesquisa obriga a deixar as hipóteses de autoria abertas, apesar dos traços de humor, formulações e estilo típicos de Graciliano. Segundo Clara Ramos, Valdemar Cavalcanti, em depoimento ao Jornal de Alagoas, 21-04-1978, disse que Graciliano “escreveu artigos assinados e editoriais” para a Novidade (se tais “editoriais” foram de fato textos de sua autoria, resta reconhecê-los[386]). Outros textos de Graciliano publicados em jornais e revistas no período de Maceió, anterior à sua prisão, foram:

 

- ”Álvaro Paes”. Jornal de Alagoas, 12-06-1930, assinado G. R.[387];

 

- “Luiza”. Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n. 3, dezembro de 1933[[388]];

 

- “Caetés VII (Capítulo de romance)”. Momento, Recife, n. 2, dezembro de 1933[[389]];

 

- “Precipitação”. A Noite. Rio de Janeiro, 07-02-1934[[390]];

 

- “Um romancista do Nordeste”. Literatura, Rio de Janeiro, n. 18, 20-06-1934[[391]];

 

- “Luiza”. Diário da Manhã. Recife, 30-08-1934[[392]];

 

- “Ciúmes”. Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n. 12, 09-1934[[393]];

 

- “Suor”. Folha de Minas, Belo Horizonte, 17-02-1935[[394]];

 

- “O romance do Nordeste”. Diário de Pernambuco, 10-03-1935[[395]];

 

- “Alguns números relativos à instrução primária em Alagoas”. Diário de Pernambuco 28-06-1935; A Escola, Maceió, set. 1935[[396]];

 

- Sob forma de entrevista-depoimento de Graciliano, publicou-se “Aspectos da instrução pública em Alagoas” (inédito em livro, comentado abaixo), Diário de Pernambuco, 24-01-1936.[397]

 

Nesse período de seis anos em Maceió, 1930-1936, em que Graciliano Ramos ganha reconhecimento, seu nome é mencionado em várias publicações. O Jornal do Recife, 13-11-1931[[398]], anunciava o lançamento de Revista, com Willy Lewin, Aloísio Branco, Graciliano, entre outros. O Diário de Pernambuco, 22-12-1933[[399]], saudou o segundo número da revista Momento, de Aderbal Jurema e Odorico Tavares, uma publicação também de Recife, com colaborações de José Auto, Jorge Amado, Valdemar Cavalcanti, Joaquim Cardoso, José Lins do Rego, Graciliano e outros, com ilustrações de Tarsila, Luiz Jardim, Manoel Bandeira, Santa Rosa, Cícero Dias[400]. O Jornal, 08-12-1933[[401]], noticiou o número de dezembro da Boletim de Ariel, com Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Ribeiro Couto, Graciliano et alii. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, reproduz carta de Gastão Cruls a Graciliano, de 29-03-1934, em que, além de propor a publicação de S. Bernardo, convida Graciliano a ser representante em Alagoas de Boletim de Ariel. A autora comenta: “Tanto as condições de lançamento do livro quanto a representação da revista são aceitas”.[402]

 

Heloísa Ramos, a Ló, após a perda do filho Roberto[403], e novamente grávida, foi restabelecer-se na casa da avó, em Pilar-AL. Algumas cartas de Graciliano coletadas desse período, sem referências a tais circunstâncias, indicam que, ficando ele em Maceió com filhos mais velhos[404], dedicava-se à reelaboração de Caetés. Na de 26-09-1930, diz que recebeu uma visita com conversa sobre cana, algodão e café que o fez ferrar no sono e não acordou mais.

 

Hoje, porém, a influência do homem desapareceu. Fiz um capítulo de vinte e cinco folhas e mandei uma carta ao Rômulo. Peça aos santos que esta encrenca termine daqui para novembro. E peça também que não me apareçam outros orçamentos[405] e artigos de jornal. Se não surgirem complicações, como dizia o dr. Liberato[406], julgo que darei o trabalho concluído em fim de outubro. Se não aparecerem complicações... e se o Aloísio Branco consentir. Vi ontem um daqueles pedacinhos de papel que Schmidt me mandou. Estava pregado num dos vidros da casa do Ramalho[407]. Há outros em outras livrarias. De sorte que o pessoal de sua terra está, com razão, espantado e desconfiado. Há de ter graça no fim, quando compreenderem que o livro não presta para nada.[408]

 

Com a Revolução de 30 deflagrada a 03-10-1930, Graciliano, em 04-10-1930, continuava com Caetés:

 

Recebi ontem uma carta do Rômulo exigindo a entrega dos originais. Fiquei aflito, porque estou com dois meses de atraso. Telegrafei ao homem pedindo uma semana de moratória. Com a carta vinha um recorte da Vanguarda dizendo cobras e lagartos dos Caetés. É necessário que me desenrosque. Por isso arranjei uma datilógrafa. Enquanto lhe escrevo, ela está aqui batendo na máquina: teco, teco, teco. Não se assuste: é uma senhora respeitável, em tipo e em idade. Além disso são apenas cinco horas da tarde.

À noite, se o Aloísio consentir, vou mexer num capítulo, a ver se mando logo para o Rio aquela encrenca.[409]

 

Com a Revolução de 30 a caminho de Maceió, Graciliano parecia mais interessado na reformulação de Caetés que preocupado com a queda do governo de que fazia parte. É o que deixa transparecer, para tranquilizar Ló, na carta de 7 de outubro:

 

Naturalmente deve ter aparecido por aí alguma notícia a respeito de revolução. E, para que v. não fique assustada, escrevo-lhe dizendo que acho a sua terra perfeitamente habitável.

 

Não há, parece-me, inimigos do governo em Maceió. E se houvesse alguns, estou certo de que o dr. José Carneiro sozinho bastaria para dar cabo deles. Estamos otimamente, no melhor dos mundos possíveis.[410]

 

Apesar de andar com muito sono, mandei ontem ao Rômulo cinco capítulos dessa obra-prima que vai revolucionar o país. Isso é que vai ser uma revolução dos mil diabos, v. há de ver. As outras são revoluções de bobagem.[411]

 

No dia 10-10-1930, acrescentou:

 

Não me parece que os pernambucanos, ocupados como estão com os seus negócios internos, queiram vir agora brigar com a gente. Não vêm. E se vierem, o dr. José Carneiro, sozinho, corta as cabeças deles todos. A ordem, a paz, a legalidade, o governo constituído, as nossas instituições e outras besteiras que o Jornal de Alagoas tem publicado até hoje não sofreram, segundo os telegramas do barbadíssimo presidente Washington, alteração apreciável. E se tudo isso for por água abaixo, que diabo perco eu? Tu pensas que eu sou alguma coisa, Ló? Se a gangorra virar, deixo isto e vou plantar mamona. É um conselho que o Álvaro Paes me tem dado muitas vezes. Se eu não fosse tão burro, já estaria esgaravatando a terra e criando porcos. Bem, esta carta está muito comprida, e eu tenho de escrever um boletim que o Álvaro Paes me encomendou e traduzir os telegramas que vêm do Rio.[412]

 

Com o governo de Álvaro Paes deposto, Graciliano (que será mantido no cargo) escreveu a Ló em 11-10-1930:

 

Não te assustes. Lê esta carta em reserva, não a mostres a ninguém. São duas horas da manhã. Por volta de meia-noite fui ao palácio e encontrei tudo deserto. A guarda tinha desaparecido, as pessoas que lá em cima haviam passado uma semana sem poder dormir tinham desaparecido também. Sem luta, sem um tiro. É possível que assim esteja certo. Não sei. O que sei é que preciso dormir um pouco para continuar os meus Caetés. Essa coisa de política é bobagem, e eu não entendo disso. Agora que estamos em sossego, talvez me seja possível trabalhar. Estou com isto por dentro da cabeça em desgraça. E burro, minha filha, de uma burrice horrível. Fui hoje escrever uma besteira e não pude.

 

Não acredites nos boatos que aparecerem por aí. Não há perigo, nenhum perigo. O pano desceu, está finda a peça. Eu, como tu sabes, não representei nenhum papel: sou miúdo demais. Em toda esta porcaria o que eu sinto é o Álvaro Paes sair-se mal.[413]

 

Nasceu em Maceió, em 19-02-1931, Luíza de Medeiros Ramos[414], filha de Graciliano e Heloísa.

 

Mantido no cargo, Graciliano continuou finalizando o Caetés e a partir de 1931 voltou a publicar artigos-crônicas em Maceió, principalmente em Novidade.[415]

 

Uma carta de 25-04-1931 a seu cunhado Luiz Augusto de Medeiros[416], residente no Rio de Janeiro, revela que Graciliano já não tinha esperança da publicação de Caetés, embora tivesse enviado o romance a Schmidt recentemente, há uns quatro meses, no final de 1930.

 

Recebi tua carta de 16 e depois recebi também uma tapeação do Rômulo[417]. Como te disse, a história do livro acabou. A coisa é esta: eles imaginaram que aquilo era realmente um romance e começaram a elogiá-lo antes de tempo. Quando viram que se tinham enganado, tiveram acanhamento de desdizer-se. Compreendo perfeitamente a situação deles e, para não entrarmos em dificuldades, não toco mais no assunto.[418]

 

Implicado num processo “revolucionário” por malversação de verbas públicas relativamente ao período da prefeitura de Palmeira dos Índios, Graciliano foi absolvido em sentença datada de 27-07-1931, onde consta: “Atendendo a que não ficou devidamente provada a má aplicação de 1.020$000, ACORDA essa Junta julgar improcedente a denúncia para mandar seja o processo arquivado”. Valdemar de Souza Lima colheu impressões de um amigo a quem Graciliano na época tinha mostrado o mordaz documento de defesa,

 

no qual colocara em situação embaraçosa o próprio Procurador Especial da Junta de Sanções, que, como jornalista militante, em diferentes fases se tinha referido à administração do indiciado, classificando-a de inteligente, evoluída e, sobretudo, marcada por uma probidade inexcedível. Graciliano conservava os recortes dos jornais e juntou-os na oportunidade, papelório que tomaria caminho do Tribunal de Exceção.[419]

 

Uma resenha “avant la lettre” (datado o recorte com grafia manuscrita de Graciliano, no IEB: “8-11-1931”) aproximou Graciliano de Machado de Assis, antes mesmo da publicação de Caetés, que se daria somente em dezembro de 1933. Com o subtítulo esperançoso “Sairá ainda este mês o grande romance de Graciliano Ramos”, dizia:

 

As paisagens do escritor alagoano são essas paisagens psicológicas que caracterizam o romance moderno. O caso de Machado de Assis, o da casa sem jardim, mais uma vez se repete.[420]

 

Em dezembro de 1931, Graciliano demitiu-se da Imprensa Oficial e voltou com a família para Palmeira dos Índios. Lá, continuou[421] escrevendo S. Bernardo.

 

Entretanto, em vários depoimentos, Graciliano declarou ter iniciado o romance em 1932 (e nesse ano o terminou). Por exemplo, em entrevista a Homero Senna:

 

Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares[422] que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz São Bernardo. Estava no capítulo XIX, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital.[423]

 

Clara Ramos conserva a memória familiar do episódio anterior a seu nascimento:

 

Ao descer um degrau certo dia, Graciliano pisa em falso; da queda resulta dor persistente na perna direita. Sem que a princípio dê atenção ao fato, a dor, no entanto, agrava-se. E um acidente aparentemente sem importância degenera num tumor, localizado na fossa ilíaca, que o leva à mesa de operação do Hospital S. Vicente de Paula, em Maceió.[424]

 

Portanto, sua presença em Palmeira dos Índios foi intermitente, assim como a de Ló, grávida de Clara, e a dos filhos menores, que, conforme indicam as cartas, logo voltaram para Maceió. As cartas dão indícios dessas movimentações. No final de maio, 30-05-1932, Graciliano, de Maceió, escreveu ao pai:

 

Saí do hospital terça-feira, mas ainda estou doente. Ando com dificuldade, tenho as pernas meio entorpecidas, as dores são terríveis e ainda estou com a barriga aberta, a derramar pus. Quando dou alguns passos, paro, coberto de suor. Se faço uma caminhada mais extensa, tenho de passar dois dias de cama, quero dizer de rede, pois não suporto o colchão, que as dores no espinhaço são grandes.

Creio que ainda demorarei algum tempo: não poderia fazer a viagem e estou em tratamento. Quando saí do hospital, vim gemendo como um condenado e desci do automóvel meio morto. Mas parece que vou melhorando. Tenho uma fome danada, uma fome de fazer medo.

Até agora os médicos têm sido camaradas, e as despesas que fiz no pavilhão em quarenta e um dias foram relativamente pequenas, menos de metade do que eu esperava.

Estou agora tomando banhos de luz, raios ultravioleta. Julgo que não servem de nada, mas o nome é bonito.[425]

 

Em 20 de agosto, durante a Revolução Constitucionalista, Graciliano escreveu de Palmeira a Heloísa, em Maceió, assinando com o qualificativo “esposo fiel” (certamente para apaziguar os ciúmes de Ló):

 

Depois que cheguei, a minha ocupação é fumar.

 

Durante o dia converso com seu Ribeiro, com Azevedo Gondim, com o Padilha e com a Madalena. São os companheiros que aqui estão sempre, mas as conversas deles estão-se tornando muito cacetes. Estive um dia em Viçosa e encontrei aquilo transformado. Possibilidade de arranjar qualquer coisa lá — nenhuma. Nem lá nem aqui. Tudo cavado. O que é necessário é esperar o fim da encrenca de S. Paulo.

 

E enquanto não me oriento, conserto as cercas de S. Bernardo, estiro o arame farpado, substituo os grampos velhos por outros novos e, à noite, depois do rádio, leio a Gazeta de Costa Brito.

 

Eu, os meninos, a gente do velho Sebastião, tudo vivo.[426]

 

Em 1º de setembro de 1932, chamando os filhos carinhosamente, como de costume, pelos apelidos de “Tatá” (Ricardo) e de “Lulu”(Luíza), assinou “Gato”:

 

Continuo a consertar as cercas do S. Bernardo. Creio que está ficando uma propriedade muito bonita. E se Deus não mandar o contrário, qualquer dia terei de apresentá-la ao respeitável público. O último capítulo, com algumas emendas que fiz, parece que está bom.

 

Não temos aqui nenhuma notícia certa da revolução. O rádio desapareceu, os jornais não dizem nada, até os boatos são escassos.[427]

 

Em 15 de setembro, a respeito da filha do juiz em S. Bernardo (a quem Paulo Honório dedica o epitalâmio: “D. Marcela era bichão. Uma peitaria, um pé de rabo, um toitiço!”), Graciliano garante:

 

D. Marcela não tem original. Você está equivocada.

 

Julgo que aqui neste quarto, sozinho, vou ficando safado. Têm-me aparecido ideias vermelhas. Anteontem abrequei a Germana num canto de parede e sapequei-lhe um beliscão retorcido na popa da bunda.

 

Vai sair uma obra-prima em língua de sertanejo, cheia de termos descabelados.

 

Se você quiser queimar esta carta, pode queimar. Mas, com franqueza, faz pena perder-se uma literatura tão boa.[428]

 

Em 17 de setembro:

 

O S. Bernardo vai indo, assim assim. Pareceu-me ontem que aquilo é uma porcaria, sem pé nem cabeça.

 

Circulam por aqui boatos desencontrados.

 

Não sabemos nada. Enfim será o  que Nosso Senhor quiser. E como ele quer que esta joça rebente, teremos em breve o comunismo. Quando isso chegar, eu irei trabalhar na estrada de rodagem, com Zé Guedes. Pedro Soares será zelador do cemitério. Chico, Otávio, meu pai, Leobino, padre Macedo etc., vão plantar mamona. Você criará galinhas. Por causa dessas coisas meu pai anda às vezes meio trombudo comigo. Acho que ele pensa que eu sou culpado de a gasolina russa ser mais barata que a dos Estados Unidos.[429]

 

Uma carta escrita entre 2 e 4 de outubro de 1932, entre vários assuntos, comentou o final da Revolução Constitucionalista e se despediu, dizendo que precisava melhorar a “compra de São Bernardo”:

 

O Valdemar não tem razão. Escrevi a ele um destes dias, agradecendo dois livros que me enviou.

 

As pulgas ainda existem. Mas como eu agora estou mais magro, parece que elas vão ficando enjoadas de mim.

Abandonei o xadrez, mas nestes três últimos dias tenho jogado algumas partidas.

 

Encontrei muitas coisas boas da língua do nordeste, que nunca foram publicadas, e meti tudo no livro.

 

Cada palavrão do tamanho dum bonde. Desconfio que o padre Macedo vai falar mal de mim, na igreja, se o livro for publicado.

 

Agora que não há aqui em casa nenhuma senhora para levar-me ao bom caminho, imagine o que não tenho arrumado na prosa de seu Paulo Honório. Creio que está um tipo bem arranjado. E o último capítulo agrada-me. Quando o li depois dos consertos, espantei-me. Realmente suponho que sou um sujeito de muito talento. Veja como ando besta.

 

3 de outubro, dia grande. Há dois anos você estava em Pilar, comendo bagre. E aí em Maceió ainda não tínhamos recebido o primeiro telegrama sobre a encrenca. Agora tudo mudou. Um patriotismo infeliz tomou conta disto. E a literatura oficial é mais infeliz que o patriotismo. O pior é que ninguém faz nada. Conversa fiada, uns energúmenos idiotas querendo salvar esta gangorra por processos violentos. Besteira. Sangue não serve para nada. O Álvaro Paes é que tinha razão. Plantar algodão, plantar mamona, criar gado, isto é que é.

 

Por enquanto vou melhorar o negócio da compra de São Bernardo, que Paulo Honório e Padilha estão esperando por mim.

Agora mesmo estou ouvindo uns estouros de bombas e uma corneta tocando. Concluo daí que a pátria está salva e São Paulo saiu do mapa.[430]

 

Em outubro de 1932 a publicação de Caetés continuava emperrada, o que levou Graciliano, com algum alívio, a desistir do negócio e pedir os originais de volta, como contou a Ló:

 

Não acredito nessa história do Luís[431]. Promessas como essa o Schmidt tem feito às dúzias: não valem nada. Escrevi a ele rompendo todos os negócios e pedindo a devolução duma cópia que tenho lá[432]. Assim é melhor. A publicação daquilo seria um desastre, porque o livro é uma porcaria. Não me lembro dele sem raiva. Não sei como se escreve tanta besteira. Pensando bem, o Schmidt teve razão e fez-me um favor. Resta-me agora o S. Bernardo. Tenho alguma confiança nele[433]. As emendas sérias foram feitas. O trabalho que estou fazendo é quase material: tolice, substituição de palavras, modificação de sintaxe. Mas tenho trabalhado demais: um dia destes estive com os meus bichos de S. Bernardo das seis da manhã à meia-noite, sem me levantar da banca.[434]

 

Dedicando-se intensamente ao S. Bernardo, já pelo final de outubro, 24-10-1932, disse a Ló:

 

E não escrevo mais hoje. O S. Bernardo espera até amanhã. Agora vou enxugar a cabeça, ler um bocado de economia política[435], dormir e sonhar com você. Está feito?[436]

 

No dia de seu aniversário, Graciliano parafraseou o Paulo Honório quando este diz no último capítulo: “Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê!”[437]

 

Esgotei todos os assuntos e estou aqui estragando papel porque hoje é 27 e a sua última carta me veio lembrar que hoje, às quatro da tarde, entro nos quarenta e um. Quarenta anos, Ló. Que horror![438]

 

Em 1º. de novembro, Graciliano avisou que a tarefa – em sua primeira versão – estava concluída:

 

O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião[439], Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários[440]. O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S. Bernardo, cochilando, e procurarão nos monólogos de seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem.[441]

 

Enquanto Heloísa Ramos aguardava o trabalho de parto em Maceió, Graciliano procurava acompanhar o processo enviando mensagens de Palmeira dos Índios:

 

Estou nestes últimos dias preocupado com a última notícia que você mandou. Disse que já tinham aparecido sinais da vinda do rapaz (ou da moça) e até agora não chegou confirmação.

 

Acabei agora a tarefa diária do S. Bernardo. Os trabalhadores do eito descansam às seis horas. Eu estou aqui desde oito da manhã, e já é meia-noite.

 

As suas últimas cartas não têm data, Ló. Não tem importância, mas ando perguntando a mim mesmo o dia em que lhe apareceram os primeiros sinais.[442]

 

Na carta seguinte, datada apenas de “novembro”, “segunda-feira”, Graciliano ainda estava sem notícias sobre o nascimento da criança:

 

Se a d. Evangelina acertou, a esta hora você deve estar descansada. Não posso ir, primeiro porque estou adoentado, com a barriga doendo; segundo porque os tempos estão bicudos e é preciso fazer economia; terceiro porque quem vai ter menino não sou eu.

 

Recebi, pelo último correio, o Menino de engenho, do Zélins. É excelente. Mando amanhã uma carta agradecendo a remessa do volume. Imagine que meu pai leu o livro duas vezes. E um romance que meu pai lê duas vezes só pode ser bom.

O S. Bernardo está acuado.[443]

 

Na “terça-feira”, a última carta coletada do período entre a correspondência do casal, Graciliano dizia:

 

Como vai a barriga, Ló? Tenho receio de que esse menino apareça barbado. Mande-me algumas notícias, que ultimamente não tenho recebido daí nem um bilhete. Mas não brigo por isso, porque sei que uma pessoa com a barriga crescida não pode escrever.

 

O S. Bernardo está muito transformado, Ló. Seu Paulo Honório, magnífico, você vai ver. O diabo é que as folhas estão cheias e não há mais lugar para fazer emendas. Se eu morresse hoje ninguém poderia ler aquilo. Mais difícil que as cartas do Tatá.[444]

 

Numa quarta-feira, em 09-11-1932, nasceu Clara Ramos[445], enquanto Graciliano finalizava seu “irmão gêmeo”, S. Bernardo.

 

Em 3 de janeiro de 1933, de Maceió, Graciliano respondeu a uma carta de Adersen-Editores. Discutiu minuciosos itens relativos a um contrato da publicação de Caetés pela editora.[446]

 

Graciliano foi nomeado Diretor da Instrução Pública pelo interventor capitão Afonso de Carvalho. Como registra Moacir Medeiros de Sant’Ana:

 

Seus problemas de ordem financeira somente iriam ser atenuados durante a Interventoria de Afonso de Carvalho – dublê de intelectual e militar, capitão de arma de artilharia, carioca, mas filho de alagoano de Pilar – que o nomeou, a 18 de janeiro de 1933, para o cargo de Diretor da Instrução Pública de Alagoas, nomeação por ele próprio tachada, em depoimento a Joel Silveira, como um “disparate administrativo que nenhuma revolução poderia justificar”[447]. Nesse período, residiu em casa da Praça Bráulio Cavalcanti[448], antiga Montepio dos Artistas, esquina com a Rua Barão de Penedo.[449]

 

Jorge Amado foi a Maceió com “o objetivo único” de conhecer Graciliano Ramos (mas tinha a tarefa de resgatar Caetés para Schmidt).

 

Em meados de 1933 embarquei num paquete do Lloyd Brasileiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, o Conde de Baependi, arribando do porto do Rio de Janeiro para o porto fluvial da cidade de Penedo, no rio São Francisco, no então distante estado de Alagoas. Levava-me o objetivo único de conhecer pessoalmente o romancista Graciliano Ramos, nome àquela data sem qualquer ressonância junto aos leitores e aos críticos: ainda não havia editado nenhum livro. Acontecera-me ler, porém, os originais de Caetés, tomara-me de tamanho entusiasmo que decidi viajar até Alagoas para comunicar ao autor minha admiração, de viva voz. Tinha eu vinte e um anos incompletos e acabara de publicar Cacau.[450]

 

Além do “sequestro” de Caetés, Jorge Amado estimulou decisivamente a publicação de S. Bernardo, pela Editora Ariel, através de Gastão Cruls, responsável, junto a Agrippino Grieco, pelo importante mensário de crítica literária dos anos 30, o Boletim de Ariel.[451]

 

Enquanto no Rio de Janeiro se preparava a publicação dos dois romances, Graciliano Ramos, como Diretor da Instrução Pública de Alagoas, iniciava uma pequena revolução educacional em Alagoas.

 

Caetés afinal foi publicado, em edição oficialmente datada de 1933. Anunciado no início de 1934, várias resenhas sobre o romance foram publicadas em fevereiro. Em recorte com identificação manuscrita de Graciliano, Jorge Amado apresentou o “estilo geométrico” do romance, em Literatura, dezembro de 1933:

 

A gente sai da leitura desse livro, livro de uma realidade pasmosa, com o contentamento de ter descoberto um romancista, porém mal satisfeito com a humanidade. Quanta gente ruim... Eles são assim mesmo, a gente bem sabe. Nenhum herói desperta simpatia. João Valério, Luíza, Nazaré, Adrião, o padre, o promotor, quanta gente insignificante, má, perniciosa.[452]

 

Também em recorte coletado por Graciliano, o Rio Magazine disse em janeiro de 1934:

 

Schmidt Editor vai definitivamente lançar nos primeiros dias de janeiro o esperado romance do grande escritor alagoano Graciliano Ramos.[453]

 

O Diário de Notícias, 14-01-1934, anunciou em nota o “romance moderno”:

 

Schmidt-Editor acaba de lançar um romance moderno: Cahetés de Graciliano Ramos.[454]

 

Entre as várias resenhas de Caetés, a de Aurélio Buarque de Holanda, minuciosa, começou destacando o estilo de “telegrama” do autor e acabou anunciando S. Bernardo:

 

Os defeitos apontados em Caetés – insignificantes em sua maioria – não chegam a obscurecer, antes põem em destaque, o que o romance tem de realmente belo. Com ele o sr. Graciliano Ramos pode, sem favor, formar na fileira dos melhores romancistas do Brasil. E dentro de poucos meses – anuncio-o com o maior prazer aos leitores do Boletim – a publicação de São Bernardo, que já conheço, revelará ao país um dos seus grandes, dos seus maiores romancistas de todos os tempos.[455]

 

Anos depois, 1946, o período seria relembrado em “Paulo Honório”, um depoimento a João Condé, em momento culminante do estilo e do humor de Graciliano, que lamentou o pai ter morrido em 1934, sem ter visto S. Bernardo publicado:

 

Paulo Honório, concebido em 1924, nasceu em 1932. Narro essa longa gestação, por exigência de Condé, homem terrível e absurdo, que guarda fotografias e papéis inéditos de todo o gênero, da novela ao rol de roupa suja, do poema à carta de cobrança, autos de processo e correspondência amorosa, coisas obtidas pelos mais diversos meios: sorrisos, pagamento do café, do ônibus e do bonde, ameaças, gritos, carinhos, promessas, injúrias, cócegas, apresentação a cavalheiros ponderosos e chantagens, pois o monstro conhece fidalgos estrangeiros e funcionários da polícia. Para me extorquir estas declarações, Condé me ofereceu, antes de tudo, a glória. Como a sua coleção durará séculos, posso ter a certeza de que, senão a obra inteira, pelo menos uma das minhas personagens tomará pé no futuro. Em segundo lugar vem um assunto pecuniário: o malvado farejou o meu orçamento, percebe nele um desequilíbrio e dispõe-se a endireitá-lo.

– Com meia dúzia de penadas, V. ganha um dinheirão, filho de Deus.

O jeito que tenho é convencer-me, decidir contar a origem de Paulo Honório, alagoano, viçosense, chegado ao Rio há doze anos e hospedado na Ariel.

Aqui vai a tarefa. Em 1924, em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas, encontrei dificuldade séria, pus-me a ver inimigos em toda a parte e desejei suicidar-me. Realmente julgo que me suicidei. Talvez isto não seja tão idiota como parece. Abandonando o contas-correntes, o diário, outros objetos da minha profissão, havia-me embrenhado na sociologia criminal. Que me induziu a isso? Teria querido matar alguns fantasmas que me perseguiam?

Naquele inverno de 1924, numa casa triste do Pinga-Fogo, sentado à mesa da sala de jantar, fumando, bebendo café, ouvindo a arenga dos sapos, o mugido dos bois nos currais próximos e os pingos das goteiras, enchi noites de insônia e isolamento a compor uma narrativa. Surgiu um criminoso, resumo de certos proprietários rijos existentes no Nordeste. Diálogo chinfrim, sintaxe disciplinada, arrumação lastimosa. Felizmente essas folhas desapareceram. Mas as preocupações que me afligiam desapareceram também, pelo menos adelgaçaram: ressurgi, desenferrujei a alma, tornei-me prefeito municipal. Aventuro-me a admitir, pois, que o suicídio se tenha de fato realizado.

Passaram-se anos. Deixei a prefeitura, vendi a loja, mudei-me para Maceió e fui bocejar, falar ao telefone e discutir literatura na Imprensa Oficial. Em consequência da bagunça revolucionária de 30, demiti-me – e no começo de 1932 arrastava-me de novo em Palmeira dos Índios, com vários filhos pequenos, sem ofício nem esperanças, enxergando em redor nuvens e sombras.

Nessa crítica situação voltou-me ao espírito o criminoso que em 1924 me havia afastado as inquietações – um tipo vermelho, cabeludo, violento, de mãos duras, sujas de terra como raízes, habituadas a esbofetear caboclos na lavoura. As outras figuras da novela não tinham relevo, perdiam-se à distância, vagas e inconsistentes, mas o sujeito cascudo e grosseiro avultava, no alpendre da casa-grande de S. Bernardo, metido numa cadeira de vime, cachimbo na boca, olhando o prado, novilhas caracus, habitações de moradores, capulhos embranquecendo o algodoal, paus-d’arco floridos a enfeitar a mata. E, sem recorrer ao manuscrito de oito anos, pois isto prejudicaria irremediavelmente a composição, restaurei o fazendeiro cru, a lápis, na sacristia da igreja enorme que o meu velho amigo padre Macedo andava a construir. Surgiam personagens novas, e a história foi saindo diversa da primitiva.

Até o capítulo XVIII tudo correu sem transtorno. Um dia de fevereiro, ao entrar em casa, senti arrepios. À noite, com febre, fiz o capítulo XIX, uma confusão que mais tarde, quando me restabeleci, conservei.

 

Ao sair do hospital, com uma perna encrencada, coxo, na ferida ainda aberta uma tampa de esparadrapo, recomecei o trabalho, que fui terminar em Palmeira dos Índios, na minha casa do Pinga-Fogo, ouvindo os sapos, a ventania, os bois de seu Sebastião Ramos.

 

Finda a escrita, copiei-a, tentando suprimir-lhe excrescências e acessórios dispensáveis. Houve, pois, três redações: uma completamente abandonada em 1924, duas em 1932. Esforcei-me em demasia para conseguir simplicidade.

Em novembro Paulo Honório me parecia mais ou menos apresentável. Acompanhou-me à capital. Valdemar Cavalcanti datilografou-o. Gastão Cruls editou-o. E os críticos lhe dispensaram algumas cortesias.

Em Palmeira dos Índios, onde foi gerado, ninguém deu por ele. Apenas seu Digno, parente de minha mãe, vaqueiro, informado de que certo livro tinha sido feito por mim, desconfiou, duvidou. E como lhe falassem com segurança, pegou a brochura, mediu-a, pesou-a, examinou-lhe a capa, a ilustração de Santa Rosa – e opinou:

– Quem diria? Sim, senhor. Está um trabalhinho direito.[456]

 

S. Bernardo foi publicado ainda em 1934, no final do ano, dezembro, como ocorreu com Caetés em 1933. Graciliano já escrevia Angústia. Ao lado de anúncio da Ariel, ilustrado com capas de Doidinho, de Suor, da segunda edição de Cacau, e outras, a revista Beira-Mar, em fins de outubro, 27-10-1934[[457]], divulgava entrevista com o gerente da editora, que prometia a publicação de S. Bernardo brevemente, entre as próximas edições.[458]

 

Várias resenhas censuraram o uso do “baixo calão” e consideraram inverossímil um narrador bruto e mal letrado dedicando-se a escrever um romance.[459]

 

Uma crítica que certamente muito agradou Graciliano foi a de Oscar Mendes, a tal ponto que o romancista apresentou-se a ele numa carta, de 05-04-1935, comentando aspectos significativos entre os abordados em sua resenha “Egoísmo”[460]:

 

Estamos longe do tempo em que os mais conceituados críticos nacionais eram uns sujeitos que ensinavam colocação de pronomes e sintaxe de regência. Ainda há uns idiotas que fazem crítica, infelizmente: o ano passado um deles descobriu que não sei conjugar verbos.[461]

 

Acho, como o senhor, que transformar a literatura em cartaz, em instrumento de propaganda política, é horrível.

 

O senhor deve ter visto uma enquete que se fez na Rússia o ano passado.

 

Quase toda a gente respondeu que não conhecia a literatura soviética.

 

Romain Rolland, depois de rodeios, disse isto: “A arte é um ofício, uma técnica, e, como técnica, exige aprendizagem”.[462]

 

O senhor não quer nenhuma revolução. Eu desejo que as coisas mudem, embora me pareça que isto não me trará vantagem. Pergunto a mim mesmo que trabalho me dariam se o cataclismo que espero chegasse agora. Não sendo operário, não poderia fabricar nenhum objeto decentemente. Faria um livro, com dificuldade, matutando, trocando palavras. Mas hoje existe o romance-cenário, que pretende ser uma espécie de literatura. Li um deles, russo, traduzido em francês, horrível.  Junto a isso de nada serviriam as minhas letras, aprendidas no tempo em que a gente estudava Balzac.

Creio que a revolução social me levaria à fome e ao suicídio. Mas como, segundo o evangelho, nem só de literatura vive o homem, é razoável que se procure o bem-estar dos outros trabalhadores. Além disso, pode ser que o romance-artigo de fundo e o romance-noticiário sejam realmente, depois de aperfeiçoados, melhores que os antigos, extensos demais, pesadões. Quem sabe?

O que é certo é que não podemos honestamente apresentar cabras de eito, homens da bagaceira, discutindo reformas sociais. Em primeiro lugar, essa gente não se ocupa com semelhante assunto; depois os nossos escritores, burgueses, não poderiam penetrar a alma dos trabalhadores rurais.[463]

 

Julgo que ninguém conhece bem a vida dos nossos matutos. Essas criaturas falam pouco diante de pessoas estranhas, são acanhadas. E não creio que existe nelas a consciência de classe a que Jorge Amado se refere. Vivi trinta anos em cidade pequena – não vi nada que se parecesse com revolta. Se ainda tentasse escrever um romance, provavelmente não me afastaria da gente mesquinha que há nos meus dois livros. É uma tristeza mexer com ela, mas não conheço outra. Suponho, porém, que não há perigo: não teremos reincidência.[464]

 

Enquanto Heloísa Ramos procurava em Palmeira dos Índios produzir literatura com “Maria Antônia”[465], Graciliano escrevia Angústia[466] e passava com humor herético a Semana Santa de 1935 na casa do sogro.[467]

 

No Sábado de Aleluia, dá detalhes sobre a escrita, produtiva, de Angústia, demonstrando bom proveito dos dias de feriado.

 

Ontem à noite Luís da Silva tirou da raiz da mangueira dezesseis mil-réis em prata e duas libras esterlinas que Vitória tinha enterrado. Aí apareceu um gato que deve ser da família do diabo: creio que nessa história de botija o diabo aparece sempre. Nunca vi nenhum, mas é o que dizem. O meu diabo tem olhos de gato e veio numa sexta-feira da Paixão. Suponho que ele fica bem com olhos de gato. Seu Américo me deu umas informações sobre os olhos dos gatos, mas sem imaginar que eu estava preparando um diabo num dia santo como o de ontem.

 

Nunca trabalhei assim, provavelmente um espírito me segurava a mão. Vou perguntar a d. Luísa. A letra era minha, embora piorada por causa da pressa, mas é possível que aquilo fosse mesmo feitiçaria. Ou efeito de aguardente.

 

Estou em grande atrapalhação para matar Julião Tavares. Cada vez me convenço mais de que não tenho jeito para assassino.[468]

 

Moacir Medeiros de Sant’Ana desdobra um detalhado painel[469] das realizações de Graciliano Ramos como Diretor da Instrução Pública, comprovando a importância desse significativo acontecimento na história da educação alagoana (mas adverte que não há registros específicos sobre a implantação sistemática de merenda escolar naquele momento)[470]. Alguns aspectos relevantes, entre os que o pesquisador aborda, são:

 

A documentação oficial sobre o período da gestão de Graciliano, 1933-1936, praticamente não existe. Restou, de teor mais expressivo, a publicação do próprio Graciliano em A Escola, n. 1, setembro de 1935, “Alguns números relativos à instrução primária em Alagoas”, de onde o pesquisador destaca passagens como esta: “O quadro que nos apresentava, há poucos anos, a instrução pública em Alagoas era este: dezena e meia de grupos escolares, ordinariamente localizados em edifícios impróprios, e várias escolas isoladas na capital e no interior, livres de fiscalização, providas de material bastante primitivo e quase desertas. As professoras novas ingressavam normalmente nos grupos; as velhas ficavam nas escolas isoladas, longe do mundo, ensinando coisas absurdas. Salas acanhadas, palmatórias, mobília de caixões, santos nas paredes, em vez de mapas”.[471]

 

O pesquisador relata o plano de ação de Graciliano: “Desde os seus tempos de prefeito de Palmeira dos Índios, quando criou várias cadeiras de instrução primária no município e submeteu os candidatos à prova de habilitação, estava consciente de que a escola para ser eficaz dependia fundamentalmente de bons professores. Ajustara, por isso, com o interventor Afonso de Carvalho, algumas medidas tendentes à melhoria do ensino público, entre as quais a proibição do ingresso, no magistério público primário, de pessoas não diplomadas; a exoneração de todas as professoras primárias interinas; a criação – na realidade recriação – de Juntas Escolares, destinadas a propagar e fiscalizar o ensino nas escolas estaduais, municipais e particulares; a organização do serviço de estatística escolar”;  “exonerou 66 professoras interinas, todas elas pertencentes a escolas do interior do Estado, entre as quais a sua própria irmã, Marili Ramos, então lecionando em Anel, povoação de Viçosa”[472]. Entre outros presentes em grupo escolar de Pajuçara, Graciliano, o interventor e um redator do Jornal de Alagoas assistiram em julho de 1933 à distribuição de roupas e calçados a 400 crianças pobres, ação estendida posteriormente à capital e ao interior, incluindo material escolar.[473]

 

Aos poucos, as escolas de instalação precária foram desaparecendo – segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana: “Dez delas haviam sido fechadas na capital, em 1934, substituídas por dois grupos escolares que empregavam 19 professores”, além de reformas, construções e instalações de escolas por todo o interior de Alagoas[474]. A educação pré-escolar para crianças de 4 a 7 anos expandiu-se como unidade escolar autônoma de Jardins da Infância, “em número de três, instaladas em pavilhões circulares edificados na Praça D. Pedro II”. Em 1933, instalou-se a Escola Profissional Feminina, em Maceió. Em 1934, foram inauguradas a Biblioteca da Escola Normal de Maceió e as Escolas Normais de Viçosa e Penedo.

 

A adoção de Aventuras de Hans Staden, de Monteiro Lobato, nas escolas primárias alagoanas, mereceu o artigo no Jornal de Alagoas, de 15-07-1933, que saudava a escolha de histórias fabulosas, que “à imaginação e à força receptora meio selvagem da criança agrada como uma invenção de maravilhas”, em oposição às  “histórias cheias de monotonia e moralidade”, que submetiam a criançada “a um regime de penitenciados a trabalhos forçados de literatura ruim”. O mesmo jornal, em 13-12-1935, em editorial sob o título “Trabalhando em silêncio”, qualificava Graciliano como um “técnico no assunto”: “Trabalhador compenetrado dos seus deveres, decidido nas suas determinações, a sua obra, na Instrução Pública, dia a dia se impõe ao respeito da coletividade”, apresentando cifras que indicavam depois de 1932 aumentos fartamente multiplicados da escolarização no estado.[475]

 

Ainda segundo o levantamento de Moacir M. de Sant’Ana, há o registro de mensagem do governador Osman Loureiro à Assembleia Legislativa do Estado, datada de 21-04-1936 (mais de um mês depois de Graciliano Ramos ter sido demitido e preso), comunicando a aquisição no sul do país, desde o início de seu mandato, de duas mil carteiras duplas[476], em substituição aos caixotes que muitas vezes os próprios alunos traziam para as aulas.

 

Então, após a tentativa frustrada do movimento revolucionário comunista em novembro de 1935, desencadearam-se ações repressivas em massa que atingiram indiscriminadamente toda atuação e pensamento críticos[477]. Graciliano Ramos, sem relação com o movimento, foi uma das vítimas da sanha fascista que aninhava o golpe de estado de 1937. Pouco antes de ser demitido e preso, o Diário de Pernambuco, 24-01-1936[[478]], colheu dele, sob o título “Aspectos da instrução pública em Alagoas”, a entrevista-depoimento, em que se destacam os seguintes dados e declarações:

 

Não nos temos despreocupado da situação do professorado normal e primário de Alagoas. Assim é que a Escola Normal Oficial teve o seu corpo docente renovado, nele ingressando figuras brilhantes de técnicos como os drs. Theo Brandão, especialista em higiene e puericultura, Sebastião Hora[479], professor de psicologia e pedagogia, Mário Marroquim, catedrático de português. Melhorado desse modo o professorado com a aquisição de valores novos, fica assegurada uma situação de relevo ao magistério do estado.

Em 1933 foram demitidas 119 professoras interinas. Depois, mediante concurso, 50% dessas professoras tiveram  sua nomeação em caráter efetivo. Não somente lhes foi melhorada a própria situação como também a do ensino. Atribuo mesmo a esse fato, que contribuiu para melhorar a situação das escolas no interior, o aumento da frequência escolar.

 

Graciliano enumerou os grupos escolares criados na capital e no interior, falou do alcance e função das escolas normais (acima citadas) e anunciou:

 

Cogita-se atualmente da criação de mais uma escola normal do interior, que possivelmente será localizada em Palmeira dos Índios. Servirá ela à vasta zona sertaneja do estado, formando assim o professorado do sertão.

 

Sobre o material escolar (sem referir-se à merenda), disse:

 

Em 1935 adquirimos 2600 carteiras duplas. Funcionando todos os grupos escolares em 2 turnos, equivale a dizer que temos assim carteiras para 10400 escolares. Por conta da caixa escolar a diretoria de Instrução Pública fornece gratuitamente às crianças pobres, livros, roupas, sapatos etc. Em 1935 fornecemos cerca de 10 mil metros de fazenda, foram distribuídos mil pares de sapatos e cerca de 500 volumes como prêmios escolares.

 

Sobre a Escola Profissional Feminina[480], informava:

 

Em 1933, ao assumirmos a direção da instrução pública, encontramos já criada a Escola Profissional Feminina, mas ainda não iniciados os seu trabalhos. Tratamos de fazê-lo e hoje ela se apresenta com um desenvolvimento já notável.

A sua frequência tem sido grande e as suas instalações pequenas para comportar quantos a procuram. Posso até lhe adiantar que muitas senhoras fazem hoje curso especializado de arte culinária na escola.

A Escola Profissional Feminina, que é uma realidade no ensino em Alagoas, vem prestando reais serviços à mocidade feminina da capital. Várias são as encomendas que ela recebe e múltiplo tem sido o aproveitamento de suas alunas.

No interior funciona um clube agrícola em União e este ano cogitamos de criá-los em Palmeira, Penedo e outras cidades.

 

Para encerrar, Graciliano destacou o serviço interno com a criação da Seção de Estatística e Registro:

 

Por ele pode a diretoria fazer o registro de todas as escolas estaduais e municipais e este ano faremos o das escolas particulares.

O que vimos fazendo, em prol da instrução pública no estado, tem uma compensação que nos satisfaz: é que todos compreendem a necessidade de desenvolver as possibilidades do ensino em Alagoas, como base inicial para a formação cultural das novas gerações.

 

Preocupado com retocar seu último romance, que os amigos queriam encaminhar logo para publicação, Graciliano contou em carta a Ló, no final de janeiro, 28-01-1936, que teve uma ideia de outro livro. Mas somente no Rio de Janeiro e depois da prisão é que o livro seria composto – sempre lembrado por sua inter-relação com Angústia: Infância:

 

Um dia destes, no banheiro, veio-me de repente uma ótima ideia para um livro. Ficou-me logo a coisa pronta na cabeça, e até me apareceram os títulos dos capítulos que escrevi quando saí do banheiro, para não esquecê-los. Aqui vão eles: Sombras, O inferno, José, As almas, Letras, Meu avô, Emília, Os astrônomos, Caveira, Fernando, Samuel Smiles. Provavelmente me virão ideias para novos capítulos, mas o que há dá para um livro. Vou ver se consigo escrevê-lo depois de terminado o Angústia. Parece que pode render umas coisas interessantes. Zélins e Jorge Amado têm insistido para que eu remeta logo os originais. Mas ainda não dei resposta às cartas deles. E só mandarei os originais quando o dinheiro vier.[481]

 

Numa das passagens mais dilacerantes de Memórias do cárcere, nos capítulos 2 e 3 do início da obra, Graciliano lembra os momentos da demissão e da prisão. Depois de  contínuos telefonemas ameaçadores, recebeu em seu gabinete o filho do governador, que, acanhado, falava de pressões incontornáveis que exigiam seu desligamento do governo:

 

Não me surpreendi. Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguira aguentar-me ali mais de três anos, e isto era espantoso. Ocasionara descontentamentos, decerto cometera numerosos erros, não tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos[482], e isto se considerava impatriótico.

 

Graciliano menciona sua dedicação, depois do expediente, à escrita de Angústia, em meio ao fardamento e aos cadernos que as crianças pobres estavam recebendo:

 

Lembro-me perfeitamente da cena. O gabinete pequeno se transformara numa espécie de loja: montes de fazenda e cadernos, que oferecíamos às crianças pobres. Findo o expediente, sucedia retardar-me ali, a escrever, esquecia-me do tempo, e às vezes, meia-noite, o guarda vinha dizer-me que iam fechar o portão do Palácio. Parte do meu último livro fora composto no bureau largo, diante de petições, de números do Literatura Internacional.

 

Recusou-se ao “afastamento voluntário” que o governador lhe propunha:

 

Os integralistas serravam de cima, era o diabo.

Demissão ninguém me forçaria a pedir. Havia feito isso várias vezes, inutilmente; agora não iria acusar-me. Dessem-na de qualquer jeito, por conveniência de serviço.[483]

 

Preocupava-se com a possibilidade de que sua situação comprometesse os companheiros águas-mornas da Instrução Pública, dr. Sidrônio, católico, e Luccarini:

 

Luccarini tinha sido meu inimigo. Apanhado certa vez em falta e censurado, replicara-me: – Eu também já mandei. Mas quando queria dizer isso que o senhor está dizendo, chamava o sujeito particularmente. – Ora essa! O senhor chega tarde, larga a banca e vive passeando pelas seções alheias em público. Luccarini voltara ao seu lugar e durante três meses fora de uma pontualidade irritante.

 

Como o premonitório Luís da Silva, em Angústia, naquela noite Graciliano ruminava a caminho de casa:

 

Saí do Palácio, atordoado. Eximia-me de obrigações cacetes, mas isso continuava a aperrear-me, juntava-se a amolações domésticas e a planos vagos. Sentia desgosto e vergonha, desejava ausentar-me para muito longe, não pensar em despachos e informações. Andei pelas ruas, tomei o bonde.

 

Realmente eu havia sido ali uma excrescência, uma excrescência agora amputada, a rodar no bonde, a olhar navios e coqueiros. De certo modo as ameaças dos telefonemas me agradavam: embora indeterminadas, indicavam mudanças, forçar-me-iam a azeitar as articulações perras. Conservara-me regulamentar e besta mais de três anos, numa cadeira giratória, manejando carimbos, assinando empenhos, mecânico, a deferir e indeferir de acordo com as informações de seu Benedito, realmente obedecendo a seu Benedito. Que diabo me fariam? Imaginei um desacato, tiros ou facadas, em hora de movimento, no relógio oficial.

 

Foi o que imaginei: uma agressão pública, muitos integralistas atacando-me, furando-me, partindo-me as costelas, os braços e a cabeça. Recolhi-me.

Na casinha de Pajuçara fiquei até a madrugada consertando as últimas páginas do romance. Os consertos não me satisfaziam: indispensável recopiar tudo, suprimir as repetições excessivas. Alguns capítulos não me pareciam muito ruins, e isto fazia que os defeitos medonhos avultassem. O meu Luís da Silva era uma falastrão, vivia a badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte. Aquele assassinato, realizado em vinte e sete dias de esforço, com razoável gasto de café e aguardente, dava-me impressão de falsidade. Realmente eu era um assassino bem chinfrim. O delírio final se atamancara numa noite, e fervilhava de redundâncias.

 

Minha mulher vivia a atenazar-me com uma ciumeira incrível, absolutamente desarrazoada. Eu devia enganá-la e vingar-me, se tivesse jeito para essas coisas. Agora, com a demissão, as contendas iriam acirrar-se, enfurecer-me, cegar-me, inutilizar-me dias inteiros, deixar-me apático e vazio, aborrecendo o manuscrito. Largara-o duas vezes, estivera um ano sem vê-lo, machucara folhas e rasgara folhas.

 

Graciliano entregou os originais de Angústia para a datilógrafa. Luccarini veio adverti-lo de que seria preso, convinha fugir dali. Tomou a decisão de esperar pela prisão:

 

No dia seguinte, 3 de março, entreguei pela manhã os originais a d. Jeni, datilógrafa. Ao meio-dia uma parenta me visitou – e este caso insignificante exerceu grande influência na minha vida, talvez haja desviado o curso dela. Essa pessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu a crimes vários praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que me denunciasse, caso ainda não o tivesse feito[484]. A criatura respondeu-me com quatro pedras na mão e retirou-se. Minha mulher deu razão a ela e conseguiu arrastar-me a um dos acessos de desespero que ultimamente se amiudavam. Como era possível trabalhar em semelhante inferno? Nesse ponto surgiu Luccarini. Entrou sem pedir licença, atarantado, cochichou rapidamente que iam prender-me e era urgente afastar-me de casa, recebeu um abraço e saiu.

Ótimo. Num instante decidi-me. Não me arredaria, esperaria tranquilo que me viessem buscar. Se quisesse andar alguns metros, chegaria à praia, esconder-me-ia por detrás de uma duna, lá ficaria em segurança. Se me resolvesse a tomar o bonde, iria até o fim da linha, saltaria em Bebedouro, passaria o resto do dia a percorrer aqueles lugares que examinei para escrever o antepenúltimo capítulo do romance. Não valia a pena. Expliquei em voz alta que não valia a pena. Entrei na sala de jantar, abri uma garrafa de aguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices, a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara. Propriamente não era monólogo: minha mulher replicava com estridência. Escapava-me a significação da réplica, mas a voz aguda me endoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheço pior tortura que ouvir gritos. Devia existir uma razão econômica para esse desconchavo: as minhas finanças equilibravam-se com dificuldade, evitávamos reuniões, festas, passeios. De fato as privações não me inquietavam. Minha mulher, porém, sentia-se lesada, o que me fazia perder os estribos.

 

Se a vida comum era ruim, essa que Luccarini me oferecera num sussurro, a tremura e a humilhação constante, dava engulhos. Além disso eu estava curioso de saber a arguição que armariam contra mim. Bebendo aguardente, imaginava a cara de um juiz, entretinha-me em longo diálogo, e saía-me, perfeitamente, como sucede em todas as conversas interiores que arquiteto.

 

Graciliano lembra o Luís da Silva de “entre grades”:

 

A cadeia era o único lugar que me proporcionaria o mínimo de tranquilidade necessária para corrigir o livro. O meu protagonista se enleara nesta obsessão: escrever um romance além das grades úmidas e pretas.

 

Demais estaria eu certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões de Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação. Não me repugnava a idéia de fuzilar um proprietário por ser proprietário. Era razoável que a propriedade me castigasse as intenções.

 

Recebeu a visita digna da professora Irene:

 

D. Irene, diretora de um grupo escolar vizinho, apareceu à tarde. Envergonhei-me de tocar na demissão, e falamos sobre assuntos diversos. Aí, me chegaram dois telegramas. Um encerrava insultos; no outro, certo candidato prejudicado felicitava a instrução alagoana pelo meu afastamento. Rasguei os papéis, disposto a esquecê-los. Sumiram-se na verdade os nomes dos signatários e as expressões injuriosas, ter-se-ia talvez a pequena infâmia esvaído inteiramente se não contrastasse com a presença de d. Irene ali na sala. O que me interessava no momento era o esforço despendido por ela em três anos. Talvez isso houvesse concorrido para embranquecer-lhe os cabelos, dar-lhe aquela gravidade atenta. Não sorria nunca. E sob o penteado grisalho o rosto moço tinha uma beleza fria. No estabelecimento dela espalhavam-se a princípio duzentos e poucos meninos, das famílias mais arrumadas de Pajuçara. Numa campanha de quinze dias, por becos, ruelas, cabanas de pescadores, d. Irene enchera a escola. Aumentado o material, divididas as aulas em dois turnos, mais de oitocentas crianças haviam superlotado o prédio, exibindo farrapos, arrastando tamancos.

 

Calçados e vestidos pela caixa escolar, os garotos se haviam apresentado com decência. Lembrava-me da lufa-lufa necessária para modificá-los, ria-me pensando em Flora Ferraz sentada no chão, às oito horas da noite, a experimentar sapatos em negrinhos. Avizinhando-me dela, repelira-me com raiva:

– O senhor tem coragem de me dar a mão? Estou suja. Desde a manhã aqui pegando os pés destes moleques!

Quatro dessas criaturinhas arrebanhadas nesse tempo, beiçudas e retintas, haviam obtido as melhores notas nos últimos exames.

– Que nos dirão os racistas, d. Irene?

 

Veio para prendê-lo um tenente espevitado saboreando com bafios de vingança um caso antecedente:

 

Afinal, cerca de sete horas, um automóvel deslizou na areia, deteve-se à porta – e um oficial do exército, espigado, escuro, cafuz ou mulato, entrou na sala.

– Que demora, tenente! Desde o meio-dia estou à sua espera.

– Não é possível, objetou o rapaz empertigando-se.

– Como não? Está aqui a valise pronta, não falta nada.

O sujeitinho deu um passo à retaguarda, fez meia-volta, aprumou-se, encarou-me. Tinha-lhe observado esse curioso sestro um mês antes, na repartição, onde me surgira pleiteando a aprovação de uma sobrinha reprovada. Eu lhe mostrara um ofício em que a diretora do Grupo Escolar de Penedo contava direito aquele negócio: a absurda pretensão de se nomear para uma aluna banca especial fora de tempo.

– Impossível, tenente. Isso é antirregulamentar. Demais, se a garota não conseguiu aprender num ano, certamente não foi recuperar em dias o tempo perdido. Sua sobrinha não é nenhum gênio, suponho.

O tenente recuara, rodara sobre os calcanhares, perfilara-se em atitude perfeitamente militar e replicara com absoluta impudência:

– É o que ela é. Um gênio. Posso afirmar-lhe que é gênio.

 

Agora, finda a pirueta, olhando a valise, prova de que não haviam sabido guardar segredo, encolheu os ombros, sorriu, excessivamente gentil:

– Vai apenas essa maleta? Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.

– Obrigado, tenente.

Comecei a perceber que as minhas prerrogativas bestas de pequeno-burguês iam cessar, ou tinham cessado.

 

Saímos da sala e entramos no automóvel, um grande carro oficial.[485]

 

Em 4 de março, o Diário da Manhã[486], Recife, informava na primeira página, sob o título “A repressão ao comunismo, em Alagoas”, que um oficial havia sido excluído da Força Pública, o capitão Francisco Alves Mata e “vinte extremistas remetidos para Recife”, citando, entre outros, o médico Sebastião Hora e o advogado Antonio Leite. Em subtítulo destacado, finalizava: “Exonerado da Diretoria da Instrução o sr. Graciliano Ramos”.

 

No dia 5 de março, o Diário de Pernambuco[487], publicou a nota: “Seguiram presos para o Recife o sr. Graciliano Ramos e o ex-capitão Alves Mata”.

 

O texto de A Nação, 11-03-1936, foi explicitamente sórdido: sob a foto de Graciliano, explicou na legenda: ”Sr. Graciliano Ramos, que, diretor da Instrução em Alagoas, é extremista declarado”. E, em meio à louvação das medidas enérgicas do general Newton Cavalcanti no combate ao comunismo, detalhou:

 

E tomando providências contra os que queriam subverter o regime do país, prendeu também o sr. Graciliano Ramos, diretor da Instrução, fazendo-o transportar para Recife.

 

O sr. Graciliano Ramos, autor de um livro inconveniente às meninas alagoanas, já se vinha tornando intolerável pela perseguição às professoras que não seguiam o credo vermelho e pela liberdade com que agia a favor do comunismo.

 

As providências tomadas pelo general Newton Cavalcanti causaram a melhor impressão em Alagoas.[488]

 

Em notícia com a manchete “Chegaram do Norte 116 comunistas implicados no levante de novembro” e o subtítulo “Os dez vermelhos de Alagoas”, O Jornal, 15-03-1936[[489]], apresentou o seguinte texto:

 

Chegaram também pelo “Manaus” os principais elementos comunistas que em Alagoas perturbaram a ordem daquele industrioso estado brasileiro.

Esses srs. foram presos quando fracassou o movimento, sendo considerados inocentes pelo juiz federal Alpheu Rosas. Já se encontravam soltos, quando o general Newton Cavalcanti ordenou a prisão deles e os enviou para o Rio. São os seguintes: Manoel Brasil, Antonio Soares Filho, Pedro Mendonça, Abdias Martins, Maria Joana, cabo Vicente Ribeiro Carvalho, capitão Francisco Alves Mata, drs. Graciliano Ramos, Sebastião Hora e Epifânio Guilhermino.

PARA A POLÍCIA CENTRAL

Esses presos foram logo ao desembarcar nas Docas do Lloyd conduzidos para a Polícia Central, em ônibus da Light que ali os esperavam.

 

1936-1953 – Rio de Janeiro

 

Preso durante dez meses e dez dias, de 03-03-1936 a 13-01-1937, ao sair da prisão, Graciliano permaneceu no Rio de Janeiro[490], onde dez anos depois retomaria[491] lenta e continuamente, de 1946 até pouco antes de sua morte em 1953, a elaboração de Memórias do cárcere[492] – um retrato preciso e realista dessa experiência kafkiana. Inicialmente publicada em quatro volumes, meses depois de sua morte, a obra ficou sem a finalização, que o autor deixou simbolicamente em aberto. Contém quatro partes: “Viagens”, “Pavilhão dos Primários”, “Colônia Correcional” e “Casa de Correção”, núcleos das várias prisões por que passou.

 

Sobre a demora na escrita da obra, Graciliano diz nas primeiras linhas de Memórias do cárcere:

 

Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos-de-fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção literária.

 

Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível acharmos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse exercício.

 

Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.[493]

 

Viagens

 

Chegamos ao quartel do 20º Batalhão.

 

Evidentemente as minhas reflexões tendiam a justificar a inércia, a facilidade com que me deixara agarrar. Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a ideia de não pertencer a nenhuma organização, de ser inteiramente incapaz de realizar tarefas práticas.

 

Sentado na cama, o chapéu em cima da valise, abri com o pente as páginas dos três volumes que trouxera: Território Humano de José Geraldo Vieira, Gente Nova de Agrippino Grieco e Dois Poetas de Otávio de Faria. Li a primeira folha do primeiro umas três vezes, inutilmente.

 

Disse-me que tinha ordem de levar-me ao Recife e perguntou-me se queria um carro.

 

Senti-me lesado, mas respondi afirmativamente –  e foi esta a última relação que tive com os poderes públicos de Alagoas.

 

Ao sentar-me, descobri minha mulher na lufa-lufa dos passageiros. Vinha pálida e chorava aquele choro fácil, sereno, que não lhe contrai um músculo, choro superficial, tão diferente dos meus: arrancos interiores, repuxos medonhos no diafragma, ordinariamente sem lágrimas. Diante do rosto molhado e calmo, as desavenças esmoreceram.

 

Arrependia-me vagamente de asperezas e injustiças, ao mesmo tempo supunha-me fraco, a escorregar em condescendências inúteis, e queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas. Aquela viagem era uma dádiva imprevista.

 

Iria qualquer informação doida transformar-me em delator, levar à cadeia rapazes inofensivos que tencionavam eliminar a burguesia distribuindo às escondidas nos cafés papéis mimeografados? Um deles, Jacob, figurava no meu último livro, com o nome de Moisés.

 

E meus filhos mais velhos, da Juventude Comunista, pichadores de paredes, provavelmente andavam perseguidos, a esconder-se.

 

Apavorava-me supor que uma indiscrição minha poderia fornecer aos carcereiros uma pista.

 

Levantava-me quando entrou um moço grave, de olhos vivos ligeiramente estrábicos, fumando por uma longa piteira.

Capitão Lobo.

 

Respeito as suas ideias. Não concordo com elas, mas respeito-as.

 

As lembranças me apareciam juntas, confusas, sumiam-se de repente, deixando-me no interior dolorosos sulcos negros.

 

Um fato nesse dia 6 abalou-me, o único de que tenho lembrança clara. A hora do café abri um jornal do Recife e li, em telegrama do Rio, a notícia arrasadora: Prestes havia sido preso na véspera.

 

Eu não tinha opinião firme a respeito desse homem. Acompanhara-o de longe em 1924, informara-me da viagem romântica pelo interior, daquele grande sonho, aparentemente frustrado.

 

Era como se percebêssemos na sombra um deslizar de fantasma ou sonâmbulo. Mas essa estranha figura de apóstolo disponível tinha os olhos muito abertos, examinava cuidadosamente a vida miserável das nossas populações rurais, ignorada pelos estadistas capengas que nos dominavam.

 

Que significava aquilo? Um protesto, nada mais. Se por milagre a coluna alcançasse vitória, seria um desastre, pois nem ela própria sabia o que desejava.

 

Não lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo[494], adivinhando-me talvez o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem. Estou facilitando-lhe um empréstimo.

 

Foi pouco mais ou menos o que ele me disse. Tornei a agradecer e a recusar, as orelhas em fogo, na tremenda confusão que me causava a enorme surpresa.

 

Insensatez. Tinham-nos jogado para o norte; de repente, sem razão concebível, atiravam-nos em sentido contrário.

 

Ausência de interrogatório, nenhum vestígio de processos.

 

Alcançamos o porto, descemos, segurando maletas e pacotes, alinhamo-nos e, entre filas de guardas, invadimos um navio atracado, percorremos o convés, chegamos ao escotilhão da popa, mergulhamos numa escadinha. Tinha-me atarantado e era o último da fila. Ao pisar o primeiro degrau, senti um objeto roçar-me as costas: voltei-me, dei de cara com um negro fornido que me dirigia uma pistola para-bellum. Busquei evitar o contato, desviei-me; o tipo avançou a arma, encostou-me ao peito o cano longo, o dedo no gatilho.[495]

 

Viajávamos no Manaus, um calhambeque muito vagabundo. Naquela manhã chegamos a Maceió. Examinei atentamente, por uma vigia, a praia de Pajuçara, tentei localizar a casa onde morei. Que estariam fazendo as crianças?

 

Não era, com precisão, calor: era abafamento. Insuficiência de ar para tantos pulmões. Os grupos arquejavam, tossiam, engrossavam debaixo da escotilha. Metido na roupa leve, mexia-me devagar, cautelosamente. Não me arriscaria a calçar chinelos: conservava os sapatos, e, embora tivesse os pés resguardados, repugnava-me em certos pontos encostar as solas na tábua: andava sobre os calcanhares, banzeiro como um papagaio, receoso de pisar nas imundícies, cada vez mais abundantes. As cascas de frutas, restos de comida, detritos de toda espécie, aumentavam. Aquela gente escarrava no chão, vomitava no chão; a um canto, perto da escada, havia sempre alguns indivíduos de costas, molhando a parede; corria desse mictório improvisado um filete que desaguava no charco movediço.

 

Aí nos fizeram entrar em diversos ônibus grandes, as aberturas laterais guarnecidas por longas hastes paralelas de metal branco.

 

Apesar da confusão, devia aparentar calma, pois o carcereiro me indicou, largou uma frase que me feriu como chicotada:                                                          

– Este parece um cadeeiro velho. Estremeci:

– Hem?

– Entra como se estivesse em sua casa.

 

Avizinhei-me de um guarda velho, que se dispunha a conduzir-nos:

– Faz favor de me dizer para onde vamos?

– Pavilhão dos Primários, informou o sujeito.

– Melhor ou pior que isto aqui?

– Melhor, melhor. Vivem lá cantando e berrando como uns doidos.

 

Pavilhão dos Primários

 

Avançamos entre duas filas de homens que, de punhos erguidos, se puseram a cantar, na música do Hino Nacional:

 

Do norte, das florestas amazônicas,

Ao sul, onde a coxilha a vista encanta,

A terra brasileira, à luz dos trópicos...

 

Um sujeito moreno, de cabeleira anelada, perguntou:

– Qual é deles?

Outro, peludo, baixo, indicou-me erguendo o braço.

 

– Será realmente impossível achar água? Estou imundo. Faz uma semana que não me lavo.

Renato cortou a dificuldade. A um canto, disfarçando a latrina, havia um guarda-vento. Colocou-o diante da pia, agarrou um caneco:

– Dispa-se.

Nem me deu tempo de recusar. Minutos depois achava-me coberto de espuma a receber açoites líquidos em todo o corpo. Enxuguei-me com a toalhinha de rosto, encabulado por incomodar o solícito homem, que passava a borracha no chão molhado. Restava-me um pijama limpo.

 

– Sérgio de quê? perguntei. Qual é o seu sobrenome? – Isto é pseudônimo. Eu me chamo Rafael Kamprad[496]. – Alemão? Pelo jeito de falar, parece alemão.

– Russo, do Cáucaso.

 

Previdente, desviara de casa objetos nocivos, confiara a um aluno cartas de Trotski, mas com tanta infelicidade que num instante haviam caído os papéis nas mãos da polícia.

 

E haviam-lhe deformado os pés na tortura. Rafael Kamprad, ou Sérgio, contava-me isso com um sorriso plácido.

 

O rapaz simpático e franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.

– Italiano?

– Argentino. Secretário do Partido Comunista Argentino.

Sim senhor, achava-me entre indivíduos importantes, que me espicaçavam a curiosidade.

 

Estremeci ouvindo perto um canto de galo. Quem teria metido ali o animal?

 

Lá em cima, um sujeito de bugalhos imóveis e expressão lorpa estirava o pescoço e esgoelava-se daquele modo.

– Idiota! bradaram furiosamente na vizinhança.

 

– Alô! alô! Fala a Rádio Libertadora.

Não era apenas um divertimento arranjado com o fim de matar tempo e elevar o ânimo dos presos: vieram notícias de jornais, comentários, acerbas críticas ao governo, trechos de livros, o Hino do Brasileiro Pobre, algumas canções bastante patrióticas, sambas.

– A Beatriz não vai querer cantar? disse alguém.

Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino. Palmas, aclamações, gritos exigindo o canto de Beatriz Bandeira. Um sussurro doce flutuou longe:

                      

As granadas vêm caindo,

Incendiando o meu quartel

 

Chamaram-me da porta: uma das mulheres recolhidas à sala 4 desejava falar comigo. Estranhei. Quem seria?

 

O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se:

– Nise da Silveira.[497]

Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço.

 

De pijama, sem sapatos, seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso.

 

Despedi-me de Nise e desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos: quem seria a criatura feminina de pulmões tão rijos e garganta macha? Nenhum interesse me animava a descobrir isso; refugiei-me na questão para fugir à lembrança de me haver conservado inerte e frio diante da psiquiatra. Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Elisa Berger, Cármen Ghioldi, Maria Werneck, Rosa Meireles, outras.[498]

 

Segunda-feira pela manhã vieram chamar-me à secretaria.

De longe, num dos bancos largos, conhecidos no dia da inquirição enfadonha, bocejada, avistei minha mulher a renovar o choro manso, tranquilo, da silenciosa despedida, na estação da Great Western.

 

Mocinha exígua, criada em rua modesta de capital vagabunda, com certeza se atarantava na cidade grande, encolhia-se muda. Enganei-me. Estancado o pranto leve, enxutos os olhos, fez um resumo dos seus atos, na aparência convicta de uma aprovação que não existia em mim.

 

Desconhecida e insignificante, iniciara em seu favor um trabalho de aranha, estendendo fios em várias direções, e ainda hoje não sei se a impelia o desejo de me ser útil ou o prazer de mexer-se, avançar, recuar, preparando a sua teia. Hospedara-se em casa de uns tios, no Méier. Estivera no Ministério da Guerra, no Ministério da Justiça, no Palácio do Catete, na Chefatura de Polícia, falara a deputados e a generais, largava rápido a língua do nordeste e começava a adotar uma gíria burocrática singular, enganando-se às vezes no sentido de algumas expressões. Estabelecera rapidamente comunicação com a família de José Lins. Entendera-se com José Olímpio e combinara com ele mandar buscar por via aérea uma das cópias do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.

 

Naquele dia a comida veio muito ruim, de aspecto mais desagradável que o ordinário.

Cheguei-me à porta, vi a pequena distância Agildo Barata no passadiço, junto aos varões do parapeito, formulando uma arenga bastante arrepiada. A voz álgida não se detinha, derramava-se num fio invariável. Escutando-o, às vezes me assaltava a doida impressão de que o regato sonoro deixava de correr, era gelo cheio de arestas cortantes, onde se assanhavam aranhas caranguejeiras e outros viventes da umidade. Também me vinha à ideia um miar de gato comedido, vagaroso, a esconder mal as garras. Esses disparates – água tranquila, gelo, caranguejeiras, gatos – associavam-se, emprestando a Agildo uma personalidade estranha, complexa em demasia.

 

Por esse tempo caiu-me entre as unhas um jornaleco ordinário, e surpreendeu-me ver nele o meu retrato, miudinho, numa coluna, encimando esta legenda fera, em grifo: o bagunceiro de Alagoas.

 

Um desordeiro, a prisão era justa.

 

E como diabo tinham descoberto aquela fotografia? Escarafunchei a memória, lembrei-me de que, meses atrás, a indignada folha me estampara a carranca noticiando o aparecimento de um livro, com abundância de elogios chinfrins.

 

Colônia Correcional[499]

 

Era o Pavilhão dos Militares. O chão liso, as paredes nuas valorizavam demais o conforto escasso perdido uma hora antes: o colchão magro, a cama dura, o guarda-vento. Iríamos para a Colônia?

 

Gritos nos deram a notícia de que uma turma viera dias antes da Colônia e estava ali perto.

 

As figuras estranhas apinhadas ali riam. Riam para mim, como se eu fosse uma carcaça também. Quantos meses fazia que tinham vivido comigo no Pavilhão dos Primários? Dois meses.

 

Farrapos. Regressavam da Colônia, farrapos.

 

Aquele devia ser o Newton Freitas[500], o camarada alegre e ruidoso que no Pavilhão soltava risadas enormes, com ou sem propósito.

 

Despertaram-nos antes de amanhecer, ordenaram que nos vestíssemos sem rumor.

 

Um tintureiro nos aguardava na rua, abriu-se para receber-nos. Ignoro como entrei, acho que subi por uma pequena escada.

 

O trem parou, desembarcamos em Mangaratiba.

 

Faltavam-me cigarros.

 

Procurei auxílio, enxerguei perto um soldado negro, dirigi-me a ele.

 

Dei-lhe vinte mil-réis, fiquei olhando algumas senhoras que desciam do trem, da primeira classe, ingressavam no embarcadouro, em companhia de um sujeito magro, baixo, de cara chupada. Alguém me disse que o tipo se chamava Sardinha, era médico e mandava provisoriamente na Colônia Correcional de Dois Rios.

 

E se uma daquelas senhoras quisesse mijar? Esse pensamento burlesco um minuto me agravou os arranhões da goela, o desejo de rir. Nenhum motivo para acanharem-se, mijariam facilmente na rede de Macedo, no capote do Zoppo, na minha valise.

 

Retirei da valise a calça do pijama e introduzi no cós dela o dinheiro de papel que me restava; deixei no porta-níqueis uma cédula de cinquenta mil-réis.

 

Entre as perneiras dos soldados, vi o mundo lá fora, o sol, água, ilhas, montes,

uma terra próxima a alargar-se.

 

Obrigado, sargento. Não é necessário o cavalo. Vou a pé.

Voltou-se para os dois policiais:

Este senhor está doente, não pode acompanhar os outros. Andem muito devagar com ele, parando para descansar.

 

Aquilo é horrível, hem, sargento? Alongou o beiço grosso, resmungou: Não. Para o senhor, não.  Em qualquer parte o senhor está em casa.

 

No fim da tarde alcançamos um pátio branco. Ao fundo, enorme galpão fechado, e junto a ele cercas de arame, certamente o curral onde nos confinariam.

 

O cheiro de carniça invadiu-me os gorgomilos, trouxe-me enjoo, lágrimas, embrulho no estômago.

 

Nos arredores vultos indecisos, provavelmente os meus vizinhos da lancha, do carro de segunda classe, do tintureiro, matavam a fome.

 

– Coma.

 

Apesar da recusa, a criatura afável, isenta de fisionomia, continuava a embalar-me com a oferta vagarosa, insistência mole, gorda e úmida.

 

Nunca imaginara que um homem se dirigisse a outro daquele jeito: desvelo excessivo, uma ternura flácida e trêmula.

 

E o barbeiro iniciou a tarefa, meteu-me nos cabelos uma pequena máquina cega. Verboso, prosseguia nas justificações, pensando causar-me dano; carrasco amável, queria harmonizar-se com a vítima.

 

Joguei fora a ponta do cigarro, os homens se lançaram sobre ela, empurrando-se. Levantaram-se. A ponta do cigarro tinha desaparecido.

 

Não me comportava de maneira conveniente: a postura e a linguagem violavam as normas. Sem ambages, o anspeçada Aguiar encarregou-se de me explicar isso. Miúdo e teso, surgiu, olhou-me duro, resmungou:

– Cruza os braços, chefe.

 

Surpreendiam-me nelas dois pormenores: o sujeito usava ironia, chamando-me chefe, e tuteava-me.

 

Admirou-me a franqueza de Vanderlino[501] ao dizer o nome e o ofício da personagem.

– Gaúcho[502], ladrão, arrombador.

 

Finda a surpresa, confessei a mim mesmo que poderia tornar-me sem esforço amigo do ladrão. A firmeza, a ausência de hipocrisia, a coragem de afirmar, tudo revelava um caráter.

 

Despertei, vi a dois passos um soldado cafuzo a sacudir violentamente o primeiro sujeito da fila vizinha. Muxicões terríveis. A mão esquerda, segura à roupa de zebra, arrastou o paciente desconchavado, o punho direito malhou-o com fúria na cara e no peito.

 

Um sujeito miúdo, estrábico e manco a compensar todas as deficiências com uma arenga enérgica, em termos que me arrisco a reproduzir, sem receio de enganar-me. Um bichinho aleijado e branco, de farda branca e gorro certinho, redondo.

 

– Aqui não há direito. Escutem. Nenhum direito. Quem foi grande esqueça-se disto. Aqui não há grandes. Tudo igual. Os que têm protetores ficam lá fora. Atenção. Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer.

 

– Bem. Nós precisamos do companheiro. Trago-lhe uma tarefa: corrigir isto.

 

Passei a vista nas primeiras linhas. Relatório a um deputado, narração minuciosa da Colônia.

 

Se o queijo ficasse em meu poder, os ladrões o abafariam; por isso Vanderlino apossou-se dele, trancou-o na mala e durante algum tempo me submeteu a duas, três rações diárias, fatias quase transparentes, insignificâncias cortadas a gilete.

 

O soldado esperava de mim um obséquio. O diretor da prisão aniversariava no dia seguinte, o pessoal andava a preparar-lhe uma festa, e Alfeu tinha desejo de fazer um discurso, representando a polícia.

 

O medo me envolvera um infindável minuto, medo horroroso de aguentar coices na barriga e no peito, de me esconder para arrumar as letras miseráveis.

 

E então? Ponha-se no meu lugar. Se você estivesse aqui preso e soubesse escrever, fazia esse discurso?

Não fazia, murmurou o soldado.

Está aí. Você mesmo reconhece. É impossível. Agora o rosto de Alfeu manifestava confusão e desassossego. Tive pena do pobre selvagem que me inspirara tanto horror, precisei dizer ainda uma palavra, dissipar nuvens:

Fica zangado comigo, Alfeu? Ergueu os olhos, quase doces:

Não, não fico, o senhor tem razão.

 

Mas Leal não tinha o sossego, a conversa amável de seu Mota. Andava irritado, sombrio, num desespero mudo contínuo. Um dia essa mudez se quebrou e o infeliz, de volta do trabalho, suado, coberto de pó vermelho, dirigiu-se a mim, ríspido:

Porque é que estou preso? Hem? Diga.

 

Que é que você quer que lhe diga? Sei lá! Nem sei porque estou preso.

O meu antigo camarada engasgou-se, esteve um minuto a examinar-me com espanto e censura. Tomou fôlego, e, de supetão:

– Você? Ora essa! Está preso porque é comunista. Sempre foi.

Declarou isso aos berros, sem ligar importância aos guardas e à polícia.

– Desde menino. Sempre foi. Ainda usava calças curtas e já lia essas coisas no balcão de seu pai[503]. Mas eu? Que foi que eu fiz para estar aqui? Hem? Explique.

 

– Paraíba[504], disse o negro, aqui seu Fulano vai escrever uma história e vem pedir a você algumas informações. Diabo. A notícia do livro chegara a Cubano, talvez à polícia; não me deixariam salvar as notas guardadas na valise.

 

– Sim, coisas de vigarismo. Diga como é que você trabalha.

 

Organizaram-se as filas, o reverendo surgiu com o tenente Bicicleta, o oficial de beiço rachado, passeou algum tempo a examinar-nos, depois de colocar-se junto à grade, risonho, esfregando as mãos, um brilho de contentamento nos olhos.

 

Larguei um disparate cabeludo, o moço perdeu os estribos e pôs-se a rir. O pregador interrompeu-se, o oficial de beiço rachado fez um gesto, o rapaz saiu da fileira, avizinhou-se da grade e foi submetido a um ligeiro interrogatório.

 

Estremeci. Por minha causa o pobre ia ficar às escuras, receber um pires de feijão por dia, sem conseguir estirar-se no cubículo molhado e exíguo, de um metro e pouco.

 

O meu companheiro, homem robusto, poderia aguentar-se ali uma semana; depois recobraria as forças. Não me seria possível resistir.

 

Com efeito, lá dentro os melindres de consciência embotam-se, alteram-se os valores morais e o nosso dever principal é existir.

 

Cubano[505] bateu palmas à hora do almoço e os homens se alinharam.

 

Perdoe-me. Eu não posso deixar o senhor morrer de fome. Vai à força.

E agarrou-se comigo, em luta desigual, absurda.

 

Um murro me lançaria ao chão. Tive consciência disso, percebi que o estranho adversário me poupava e limitei-me a fugir às mãos ásperas, aos dedos de ferro. À enorme cólera juntou-se uma gratidão insensata.

 

Logo reconheci o médico, o diretor suplente que viajara conosco na lancha, entre senhoras acomodadas em cadeiras de vime.

 

O sujeito de fisionomia cortante, em silêncio, estendeu-me um papel. Li. Era um telegrama chamando-me com urgência ao Rio.

Está bem. Quando viajo? Amanhã, com os outros.

 

  Não senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional. Duzentas páginas ou mais.

 

O médico enterrou-me os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras. Deu-me as costas e saiu resmungando:

A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.

 

Casa de Correção

 

Sua mulher esteve aqui hoje. Vai bem. Eu o esperava desde ontem. Houve atraso. Vou telefonar a ela marcando uma visita para amanhã. Vai bem. Toda a família vai bem. José Leite e Amália vão bem.

 

Ah! Sou de Alagoas, nasci em Pilar. Vamos. Pegou-me o braço, levou-me à porta. Essa incrível familiaridade perturbava-me. Difícil admitir que um instrumento da polícia, só por ter nascido na minha terra e conhecer parentes de minha mulher, procedesse de tal jeito.[506]

 

Que vagabundo monstruoso! Estava medonho. Magro, barbado, covas no rosto cheio de pregas, os olhos duros encovados. Demorei-me um pouco diante do espelho. Não podia ver-me na Colônia, de nenhum modo avaliava os estragos, a medonha devastação.

 

Vendo alguns indivíduos afastarem-se com toalhas, acompanhei-os, desci a escada. Lá embaixo, como na véspera, achei as grades abertas e sem vigilância.

 

Ao fundo, Apporelly arrumava cartas sobre uma pequena mesa redonda, entranhado numa infindável paciência. Avizinhei-me dele, pedi notícias do livro que me anunciara meses antes: a biografia do Barão de Itararé.

 

A narrativa ainda não começara, as glórias do senhor barão conservavam-se espalhadas no jornal. Lamentei aquele desperdício de tempo, embora também me achasse inútil, ocioso: quase um ano a jogar poker e xadrez, matar percevejos, ouvir hinos e discursos.

 

Minha mulher, à porta, recebeu-me com espanto: Como está magro! Porque raspou a cabeça?

 

Aí a criatura me forneceu novidades, esforçando-se por desviar coisas desagradáveis.

 

Inteirando-se da minha viagem para a Colônia, ficara satisfeita: ao menos lá, supunha, não me seria difícil encontrar mulheres.

 

Ciumenta em excesso, minha companheira achava natural que, depois de longa abstinência, me encostasse a fêmeas ordinárias. Essas não lhe faziam mossa. Tinha horror às senhoras educadas e inteligentes. O ciúme dela não era, por assim dizer, físico: era mental. Abandonou o assunto maluco e entregou-me cem mil-réis que recebera de uma revista argentina. A publicação do conto enviado a Benjamín de Garay[507] rendera vinte e cinco pesos.

 

Enfim a necessidade urgente de escrever dois contos: pegar de qualquer jeito o relógio do hospital e Paulo[508]. Seriam contos? Não sei fazer contos: precisava livrar-me daquilo, afastar o hospital  e dormir.          

 

A novela de Amadeu Amaral Júnior deixou-me em horrível constrangimento. Vazia e de vacuidade contagiosa. A minha frieza levou o rapaz à cólera. Já se havia comportado assim no Pavilhão, ao mostrar-me o conto.

 

Walter Pompeu cortou-me o almoço e o jantar. Sentava-se à minha direita, na primeira mesa. E, percebendo o horror que me inspira o homossexualismo, iniciou um jogo desonesto no refeitório.

 

Agradava-me escutar os gracejos de Apporelly, fragmentos das viagens longas do bacharel feroz, projetos literários de Hermes Lima. Também me dava prazer a fala engrolada, rápida, baixa, de Gikovate.

 

A palestra do judeu proporcionou-me censuras; notei em redor frieza e hostilidade, enfim percebi que me consideravam trotskista.

 

A vaidade imensa de Trotski me enjoava; o terceiro volume da autobiografia dele me deixara impressão lastimosa. Pimponice, egocentrismo, desonestidade. Mas isso não era razão para inimizar-me com pessoas que enxergavam qualidades boas no político malandro.

 

Vou arranjar-lhe um bom lugar para escrever em sossego, disse-me o diretor uma noite. Aqui você não melhora. É necessário tratar-se.

No dia seguinte, depois do café, levaram-me à enfermaria, recinto acanhado, onde cubículos formavam círculo em torno do banheiro, ordinariamente sem água, como notei depois.

 

O último cubículo, junto à porta do fundo, se abriu; Nise da Silveira e Eneida, minhas conhecidas da sala quatro, saíram. Um minuto depois, abancados à mesa, resvalávamos em camaradagem a narrar os nossos achaques.

 

É rigorosamente proibido juntar homens com mulheres. E eu pus essas duas moças aqui. Tive confiança em você. Muito obrigado.

Vai-me fazer uma promessa.

E largou dois palavrões obscenos. Dei uma gargalhada. Em linguagem correta, ele desejava que as minhas companheiras não inspirassem nenhum desejo.

Isso é um disparate, major. Prometo não realizar o ato. Mas não sentir desejo? O senhor é bem exigente.

 

Tinham-me dito dela, anos atrás: mulher de grande inteligência e grande caráter. Renovei a frase, mencionando o autor.

Lamento isso, murmurou Nise com ar arrepiado. Por quê?

Porque tenho dessa criatura uma opinião muito diferente. Não acho nenhum caráter nela.

 

Enfim o romance encrencado veio a lume, brochura feia de capa azul[509]. A tiragem, de dois milheiros, rendia-me um conto e quatrocentos e esta ninharia ainda significava para mim grande vantagem. Minha mulher apareceu com alguns volumes. Guardei um e distribuí o resto na enfermaria e na Sala da Capela, mas logo me arrependi desses oferecimentos. A leitura me revelou coisas medonhas, pontuação errada, lacunas, trocas horríveis de palavras. A datilógrafa, o linotipista e o revisor tinham feito no livro sérios estragos. Onde eu escrevera opinião pública havia polícia; remorsos em vez de rumores. Um desastre.[510]

 

Nise interrompia o crapaud, esforçava-se por mostrar na minha narração capenga belezas que eu nem de longe percebia. Certa manhã Eneida saiu do cubículo e avizinhou-se de mim, pálida, os olhos fundos:

Li o teu romance de cabo a rabo, e não dormi um instante, apanhei uma insônia dos diabos. Pavoroso!

 

Arriscara-me a fixar a decadência da família rural, a ruína da burguesia, a imprensa corrupta, a malandragem política, e atrevera-me a estudar a loucura e o crime. Ninguém tratava disso, referiam-se a um drama sentimental e besta em cidade pequena.

 

Um era insensato.  Dedicava-me alguns elogios sem pé nem cabeça, punha-me de lado e atacava furioso um escritor que nenhuma relação tinha comigo. Outro me declarava autor de um formoso romance[511]. Ao ler isso, escondi a folha debaixo do colchão e deitei-me, a estalar de raiva.

 

– Vá tomar banho e mudar a roupa, disse-me Eneida. Você não vai receber sua mulher assim vestido em pijama. O diretor me anunciara na véspera uma visita para aquela manhã.

 

A cama, pouco antes em desordem, estava refeita; desaparecera a confusão de jornais velhos, papéis e livros deixados pelos cantos; e a mesinha se enfeitava com vasos de flores.

 

A minha surpresa aumentou quando me deram esclarecimento: ia haver uma espécie de festa em honra do livro infeliz.

 

Ao sair da cela, encontrei minha mulher, que me ofereceu um pacote cilíndrico e pesado. Tirei os barbantes, o invólucro de papel escuro, uma delgada pasta de algodão, e descobri uma garrafa de aguardente.

 

Uma noite chegaram-nos gritos medonhos do Pavilhão dos Primários, informações confusas de vozes numerosas. Aplicando o ouvido, percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam ser entregues à Gestapo: àquela hora tentavam arrancá-las da sala 4.[512]

 

À noite, na sala 4, Elisa despertava banhada num suor de agonia, os olhos espavoridos. A lembrança dos tormentos não a deixava; um relógio interior indicava o instante exato em que, meses atrás, a seviciavam na presença de Harry, imóvel, impotente. Olga Prestes, casada com brasileiro, estava grávida.

 

A brasa do cigarro a queimar-me os dedos convencia-me de que não me achava adormecido.

 

Ideias fúnebres iam, vinham, engrossavam-me o coração. Miseráveis. O campo sórdido, o opróbrio, a dor. E depois os fornos crematórios, as câmaras de gases.[513]

 

Uma noite, depois do chá, os militares trouxeram para o salão todos os bancos do refeitório.

 

Num quarto de hora a prisão se mudou em teatro; íamos assistir a uma comédia. A peça não fora escrita: examinara-se o assunto nos cubículos, à tarde, e os atores, de improviso, desenvolveriam em liberdade os seus talentos no decurso da representação.

 

Súbito o pano de boca se descerrou e distinguimos uma caricatura do tribunal que nos chateara uma semana.

 

As cortinas cerraram-se. A plateia ria. Na saleta do café, os guardas riam.

 

José Lins[514] é um maluco. Não escrevo isto. Para que me metem nessa encrenca[515]? O doutor Sobral Pinto deve ser rico[516], e eu nem tenho dinheiro para pagar os selos da procuração. Deixem-me em paz.

 

Não há processo.

Dê graças a Deus, replicou o homem sagaz espetando-me com o olhar duro de gavião. Porque é que o senhor está preso?

Sei lá! Nunca me disseram nada.

São uns idiotas. Dê graças a Deus. Se eu fosse chefe de polícia, o senhor estaria aqui regularmente, com processo.

Muito bem. Onde é que o senhor ia achar matéria para isso, doutor?

Nos seus romances, homem. Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo.

 

Na Casa de Correção Graciliano completou 44 anos de idade, em 27-10-1936.

 

No período do lançamento do filme Memórias do cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, Heloísa Ramos, em entrevista ao Jornal do Brasil, 15-06-1984[[517]], apresentou três cartas de 1936 que escreveu ao irmão Luiz Augusto de Medeiros. Seguem trechos – em 6 de julho:

 

Fui visitar Grace sexta-feira, que havia chegado da Colônia segunda-feira. Não avalia você o que ele passou – 11 dias de horror, 3 dias com febre alta, delírio, etc. Rasparam-lhe a cabeça, se não fosse a febre e a cicatriz da operação que ele mostrou teria pegado na enxada.

 

Chegou aqui na Casa de Correção tão deteriorado que o Agildo Barata o abraçou chorando, passando a mão na cabeça dele como se fosse uma criança. Achei-o envelhecidíssimo, se bem que se mostrasse alegre, querendo conversar coisas agradáveis.

 

Prometeu-me que logo que se sentisse bem iria escrever um livro sobre o que viu na Colônia cujo título será Casa dos Mortos Mirins.

 

Em 25 de julho:

 

Ontem mesmo pedi a transferência dele para a enfermaria da Correção. Conforme o seu estado farei um grande alarme, exigindo das autoridades a transferência dele para uma casa de saúde particular, alegando que ele apanhou a doença na Colônia devido ao mau tratamento de lá. Ontem mal podia andar.

 

Em 1º de setembro:

 

Há dias saiu o Angústia. Estou aguardando a dedicatória do Grace para enviar o seu exemplar.

 

O Angústia saiu com muitos erros como era de se esperar e a não divisão dos capítulos diminuiu o livro que está sendo vendido ao preço de 7 contos.

 

Ontem passei a tarde na Câmara dos Deputados. Fui assistir à aprovação dos Tribunais Especiais. Foi uma maravilha de cretinice e o projeto passou, é claro.

 

Ao sair da prisão em 13-01-1937, Graciliano hospedou-se com Heloísa na casa de José Lins do Rego, na Rua Alfredo Chaves, Largo dos Leões.[518]

 

Com o anúncio de concurso de literatura infantil pelo Ministério de Educação e Saúde, Graciliano, estimulado a concorrer ao prêmio, dedicou-se à escrita de A terra dos meninos pelados, que lhe valeu o 3º lugar na categoria intermediária, a de literatura para crianças de oito a dez anos.[519]

 

Em fevereiro, no período carnavalesco, Heloísa viajou a Maceió para desfazer-se dos bens do casal[520] e trazer as crianças, caso se confirmasse a possibilidade de mudança definitiva da família para o Rio de Janeiro. Graciliano passou a chamar Ló de “Talima”, a menina que é apresentada em A terra dos meninos pelados como “bonita” e “boa”, “meio desparafusada, mas um coraçãozinho de açúcar”.[521]

 

Depois que o Itanagé se sumiu, fiquei ainda algum tempo encostado ao guindaste, meio zonzo.

 

Defronte do José Olympio encontrei o Vanderlino e outro cidadão da imprensa. Ficou combinada uma viagem amanhã à casa do Álvaro Moreyra, onde se almoçará. Marchei para a Galeria Cruzeiro, mas a travessia foi lenta por causa dos cordões carnavalescos. Horríveis, horríveis. Num carro, gente miúda e escura, provavelmente a negrada faminta do morro, ria e dizia para baixo: “Guarde o seu sorriso”. Pensei numa porção de besteiras e quando dei por mim estava quase gritando: horrível, horrível.

 

Tomei o bonde, aqui cheguei às cinco horas e encontrei a casa deserta.

 

Zé Lins falou-me a respeito do novo livro que já projeta, mas, vendo-me distraído, calou-se. Trataremos da Pedra Bonita amanhã ou depois. O jantar foi uma tristeza.

 

Cristina veio mostrar-me a roupa e tentou arranjar-me na cabeça o chapéu da fantasia dela, mas eu tinha os braços tão pesados que não pude fazer uma carícia à criança. Sinha Maria trouxe-me uma xícara de café. Zé Lins e Naná saíram para o Copacabana.

 

Diga a Márcio e a Júnio que não posso escrever agora a eles. Estou horrivelmente cansado.

 

Abraços para eles e para Maria. Conte a Tatá a história dos meninos pelados. Diga-me qual é a opinião dele. Adeus, Talima. Você é uma santa, você é uma sujeita como há poucas. De ruim só tem os pés, muito menores que os meus. Os seus sapatos não me servem, o calcanhar fica de fora. Paciência, não há ninguém perfeito. Só Deus.[522]

 

Graciliano foi morar numa pensãozinha na Rua Correia Dutra, 164, dividindo o quarto com um de seus ex-companheiros de prisão, Vanderlino Nunes. Conviveu com Rubem Braga e conheceu sua jovem companheira Zora Seljan. O casal também se estabeleceu na pensão de D. Elvira, no Catete[523]. Em 22-03-1937 ele dá notícias sobre o ambiente e o convívio com os amigos:

 

Fui algumas vezes à cidade, e o Rubem tem passado as manhãs aqui no meu quarto, contando gatos.

 

Na casa aqui ao lado há mulheres que à noite passeiam nuas. Nunca as vi assim. Vanderlino passa horas à janela, espiando-as. Nunca as vi assim, mas parece que há uma bonita e bastante cabeluda. Na casa do outro lado mora uma velha que sobe uns degraus de cimento coçando o rabo. Vanderlino levanta-se à noite. Às vezes, vejo-o encostado à janela, olhando mulheres nuas que passam a dois metros de distância. E Rubem conta gatos pela manhã. Há sempre muitos deles na coberta de zinco dos barracões.[524]

 

Desde sua saída da prisão, Graciliano tornou-se um frequentador assíduo da Livraria José Olympio[525], um dos núcleos intelectuais mais significativos do país no período[526]. Seu temperamento gregário de interiorano sertanejo destacava-se no convívio com a intelectualidade, produzindo, graças às suas tiradas de caráter limpo e ao espírito crítico agudo, um profuso anedotário a seu respeito[527]. Ficou célebre sua presença no fundo da livraria, acomodado no banquinho[528] de que ele se apossou. Entre muitas novas amizades, aproximou-se de Portinari. Os dois se tornaram amigos de muita afinidade. Entre os jornalistas que o abordavam encarniçadamente estavam João Condé, dos “Arquivos Implacáveis”, sempre saudado com o estribilho “Olá grande reacionário e agente provocador”[529], e Joel Silveira, o sergipano com quem argumentou que um país só seria grande se tivesse um golfo e que Sergipe e Alagoas, estados inúteis, desenhavam uma geografia apropriada para que lá se cavasse o “Golfo das Alagoas” – sugestão de batismo que causou disputa com indignado protesto bairrista do sergipano. Outra formulação famosa, também recolhida por Joel Silveira em suas memórias[530], foi sobre o modo de escrever: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício”. Graciliano repassou então todo o processo de molhar, lavar, torcer, molhar, torcer, passar anil, ensaboar, enxaguar e concluiu: “Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota”. “Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”.

 

Durante o carnaval, Aporelly apresentou Oswald de Andrade a Graciliano Ramos[531]. Oswald comandou uma campanha para que ele se estabelecesse em São Paulo[532]. Logo após o carnaval, Graciliano viajou a São Paulo com José Lins do Rego[533]. A colocação que Oswald de Andrade pretendia conseguir para ele através de Sérgio Milliet não se concretizou. Graciliano obteve apenas uma combinação à base de cinquenta mil-réis por unidade pela produção cotidiana de pequenos artigos para a empresa de notícias I. B. R – Imprensa Brasileira Reunida Ltda., que então mobilizava vários literatos, como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, José Lins do Rego, Jorge de Lima.[534]

 

Em carta para Ló, 28-02-1937, Graciliano comentou os antecedentes da viagem a São Paulo:

 

Comecei a escrever um conto muito chato, fiz uma carta ao Garay e revi a cópia datilografada dos meninos pelados, que foram para o Ministério da Educação. Vi lá, num corredor, o nariz e o beiço caído de s. exa. o sr. Gustavo Capanema. Zélins acha excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje e fale com ministros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro.[535]

 

Em carta de 08-03-1937[[536]], para Ló, Graciliano fala da produção de artigos para a I. B. R., comenta seu convívio com amigos de teatro e a sugestão de Eugênia Moreyra para que ele escrevesse uma peça teatral:

 

Anteontem, como necessitasse dinheiro para pagar a quinzena da pensão, fui ao Observador Econômico, onde me deram cem mil-réis por aquela miséria que escrevi em casa de Zélins[537]. É um horror, não vale cinco tostões. Em todo o caso recebi o dinheiro, cheio de remorsos. 

 

Ontem almocei com Álvaro Moreyra, passei quase o dia todo conversando com Eugênia e Tina. Álvaro estava um pouco mole, as meninas andavam na praia, de maillot, com os namorados.

 

O vocabulário que se adota em casa do Álvaro é pouco mais ou menos igual ao dos livros de Jorge Amado. Eugênia adota essa linguagem naturalmente e, como é atriz, fala com arte. Anda querendo organizar uma companhia. Ontem insistiu comigo para que escrevesse um drama ou comédia. Como não conheço técnica de teatro, emprestou-me um livro, Teatro social norte-americano, e disse que até maio eu lhe devia entregar a peça, o que não acontecerá.[538]

 

A carta que Graciliano escreveu a Ló em 11-04-1937 é um tocante retrato do período, que inclui a expectativa pelo resultado do concurso para A terra dos meninos pelados:

 

Por falar em prêmio, o negócio do Ministério da Educação está sendo lido. Os álbuns de figuras foram julgados, como você viu. E saiu vitoriosa gente nossa: Santa, Jardim e Paulo. Agora é uma torcida braba em torno dos livros de literatura. Marques Rebelo anda cheio de veneno como uma cascavel. Creio que Bandeira gostou do livro dele. Rodrigo me disse que não é coisa muito boa. E Marques já se julga derrotado antes do julgamento, fala mal de todo mundo, acha a comissão incapaz e todos os concorrentes idiotas, menos ele. Certamente os meus meninos pelados se enterram. É bom. Você ficaria satisfeita se eles conseguissem o terceiro lugar. Tolice. É melhor não terem coisa nenhuma. Um terceiro lugar seria um desastre[539]. E não acredito que paguem esses prêmios. Convém não pensar nisso. Jantei com Rodrigo ontem.

Depois do jantar fomos ao cinema, a primeira vez que vi cinema depois da sua saída. A senhora de Rodrigo queria ver uma fita horrível. Separei-me deles depois de meia-noite, na Avenida. É uma gente muito fina, de amabilidade mineira, sem espalhafato. Conversei ontem um bocado com o Rômulo, na Ouvidor. Ele acha que eu tenho uma mulher de exceção. Fiquei cheio de vaidade, mas pensei nessa sua doença. Se a opinião do Clemente é verdadeira, talvez seja bom você tomar banhos frios. Um dia a gente se encontra e tudo se endireita. Uma coisa me surpreende: tenho sonhado constantemente com meu pai. Nunca penso nele, na vida que tenho não me sobra tempo para sentimentalismo. É aqui no duro, arrumando frases com dificuldade. Mas quando sonho o velho me aparece, vivo, e noto que tenho uma grande amizade a ele.

Sobre suas preocupações, incluindo os filhos e o projeto de casamento de Júnio, Graciliano dizia:

Trabalho para ver se posso fazer qualquer coisa por todos eles. Mas se não querem, se apenas desejam ser marinheiros, soldados, funcionários de trezentos mil-réis, paciência, não posso transformar ninguém. É necessário que eu não endoideça, apesar da cadeia. Preciso ter a cabeça no lugar certo e afastar essas coisas de coração. Se o coração entrar na dança, acabo enforcando-me. E por enquanto não pretendo enforcar-me. Se seu Júnio se casa, acabou-se, não tenho nada com isso. Não irei a Alagoas para dar conselhos a ele. Não irei de forma nenhuma. Hoje eu só iria a Alagoas se pudesse oferecer a isso um terremoto que acabasse tudo.

 

Valdemar já está bom? Recebi uma carta dele. E Aurélio? Barreto? Humberto? Lembranças a todos. Não sei se lhe disse que tenho recusado uns trabalhos bestas que aparecem: traduções, peças de teatro, serviços de jornal, que não sei fazer. Esta semana ofereceram-me a crítica literária numa coisa que vão fundar. Recusei: não entendo de crítica e não confiei no sujeito que me fez a proposta. Não quero trabalhar de graça.[540]

 

Em 22-04-1937, escreveu a Benjamín de Garay:

 

Você não acha que é safadeza sustentar um cidadão durante um ano e de repente mandá-lo embora, desempregá-lo sem motivo? Foi o que me aconteceu.

 

Agora preciso dar dinheiro à mulher da pensão e aumentar os lucros da Light.

 

Como não possuo bondes nem casas, lembrei-me de explorar um hospital, um médico, enfermeiros e a doença que me ia matando anos atrás.

La Prensa quererá publicar isso, Garay? Não é precisamente o que você pediu: coisa regional e pitoresca: é delírio, complicação interior. As violências agradáveis a El Hogar e Mundo Argentino são difíceis, não consigo fazê-las. Desgraçadamente não sei matar ninguém direito, mesmo no papel, e isto é uma vergonha para um sujeito mais ou menos perigoso.

Vai o delírio, meu caro Garay. Se você quiser traduzi-lo e metê-lo num jornal que tenha dinheiro, ficar-lhe-ei muito obrigado. E não se esqueça de mandar-me um número. Não vi a tradução que você fez do meu conto Dois dedos, nem sei em que revista saiu.[541]

 

Bem, Garay amigo, adeus. Muitos e muitos agradecimentos pelas amabilidades que enchem a sua carta.

 

Livraria José Olympio

Ouvidor, 110[[542]]

 

Uma coluna não assinada, “Letras e Artes”, do Diário de Notícias, em 31-01-1937[[543]], publicou nota casual com considerações sobre o equívoco da divisão entre a literatura brasileira do “Norte” e a do “Sul”. Meses depois, Graciliano, que nesse período caçava assuntos para conseguir os cinquenta mil-réis da I. B. R., apresentou no mesmo jornal, Diário de Notícias, 25-04-1937[[544]], a crônica “Norte e Sul”, retomando explicitamente o que sempre formalizou em sua obra[545]: o jogo do “interior” com o “exterior” – a literatura que retrata a coação do “real” pelas grades sociais e sua relação dialética na “introspecção”  – em outras palavras, de acordo com o estereótipo mesquinho, a unidade dinâmica do “norte” com o “sul”. No artigo, Graciliano critica a valorização exclusiva do “intimismo” como “espiritismo literário” de “tapeação”, com “torturas interiores sem causa”. Foi o suficiente para que Otávio de Faria[546], escritor caudaloso, considerasse, veemente e paternal, com argumentação capciosa e atrapalhada, que Graciliano estaria respondendo a uma polêmica conduzida por ele em 1935.[547]

 

Na pensão, em meio à produção de muitos textos para vender na imprensa, Graciliano escreveu “Baleia”, manuscrito datado de 04-05-1937[[548]]. Nomear cães com nomes de peixes e correlatos aquáticos vinha de uma tradição sertaneja cujo pensamento mágico procurava assim afastar a hidrofobia. Mais tarde ele declarou que se inspirou na cachorra “Piaba”, cuja morte presenciou quando criança, na fazenda dos avós, transformados, por sua vez, em Fabiano e Sinha Vitória: “meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois meninos”[549]. Divulga-se que Graciliano assimilou certo uso regional de “Sinha” sem acento, paroxítona, para indicar a mulher do povo em contraposição a “Sinhá” para nomear mulheres da elite – uma diferença, não dicionarizada, que foi raramente respeitada na imprensa de sua época e nem sempre observada pelos críticos e revisores. Igualmente Graciliano assimilou de seu meio o anonimato das crianças, poupadas da inserção social como “meninos”. Seu rigor aritmético limitou-os a dois, algarismo suficiente para a indicação de série, que ele evitou fechar como ficaria sugerido se os irmãos fossem uma menina e um menino.

 

Em carta para Maceió, em 07-05-1937, ele contou a Ló:

 

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra.

 

O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta[550] história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro.

 

Em crônica coligida em Linhas tortas, “O rio”, Graciliano fala sobre a peça teatral que o impressionou:

 

O rio, uma coisa estranha do teatro brasileiro”; “uma peça sem enredo”; “há pedaços de histórias, que se entrelaçam ou se justapõem, e figuras insignificantes.[551]

 

A última carta coletada do período, de Graciliano para Ló, do Rio para Maceió, foi de 13-05-1937.

 

Recebi ontem a sua carta e vi que você está bastante agitada. Apresso-me a dar resposta, para você não se aperrear muito: provavelmente não lhe agradou o que escrevi a semana passada. Mas repito o que lhe disse. Você poderia vir passar aqui algum tempo, poderia até ficar definitivamente, caso os negócios endireitassem. As crianças viriam depois. Que acha?

 

Precisamos ir ao morro e ao cinema, o que não pudemos fazer. Se não nos aguentarmos aqui, daremos o fora. Mas é bom esperarmos até o fim. O projeto de voltar para Alagoas é tolice, não lhe parece? Penso que será melhor você vir logo que as ameaças de encrenca desapareçam. Garay me diz que mandou para você o número do Mundo Argentino que trouxe o conto. Recebeu-o? Ele vai remeter-me outro. Traduziu ou vai traduzir para La Prensa o Relógio do hospital. Vamos ver se essa coisa será publicada. Se for, teremos possibilidade de um bom negócio. Por sugestão dele, enviei ontem um exemplar de Angústia a José Gollán, o homem que se encarrega de literatura nesse jornal riquíssimo. Também mandei para lá a história da cachorra, a última coisa que me saiu da cabeça. E adeus por hoje, Ló. Vou escrever ao Garay uma carta comprida. Preciso entender-me com ele a respeito dessa história de La Prensa. Não tenho muitas esperanças, mas vamos ver se cavamos isso. Até logo, Ló. Beije as crianças. Abraços numerosos.[552]

 

Após a publicação de “Baleia” em jornal[553], Graciliano deixou de ir à livraria, envergonhado pelo texto que temia ser considerado piegas. Mas, afinal, deu-se conta da forte impressão que a narrativa causou. Nesse processo, desdobraria os quadros orgânicos de Vidas secas, finalizado pelo manuscrito de 06-10-1937, com vários capítulos vendidos para os jornais como contos. Rubem Braga em Diário de Notícias, 14-08-1938[[554]], cunhou a qualificação de “romance desmontável”, lembrando-se da penúria de Graciliano na pensão e da necessidade de vender os capítulos a retalho[555]. Por outro lado, os quadros da via-crúcis em retábulos da obra são extremamente articulados, os treze capítulos espelhados principalmente nas correlações 1-13 (o primeiro e o último capítulo): “Mudança” e “Fuga”; 2-12: “Fabiano” e “O mundo coberto de penas”; 3-11: “Cadeia” e “O soldado amarelo”; 4-10: “Sinha Vitória” e “Contas” – tendo como centro “Inverno”, na divisão precisa do capítulo 7, com seis capítulos de cada “lado”. Uma circularidade pendular que é espiral, no caminho da história.

 

Ainda em meados de 1937, Heloísa voltou para o Rio de Janeiro, trazendo as filhas menores, Luíza e Clara. A família passou a morar no quarto de pensão da Rua Correia Dutra. Clara Ramos lembra o silêncio sem palavras do convívio com o pai espremido no quarto, escrevendo o ganha-pão. Escrevia principalmente Vidas secas, dedicado com as filhas, interrompendo o ranger da pena para acolhê-las em viagens no mapa do Larousse, ameaçadas por seus xingos gaiatos: “Cala a boca, serpente”, “Quieta, excomungada do diabo”. E ao ler para elas e para Ló o que produzia, povoava o quarto com a família dos retirantes.[556]

 

Rodrigo Melo Franco de Andrade, responsável pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual IPHAN), encomendou a Graciliano a reelaboração de legendas para gravuras do acervo.

 

Clara Ramos apresentou, em Cadeia, a carta datada de 22-08-1937[[557]], para o primogênito Márcio, a quem Graciliano escreveu preocupado em providenciar tratamento para o filho epilético, que havia sofrido desequilíbrios psíquicos por conta da prisão do pai.

 

O diabo é se eu tiver necessidade de voltar para Alagoas. Penso que não acontecerá semelhante desgraça. Não tenho nada por enquanto.

 

Ando escrevendo uns troços ordinários para pagar a casa e a boia. O ano passado, exatamente há um ano, eu tinha isso de graça e melhor. Mas o governo me pôs na rua, perdi o meu último emprego, o de preso político, e agora é isso que se vê.

 

Dão-me cem mil-réis, 150, por um desses contos que você deve ter visto, mas aparecem outros ganchos. Agora estou botando sintaxe, pontuação e  ortografia numa literatura braba do Ministério da Educação. Esse ministério é a Providência com o outro nome. Deu-me dois contos de réis por uma coisa que me custou uma semana de trabalho. E as emendas de umas legendas, sapecadas em duas horas, renderam-me quinhentos mil-réis. Infelizmente isso não dá para nada. A mulher da pensão é muito mais exigente que o diretor da Casa de Correção.

 

Não sei se lhe disse na outra carta que ando preparando um romance. Ando. É uma história de bichos – cachorros e matutos. Julgo que Afrânio Mello [do Jornal de Alagoas] tem medo que me torne amigo de Julião Tavares. Diga a ele que não há perigo. Continuarei com os Silvas. Os meus cachorros e matutos são inteiramente Silvas, Silvas até os ossos, mais Silvas que o outro, o funcionário. Censuraram-me porque só me ocupo com proprietários e classe anexa. Salto para o extremo oposto e ofereço para o respeitável público almas de cachorros e outros bichos semelhantes. Estavam fazendo um cavalo de batalha porque apareceram nestes últimos tempos uns personagens falando errado de propósito. Todo mundo estava vendo que eram pessoas da cidade vestidas de matutos. Bem. Os meus cachorros não falam. E isto é interessante, porque todos os bichos que têm surgido na literatura falam. Donde se conclui que eles nunca foram bichos. Os meus matutos também não falam, e isto é um buraco. Vou ver se consigo adivinhar o que eles pensam, mas sem reproduzir a linguagem deles. Se isto não for novidade, macacos me mordam.

 

Pedro Dantas (o nome jornalístico de Prudente de Morais, neto), em sua publicação “O estilo de uma amargura nos porquês de um bom dia”, Suplemento Literário, O Estado de São Paulo, 22-10-1972[[558]], conta que Graciliano trabalhou com ele durante alguns meses, em 1937, como secretário geral da Universidade do Distrito Federal, interinamente, até ser afastado após o golpe de novembro. Há registros controversos.[559]

 

Em carta a Octavio Dias Leite, em 03-09-1937, Graciliano alude ao possível título Cardinheiras[560] (aves de arribação). Entretanto, substituindo uma primeira opção, Baleia[561], provas tipográficas revelam que a novela estava prestes a ser condenada ao trocadilho de: O mundo coberto de penas (que O Jornal, em 06-02-1938[[562]], anunciou como O monte de penas). Uma das versões do anedotário sugere que uma exclamação de Augusto Frederico Schmidt, ao ler a obra, foi o que definiu o nome do livro: “que vidas secas!”[563]. A Editora José Olympio[564] em listagem publicitária anunciou o título Vidas secas entre os itens das “novidades de março” de 1938[[565]]. Em 1963, o romance foi filmado por Nelson Pereira dos Santos.[566]

 

Carlos Drummond de Andrade, chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, obteve para Graciliano Ramos[567], em meados do segundo semestre de 1938, a nomeação de inspetor de ensino secundário do Distrito Federal, um emprego, oficialmente interino, que ele manteve até a morte. Em entrevista a Homero Senna, Graciliano disse que aquilo era uma sinecura, mas que nunca faltara ao serviço nem pedira licença[568]. As referências a essa atividade de visitas a escolas põem em destaque as inspeções no Colégio de São Bento: a emoção que suas visitas causavam ao aluno Alexandre Eulálio[569] e o convívio fraterno com os monges beneditinos, as conversas amistosas sobre literatura e Bíblia. Graciliano disse aos monges que a mulher de Ló ao olhar para trás transformou-se em estátua de sal porque tinha culpa no cartório. Os monges impressionados sugeriram que ele desenvolvesse a interpretação, ao que Graciliano respondeu às gargalhadas: “Logo eu, exegeta?” – lembra Ricardo Ramos[570]. Vários jornais, geralmente em colunas semioficiais do tipo “Atos do Presidente”, como no Correio da Manhã, noticiaram a nomeação em 29-09-1938.[571]

 

Um manuscrito arrascunhado, conservado pelo genro James Amado, de uma carta de Graciliano para Getúlio, sugere por certas menções que seria preparativa de tal nomeação. A carta – não enviada – traz data de 29-08-1938[[572]]. O Jornal do Commercio, em 29-09-1938[[573]], publicou em nota que Graciliano tinha ido ao Palácio do Catete agradecer a Getúlio a nomeação. Em depoimento ao Jornal do Brasil, 20-04-1980[[574]], a filha de Getúlio, Alzira Vargas, disse que quando conheceu Graciliano foi presenteada por ele com exemplares autografados de suas obras. A informação está também em Getúlio Vargas, meu pai: “Fui-lhe apresentada algum tempo depois no Catete, por Mauro de Freitas, oficial de gabinete da presidência [citado na carta não enviada a Getúlio], quando foi agradecer a papai sua nomeação para um pequeno cargo federal”.[575]

 

Paulo Mercadante testemunha que o mestre, em 1949, contou-lhe o seguinte episódio de 1937: Getúlio certa noite andava, sozinho, em torno do Catete, por onde encontrou Graciliano, que, ao ser cumprimentado pelo ditador, não respondeu. Pelo contexto das datas, Mercadante considera a possibilidade de Graciliano a seguir ter escrito o capítulo de Vidas secas sobre o encontro de Fabiano com o Soldado Amarelo.[576]

 

A família mudou-se para uma pensão melhor, nas redondezas, Rua Artur Bernardes (então Rua Carvalho Monteiro).[577]

 

Graciliano passou a tossir muito, com marcas de sangue. Heloísa, enquanto lhe administrava uma alimentação reforçada, conseguiu trabalho, por meio de Eneida, no Colégio Universitário, sob direção de Abgar Renault. Encaminhou o marido para um tisiologista e organizou a mudança da família para a Rua Resedá, 13, térreo, apto. 101, na Lagoa – lembra Clara Ramos[578], citando, em alusão ao novo endereço,  a crônica “Conversa fiada”, publicada em Vamos Ler!, 23-05-1940, e coligida em Linhas tortas.[579]

 

Tendo participado como jurado de vários concursos literários, um deles destacou-se pela presença do candidato “Viator”, pseudônimo de inscrição de Guimarães Rosa, cujo Sagarana, ainda sem esse título e em versão a desbastar, não venceu o Concurso Humberto de Campos, da Livraria José Olympio, em 1938 – prêmio dado a Luís Jardim pelo Maria Perigosa. O voto desfavorável de Graciliano Ramos, entretanto, destacou as qualidades de “Viator”. O assunto, mencionado em “Prêmios”, Linhas tortas, foi mais detalhadamente tema de duas de suas crônicas ali também reunidas: antes de identificar Viator, “Um livro inédito”, de 20-08-1939, e, depois de conhecer Guimarães Rosa em 1944, “Conversa de bastidores”, de 16-05-1946.[580]

 

Aborrecendo-me assim, abri um cartapácio de quinhentas páginas grandes: uma dúzia de contos enormes, assinados por certo Viator, que ninguém presumia quem fosse. Em tais casos rogamos a Deus que o original não preste e nos poupe o dever de ir ao fim. Não se deu isso: aquele era trabalho sério em demasia. Certamente de um médico mineiro, lembrava a origem: montanhoso, subia muito, descia – e os pontos elevados eram magníficos, os vales me desapontavam. Admirei um excelente feitiço, a patifaria de Lalino Salatiel e, superior a tudo, uma figura notável, dessas que se conservam na memória do leitor: seu Joãozinho Bem-Bem. Por outro lado enjoei um doutor impossível, feito cavador de enxada, o namoro de um engenheiro com uma professorinha e passagens que me sugeriam propaganda de soro antiofídico.

 

Em fim de 1944, Ildefonso Falcão, aqui de passagem, apresentou-me J. Guimarães Rosa, secretário de embaixada, recém-chegado da Europa.

 

Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica.

 

Devo acrescentar que Rosa é um animalista notável: fervilham bichos no livro, não convenções de apólogo, mas irracionais direitos, exibidos com peladuras, esparavões e os necessários movimentos de orelhas e de rabos. Talvez o hábito de examinar essas criaturas haja aconselhado o meu amigo a trabalhar com lentidão bovina.

Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se.

 

Graciliano ou foi profético ou conselheiro ou homenageado: Guimarães Rosa publicou Grande sertão: veredas em 1956.

 

A publicação em 1939 de A terra dos meninos pelados, pela “Coleção Infantil” da Livraria do Globo, de Porto Alegre, foi comentada em O Tico-Tico – jornal das crianças, 27-12-1939[[581]]: “Muito interessará também aos pequenos leitores de A terra dos meninos pelados a velha macaca que dormia quando começava a contar uma história”, ”volume cartonado e muito bem impresso”, com ilustrações de Nelson Boeira Faedrich.

 

Em 1939, a revista Diretrizes em parceria com o Suplemento Juvenil lançou o “Concurso Nacional Republicano” de “Uma Pequena História da República para Crianças” – cujo objetivo era festejar, nos moldes ideológicos do Estado Novo, o quinquagésimo aniversário da Proclamação da República. Dentro desse contexto inviável, Graciliano não inscreveu seu texto bem-humorado e zombeteiro, em que o estilo dos relatórios do prefeito, agora mais contido, focava a História do Brasil. O concorrente que ganhou o prêmio foi publicado em edição de luxo, saudado por Capanema e Vargas, e assim anunciado pelo Suplemento Juvenil, 24-05-1941:

 

Todos os episódios que levaram o Brasil à Proclamação da República. As ideias e os gestos dos grandes brasileiros que idealizaram, fundaram, proclamaram, consolidaram e transformaram o regime republicano, culminando na instituição, em novembro de 1937, do Estado Novo.[582]

 

O texto de Graciliano, datado de 13-01-1940, permaneceu inédito. Foi publicado postumamente na revista Senhor, em 1960. A obra foi incorporada ao volume Alexandre e outros heróis, em 1962, juntamente com Histórias de Alexandre e A terra dos meninos pelados. As críticas ao desajuste desse aglomerado conseguiram posteriormente que cada obra tivesse sua edição específica e bem cuidada – entre elas, Pequena história da República, que vai até 1930, ignorando o Estado Novo.

 

Os homens maduros de hoje eram meninos. O sr. Getúlio Vargas, no sul, montava em cabos de vassoura; o sr. Ministro da Guerra comandava soldados de chumbo; o sr. Ministro da Educação vivia longe da escola, porque ainda não existia.

 

A abolição trouxe, é claro, um grande assanhamento nas senzalas. Os negros dançaram, cantaram, praticaram excessos, depois saíram sem destino, meio doidos.

 

Sinhá-moça exigiu qualquer coisa, impaciente, batendo o pé, e a negra teve um rompante: – Cativeiro já se acabou, sinhá. Agora é tão bom como tão bom.

Arrumou a trouxa e ganhou o mundo. Depois voltou, arrependida, mas achou mudanças: os brancos arriados, murchos, bambos; as plantações murchas, bambas, arriadas; a fazenda quase deserta.

 

Antônio Conselheiro, um pobre-diabo, tencionava, com ladainhas e benditos, salvar a humanidade.

 

Apareceu no sertão da Bahia no fim do século passado, com um surrão às costas, vestido num camisão azul, barbudo, rezando, pedindo esmolas e dizendo coisas desconexas. Louco e meio analfabeto, facilmente reuniu uma considerável multidão de sujeitos menos loucos e mais analfabetos que ele, a pior canalha da roça.

 

Oswaldo Cruz achava que era vergonhoso uma pessoa apresentar marcas de bexigas. Pensando como ele, o Congresso tornou obrigatória a vacina. E muita gente se descontentou. Estávamos ou não estávamos numa terra de liberdade? Tínhamos ou não tínhamos o direito de adoecer e transmitir as nossas doenças aos outros?[583]

 

Graciliano traduziu Up from slavery, de Booker T. Washington, dando-lhe o título de Memórias de um negro, obra publicada em 1940 pela Companhia Editora Nacional, São Paulo. Anos depois, em Cultura Política, 08-1944[[584]], publicou texto a respeito do autor, apontando restrições e sugerindo comportamento acanalhado do self-made man – texto coletado em Linhas tortas, datado de 2 de novembro de 1940[[585]]. Ricardo Ramos recorda nestes termos o comentário do pai sobre as dificuldades da tradução: “– Tive de cortar muito, quase acabei com dois capítulos. Imprestáveis. O homem vinha direito, umas observações ótimas, de repente se estrepava todo. Negro burro”. Em carta a Anísio Teixeira, datada de 04-08-1938[[586]], Graciliano falou sobre o início da tradução, indicando que o trabalho era uma encomenda do pedagogo (consultor e tradutor da Companhia Editora Nacional)[587], além de aludir a uma obra de literatura infantil a que não dera prosseguimento – o projeto de Histórias de Alexandre, e à edição de A terra dos meninos pelados:

 

Recebi ontem a sua carta, que me surpreeendeu um pouco, porque algumas pessoas me haviam dito que a tradução se afastava muito do livro que recebi. Agora estou sossegado. Se o serviço lhe agrada, vou fazer os outros capítulos;

 

Se eu tivesse aqui o original inglês, talvez fosse melhor. É verdade que o meu inglês não é grande coisa: sempre foi ruim e nestes últimos anos deve ter piorado. Mas se eu tivesse os dois textos, o perigo de enganar o preto seria menor. O livro para crianças encalhou no princípio. Penso exatamente como você: se se procura um assunto infantil e se usa linguagem infantil, a criança percebe que somos tolos e não lê. O que eu pretendia fazer era contar umas histórias de mentirosos do Nordeste; talvez os meninos gostassem de alguns tipos. Veremos isso para o futuro. Tenho livro para crianças na livraria do Globo, mas coisa bem ordinária. O que pretendia escrever agora seria menos ruim, parece-me.

Quanto ao pagamento da tradução, você fará o que achar conveniente. De qualquer forma tudo estará direito.

 

Em julho de 1941, a Diretrizes anunciou um concurso em parceria com a Editora Martins para premiar os leitores que descobrissem o autor de cada um dos capítulos publicados a seguir nas edições da revista: era uma novela de criação coletiva, Brandão entre o mar e o amor, escrita por Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Rachel de Queiroz. Graciliano foi incumbido do terceiro capítulo, com o título “Mário”, personagem que o autor, no seu estilo, deixa num quarto, mergulhado em introspecção[588]. Em 1942, o conjunto foi publicado pela Editora Martins, com capa expressiva de Santa Rosa. Em 1946, falando sobre o processo da criação literária, Graciliano aludiu à experiência: “A criação, porém,  é rigorosamente individual: absurdo imaginarmos quadros e poemas compostos por diversas criaturas; tentativas malograram-se; aqui há tempo alguns literatos fabricaram, com infelicidade notável, uma espécie de romance — um desastre”.[589]

 

Almir de Andrade, diretor da Cultura Política – revista mensal de estudos brasileiros, convidou Graciliano para ser revisor daquele solene instrumento de fomentação ideológica do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo. Havia a intenção de agradar e pagar bem para cooptar os intelectuais[590]. Junto à participação de nomes como Nelson Werneck Sodré, Lúcio Cardoso, Marques Rebelo, entre outros, Graciliano, com espírito crítico independente e debochado, publicou crônicas no mensário entre 1941 e 1944 – em coluna própria, intitulada, com variáveis, “Quadros e costumes do Nordeste”, a maioria delas reunidas postumamente em 1962, sob o título Viventes das Alagoas[591]. Graciliano também esteve presente na revista luso-brasileira Atlântico, uma publicação de Lisboa, associada entre o Secretariado da Propaganda Nacional – SPN – da ditadura salazarista e o DIP brasileiro, com a participação dos mais importantes intelectuais dos dois países, como Drummond, Bandeira, Sophia de Mello Breyner Andresen. Entre 1942 e 1944, Graciliano ali publicou, antes da edição de Infância em 1945, os capítulos “O fim do mundo”, “O moleque José”, “O Barão de Macaúbas”. Publicou também o conto “Insônia”.

 

Na listagem geral de endereços de intelectuais residentes no Rio de Janeiro, o Anuário Brasileiro de Literatura[592] indicou o de Graciliano: Rua Conde de Bonfim, 752 – Tijuca. Trata-se do endereço de “modesto apartamento” como foi citado por Francisco de Assis Barbosa na entrevista que fez com o autor às vésperas dos seus 50 anos, publicada sob o título “A vida de Graciliano Ramos”, em Diretrizes, 29-10-1942[[593]] – e depois, como “50 anos de Graciliano Ramos”, em Homenagem a Graciliano Ramos – o volume que reuniu discursos e textos relativos ao evento. Como se nota, os filhos iam chegando de Alagoas:

 

Na casa de Graciliano, todos conversam literatura. Clarita Ramos, linda menina de 9 anos, adora Manuel Bandeira. Sabe de cor muiitos dos versos do grande poeta. Luíza quer continuar com o pai A terra dos meninos pelados. Maria Augusta, a mais velha, do primeiro casamento do escritor, lê e discute a obra paterna. E D. Heloísa, Sra. Graciliano Ramos, é quem bate à máquina os escritos do marido.

 

Bastante mencionado na imprensa, o aniversário de cinquenta anos de Graciliano Ramos foi comemorado no Restaurante “Lido”, em Copacabana. O Jornal, 27-10-1942[[594]], indicou a “comissão promotora do banquete”, composta por José Olympio, José Lins do Rego, Otávio Tarquínio de Sousa e Álvaro Lins – outras publicações incluíram Augusto Frederico Schmidt e Francisco de Assis Barbosa. No mesmo tom, A Manhã[595], no próprio dia, anunciou a festa à noite e remeteu os interessados ao livro de adesões na Livraria José Olympio. A surpresa para o autor foi o Prêmio, pelo conjunto da obra, da Sociedade dos Amigos de Felipe de Oliveira, no valor de cinco mil cruzeiros (a nova moeda tinha acabado de entrar em vigor e muitos jornais ainda falaram em “contos de réis”). O festejo teve simbolismo de desagravo ao romancista, relativo à prisão de 1936. O destaque foi a presença de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde da ditadura de Getúlio Vargas. Saudado por Schmidt, Graciliano também discursou, com a verve de sempre, assim como vários intelectuais. Rubem Braga, que não pôde ir, mandou seu texto bem humorado, “Discurso de um ausente ao banquete de homenagem a Graciliano Ramos”, lembrando os tempos da pensão do Catete:

 

Nas noites de verão a gente podia apagar a luz do banheiro e ficar espiando a janela da vizinha até que ela viesse tirar a roupa, mostrando um belo corpo moreno completamente nu. Como era bonita a nossa vizinha, Brasiliano! Você vivia zombando de mim e de Vanderlino porque nós gostávamos de espiar, mas uma noite te pegamos lá no escuro, de tocaia. Corremos para a outra janela. E sabemos que você cuspiu de nojo e disse a palavra “peste” quando no lugar da bela moça morena quem se mostrou nua foi a cafetina gorda de carnes brancas e bambas.[596]

 

O cardápio impresso do jantar sob o timbre do Restaurante “Lido” anunciava:  “Creme de espargos à Caetés”; “Filé de robalo à São Bernardo”; “Peru à Angústia”; “Arroz”; “Torta de maçã à Vidas secas”. Eneida, ao retomar em 1962 seu artigo de 1949, inaugural da série “Os ranhetas”, comentou com essas lembranças no Diário de Notícias, 15-04-1962[[597]], o lançamento de Viventes das Alagoas:

 

Não compareci ao jantar porque estava novamente nas grades, mas quando saí, um amigo – para que me sentisse presente – guardara-me um cardápio. Pobre Graça. Perdi esse documento que, com certeza, faz parte dos arquivos implacáveis de João Condé, mas jamais esqueci que havia um “hors d’oeuvre à Caetés” e um “Peru à Angústia”. Esse peru assim até hoje me persegue. O mau gosto do cardápio vingou-me de certas coisinhas contra o velho Graça. A vingança é que ele engolira aquele peru e aquele “hors d’oeuvre”.

 

Uma crônica de mexericos em Diretrizes, 05-11-1942[[598]], contou que na Livraria José Olympio havia muita conversa sobre a vaga aberta na ABL, Academia Brasileira de Letras. Aludia à importância de Graciliano para destacá-lo como candidato, e, ao final do texto, acrescentava outros, como Augusto Frederico Schmidt e Afonso Arinos. Nos itens da coluna Flash dos Arquivos implacáveis de João Condé, A Manhã, 01-08-1948[[599]], Graciliano ao dizer que fumava três maços de cigarro “Selma” por dia, que odiava a burguesia, que era ateu, que apesar de o acharem pessimista, discordava, que esperava morrer ao 57 anos, que lhe era indiferente estar preso ou solto – entre outros itens, acrescentou: “Indiferente às Academias”. Sobre “Uma eleição” em 1938 na ABL, disse:

 

Essas quarenta cadeiras não são como empregos públicos. Mais duras que empregos públicos. Para entrar no funcionalismo os concorrentes esperam lugares novos, mortes e demissões, não raro utilizam a carta anônima e a delação, armas bastante apreciáveis. Um sujeito cai, outro se levanta em cima dele. É jogo. Na Academia não se dá isso. Quem entra lá fica pregado, só sai depois de morto.

As quarenta cadeiras são como aposentadorias: os cidadãos que nelas se sentam recebem de ordinário ataques, não por feitos atuais, na verdade pouco sensíveis, mas por outros antigos.

É razoável, pois, que a sociedade, usando uma prudente reserva quando a importunam homens capazes de prejudicá-la, tenha preferido certos cavalheiros inofensivos, autores de obras escassas, meio inéditas e, portanto, pouco sujeitas a discussões.[600]

 

Peregrino Jr. observou em Careta, 22-01-1944[[601]], que foram publicados em 1943 vários dos mais importantes romances da literatura brasileira, como Fogo morto, de José Lins do Rego. Uma das exceções foi Graciliano Ramos, que não publicou livros nesse ano em que morreu sua mãe, Maria Amélia, a Mariquinha. Clara Ramos anota:

 

Havia visitas. De pé, encostado à sua mesa, Graciliano falava. A mulher entregou-lhe um telegrama. Ele passou os olhos pelo papel, piscou fortemente, colocou a mensagem sobre a escrivaninha – e retomou o assunto com um controle de meter inveja ao mais impassível oriental. Sua mãe morrera na véspera.[602]

 

Entre outras personalidades, Graciliano foi convidado por Beatrix Reynal para participar na rádio PRA-2, do Ministério da Educação, do programa “Franceses, nós cremos em vós”. A poetisa, radicada no Rio de Janeiro, militava no Brasil pela resistência francesa. A palestra de Graciliano no dia 14-02-1944, sob o tema “A imprensa francesa clandestina”, foi anunciada em O Jornal, 13-02-1944, no Diário de Notícias, 13-02-1944[[603]]. Anos antes, Graciliano escrevera sobre a poetisa, em Dom Casmurro, 31-05-1941[[604]], artigo coligido em Linhas tortas, com o título “Para nós, humildes...”. Também em Linhas tortas encontra-se o texto “A imprensa francesa clandestina”.

 

Deu entrevista a Ernesto Luiz Maia (pseudônimo de Newton Rodrigues) sob o título “Os chamados romances sociais não atingiram as massas”.[605]

 

Acho que as massas, as camadas populares, não foram atingidas e que nossos escritores só alcançaram o pequeno burguês. Por quê? Porque a massa é muito nebulosa, é difícil interpretá-la, saber de que ela gosta.

 

Graciliano tem o seu primeiro romance publicado no exterior[606]: Angustia. Traducción, prólogo y notas de Serafín J. García[607]. Montevidéu: Independencia, 1944 [[608]]. Suas obras passaram a ser traduzidas pelo mundo todo.[609]

 

A Cia. Editora Leitura anunciou, em 1944, Os russos – antigos e modernos (obra posteriormente publicada com outro título: O livro de ouro dos contos russos): a grande coletânea de contos russos, traduzidos por 41 renomados escritores brasileiros, organização de Rubem Braga e supervisão de Graciliano Ramos – ver anúncio chamativo, de um quarto de página, em O Jornal, 19-08-1944.[610]

 

Entre 1938 e 1941, no Diário de Notícias e em O Jornal, Graciliano publicou alguns contos do que viria a ser no final de 1944 a edição de Histórias de Alexandre, pela Cia. Editora Leitura, coletânea de treze contos de um mentiroso, colhidos do folclore nordestino, conforme a advertência que já aparecia em nota na publicação de “O olho torto de Alexandre” pelo Diário de Notícias, em 1939[[611]]: “As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas”. Câmara Cascudo, apesar de colher manifestações correlatas em sua vastíssima pesquisa folclórica, não dá destaque a esta obra de Graciliano, que, por sua vez, não dá indicação de qualquer fonte, além da nota acima. No prefácio a Alexandre e outros heróis, José Geraldo Vieira menciona o Tuti-Name – O livro do papagaio – uma obra de origem remota e percurso oriental (hindu, persa, turco), como indicam Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai em Mar de histórias, 2 – pouco relacionada com Histórias de Alexandre. Em edições posteriores foram acrescentados os capítulos “Apresentação de Alexandre e Cesária” e “Um missionário”. O protagonista narra suas façanhas a Seu Firmino, preto cego e cético, a Seu Libório, cantador de emboladas, a Das Dores, rezadeira e afilhada, a Mestre Gaudêncio, curandeiro. A coadjuvante é Cesária, esposa de Alexandre, que ajuda nos detalhes das mentiras e confirma o potoqueiro. Clara Ramos informa que enquanto o pai escrevia e publicava as histórias, chamadas na intimidade de Proezas de Alexandre, em casa passaram a usar seu estribilho:

 

A esse Barão de Münchhausen[612] sertanejo, que está sempre a exigir da mulher a ratificação de suas lorotas – “não é, Cesária?” – as garotas costumam referir-se nas brincadeiras com o pai.[613]

 

Foi publicada a extração de Histórias de Alexandre na versão intitulada 7 histórias verdadeiras[614], em dezembro de 1951, com forte apelo natalino, que anunciava o livro como ótimo presente para as crianças – uma edição da editora do PCB, Editorial Vitória. Como reproduz o jornal comunista, Imprensa Popular, 23-12-1951[[615]], junto ao livro vinha uma carta-convite do autor e um formulário para as crianças encaminharem seu interesse:

 

Com certeza você compreende, meu pequeno leitor, que o escritor vive quase sempre afastado do seu público. Por isso, nem sempre sabe para quem escreve, como são recebidos os seus livros, quais as suas falhas, como melhorar as suas histórias, os seus romances.

Pensando nisso resolvi ter com vocês em fevereiro ou março uma conversa sobre as 7 histórias verdadeiras em que eu conto as aventuras de Alexandre. Nessa conversa nós nos tornaremos conhecidos. Vocês farão críticas e sugestões, que me servirão de ensinamento para outras histórias.

Sei que você gostará dessa reunião para a qual poderá convidar também os seus amigos.

 

Para receber o seu convite, preencha o cupão abaixo e remeta-o até 31 de janeiro à editora deste livro, a fim de ser avisado do dia e lugar dessa conversa.

 

Graciliano passou a escrever os capítulos de Infância desde 1938, tendo datado o primeiro manuscrito, “Samuel Smiles”, em outubro desse ano. Publicou os capítulos como contos em jornais e revistas, continuamente, até o início de 1945. Em janeiro de 1936, em Maceió, antes de ser preso, tivera a ideia do livro, quando registrou em carta a Heloísa (ver acima) vários títulos e temas do que efetivamente veio a realizar somente no Rio. Mas esquecendo-se disso, em entrevista a Vamos Ler!, 25-10-1945[[616]], Graciliano declarou durante o lançamento da obra que não tinha inicialmente intenção de compor um livro com suas lembranças da infância. Negou o boato de que faria memórias consecutivas, mas garantiu que pretendia escrever sobre a prisão em 1936. Inicialmente intitulado “Impressões da infância”, como revelam provas tipográficas e notas da imprensa, o livro foi anunciado em Leitura, 09-1945[[617]], como a “primeira parte” de suas memórias. Também foi muito enfatizada a relação entre ficção e confissão, por exemplo, em Diretrizes, 25-05-1944[[618]]: “O grande romancista de S. Bernardo, em conversa na Livraria José Olympio, anunciou que está terminando o primeiro volume de suas memórias”; “Não se trata de simples narração mas de uma espécie de profunda interpretação desse tempo em que o memorialista e o ficcionista se confundem e fazem uma obra rica de aspectos psicológicos e sociais, fixando uma época e continuando os processos do romancista de Angústia e Vidas secas[619]. Antonio Candido articulou tal relação no apanhado completo da obra publicado em série no Diário de São Paulo em 1945[[620]] (depois acrescido da abordagem de Memórias do cárcere), como lembra ao apresentar em 1992 a coletânea Ficção e confissão, em que justifica a republicação do ensaio, apesar de considerá-lo ultrapassado: “Mas ainda me parece justo o pressuposto básico, isto é, que ele passou da ficção à autobiografia como desdobramento coerente e necessário da sua obra”.[621]

 

Antonio Candido reproduz em Ficção e confissão a carta de agradecimento de Graciliano, de 12-11-1945:

 

Só agora, lido o último artigo da série que V. me dedicou, posso mandar-lhe estas linhas e conversar um pouco. Muito obrigado.

 

Onde as nossas opiniões coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios concedidos a este livro, e alguns, verdadeiros disparates, me exasperaram, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com outros gigantes. O que eu sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano completo se a seca houvesse destruído minha gente, como V. muito bem reconhece.

Por que é que Angústia saiu ruim? Diversas pessoas procuraram razões, que não me satisfizeram.

 

Por que é mau? Devemos afastar a ideia de o terem prejudicado as reminiscências pessoais, que não prejudicaram Infância, como V. afirma. Pego-me a esta razão, velha e clara: Angústia é um livro mal escrito. Foi isto o que o desgraçou. Ao reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas, desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem examinadas no seu último artigo.

 

Forjei o livro em tempo de perturbações, mudanças, encrencas de todo o gênero, abandonando-o com ódio, retomando-o sem entusiasmo. Matei Julião Tavares em vinte e sete dias; o último capítulo, um delírio enorme, foi arranjado numa noite.

 

A 3 de março de 1936 dei o manuscrito à datilógrafa e no mesmo dia fui preso. Nos longos meses de viagens obrigatórias supus que a polícia me houvesse abafado esse material perigoso. Isto não aconteceu – e o romance foi publicado em agosto. Achava-me então na sala da capela. Não se conferiu a cópia com o original. Imagine.

 

Esta explicação tem apenas o fim de exibir-lhe o prazer que me causou o seu juízo. Quando um modernista retardatário e pouco exigente me vem seringar amabilidades a Angústia, digo sempre: – “Nada impede que seja um livro pessimamente escrito. Seria preciso fazê-lo de novo.”

Permita-me que apenas toque nos seus estudos relativos a São Bernardo, Vidas secas e Infância. Ser-me-ia difícil estender-me sobre eles. O que faço é agradecer. Por muito vaidoso que sejamos, às vezes certas opiniões nos amarram: diante delas ficamos atrapalhados e sem jeito.

Adeus, Antonio Candido. Abraços do admirador e amigo[622]

 

Graciliano Ramos, a convite de Luís Carlos Prestes, filiou-se em 18-08-1945 ao PCB – Partido Comunista Brasileiro (então “do Brasil”, mas com a sigla PCB[623]), no momento em que Infância chegava às livrarias. Segundo Ricardo Ramos, numa viagem de avião a Belo Horizonte, Prestes aproximou-se de Graciliano convidando-o a filiar-se ao Partido Comunista. (O II Congresso da ABDE – Associação Brasileira de Escritores – em Belo Horizonte, foi em 1947. Graciliano esteve em Belo Horizonte em setembro de 1945 – já estava filiado e sua viagem teve por objetivo não só representar o PCB na campanha pela Constituinte mas também apresentar-se candidato a deputado por Alagoas – ver Tribuna Popular, 20-09-1945[[624]]). No momento de sua filiação, o jornal comunista, em 18-08-1945[[625]], afirmou: “O ingresso do maior romancista brasileiro, um dos maiores escritores contemporâneos, no P. C. B., é mais uma prova concreta que não há nenhuma divergência entre o conceito individual de liberdade e de trabalho de um romancista com os princípios do Partido Comunista”; “As declarações de Graciliano Ramos, que justificam a sua inscrição no Partido Comunista, estão nos seus livros, nos depoimentos de S. Bernardo, Angústia e Vidas secas”. E reproduziu a declaração do escritor: “Ao visitar, pela primeira vez, Luís Carlos Prestes, disse-lhe que estava inteiramente solidário com todas as ideias dele. Quando em 1936[[626]] fui viver no Pavilhão dos Primários, na Sala da Capela, na Colônia Correcional de Dois Rios, e em outros lugares semelhantes, encontrei os excelentes companheiros que hoje trabalham no Partido Comunista. Sempre me senti perfeitamente ligado a eles, e se até agora me limitei a apoiá-los, sem tomar posição de militante, foi por não saber se poderia de qualquer maneira ser útil, nessa agitação em que nos achamos, o trabalho de ficcionista”; “Um severo exame de consciência me aconselhava prudência, uma prudência que de fato me humilhava. Na verdade eu desejava que algum antigo companheiro me viesse trazer algum estímulo e isto era difícil, pois ninguém adivinhava as minhas intenções. Mas o certo é que foram adivinhadas. E os escrúpulos mencionados se varreram pelo menos por enquanto”. Quanto ao porquê de ter-se filiado, Clara Ramos registra uma resposta do pai: “Naturalmente porque sou comunista. É uma resposta besta, mas não tenho outra. Acho que deixei isso bem claro na minha vida e na minha escrita”[627]. Recebeu a carteirinha de filiado juntamente com o amigo Portinari[628]. Graciliano participou vigorosamente como militante, até o final da vida, em textos de manifestos e conclamações, comícios, movimentos, viagem à URSS, associações e células como a “Theodore Dreiser” (nome do escritor comunista norte-americano, por ele escolhido para batizar esse núcleo de escritores do partido)[629]. Leal e disciplinado, não se submeteu, entretanto, às regras constritivas de cunho ortodoxo e à canastrice estética do “realismo socialista”, que propunha olhares cheios de enlevo voltados para o horizonte por heróis musculosos e “positivos” do proletariado. Já em 1935 (ver acima) em carta a Oscar Mendes sobre S. Bernardo, ele declarava sua posição revolucionária somada ao desprezo pela literatura de propaganda soviética. Como lembra Ricardo Ramos[630], Jdanov, o teórico russo dessa linha decretada pelo stalinismo, era assim definido pelo pai: “um cavalo!”. Do mesmo modo contrariou-se com o “Manifesto de Agosto” de 1950, assinado por Prestes, pois considerou inviável e cega sua proposta de insurreição armada. Sofreu constrangimentos de líderes do partido, que desfizeram a célula que dirigia, procuraram em vão interferir na escrita de Memórias do cárcere, silenciaram sobre sua publicação, póstuma, como também sobre o relato de Graciliano, Viagem, de sua visita principalmente à URSS. Oswald de Andrade disse em sua coluna Telefonema, sob o título “O encarcerado”, Correio da Manhã, 10-11-1953[[631]], que Graciliano se absteve de publicar Memórias do cárcere em vida por imposição político-partidária[632]. Com espírito reacionário anticomunista e equívoco, somado à intenção de escândalo, Wilson Martins entendeu que Memórias do cárcere sofreu alterações à revelia do autor. Ricardo Ramos respondeu, como se vê, por exemplo, em “Não foram deturpadas as Memórias do cárcere, Última Hora, 07-12-1953[[633]]. Como lamenta Ricardo Ramos[634], Clara Ramos em 1979 retomou o assunto com Wilson Martins, depois mencionado pela autora em seu Cadeia, de 1992. Em carta aos filhos, de Moscou, nos festejos do 1º de maio de 1952, Graciliano, além das peripécias, relatou, com um “cá estamos na Terra Santa”, o monumental desfile a que assistiu: “Enquanto as organizações operárias desfilavam, Kaluguin perguntou-me quais os meus livros que deviam ser traduzidos em russo. Talvez nenhum, respondi. E expliquei a minha divergência com o pessoal daí”[635]. No texto de Viagem, detalha em outro tom: “Voltando à calma, o excelente rapaz quis saber quais dos meus livros poderiam ser traduzidos em russo. Estranhei a pergunta, na verdade inoportuna dentro da enorme agitação. – Nem sei, Kaluguin. Talvez nenhum. Vocês é que devem examinar isso. Tinha-me vindo o pensamento de que os meus romances nenhum interesse despertariam àqueles homens: são narrativas de um mundo morto, as minhas personagens comportam-se como duendes. Na sociedade nova ali patente, alegre, de confiança ilimitada em si mesma, lembrava-me da minha gente fusca, triste, e achava-me um anacronismo. Essa ideia, que iria assaltar-me com frequência, não me dava tristeza. Necessário conformar-me: não me havia sido possível trabalhar de maneira diferente: vivendo em sepulturas, ocupara-me em relatar cadáveres”[636]. Por ocasião do aniversário de Luís Carlos Prestes publicou em A Classe Operária, 01-01-1949, uma homenagem avessa aos salamaleques, refletida sobre a ideia de mito que cercava a importante figura do revolucionário brasileiro (em 1980, a histórica Carta aos comunistas, de rompimento de Prestes com o PCB, foi publicada pela editora Alfa-Omega acompanhada do artigo de Graciliano Ramos): “Certo não concedemos auréola a Prestes: o que nos atrai nele  é a parte humana, de ordinário deixada na sombra”; “Há em Prestes excessiva polidez. Viajará horas em pé num aeroplano se alguém se avizinhar da cadeira dele e puxar conversa. A voz clara, baixa, sacudida, não se eleva – é como se nos martelasse”. “Chegamos agora a um ponto em que não distinguimos nenhum sinal de oposição: há em Prestes uma dignidade fundamental, incontrastável. É a essência de seu caráter. Admiram-no com exaltação, odeiam-no com fúria, glorificam-no e caluniam-no. Seria difícil achar quem lhe negasse respeito à austeridade imutável, maciça, que o leva a afrontar serenamente duras fadigas e sacrifícios horríveis – coisas previstas e necessárias”[637]. Ricardo Ramos ao procurar as percepções do “meu pai stalinista”, conta que o viu chorar duas vezes: com o suicídio do filho Márcio, em 1950, e com a morte de Stalin, em 1953 (quinze dias antes de morrer).[638]

 

O jornal Tribuna Popular, do Partido Comunista Brasileiro (então “do Brasil”), publicou os manifestos de Graciliano, acompanhou suas participações e anunciou o candidato a deputado de Alagoas pela Constituinte: registrou sua presença e discurso em Belo Horizonte, em 20-09-1945; publicou seu artigo “Essa vontade é a nossa arma: Constituinte!” em 25-09-1945; anunciou os grandes comícios do PCB pelos bairros do Rio, e, dentre eles, relatou sua participação no da Tijuca, Praça Saenz Peña, resenhou o discurso de Graciliano, em 07 e 09-10-1945; publicou sua conclamação “A tarefa principal: Constituinte!”, em 10-10-1945.[639]

 

Bem. Nós, negrada, homens e mulheres da canalha dos morros, não queremos que ninguém nos salve, recusamos os presentes duvidosos dessas figuras admiráveis vistas de longe e tentamos salvar-nos com os nossos meios. De fato nada existe dentro das nossas cabeças, porque somos negros, canalha dos morros, e habituamo-nos a respeitar as cabeças dos brancos da planície. Infelizmente não podemos trocar as nossas cabeças – e, apesar de elas serem ocas, não nos resignamos a isto e acreditamos que encerram qualquer coisa.

 

Ao filho Júnio, escreveu em 12-10-1945:

 

Agora saltou uma faísca – e fazemos coisas que nunca pensamos fazer, até discursos. Domingo achei-me em dificuldade séria. Num comício, na Praça Saenz Peña, houve sabotagem, cortaram-nos o microfone – e foi preciso, diante de alguns milhares de pessoas, andar gente em busca de pilhas, não sei quê.

 

Afirma a reação que a massa é estúpida, insensível, e por isso devemos oferecer-lhe chavões e bobagens rudimentares. Resolvi não fazer ao público nenhuma concessão: escrevi na minha prosa ordinária, que, se não é natural, pois a linguagem escrita não pode ser natural, me parece compreensível.

 

Iriam entender-me? Talvez metade do auditório fosse formado pelas escolas de samba. E referi-me à canalha dos morros, à negrada irresponsável, utilizando as expressões dos jornais brancos. Era arriscado. Aceitaria a multidão essa literatura sem metáforas e crua? Além disso Deus me deu uma figura lastimosa, desagradável, cheia de espinhos. Com essas desvantagens, senti-me apoiado logo nas primeiras palavras, e conversei como se estivesse em casa. De repente o microfone emperrou. Em vez de encoivarar o resto à pressa, calei-me, dobrei os papéis e aguardei os acontecimentos. Exigências e gritos fizeram que o miserável voltasse a funcionar. Cheguei ao fim com diversas interrupções. Os homens dos morros ouviram a injúria que a reação lhes atira e manifestaram-me simpatia inesperada. E inútil, porque não pretendo ser ator. Estou velho para mudar de profissão.

 

Aqui em casa todos se meteram na grande bagunça. Madame trabalha na minha célula. As duas garotas pregam cartazes, escrevem nas paredes – e domingo passaram o dia num caminhão, lendo horrores num alto-falante. À noite estavam roucas. Nosso amigo Tatá brilha, como v. tem visto, na Tribuna.[640]

 

Ricardo Ramos conta que juntamente com ele e os irmãos Márcio e Júnio, Graciliano apanhou da polícia.

 

O comício começou, um orador, outro, justamente quando o Velho principiou a falar estouraram o tiroteio e a pancadaria. Abrimos caminho para o palanque, em meio ao corre-corre, de longe o divisamos. Vinha devagar, descendo, e afinal nos reconheceu.

 

Ao saber da agressão, através de Ricardo, Paulo Mota Lima, da Tribuna Popular, remeteu um repórter para entrevistar o escritor, que negou tudo e advertiu o filho:

 

Pra mim, não, pancada não tem endereço. Bateram em todos, logo você não fala.[641]

 

Graciliano como candidato a deputado constituinte enviou aos alagoanos carta com o vocativo: “Meus raros amigos”:

 

Nestes últimos dez anos o mundo tem dado tantas voltas que estive a pique de fazer uma viagem a Alagoas, só desistindo da ideia porque, tendo aqui aportado em porão de navio muito vagabundo, não achei conveniente regressar num aeroplano.

 

Entre ser literato medíocre ou deputado insignificante, prefiro continuar na literatura e na mediocridade. E digo isto sem falsa modéstia. Reparem na significação exata das palavras. Não considero a minha literatura insignificante: ela é apenas medíocre e, por conseguinte, mais ou menos aceitável. Acho-me perfeitamente à vontade na livraria. Mas na Câmara é certo que faria uma figura bem chinfrim. Nenhuma conveniência em mudar de ofício neste fim de vida. Está explicada, suponho, esta desambição aparente. Contudo, se me falta o desejo de passar algumas horas por dia cochilando, rosnando apartes chochos, isto não quer dizer que me desinteresse da política nacional e encolha os ombros à eleição. De modo nenhum. Entreguei-me de corpo e alma a um Partido, o único, estou certo, capaz de nos livrar da horrível situação em que vivemos, e este Partido apresenta-se às urnas. Sou forçado a pedir a vocês, para os nossos melhores candidatos (insisto em declarar-me completamente livre de qualquer pretensão), os vinte e quatro votos que me poderiam, com boa vontade, conceder.

 

Quando nos preparamos para dar ao país uma constituição, não é razoável que ela seja uma constituição de proprietários.

 

Realmente vocês são bem pouco numerosos. Mas cada um, nestes breves dias que nos restam, poderá convencer uma tia ou sogra, que influirá na vizinha com rapidez, e assim por diante.[642]

 

O PCB teve desempenho fraco nas eleições em Alagoas. Graciliano obteve 62 votos.[643]

 

Saiu, no final de 1945, Dois dedos – pela Revista Acadêmica, R. A. Editora, coletânea de dez contos com ilustrações em xilogravura de Axel de Leskoschek – uma publicação propícia a presentes no período natalino, como sugeria a resenha no  Diário da Noite, 18-12-1945[[644]], de Quirino Campofiorito, entusiasmado com a soma refinada de literatura e artes plásticas na edição. Em 1947, com mais três contos, o livro foi publicado pela José Olympio, com capa de Santa Rosa e o título Insônia, que se tornou definitivo.

 

De acordo com as datas no Catálogo de manuscritos do AGR, Graciliano iniciou definitivamente a escrita de Memórias do cárcere entre 22 e 25-01-1946. A data do último manuscrito é de 1951.[645]

 

Clara Ramos fala do movimento doméstico, lembrando que Graciliano dizia precisar de vinte e quatro anos para escrever os quatro volumes, cálculo previsível pela multiplicação dos seis consumidos para produzir Infância (entre 1938 e 1944). Fato excepcional, a José Olympio pagou pela escrita da obra. Pelas falhas na quantia contratada das entregas, fez fiado, pagando mensalmente sem falta o escritor. Em Cadeia, Clara Ramos apresenta fac-símile de contrato e de recibo entre Graciliano e a José Olympio, estipulada a entrega mensal de três capítulos[646]. Em Mestre Graciliano, ela conta:

 

Heloísa procura tirar Mestre Graça da madorna, com ele firmando o pacto das trezentas palavras diárias, pelo qual o marido se compromete a cumprir o limite mínimo estabelecido. Nos dias de moleza, porém, o pactuante inclui na contagem o artigo, a preposição, o semantema que se combina a outro vocábulo na palavra composta, o ponto, a vírgula, o travessão.[647]

 

Ao companheiro de partido, Portinari, Graciliano dedicava admiração fraterna. Escreveu “O estranho Portinari”, em O Jornal, 01-07-1943[[648]], lembrando-se de 1937, quando posou para o retrato da edição de maio daquele ano da Revista Acadêmica, n. 27, sobre Angústia:

 

Às cinco horas julguei que a cabeça estivesse pronta: certamente não era preciso acrescentar-lhe um cabelo ou uma ruga. Portinari examinou-a, virou-a, mediu-a, murmurando frases soltas, repetindo uma que se ia tornando estribilho: – Eles não sabem como é que é.

 

Homem estranho, Portinari, homem de enorme exigência com a sua criação, indiferente ao gosto dos outros, capaz de gastar anos enriquecendo uma tela, descobrindo hoje um pormenor razoável, suprimindo-o amanhã, severo, impiedoso. Dessa produção contínua e contínua destruição ficou o essencial, o que lhe pareceu essencial.

 

Clara Ramos reproduz um bilhete e uma significativa carta do pai ao amigo. O bilhete é de 04-08-1949[[649]], registrando sua visita à exposição do painel “Tiradentes”, mas a visita é de alguém avesso a vernissages.

 

Estive uma hora hoje a admirá-lo. Não valia a pena vir ontem – dia de gente fina. Voltarei depois muitas vezes, naturalmente.

 

A carta, de 13-02-1946, é uma reflexão estética inquietante, divulgada por Annateresa Fabris e Mariarosaria Fabris:

 

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e a miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram.

O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejaremos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças?

Dos quadros que você mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza.

Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros.

Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte.

E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria.[650]

 

Em 1946, a Livraria do Globo, Porto Alegre, publicou Histórias Incompletas, com capa ilustrada a partir de xilogravura de Fayga Ostrower. O livro reúne além de contos, capítulos de Vidas secas e de Infância, acentuando como característica do estilo geométrico de Graciliano o construtivismo por retábulos, quadros em que o independente, fechado em si, é simultâneo ao incompleto, que pede sequência – um estilo de fotograma, que revela sua vocação para o cinema e pode explicar o “caos organizado” visto por Antonio Candido em Angústia[651]. A experiência foi repetida em 1960, com Histórias agrestes, publicação póstuma organizada por Ricardo Ramos, com contos de Insônia e capítulos de Vidas secas, Histórias de Alexandre, Infância e Memórias do cárcere. No prefácio, Ricardo Ramos lembra que entre os manuscritos de Infância encontra-se a folha em que o pai organizou os capítulos, cada um deles com o título emoldurado com retângulo traçado por fortes linhas negras – num mosaico com aparência de “organograma”.[652]

 

Graciliano foi convidado pelo jovem comunista, primo do futuro ministro Célio Borja, para ser patrono (ou paraninfo, em alguns registros) dos colegiais formandos de 1946 do Instituto Lafayette. Ricardo Ramos lembra que o pai, mesmo reclamando que o rapaz da juventude comunista, Sylvio Borba, lhe havia arranjado uma caceteação, preparou um discurso significativo para o evento. Célio Borja, católico que também era da turma, em depoimento contou que houve negociação na escolha dos convidados para que se buscasse um equilíbrio entre o comunismo e o conservadorismo – e assim o primo sugeriu que ele, católico, fosse o orador, mas Célio empurrou a tarefa para outro colega, Antonio Carlos Villaça: “Criou-se então uma situação desagradável, até que no fim o Villaça não aceitava a ideia do Graciliano como paraninfo e eu aceitava porque gostava do Graciliano. E assim foi. E o Graciliano fez um discurso primoroso. Pequeno, mas primoroso”.[653]

 

Não espero que sejam felizes: espero que sejam úteis.

 

Receio que estas palavras soem mal em numerosos ouvidos. A culpa é dos rapazes que, insensíveis às nossas glórias, voltaram as costas ao passado, quiseram saber a opinião de um transeunte. Dirijo-me a eles de coração aberto. Não, meus caros amigos, não lhes desejo felicidade. Seria o mesmo que desejar-lhes a morte.[654]

 

Graciliano foi incumbido de compor uma antologia nacional de contos que seria publicada pela Casa do Estudante do Brasil. Como conta no prefácio, com seu humor característico, pesquisou por todos os meios e cantos do Brasil, enviou correspondências, folheou “revistas e jornais velhos”, encafuou-se dois meses na Academia de Letras e “outros dois na Biblioteca Nacional”, em busca de contos do século XIX e de meados do XX, para uma seleta que não se limitasse aos consagrados, reparando injustiças. Com a publicação póstuma, em 1957, Aurélio Buarque de Holanda, em entendimento com Ricardo Ramos, escolheu e inseriu na antologia o conto “Minsk”, de Graciliano. A obra, em três volumes, foi organizada por agrupamentos regionais: I – Norte e Nordeste, II – Leste, III – Sul e Centro-Oeste. Contos e novelas passou em edições posteriores ao título Seleção de contos brasileiros.

 

Escrevi às academias de letras do país e às diretorias de instrução pública. Em geral não me responderam, ou deram respostas ásperas.

 

Graciliano traduz um desaforo vindo com solecismos, segundo ele mais ou menos nestes termos:

 

Tratamos de assuntos graves, não nos ocupamos com tolices. Não amole.

 

Diz que recebeu de Fernando de Noronha a notícia:

 

Não temos literatura. O senhor compreende. E tal, enfim etc.[655]

 

Em entrevista a Homero Senna, em 1948, ao alfinetar os modernistas, mencionou a antologia, que ainda estava em preparo.

 

Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?

 

Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura.

 

Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.[656]

 

Ainda na entrevista de 1948 a Homero Senna, Graciliano comentou que além do trabalho de inspetor de ensino, era revisor do Correio da Manhã. Clara Ramos, que acompanhava o pai como jovem jornalista do Correio, acrescenta que os dois empregos, somados aos parcos direitos autorais da literatura, sustentavam então um apartamento mais amplo na Rua Belisário Távora, 480, em Laranjeiras.[657]

 

Decretada a ilegalidade do Partido Comunista em 1947, seu órgão oficial, Tribuna Popular, foi substituído pelo extraoficial Imprensa Popular, igualmente com a participação de Graciliano. Em O velho Graça, Dênis de Moraes informa que Graciliano passou a trabalhar como copidesque no Correio da Manhã em 1947, substituindo Aurélio Buarque de Holanda, por quem foi indicado. Uma das anedotas a respeito de sua aversão aos textos farfalhudos que corrigia é o xingo que teria exclamado durante uma dessas tarefas: “ ‘Outrossim’... ‘Outrossim”... é a puta que o pariu!” A sala que frequentava com Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux era apelidada de Petit Trianon[658]. Audálio Dantas, em seu artigo “O jornalista Graciliano Ramos”, retoma a densa imagem de Antonio Callado publicada em O Estado de São Paulo, 19-03-1978: “O tigre na jaula de sol do Correio da Manhã”: “O velho Graça, numa sala que recebia de chapa o sol da tarde, filtrado pelas persianas, batendo em listras sobre a mesa onde ele corrigia textos importantes destinados à página nobre do jornal”[659]. Ricardo Ramos lembra a convivência divertida do pai com o dono do Correio, Paulo Bittencourt: quando este aludiu ao estrago que os comunistas no poder fariam ao maquinário novo que tinha adquirido para a modernização do jornal, ouviu:

 

Você é burro ou é doido? Então acha que vamos quebrar as máquinas novas, desperdiçar esse patrimônio? Vamos não. A diferença é que botamos uma mesa aqui e você vai trabalhar, em vez de ficar saindo quando mulher telefona, viajando meses, e a gente ganhando o seu dinheiro.

 

Graciliano não foi ao banquete comemorativo do cinquentenário do Correio da Manhã. Paulo Bittencourt choramingou que seu lugar reservado ao lado dele tinha ficado vazio. Graciliano disse que não se sentava com patrão e quando este disse que era um patrão diferente, ouviu:

 

Você que pensa. Todo patrão é filho da puta.[660]

 

A fundação em 1942 da sociedade que a seguir foi batizada Associação Brasileira dos Escritores – ABDE – firmava como objetivo a profissionalização do escritor, mas assumiu a luta pela redemocratização do país, com destaque para o I Congresso, em São Paulo, 1945. Uma crise grave ocorreu em 1949, no Rio de Janeiro, durante a eleição da direção nacional da associação, em que o embate se estereotipou no confronto entre duas posições: fazer respeitar os direitos profissionais do escritor versus fazer política, tendência atribuída aos comunistas, que tentaram e conseguiram tomar o poder dos vencedores da eleição, autodenominados “democratas”, na chapa presidida por Afonso Arinos. O resultado foi uma grande debandada de associados em protesto ao comportamento dos comunistas, que formavam a chapa de Homero Pires[661]. Rubem Braga escreveu a respeito durante todo o processo, mas não nomeou Graciliano nem mencionou o xingo que ele teria berrado, à guisa de pronunciamento-convite, contra as duas alas, quando o intimaram a se manifestar. Na edição de 09-04-1949[[662]], Diário de Notícias, Braga frisou a altercação entre Dalcídio Jurandir e Drummond:

 

Vimos agora a introdução de um novo processo (bastante velho, aliás...) de vitória eleitoral: a violência física.

 

Não se envergonharam eles em agredir um homem como Carlos Drummond de Andrade, tentando inultimente arrebatar-lhe os livros da Associação que alguém lançara violentamente à mesa dizendo não valerem nada, e que o poeta guardara, em sua qualidade de 1º secretário que acabava de ser empossado da maneira mais clara e insofismável pelo ex-presidente Álvaro Lins, com apoio da maioria dos ex-diretores.

 

A atual diretoria, eleita por uma margem de 100 votos perfeitamente legítimos, está inclinada a renunciar e retirar-se da Associação. Os que votaram nela certamente a acompanharão. A ABDE ficará apenas com alguns escritores e com uma certa massa confusa de meio-letrados.

 

Após a renúncia da chapa vencedora, os comunistas tomaram posse em maio de 1949, com a presidência de Homero Pires (que não era do PCB, vinculado à Esquerda Democrática). Graciliano permaneceu agrupado no conselho fiscal. Sobre as causas da renúncia, um esclarecimento dos comunistas foi publicado em Diário de Notícias, 07-05-1949[[663]], apontando o comportamento suspeito dos supostos vencedores:

 

As eleições celebradas a 26 de março chegaram ao seguinte resultado: Homero Pires, 364 votos dos eleitores presentes, e 14 em separado; Afonso Arinos, 116 votos dos consócios comparecentes, e 316 em separado.

 

Mas, explica o texto, embora fosse necessário comprovar a autenticidade desses votos de ausentes, ao invés de chamada de nova assembleia para isso, forçou-se a posse imediata da nova diretoria – daí o tumulto e o impedimento da declaração de posse por parte dos oponentes.

 

Em 1956, após o desmascaramento do stalinismo pelo relatório Khrushchov, Dalcídio Jurandir, em longa carta publicada na Imprensa Popular, 09-10-1956[[664]], com pedido de desculpas pelos equívocos como militante do PCB, tocou no assunto da ABDE:

 

Minha atitude nas agitações da ABDE, por exemplo. Fomos um modelo de como tratar mal aqueles escritores e companheiros de vida literária que divergiam e divergem de nós. Houve, naquela ocasião, o erro de parte a parte. Mas de nosso lado, confundíamos divergência com luta corporal, preestabelecíamos o rancor e o xingamento sistemático. Parecíamos tomados de uma fria e monótona fúria sectária. E como o mais responsável pelo que sucedeu na ABDE quero afirmar que aquilo foi uma vergonha e a culpa, de certo modo, coube a mim unicamente pois me utilizei do meu cargo naquela Associação para provocar a baderna.

 

A Rádio Globo anunciou a estreia em 03-05-1949 da radionovela S. Bernardo, com adaptação de Amaral Gurgel. O evento foi saudado por vários intelectuais pelo alcance cultural de divulgação de uma grande obra por esse meio.[665]

 

Clara Ramos registra nova mudança da família, para o apartamento no. 202, na rua Desembargador Alfredo Russell, 62, Leblon[666]. A respeito do velho hábito alcoólico do pai, a autora lembra:

 

No começo da década de 50, porém, a bebida é uma compulsão que se agrava.

 

Dissipa-se o pitoresco, esquece-se a crônica dos ditos e feitos do velho Graça quando mais “desenvolto”.

 

Para tratamento de desintoxicação, o romancista interna-se, acompanhado da mulher e da terceira filha, numa clínica de repouso na Ilha do Governador.

 

E pela primeira vez no Rio, há algum exercício físico: o escritor nada nas praias ainda desertas da ilha.[667]

 

Com a ABDE esvaziada, Graciliano participou da comissão organizadora do III Congresso dos Escritores, programado para ser realizado em 1950, de 17 a 21-04, Salvador-BA. Contra a sabotagem “democrata”, o manifesto que publicaram na renúncia e a depreciação que impingiram aos escritores que ficaram, Graciliano escreveu um texto cheio de ironia, datado de 1º de maio de 1950, conforme a publicação do inédito sob o título “Lembrança do III Congresso” (incluída análise circunstanciada do período por Valentim Facioli, em  “Um homem bruto da terra - biografia intelectual”).[668]

 

Ausentes da ABDE os representantes verdadeiros da literatura nacional, achei absurdo exibirmos as nossas fraquezas. Somos, na opinião desses homens notáveis, uns pobres-diabos meio analfabetos. Desejávamos aprender com eles, pois nos habituamos a admirá-los, e quando um batia o pé, ameaçava afastar-se de nós, gaguejávamos com sincero receio:

– Não, não. Tudo, menos isso.

E corríamos a satisfazê-lo.

Trabalho perdido. Os mestres ásperos, em manifesto cruel, nos abandonaram, expondo, com legítimo orgulho e rude franqueza, as suas vantagens e as nossas deficiências.

 

Mas as criaturas poderosas no jornal e na política me inspiravam grande respeito – e por causa delas não fui a São Paulo [1945] nem fui a Belo Horizonte [1947]. Conheço o meu lugar. Temia ouvir as palavras duras que apareceram depois no manifesto. Prudência.

Agora, vencidas as minhas objeções relativas ao III Congresso, resolvi desenroscar-me, ir à Bahia. Disse comigo:

– Estou entre indivíduos chinfrins como eu, já não há motivo para acanhar-me. Não temos um poeta, um romancista, graças a Deus. Posso viajar.

Enganei-me. Em Salvador encontrei figuras numerosas de influência nas letras – e arrependi-me de ter voado quatro horas. Sosseguei. No plenário e na comissão dispensaram as minhas habilidades sem prejuízo. Da plateia, observei os trabalhos, a harmonia, estranhando às vezes, ainda sob a horrível impressão do manifesto severo, não perceber nenhum solecismo nos discursos.

 

Graciliano traduziu A peste, de Albert Camus, com soluções de texto próprias e passagens resumidas em linguagem direta – romance publicado pela José Olympio em 1950[[669]]. Por exemplo: o texto de Camus:

 

On eût dit que la terre même où étaient plantées nos maisons se purgeait de son chargement d’humeurs, qu’elle laissait monter à la surface des furoncles et des sanies qui, jusqu’ici, la travaillaient intérieurement.

 

A tradução de Graciliano:

 

Era como se a terra se purgasse de uma carga de humores a rebentar em furúnculos.[670]

 

Márcio Ramos, o primogênito de Graciliano, suicidou-se em agosto de 1950 depois de matar um companheiro de pensão, por desequilíbrio psíquico e motivo banal: uma impertinência do colega com a moça por quem Márcio era apaixonado. A tragédia foi acompanhada pelo amigo Paulo Mercadante, que tentou, sem êxito, apaziguar a situação desesperada do rapaz. Clara Ramos cita[671] o depoimento do amigo:

 

Cheguei até Graciliano naquela tarde de sábado e contei-lhe o fato. Senti a dor pesada cair-lhe sobre o rosto e me recordo, como em foto meio desbotada, cobrirem as suas mãos o rosto todo, fecharem-se, deslizando devagar até o queixo.

 

Ricardo Ramos lembra:

 

Bem depois é que me ligou [Mercadante], querendo saber do papai: estava ainda acordado, sozinho no escuro, fumando em silêncio.

 

Houve um encontro dele [Márcio] com meu pai, no escritório de Paulo, a que ninguém teve coragem de assistir e que o deixou ainda mais arrasado.

 

Então, no quarto dia, Júnio telefonou: Márcio se suicidara. Iludindo a vigilância de minha cunhada, saíra e comprara o veneno.[672]

 

Relativamente a um texto assinado por “Márcio Ramos” no Diário de Notícias, 07-07-1940[[673]], comprovada a autoria do primogênito (1916-1950), confirmar-se-ia sugestivo reflexo da relação entre pai e filho no plano da criação literária: ainda que não se possa inferir se a intenção é irônica ou dramaticamente acusatória, a hipótese do memorialismo sob possível transfiguração ficcional de Márcio Ramos, à primeira vista parece replicar com um “você-fez-o-mesmo-com-os-seus-filhos” os protestos de Graciliano em Infância a respeito do que chamou em Memórias do cárcere, Parte III, 34, de “bárbara educação nordestina”. No momento da publicação, “Infância (conto)” de Márcio Ramos, reproduzido abaixo, Graciliano, entretanto, havia escrito somente sete manuscritos e publicado cinco, alguns identificados igualmente entre parênteses como contos: “Samuel Smiles”, “Os astrônomos”, “O menino da mata e o seu cão Piloto”, “Um cinturão”, “Fernando”, e, já escritos mas publicados posteriormente, “Nuvens” e “Chegada à vila” (ver datas de manuscritos e publicações em Catálogo de manuscritos do AGR). Nenhum deles trata detalhadamente de sua alfabetização pelo método violento da palmatória, do isolamento da criança proibida de brincar com outras, da prisão doméstica na loja do pai, em que descobre a boa companhia dos insetos, tal como depois Graciliano contaria, por exemplo, em “José da Luz” e “Leitura”. Uma vez que esses tópicos foram apresentados primeiramente pela narrativa de Márcio Ramos, fica a sugestão de que a influência de pai para filho se deu sob os aspectos genéricos do sofrimento da infância e da aprendizagem confusa e martirizada apresentados naqueles primeiros capítulos escritos e publicados, e que o filho, ao imitar o gesto narrativo do pai, acabou por influenciá-lo num contramovimento, fazendo com que Graciliano se desse conta de que, com sua diretriz pedagógica pelo estímulo ao autodidatismo contra a escola precária, havia reproduzido como método para educar os filhos o que sofrera na infância: violência, prisão, isolamento. A excepcional qualidade em estilo próprio da narrativa de Márcio Ramos faz lamentar que não tenha florescido ou vindo a público um grande escritor neste jovem suicida de 1950, como se comprova nestas passagens: a poesia do pisco de luz na cal descascada em meio às paredes encardidas de poeira, os movimentos dispersivos do menino na prisão da saleta de estudos, a placidez gaiata na rememoração dos devaneios de sadismo programados com detalhe para gafanhotos a serem entregues às formigas, tidas como bichos subterrâneos – nessa qualidade companheiras propícias à companhia do presidiário condenado à introspecção – , o aproveitamento do relógio-réstia (que reaparecerá em Infância vindo de Angústia), com ponderações irônicas na reflexão muito inteligente, reportada ao tempo de menino, sobre a lerdeza da velocidade da luz e a subjetividade do tempo nas horas que não passam, ou ainda a ambientação geral da opressão e das expectativas criadas por refinados conhecimentos de geografia para viagens transiberianas libertadoras. Quanto a esse aspecto, tudo indica que Márcio era craque em geografia, como se vê em Cartas, 25-04-1931[[674]], de Graciliano ao cunhado Luís: “Márcio está mais animado. Ele se considera uma besta, mas quando viu um literato daqui meter a ilha de Borneo no Japão, ganhou coragem e julga-se capaz de escrever para os jornais”. Assim, permanece na mesma linha do pai, que relembraria depois a sua conexão juvenil entre atlas e folhetins durante as aulas em Viçosa, quando povoava os mapas com peripécias rocambolescas da Europa. A esses pontos fortes da narrativa de Márcio Ramos somam-se outros decorrentes, como as fantasias de aventuras amazônicas ou o ato falho que trai o menino ao tentar esconder do pai a escova usada como palmatória. O filho, portanto, com sua possível réplica, afora o sadismo cangaceiro sobre os gafanhotos como repercussão dos próprios sofrimentos, teria sugerido tópicos e despertado lembranças que o pai viria então a desencavar de sua própria Infância de menino lesado, incapaz daquele sadismo infanto-juvenil, sempre impotente para reações, mas impressionado com a capacidade de violência dos fortes. Sobre o assunto, Marili Ramos observou: “Em se tratando de estudo, Grace foi muito exigente com os primeiros filhos. Esquecido, talvez, de ter acerbamente condenado o método empregado para iniciá-lo à leitura, castigava severamente os meninos”, “Uma pedagoga, hóspede do senhor Leobino Soares, sabendo disso, convidou-o para uma conversa particular. Dessa entrevista, ele saiu alarmado. Deu férias aos pequenos, e quando voltou a ensinar, foi muito moderado”[675]. Moacir M. de Sant’Ana[676] informa que, em 1930, Márcio e Júnio eram alunos do Liceu Alagoano.

 

 Infância

 (conto)              

 Marcio Ramos

 

Entre os meus dez e quinze anos eu passava a semana trancado em uma pequena sala. Só aos domingos podia brincar. Nos outros dias tinha que ficar das nove horas da manhã às cinco da tarde com os olhos e o pensamento pregados na coleção da F. T. D.

Em frente a mim se estendia na parede um mapa-múndi; à esquerda, sobre um tamborete alto, ficava um globo. Em volta da mesinha, nada que me pudesse desligar do estudo.

As paredes, caiadas há muito tempo, estavam agora revestidas de uma espessa camada de pó. A poeira dava à cal o tom de um amarelo sem vida, a cor exata de uma pessoa doente, anêmica, excessivamente pálida. Às vezes essa palidez se quebrava um pouco. Em certo ponto se desprendia uma placa de cal e o branco reflorescia como um ponto de vida nesse conjunto de morte. A sala ficava clara, como se um pingo de luz tivesse piscado na escuridão. Entretanto, tal um fósforo que aos poucos se vai apagando, o branco ia perdendo a sua alvura, encardia-se. E da ligeira depressão provocada pela rachadura não ficava menor cicatriz. Havia poeira de sobra no interior da sala.

A uns cinco metros, sob o peso de compridas telhas, as ripas vergavam-se, apoiando-se nos caibros. Era a parte menos uniforme da sala. O teto não tinha forro. Era para ele que eu sempre me voltava quando a raiz quadrada ou a versão de francês me levavam a fechar bruscamente o livro e exclamar:

– “Que diabo! Esse domingo não chega...” Revistava então, todo o telhado, à procura de uma novidade. De tanto o observar, eu lhe conhecia todas as particularidades. Sabia em que ponto se estendiam as ripas mais largas e as mais estreitas, os caibros mais grossos e os mais finos. Com mais nitidez que o mapa do meu próprio estado eu gravara na cabeça toda aquela coberta de barro, de madeira e de teias de aranha.

Cerca de duas dezenas de tijolos forravam o chão da sala. Tinham a cor da argila avermelhada, eram grandes e tão lisos como o próprio cimento. Alguns, se não me engano, não conheciam outros pés que não fossem os meus. A não ser algumas ligeiras rugas, não se lhes notava na superfície nenhum traço da passagem desse inimigo da conservação, que é o tempo.                                                 

Procurando quebrar o isolamento, por várias vezes eu trouxera, presas em caixas de fósforos várias, um razoável número de formigas. Habituadas a uma vida subterrânea, nenhuma outra espécie de companheiro de quarto poderia melhor se adaptar àquela modalidade de formigueiro em que eu vivia.

E eu cismava no excelente camarada que as formigas encontrariam em mim. Todas as manhãs eu lhes traria, entre outros manjares, açúcar, queijo e gafanhotos vivos. Os últimos, então, ocupariam o primeiro lugar. Depois de lhes picar todo o corpo com um alfinete grosso, de arrancar as asas e as patas maiores, aquelas que facilitam os saltos e os voos, eu os deixaria em contorsões, a algumas polegadas da entrada do formigueiro. A primeira formiga que os encontrasse iria apressada participar a descoberta às companheiras. Mais alguns minutos e várias dezenas delas viriam, uma atrás da outra, concluir o meu trabalho.

Durante o encontro eu ficaria ao lado das formigas: mas quando um dos gafanhotos se resignasse a ser arrastado para o interior do formigueiro, eu intercederia em seu favor: não porque tivesse pena dele, mas por não querer ver tão cedo o ponto final da luta. Ela me faria esquecer um pouco o domingo, tornaria a semana menos extensa.

Nenhum formigueiro, entretanto, consegui instalar no buraco que fizera com um prego bem comprido num canto da saleta. Todas as tentativas falharam.                                                

A reclusão despertara em mim uma acentuada curiosidade pela geografia. A folha de papel desenhando um pedaço do mundo aparecia-me como a tela de um cinema; era uma imagem bem viva da realidade. Acabei encontrando no mapa o companheiro de presídio que eu tanto procurara. Quando os jornais traziam um sensacionalismo qualquer a minha curiosidade se voltava, de início, menos para o sentido do fato que para o lugar da terra em que ele se passara.

A aviação se encontrava, nesse tempo, na sua fase de experiência. A travessia do Atlântico era uma coisa do outro mundo, os “raids” se sucediam, e coberto um novo “record”, eu o repetia na saleta, em frente ao mapa. A expedição do general Nobile ao Polo Norte me encheu de entusiasmo. Vim a saber da existência de numerosas ilhas que até então me eram desconhecidas e lamentei não ter um mapa minucioso daquelas terras geladas para poder acompanhar a rota do dirigível “Itália”.                                                

O sábado era para mim o pior dos dias. Véspera da caçada e do banho no poço, eu o passava doido para vê-lo escoar-se em duas ou três horas.

Na luta que se desenrolava entre mim e o tempo funcionava como juiz um relógio de mecanismo bem simples. Tinha um único ponteiro: o luz do sol, que penetrando na saleta através de uma telha de vidro, deslizava em um mostrador formado pelos tijolos. Cada tijolo percorrido era uma hora que se passava. No inverno – não é preciso lembrar – o meu relógio não funcionava. Há tempos, porém, que lhe faltava corda. E todas as peças bem ajustadas levavam o ponteiro a seguir vagarosamente o seu percurso.

Mais que os outros estava um sábado de setembro levando um tempo sem fim para se ir embora. De vez em quando eu levantava a cabeça em direção à réstia, encontrando-a sempre muito atrás do ponto em que julgava achar-se. Olhava-a demoradamente, com a cabeça cheia de interrogações e de dúvidas. A geografia e o pequeno volume de ciências físicas e naturais me falavam da velocidade com que a luz se propaga; e o ponteiro do meu relógio estava justamente a me dizer o contrário. Com quem estaria a razão, com os frades, os autores dos livros em que eu estudava, ou com o ponteiro de meu relógio? Decididamente com o último. A luz não poderia deixar de ser a coisa mais preguiçosa do mundo. Eu tinha de arranjar um outro relógio, um relógio que trabalhasse de verdade, que andasse depressa, que encurtasse o tempo. Que encurtasse o tempo, perfeitamente, porque afinal de contas o tempo nada mais é que um fenômeno oscilante, incerto. O tempo da alegria se passa com a maior rapidez do mundo, mas o da tristeza tem uma durabilidade infinda. Pouco importa que em qualquer dos casos tenhamos vivido tantos minutos, tantas horas, tantos dias. Para o mundo que nos  cerca, que não nos pode sentir, o fato é medido sob certa convenção. Para nós, o verdadeiro relógio é a sensibilidade. O ponteiro do meu relógio não era acionado pela luz do sol, mas pelas crises de choro, de raiva, de resignação que me assaltavam dentro daquela saleta escura. Eram estes estados dalma que levavam a réstia a passar paulatinamente de um para outro tijolo. O mesmo não se dava com os meninos que passavam o dia parodiando nos arredores da Cidade os filmes deTarzan e de Buck Jones.                                                

A poucos quilômetros, em uma pequena povoação, estacionava a estrada de ferro que ligaria a minha cidade à Capital. Quando o apito da locomotiva me despertava eu fazia mentalmente uma viagem de Lisboa a Vladvostock. Detinha-me nas estações mais importantes e lembrava delas tudo o que os livros de F. T. D. me tinham ensinado: a história e a geografia de cada uma; e à medida que os dias se passavam, o número de estações ia aumentando.                                                                          

Nesse sábado de setembro o silvo do trem não me levou a atravessar a Europa e tomar o transiberiano. Apesar de ter de repetir pela terceira vez um ponto de matemática, eu estava fazendo por conta própria uma recapitulação da bacia Amazônica. Os apitos se seguiam, depois diminuíam de intensidade. Não fui a Vladvostock, não me preocupei em trocar a geografia pela álgebra. Fiquei na Amazônia.

Para dar mais vida às paisagens que a imaginação criava, fechei os olhos. Como se me encontrasse em pleno sonho, senti as várias passagens do maravilhoso passeio. Um vento brando a sacudir as árvores e a me açoitar o corpo nu, pronto a ferir a água num rápido mergulho: as mãos apontando cuidadosamente a peteca para um passarinho muitas vezes maior que um sabiá, mais bonito que um sofreu. Tive um desejo louco de crescer e ir viver naquelas paragens. Quando, entretanto, me deixaria a réstia chegar a ser homem, ela que se demorava tanto a dar passagem ao sábado? Estavam bem longe os meus vinte anos! A réstia teria de passar muitas e muitas vezes pelo tijolo.                                             

– Que horas faltam? Perguntava eu a mim mesmo; e me dividia entre a impaciência pela chegada do domingo e o terror pela noite próxima: não que me inspirasse medo aquela nossa noite de cidadezinha do interior; eu era até tido como um menino esquisito, que não tinha medo de almas, nem do inferno. A noite que me causava sobressaltos era a hora do castigo, a noite dos bolos: a escova a me cair dez, vinte vezes nas mãos, quando não levava as lições certas.                                                                      

  Que horas faltam? Agora a pergunta se relacionava com a vontade que sentia de chegar à idade de fazer o que bem entendesse e ir-me embora, morar no Amazonas. Tomando o lápis, me dispus a levantar a cabeça e calcular o número de horas que me separavam da liberdade; mas aí me lembrei  que prometera a mim mesmo só olhar a réstia quando estivesse certo de ter ela deixado a sala. Meio indeciso, detive o pescoço a certa altura, sem saber a qual dos dois intentos obedecer: se à promessa, se a consulta ao relógio. De repente, sem que eu quisesse, a cabeça ergueu-se num impulso brusco enquanto as palmas das mãos subiam rapida e automaticamente aos olhos.

Um barulho de pés me arrancou, porém, do choque entre as duas vontades. A porta rangeu; era Papai que me vinha chamar para a aula. Segui-o. O peito tremia-me, sacudido pelos solavancos do coração. Pela terceira vez eu ia repetir a mesma lição. Não sabia nada, e a uma resposta disparatada o velho me mandou buscar a escova. Com as mãos já a me doer, dirigi-me à alcova; ia planejando um esconderijo para a encomenda. À porta do quarto, vi no espelho do guarda-roupa o braço cabeludo do velho empunhando a escova; o meu rosto vermelho e molhado de lágrimas, a boca a soltar gritos. Rangendo os dentes, dei as costas ao espelho e peguei com força na escova. Tentei parti-la em dois pedaços. Não conseguindo, levei-a à boca, mordendo-a até não poder mais.

Um grito me despertou.

– Não quer vir hoje?

– Já vou: estou procurando.

Levando o braço por cima do guarda-roupa, deixei apressadamente o quarto, certo de ter encontrado um bom esconderijo. Na sala de jantar, quase a dizer que nada encontrara, a mão de papai se estendeu em direção à minha. Sem que eu notasse trouxera a escova.

E vinte bolos bem pesados me estalaram nas mãos nessa noite de um sábado de setembro. Lá fora, as outras crianças brincavam de calçadinho de ouro e entoavam a canção de “La Condessa”.

No outro dia eu tinha as mãos horrivelmente inchadas; nem as podia fechar. Perdera uma caçada, um banho no poço, um domingo.

E uma semana duas vezes mais comprida que as de sempre me aguarda.

 

Segundo Ricardo Ramos, o primeiro livro sobre a obra de Graciliano, um estudo psicanalítico publicado em 1950[[677]], não o agradou:

 

Visivelmente não queria ser entendido daquele jeito.

Passou a evitar o autor, um médico simpático, que por três vezes me viu na rua e cobrou a sua opinião. Eu o avisava, ele ficava calado. Enfim, chegou em casa dizendo que encontrara o rapaz, contou como tinha sido: – Fui muito camarada. Abracei-o, falei no livro. Indiretamente agradecendo, inventando, essas coisas. Quando me perguntou se havia gostado mesmo, respondi: “Meu filho, nós somos dois fodidos”.[678]

 

No anedotário, há ainda a nota divulgada pelo Diário Carioca, 17-07-1952[[679]]: no Correio da Manhã, Álvaro Lins reclamou que, sem ter esse direito, também o seu exemplar Graciliano havia jogado no lixo, dos dois recebidos: “Você acha que eu ia deixar você ler tanta bobagem sobre mim?”– Graciliano justificou-se.

                                                                                                                                            

Graciliano foi eleito presidente da ABDE em 1951 e reeleito em 1952, como noticiado, por exemplo, em Diário de Notícias, em 16-05-1951[[680]], e, no ano seguinte, coincidindo dia e mês, em 16-05-1952[[681]]. Uma página de homenagem a Álvaro Moreyra, que lhe passava o cargo da gestão de 1950, foi publicada posteriormente em Para todos, 2ª quinzena-11-1957[[682]]:

 

Conheci Álvaro Moreyra em 1937 – e desde então sempre o achei um homem bom, simples e honesto.

Nesses treze anos muita água correu por baixo das pontes. Invencíveis países se escangalharam, outros se dispõem com galhardia a ter o mesmo fim. No ambiente literário do Brasil numerosas transformações se deram: gente que vivia no leste passou ligeira para o oeste, e é comum cidadãos cautelosos acenderem ao mesmo tempo velas a Deus e ao Diabo. Na contradança, das opiniões, Álvaro Moreyra permaneceu fiel às suas ideias. Certo o indivíduo não é obrigado a pensar invariavelmente de um jeito. Posso hoje ser ateu e amanhã resolver-me a adorar Jeová, cobrir de cinza a cabeça nas lamentações, frequentar a sinagoga. Mas se a mudança rápida me for vantajosa, leva o público a dúvidas. O escritor necessita especial coragem para tal conversão, que inutiliza a obra realizada. Salvo se o sujeito escreve apenas com o intuito de encher papel. Diferente espécie de coragem possui Álvaro Moreyra. Perfeita coerência, na verdade prejudicial se virmos as coisas do lado prático. Não é agradável andar uma pessoa a chocar em portas fechadas, esforçar-se por escalar muros altos, enquanto em redor cavalheiros hábeis usam com proveito escadas e gazuas. Homem honesto.

Devo referir-me aos outros dois objetivos empregados ali no começo destas linhas. Álvaro Moreyra tem uma singeleza quase infantil. Rijos padecimentos não lhe deitaram amargor na alma: conservou neles estranha doçura. Oculta as dores com sorrisos, conta-nos anedotas: parece recear transmitir-nos a sua mágoa. Somos bichos complexos, o ofício nos torna vaidoso. E causa-nos espanto vê-lo tão sincero e modesto. Vamos encontrá-lo à mesa, redigindo; olhamos o trabalho, sugerimos alteração. Acha o conselho razoável e agradece. Expõe minucioso as qualidades de um amigo, ausente, ótimo companheiro. Esfrega as mãos a exagerar virtudes que dificilmente percebemos. Dá-nos a impressão de julgar a nossa camaradagem um favor. Homem simples.

E bom. Não consigo furtar-me às comparações. Manejamos folhas – e mordemo-nos. Atacar é fácil, gostamos de atacar. Se temos ensejo de louvar alguém, ficamos atrapalhados. Não sabemos cantar loas. Almas secas, duras. Que diabo vamos elogiar nesta miséria? Somos ásperos. Egoístas, mesquinhos, a naufragar, buscando terra dentro do nevoeiro. A terra está próxima, chegaremos lá. Difícil entender isso. E continuamos a arranhar-nos. Nesta tristeza, Álvaro Moreyra nos dá uma lição. Quer juntar-nos, ignora os nossos defeitos. Impossível notar a fraqueza e a maldade. Homem bom.[683]

 

Mesmo com Graciliano na presidência da entidade, Rachel de Queiroz saudou, em Diário de Notícias, 03-08-1952[[684]], o aparecimento de uma nova associação, a Sociedade Carioca de Escritores, vetada a comunistas, que se criava para acabar com a ABDE:

 

Já era de se pensar novamente em reorganizar a nossa associação de classe, de vez que perdemos a ABDE, levada de assalto pelos estalinistas para o lado de lá da cortina de ferro.

 

E, pois, já que a ABDE, a única a levar a sério os nossos interesses – está perdida, dedicada unicamente a pesquisas da guerra bacteriológica, e à defesa da pátria soviética, temos que começar de novo, retornar à estaca zero.

 

A partir de monumental congresso em 1948, dentro do contexto da Guerra Fria, lançou-se em nova fase o Conselho Mundial da Paz, que o regime soviético adotou com vigor, disseminando o movimento através dos PCs de todo o mundo, de tal forma que “Paz” tornou-se, para o proselitismo reacionário, disfarce ou sinônimo negativo de “Comunismo”. Graciliano, como presidente da ABDE, participou de muitas manifestações pela paz, contra a bomba atômica. Sob esse item, foi fichado na polícia política, conforme seu prontuário 11.473, como proprietário e editor do jornal Partidários da Paz (ou diretor da Revista Mundial dos Partidários da Paz) além do registro de várias atividades relacionadas ao “Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz”.[685]

 

Em 1951 foi a Porto Alegre, de automóvel, acompanhado de Clara Ramos e membros da associação, para presidir o IV Congresso dos Escritores pela ABDE. A Imprensa Popular, 07-10-1951[[686]], publicou vários artigos sobre o evento, como o discurso da poetisa Lila Ripoll, e notas internacionais de apoio e louvor enviadas por grandes autores, como Pablo Neruda. Em 14-10-1951[[687]], o jornal republicou, com correções, o discurso de encerramento[688] de Graciliano, no Teatro S. Pedro:

 

Começo agradecendo a hospitalidade que nos ofereceram em Porto Alegre. Isto é lugar-comum: os habitantes dessa cidade podem julgar que recebi a tarefa de expor aqui salamaleques e cortesias. Não é verdade: estamos realmente agradecidos. Não esperávamos tanto: acomodar-nos-íamos de qualquer modo – e o que o Rio Grande do Sul nos deu foi excessivo e nos sensibiliza.

 

Cavalheiros sabidos andaram a afirmar seguros, em jornais ricos, que somos uns pobres-diabos, mais ou menos analfabetos. Paciência. Não nos zangamos. Quando, no correr do tempo, essas grandes, essas enorrmes suficiências perceberem que não temos propósitos subversivos, descerão um pouco, chegando até nós – e nos ensinarão qualquer coisa.

 

Ninguém teve o intuito de jogar bombas em Porto Alegre. Desejaríamos fixar a alegria que esse nome nos apresenta. Não estamos a serviço de nenhuma potência estrangeira. Nunca diríamos ao gringo: “Entre. Tome conta disto. A casa é sua”.

Não, meus amigos. A casa, pobre, é nossa. E denunciamos os traidores que desejam vendê-la.

Enfim, pequeninas calúnias, pequeninas infâmias, não nos atingem. O Congresso, bem ou mal, deu conta do recado; provou ser possível conseguirmos entendimentos para objetivo comum. Escritores de várias tendências aqui se encontraram – e, apesar de todo o veneno espalhado lá fora, não houve barulho, graças a Deus. Estamos de acordo.

 

Necessitamos novas reuniões. Falar muito, discutir, brigar às vezes. Ótimo. Sairemos dessa luta fortalecidos. Lá fora defenderemos os nossos interesses e a cultura exígua de que somos capazes. Surgirão descontentamentos, rumorosos descontentamentos, é claro. Sempre haverá quem diga de nós cobras e lagartos. Que fazer? Estamos habituados, essas ofensas não nos pertubarão.

Agradecemos especialmente à senhora Lila Ripoll, admirável mulher franzina que realizou sozinha o trabalho de vinte homens fortes.

 

Na Tribuna da Imprensa, de 24-09-1951 e de 10-10-1951[[689]], Carlos Lacerda, chamando o encontro de “Congresso Comunista de Escritores”, referiu-se com deboche a prática subversiva e a pautas fora de foco, insinuou o baixo nível dos participantes, denunciou excessos de gastos e a verba que Getúlio teria fornecido para a “farra”, além da dispensa de ponto dos funcionários públicos participantes.

 

Quanto à repercussão em contexto mais amplo do “a casa é sua”, citado por Graciliano em seu discurso, Manuel Bandeira, indignado, protestou em Itinerário de Pasárgada, lembrando que Villa-Lobos pediu sua parceria nas letras das Canções de Cordialidade, como a de “Boas-vindas” e outras, pois o músico, enojado dos “Happy birthday”, queria criar para tais ocasiões canções de sabor brasileiro. Dentro desse espírito, o poeta procurava sempre utilizar frases feitas da nossa linguagem coloquial. A violência das acusações (veja-se, por exemplo, em Fundamentos, 09-1951[[690]]) justifica a indignação de Bandeira:

 

Os comunistas aproveitaram a ocasião para praticar mais uma daquelas sordícies em que são mestres: assoalharam no seu pasquim que a canção havia sido encomendada a Villa-Lobos e a mim pelo Ministro da Educação para bajular uma missão norte-americana que compareceria à cerimônia.[691]

 

Graciliano voltou a tossir sangue. Clara Ramos lembra que Dona Heloísa providenciou para ele uma cirurgia das amígdalas.

 

Como membro do PCB e presidente da ABDE, sua documentação e passagens foram providenciadas para os festejos do 1º de maio em Moscou e para encontros com escritores, visitas às cidades e países da orla comunista, ao lado de uma delegação brasileira de trinta e quatro pessoas, entre operários, escritores, médicos, músicos, jornalistas, como lista a Imprensa Popular, 04-05-1952[[692]]. Conta Clara Ramos que o pai também foi convidado para o sesquicentenário de nascimento de Victor Hugo em Paris. Bastante contrariado, quando se deu conta, já estava, acompanhado de Heloísa Ramos, pronto para o embarque, em 21-04-1952[[693]]. A experiência foi relatada em Viagem, título póstumo, dado por Ricardo Ramos[694] à obra inconclusa, com itens anexos de notas do que ainda deveria ser desenvolvido.

 

Depois de andar por cima de vários Estados do meu país, tinha-me resolvido a não entrar em aviões: a morte horrível de um amigo levara-me a odiar esses aparelhos assassinos. Meses atrás, para ir a um congresso em Porto Alegre, rolara nove dias em automóvel. Tenho horror às casas desconhecidas. E falo pessimamente duas línguas estrangeiras. Estava decidido a não viajar; e, em consequência da firme decisão, encontrei-me um dia metido na encrenca voadora, o cinto amarrado, os cigarros inúteis, em obediência ao letreiro exigente aceso à porta da cabina.

 

Em seguida veio outro, que me surgiu mais tarde com o nome de Ivan Riabov e era representante da Voks em Praga. A Voks, abreviatura, significa Sociedade para as Relações Culturais da URSS com os Países Estrangeiros. Riabov exprime-se em russo; fora daí não diz nada.

– Pertence a alguma associação de classe? – perguntou-me pela boca do sujeito magro.

– Coisa nenhuma – declarei atarantado.

Minha mulher lembrou que eu era Presidente da Associação Brasileira de Escritores – e este exíguo título produziu bom efeito. Tinha-me esquecido inteiramente dele, e não me passava a ideia de que servisse para alguma coisa: o essencial era haver alguém a esperar-me na cidade – afirmei. Os dois homens afastaram-se, regressaram modificados, chamaram-me ao telefone.[695]

 

Sua primeira viagem da vida ao exterior teve o rico roteiro de Paris, Praga, Moscou, Leningrado, outras regiões e cidades soviéticas. Deslumbrou-se com a Geórgia, retornando por Paris e Portugal. Conseguiu evitar a “encrenca voadora” e voltar de navio, chegando ao Rio no Anna C, segundo Clara Ramos, em 16-06-1952: além de beber aguardente de ameixa, consertar os óculos que se quebraram em Paris (“integral caiporismo, o diabo zombara de mim”), ser advertido em Moscou por usar binóculos para ver Stalin e por jogar o cigarro no chão brilhante de mármore do metrô, outras peripécias o lançaram em roda-viva:

 

Em Moscou, visita o túmulo de Lênin e o Museu do Kremlin; interessa-se principalmente pela história que está sendo feita nas fábricas, universidades, palácios de pioneiros. O escritor cheio de sensibilidade manifesta-se a cada passo: certa noite sai do Hotel Savoy à procura de uma personagem de Tolstói, encontra-a horas depois: um velho mujique numa manhã gelada. Impressiona-o um Romeu e Julieta dançado por Ulanova, “alto em demasia para as minhas limitações” e, principalmente, a multidão de mãos calosas que o aplaude.[696]

 

Ricardo Ramos cita a lembrança de Zélia Gattai: Dalcídio Jurandir, entre constrangido e gozador, comentou com ela e Jorge Amado que a cúpula do partido havia pedido que ele ficasse de olho para contornar com panos quentes alguma tirada inoportuna que Graciliano, mesmo sob vigilância, lançasse nos encontros com os russos.[697]

 

Em janeiro de 1953, ainda em continuidade às homenagens de aniversário a Graciliano, entre verbetes de outros intelectuais, Dalcídio Jurandir declarou em Fundamentos, 01-1953[[698]]:

 

No pessimista minucioso, agita-se o lírico que namora de longe as terras reais do mais alto e fecundo otimismo. No revoltado cheio de ideias de destruição, está um espírito lúcido e quase contemplativo, aceitando e louvando uma revolução que desperta no homem todas as suas forças de criação e de uma ordem harmoniosa.

 

Escrito em meio-tom, contendo-se entre a ironia e o elogio, Graciliano começou a escrever o livro (que seria intitulado Viagem) já no caminho de volta: os nove primeiros capítulos são datados: Cannes, 31-05-1952 a 03-06-1952, Mediterrâneo, 04-06-1952, Atlântico, 05 a 15-06-1952. Continua no Rio, a partir de 19-06-1952. O último capítulo é datado no final com Buenos Aires, 05-10-1952, cidade onde tentou cirurgia do câncer na pleura, com auxílio e presença constante do seu ex-companheiro de prisão, Rodolfo Ghioldi, do PC argentino.  A obra foi publicada postumamente pela José Olympio, com capa de Portinari, lançada na data de aniversário de Graciliano, em 27-10-1954, informou a Última Hora, 26-10-1954[[699]], assim como já tinha ocorrido em 27-10-1953 no lançamento de Memórias do cárcere. A Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, 08-11-1954[[700]], anunciou em letras garrafais “Graciliano Ramos no índex do Partido Comunista”, para comunicar que a Imprensa Popular não permitiria – antes de analisar o conteúdo do livro – a publicação de seu anúncio pela José Olympio. Também Memórias do cárcere era obra mantida sob silêncio pelo periódico. Em anúncios da Livraria Independente pela Imprensa Popular, Viagem apareceu em meio a outras obras, uma vez sem o nome do autor, em 23-11-1954, e outra em 25-01-1955[[701]]. O órgão do PCB, Imprensa Popular, sob a direção de um dos irmãos amigos vizinhos dos tempos de Viçosa, Pedro Mota Lima, apresentou resenhas, notícias e entrevistas sobre outras viagens à URSS e ao bloco soviético, como o livro argentino Por tierras de pan e paz, em 31-12-1954, e, com destaque para o escritor Affonso Schmidt, anunciou sua viagem em 14-11-1954, entrevistou-o em 01-01-1955, saudou o livro que escreveria a respeito, em 05-01-1955[[702]]. Em reportagem sobre a União Soviética, José Guilherme Mendes em Correio da Manhã, 30-09-1955[[703]], lembrou-se do que disse Graciliano na época em que preparava o livro: “Quero escrever um livro mostrando que aquilo não é o Paraíso nem o Inferno, pois nada disso existe”. Heloísa Ramos deu palestra sobre a URSS, na Associação Feminina, com destaque para os cuidados com as crianças e a participação da mulher, como noticiou Imprensa Popular, 10-07-1952. Momento Feminino, 07-1952[[704]], colheu suas impressões: “Saindo de um país onde, segundo afirmou o Ministro da Educação, em 1950, morre uma criança de dois em dois minutos, percorremos as creches, jardins da infância, e vimos crianças robustas e felizes”; “A União Soviética tem as suas portas abertas a todos os amigos da paz, a todos que desejam realmente ver e sentir esse mundo novo que surgiu na Pátria do Socialismo”.

 

Em Viagem, Graciliano Ramos fala de seu encontro com Sattva Brandão, filha do grande líder comunista, o viçosense Octávio Brandão, que esteve exilado na URSS de 1931 a 1946. Sattva Brandão e seu marido Zarem Chernov[705] traduziram para o russo Vidas secas, publicado em 1961.

 

As irmãs Volia e Sattva Brandão, residentes em Moscou, foram visitar-me, e, em paga, estive em casa delas, apartamento exíguo num sexto andar. Além das duas, vive lá Zarem, casado com Sattva. Esse rapaz embrenhou-se no português; para habituar-se à língua, iniciou a tradução de um dos meus livros com o auxílio da mulher. Achou, porém, dificuldades. Ao avistar-se comigo, apresentou-me um caderno onde registrou numerosas dúvidas. Sattva pretendera esclarecê-lo; tinha-se embrulhado também, e ali no sofá, percebendo-lhe um erro, Zarem ria, asseverando loquaz haver acertado. Parece criança, uma robusta criança de vinte e poucos anos. Isto me aproximou dele. Não o desiludi com a afirmação razoável de que o livro não seria publicado. Zarem pensa de maneira diferente. Para convencer-se, datilografou meia dúzia de capítulos, ofereceu-os a dez amigos, que representam a média dos leitores, e reuniu cuidadoso as opiniões deles. O resultado não foi desfavorável.[706]

 

Referida a André Gide, escritor homossexual, e aos livros de decepção com a URSS que escreveu após visitar a União Soviética, Ricardo Ramos lembra a anedota: uma senhora teria perguntado a Graciliano se ele tinha voltado da Rússia como Gide, ao que ele respondeu: “O quê, minha senhora, pederasta?”[707]

 

Com fortes dores no peito, Graciliano foi encaminhado para exames pelo jovem amigo médico Reginaldo Guimarães. Diagnosticado o câncer no pulmão (pleura)[708], foi para Buenos Aires, onde havia um centro avançado de tratamento. A viagem foi custeada com auxílio do PCB, que amealhou contribuições. Mas sua condição estava incontornável – os médicos não continuaram a cirurgia. Antes de voltar, acompanhado de Heloísa e Clara, recuperou-se no Sanatório Anchorena, recebendo visitas de escritores argentinos e do amigo Rodolfo Ghioldi.[709]

 

A irmã Daia, Anália, que, menina, cuidava dos seus filhos na viuvez de 1920, veio visitar Graciliano e, católica, preocupou-se em convertê-lo para sua salvação. Como lembra Ricardo Ramos, o Padre José Leite (que tinha recebido a dedicatória: “Ao padre Zé Leite, um santo capaz de doar sangue ao diabo”[710]), consultado, orientou que não se devia atormentar uma pessoa doente, que Graciliano ateu era melhor que muito católico[711]. Em Diário de Notícias, 18-12-1953[[712]], a respeito de Memórias do cárcere, Eneida entrevistou Padre José Leite, sob o título “Personagem muito importante”.

 

“Isto se acaba” – Rodolfo Ghioldi lembra a Clara Ramos[713] os resmungos de Graciliano, “com desgosto e serenidade”, nos momentos de dor lancinante. Anestesiado a morfina, em doses cada vez mais consecutivas[714], passou os meses finais de sua vida em casa, cercado de familiares e de amigos que o visitavam,  e viveu seus últimos dias, de final de janeiro a 20 de março de 1953, na Casa de Saúde São Victor, Praia de Botafogo.[715]

 

A homenagem pelos seus 60 anos em 27-10-1952 pacificou as alas separadas havia três anos pelo episódio da ABDE, a tal ponto que o católico Jorge de Lima liderou a cerimônia na Câmara Municipal[716], onde Clara Ramos representou o pai, enquanto em casa, junto aos familiares, ele ouvia pelo rádio os discursos de Jorge Amado, José Lins do Rego, Haroldo Bruno, Peregrino Júnior e outros. Clara Ramos lembra:

 

No final da reunião, ao esvaziar-se a casa das últimas visitas, ele conclui pensativo:

– Eu vou morrer. Amigos e inimigos juntos, a homenagear-me... Isso foi homenagem póstuma.[717]

 

A revista Manchete, 15-11-1952[[718]], publicou, em meio a fotos da cerimônia com a presença de amigos, como Portinari, reportagem extensa e o depoimento de Graciliano a José Guilherme Mendes, sob o título: “O romance é tudo nesta vida”. Ricardo Ramos destaca o que o pai na conversa, publicada, acrescentou: “O romance é uma forma superior de vida”.[719]

 

Moribundo, Graciliano empenhou-se, com a ajuda de Heloísa na escrita, para desmentir o jornalista português Marques Gastão, que o havia entrevistado no aeroporto de Lisboa em 1952. Funcionário do salazarismo, havia reunido no volume As portas do mundo, a partir daquele seu plantão-sucursal, entrevistas com escritores viajantes, cujos depoimentos deturpava, segundo Edmar Morel: como relatou com detalhes o jornalista em Última Hora, 17-08-1954[[720]], o português compôs, por exemplo, uma correlação de Stalin com Hitler e Mussolini – repudiada por Graciliano: “eu não poderia juntar esses três nomes”. Notas na imprensa reproduziram um texto de mesmo teor a pedido de Graciliano. Assim o apresentou Francisco de Assis Barbosa em sua coluna de Última Hora, 05-03-1953[[721]]:

 

São totalmente falsas as declarações que me atribui o autor desse livro. Trata-se de safadeza e má-fé. Minhas convicções políticas e minhas ideias sobre literatura são notórias. Nunca as desmenti, muito menos a esse indivíduo.

 

Graciliano Ramos morreu em 20-03-1953, tendo sido enterrado em 21-03-1953 em jazigo custeado por Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã. O escultor Honório Peçanha fez sua máscara mortuária, que provocou o poema de Vinícius de Moraes:

 

Feito só, sua máscara paterna, 

Sua máscara tosca, de acridoce

Feição, sua máscara austerizou-se

Numa preclara decisão eterna. 


Feito só, feito pó, desencantou-se 

Nele o íntimo arcanjo, a chama interna

Da paixão em que sempre se queimou

Seu duro corpo que ora longe inverna.

 

Feito pó, feito pólen, feito fibra 

Feito pedra, feito o que é morto e vibra 

Sua máscara enxuta de homem forte. 

 

Isto revela em seu silêncio à escuta:

Numa severa afirmação da luta,

Uma impassível negação da morte.[722]

 

O velório ocorreu em câmara-ardente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Após discurso do vereador Paschoal Carlos Magno, o féretro foi conduzido para o Cemitério São João Batista, túmulo 16-724[[723]] (o bilhete de loteria de Angústia é 16.384 e o prontuário da polícia política é 11.473). Ricardo Ramos lembra:

 

A emoção de Jorge Amado se acrescentou ao meu trêmulo suor, ouvi-o com insuportável nó de garganta.[724]

 

Em depoimento ao Jornal do Brasil, 15-06-1984[[725]], Heloísa disse:

 

Nunca fui ao cemitério visitar o túmulo de Graciliano. Ele está vivo dentro de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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RAMOS, Graciliano. Alexandre e outros heróis. Prefácio “A dioptria de Alexandre”, de José Geraldo Vieira. São Paulo: Martins, 1974. [1ª edição, póstuma, 1962. Contendo: Histórias de Alexandre [1ª edição: Rio de Janeiro: Leitura, 1944: “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de Alexandre”, “História de um bode”, “Um papagaio falador”, “O estribo de prata”, “O marquesão de jaqueira”, “A safra dos tatus”, “História de uma bota”, “Uma canoa furada”, “História de uma guariba”, “A espingarda de Alexandre”, “Moqueca”, “A doença de Alexandre”, acrescidos na edição póstuma “Apresentação de Alexandre e Cesária” e “Um missionário”], A terra dos meninos pelados [1ª edição: Porto Alegre: Livraria do Globo, 1939, com ilustrações de Nelson Boeira Faedrich; há registros de edição, por Fernando A. Cristóvão, em: Rio de Janeiro: Pan Infantil, agosto e setembro de 1937 ou 1940 como HQ, por Clara Ramos] e Pequena história da República [1ª edição, póstuma: revista Senhor: Rio de Janeiro: nºs de março e abril de 1960]].  

 

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RAMOS, Graciliano. A terra dos meninos pelados. Ilustrações de Nelson Boeira Faedrich. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1939. [Há registros de edição em: Rio de Janeiro: Pan Infantil, agosto e setembro de 1937, por Fernando A. Cristóvão, ou 1940 como HQ, por Clara Ramos]. 

                                                                                                                                                     

RAMOS, Graciliano. Caetés. Rio de Janeiro: Record, 1984. [1ª edição: Rio de Janeiro: Schmidt, 1933]. 

                  

RAMOS, Graciliano. Caetés. 1. ed. [recurso eletrônico]. Edição de Elizabeth Ramos e Erwin Torralbo, comemorativa dos 80 anos da obra. Rio de Janeiro: Record, 2013.

 

RAMOS, Graciliano. Cangaços. Edição de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014. [coletânea póstuma].

 

RAMOS, Graciliano. Carta a Octavio Dias Leite. Homenagem a Graciliano Ramos. Margens. Revista de Cultura, n. 3, p. 40-41, UFMG, Belo Horizonte; UBA, Buenos Aires; UNMdP, Mar del Plata; UFBA, Salvador, jul. 2003.

 

RAMOS, Graciliano. Cartas. Edição de James Amado. 8. ed.. Rio de Janeiro: Record, 1994. [1ª edição, especial: Rio de Janeiro: Record, 1980 - a partir da 3a. edição, 1982, foram acrescentadas nove cartas].                                                                                                                                                                         

 

RAMOS, Graciliano. Cartas de amor a Heloísa. Prefácio de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1992. [extraídas de RAMOS, Graciliano. Cartas. Edição de James Amado].

 

RAMOS, Graciliano. Conversas. Edição de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014. [coletânea póstuma].

 

RAMOS, Graciliano. Dois dedos. Rio de Janeiro: Revista Acadêmica - R. A. Editora, 1945. [publicação precedente à de Insônia, com dez contos: “Dois dedos”, “O relógio do hospital”, “Paulo”, “A prisão de J. Carmo Gomes”, “Silveira Pereira”, “Um pobre-diabo”, “Ciúmes”, “Minsk”, “Insônia”, “Um ladrão”].

 

RAMOS, Graciliano. Garranchos. Edição de Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2012. [coletânea  póstuma]. 

 

RAMOS, Graciliano. Histórias agrestes. Seleção e prefácio de Ricardo Ramos. São Paulo: Cultrix, 1960.  [publicação póstuma de amostragem da obra com “Um ladrâo”, “O relógio do hospital”, “Minsk”, “A prisão de J. Carmo Gomes” e “Dois dedos”, de Insônia; “Cadeia”, “Baleia”, “Contas” e “Fuga”, de Vidas secas; “O estribo de prata”, “O marquesão de jaqueira”, “A safra dos tatus” e “História de uma bota”, de Histórias de Alexandre; “Um incêndio”, “Chico Brabo”, “Um intervalo”, “O menino da mata e o seu cão Piloto” e “Venta-Romba”, de Infãncia, e, de Memórias do cárcere, “O advogado Nunes Leite”, “À ordem do chefe” e “Seu Mota”].

 

RAMOS, Graciliano. Histórias de Alexandre. Ilustrações de Santa Rosa. Rio de Janeiro: Leitura, 1944.

           

RAMOS, Graciliano. Histórias incompletas. Capa de Fayga Ostrower. Porto Alegre: Globo, 1946. [publicação de amostragem da obra com “Cadeia”, “Festa” e “Baleia”, de Vidas secas; “Um incêndio”, “Chico Brabo”, “Um intervalo” e “Venta-Romba”, de Infância; “Um ladrão” e “Minsk”, de Dois dedos – e o conto “Luciana”, posteriormente publicado em Insônia].

 

RAMOS, Graciliano. Ideias novas. Revista do Brasil, ano V, n. 49, 3a. fase, Rio de Janeiro, jul. 1942. [texto de peça teatral – inconclusa – 1º quadro, cenas de I a VII - coligido em Garranchos, p. 192-206].

 

RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1984. [1ª edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1945].

 

RAMOS, Graciliano. Insônia. Rio de janeiro: Record, 1982. [1ª edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1947, título definitivo da coletânea, com treze contos, incorporando os dez contos de Dois dedos e acrescentando: “Luciana”, “A testemunha” e “Uma visita”].

 

RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. Prefácio de Brito Broca. São Paulo: Martins, 1972. [prefácio suprimido em edições posteriores].

 

RAMOS, Graciliano. Linhas tortas. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1980. [1ª edição, póstuma: São Paulo: Martins, 1962].

 

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1985 (2 v.). [1ª edição, póstuma: Rio de Janeiro: José Olympio, 1953 (4v.)].

 

RAMOS, Graciliano. O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922. Edição de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2022.

 

RAMOS, Graciliano. O prefeito escritor: dois retratos de uma administração. Prefácio de Luiz Inácio Lula da Silva. Rio de Janeiro: Record, 2024.

 

RAMOS, Graciliano. Os filhos da coruja. Edição de Thiago Mio Salla. Ilustrações de Gustavo Magalhães. São Paulo: Todavia, 2024. (Baião).

 

RAMOS, Graciliano. Prestes. In: PRESTES, Luís Carlos. Carta aos comunistas. São Paulo: Alfa-Omega, 1980. [Publicado em A Classe Operária, 01-01-1949].

 

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1985. [S. Bernardo, 1ª edição: Rio de Janeiro: Ariel, 1934].                  

 

RAMOS, Graciliano. Viagem (Tcheco-eslováquia – URSS). Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1984. [1ª edição, póstuma: capa de Portinari. Rio de Janeiro: José Olympio, 1954].

 

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Martins, 1971. [1ª edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1938].

 

RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. São Paulo, Rio de Janeiro: Record, Martins, 1976. [1ª edição, póstuma: São Paulo: Martins, 1962], [foram acrescentadas em edições posteriores, sem notificação editorial, duas crônicas: “Comandante[s] de burros” e “Antônio Silvino”[final mutilado] em: Viventes das Alagoas. 15. ed.. São Paulo, Rio de Janeiro: Record, 1992].

 

RAMOS, Graciliano. Viver em paz com a humanidade inteira; Uma visita inconveniente; Decadência do romance brasileiro. Travessia, v. 4, n. 6, PPgL – UFSC, Santa Catarina, 1983.

 

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RAMOS, Graciliano (org). Seleção de Contos Brasileiros – 2º volume: Leste. Apresentação e Prefácio de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966. [1ª edição, póstuma: Contos e novelas – Seleção de Graciliano Ramos - 2º volume: Leste. Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1957]; [contendo: Sergipe: João Ribeiro – Só a vista faz fé, Joel Silveira – Onde andará Esmeraldo? ; Bahia: Urbano Duarte – Gangorra, Xavier Marques – A vida do homem, Dias da Costa –  Alucinação; Espírito Santo: Rubem Braga – Eu e Bebu, na hora neutra da madrugada; Rio de Janeiro: Alberto de Oliveira – Os brincos de Sara, Domício da Gama – , Raul Pompéia – Tílburi de praça, Miécio Táti – As sete cores do Arco-Íris; Guanabara: França Júnior – Encomendas, Machado de Assis – A causa secreta, Luís Guimarães Júnior – Paulo e Virgínia (Cartas confidenciais), Pedro Rabelo – Mana Minduca, Magalhães de Azeredo – O Natal de frei Guido (Lenda mística), Mário de Alencar – Coração de velho, Tristão da Cunha – História da amorosa viúva e dos sete amantes frustrados, Lima Barreto – Sua excelência, João do Rio – D. Joaquina, Gastão Cruls – G. C. P. A., José Geraldo Vieira – O filho de Maria Bárbara, Marques Rebelo – Na Rua Dona Emerenciana, Lia Correa Dutra – Mundo perfeito, Léonie Tolipan – A intérprete; Minas Gerais: Afonso Arinos – Joaquim Mironga, Godofredo Rangel – O destacamento, Aníbal M. Machado -  Tati, a garota, Rodrigo M. F. de Andrade – O enterro de seu Ernesto, João Alphonsus – A noite do conselheiro, Carlos Drummond de Andrade – Um escritor nasce e morre, J. Guimarães Rosa – A hora e vez de Augusto Matraga, Francisco Inácio Peixoto – A fuga, Oswaldo Alves – Dorme, meu filho, Murilo Rubião – Ofélia, meu cachimbo e o mar, Otávio Dias Leite – O defunto, Fernando Tavares Sabino – Alucinação].

 

RAMOS, Graciliano (org). Seleção de Contos Brasileiros – 3º volume: Sul e Centro-Oeste. Apresentação e Prefácio de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ediouro,  1971. [1ª edição, póstuma: Contos e novelas – Seleção de Graciliano Ramos - 3º volume: Sul e Centro-Oeste. Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1957], [contendo: São Paulo: Valdomiro Silveira – Força escondida, Monteiro Lobato – Tragédia dum capão de pintos, Leo Vaz –  A rifa, Mário de Andrade – Túmulo, túmulo, túmulo, Ribeiro Couto – O bloco das mimosas borboletas, Antônio de Alcântara Machado – Carmela, Sérgio Buarque de Holanda – A viagem a Nápoles, Orígenes Lessa – A herança, Nair Lacerda – Um feriado, Guilherme Figueiredo – A medalha, o revólver e a dúvida, Caci Cordovil – O homem bom, Elsie Lessa – Encontro com o passado, Francisco De Marchi – Bailado entre o lógico e o absurdo, Miroel Silveira – De como o Nenzinho chegou a homem, Lúcia Benedetti – Meu tio Ricardo, Helena Silveira – Delírio?, Amaral Gurgel – Nos olhos de Margarida; Paraná: Nestor Vítor – Agonias, Brasílio Itiberê – Pau-dos-Ferros; Santa Catarina: Vergílio Várzea – O velho Sumares; Rio Grande do Sul: J. Simões Lopes Neto – Duelo de Farrapos, Alcides Maya – Guri, Dionélio Machado – Ele era como um papagaio, Érico Veríssimo – Os devaneios do general, Darci Azambuja – Por pena, Ernâni Fornari – Damião, o sem tempo, Augusto Meyer – Caminhos da infância, Telmo Vergara – Bolinhos Última Instância; Goiás: Hugo de Carvalho Ramos – O saci, Bernardo Élis – Pai Norato, B. Rocha -  A filha].

 

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[1] Normalização própria deste trabalho

 

A Fundação Biblioteca Nacional, através da Hemeroteca Digital Brasileira, disponibiliza desde 2012 acesso pela internet a seu acervo de jornais e revistas em: < https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx  >. Os periódicos aqui citados remetem-se a esse endereço sempre que houver a indicação do número da edição e da tela, com as abreviaturas ed. e t. (o número da tela nem sempre coincide com o número de fato da página do periódico). As referências serão, por exemplo, assim: O Índio, 22-05-1921, ed. 17, t. 2. Daí, para consultar o site com acesso direto às páginas citadas, escolher no endereço acima o periódico pelo nome, abrir pela pasta do ano o número da edição e entrar com o número da tela no campo do cabeçalho “página atual”.

 

Convencionou-se indicar a disponibilidade e a data de acesso a publicações citadas da internet. A ausência de tal informação neste trabalho indica que as consultas foram realizadas entre o final do século XX e o momento de sua publicação em 2024. Afora isso, não será possível por meios simples comprová-las quando forem tiradas do ar ou alteradas em seu conteúdo. Daí, tais referências, ao invés de “disponível em” e “acesso em”, apresentam normalmente apenas o “em:” seguido do endereço do site.

 

Referências sumárias no texto e nas notas remetem à bibliografia final detalhada. As citações provindas da internet não são especificamente anotadas na bibliografia final.

 

Sempre que adequado, os textos estão transcritos em ortografia atualizada.

 

 

 

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Edição do autor com distribuição aberta 

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[2]1892-1895 – Quebrangulo

 

Segundo relato de Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, Séminaire Graciliano Ramos – Vidas secas, p. 139, nota 33, a viúva Dona Heloísa Ramos informou-lhe que o nome completo de Graciliano era originalmente “Graciliano Ferro Ramos de Oliveira”. Entretanto, além dessa menção, não se encontrou na bibliografia relativa ao autor referência ou documentação com o sobrenome materno, “Ferro”, no registro de seu nome.

 

[3] Não há registros de constestação desses dados. Moacir Medeiros de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 11, informa que Graciliano nasceu às 4 horas da tarde de 27 de outubro de 1892 “numa modesta casa da antiga Rua Nova, n. 11, em Quebrangulo”, e apresenta fotos do imóvel, p. 135, 137. Quanto à hora de seu nascimento, Graciliano em carta a Ló, Cartas, 27 de outubro de 1932, p. 134, confirma: “estou aqui estragando papel porque hoje é 27 e a sua última carta me veio lembrar que hoje, às quatro da tarde, entro nos quarenta e um”.

 

[4] Ver < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/quebrangulo/historico >: distrito criado com a denominação de Quebrangulo, por lei provincial de 1856, elevado à categoria de vila com denominação de Vitória, por decreto estadual de 1890 – portanto, no período do nascimento de Graciliano. Por lei estadual de 1928, voltou a denominar-se Quebrangulo.

 

[5] Graciliano qualificou o pai nos termos acima em entrevista a Joel Silveira, para a revista Vamos Ler!  20-04-1939, ed. 142, t. 8-9. Entrevista reproduzida em Joel Silveira, Na fogueira: memórias, p. 278.

 

[6] Valdemar de Souza Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, dedica um capítulo à família Ferreira Ferro, p. 21-28. Registra o hipocorístico “Mariquinha” a partir da p. 29, também referido por Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 8, e O Índio, 22-04-1923, ed. 113, t. 3.

 

[7] Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 26, fala sobre a coincidência da diferença de idade entre Sebastião e Mariquinha, dezoito anos, com a do segundo casamento de Graciliano: “Aí minha avó teve sossego, o filho deixou de histórias, do que pudesse constrangê-la. Até que ela não aguentou, provocando: – Graciliano, você nunca mais me falou de mulher moça e marido velho. Respondeu, encerrando o assunto:  – Minha mãe, não se fala de corda em casa de enforcado”.

 

[8] Ver em: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >: Sebastião Ramos de Oliveira (Viçosa, c. 1860 – Palmeira dos Índios, 18-11-1934, aos 74 anos), Maria Amélia Ferro Ramos, Mariquinha (c. 1878 – Palmeira dos Índios, 04-09-1943, aos 65 anos) e os filhos nascidos depois de Graciliano: Leonor (1894-1915), Otília (1896-1970), Clodoaldo (1898-1899), Otacília (1900-1915), Clodoaldo (1902-1915), Amália (1903-1989), Anália (1904-1994), Marili (1907-1987), Carmem (1908-1909), Carmem (1909-1987), Clélia  (1912-1998), Lígia (1914-1990), Vanda (1915-2000), Clóvis (1917-1979), Heitor (1921-1994). As datas indicadas revelam que Mariquinha engravidou até os seus quarenta e dois anos de idade. Os nomes dos dois filhos que faleceram ainda lactentes foram repetidos para batizar os irmãos nascidos a seguir: Clodoaldo e Carmem. No contexto de Graciliano não se encontrou referência ao costume. Para observações sobre a prática em outros contextos, ver Fábio Augusto Scarpim, “Família, religiosidade e identidade étnica nas práticas de transmissão de nomes de batismo em um grupo de imigrantes italianos”, Revista Brasileira de Estudos de População. Ver em O Índio, 15-05-1921, ed. 16, t. 3, e em outros números, indicação da data de aniversário do Cel. Sebastião Ramos: 16-05. Ver em O Índio, 22-04-1923, ed. 113, t. 3, indicação, na “Crônica social”, da data de aniversário de D. Mariquinha Ramos: 19-04. Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 23, e Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 9, unem os sobrenomes da mãe de Graciliano com um “e” aristocrático: Maria Amélia Ferro e Ramos. Há também o registro do nome de solteira: Maria Amélia Ferreira Ferro, em: < https://apalca.com.br/paraninfo/ >. O Índio, 29-04-1923, ed. 114, t. 3, também registra o “e”: Maria Ferro e Ramos. O último registro dos irmãos de Graciliano indica o nascimento do caçula, Heitor, quando o primogênito, viúvo, pai de quatro filhos, tinha 28 anos. O nascimento e batizado de Heitor foram noticiados em nota na “Crônica social” de O Índio, 19-06-1921, ed. 21, t. 3. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 73, lembra, ao tratar dos apelidos íntimos dos familiares e da definição de títulos das obras, que era Graciliano, adulto, quem escolhia os nomes dos novos irmãos. 

 

[9] Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 24. Segundo Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 9, os avós paternos de Graciliano eram Tertuliano Ramos de Oliveira (“proprietário, cantor, boêmio, exímio fabricante de utensílios de cipó”) e Maria da Soledade Ramos, pais de seis filhos: Sebastião, Inácio, Pedro, Jovina, Maria (Dona) e Josefa. Os avós maternos eram Pedro Ferreira Ferro e Teresinha Maria de Jesus Ferro, pais de sete filhos: Maria Amélia, Hermínia, Jacinta, Serapião, Sebastiana (Mocinha) (“da idade de Grace e chamada Sebastiana em homenagem a Sebastião Ramos de Oliveira, de quem foi afilhada”), Abílio e Júlia. E acrescenta que Maria Amélia “quando amamentava o primeiro filho, muitas vezes amamentou também a irmã e afilhada” de Sebastião. A autora não comenta a homonímia do apelido entre essa Sebastiana, Mocinha, tia de Graciliano, e a Mocinha a que ele se refere como sua irmã natural por parte de pai, em Infância, Minha irmã natural, p. 158-165.

 

[10] Fac-símile do folheto em Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 147. Em entrevista realizada por Joel Silveira para Vamos Ler!, ed. 142, t. 8-9, republicada pelo jornalista em seu Na fogueira: memórias, p. 278, Graciliano lembra a motivação do pai ao deixar Quebrangulo [Vitória]: “casado com a filha de um criador de gado, ouviu os conselhos de minha avó, comprou uma fazenda em Buíque, Pernambuco, e levou para lá os filhos, a mulher e os cacarecos”. Os avós e familiares de Graciliano por parte de mãe eram fazendeiros da região. No 1º capítulo de Infância, p. 11, Graciliano comenta a viagem: “Tínhamos deixado a cidadezinha onde vivíamos, em Alagoas, e entrávamos no sertão de Pernambuco, eu, meu pai, minha mãe, duas irmãs. Mas pai e mãe, entidades próximas e dominadoras, as duas irmãs, uma natural, mais velha que eu, a outra legítima, direita, dois anos mais nova, eram manchas paradas”.

 

[11] Infância, Nuvens, p. 11. Ver: Yêdda Dias Lima; Zenir Campos Reis (coords.), Catálogo de manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos, p. 54: esse é o 6º manuscrito produzido pelo autor, com data de 14-09-1939, mas é o 1º capítulo disposto na edição em livro de Infância, em 1945, tendo sido publicado anteriormente na Revista do Brasil, n. 33, março de 1941, p. 28-32, disponível em < https://bibdig.biblioteca.unesp.br/handle/10/26343 >. As publicações avulsas dos capítulos em periódicos quase sempre foram anunciadas como contos e eventualmente sofreram pequenas modificações na edição em livro do conjunto de 39 capítulos. A obra foi escrita durante seis anos aproximadamente, de 1938 a 1944.  Alguns capítulos de Infância não têm registro de publicação avulsa e anterior à publicação da obra. O lançamento de Infância, pela Editora José Olympio, foi anunciado para o segundo semestre de 1945 – ver, por exemplo: O Cruzeiro, 18-08-1945, ed. 43, t. 24.

 

[12] 1895-1899 – Buíque

 

Impressões da infância foi o título preterido de Infância: ver: Exposição Graciliano Ramos – 1892-1953 - catálogo da exposição realizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 20 de maio de 1963, item 40, p. 12,  < https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital > buscar “Graciliano Ramos”, verbete descritivo de prova tipográfica com correções do autor. Ver também o título Impressões da infância em fac-símile de datiloscrito da primeira página, em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 133.

 

[13] Infância, Manhã, p. 20. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 55: 9° manuscrito, de 24-11-1940, 2° capítulo do livro.

 

[14] Infância, Nuvens, Chegada à vila, p. 12, p. 47. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 54: Chegada à vila, 7° manuscrito, de 30-11-1939, 6º capítulo do volume em Infância, com publicação anterior em Diretrizes, 06-03-1941, ed. 37, t. 13, 14. Ver: São Bernardo, cap. 25, p. 136; Angústia, p. 28 [sexta seção], entre outras.  

 

[15] Infância, Nuvens, p. 14.

 

[16] Infância, Minha irmã natural, p. 163. Graciliano menciona outra irmã, filha de Sebastião Ramos: “Tia Jovina envelhecia também, e ainda envelhece, coxa e triste, em companhia da última de minhas irmãs naturais. Meu pai distribuía migalhas a essas pobres”. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 59-60: 23° manuscrito, de 17-02-1943, 23° capítulo do livro, com publicações anteriores: O Jornal, 28-01-1945, ed. 7594, t. 25, 26; Diário de Pernambuco, 04-02-1945, ed. 29, t. 15, 16, 19.

 

[17] Infância, Manhã, p. 25.

 

[18] Infância, Verão, p. 29. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 55: 10° manuscrito, de 12-01-1941, 3º capítulo do livro, com publicação anterior em O Jornal, 02-02-1941, ed. 6642, t. 13.

 

[19] Infância, Um cinturão, p. 35. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 55: 4° manuscrito, de 01-05-1939, 4º capítulo do livro, com publicações anteriores: O Jornal, 21-05-1939, ed. 6117, t. 25; Jornal do Comércio, Lisboa, 19-11-1944.

 

[20] Infância, Uma bebedeira, p. 36-43. O costume sertanejo de entorpecer os filhos à noite com vinho forte sugere a Graciliano não ter sido esta sua primeira bebedeira. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 54: 8º manuscrito, de 15-09-1940, 5º capítulo do livro, publicado avulsamente como conto em O Jornal, 02-11-1940, ed. 6566, t. 21, 22.

 

[21] Em entrevista a Joel Silveira em Vamos Ler!, 20-04-1939, ed. 142 t. 8, 9, reproduzida em Na fogueira: memórias, p. 278, Graciliano informa esta data: “Aí a seca matou o gado – e seu Sebastião abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96”. Os registros usuais desse período de seca são de 1898, como foi tematizado em A bagaceira, de José Américo de Almeida. Sebastião Ramos havia chegado à fazenda depois de 09-06-1895, conforme data do folheto acima em que avisa a praça de sua saída de Quebrangulo. A respeito das secas no Nordeste, ver: Joaquim Alves, História das secas. Século XVII a XIX.

 

[22] Segundo informações disponíveis em  < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/buique/historico >, a região, originalmente habitada por indígenas, tornou-se no século XVIII, a partir de uma capela construída por um alagoano em sua fazenda, um povoado conhecido como “Campo de Buique”. As hipóteses etimológicas indicam “Buique” como vocábulo de origem tupi-guarani para “lugar de cobras” ou “terra do sal”, ou ainda como onomatopeia referente a trombeta feita de fêmur humano que produzia o som “buique”. Desmembrada de Garanhuns, “Vila Nova de Buique” tornou-se município em 1871, passando em 1904 à denominação “Buique”. Por lei estadual de 1948, o nome do município recebeu acento gráfico: “Buíque”.

 

[23] Esse capítulo de Infância foi resenhado por Astrogildo Pereira: “O medo do espectro”, Diretrizes, 09-07-1942, ed. 106, t. 12: “Os psicólogos já derramaram rios de tinta sobre o problema do medo em geral e em particular sobre o medo dos fantasmas, das assombrações e das almas do outro mundo. Debaixo desse último aspecto, ele tem sido também objeto de estudos sociológicos de não menor importância, sobretudo no que se refere ao lado por assim dizer político da questão”.  

 

[24] Infância, Vida nova, p. 59. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 55: 11° manuscrito, de 16-08-1941, 8º  capítulo do livro, publicado avulsamente em O Cruzeiro, 01-11-1941, ed. 01, t. 34, 15.

 

[25] Infância, O fim do mundo, p. 69-76. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 56-57: 16º manuscrito, de 30-01-1942, 10° capítulo do livro, publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 2, Lisboa, 31-10-1942, e na Revista do Brasil, n. 55, setembro de 1943. Graciliano situa-se no final do século XIX e refere-se a um cometa que chegaria “na passagem do século”: conta que “o cometa veio ao cabo de uns dois anos e comportou-se bem”, quando a mãe já vivia em outra cidade. O cometa Halley só foi noticiado com intensidade na década seguinte, em 1910, quando se mostrou mais nitidamente visível. Assunto por todo o mundo sempre vinculado a superstições, causou terror e suicídios. Ver, por exemplo: Gazeta de Notícias, 28-04-1901, ed. 118, t. 1; Gazeta de Notícias, 13-03-1910, ed. 72, t. 5; O Século, 18-05-1910, ed. 1145, t. 1-2; Correio da Manhã, 18-05-1910, ed. 3227, t. 3.

 

[26] Infância, O inferno, p. 79-80. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 56: 15º manuscrito, de 25-01-1942, 11º capítulo do volume em Infância. Em anúncios e notas sobre o lançamento do número de julho de 1943 da revista Unidade, há menção de texto de Graciliano ali publicado com o título “O inferno”: ver: A Noite, 01-07-1943, ed. 11273, t. 12; O Radical, 04-07-1943, ed. 3940, t. 8. O episódio foi projetado no menino mais velho de Vidas secas, que leva um cocorote de Sinha Vitória ao perguntar sobre o inferno, se ela tinha visto.

 

[27] Infância, O moleque José, p. 82-88. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 57: 17º manuscrito realizado pelo autor, datado de 05-02-1942, 12º capítulo na organização final da obra em 1945, foi publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 3, Lisboa, 15-03-1943.

 

[28] Infância, Um incêndio, p. 89-95. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 61-62: 26º manuscrito, produzido em 14-08-1943, 13º capítulo do livro, publicado anteriormente em Unidade, novembro de 1944. Episódio referido em Caetés, cap. 6.

 

[29] Infância, José da Luz, p. 99. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 56: 13º manuscrito, de 28-12-1941, 14º capítulo do livro, publicado anteriormente em Diretrizes, 12-08-1943, ed. 163, t. 14 e 24.

 

[30] Infância, Padre João Inácio, p. 62-68, José da Luz, p. 103. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 56: Padre João Inácio, 14º manuscrito, de 18-01-1942, 9º capítulo do livro, publicado anteriomente em Autores e Livros - A Manhã, 16-08-1942, ed. 2, t. 15-16. Personagens também citadas em Angústia (terceira a quinta seções, por exemplo).

 

[31] Infância, Leitura, p. 106, D. Maria, p. 119. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 58-59: Leitura, 18º manuscrito, de 08-02-1942, 15º capítulo do livro, publicado anteriormente em Correio da Manhã, 27-08-1944, ed. 15283, t. 29-30; D. Maria, 20º manuscrito, de 29-03-1942, 17º capítulo do livro.

 

[32] Infância, Leitura, p. 107, 109.

 

[33] Infância, Escola, p. 112. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 58-59: 19º manuscrito, de 22-03-1942, 16º capítulo do livro. Apesar da diferença de contexto e do resultado das obras, não deixam de ser sugestivas as similaridades subterrâneas entre as biografias do “bezerro encourado” Graciliano e do inseto Kafka, especialmente na relação com o pai comerciante.

 

[34] Infância, Cegueira, p. 139, p. 141. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 60: 24º manuscrito, de 26-07-1943, 20º capítulo do livro, publicado anteriormente em Vamos ler!, 05-10-1944, ed. 427, t. 32, 33, 62.

 

[35] Infância, Chico Brabo, p. 145-152. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 60-61: 25º manuscrito, de 03-08-1943, 21º capítulo do livro, publicado anteriormente em Diretrizes, 23-12-1943.

 

[36] Infância, José Leonardo, p. 156-157. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 62: 27º manuscrito, de 18-08-1943, 22º capítulo do livro. Agradeço a Carlos Emílio Correia Lima a lembrança da expressiva pedrinha como um momento densamente lírico da obra de Graciliano Ramos.

 

[37] Infância, Minha irmã natural, p. 165.

 

[38] 1900-1904 – Viçosa

 

Ver a cidade assim nomeada, por exemplo, em O Índio, 13-07-1924, ed. 176, t. 1, no artigo “Cultura do trigo”, de Moreno Brandão. Por decreto estadual de 1890, a vila de Assembleia passou a chamar-se Viçosa, tornando-se depois município. Entre variações sucessivas, o toponímico Viçosa firmou-se em 1949. Anel, Chã Preta, Pindoba Grande viriam a ser seus distritos ou se desmembrariam como municípios: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/vicosa/historico >.

 

[39] Infância, Mudança, p. 170. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 62: 29º manuscrito, de 21-08-1943, 25º capítulo do livro.

 

[40] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 14. O pesquisador menciona a data da mudança: “novembro de 1899”. O relato da mudança em Infância refere-se a viagem de toda a família, ao contrário do que ocorreu na mudança por etapas para Palmeira dos Índios cerca de dez anos depois.

 

[41] Infância, Adelaide, p. 173-174. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 62-63: 30º manuscrito, de 16-04-1944, 26º capítulo do livro, publicado anteriormente em Anuário Brasileiro de Literatura, n. 7-8, 1943-1944.

 

[42] Infância, O Barão de Macaúbas, p. 126-130. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 59: 21º manuscrito, de 27-07-1942, 18º capítulo do livro, publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 4, Lisboa, 21-11-1943. O pedagogo foi projetado por Raul Pompeia na figura de Aristarco, em O Ateneu. Ver a respeito: Alfredo Bosi,  O Ateneu, opacidade e destruição”, Céu, inferno, p. 38 e 46. Graciliano, nesse capítulo exemplar, altamente expressivo e articulado, relembra sua repulsa de menino às fábulas pedantes em linguagem arrevesada e o enjoo que lhe dava o moralismo em tom sentencioso do Barão de Macaúbas. Tratou do assunto anteriormente em “Um novo ABC”, lamentando as precariedades pedagógicas que se impingiam às crianças, tal como ele próprio havia experimentado na infância. Texto coligido em Linhas tortas, p. 174-175, publicado em O Imparcial, São Luís-MA, 04-02-1938, ed. 5827, t. 3, e em Vamos Ler!, 21-04-1938, ed. 90, t. 30.

 

[43] Infância, Um novo professor, p. 188-192. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 63: 31º manuscrito, de 18-04-1944, 28º capítulo do livro, publicado anteriormente em: Correo Literario, 14-08-1944, “Un nuevo profesor”, Buenos Aires.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

 

[44] Infância, Adelaide, p. 174.

 

[45] Infância, Adelaide, p. 174.

 

[46] Infância, Um enterro, p. 185. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 63: 32º manuscrito, de 22-04-1944, 27º capítulo do livro, publicado anteriormente em O Jornal, 15-04-1945, ed. 7657, t. 31.

 

[47] Infância, Um intervalo, p. 195. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 64: 33º manuscrito, de 26-04-1944, 29° capítulo do livro, publicado anteriormente em Correio da Manhã, 24-12-1944, ed. 15384, t. 33.

 

[48] Infância, Um intervalo, p. 197.

 

[49] Infância, Um intervalo, p. 196. Tornar-se-á célebre a afinidade literária e ateia de Graciliano com a Bíblia, a cuja leitura ele se dedicou assiduamente, como lembra Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 32: “Meu irmão possuía uma grande encadernação da Bíblia em dois volumes. Sempre a lia. Ainda este ano, estive com ela nas mãos”. Fernando Alves Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, 1977, p. 135, em nota relativa às dificuldades de colocação pronominal mencionadas por Graciliano, observa: “Ele próprio realizou uma aprendizagem penosa, como se pode verificar pelas notas marginais de sua Bíblia, que ainda se conserva. Esse exemplar da tradução de Antônio Pereira de Figueiredo, editada no Rio pela Garnier em 1864, tem as margens cheias de anotações sobre o emprego de pronomes, juntamente com outros comentários”. No final dos anos de 1980, a equipe “O Dilúculo” do IEB – os pesquisadores e elaboradores do Catálogo de manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos – visitamos Dona Ló, Heloísa Ramos, em sua residência em São Paulo, levados pelos coordenadores Yêdda Dias Lima e Zenir Campos Reis. A viúva de Graciliano nos mostrou em sua sala um volume da famosa Bíblia exposta num atril. A Bíblia, em dois volumes, traz dedicatória manuscrita como um presente de “M. Venâncio”. O Acervo Graciliano Ramos registra para consulta dois volumes, conforme o Catálogo eletrônico do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros da USP – Universidade de São Paulo: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> literatura> biblioteca do autor, itens 1 e 2:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=142853 > [vol I] e <  Codigo=287271 > [vol II]. Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 156, fala sobre a Bíblia, “o livro de cabeceira do velho Graça. Possui uma bela edição com ilustrações de Doré, já estragada pelo tempo e pelas observações jocosas que o leitor, este de fato irreverente, não se coíbe de fazer às margens do Novo Testamento. Pois é o Velho Testamento que ele prefere, são trechos do Cântico dos cânticos que ele sabe de cor”. Ricardo Ramos, Retrato fragmentado, p. 91-92, lembra-se não só do exemplar do pai, uma edição da Garnier de 1864, cheia de anotações irreverentes, como também das conversas a respeito com os monges no colégio em que atuou como inspetor de ensino. Em Letras e ArtesSuplemento de A Manhã, 07-01-1951, ed. 190, t. 2, uma pequena nota sobre os hábitos de leitura dos intelectuais da capital registra que Graciliano “nunca tem tempo para ler” – “por isso mesmo desistiu de ler; ou antes, só lê a Bíblia e os livros dos amigos”. Mas o aspecto mais tocante da relação de Graciliano com a Bíblia é esse de Infância, acima referido – inaugural, gênese do seu estilo e da sua predileção pelo Velho Testamento. A percepção que o menino teve da semelhança entre os desertos das cenas bíblicas e a terra seca do seu Nordeste faz de Fabiano um Abraão que reluta em imolar o filho para o nada: “Anda, condenado do diabo”. Apresento, a partir da formulação de Auerbach, considerações sobre o “bíblico” e o “homérico” em Graciliano, no artigo “O elogio do marxismo, em Graciliano Ramos”, Krypton, n. 1.

 

[50] Infância, Um intervalo, Os astrônomos, Samuel Smiles, p. 196, 201, 203, 206. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 52: Os astrônomos, 2º manuscrito, de 21-10-1938, 30º capítulo do livro, publicado anteriormente em Diário de Notícias, 27-11-1938, ed. 3934, t. 13-14.

 

[51] Infância, Os astrônomos, p. 199.

 

[52] Graciliano comentou esse aspecto em resposta a Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras – 20 entrevistas com escritores, p. 189: “Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários. − Consta e é verdade. Dicio­nário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários”, e acrescentou: “O que sei é que não há talento que resista à ignorância da língua”. Entrevista publicada originalmente em Revista do Globo, nº 473, de 18-12-1948. Em Infância, p. 238, Graciliano relembrou as tertúlias de Mário Venâncio: “Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-me de alguns vocábulos, estudava-os no dicionário, empregava-os com energia”.

 

[53] Infância, Samuel Smiles, p. 209. Samuel Smiles (1812-1904), escocês, autor de autoajuda. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 52: Samuel Smiles, 1º manuscrito, de 18-10-1938, 31º capítulo do livro, publicado anteriormente em Diário de Notícias, 13-11-1938, ed. 3922, t. 13, 15, 16.

 

[54] A prima Emília, que lírica e generosamente estimulou o menino a ser um astrônomo de letras, acabou por se fazer núcleo paradoxal na construção narrativa, que nesse passo sugere um aglomerado de memória entre “Os astrônomos”(30º capítulo, 2º manuscrito) e “O menino da mata e o seu cão Piloto” (32º capítulo, 3º manuscrito), onde o mesmo assunto, “perdidos na floresta”, aparece duas vezes. A estória negada pelo pai era de uma família perdida na floresta. A doce menina, que havia resgatado o primo para a leitura, agora se tornaria seu algoz ao interditar-lhe a estória de um menino perdido na floresta. Graciliano detém-se nessa ausência de final das estórias que o fustigaram, parecendo compor nessas duas interdições unificadas pelo tema um símbolo de seu anseio pela literatura e da gênese do escritor de Vidas secas, da família e dos meninos perdidos no deserto da seca.

 

[55] Infância, O menino da mata e o seu cão Piloto, p. 210-214. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 52-53: 3º manuscrito, de 15-11-1938, publicado em O Jornal, 23-11-1938, ed. 5969, t. 25-26, veio a ser o 32º capítulo do livro. Sobre as publicações protestantes no Brasil, ver: Micheline Reinaux de Vasconcelos, A gênese da editoração protestante no Brasil: o circuito de difusão das publicações (1830-1920). Uma edição de 1920 de O menino da mata e o seu cão Piloto traz na quarta capa: Lisboa – Livraria Evangélica, Rua das Janelas Verdes, 32: agradeço a Zenir Campos Reis cópia do folheto. Uma edição disponível em Internet Archive, pela University of Toronto Robarts Library, < https://archive.org/details/omeninodamattaes00port  > traz registro também na quarta capa: Convento dos Marianos, com o endereço na mesma rua. Em endereço similar, encontra-se a Catedral da Igreja Lusitana - Paróquia  de São Paulo. Sobre o convento adquirido em 1872 pela Igreja Presbiteriana Escocesa, e, posteriormente, em 1898, pela Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, há informações em: < https://igreja-lusitana.org/index.php/paroquias/paroquia-de-s-paulo-lisboa >.

 

[56] Infância, Fernando, p. 215-219. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 53-54: 5º manuscrito, de 03-06-1939, publicado no Diário de Notícias, 18-06-1939, ed. 5104, t. 18, 22, tornou-se o 33º capítulo do livro. Nesse capítulo, Graciliano menciona o poder e a violência do coronelismo: “Nunca vi regime tão forte”.

 

[57] Ver em Moacir Medeiros de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 14, 37: “Um inquérito” – entrevista de Graciliano aos 17 anos para o Jornal de Alagoas, 18-09-1910.

 

[58] Infância, Jerônimo Barreto, p. 225. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 64: 34º manuscrito, de 03-05-1944, 34º capítulo do livro, publicado anteriormente em O Jornal, 18-02-1945, ed. 7610, t. 27.

 

[59] Infância, Venta-Romba, p. 235. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 66: 37º manuscrito, de 30-05-1944, 35º capítulo do livro, publicado anteriormente, como “capítulo de memórias”, em O Jornal, 14-01-1945, ed. 7582, t. 25, 32; publicado posteriormente, como “conto”, em Mocidade, Maceió, julho-dezembro 1949, ed. 19, t. 41-43.

 

[60] Monsenhor Cícero Teixeira de Vasconcelos (Assembleia, atual Viçosa, 08-06-1892 - Rio de Janeiro, 26-07-1967). Após os estudos iniciais no Internato Alagoano de Viçosa, ingressou em 1905 no Seminário Diocesano de Maceió, ordenando-se padre em 1915. Professor, jornalista, escritor, foi senador constituinte em 1945, de acordo com informações de Francisco Reinaldo Amorim de Barros, ABC das Alagoas – Dicionário biobibliográfico, histórico e geográfico de Alagoas, tomo R-Z, p. 368.

 

[61] Infância, Mário Venâncio, p. 237. Conforme fac-símile de exemplar: “publicação bi-mensal” (no sentido de “duas vezes por mês”), em M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 67.

 

[62] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 22. O tempo indicado de duração do jornal, mantida a periodicidade quinzenal, implicaria mais de vinte edições. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, informa em nota sobre O Dilúculo: “A princípio o jornalzinho trazia os nomes de Cícero de Vasconcelos e Graciliano Ramos como ‘redatores’. Depois os redatores são as mesmas pessoas, mas os nomes e a colocação destes se alteram: Ramos Oliveira e Teixeira Vasconcelos. Mais para diante, pela altura do número 8, tornam-se ‘redatores e proprietários’, voltando o segundo ao nome antigo, porém agora sem o de. Mais tarde ainda, o nome do Cícero Vasconcelos – que viria a se ordenar e ser cônego, e, muitos anos depois, senador por Alagoas – desaparece do cabeçalho, e o jornal, que até o número 7 fora ‘Órgão do Internato Alagoano’, deixa a seguir de ostentar essa declaração, passa, finalmente, a apresentar como subtítulo ‘Periódico Literário e Noticioso’ “.

 

[63] Infância, Mário Venâncio, p. 237: “O desgraçado título foi escolha de nosso mentor, fecundo em palavras raras”. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 64-65: 35º manuscrito, de 11-05-1944, 36º capítulo do livro.

 

[64] Reprodução fac-similar em M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 67.

 

[65] Infância, Mário Venâncio, p. 239: “O Pequeno Mendigo [sic] e várias artes minhas lançadas no Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações que do original pouco se salvou. Envergonhava-me lendo esses excessos de nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste”. Trata-se de o “Pequeno pedinte”, como se verá abaixo.

 

[66] Moacir Medeiros de Sant’Ana, em Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 12, lista também as seguintes publicações do menino Graciliano em O Dilúculo: “Agonia”, 28-08-1904, “Funeral”, 29-09-1904, por Ramos de Oliveira, e “Saudade”, 24-10-1904, “O Natal”, 25-12-1904, “Miséria sem conforto”, 03-02-1905, “O amor”, 16-04-1905, por Ramos Oliveira.

 

[67] Fernando Alves Cristóvão, em Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, 1977, p. 38, apresenta transcrição do conto publicado em O Dilúculo, nº 1, 24 de junho de 1904. O autor observa o lapso de Graciliano Ramos, em Infância, quando relembra o título com “Pequeno mendigo” ao invés do original “Pequeno pedinte”.

 

[68] Reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 71.

 

[69] Infância, Mário Venâncio, p. 238, 240. José Veríssimo, em Cenas da vida amazônica, p. 225-226, numa sequência de descrições para retratar o serão amazônico, dedica alguns parágrafos ao candeeiro: “É de metal amarelo. Tem a forma... não sei de quê”; “É um pé um tanto côncavo como um pires, uma haste da grossura de um dedo mínimo de moça bonita e quase um palmo de altura. Aqui começa o receptáculo do azeite – do azeite, porque o querosene no serão seria um anacronismo”; “Possui mais três aparelhos – um espevitador, um balde para aparar o azeite e um corta-torcidas”. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, no artigo “Recordando Graciliano Ramos: a face e os episódios menos conhecidos de um ’humour’ provinciano do escritor que faria 70 anos nestes dias de outubro”, informa em nota : “Um exemplar da 1ª edição das Cenas da vida amazônica, de José Veríssimo, que Graciliano me ofereceu, está multicarimbado com: ‘Ramos Oliveira/ Viçosa – Alagoas’ “.

 

[70] Ver em Moacir Medeiros de Sant’Ana, As leituras do jovem Graciliano Ramos, p. 7-20

 

[71] Infância, Mário Venâncio, p. 240.

 

[72] Ver em Infância, Mário Venâncio, p. 236, as lembranças da Escola Dramática Pedro Silva em Viçosa e a razão de ter tal nome: “quiseram colocá-la sob o patrocínio de João Caetano; mas o Major Pedro Silva, senhor de engenho, ofereceu aos amadores uma casa que se arruinava no Juazeiro, defronte da cadeia” –, “ergueram o palco, os cenários da floresta, do palácio e da choupana; Joaquim Correntão esmerou-se no pano de boca, vistoso, com três deusas peitudas”.

 

[73] [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho, Pensando em Graciliano, Diário de Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42.

 

[74] Infância, Laura, p. 256. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 65-66: 36º manuscrito, de 18-05-1944, 39º capítulo do livro. No fac-símile da última página de O Dilúculo de 26-07-1904, a “S. Amor e Caridade”, (“que me elegeu para segundo secretário” - Infância, p. 254) aparece num anúncio para eleição de sua nova diretoria – ver em Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, 1977, p. 229 (fac-símiles suprimidos na edição posterior da obra).  M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 22-23, menciona discurso apresentado pelo menino Graciliano na sessão comemorativa do 10º aniversário da Sociedade Recreativa e Instrutora Viçosense, em 1º de maio de 1904.

 

[75] Infância, Seu Ramiro, p. 242-246. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 66-67: 39º manuscrito, de 09-06-1944, 37º capítulo do livro. Trata-se do último manuscrito realizado por Graciliano dentre os publicados em Infância. Um outro, “Minha gata”, não datado, aparentemente inacabado, foi suprimido da obra. Narra o tempo em que passou a dormir no armazém do pai. Para combater os ratos, apareceu uma gata. Tornou-se para ele o que havia de mais importante. Não o censurava, não gritava etc. Afagando-a, descobriu emoções até então desconhecidas: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 67.

 

[76] Infância, A criança infeliz, p. 247-252. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 66: 38º manuscrito, de 05-06-1944, 38º capítulo do livro.

 

[77] Infância, Laura, p. 259-260.

 

[78] Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 34.

 

[79] 1905 – Maceió

 

Entrevista a Vamos Ler! nº 142, 20-04-1939, ed. 142, t. 8-9, republicada em Joel Silveira, Na fogueira: memórias, p. 279. Entretanto, Graciliano não testemunhou nada mais sobre sua vida escolar em Maceió. Paulo de Castro Silveira, Graciliano Ramos – nascimento, vida, glória e morte, p. 32-34, estranha o laconismo em contraposição a outros intelectuais alagoanos que relembram com mais entusiasmo os bons tempos passados naquele colégio. Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 32, alude, num equívoco semântico de análise sintática, à decepção com o ensino formal em episódio relativo ao assunto, o que teria levado definitivamente o menino Graciliano ao autodidatismo.

 

[80] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 74.

 

[81] Agrippino Grieco, “Corja, Sinhá Dona e Cahetés”, O Jornal, 04-02-1934, ed. 4386, t. 17, 22, ou em recorte no  IEB – Arquivo Graciliano Ramos, anota: “Dizem-me até que leu Os Maias umas 10 ou 12 vezes”. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 114-115, diz: “Sabe de cor capítulos inteiros de Eça de Queiroz (Os Maias, A ilustre casa de Ramires)”.

 

[82] 1906-1910 – Viçosa

 

Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 23, sugere como período de estudos em Maceió apenas o ano de 1905: “após o encerramento do ano letivo, a 4 de dezembro, Graciliano volta a Viçosa”, ano ratificado pela legenda na ilustração da p. 171: “Prof. Agnelo Marques Barbosa (1863-1936), diretor do Colégio 15 de Março, de Maceió, onde Graciliano estudou durante todo o ano de 1905”. Também em Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84, Moacir M. de Sant’Ana informa nestes termos o registro noticiado de uma visita de Graciliano à redação do Jornal de Alagoas: “quando em março de 1909 ele esteve alguns dias em Maceió, vindo de Viçosa, onde residia [...]”. Assim, referências biográficas indicam sem precisão como período de internato em Maceió apenas o ano de 1905. Há menções a período mais extenso, como se Graciliano tivesse estudado em Maceió durante cinco anos, até mudar-se para Palmeira dos Índios. Entretanto, várias referências, além do “onde estive pouco tempo” do próprio Graciliano, sugerem o retorno definitivo do adolescente a Viçosa em 1906, onde permaneceria até o final de 1910, quando passou a residir em Palmeira dos Índios. [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho, em “Pensando em Graciliano”, Diário de Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42, relembra: “A loja de fazendas de Sebastião Ramos ficava defronte da farmácia de meu pai e da casa de nossa residência”; “À noite, em seu quarto, no sobrado do estabelecimento, quando não escrevia, Graciliano costumava ler em voz alta Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia”; “Quase não se passava dia em que não fosse à nossa casa conversar com meu pai”,  “Quando não havia fregueses na loja, Graciliano entretinha-se com os frequentadores habituais: João Alves Bezerra Cavalcanti – secretário do Conselho Municipal e rábula – o tabelião Jerônimo Barreto, meu irmão Rodolfo e eu”. Tais  vivências parecem menos do menino entre sete e doze anos que do adolescente na rotina de Viçosa entre quatorze e dezessete anos de idade. Nos poemas de 1909 predomina o endereço de Viçosa, Alagoas. Os dois poemas publicados em O Malho, em 1907, com o pseudônimo Feliciano, registram Maceió como local de origem, mas, em todos os casos, sem comprovação de veracidade, pois Graciliano gostava de relacionar os pseudônimos a localidades diversas, indo de S. Paulo a Porto.

 

[83] Em Graciliano: retrato fragmentado, p. 73, Ricardo Ramos lembra que Graciliano considerava seu nome “uma peste, uma desgraça”, que o “Ramos de Oliveira” parecia “pomba da paz”. Mas a inversão dos sobrenomes para “Oliveira Ramos” não foi muito além da rápida aparição no Echo Viçosense.

 

[84] Echo Viçosense - reprodução fac-similar em M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 165.

 

[85] Infância, Mário Venâncio, p. 241: assim, Graciliano avança ao 1906 do Echo Viçosense e do suicídio do amigo, período posterior ao do ano de estudos em Maceió, uma experiência de vida, portanto, que a rememoração de Infância pula. Nesse capítulo, Graciliano refere-se apenas a O Dilúculo.

 

[86] Echo Viçosense, 01-02-1906 - reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 73. 

 

[87] Graciliano revelou pseudônimo publicamente no inquérito do Jornal de Alagoas, de 18-09-1910, aos dezessete anos, em entrevista descoberta por Moacir Medeiros de Sant’Ana: “Tinha eu quatorze anos, creio que incompletos, quando publiquei, com pseudônimo de FELICIANO DE OLIVENÇA, dois sonetos em O Malho. Quase nada tenho feito”. Na verdade, entre os quatorze e os dezessete anos, isto é, de 1907 ao ano da entrevista, 1910, ele havia publicado muitos poemas em O Malho e no Jornal de Alagoas. Entretanto, desde então anunciou o poeta sem futuro e o prosador despachado: “Se tenho feito alguns trabalhos poéticos – por que não confessá-lo? – é porque não tenho talento para cultivar a escola que prefiro: a escola realista. E o verso ocupa menor espaço nos jornais”. O Graciliano-poeta-quando-jovem tornou-se lendário, com a participação humorada e esquiva do autor já consagrado: “Pode revelar alguns desses pseudônimos?” – “Você é besta...”, respondeu Graciliano ao ser abordado sobre o assunto em 1948 por Homero Senna, em República das letras, p. 183-184, e justificou-se dizendo que aprendeu “isso” “para chegar à prosa”. Em Diretrizes, 29-10-1942, ed. 122, t. 13, em entrevista a Francisco de Assis Barbosa disse o mesmo: “Eu compunha os meus sonetos para adquirir um bocado de ritmo”; “Jamais pretendi ser poeta”. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, também se refere a esse aspecto: “Sempre dizia que o conhecimento e exercício da versificação lhe adviera, com o afinamento do ouvido, grande utilidade à prosa. ‘Para ser bom prosador é necessário saber fazer versos’: opinião sua”. Osório Borba, em “O pior poeta vivo do Brasil”, Diário de Notícias, 16-10-1938, ed. 3899, t. 13-14, ao comentar a cogitação de tal concurso pela Revista Acadêmica, em levantamento bastante divertido dos possíveis candidatos, observa: “Dos romancistas do momento, Graciliano Ramos não se candidata porque toda a sua produção poética em Alagoas foi publicada sob pseudônimo, que ninguém por aqui conhece, a não ser alguns amigos seus que recusam revelá-lo”. A respeito do também lendário João Condé, colecionador de manuscritos e relíquias literárias, tesouros revelados em seus, como os denominou Drummond, “arquivos implacáveis”, diz Lúcio Cardoso, em “Perfil”, A Manhã, 23-04-1944, ed. 828, t. 3: ”voltou-se ele para autores mais difíceis, o sr. Graciliano Ramos, por exemplo, tão disputado por outros colecionadores, e cujas páginas, bastante raras e anotadas, sobem dia a dia de preço, à medida que o autor de São Bernardo escreve menos. Mas já existiam outros ‘colegas’ em campo, e os preciosos originais dos sonetos parnasianos completos escritos por Graciliano Ramos foram parar às mãos do sr. Lúcio do Nascimento Rangel”. Otto Maria Carpeaux, em “Graciliano: insônia e esperança”, Jornal do Brasil, 29-08-1976, ed. 143, t. 55, relembra: “O fracasso da primeira tentativa de uma carreira literária se compreende (o próprio Graciliano me confessou ter escrito, então, sonetos parnasianos)”. Em Angústia (décima seção), Luís da Silva encarna essa condição referindo-se ao tempo em que viveu no Rio de Janeiro, quando começou a negociar poemas de sua autoria: “Compus, no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos, aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade compreendi que não valiam nada”; “Um dia, na pensão de D. Aurora, o meu vizinho Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinquenta mil-réis”; “Desde então procuro avistar-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinquenta folhas amarelas e roídas pelos ratos”. Quanto à observação de Ricardo Ramos, relativa à sua lembrança da conversa testamentária com o pai, quando este vetou escritos em prosa com pseudônimos, o filho justifica a publicação de Linhas tortas, de que participou em 1962, acolhendo textos de periódicos, muitos deles sob pseudônimo: ”Ainda que nos ativéssemos à obra assinada, pseudônimos se revelaram, crônicas se identificaram, poesias vieram à luz”. A respeito dos termos como relembra os vetos do pai (“Já com pseudônimo não, não sobra uma linha, não deixe sair. E pelo amor de Deus, poesia nunca”), Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 176, 191, observa a ironia de ter aparecido justamente um estudo detalhado sobre as poesias (possivelmente referindo-se ao estudo de Fernando Alves Cristóvão), e, sem poder aquilatar que utilidade terão para o entendimento da obra todas as primícias repostas a público pelo mercado de inéditos, conclui: “será difícil optar pelo respeito à vontade do escritor, compreensível àquela altura e hoje discutível”.

 

[88] Em Graciliano Ramos, poeta, trabalho publicado originalmente na Revista da Faculdade de Letras, 1971, Lisboa, colhido depois em Cruzeiro do sul, a norte – Estudos luso-brasileiros, p. 68, Fernando Alves Cristóvão listou 21 publicações em O Malho, entre 1909 e 1914, de poemas atribuídos a Graciliano, reproduzindo e analisando alguns deles. O autor computa 34 composições por considerar como unidades: cada uma das dez estrofes-trioleto na publicação de Triolets, em O Malho, 25-12-1909, ed. 380, t. 33, cada um dos quatro sonetos na publicação também única de Velhas páginas, em O Malho, 07-01-1911, ed. 434, t. 37, e o soneto Por quê?, em O Malho, 08-08-1914, ed. 621, t. 30, que é de outro autor, homônimo, A. d' Almeida  e  Cunha. Principalmente em Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 13-18, há minuciosa listagem dos poemas, com indicação de periódicos em que foram publicados, pseudônimos e datas dos exemplares de O Malho, Jornal de Alagoas e Correio de Maceió. Além desses, o pesquisador apresentou, em A face oculta de Graciliano Ramos, poemas publicados em Argos. Os levantamentos de Fernando Alves Cristóvão e de Moacir Medeiros de Sant’Ana registram no total 39 poemas – cômputo de que se abstrai: as publicações repetidas em outro periódico; as unidades de cada trioleto ou soneto nos casos acima mencionados em que essas unidades funcionam como peças de uma publicação única; a composição Por quê?, de outro autor; as brincadeiras poéticas ou epigramas posteriores, circunstanciais, quatro, publicados em O Índio, 1921.

 

[89] Moacir Medeiros de Sant’Ana registrou, sem a transcrição, a localização em periódicos de Maceió de oito poemas – que não foram publicados em O Malho. Quatro deles encontravam-se disponíveis para consulta no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas ou no Arquivo Público de Alagoas, em pesquisa realizada nestes locais em 2013. Assinalaram-se na lista como “sem transcrição” apenas os outros quatro poemas que permaneceram sem acesso. Entretanto, Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, obra de 1973, p. 84-85, lista esses poemas, com detalhes de data de elaboração e data de publicação nos 1ºs  semestres de 1909 e de 1910, e informa em nota que não teve acesso apenas à coleção do Jornal de Alagoas do 2º semestre de 1909. Mas tais poemas não aparecem transcritos nas obras do pesquisador. Fernando Alves Cristóvão, em Graciliano Ramos, poeta, não menciona os onze poemas com publicação exclusiva de Alagoas e os sete seguintes de O Malho: Incompreensível, Confissão, Sonho de um doudo, A tormenta, Por estas noites, Balada, Balada. Moacir Medeiros de Sant’Ana não menciona três poemas indicados por Cristóvão, de O Malho: Triolets, A velha cruz, O velho tronco. No total, dos 39 poemas registrados, há acesso ao texto de 35 deles.

 

[90] O jovem Graciliano publicou entre 1907 e 1914, como “poeta federal”, na revista carioca O Malho, e, como “municipal”, em Jornal de Alagoas, Correio de Maceió e Argos, de Maceió: há poemas repetidos entre Maceió e Rio, e um soneto intitulado Por quê?, do pseudônimo homônimo A. d' Almeida  e  Cunha, em O Malho, 08-08-1914, ed. 621, t. 37, a subtrair da conta. A última publicação localizada, em O Malho, 19-12-1914, ed. 640, t. 30, “O velho tronco”, de Soeiro Lobato, é do período em que Graciliano se encontrava no Rio de Janeiro. Há amplo acesso aos poemas publicados em O Malho: através da Fundação Casa de Rui Barbosa: < https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/discover> e, principalmente, através da Biblioteca Nacional, Hemeroteca Digital: < https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx >.

 

[91] Anos depois, já encerrada a fase de poeta,  o viúvo Graciliano, ao participar do jornal O Índio, 1921, publicou quatro epigramas na coluna “Fatos e fitas”, sob o pseudônimo de Anastácio Anacleto. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, comentou e citou os poemetos satíricos no artigo “Um brasileiro fala de um romancista brasileiro. Recordando Graciliano Ramos: a face e os episódios menos conhecidos de um ’humour’ provinciano do escritor que faria 70 anos nestes dias de outubro”.

 

Aquela carcaça ingente

Tanta gordura juntou

Que um dia, logicamente,

– Tinha de ser – rebentou.

– Com dez arrobas de banha

Na pança, todos dirão,

É certo que a terra apanha

Pavorosa indigestão. 

               (O Índio, n. 1, 30-01-1921)

 

Falava um dia um tabelião

A um boticário desta sorte:

– “Pois, apesar da profissão

Não te desejo, amigo, a morte.

Teu inventário irei fazer

Se morres, flor dos boticários!

Mas vai decerto decrescer

A quantidade de inventários.”

              (O Índio, n. 2, 06-02-1921)

 

De sífilis terciária aquele enfim morreu,

Magro e triste, do alcoice ignóbil fruto espúrio.

E – espanto! – engalicada, a terra que o comeu

Entrou logo a tomar injeções de mercúrio.

           (O Índio, n. 3, 13-02-1921, ed. 3, t. 1)

 

Tão dura assim não havia

Vida neste mundo, não.

Machado ou mão de pilão

Acabá-lo não podia.

Átropos de raiva estoura

Aquele fio ao cortar.

– Caramba! Põe-se a gritar,

Fez-me um dente na tesoura.

           (O Índio, n. 6, 06-03-1921, ed. 6, t. 1)

 

Em 1945, Graciliano participou rapidamente do jornal humorístico de Apparício Torelly, também conhecido por “Apporelly”, “O Barão de Itararé”, seu ex-companheiro de prisão. Dentro do espírito gaiato e nonsense do periódico, publicou a crônica “O melhor dos mundos”, A Manha, órgão de ataques ... de riso, 15-08-1945, ed. 17, t. 7, e a seguir, A Manha, órgão de ataques ... de riso, 05-09-1945, ed. 20, t. 10, apresentou a republicação (em versão mais enxuta) do epigrama acima, o terceiro, dos tempos de O Índio, acrescentando o título “A um sifilítico” – e assinou: um caso inesperado de revelação de autoria do ex-poeta, mas, ainda assim, limitada ao exercício epigramático posterior, de 1921.

 

[92] Há transcrição e reprodução fac-similar em obras de Moacir M. de Sant’Ana: A face oculta de Graciliano Ramos, p. 47, 75, e Graciliano Ramos: vida e obra, p. 173.

 

[93] Transcrição e reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 49, 77.

 

[94] Em Infância, Os astrônomos, p. 199, Graciliano relembra os primeiros contatos com eles: “E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, frequentavam escola decente e possuíam máquinas que rodavam na calçada como trens”. Eram muitos irmãos: além do companheiro da aventura no Rio, Joaquim Pinto Filho, das Cartas, o “velho Pinto dos pés compridos”, e do irmão Rodolfo Mota, com quem atuou no Paraíba do Sul,  há referências da divulgação que Pedro Mota Lima, o Doca, fez de seus relatórios na imprensa carioca. Pedro Mota Lima foi jornalista, romancista e membro bastante combativo de esquerda, atuou pelo PCB e morreu em desastre aéreo na Tchecolosváquia em 1966. Foi autor dos romances Coronel Lousada (1925), Bruhaha (1932), Zamor (1940) e Idade da pedra (1950). Ver: < https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/LIMA, Pedro Mota.pdf >. Nas cartas a Pinto, Graciliano às vezes se despede com lembranças a muitos de toda a extensa família Mota Lima e, por exemplo, em Cartas, 27-11-1911, p. 18, brincando, chama o pai deles de “Revmo. Mota Lima”. Na carta de 1º-01-1926, p. 81, diz: “Creio que já te disse em carta anterior que fiz uma gaffe terrível com o Doca. Recebi há tempo, há muito tempo, um cartão comunicando-me o nascimento de uma filhinha dele. No mesmo correio veio um jornal com a notícia de que ele tinha sido preso. E eu, julgando que então, como no governo do Hermes, a prisão de um jornalista era uma esplêndida réclame, mandei-lhe parabéns pelos dois acontecimentos. Depois é que vi, o pobre rapaz sofreu deveras, fiquei arrependido. Mas enfim pode ser que a prisão alguma vantagem lhe tenha trazido. Também soube que o Rodolfo esteve seis meses na detenção, mas que tinha lá algum conforto e até podia trabalhar. Como vai ele? Sei apenas que traduz telegramas no Correio da Manhã, escreve política e tem uma penca de filhos”. A Joaquim, o pré-demissionário prefeito conta, em Cartas, 02-04-1930, p. 109, com muito exagero humorístico, que ao visitarem Alagoas, Doca e a esposa Priscila foram obrigados a ouvir a leitura de quatrocentas páginas (quiçá Caetés): “Demoraram quatro dias, muito bem empregados, como vais ver. Enquanto eles dormiam li Bruhaha. E imaginei que teu irmão ficaria satisfeito se ouvisse quatrocentas páginas que tenho na gaveta, excelentes, é claro, embora eu diga, por modéstia, que são ruins. Abri cerveja, fechei as portas”; “Passadas vinte e quatro horas, o pobre homem, bastante comovido, pediu-me para ler o resto, acabar logo. Tentou agradar-me explicando o soviet. De nada lhe serviu o comunismo. Ataquei-o umas três vezes”.

 

[95] O pseudônimo com “Soares”, sem a abreviação, aparece apenas no registro do poema “A gôndola”.

 

[96] Jornal de Alagoas, 10-02-1909. Transcrição em Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 92,  A face oculta de Graciliano Ramos, p. 51, e em Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 15.

 

[97] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84, diz tratar-se de  “pseudônimo do viçosense Thomaz Rodrigues de Vasconcelos, então acadêmico da Faculdade de Direito do Recife”.

 

[98] Há transcrições do poema em que o verso aparece citado erroneamente: “coração pulsando colorido”, ao invés do correto: “dolorido”.

 

[99] São 7 publicações repetidas, os poemas sendo enviados sempre posteriormente a O Malho. Foram republicados em O Malho três poemas dos onze publicados no Jornal de Alagoas, dois dos cinco no Correio de Maceió, e os dois que haviam sido publicados em Argos – totalizando entre os 39 poemas localizados, 7 publicações repetidas, 11 exclusivas de Maceió, 21 exclusivas de O Malho.

 

[100] Esses quatro poemas foram publicados no Jornal de Alagoas, no primeiro semestre de 1909, período da coleção não disponível no Arquivo Público de Alagoas por ocasião de consulta local em 18-06-2013. Moacir Medeiros de Sant’Ana, que revelou e registrou a existência dos poemas, teve acesso a informação sobre eles e, segundo indica seu catálogo Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 15-16, (de 1983), esta exposição por ele organizada apresentou “A gôndola”, mas não transcreveu nenhum dos quatro poemas em suas publicações. Por outro lado, o pesquisador já testemunhava em nota a Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 85, (de 1973), que não teve acesso à coleção do Jornal de Alagoas do 2º semestre de 1909 – o que indica a possibilidade de outros poemas perdidos, caso, também como esses, não tenham sido republicados em O Malho.

 

[101] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84.

 

[102] Fac-símile em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 79.

 

[103] Em 1909, por exemplo, diante do jogo de disputas oligárquicas que levava o presidente Afonso Pena a impor para sucessão a candidatura de seu ministro da fazenda, Davi Campista, O Malho lançou o concurso de poemas sob o mote “Se seu Campista fosse presidente”: ver em O Malho, nº 350, 29-05-1909, ed. 350, t. 10. Dele participou (presumidamente de acordo com a localização indicada) um alagoano, sob o pseudônimo de Aimbiré:

 

Se seu Campista fosse presidente

 

Todo o Brasil, num grito de agonia,

Do qual não vem ao caso prestar conta,

Morreria de dor por essa afronta

À sua magistral soberania.

 

O arcebispo do Rio e a fradaria

Que da França nos chega, à toa e tonta,

Assombrados por verem tanta ponta

Em tão amesquinhada Senhoria,

 

Rezariam cem missas num momento

Por alma do País sem sentimento

Que morrera, infeliz, covardemente...

 

O vento da desdita sopraria,

E o diabo a quatro, mais, sucederia

Se “seu” Campista fosse o Presidente...

 

Maceió, Alagoas, 1909                Aimbiré

 

[104] O falecimento em 1928 de José Lopes dos Reis, português naturalizado brasileiro, o “Dr. Cabuhy Pitanga”, como também, na revista infantil Tico-tico, o “Dr. Sabetudo”, foi noticiado com  homenagens e carinho em: O Malho, 14-01-1928, ed. 1322, t. 38 e 55; Para todos, 14-01-1928, ed. 474, t. 19 e Para todos, 28-01-1928, ed. 476, t. 16 e 17.

 

[105] O Malho, 27-03-1909, ed. 341, t. 23. Para outros casos, Dr. Cabuhy Pitanga emitia comentários espinafrantes, num jogo mútuo de provocações farsescas com os remetentes, de que Graciliano e o amigo Mota Lima participavam com muito gosto, como indicam as Cartas, 08-02-1914, p. 23,  e 18-02-1914, p. 25 – (esse procedimento talvez tenha inspirado, como se verá adiante, o mesmo estilo de respostas na correspondência de O Índio, em 1921). Por exemplo, logo abaixo da aceitação de poemas, entre eles o Pela estrada do amor, as observações do Dr. Cabuhy são estas:

 

João H. Sá Leitão (Leme) – Muito conhecido e antigo esse processo de versejar e que o camarada chama – A musa de hoje. Só se é aí no Leme. Todavia, como amostra do pano, aqui vai o primeiro metro:

 

Eu era o vinco de sinosa monta

que o rimu antigus debutou n’ ocaso;

Eras o cúlmeo de vigórea conta

no volco lestro d’ignatus vaso.

 

Chama-se a isto: encher linguiça, Sr. Leitão! Nós o preferimos assado, com farofa no bucho e as competentes rodelinhas de limão espetadas, sem esquecer o gracioso ovo na boca...

 

Ou: O Malho, 29-03-1913, ed. 550, t. 23:

 

Menotti del Picchia (S. Paulo) – Recebemos os seus versos em italiano macarrônico. Sentimos muito mas não podemos atendê-lo. Um conselho: por que não os mandou ao seu colega Juó Bananére?...

 

[106] O Malho, nº 356, 10-07-1909, FCRB-ed. 356, t. 28, disponível apenas em: Fundação Casa de Rui Barbosa. Em consulta local, de 2010, à Biblioteca Nacional e, pela internet, a partir de 2012, faltava O Malho nº 356 à coleção. Soneto publicado anteriormente em Jornal de Alagoas, 23-04-1909.

 

[107] O Malho, nº 360, 07-08-1909, FCRB-ed. 360, t. 36, disponível apenas em: Fundação Casa de Rui Barbosa. Em consulta local, de 2010, à Biblioteca Nacional e, pela internet, a partir de 2012, faltava O Malho nº 360 à coleção.

 

[108] O trioleto ou triolé (que nesse período era moda nas publicações, não só de O Malho) é forma fixa usualmente de uma só estrofe, bastante repetitiva, de oito versos, em que o 1º, o 4º e o 7º são iguais, como, por sua vez,  o 2º e o 8º. Assim, o poeta obteve com o processo reiterativo decuplicado um ótimo efeito, como observa Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 75: “Acertada foi a escolha do trioleto, dado que a repetição dos versos intensifica o dramatismo desta confissão obsessiva de amor. Já visível na estrutura de um só trioleto, mais evidente se tornou por se prolongar num grupo de dez, organizados em poema”. Após alguns anos, a modernidade de Manuel Bandeira mostraria sua afeição à ingenuidade repetitiva dos estribilhos das formas medievais, e Drummond revolucionaria o “trioleto” na obsessão incontornável de “No meio do caminho”.

 

[109] Jornal de Alagoas, 12-01-1910: Arquivo Público de Alagoas – consulta local em 18-06-2013. 

 

[110] Jornal de Alagoas, 16-01-1910: Arquivo Público de Alagoas – consulta local em 18-06-2013.

 

[111] Como salienta M. M. de Sant’Ana em Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 17, além de se ocultar nos pseudônimos, Graciliano disfarçava também os locais de origem do autor.

 

[112] Em O Malho, o título foi estropiado com “Partneza tua”. Publicado anteriormente em Jornal de Alagoas, 12-03-1910, segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 85, que registra sua localização, indicando como título apenas “Partenza”, sem o “tua”, mas acrescido do apositivo “quadras”. O “Dr. Cabuhy Pitanga” registrou com o título “Partensa tua” a aceitação do poema em número posterior ao de sua publicação: O Malho, 29-10-1910, ed. 424, t. 10.

 

[113] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 103, indica os outros entrevistados: Marcionilo Maciel, Osman Loureiro (futuro governador de Alagoas, quando, em 1936, Graciliano, Diretor da Instrução Pública, foi demitido e preso), Bráulio Cavalcante (assassinado em 1912, a quem pouco antes Graciliano dedicara o poema A aranha), Moreno Brandão (futuro colaborador de O Índio), Fernando Távora, Carlos Rubens, J. P. da Mota Lima (vizinho amigo de Viçosa, o farmacêutico Dr. Mota Lima, pai dos jovens amigos de Graciliano e possivelmente o “Lambda” de O Índio em 1921), Olavo de Campos, Rodrigues de Melo, Guedes Lins, Lima Junior. Cerca de três anos mais novo que Graciliano, Osman Loureiro (27-07-1895 - 23-07-1969) coletou o próprio depoimento em Trechos do meu caminho, p. 205-211, publicado originalmente no Jornal de Alagoas, 25-08-1910.

 

[114] M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 18, 37. Entrevistas a partir da edição de 12-07-1910 do Jornal de Alagoas. Em Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84, Moacir M. de Sant’Ana indica 26-06-1910 como data de lançamento do inquérito.

 

[115] O Malho, nº 420, 01-10-1910, ed. 420, t. 30. Transcrito por Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 70-71. O Catálogo eletrônico do IEB, Arquivo Graciliano Ramos, registra no acervo, seção “Manuscritos recebidos de autores não identificados”, autógrafo com o título “Na penumbra”, datado de São Paulo, 30-09-1910, assinado S. A. C. Inscrição: “O Malho”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo>  arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais > página 9> manuscritos recebidos de autores não identificados > [se o acesso estiver ocultado pela repetição do primeiro item, código: 229213, troque na barra de endereço o número final: 229214]:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229214 >.

 

[116] Transcrito por Moacir M. de Sant’Ana, em A face oculta de Graciliano Ramos, p. 57.

 

[117] M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 55.

 

[118] Três anos depois da publicação de Argos, nº 2, outubro 1910, O Malho reapresentou o soneto trocando “heroica expedição” por “hênica expedição”, “flautas febris” por “florestas febris” e “Kolchis” por “Koldis”: O Malho, 20-09-1913, ed. 575, t. 47. Há transcrição da versão correta de Argos em  M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 27. Ver também reprodução fac-similar da publicação da revista Argos e da versão de O Malho em M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 85, 93. Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 78-79, apresentou a transcrição de O Malho, com os erros.

 

[119] Epígono do parnasianismo, o adolescente Graciliano retoma a temática da história e da mitologia greco-romanas. Ainda que areje os modelos embalsamados em polidos museus de cromo dos grandes mestres do parnaso, o modo vivificante com que o autodidata se abebera dos alfarrábios de Cesare Cantù, seja pela fantasmagoria da decadência no Último sonho de Cleópatra (mais abaixo), seja pela formulação votiva deste terceto final de Argos, o resultado alcançado não permite, entretanto, confirmar influência ou aproximação da renovação formal que a alta expressão poética do grego Konstantinos Kaváfis alcançava na época, com poemas até então de circulação limitada a seu ambiente.

 

[120] 1910 -1914 – Palmeira dos Índios

 

C. Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 33.

 

[121] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 20

 

[122] O descaroçador de algodão terá presença marcante na configuração de S. Bernardo, de 1934 – por exemplo, no Cap. 2, p. 11: “O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular”.

 

[123] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 30-33.

 

[124] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 31.

 

[125] Graciliano Ramos, Cartas, 14-11-1910, p. 15. Publicadas em edição especial pela Record em 1980, com exemplares numerados como brinde natalino da MPM Comunicações, as Cartas tiveram edição aberta ao público em 1981, com acréscimo a partir da 3ª edição, em 1982, de nove cartas. Extraída de Cartas, houve em 1992 uma edição pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo das cartas de Graciliano para a noiva Heloísa Ramos, publicação comemorativa do centenário de nascimento do autor, com o título Cartas a Heloísa e prefácio de José Paulo Paes: Amor/humor por via postal –  volume publicado no mesmo ano também pela editora Record com o título Cartas de amor a Heloísa.

 

[126] M. M. de Sant’Ana, A face oculta  de Graciliano Ramos, p. 87, 89.   

 

[127] O soneto foi publicado posteriormente em O Malho com as variantes tal como estão acima transcritas: O Malho, nº 456, 10-06-1911, ed. 456, t. 37. Para a publicação de Argos, nº 5, janeiro de 1911, ver reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 89, cuja versão apresenta “Ela põe-se a grasnar”, no sétimo verso, e “De ossos mexe e remexe”, no décimo terceiro.

 

[128] A limpidez racionalista de S. Bernardo irá filtrar essa percepção aterrorizante da coruja, marca psicológica do impressionável Graciliano, para transformar seu pio no gatilho que instiga o sentimento de culpa em Paulo Honório.

 

[129] A Caixa do Malho, O Malho, 15-10-1910, ed. 422, t. 23, respondeu à carta de Soeiro Lobato: “(Viçosa) – Ficamos cientes do pedido; como, porém, a poesia é enorme e os tempos andam bicudos em questão de tempo, ficam a leitura e o parecer para quando houver mais”.

 

[130] Fernando A Cristóvão, em Graciliano Ramos, poeta, p. 71-74, ao reproduzir o poema considera exagerada a menção a um “abrasador setembro” para o ciclo europeu das estações do ano, que certamente o jovem Graciliano conhecia através de leituras. Entretanto, o soneto II é o momento do verão e existem registros na Europa de eventuais ondas de calor abrasador relativos ao final da estação. (Entretanto, num trecho marcante para Graciliano, o capítulo XLII de Le mie prigioni, Silvio Pellico disse: “Finì la state; nell’ultima metà di settembre, il caldo scemava”: “Acabou o verão; na última metade de setembro o calor diminuía”). Em Cartas, de 27-10-1911, para Pinto Mota Lima, p. 17-18, ao insinuar que o pseudônimo de um poema publicado no Jornal de Alagoas era do amigo, Graciliano manifestou sua preocupação com registros coerentes do tempo quando ironizou que “Rui d’Alcântara” tivesse visto “estrelas numa noite tempestuosa de junho”. A seguir, finalizou: “Mas deixemos em paz o Alcântara (cujo trabalho agradou-me, tirando-lhe os trovões, é claro)”. 

 

[131] C. Ramos, Mestre Graciliano, p. 34. No período em que Graciliano escreve as cartas de Maniçoba, junho e julho de 1911, ele tinha 18 anos. Em Cartas,  do Rio, de 10-07-1915, p. 63, para a irmã Leonor, Graciliano, aos 22 anos, escreveu: “Tuberculosa, tu? Estás doida? Não digas tolice. Tu estavas gorda quando de lá vim. Eu, que sempre fui magro, graças a Deus, nunca pensei em tal doença”. Eneida lembra, em Diário de Notícias, 15-04-1962, ed. 12098, t. 38, 41, que, vivendo no Rio, o ex-companheiro de prisão apareceu-lhe dizendo com as mãos que estava com um buraco “deste tamanho” no pulmão, exagerando a medida para além dos limites do peito.

 

[132] Cultura Política, nº 5, julho de 1941, ed. 5, t. 242-243, “Ciríaco”, coletada postumamente em Viventes das Alagoas, p. 40-44. Ver: Catálogo de manuscritos AGR, p. 160, manuscrito de 02-06-1941.

 

[133] Ainda em 1921 e nos anos seguintes, O Índio fazia piadas sobre a vinda da estrada de ferro, de Quebrangulo, onde foi inaugurada em 1912, para Palmeira dos Índios, que viria a ser inaugurada somente no final de 1933, como indica: < https://www.ipatrimonio.org/patrimonio-cultural-ferroviario-iphan/ >.

 

[134] As datas de publicação em O Malho, do poema acima e dos seguintes, explicam a preocupação do poeta em garantir que seus exemplares fossem preservados.

 

[135] Cartas, de 19-06-1911 e de 21-07-1911, p. 15-16. Padre João Inácio e José Leonardo seriam,  cada um por sua vez, título e capítulo de Infância.

 

[136] Ver comentários a respeito em C. Ramos, Mestre Graciliano , p. 34-35.

 

[137] “Rua”, na linguagem sertaneja, significa qualquer núcleo urbano, em contraposição às circunvizinhanças rurais, tal como o termo é empregado por Paulo Honório, em S. Bernardo, capítulo 4.  

 

[138] Crônica publicada em Cultura Política, abril 1942, ed. 14, t. 197-198, e postumamente em Viventes das Alagoas, p. 80-81. Ver: Catálogo de manuscritos AGR, p. 162: manuscrito de 07-03-1942.

 

[139] Essa referência aspeada a “república”, uma das poucas, se não estiver com outro sentido, sugere que Graciliano buscou residir fora do ambiente familiar logo após a mudança para Palmeira dos Índios, já que a publicação desse “Perfil” é de meados de 1911. Outras menções a respeito aparecem em Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 40: “Pelo fato de andarem alguns de seus alunos gazeando as aulas, desorganizando-lhe os programas, resolvera suspender o curso noturno. Positivamente cacete desasnar cavalos-de-pau assim. Mas sua república, instalada na Rua de Baixo, paredes meias com os Matos Moreira, nem por isso deixava de viver cheia de jovens, que iam para ali realizar suas assembleias literárias”. Também C. Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 36, depõe a respeito: “O salário ganho no balcão e a renda das terras, modestamente referidas como ‘minha fazendola’, apoiam as aspirações de independência. O rapaz deixou de residir com a família, e sua república, na Rua de Baixo, vive agitada pelas discussões literárias”. (A experiência pode ter influído na configuração, a partir de 1924, da pensão onde reside João Valério, em Caetés).

 

[140] Depois de tantas variantes e pseudônimos, o nome com o qual Graciliano se consagrou já aparece nessa menção de 1911. Texto transcrito por M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 93, e A face oculta de Graciliano Ramos, p. 59-60. O pesquisador sugere que “Nababo” seja pseudônimo de Joaquim Pinto da Mota Lima Filho e lembra, a respeito da referida aparência enganosa de “misantropo e egoísta”, que Fernando Alves Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 68, rebateu com a “complacência irônica” de Graciliano a pecha de “mandacaru espinhoso” que se quis impingir a ele. 

 

[141] Rodolfo Mota Lima, “desterrado”, irmão de Joaquim Pinto, já tinha saído de Viçosa por essa época, como se pode depreender de Cartas, de 27-10-1911, p. 17, na qual Graciliano pede o número da residência de Rodolfo na Rua dos Arcos. Quando Graciliano e Pinto foram para o Rio em agosto de 1914, Rodolfo já residia na cidade. O oposto da visão de Infância, a poesia de Desterrado, sob inspiração de Buíque, representa a terra da meninice com saudade, assim como em Ritorno, publicada em O Malho de 09-08-1913 (ver abaixo).

 

[142] Em Cartas, de 27-10-1911, p. 18, ao amigo Pinto, Graciliano reclamou dos tipógrafos, que numa publicação alteraram o brunido, comentando com ironia:É verdade que bramido e brunido são quase a mesma coisa – quase não houve alteração”. De fato, no Correio de Maceió, aparece o marfim bramido, mas na publicação de O Malho, acima transcrita, não houve erro. 

 

[143] Correio de Maceió, 22-09-1911: disponível no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Maceió, em consulta local de 17-06-2013.

 

[144] Ainda na carta de 27-10-1911, Graciliano diz ao amigo Pinto: “Eu sou um mártir dos revisores e tipógrafos. Em dois sonetos meus houve estas encantadoras trocas: pranto  em vez de ponto, triste em lugar de tonto, bramido por brunido”. As alterações nesse poema atrapalham as rimas. 

 

[145] Publicado no Correio de Maceió, 01-10-1911, conforme registro de M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 83. Transcrito em Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 79, e – sem indicação da dedicatória, da epígrafe e do local – em Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 27. Publicado cerca de dois meses depois em O Malho, 09-12-1911, ed. 482, t. 37.

 

[146] Há registro do nome Bráulio Cavalcante relativo a um jovem poeta, cronista, que participou de agudas lutas políticas em Maceió. Formado em direito pela Faculdade de Recife, foi assassinado em praça pública, aos 25 anos de idade, pelas forças do governo local, a 10-03-1912 (cinco meses após a publicação de A aranha), quando liderava grande manifestação oposicionista, de acordo com informações de Etevaldo Amorim, “Braulio Cavalcante e o centenário de seu sacrifício”, Gazeta de Alagoas, 14-04-2012. Ver também, do autor, memorial sobre o episódio em:

< https://historiadealagoas.com.br/braulio-cavalcante-x-tenente-brayner-a-pena-e-a-espada.html   >.                                                                                                                                               

 

[147] Na publicação de O Malho, a epígrafe, acima corrigida, saiu estropiada. Ver: Silvio Pellico, Le mie prigioni, p. 79, Cap. XXVI. A tradução do trecho pode ser: “Dei igualmente atenção a uma bela aranha que revestia uma de minhas paredes” (agradeço os esclarecimentos de Edlena da Silva Pinheiro, que observa: o interessante na relação é que Pellico se inquieta com a ausência da aranha, no capítulo XLII).

 

[148] Correio de Maceió, 03-10-1911: disponível no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Maceió, em consulta de 17-06-2013.

 

[149] Francisco e Otávio Cavalcanti, irmãos, comerciantes bem estabelecidos em Palmeira dos Índios, foram os articuladores da candidatura de Graciliano a prefeito em 1927.

 

[150] Correio de Maceió, 06-10-1911. Reprodução fac-similar em M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos,  p. 91. É como se nesse poema Graciliano se despedisse da poesia de espírito solene e sentimental, assumindo o tom irônico e desmistificador que lhe caracterizou a obra madura. Entretanto o poeta a sério ainda continuaria na ativa por mais algum tempo.

 

[151] Se o plural “nós” quis indicar que a obra estava sendo escrita em dupla (apesar do pseudônimo único), poder-se-ia pensar em  influência de O mistério da estrada de Sintra, de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Durante a juventude, Graciliano já apresentava alta qualidade de texto, com traços de linguagem à portuguesa,  em formulações como “estávamos a escrever”.

 

[152] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 83, localiza, comenta, indicando, portanto, ter tido acesso ao texto, mas não transcreve  a resenha “Literatura”, publicada com o pseudônimo de Soeiro Lobato no Correio de Maceió, 04-10-1911. Segundo o pesquisador, o jovem Graciliano critica a tradução italiana de O caçador de esmeraldas, de Olavo Bilac, realizada por Carlo Parlagreco (Il cacciatore di smeraldi, Roma, G. Romagna & Ca., 1908): “classificou a tradução como ‘caricatura da obra de Bilac’, inclusive porque logo na primeira sextilha havia quatro versos quebrados, número que afirmou chegar a cerca de 150 em todo o trabalho”. No Catálogo da Exposição Biobibliográfica de Graciliano Ramos comemorativa dos 50 anos do romance Caetés, em novembro de 1983, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 22, o registro de Moacir Medeiros de Sant’Ana sugere que um exemplar da resenha publicada foi exposto na ocasião. Mas permaneceu inédita.

 

[153] Cartas, de 27-10-1911, p. 17-18.

 

[154] M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 15, não indica o nome da peça. Graciliano, em Infância, Mário Venâncio, p. 236, situando-se cerca de dez anos antes de Palmeira dos Índios e da Escola Dramática Palmeirense (1913) mencionada por Marili, relembra o contexto de seus onze, doze anos (1904) em Viçosa e a organização da Escola Dramática Pedro Silva: “E, depois de numerosos ensaios, levaram à cena O Plebeu, que arrancou lágrimas da plateia”.

 

[155] Transcrito em: F. A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 79-80, e em  M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 28.

 

[156] F. R. A. de Barros, ABC das Alagoas, tomo R-Z, p. 331, sobre José Tobias Neto, faz referência a José Tobias Filho, da Farmácia Tobias, em Palmeira dos Índios. José Tobias Filho é mencionado como ex-intendente da cidade em O Índio, 01-10-1922, ed. 86, t. 5, jornal onde seu nome aparece rotineiramente. Em Cartas, de 10-07-1915, Rio de Janeiro, p. 63, Graciliano diz à irmã Leonor: “Dediquei a um amigo daí um soneto que se intitulava Cobra Mansa, e o homem ficou pensando que eu lhe havia chamado cobra... ”; “Que penetração imensa!!!!!!!! Salta!!!!!!”. Anos depois, quando Graciliano acabava de sair da cadeia, em 1937, noticiou-se no Rio de Janeiro que estabelecimentos de Palmeira dos Índios fecharam suas portas em sinal de pesar e protesto por “José Tobias” ter perdido eleição: A Noite, 11-03-1937, ed. 9007, t. 8. João Condé, em seus “Arquivos implacáveis”, O Cruzeiro, 29-12-1956, ed. 11, t. 41, publicou carta do período em que o jovem Graciliano viveu no Rio:

Rio, 21-11-1914

 

Caro Tobias

 

Tenho o pressentimento de que estou a escrever a um personagem muito grande, a um chefe político, um intendente ou coisa parecida. Sim, porque me parece que seu nome saiu vitorioso das urnas, para felicidade dessa pequena parte da nação (não vá ler danação), escolhido pelo bom senso dos eleitores, etc., etc., etc. Se assim aconteceu, envio-lhe meus parabéns. Ora, meu caro Tobias, estou arrependido de não haver aceitado a recomendação que você me queria dar para um dos ministros do finado Hermes. É possível que eu hoje tivesse um bom lugar, graças a essa pequena blague que você queria preparar... A propósito de Hermes, você já sabe que essa criatura levou grandes vaias e que houve aqui um princípio de revolução na posse do novo presidente? Um barulho dos diabos: tiros, mortes, ferimentos, a redação do “País” esculhambada pelo povo, os lampiões da “Light” quebrados... Tudo muito desagradável...  O pior é que, em minhas cavações, não tenho conseguido arranjar um emprego em nenhum jornal. Imagine um homem como eu reduzido ao mísero papel de suplente de revisor! É uma injustiça! Esses jornalistas idiotas não sabem compreender o valor de um indivíduo que, apesar de modesto, se pode gabar de ter sido professor em Palmeira dos Índios!... Um professor que dava aulas, diante de um bando de moças, vestido de pijama... Tenho saudades de Palmeira, Tobias, palavra d’honra. Mas parece-me que essa querida cidade serrana perdeu muito, por causa dos medonhos automóveis que por lá chegaram, segundo me disse o Miguel. O que nela tem valor é a graça que a natureza lhe deu, é essa vista magnífica, essa paisagem estupenda. Ah! os horrorosos automóveis trepando o dorso desses montes azuis e quebrando as pernas dos pobres matutos espantados! Detesto os automóveis: cheiram muito a civilização. Acredite você que eles são piores que as varíolas e a bubônica. Disseram-me que por aí tem havido ultimamente grandes revoluções. Eu imagino as representações dramáticas, os bailes no “Externato”, os leilões, os dobrados da Santa Cecília... Você, que vive enganando a humanidade incauta com suas drogas, o que devia fazer era arranjar uns cobres largos e vir passar uns dias aqui. Imagine que grande quantidade de mentiras você não podia contar quando voltasse, aí, na esquina de seu Antero, cercado por um bando de basbaques que haviam de acreditar em todas as pilhérias que você dissesse. Podia dizer, por exemplo, que tinha visto um médico arrancar um pimpolho da barriga de uma mulher, munido de um rolo de barbante e de um bocado de azeite de carrapato... Lembra-se? Impagáveis aquelas coisas, hein? Não posso continuar a escrever, porque há aqui perto de mim, no andar térreo do prédio em que moro, um galego muito burro a gritar, falando sobre espiritismo. Adeus. Recomende-me a D. Maria Luiza, dê lembranças a alguns amigos que temos por aí, parece, e disponha do amigo

                                                                                                                              Graciliano

                                                                                                            Largo da Lapa  – 110 – 1º andar.

 

[157] Agradeço a Afonso Henrique Fávero as reproduções desse poema e do seguinte, homônimo, obtidas na Biblioteca Pública Estadual de Sergipe, seguida a indicação de M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 18. A partir de 2012 também esses poemas tornaram-se disponíveis para consulta on-line na Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.

 

[158] Nesse poema e no anterior, os títulos repetidos sugerem o exercício da forma fixa, possivelmente aprendida em Olavo Bilac, Guimarães Passos, Tratado de versificação, p. 154: “Ultimamente, alguns poetas do Brasil adaptaram à métrica nacional a balada francesa, típica, cuja forma foi fixada por Villon e Marot, com três oitavas, em redondilhas (setissílabos), ou em octossílabos, com  as mesmas rimas, e seguidas de uma quadra em que as rimas se repetem”. Em Cartas, de 18-02-1914, p. 25, Graciliano demonstra estudar rotineiramente o Tratado.

 

[159] Mais uma vez, como em O piolho, acima, rompendo com a dicção solene, Graciliano parece entrar pelo caminho desaforado de sua expressão madura.

 

[160] Logo a seguir, em O Malho, 07-09-1912, ed. 521, t. 41, seria publicado, sem assinatura, um soneto mais herético que esse:

 

O Beijo

                       Para o Guedes Quintella

 

Dizem, não sei, que o Galileu um dia

Depôs nos lábios de gentil hebreia

Um beijo santo, mas que traduzia

Todo o calor de um filho da Judeia.

 

E narram, também, que ela, com alegria,

Outro em paga lhe deu – uma epopeia!

Tendo portanto o Cristo primazia

De ser o eleito da formosa hebreia.

 

Eu nada afirmo desse idílio santo:

Porque não creio que Jesus tivesse

U’a amargura que durasse tanto...

 

Mas, se o Cristo pecou (causa bendita!)

Foi p’ra lembrar que o mundo mantivesse

A lei do beijo na mulher bonita!

 

Maceió, Alagoas       Valei-me meu Santo Antonio

 

O ambiente intelectual de Alagoas, a crer na localização indicada, mostrava-se propício a gerar um soneto como este, como se presume, a seguir, pelo contexto de Guedes Quintella, a quem o poema é dedicado. Pode-se incluir nesse contexto a irreverência do jovem Graciliano, que além disso apresentava como característica de seu estilo expressões ponderativas, pouco líricas, como “dizem, não sei”, “eu nada afirmo”, “não creio”. F. R. A. de Barros, ABC das Alagoas, tomo F-Q, p. 751-752, registra o verbete QUINTELA, José Guedes (Maceió AL 20/4/1896 - - ) com as seguintes informações: jornalista, advogado, delegado de polícia. Estudou no Colégio 15 de março e no Colégio Diocesano, em Maceió. Cursou a Faculdade de Direito do Recife e a da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1914, juntamente com Romeu de Avelar, Aljamar Mascarenhas, José Portugal Ramalho e Amarílio dos Santos lançou a revista literária Frou-Frou. ("Em 1914, em Maceió, a revista Frou-Frou era lançada”; "Publicada pela Tipografia Fernando Costa, a revista teve apenas um número, devido a dificuldades financeiras", segundo informações em: < https://bndigital.bn.gov.br/dossies/periodicos-literatura/personagens-periodicos-literatura/romeu-de-avelar/ >.  Ver também: < https://historiadealagoas.com.br/romeu-de-avelar-o-assovio-de-cobra-de-alagoas.html >).

 

[161] Conforme dados disponíveis em < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >, Marili (Maria Ramos de Oliveira), nasceu em Viçosa, 14-01-1907 e faleceu em Paulo Jacinto-AL, 11-07-1987. Era, portanto, cerca de quatorze anos mais nova que Graciliano.

 

[162] M. Ramos, Graciliano Ramos, p.  25.

 

[163] O interesse pelo Almanaque do Malho explica-se pela avaliação do Dr. Cabuhy Pitanga, publicada na Caixa do Malho, O Malho, 31-08-1912, ed. 520, t. 24: “Manoel Maria Soeiro Lobato (Buíque – Pernambuco) – Bem-vindo seja o poeta! Todas as poesias belíssimas. Algumas sairão no Almanaque do Malho, para o qual pedimos-lhe, desde já, mais alguma colaboração”.

 

[164] Cartas, de 07-02-1913, p. 19-20.

 

[165] O poema tem uma atmosfera de O morro dos ventos uivantes, que seria uma das obras de fundo de S. Bernardo. Ver: Kalina Paiva, S. Bernardo dos ventos uivantes.

 

[166] Transcrito em Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano Ramos – vida e obra, p. 14-16. A “minha infância, límpida e tranquila”, em Buíque, desenhada aqui pelo convencionalismo do fingimento poético, será revirada pelo avesso a partir de 1938 com o ritorno à Infância sombrio, escavado pela precisão de uma geométrica arqueologia.

 

[167] O Malho, 20-09-1913, ed. 575, t. 47: três anos depois da publicação de Argos, nº 2, o poema foi republicado em O Malho com erros  (ver acima).

 

[168] A idade de Pinto é indicada por Graciliano em Cartas, de 22-02-1914, p. 27.

 

[169] A narrativa Sudra, o poema As estrelas, de Graciliano, e os poemas Désillusion, Mirage, de Joaquim Pinto, não foram localizados em publicações. Anos mais tarde, em Cartas, de 08-12-1921, p. 77, respondendo a Pinto, o viúvo Graciliano, aos 29 anos, disse que nem se lembrava mais do nome Sudra, e na carta de 01-01-1926, p. 80, aos 33 anos, contou ao amigo que queimara umas resmas de manuscritos encontradas no armário de sua estante. O Catálogo eletrônico do IEB, Arquivo Graciliano Ramos, registra no acervo, pasta “Manuscritos recebidos de autores não identificados”, o autógrafo, poema, com o título “As estrellas”, datado de 19-02-1913: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 9> manuscritos recebidos de autores não identificados:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229213 >.

Agradeço a Francisco Roberto Papaterra Limongi Mariutti a consulta local no IEB e a reprodução do manuscrito. A letra, caso seja de Graciliano, não apresenta seu desenho característico firmado na maturidade. A assinatura, datada de 19-2-1913, ilegível, tem traços decifráveis de “Soeiro Lobato”. As cartas que mencionam poema sob o título “As estrelas” são de 1914, mais de um ano depois da data anotada no manuscrito. Em 22-02-1914, ao amigo Pinto, Cartas, p. 27, Graciliano diz: “Escrevi ultimamente As Estrelas... Se o Padilha me der tempo, tirarei aqui uma cópia”, e em 13-04-1914, a Pinto, Cartas, p. 28: “Queres crer que a última coisa que me saiu da cabeça foi aquele pobre Estrelas?” O manuscrito apresenta o seguinte soneto, sob o título “As estrellas”:

 

Quando, na grande paz da noite, me revelas

Coisas santas, Amor, e confissões te faço

Ao tremulo fulgor dos astros que no espaço

Brilham, –  pontos de luz, doiradas sentinellas –

 

Escondes muita vez as pupillas tão bellas...

O teu braço gentil pulsa junto a meu braço...

Pedes que te não fite e que olhe o brilho escasso

Que, em chuva de oiro, vem cahindo das estrellas.

 

Olha-me, Amor...Entreabre as palpebras cerradas...

Olha mais...Junto a ti, quem pode os olhos fitos

Ter nas constellações na abobada espalhadas?

 

Que se fundam num beijo o meu olhar e o teu...

Olha-me assim, Amor, que os teus olhos benditos

Brilham mais, fulgem mais que as estrellas do ceo.

 

[170] Referência a Pautila Cavalcanti, sobrinha de Francisco Cavalcanti,  como se informa em Cartas, p. 221 e p. 223, nota 3. As formulações anteriores podem ser referências a Dr. Helvécio (carta de 18-02-1914 e de 08-12-1914, p. 25 e 41), à professora d. Luz (de 08-12-1914), a Olímpia Cavalcanti, irmã de Francisco e Otávio (de 09-02-1915) e a Maria Augusta, namorada e futura esposa de Graciliano.

 

[171] Mais de uma vez Graciliano correlaciona o sobrenome “Cavalcanti” ao campo semântico de “cavalgar”.

 

[172] Em Cartas, de 22-02-1914, p. 27, Graciliano perguntava provocativo: “Que é da flor?”

 

[173] Cartas, 02-02-1914, p. 21-22.

 

[174] Cartas, 18-02-1914, p. 25-26.

 

[175] Cartas, 13-04-1914, p. 27-29.

 

[176] Referência a Maria Augusta de Barros, sua futura esposa em 1915. Ver: Cartas, p. 223, nota 3.

 

[177] Ver a respeito, acima, o soneto Na igreja, de Soeiro Lobato: O Malho, 31-08-1912, ed. 520, t. 46.

 

[178] A referência não se esclarece no contexto dessas cartas. L’enfant sublime é a conhecida alcunha de Victor Hugo, que perdurou até sua maturidade, desde que assim Chateaubriand o saudou como criança prodígio e jovem poeta premiado. Ver: Graham Robb, Victor Hugo – uma biografia, p. 90.

 

[179] Além de A origem das espécies de Darwin e O capital de Marx, há registros de: A adega, 1905, romance de denúncia social, por Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928), Napoleão – o pequeno, 1852, o ataque satírico do exilado Victor Hugo (1802-1885) a Napoleão III, A campanha de 1812 na Rússia, 1835, do general prussiano teórico da guerra, Carl von Clausewitz (1780-1831), sobre a derrocada napoleônica.

 

[180] Os “alexandrinos sem sentido”, marcantes para sua predisposição às ideias claras e distintas, reaparecerão em crônica de Graciliano publicada durante sua estada no Rio de Janeiro. Ver: Linhas tortas, p. 19, crônica IV, jornal Paraíba do Sul, 15-04-1915.   

 

[181] Cornucópia 

 

               Para esse monstruoso Cordeiro Manso:

 

Nas concretizações iminentes de amores,

Desabrochando ao som de clarins infernais,

Por entre a escuridão de alvores vesperais,

Há quem possa acalmar os tétricos pavores?

 

Que me rebente da alma, ó cambiantes fulgores!

A candidez do afeto em pobres madrigais

Sentidos, traduzindo, em rimas não triviais,

O que venho guardando em meu cofre de dores.

 

Cale a musa, não diga, essa enorme excrescência,

Esse amor inclemente abafado na essência

Da versificação mais dorida do mundo.

 

Se a ti me não confesso, é talvez barbarismo,

Que me vem lacerando o despenhar no abismo

Para onde já me arrasta o rabiscar profundo.

 

Viçosa – Alagoas           Polycarpo Iapuru

              

 

O Malho, 07-02-1914, ed. 595, t. 37. Quanto à dedicatória, há referência ao nome em Infância, Mudança, p. 169: “Descansamos uma tarde em casa do poeta popular Cordeiro Manso”, e em Viventes das Alagoas, Dr. Pelado, p. 92: “Pelado era cantador, inimigo de Pacífico Pacato Cordeiro Manso, natural de Quebrangulo e quase parnasiano”. Pacífico Pacato Cordeiro Manso nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1865. Entre 1916 e 1926 residiu no Sul do país nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Poeta de grande reconhecimento no seu tempo, Cordeiro Manso dedicou-se a escrever, principalmente, romances, entre os quais se destaca: Casamento e mortalha no céu se talha. Morreu em 1931 em Maceió, como indicava (acesso em 2014): < casaruibarbosa.gov.br/cordel/lista_poeta.html >.

 

[182]  Além de ironizar os procedimentos poéticos epigônicos, Pinto Mota Lima alcança uma expressão estética mais sofisticada que a de seu parceiro a sério, como em “venho guardando em meu cofre de dores”, “o despenhar no abismo para onde me arrasta o rabiscar profundo”, e, abaixo, “como um bloco de pedra em constante delírio”. Considerar estes versos “coisa sem sentido”, “o fruto mais perfeito da parvoíce humana” parece, portanto, exagero do Graciliano de ideias claras e distintas. De qualquer modo, no outro poema, enviado a seguir, o Dr. Cabuhy Pitanga detectou intenção piadista de Pinto Mota Lima, limitada talvez ao espirituoso título, “Caracolizações psíquicas”, e vetou para a página dos versos a publicação, reproduzindo-o apenas na seção de correspondência, a Caixa do Malho, 07-03-1914, ed. 599, t. 12, repetido em O Malho, 21-03-1914, ed. 601, t. 13-14:

 

Polycarpo Yapuru (Viçosa – Alagoas) - Está muito bom para esta Caixa o seu soneto – Caracolizações psíquicas, gentilmente dedicado ao signatário desta seção. Ei-lo, pois, para regalo de alguns novos que ainda se deliciam com o defunto nefelibatismo ou cousa que o valha:

 

Caracolizações psíquicas

 

Deslumbrante beleza em planície nevada;

Revérberos de luz no alvorecer da luta;

As pulverizações dos marasmos do nada

São como em negra esfera altos cimos de gruta.

 

Contemplo a robustez da musa alcandorada,

O coruscar fulgente, em crescendo, a voluta

Espiralando branca ao sabor da nortada,

A bramar, a luzir, na faina horrenda e bruta.

 

Tal e qual é meu ser. Na amplidão do martírio,

Sofro as dores em si complacente e sublime

Como um bloco de pedra em constante delírio;

 

E se às vezes me empolga enervante moleza,

Em que o siso mergulha e que a voz não define,

É que a vida afundou na perenal chateza.

 

Agradecendo a dedicatória, fazemos votos pelo pronto restabelecimento do poeta...

 

[183] Les morts qui parlent (Scènes de la vie parlementaire), 1899, é obra de Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), um pioneiro na divulgação na França da literatura russa do século XIX. O romance é ambientado no Palais-Bourbon, onde a Assembleia nacional francesa é retratada com intrigas políticas e amorosas. Otto Maria Carpeaux, em História da literatura ocidental, v. 4, p. 2369, comenta o contexto do autor: “Ao comte Melchior de Vogüé ninguém atribuirá o papel de um reformador no reino das ideias. Mas a sua influência era grande. Desde que tinha revelado ao público francês os mistérios, aliás não muito bem compreendidos e interpretados, do romance russo, Vogüé passava nos ambientes literários por místico contaminado pelo espírito eslavo. Mas foi um tradicionalista de tradições bem francesas; nem pode ser considerado reacionário só porque tinha criticado, no romance Les morts qui parlent, os costumes políticos da Terceira República”.

 

[184] Ver: Cartas, p. 223, nota 11: rede de lojas espalhadas pelas cidades alagoanas.

 

[185] Cartas, 20-07-1914, p. 31.

 

[186] C. Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 35, na verdade refere-se a 1910, seguindo o que fora anteriormente registrado por Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 104: “em pleno período de férias, em 1910, se viu compelido a instalar uma escola particular na cidade”. Entretanto, a formulação do texto na carta de Graciliano, aos 21 anos, em 1914, contradiz a informação de que tenha se tornado mestre quando chegou a Palmeira dos Índios aos dezoito. Valdemar de Souza Lima faz menção ao preço da mensalidade cobrada por Graciliano: “20$000 (vinte mil-réis) por mês e por cabeça”. José Lins do Rego, “O mestre Graciliano”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 89-93, lembra que, quando se conheceram em 1927, o amigo lhe foi apresentado como “Professor Graciliano Ramos”, título que Graciliano imediatamente refugou com resmungo.

 

[187] Trecho enquizilante, parece referir-se a proxenetismo com adolescente.

 

[188] Cartas, 20-07-1914, p. 30, 32.

 

[189] Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 41. 

 

[190] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 16.

 

[191] Em Cartas, Rio, 20-10-1914, p. 39, a data citada corrige outras versões.

 

[192] Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 45. 

 

[193] Cartas, Viçosa, 21-08-1914, p. 33. A carta, localizada em Viçosa, contradiz C. Ramos, Mestre Graciliano, p. 37, quando sugere saída de Palmeira dos Índios de uma caravana de amigos, a cavalo, que acompanhou até Quebrangulo não só Graciliano mas também Pinto, “de onde seguem os dois viajantes de trem para Maceió, a fim de embarcar no Itassucé”. Contradiz também a nota introdutória ao período, em Cartas, p. 36, que indica 17-08-1914 como data de embarque para o Rio.

 

[194] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 87.

 

[195] 1914 -1915 – Rio de Janeiro

 

A data de chegada é registrada em Cartas, de 20-10-1914, p. 39, e de 08-12-1921, p. 76. M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 32, indica as datas acima, a de saída de Maceió a 24-08-1914 e a de chegada ao Rio cinco dias depois, a 29-08-1914, além de três endereços. Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 182, Graciliano menciona os endereços: “Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios”, e acrescenta: “A pensão do Largo da Lapa está em Angústia”; “Dagoberto foi meu vizinho de quarto”. [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho, Pensando em Graciliano. Diário de Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42, relembra o “nosso quarto da rua Riachuelo”. Em Cartas, 20-10-1914, p. 39, Graciliano indicou 19-10-1914 como data da mudança da Rua Costa Bastos, nº 88, casa 3, para a Rua do Passeio, 110 (Largo da Lapa), advertindo, p. 42, para que não confundissem com “Rua da Lapa, que é coisa muito diferente”. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 37, indica como endereço Rua das Marrecas, mas em Cartas, 04-02-1915, p. 48, Graciliano contou que, morando perto da Rua das Marrecas, passara por lá para ver o número 27 (endereço no enredo do folhetim cômico A família Agulha – ver a respeito nota abaixo), e na carta de 09-02-1915, p. 52, contou que Pinto estava dormindo em seu quarto depois de sair da casa de Rodolfo. Em julho, Cartas, 10-07-1915, p. 61, disse que “o Pinto ainda mora comigo”. Em 06-08-1915, p. 66, às vésperas de seu retorno para Palmeira, indicou o endereço: “Rua Maranguape nº 13”.

 

[196] Cartas, 20-10-1914, p. 38-41.

 

[197] Como se verá adiante, talvez entre os sujeitos antipáticos, um tornou-se depois amigo importante: Ildefonso Falcão, que atuava no jornal O Século, dirigido por Brício Filho (“Brício”, com “c”). Por outro lado, Graciliano escreve, finalizando o período: “O Brito também não fez nada. Promessas...”. Com relação ao nome “Brito”, há notícia em Correio da Manhã, 24-01-1934, ed. 12011, t. 5, sobre o falecimento de J. Brito, José Ângelo Vieira de Brito, natural de Palmeira dos Índios, político alagoano, com destaque no ambiente carioca do período como jornalista e teatrólogo.

 

[198] Cartas, 18-12-1914, p. 44.

 

[199] Cartas, nota 6, p. 223: “Pinga-Fogo”. Nome popular da rua de P. dos Índios, Rua José Pinto de Barros, onde residiam Sebastião Ramos e família.

 

[200] Cartas, 08-12-1914, p. 41-42.

 

[201] As duas cartas,  de 08-12-1914 e de 14-12-1914, somam duas referências a soneto e uma a artigo. Não há identificação nem localização precisa dessas produções, nem dos dois rapazes dos dois jornalecos. Quem sabe, deduzindo-se pela proximidade das datas, o artigo pudesse ser “Na Terra do Fogo as coisas estão frias”, publicado no Paraíba do Sul, em 07-01-1915 e o soneto pode ter sido o que foi publicado (“O velho tronco”) em O Malho, 19-12-1914, ed. 640, t. 30, não em um jornaleco.

 

[202] Cartas, 14-12-1914, p. 43-44.

 

[203] Como indicam as cartas, é possível que outros poemas tenham sido produzidos e publicados no período. Entretanto, não haverá mais referências às atividades do Graciliano-poeta a partir daí. Em O Malho de 1914 este é o único no período de sua estada no Rio, dentre os localizados. Fernando Alves Cristóvão em Graciliano Ramos, poeta, p. 77, atribuindo autoria a Graciliano, transcreveu e analisou um soneto sob título “Por quê?”, publicado em O Malho, 08-08-1914, ed. 621, t. 37, que posteriormente passou a ser reproduzido por vários autores, com autoria atribuída a Graciliano. O soneto é assinado por  A. d' Almeida  e  Cunha e não pelo pseudônimo Almeida Cunha ou suas variações Soares de Almeida Cunha e S. de Almeida Cunha, que, além disso, Graciliano usou principalmente de 1909 a 1910, passando a Soeiro Lobato a partir de 1911. Referências a “professor Jatyr Gomes”, a quem o soneto é dedicado, parecem ser de um professor com atuação em São Paulo (ver, por exemplo, Michele Varotto na dissertação As apropriações das ideias educacionais de John Dewey na antiga Escola Normal Secundária de São Carlos, p. 16. Também ao mesmo nome é dedicado um poema localizado em S. Paulo, de Rocha Ferreira, em O Malho, 05-01-1918, ed. 799, t. 37). Não seria estranho ao ateu Graciliano interpelar Deus, mas o tom subalterno e piedoso, expressões como “Régio ser” para designar solenemente o homem, a formulação cambembe de “Quisera aprofundar” e a concepção do soneto sobre as criações divinas não parecem ser aspectos característicos de sua autoria:

 

Por quê?

 

          Ao amigo, professor Jatyr Gomes

 

Destes, ó Deus! aos pássaros o canto,

À terra o sol e à noite o negro manto;

Destes a seiva à planta, o orvalho à flor

E cristalinas lágrimas à dor.

 

Destes à música o sublime encanto

E ao sofrimento o bálsamo do pranto.

Às virgens destes o rúbido pudor

Que as faces tinge o frêmito do amor.

 

À vossa obra mais bela, ao Régio Ser

da natureza, destes a Mulher.

Quisera aprofundar, porém, ó Deus!

 

Quisera do mistério os negros véus

Romper – Senhor, por que razão fatal

A tanto Bem juntastes tanto Mal?

 

       S. Paulo          A. d’Almeida e Cunha

 

Por outro lado, Graciliano, que incrementou em 1909 o pseudônimo Almeida Cunha, antepondo-lhe o “Soares de” ou, preponderantemente, a abreviação “S. de”, deparou-se, em O Malho, 31-07-1909, FCRB-ed. 359, t. 18, com A. Cunha assinando o soneto Saudade!, onde o poeta lamenta a morte da mãe e manifesta o desejo de juntar-se a ela nas delícias e hinos do reino de Deus.

 

[204] [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho, Pensando em Graciliano. Diário de Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42.

 

[205] As cartas de Graciliano citam apenas o nome “Falcão”, como jornalista e poeta. Anos depois de seu retorno a Palmeira dos Índios, o viúvo Graciliano perguntou a Pinto, em carta de 10-05-1921, p. 74, o que “Falcão” fazia em Buenos Aires. As crônicas de Ildefonso Falcão, diplomata já desde 1919, publicadas durante todos esses anos, principalmente na revista Careta, e notícias de imprensa indicam sua passagem por Barbados, Argentina e Alemanha. Curioso foi seu entrevero com a atriz e declamadora Singerman e seu marido empresário Stolek, em Buenos Aires: relata o caso sob o título “Singerman, Stolek, etc.”, que, com aparente inadequação editorial, foi publicado em capítulos na revista Verde, nºs 3, 4, 5. 1927, 1928. Posteriormente, atuou na Alemanha, promovendo relações problemáticas com o regime nazista para a fundação do Instituto Português-Brasileiro de Colônia, conforme dossiê na Revista Brasil-Europa-Correspondência Euro-Brasileira 124/7 (2010:2): ver especialmente “Voz do Brasil junto ao Instituto Português-Brasileiro de Colonia: Ildefonso Falcão e a propaganda dos estudos lusófonos de inserção política em Pernambuco nos anos 30”, como também artigos circunstantes, em: < http://www.revista.brasil-europa.eu/124/Indice_124.html >. Em 1933, como cônsul em Colônia, buscou facilitar a entrada no Brasil de judeus comerciantes, como se vê em:  < https://arqshoah.com >, arquivos. Sérgio Buarque de Holanda, conforme apontamentos biográficos da esposa Maria Amélia, na p. 12, em < https://www.siarq.unicamp.br/sbh/biografia_indice.html > , tinha Raul Bopp e Ildefonso Falcão como grandes companheiros na Alemanha por volta de 1930. Ver: Sérgio da Mata, “Tentativas de desmitologia: a revolução conservadora em Raízes do Brasil”, Revista Brasileira de História. Graciliano citou o nome completo de Falcão, mas sem outras remissões, quando disse, no texto “Conversa de bastidores”, Linhas Tortas, p. 248, que Ildefonso o apresentara a Guimarães Rosa em 1944. Vários periódicos, em torno de 1915, identificam Ildelfonso Falcão como poeta, jornalista de O Século e do Paraíba do Sul – como, por exemplo, o registro no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1917, ed. B00073, t. 1555. Em prefácio (posteriormente suprimido de outras edições) a Linhas tortas, 1972, p. 7, 9, Brito Broca refere-se diretamente a Ildefonso Falcão como o diretor do Paraíba do Sul que abriu a Graciliano a possibilidade de colaboração literária naquele jornal interiorano. Em Cartas,  10-07-1915, p. 60,  à irmã Leonor, Graciliano sugere que Falcão também atuava no Correio. Ildefonso Falcão publicou livros de poesia: Visão panteísta, que foi anunciado no Paraíba do Sul, quando Graciliano publicava ali suas crônicas e ainda se encontrava no Rio: ver, por exemplo, Paraíba do Sul, 17-06-1915, 15-07-1915, e a resenha de Osório Duque-Estrada em 26-08-1915 (Biblioteca Nacional, setor de periódicos - não disponível pelo sistema on-line no período desta pesquisa) e A Época, 06-08-1915, ed. 1077, t. 3. Publicou também o volume de poemas Meio-dia (ver: O Malho, nº 921, 08-05-1920, ed. 921, t. 31). Na referida carta de 10-05-1921, p. 74, o viúvo Graciliano comenta com Pinto o “último livro de versos” de Ildefonso, dizendo que nenhum dos poemas ali supera o Job. Em resenha do livro Visão panteísta, o Correio da Manhã, 23-08-1915, ed. 6024, t. 2, reproduziu o soneto Job:

 

Job, que é a resignação, a indiferença,

arrastando-se pelas azinhagas,

ao invés de ir por onde a turba pensa,

não blasfema, entre cóleras e pragas.

 

Não. Mas talvez consigo se convença

de que, malgrado a lepra e as fundas chagas,

tem mais virtudes, muito menos doença,

que os sãos que o veem deitando pus às bagas.

 

É por isso que Job não desanima

– pois vive intimamente lastimando

essa hipócrita gente que o lastima...

 

E com a telha a raspar-se fala e acerta:

“que antes estar com a carne apodrentando

que a alma sentir em pústulas aberta!”

 

[206] Trata-se de conturbado episódio da eleição de Nilo Peçanha para presidente do estado (governador) do Rio de Janeiro. Entre julho de 1914 e janeiro de 1915, o Correio da Manhã e O Século, para ficar só com os jornais onde Graciliano conseguia o escasso trabalho, noticiaram um dos quadros mais representativos da República Velha. Candidato pela oposição ao governo, Nilo Peçanha, em meio a todo tipo de manobra, fraude e violência, ganhou a eleição de 12-07-1914. Novas artimanhas parlamentares, capangagens e coações policiais tentaram substituir seu empossamento pelo do candidato da situação, Tenente Feliciano Sodré, sob a batuta do poderoso Pinheiro Machado. Este, chefe do P.R.C. - Partido Republicano Conservador, eminência parda na presidência de Hermes da Fonseca (1910-1914), dava continuidade ao mando, como se debochava, nos inícios da gestão de Venceslau Brás (1914-1918). Como se depreende do noticiário da época, após Nilo Peçanha ter obtido um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, Venceslau Brás encaminhou aparato militar para garantir-lhe o direito da posse em 31-12-1914. Logo a seguir, porém, o presidente da república convocou o congresso para resolver o caso. Figuras como o prestigiado senador Rui Barbosa, líder do P. R. L. – Partido Republicano Liberal, e jornais de oposição deploravam o quadro atentatório aos princípios republicanos, assim como O Século, que manifestou sua repulsa ao perfil político de Nilo Peçanha, mas defendeu seus legítimos direitos e o respeito civilizatório ao Poder Judiciário. Graciliano escrevia ao pai em 09-01-1915, o dia marcado para a convocação do congresso, refutada por imensa manifestação popular de protesto, favorável a Nilo Peçanha. Um trecho do noticiário no dia da posse, em O Século, 31-12-1914, ed. 2570, t. 1, ilustra o clima do período, com destaque para o bairro malvisto na época: “Junto à ponte das barcas, numerosos grupos de indivíduos de feias cataduras, vestidos à moda da Saúde e apoiados em respeitáveis tatajubas, estacionavam em palestra”. “Quem atentasse demoradamente sobre esses tipos, descobriria sem grande esforço, os desordeiros de mais nomeada da Saúde e adjacências”. “Esse pessoal é que fora daqui, há dias, para Niterói, para garantir de qualquer forma a posse do Sr. Sodré”; “Misturados com esses cafajestes estavam vários soldados da polícia daquele estado, de infantaria e cavalaria”. Quando Graciliano diz  “parece que a coisa não acaba bem”, “o povo grita pelas ruas a valer, e os automóveis da ‘Assistência’ passam...”, ficamos sem saber se em relação aos transportados nos “automóveis da ‘Assistência’” ele alude a capangas, a presos ou a policiais. A aversão do jovem Graciliano a isso comprova-se com o mordaz diagnóstico da República Velha, em crônica que reivindica ironicamente revisão da constituição (“A constituição da república tem um buraco”) para que nela se insira o quarto poder, na verdade único: o dos chefes políticos do coronelismo – ver em Linhas tortas, p. 9-10, indicando publicação (não localizada) no Jornal de Alagoas, março de 1915. A crônica foi publicada (ou republicada) em O Índio, 24-04-1921, ed. 13, t. 2.

 

[207] Cartas, 09-01-1915, p. 45-46.  A respeito da hipótese de “o velho Cordeiro”, “boa criatura” e “português paupérrimo”, ter inspirado “Seu Ribeiro” em S. Bernardo, apresento considerações no artigo “Semente para S. Bernardo”.

 

[208] Trata-se de personagens de A família Agulha, folhetim humorístico de Luís Guimarães Jr., pelo Diário do Rio de Janeiro, entre 21-01-1870, ed. 21, t. 1, e 26-04-1870, ed. 114, t. 1, publicado a seguir em livro,  pela H. Garnier, 1870, e 1900. Graciliano refere-se ao início do enredo: Anastácio Temporal Agulha, depois de casar-se apaixonado pelo pé 47 de Eufrasinha Sistema, magrela e desengonçada, é demitido da Alfândega em razão dos mexericos da vizinha. O casal fica à beira da miséria, quando uma amiga rica de Eufrasinha a convida para uma visita a sua residência na Rua das Marrecas, 27, onde Anastácio oferece ao chefe da casa, Sr. Sacramento, serviços garantidos de cabo eleitoral para seu candidato Leocádio da Boa-Morte. Toma bastante dinheiro de Sacramento para a campanha e depois foge com Eufrasinha para Macaé. Ver: Luís Guimarães Jr., A família Agulha, 2003.    

 

[209] Cartas, 09-02-1915, p. 50-52. V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 97-98, informa que Olímpia era irmã de Francisco e Otávio Cavalcanti: “Dava-se, entretanto, que lá um dia Graciliano aceitava o convite de Chico ou de Otávio Cavalcanti para o jantar”; “Otávio, celibatário e rico armazenista, morava com uma irmã, também solteira, Olímpia, grande amiga e confidente do futuro escritor”; “Entretanto, ao solar da Rua de Baixo acudiam também moças e rapazes não só da família dos donos da casa como de outras a ela ligadas. Olímpia já sabia que aquela gente queria se recrear, abria a sala de visitas, ocupava o mocho do piano, começava a tocar”. Esse contexto, posteriormente, já no período da viuvez de Graciliano a partir de 1920, pode ter sido inspiração para o trio de Caetés: Luísa e os irmãos Adrião e Vitorino Teixeira.

 

[210] Os alagoanos Pedro da Costa Rego, figura de destaque no Correio da Manhã, e Álvaro Correia Paes, seu aliado, viveram alternadamente em Maceió e no Rio de Janeiro, entre atividades jornalísticas e políticas, como indica F. R. A. de Barros, ABC das Alagoas, tomo F-Q, p. 631-632. Anos depois, em 1927, Alagoas, no governo de Pedro da Costa Rego, Álvaro Paes seria um dos amigos articuladores da candidatura de Graciliano à prefeitura de Palmeira dos Índios, e a seguir seria o governador que recebeu seus relatórios. Em Cartas, de 10-05-1921, p. 74, Graciliano refere-se a Costa Rego como primo de Joaquim Pinto.

 

[211] Condições de miséria visíveis pela vestimenta foram aproveitadas por Graciliano para caracterizar o nordestino que procurava estabelecer-se no Rio de Janeiro: na burlesca crônica II, em Linhas tortas, p. 11-14, publicada no Jornal de Alagoas em 1915, o infeliz narrador encontra um conterrâneo desconhecido, que sabe tudo sobre ele – com acréscimos – mas não sabe o seu nome, e chamando-o de "Vespasiano", "Tertuliano", "Valeriano", 'Feliciano", "Diocleciano", "Maximiano", dá piedosos conselhos de como vencer no Rio, enquanto examina o chapéu desabado, as botas sujas, a gravata torcida, o gracioso colarinho de sua vítima. Em Angústia, p. 27 [sexta seção], Luís da Silva relembra sua estada frustrada na capital federal: “Empregos vasqueiros, a bainha das calças roída, o estômago roído, noites passadas num banco, importunado pelo guarda. Farejava o provinciano de longe, conhecia o nordestino pela roupa, pela cor desbotada, pela pronúncia. E assaltava-o”, “– Trago um romance entre os meus papéis. Compus um livro de versos, um livro de contos. Sou obrigado a recorrer aos meus conterrâneos”.

 

[212] Pelo título, se não for um homônimo desrelacionado, fica a sugestão de que “A Carta”, de 1924, tido como prototexto de S. Bernardo, seria a retomada de um texto escrito em 1915. Mais de uma década depois, em Cartas, 01-01-1926, p. 80, o viúvo Graciliano disse a Joaquim Pinto, sem mencionar títulos e sem referir-se à retomada de qualquer texto anterior, que fabricara “ultimamente” dois contos, “dois tipos de criminosos”. Ver Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 54-55, 76-79, 89-92, a respeito das versões de 1924, “A carta” e “Entre grades”, respectivamente embriôes de S. Bernardo e Angústia.

 

[213] Graciliano acompanhava e construía o percurso da língua portuguesa sob a versão brasileira que lhe dava feição própria no padrão formal da escrita: assim, muitos de seus vezos de juventude aos poucos eram abandonados, como o “estávamos a escrever” à portuguesa, com infinitivo preposicionado para o sentido do gerúndio, ou o “lá”, frequente nessas cartas, que dá prioridade ao emitente para designar o “aí” dos destinários familiares de Palmeira dos Índios.

 

[214] São bastante confusas as informações sobre as publicações de Graciliano, enviadas do Rio de Janeiro para a coluna “Linhas tortas” do Jornal de Alagoas em 1915. Dados contraditórios se manifestam a partir da organização da coletânea realizada pelos familiares de Graciliano no volume Linhas tortas em 1962. Essa coletânea apresentou três crônicas como tendo sido publicadas no Jornal de Alagoas, assinadas por R. O.: a primeira, “A constituição da república tem um buraco”, referida ao Jornal de Alagoas de março 1915, encontra-se em O Índio, 24-04-1921, ed. 13, t. 2, na coluna “Traços a esmo” de J. Calisto. Teria ocorrido, então, seis anos depois, uma republicação da crônica em O Índio, mas Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 140, nota 37, informa que não encontrou o texto nas edições de 1915 do Jornal de Alagoas. Outro texto da época, localizado pela pesquisadora, “Na Terra do Fogo as coisas estão frias”, foi publicado no Paraíba do Sul. As outras duas crônicas no volume Linhas tortas-1962 são também datadas de março 1915: uma, sobre a troca de nomes que um infeliz Vespasiano ou Tertuliano ou Diocleciano etc. é obrigado a suportar quando encontra um conterrâneo no Rio; outra, sobre a depredação do monumento a Eça de Queiroz em Lisboa (atentado noticiado, por exemplo, no Correio da Manhã, 05-03-1915, ed.5853, t. 3). Sobre crônicas não publicadas em Linhas tortas-1962: Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 22, registrou a descoberta da crônica “Coisas do Rio”, assinada por R. O., publicada originalmente no Jornal de Alagoas de 06-03-1915, mas não fez nenhuma referência a possível vínculo com a coluna “Linhas tortas” que Graciliano iniciava no período. Além dessa, Moacir Medeiros de Sant’Ana descobriu uma segunda crônica no Jornal de Alagoas, de 18-04-1915, a qual o pesquisador registrou com o título genérico de “Linhas tortas”. Dentre as crônicas desse período não coligidas em Linhas tortas-1962, as disponíveis foram publicadas em Garranchos-2012.

 

[215] Tanto a semana santa quanto o cinema dos dias santos serão temas retomados por Graciliano: escreveu uma crônica hilariante sobre o jejum glutão na semana santa, em O Índio, 27-03-1921, ed. 9, t. 3, recolhida em Linhas tortas, p. 73-76, crônica IX, e, no capítulo 15 de Caetés, durante os festejos natalinos, um cartaz do cinema anuncia “Vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, programa que João Valério refuga.

 

[216] Duas obras hereges: o sarcasmo dessacralizador de A relíquia, de Eça de Queiroz, é um atentado à Semana Santa. Quanto à outra obra citada, ver: Charles Binet-Sanglé (1868-1941), A loucura de Jesus. Lisboa: Guimarães Editores, 1910. Para caracterizar a formação do quadro ideológico de Graciliano é interessante a avaliação da obra de Binet-Sanglé no ensaio de Benito Bisso Schmidt, “O Deus do progresso: a difusão do cientificismo no movimento operário gaúcho da I República”, cujo objetivo é examinar a difusão de teorias cientificistas, positivismo, antropologia criminal, espiritismo kardecista para a conformação de um estilo autoritário no movimento operário gaúcho do período, por onde o autor avalia na concepção positivista uma etapa de transição para o socialismo no Rio Grande do Sul, como, por exemplo, na confissão de Dyonélio Machado em Memórias de um pobre homem de que chegou por essa via ao socialismo. Diz Benito Bisso Schmidt: "Os exemplos dados até aqui referem-se quase exclusivamente à difusão das teorias cientificistas no âmbito da social-democracia onde, sem dúvida, esta foi mais acentuada. Contudo, também nos escritos produzidos pelos anarquistas é possível encontrar passagens reveladoras da valorização da ciência e da razão. No jornal libertário A Luta, por exemplo, pode-se ler uma justificativa científica para o anticlericalismo: ‘A religião é uma enfermidade. Assim o demonstra o dr. Binet-Sanglé, professor da Escola de Psicologia, de Paris, em uma notável série de estudos fisiológicos subordinados à epígrafe: As leis psicofisiológicas do desenvolvimento das religiões: ‘A religião tem como condição primeira a fé, que suprime a razão. Dahi o crente carecendo de equilíbrio intelectual é uma vítima assinalada para todas as sugestões’ ”. Quanto ao terceiro item de suas leituras, Graciliano nesse caso revela em seu convívio com a Bíblia o apego pelo evangelho do Sermão da Montanha e sua mensagem igualitária. Como vimos acima, Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 156, lembra-se das anotações irreverentes que o pai fazia às margens do Novo testamento e de sua predileção pelo Velho testamento: “Acha que o cristianismo sobrevive porque se encontra escorado nesse descomunal monumento literário edificado pelos judeus”.

 

[217] O quadro descrito pelas perguntas traz sinais do futuro Caetés.

 

[218] O gosto pelo bilhar marca presença em Graciliano até o período de Palmeira dos Índios e o enredo de Caetés. Tal afeição pelas forças retilíneas do jogo parece combinar com o estilo racionalista e geométrico do autor.

 

[219] Cartas, 02-04-1915, p. 54-56.

 

[220] O tema do nome errado foi constante em Graciliano, como se viu na crônica II de Linhas tortas, p. 11-14. No Paraíba do Sul, a primeira crônica saiu com a assinatura “A. O.”, ao invés da abreviatura de “Ramos de Oliveira”, R. O. – o que forneceu ótimo pretexto para o assunto da segunda, apresentada com reflexões zombeteiras sobre a negligência com os nomes dos outros, incluindo uma premonição – ver em Linhas tortas, crônica V, p. 20: “Penso sempre com desgosto que, se algum dia tiver necessidade de recolher-me a uma colônia correcional ou a um asilo de alienados, inda poderei ver minha firma transformada numa série de algarismos. Muito desagradável”. A partir de 1930, o nome “Graciliano Ramos” se consolidaria. Mesmo assim, as trocas de seu nome se tornaram anedóticas: em carta de Maceió, a Heloísa, Cartas, 30-03-1935, p. 145, ele diz sobre uma resenha de S. Bernardo: “O pior é que o homem me chama Gratuliano”. Em 28-02-1937, em meio a sua visita a São Paulo, ele escreve a Ló, Cartas, p. 180: “Os jornais disseram que chegaram e foram à festa dois escritores cariocas: o sr. Lins do Rego e o sr. Gratuliano de Brito. Esse Gratuliano de Brito tem-me atrapalhado a vida, é a segunda vez que me toma o lugar. Paciência”. Na festa dos 50 anos de Graciliano, Rubem Braga enviou lembranças do tempo em que moravam na pensão da R. Correia Dutra, no Catete: “Ah, naquele tempo você se chamava Brasiliano porque a dona da pensão achava que, cobrando seiscentos mil réis por quatro pessoas amontoadas num quarto, não tinha obrigação de aprender seu nome direito”; “Ah, Brasiliano, ganhava-se pouco, mas era divertido”: em Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 119-120.

 

[221] Linhas tortas, crônica VIII, p. 28. Trata-se de uma das primeiras manifestações publicadas de sua simpatia pelo cinema, que conduziu estruturalmente sua obra. Já em S. Bernardo, capítulo 16, p. 92, quando Paulo Honório despreza os livros, Madalena dirá: “Perfeitamente. O que há é que não estamos acostumados a pensar assim. Assisti um dia destes a uma fita de cinema, e creio que aprendi mais que se visse aquilo escrito”. Paulo Honório concorda: “E não se enche o quengo com estopadas”. Leon Hirszman ao filmar S. Bernardo (1972), declarou: “na verdade, eu filmara um verdadeiro roteiro cinematográfico já pronto” – em O Globo,  13-10-1973, IEB-Arquivo Graciliano Ramos (agradeço a Francisco Roberto Papaterra Limongi Mariutti o achado e a indicação do recorte).  Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 148-149, lembra-se de seu gosto por comédias de Frank Capra, por Charlie Chaplin, por atores como Leslie Howard e Katharine Hepburn. Sobre o período da redemocratização do país e o final da II Guerra em 1945, a autora diz, p. 166: “faz questão de levar uma filha menina para assistir aos documentários sobre os campos de concentração nazistas, deixa-a sair enauseada e trôpega do Cineac Trianon, em situação oposta ao estado de ânimo saltitante em que muitas vezes ali entrara com o pai para reprises de Fantasia (é homem de releituras e de repetir os filmes preferidos)”. Sobre a mencionada simpatia de Graciliano por Fantasia, é sugestivo um retrato da época, no Correio da Manhã, 20-06-1940, ed. 13995, t. 11: “A príncípio os cavalheiros mais respeitáveis ainda empurraram para as crianças o fanatismo pelo desenho animado. Depois cederam as derradeiras barricadas e ninguém mais negou o prestígio dos  bichos”. Walt Disney esteve no Brasil em 1941 em meio ao lançamento de Fantasia: ver, por exemplo, Correio da Manhã, 23-08-1941, ed. 14357, t. 11, em que se noticia seu encontro com Villa-Lobos. Um aviso do Cineac Trianon, em 1945, publicado em Diário de Notícias, 21-12-1945, ed. 7106, t. 2, diz: “A Direção do Cineac previne o seu distinto público que, a fim de não privar as crianças de assistir ‘PLUTO E A PRIMAVERA’, o primeiro notável desenho colorido de Walt Disney de após guerra, os filmes inevitavelmente brutais com as execuções por enforcamento e fuzilamento de nazistas na Alemanha, somente serão exibidos nas sessões a partir das 21 horas, ficando vedada, somente a partir desta hora, a entrada de menores de 14 anos”. Graciliano respondeu a enquetes sobre filmes: junto a Cândido Portinari, gostou do filme “A luz que se apaga” (1939, direção William Wellman), baseado na obra Rudyard Kipling, em sessão especial para intelectuais, promovida, conforme nota do Diário Carioca, 30-05-1940, ed. 3666, t. 6, e 31-05-1940, ed. 3667, t. 6, pela Livraria José Olympio, que publicava o livro; considerou admirável “A última porta” (1945, direção Leopold Lindtberg), visto em sessão especial, na companhia de Guilherme de Figueiredo, Raimundo Magalhães Jr., Murilo Mendes: “um dos melhores filmes que tenho visto nos tempos que correm. De um assunto bastante explorado, conseguiram extrair coisas novas, realmente magníficas”, disse ao Jornal de Notícias, 01-08-1946, ed. 92, t. 4. Entretanto, em entrevista de 1949, ao ser indagado sobre a possibilidade de Angústia vir a ser filmado, a exemplo do então recente “Terra Violenta”, adaptação (vexatória, na verdade) de Terras do sem fim, de Jorge Amado, Graciliano responde: “O assunto é mais para técnicos”; “Sou um leigo e nada entendo de cinema”, em ”Afirma Graciliano Ramos: ‘Não me considero escritor’ “, Folha da Manhã, 25-09-1949: < https://acervo.folha.com.br/issuePrint.do?key=p-223931&issueId=24521 >. Compreensível sob o aspecto “técnico”, no entanto espanta que Graciliano se diga “leigo de cinema” se lembrarmos que a observação de Leon Hirszman na verdade se estende para toda a sua obra de montagem. Ver a respeito meu artigo: A figura da grade.

 

[222] A coluna de Graciliano no Paraíba do Sul em 1915 tinha como título “Traços a esmo”, a mesma denominação que ele usaria anos depois, 1921, em O Índio: conforme a descoberta de publicações, localização, comentários e transcrição de trechos por Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 138, nota 31. Os organizadores de Linhas tortas, em 1962, agruparam a “Primeira Parte” do volume sob dois subitens: “Linhas tortas” e “Traços a esmo”. Coletaram no primeiro subitem, “Linhas tortas”, todo o período de 1915: três crônicas da coluna “linhas tortas”, do Jornal de Alagoas, e as treze crônicas dos “traços a esmo” do Paraíba do Sul. O subitem “Traços a esmo” acolheu apenas as crônicas de O Índio, de 1921.

 

[223] Como se verá no período de 1930, a expectativa de sucesso reduzida ao ambiente provinciano da cidade foi tematizada em Caetés, capítulo 8, nas veleidades de João Valério com seu romance empacado.

 

[224] Era muito comum, à época, esse tipo de título (ver a coluna de muitos anos assinada por Costa Rego, “Traços da semana”, por exemplo, Correio da Manhã, 15-03-1915, ed. 5863, t. 1, ou “Traços a esmo”, O Pharol, Juiz de Fora, 28-02-1912, ed. 49, t. 1). Graciliano aderiu com espírito irônico às fórmulas convencionais, tanto ao utilizar o provérbio “Deus escreve certo por linhas tortas” para indicar na precariedade da crônica a veiculação da verdade, quanto em “traços a esmo”, para indicar seu caráter casual.

 

[225] Os dois textos a resenha sobre o livro e o artigo não foram coligidos em Linhas tortas-1962. Em 1972, V. M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 138, registrou o achado de “Na Terra do Fogo as coisas estão frias” com a assinatura “Ramos Oliveira”. A pesquisadora transcreveu e comentou trechos do artigo, publicado no Paraíba do Sul de 07-01-1915, antes de que Graciliano começasse naquele periódico a coluna “Traços a esmo”, com treze crônicas entre abril e agosto de 1915, assinando R. O. Consulta ao exemplar do Paraíba do Sul disponível na Biblioteca Nacional, setor de periódicos, confirma a data. Assim, a datação de janeiro antecipa a carta de Graciliano, que diz ter recebido os convites sucessivos de Falcão após o carnaval de 1915, ou seja, meados de fevereiro. De qualquer modo, o convite poderia ter sido especificamente para a coluna “Traços a esmo”. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 22, também apresenta a localização de “Coisas do Rio”, assinada por R. O., publicada, entretanto, apenas no Jornal de Alagoas, em 06-03-1915. Sobre aquela primeira encomenda de Falcão, a “notícia sobre um livro”, os pesquisadores não dão informações.

 

[226] Como foi referido acima, Ildefonso Falcão, em agosto de 1915, publicou seu livro de poemas Visão panteísta. Já na edição do Paraíba do Sul, de 15-07-1915, anunciava-se o livro a sair “por estes dias, no Rio”, com preço e indicação de pedidos à redação do jornal.

 

[227] Não há notícias a respeito do álbum dessa poetisa e dos versos que Graciliano teria escrito nele.

 

[228] Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 182-183, Graciliano responde sobre suas relações de camaradagem literária no período:  “Nenhuma. Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os anos de 1914-1915, em que estive aqui, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque-Estrada, que então pontificava...” (Osório Duque-Estrada, autor da letra do Hino Nacional Brasileiro, assinou também uma resenha sobre Visão panteísta, de Ildefonso Falcão, publicada no Paraíba do Sul, 26-08-1915).

 

[229] Graciliano usa alternadamente como sinônimos “conto” e “novela”.

 

[230] Antes que em 1980 o acervo de Graciliano fosse entregue por Heloísa Ramos à curadoria do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB-USP (ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 13), Fernando Alves Cristóvão teve amplo acesso a ele, incluindo os documentos que não vieram para o IEB em 1980, como um que o pequisador descobriu, “O ladrão”, o único manuscrito então  localizado de contos dos tempos de 1915, sem que, entretanto, as possíveis publicações em periódicos deste e dos títulos acima fossem encontradas. “O ladrão”, dado como um texto embrionário da obra, abre o estudo minucioso sobre Graciliano realizado pelo crítico, que apresenta nos anexos reprodução fac-similar de trecho inicial e final do manuscrito: ver em F. A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, p. 3 e 228 (disponível na ed. de 1977 – pois o fac-símile foi suprimido na edição posterior). O conto foi retomado no ensaio de Fernando Alves Cristóvão, “Um inédito de Graciliano prenuncia a obra futura”, em Diálogos da casa e do sobrado. Estudos luso-brasileiros e outros, p. 135-141. Foi publicado na coletânea póstuma, Garranchos, 2012, p. 40-52. O atilado senso de autocrítica facultava a Graciliano, além da modéstia, diagnósticos como o que escreveu na dedicatória de um exemplar de Insônia a Pedro M. Maia “não sou contista, você sabe”: ver em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 143. “O ladrão”, entretanto, parece sobrepujar paradoxalmente por antecipação as dificuldades que a dureza geométrica de Graciliano enfrentaria na maturidade para lidar com histórias curtas isoladas em contos, ao contrário da riqueza construtivista que provou na articulação narrativa em quadros. Trata-se da história de um pobre-diabo que chega a uma loja ainda aberta em noite avançada, cujo comerciante, acompanhado pelo narrador, está na expectativa sovina de conseguir “algum freguês retardatário”. Mas o pobre-diabo retardatário, que efetivamente aparece, desperta suspeitas, é tido como “ladrão”. Assustado, acuado e apanhado, percorre sua via-crúcis da loja até a cadeia, surrado não só pela comunidade acordada que se aglomera, como também pelo narrador, pelos soldados e pelos presos que o recepcionam na cadeia. Na origem da sua produção ficcional o jovem Graciliano revela traços da autoria que serão permanentes, como a típica absorção das coisas vividas pelo artista de imaginação fraca e de pés no chão: a loja com a dupla equivalente ao pai e ao filho e o cenário limitado ao mundo que conhece: no caso, talvez a lamacenta Viçosa, com a estação de trem e os trilhos citados, já que Palmeira dos Índios estava à eterna espera da chegada da estrada de ferro. Alguns estereótipos-peças que reaparecerão na obra marcada por fixações do impressionável Graciliano aí já estão prontos: a “sentinela” de defunto, que acaba em furdunço, o “falando com pouco ensino”, os “cachações” nos desvalidos, como em S. Bernardo, o sistema de surra de facão, na cadeia, com golpes alternados, um nas costas, outro no peito, como em Fabiano, Vidas secas. Mas ao contrário da coesão moral subjacente à condução narrativa, que enrijece os contos de Insônia, “O ladrão” se articula com a mistura de uma aderência à comunidade fechada e linchadora, como demonstra o título que sentencia de saída o inocente, e de um mea-culpa crítico, que, mesmo sem confessar explicitamente o erro, espalha insinuações do equívoco e procura distanciar-se da cumplicidade com aquele mundo boçal, fazendo a ironia retroagir das últimas linhas para estremecer em interrogação a barbárie do título-carimbo estigmatizante, cuja acusação in limine havia determinado com artigo definido o andamento conivente da narrativa. O manuscrito descoberto por Fernando Alves Cristóvão traz a data: Rio - 27 -  julho - 191[4/5]. Entretanto, além da correção do último algarismo do ano, com 4 e 5 sobrepostos, não há qualquer outro sinal de substituição do título, acréscimo deslocado, sobreposição ou rasura (na hipótese de que “Rio” pudesse ter sido acrescentado sobre um texto vindo de Palmeira dos Índios). Fernando Alves Cristóvão não apresenta outras notícias a respeito. Se a data for de fato a da realização do conto em 1915, significa que “O ladrão” foi concluído mais de duas semanas depois dessa carta de 10-07-1915 à Leonor em que “O retardatário” já figurava pronto, entregue a Falcão e encaminhado. Mas não há indícios da publicação em periódico desse “O ladrão”, que pode ser visto como um dos melhores contos do autor. No catálogo da exposição Graciliano Ramos de 1963 – Biblioteca Nacional, item 8, a descrição "O ladrão" traz artigo definido e data corretos segundo manuscrito reproduzido e estudado por Fernando Alves Cristóvão. Mas certamente o enredo do conto não foi ponto de partida de S. Bernardo, como ali vem anotado. Já no item 56 do catálogo, há registro equivocado, com o título “O ladrão”, de outro conto, "Um ladrão", publicado em Insônia, um conto que Graciliano produziu na maturidade, após a prisão e o convívio com o ladrão arrombador Gaúcho. “Um ladrão” também foi publicado em coletânea precedente, menor, Dois dedos, de 1945. Ao contrário do então inédito “O ladrão”, “Um ladrão” além de tudo também apareceu em publicações circunstanciais de amostragem da obra de Graciliano:  Histórias incompletas, de 1946, e Histórias agrestes, de 1960. Para o catálogo da exposição de 1963, buscar “Graciliano Ramos” em:

< https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital >. Ver a respeito do desconhecido “O retardatário” e de “O ladrão”, considerações coincidentes de Carlos Benites de Azevedo, Entre crônicas, contos, cartas e pequenas histórias da república de Alexandre e dos meninos pelados, p.pdf. 195-196.

 

[231] Antonio Candido, em “Os brasileiros e a nossa América”, Recortes, p. 134, destaca a importância da Revista Americana como empreendimento de divulgação do movimento político do pan-americanismo, que promoveu no início do século XX a aproximação entre países latino-americanos. “Feita visivelmente por inspiração de Rio Branco”, a publicação, com variações de periodicidade e interrupções, existiu entre 1909 e 1919. Era dirigida pelo braço direito daquele ministro das Relações Exteriores que a instigou    o jovem diplomata Arthur Guimarães de Araújo Jorge, algumas vezes em parceria, outras substituído pelo também diplomata Silvio Romero Filho –  ambos sempre empenhados por sua qualidade gráfica e pela colaboração de “espíritos de alta fama”: assim noticia A Noite, 19-06-1915, ed. 1252, t. 4, o retorno da revista depois de um ano e meio fora de circulação – é o momento em que Ildefonso acena com a possibilidade de Graciliano ali publicar seu conto. Antonio Candido não menciona a revista Concórdia, órgão de divulgação da Sociedade Concórdia de Propaganda Sul-Americana, que tinha projeto correlato ao da outra, também com publicações em português e em espanhol principalmente. Notícias de imprensa relatam o primeiro encontro da sociedade em 1912 e a formação da diretoria, tendo como presidente Coelho Neto, como secretário o jornalista, da Gazeta de Notícias, Candido de Campos, o conde de Afonso Celso no conselho consultivo, e anunciam, às vésperas do lançamento da revista Concórdia, uma “grande festa de aproximação sul-americana no Teatro Municipal”: ver, por exemplo, Gazeta de Notícias, 07-08-1912, ed. 220, t. 2, e 10-08-1912, ed. 223, t. 1, A Época, 05-01-1914, ed. 525, t. 2, Correio da Manhã, 24-07-1915, ed 5994, t. 5. A edição de Cartas registra menção à Ilustração Francesa, mas havia no período, tendo certamente como modelo L’illustration, francesa, a revista Ilustração Brasileira, que, vinculada a O Malho, teve três fases, 1909-1915, 1920-1930, 1935-1958, e entre seus diretores Medeiros e Albuquerque, Álvaro Moreira e o conde de Afonso Celso, conforme informações em < https://museuimperial.museus.gov.br/ >, > dami> acesse a base> coleções> coleção revista Ilustração Brasileira. Todas as três revistas, de “sujeitos graúdos”, pautaram-se pela “colaboração rigorosamente escolhida” e pela alta qualidade gráfica, em papel couché. A revista Illustração Brasileira encontra-se disponível na internet pela Biblioteca Nacional. (Curiosamente, nessa publicação mencionou-se sob anticomunismo barato o Graciliano já consagrado: como “líder vermelho”, por ocasião do IV Congresso de Escritores e, após sua morte, como excelente prosador que “realizou obras de proselitismo” e “confessou em voz alta os seus sentimentos de adepto do credo vermelho”: ver em Illustração Brasileira, 11-1951, ed. 199, t. 40, e 01 e 02-1954, ed. 225, t. 22).

 

[232] Na verdade, a carta faz referência a quatro “novelas”, ou a cinco, se o “padre ordenado por mim” não pertencer ao enredo das anteriores. Embora Graciliano não especifique quais seriam as “duas” que ele poderia publicar na Revista Americana, ele tinha se referido a A carta e a O discurso, antes de Maldição de Jeovah, como sendo as primeiras que Falcão conheceu, oferecidas inicialmente junto a Um retardatário, para que ele então escolhesse qual encaminhar à Revista Americana. Alguns dos escassos sumários que nesse período anunciaram pela imprensa as edições da revista não mencionam nada que se aproxime dos títulos dos contos ou do nome ou dos pseudônimos conhecidos do autor, como se vê, por exemplo, no Correio da Manhã dos dias 18-07-1915, ed. 5988, t. 2, 10-08-1915, ed. 6011, t. 2. Não há nos acervos consultados referências à revista Concórdia com menção a Graciliano: ver, por exemplo, sem detalhes, sem sumário, a minúscula nota em A Noite, 13-08-1915, ed. 1307, t. 4. Três semanas depois de encerrar sua participação (05-08-1915) no Paraíba do Sul, na edição de 26-08-1915 (Biblioteca Nacional, setor de periódicos – não disponível na internet no momento desta consulta), foi publicada, também sem menção a Graciliano, uma nota de lançamento do quarto número da Revista Americana, com pequeno sumário.

 

[233] Graciliano passou a viver em Palmeira dos Índios aos dezoito anos, depois de muita leitura, quando já tinha produzido vários poemas e percebido seu mundo com acuidade, como testemunham as rememorações maduras de Infância relativas às percepções da criança.

 

[234] Ver observações acima, de Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 34, sobre suas suspeitas de tuberculose aos dezoito anos. Posteriormente, Eneida, no artigo “Graciliano Ramos – Viventes das Alagoas”, Diário de Notícias, 15-04-1962, ed. 12098, t. 38, 41, retomando uma publicação de 1949, de sua série de reportagens “Os ranhetas”, inaugurada com Graciliano, lembra que, entre a escrita de Vidas secas e o nojo da colaboração à revista Cultura Política, o ex-companheiro de prisão apareceu-lhe com ideias negras, dizendo que estava com um buraco “deste tamanho” no pulmão, as mãos hiperbólicas desenhando um espaço maior que o peito.

 

[235] Foi o que aconteceu dezoito anos depois, com Caetés: ”Várias pessoas se julgaram retratadas nele e supuseram que eu havia feito crônica, o que muito me aborreceu”: ver em “Alguns tipos sem importância”, Linhas tortas, p. 194-195.

 

[236] As publicações de poemas de Graciliano ocorreram a partir dos seus quatorze anos, mas eles podem ter sido produzidos aos treze ou antes.

 

[237] Dos dois jornais referidos por Graciliano, ficaram notícias apenas de A Tarde ver abaixo.

 

[238] Clodoaldo (1902-1915) morreu aos treze anos.

 

[239] Carta de 26-08-1915, p. 68. Em agosto de 1915 intensificaram-se anúncios bem chamativos na imprensa carioca sobre o novo jornal A Tarde. Em desenho de traços fortes sobre fundo branco, a mão que segurava uma plaquinha com o nome do jornal destacava-se dentro de um pequeno quadro claro na mancha tipográfica escura das páginas e era encimada pelo aviso: “Aparecerá no dia 1º de setembro”: propaganda  elogiada pelos seus divulgadores, que saudavam o surgimento do novo jornal, de alto nível, sob direção dos jornalistas Belisário de Souza Júnior e Anatólio Valladares: ver, por exemplo, Gazeta de Notícias, 22-08-1915, ed. 234, t. 8, Correio da Manhã, 01-09-1915, ed. 6033, t. 4. Graciliano disse que começaria a trabalhar em A Tarde no dia 16-08-1915, mas o “há três dias” mencionado na carta de 26-08 sugere que começou em 23-08-1915. Segundo o reclame, o jornal apareceria em setembro. Esse foi o período de sua volta para Palmeira dos Índios. 

 

[240] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 16. 

 

[241] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 16. Na entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 183, Graciliano diz: “Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela bubônica. Num só dia perdi dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que aqui levava, tratei de voltar para Alagoas”. Como Graciliano anunciava sua desistência desde maio, percebe-se que as mortes na família foram um impulso circunstancial para seu retorno a Palmeira dos Índios.

 

[242] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17.

 

[243] 1915 -1930 – Palmeira dos Índios

 

M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 31, indica o nome: Maria Augusta Amorim de Barros, mas em via (obtida em 21-01-1978) de certidão de casamento, reproduzida, por exemplo, em Cartas, p. 36, consta apenas Maria Augusta de Barros, de 21 anos de idade, com registro da idade possivelmente equivocado, pois ela teria 19 anos ao casar-se, de acordo com a data de nascimento indicada em: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ > : Maria Augusta de Barros, nascida em 1896, em Palmeira dos Índios, onde faleceu em 23-11-1920. 

 

[244] M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 17. 

 

[245] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 56. O autor indica, no momento da morte de Maria Augusta, p. 82, o endereço do casal na “Rua de Baixo”. A referência a esse endereço também aparece em < https://apalca.com.br/paraninfo/ >: “Maria Augusta de Barros Ramos viveu somente cinco anos na companhia do escritor, pois faleceu no parto de sua filha, no dia 23 de novembro de 1920, em sua própria casa, localizada na Rua de Baixo (atual R. Major Cícero de Góis Monteiro)”.

 

[246] C. Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 42-43. V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 82, 142, alude a segregação motivada pela “heresia”: “andara ela um tanto retraída da sociedade até que Graciliano tomara a sábia resolução de casar também no padre. Tudo se concertara assim de repente, e ela ficara reconciliada com o seu meio”, e ao relatar o namoro, no final de 1927, de Graciliano com Heloísa, informa que seu primeiro casamento, na igreja, ocorreu dois anos depois do civil: “Estava assim na cara que desta vez ele não iria engazopar os camaradas, como fizera em 1917 quando casara eclesiasticamente com Maria Augusta, praticamente ‘escondido’ – e fora mais longe ainda, batizando os filhos do casal, correndo por sua conta a escolha dos padrinhos”.

 

[247] Graciliano prometera à mãe em 1914, que, se não conseguisse nada no Rio, voltaria a Palmeira, aprenderia a comprar couro (como Delmiro Gouveia e Paulo Honório) e nunca mais abriria um livro (Carta de 20-10-1914, p. 39-40). A reportagem biográfica de Francisco de Assis Barbosa, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 42, registra que no início de sua viuvez o autor retomava os livros “depois de um longo período sem leituras”. Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 184, Graciliano conta que assinou vários jornais do Rio para acompanhar a Revolução Russa (1917). Em 1921, recentemente viúvo, respondeu de Palmeira dos Índios à carta do amigo Pinto, que havia ficado no Rio: “Há cinco anos não abro um livro” (10-05-1921, p. 74).

 

[248] Ver foto de Graciliano fardado, perfilado junto a outros colegas, em frente ao prédio do Tiro de Guerra nº 384, por exemplo em Cartas, p. 14, ou em Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 195, que na legenda data como “foto da década de 20”. No registro biográfico de Graciliano Ramos, como paraninfo da APALCA - Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes, consta: “Em 1916, o Governo Federal instala na cidade de Palmeira dos Índios o Tiro de Guerra nº 384, quando assentaram praça 120 jovens palmeirenses. Dentre eles estava o escritor Graciliano Ramos de Oliveira”: < https://apalca.com.br/paraninfo/ > . É estranho que um homem casado, com ares de adolescente na foto, tenha servido entre os 23 e 24 anos de idade, em 1916. Mas a data é verossímil: é o período da implantação do serviço militar no Brasil, promovido pela campanha em que se destacou Olavo Bilac – o que sugere ter sido Graciliano aderente às propostas do poeta. Ver a respeito do período, por exemplo: Dominichi Miranda de Sá, “A voz do Brasil: Miguel Pereira e o discurso sobre o ‘imenso hospital’ “. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35, entende que, juntamente com Cícero da Silva Pereira, Graciliano tenha servido entre 1920/1921, portanto com 28 anos de idade, viúvo e pai de quatro filhos no final de 1920. O Índio, 18-08-1922, ed. 80, t. 2, noticia a viagem de reservistas convocados para uma parada em Maceió, e cita, dentre eles, Graciliano Ramos. Em Graciliano Ramos: cidadão e artista, p. 297, Carlos Alberto dos Santos Abel sugere a possibilidade de Graciliano ter-se inspirado na numeração do Tiro de Guerra (mas o pesquisador não alude ao ano de 16) para compor o número do bilhete de loteria de Angústia em que Luís da Silva pensa obsessivamente: 16.384.

 

[250] Diário do Povo, Maceió, de 08-05-1917 a 22-05-1917, ed. 468 a 478, t. 3. M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 88, menciona publicação de mesmo teor no Jornal de Alagoas, 08-05-1917.

 

[251] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17. Em O Índio, por exemplo na edição de 01-05-1921,  ed. 14, t. 4, anúncios da Loja Sincera indicavam o seguinte endereço: Praça da Intendência, nº 5. A praça tinha o nome popular de Quadro. Teve o nome Intendência (Prefeitura) em razão de o prédio desta estar ali localizado, e posteriormente, a partir do centenário em 1922, foi chamada Praça da Independência. Em Caetés, as menções são a “Quadro” e a “Praça da Independência”: por exemplo, Capítulo 4, p. 29. Um de seus impressos contábeis tinha o cabeçalho: “Loja Sincera – Magnífico sortimento de fazendas, miudezas, ferragens, tintas, etc. etc. – Sinceridade e lhaneza – Preços sem competência – 5-Praça da Intendência-5”, como se vê em: Documentário sobre Graciliano Ramos, Mandala Filmes, 5:53:

< https://youtube.com/watch?v=JlqbVfhydz0>.

 

[253] Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 72, comenta os nomes pouco usuais que Graciliano deu a alguns filhos: “éramos raridades”; “Júnio invariável se tornava Júnior” e, quanto ao “Ricardo”, o barbeiro lhe perguntou: “Como é que seu pai botou em você nome de negro?”.

 

[254] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 26.

 

[255] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 76.

 

[256] Homero Senna, República das letras, p. 184. Os referidos quinze anos parecem indicar o intervalo entre o ano em que voltou do Rio, 1915, e o da mudança para Maceió, 1930. Apesar das leituras mencionadas de 1917, é possível que de 1915 a 1920 tenha reduzido suas atividades intelectuais, segundo o que disse a Pinto em 1921, talvez com exagero: “Há cinco anos não abro um livro” (Carta de 10-05-1921, p. 74).

 

[257] Há confissões familiares de dificuldade de relacionamento entre Graciliano e a filha. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 47, diz: “Desde que Maria Augusta morreu, Graciliano mostra indisfarçada repulsa pela recém-nascida, nela projeta a responsabilidade da desgraça”; “Dois anos depois do nascimento da menina, ao encontrar certo dia no portão de casa uma empregada com uma belíssima criança ao colo, a tomará nos braços, encantado, perguntará a quem pertence aquele bebê de anúncio publicitário. Informado de que se trata da própria filha, devolverá a carga, a fisionomia mudada”. Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 97, anota: “A caçulinha Maria Augusta ficava geralmente ‘no canto’ ”; “Vez por outra, a pequerrucha, notando o contraste de tratamento e revelando, naturalmente, uma pontinha de ciúme, sussurrava para a tia: ‘O pai de Múcio hoje trouxe confeitos para ele...’ “. Mais à frente, Clara Ramos, p.154-159, comenta que, após morarem em duas pensões, a primeira residência que a família teve no Rio foi na Rua Resedá, 13, onde Maria Augusta, desquitada, aos 21 anos, veio morar com o pai. A moça estivera em colégio interno a partir de 1936, antes de um mau casamento: “Pela primeira vez o romancista convive com sua filha mais velha. As relações com a segunda Maria Augusta, sempre muito tensas desde a morte da primeira, abrandam”. Loura e linda, ela lhe faz as unhas, ele lhe acende o cigarro, ela canta, o pai fala de literatura e “ensina-lhe à noite, na mesa da sala, a escrituração mercantil de que ela necessita no emprego em que se inicia”. No capítulo “Mudança”, p. 162-163, Clara Ramos indica que a “aparição da filha mais velha” obrigou-os a mudança para imóvel mais amplo, na Rua Conde do Bonfim, 752, apto. 204 do Edifício Ana Francisca. E que, p. 165, com a chegada do avô Américo, da tia e de Ricardo Ramos, Maria Augusta ficou no quarto de empregada, tendo posteriormente entrado em conflito com o pai e deixado o lar. Ivan Barros, em A Luta Democrática, 16 e 17-04-1972, ed. 5617, t. 2, sob o título “Uma injustiça que precisa ser reparada”, anunciou um quadro triste na vida da mulher madura: “Maria Augusta vive numa promiscuidade que dá pena. Abandonada. Solitária no Alto de Santa Teresa. E o pior: não recebe a sua participação nos direitos autorais”. Maria Augusta Ramos, nascida em 23-11-1920, faleceu no Rio de Janeiro – RJ, em 21-10-1980 (data de aniversário de casamento dos pais) – ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >.

 

[258] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 34, cita depoimento de Cícero da Silva Pereira: “Depois de sua morte, Graciliano transfigurou-se. Ficou brusco. Introvertido. Deixou de frequentar o Bar e Café Rancho Fundo e o Bacurau – tradicionais bares palmeirenses. Cortou relações”.

 

[259] A cena da morte de Madalena, em S. Bernardo, capítulo 31, parece absorver essa experiência. 

 

[260] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17. Daia era o apelido familiar da quinta irmã de Graciliano, Anália (1904-1994), doze anos mais nova que ele. Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >. V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 82-83, detalha: “A casa da Rua de Baixo, atual Major Cícero de Góis Monteiro, encheu-se, num instante, de parentes, amigos e conhecidos que iam solidarizar-se com Graciliano naquele transe supremo”. Após o enterro, Graciliano, “percebendo que não suportaria continuar vivendo naquela casa”, acompanhado por um cortejo familiar, “rumou da Rua de Baixo para o Pingafogo”, aceitando o convite do pai para lá ficar provisoriamente. Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 47, informa que Graciliano, viúvo, depois de passar algum tempo na casa dos pais, mudou-se da casa em que vivia com Maria Augusta: “Ao sair da temporada curta na casa dos pais, Graciliano muda-se para a vizinhança por imposição do coronel. É que a irmã Anália, a ‘Daia’ que lhe assume a criação dos filhos e a direção da casa, tem apenas 16 anos e o pai não deseja vê-la afastar-se em demasia”.

 

[261] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 82, cita “Colégio Sagrado Coração” ao mencionar que o “estabelecimento no qual o literato ensinava francês, encerrava o ano letivo com uma sessão cívica e uma representação teatral à noite. O programa foi cancelado. Todas as atenções se voltavam agora para os funerais da extinta, marcados para o fim da tarde”. Com a mesma denominação do colégio, p. 104,  o autor observa que Graciliano não pedia remuneração por suas aulas. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 46, retoma as informações do autor sobre o falecimento de Maria Augusta sem corrigir o nome do colégio. Entretanto, em edições de O Índio, menciona-se “Colégio Sagrada Família”, sob a direção de Laura Motta. Ver: O Índio, 14-08-1921, ed. 29, t. 3,  e 23-03-1924, ed. 160, t. 1. Graciliano, na edição de 13-11-1921, ed. 42, t. 3,  é citado como membro da banca dos exames finais dos cursos primário e secundário do colégio, juntamente com os“Srns. Rev. Vigário, Dr. Luiz Medeiros”. Em Caetés, p. 70 e p. 150, o nome ficcionalizado “Colégio Coração de Jesus”, vinculado à hóspede professora Priscilla Fernandes, parece referir-se ao nome de fato de colégio de Maceió – citado em O Índio, 02-12-1923, ed. 145, t. 3, em nota festejando a chegada à cidade, vindas daquele colégio interno, das senhorinhas Lindinalva e Lectícia, filhas de Leobino Soares, acompanhadas de Judith Malta – nota social justamente num contexto aproveitado em Caetés (mas Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 34, além de contar que Graciliano a fez de cobaia para perceber a reação aos beijos no cachaço que João Valério daria em Luísa no início de Caetés, entende que a cena no romance, capítulo 11, da visita de duas moças à redação de A Semana, foi vivida por ela e uma amiga).

 

[262] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 83-84.

 

[263] R. Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 103. Em Cartas, 01-01-1926, p. 81-82, ao amigo Pinto Mota Lima Filho, fica a sugestão pela data da carta de que o contato fugaz com a obra do autor francês foi posterior: “Dize-lhe também [ao Dr. Mota] que comprei o último livro de Flammarion e andei lendo aquilo uns dias, na esperança de encontrar alguma coisa que me convencesse. Aqui para nós, deixei o livro mais desiludido que quando comecei a leitura”. Mesmo irônica, a atenção ao espiritismo se evidencia: uma das passagens famosas de seu primeiro relatório de prefeito toca no assunto. Ver o relatório em Viventes das Alagoas, p. 169: “Constava a existência de um código  municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”. Em Caetés, a ironização do espiritismo é uma constante do enredo.

 

[264] A coleção do semanário encontra-se disponível em: < https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx>, a partir do nº 3, de 13-02-1921, ed. 3, com algumas lacunas até o nº 201, de 18-01-1925, ed. 201, t. 3, que traz um pequeno anúncio: ”O Índio só circulará dia 30, em edição comemorativa”. Uma foto marcante da iconografia de Graciliano é a da cerimônia de inauguração do jornal, em que ele aparece elegantemente vestido de luto, com um grande chapéu negro, sentado junto a Padre Macedo e a personalidades, respaldados por três fileiras gradativas de mocinhas uniformizadas: ver em Cartas, p. 72 ou na edição comemorativa de um ano de O Índio, nº 52, de 30-01-1922, ed. 52, t. 1. Não há notícias sobre o título ter sido sugestão de Graciliano, como se fosse uma antecipação do título Caetés, romance em que sua participação no jornal é projetada: “E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escritório dos Teixeira, eu, moço, que sabia metrificação, vantajosa prenda, colaborava na Semana de Padre Atanásio e tinha um romance começado na gaveta” (Capítulo 2, p. 16). A designação apositiva de O Índio resumiu-se logo em abril de 1921 a “Semanário Independente”, acrescida, a partir de agosto de 1922, de “Com aprovação eclesiástica”. O formato costumeiro do jornal era de quatro páginas, com anúncios postos predominantemente na última. Saía aos domingos, tinha redação e oficina na Pça Dr. Guedes Gondim, como diretor Padre Macedo, “redactores diversos” e, como gerente, no início, Odon Braga, cunhado de Graciliano, marido de Otília Ramos. A partir da edição nº 10, de 03-04-1921, ed. 10, t. 4, até a de nº 35, de 25-09-1921, ed. 35, t. 4, publicaram-se anúncios da Loja Sincera, nas primeiras vezes dispostos lateralmente na vertical – um estilo de propaganda, usual na época, com a posição que procurava provocar destaque ao obrigar o leitor a virar o jornal para lê-los (Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 30-31, faz observações sobre a modernidade dos anúncios elaborados pelo pai). Além de Padre Macedo, que assinava “F. Narciso” ou “Z” (como revela Graciliano em Cartas, 04-08-1921, p. 76), outro dos redatores do jornal foi José Pinto de Barros, aluno de Graciliano, que, quando assinava, usava um anagrama com as primeiras sílabas de seu nome inversas: “Barpinjo”. Ver: <  https://apalca.com.br/patronos/jose-pinto-de-barros/ >. 

 

[265] Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35, atribui o editorial de inauguração de O Índio a Graciliano. Entretanto, o texto sob o título “O Índio”, de 30-01-1921, que abre a primeira página do número 1 do jornal, tem um andamento atrapalhado, que lembra Padre Atanásio de Caetés. Por outro lado, essa proximidade não permite relacionar imediatamente a autoria a Padre Macedo. Ainda que Padre Atanásio, de Caetés, tenha sido inspirado no Padre Francisco Xavier de Macedo, a comicidade atanazada do personagem contrapõe-se em muitos casos à qualidade de articulação textual de sua fonte, cuja benignidade revela veemência humanitária com consistência argumentativa, não necessariamente em razão de um possível copidesque de Graciliano, pode-se presumir quando se vê em textos posteriores à presença deste no jornal, como, por exemplo, o editorial assinado sob o pseudônimo, atribuído ao padre, “F. Narciso”, verberar o abuso de pobres raparigas empregadas nas casas de famílias abonadas, em “Vil exploração!”, no nº 17, de 22-05-1921, ed. 17, t. 1, ou quando bate na tecla da educação, em “A instrução pública em Palmeira”, no nº 54, de 12-02-1922, ed. 54, t. 1. Há uma aula de redação encenada em Caetés, com soluções de texto dadas pelo Padre Atanásio, no capítulo 11, p. 70: ”Deu-nos o prazer de sua encantadora visita a senhorita Josefa Teixeira, dileta filha do abastado comerciante e nosso particular amigo Vitorino Teixeira, que nos encantou com deliciosa palestra”. João Valério comenta com o redator que do jeito como a nota foi escrita parecia que a conversa era com Vitorino. Padre Atanásio resolve: “Deite um ponto no Vitorino Teixeira, corte o que e meta depois A visitante”. João Valério comenta: “Louvei sinceramente a inteligência de Padre Atanásio“.  Ivan Barrros, em Graciliano era assim, p. 291, reproduz em fac-símile o editorial manuscrito de inauguração de O Índio. Embora o pesquisador atribua a autoria a Graciliano, a letra não parece ser dele. Maria Lúcia Palma Gama, em “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 35, p. 201, identificou a participação de Graciliano no jornal apenas com os textos assinados por três pseudônimos: X., Anastácio Anacleto e J. Calisto, respectivamente para as colunas “Garranchos”, “Factos e fitas” e “Traços a esmo”. Este último título retomava em O Índio-1921 o da coluna “Traços a esmo” de 1915, usado no jornal Paraíba do Sul – RJ. Nem sempre os textos da coluna “Garranchos”, assinados por X, mostram com evidência e plenamente as características do estilo de Graciliano, como, por exemplo, nas formulações campanudas com teor moralizante da publicação de O Índio, 06-03-1921, ed. 6, t. 2.

A última das quatorze crônicas de J. Calisto, em O Índio,  foi republicada, com alterações e com o título “Habitação”, anos depois, na revista Cultura Política nº 6, 08-1941, e coletada em Viventes das Alagoas, em 1962. Portanto, das quatorze crônicas da coluna “Traços a esmo” de O Índio, treze foram publicadas na coletânea Linhas tortas-1962: uma, no subcapítulo “Linhas tortas”, que acolhe a produção de 1915, e doze, no subcapítulo “Traços a esmo”, que acolhe a produção de 1921. Além disso, há os textos descobertos por Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, “Judas”, crônica assinada por J. C., O Índio, 27-03-1921, ed. 9, t. 1, e “Uma carta”, em O Índio, 22-05-1921, ed. 17, t. 2, assinada por G. Ramos, conforme explicações à frente.

 

[266] A publicação em O Índio de dois artigos assinados por “Lambda” provocou uma longa cadeia de equívocos que se fixou em toda a fortuna crítica e documentária de Graciliano com a atribuição indevida do pseudônimo a ele. Mas basta ler o primeiro dos artigos, em O Índio, nº 10, de 03-04-1921, ed. 10, t. 1, para dar-se conta de que a trapalhada textual é a sério, e não (como as falas de Padre Atanásio em Caetés) elaborada por Graciliano para que se contrapusesse sarcasticamente à receita prometida no título: “Como se escreve”. Um trecho, por exemplo: “Haja o porquê e o como está feito, porquanto este é o complemento daquele. Assim os homens que foram ou ainda querem ser crianças, hajam frequentado sem constrangimento ao menos a escola primária e tenham gostado de possuir livros para lerem, – queiram fazer-se leitores”. Ver abaixo o artigo “Pois façamo-las”, que faz a exegese do texto e festeja a estreia da colaboração de Lambda, “experimentado escritor que modestamente se exime de declarar seu nome, ocultando-se à sombra de um pseudônimo com que há tempos assinou artigos magníficos na imprensa da capital”. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 21-22,  além dos dois artigos publicados em O Índio, descobriu outros cinco textos de mesma feição sintática e ideológica assinados com “Lambda”, publicados no Jornal de Alagoas entre 1909 e 1913, aos quais o pesquisador também atribuiu equivocadamente a autoria de Graciliano: “No campo das letras”, “Estudante na roça”, “Pela mocidade”, ”Zé Pereira”, “Professiomania”. Esses textos encontram-se reproduzidos na tese de doutoramento de Thiago M. Salla, O fio da navalha: Graciliano Ramos e a revista Cultura Política, p. 59-60, 470, 510-527, 570-573. Em Cartas, de 04-08-1921, p. 75-76, Graciliano comentou com o amigo Pinto sua curta participação em O Índio: “É, realmente, de admirar que eu tivesse trabalhado nele, de parceria com um padre. O dr. Mota publicou dois artigos, por solicitação minha. Creio que foram as únicas coisas razoáveis que ali houve, além de alguns trabalhos do Moreno Brandão”. Ocorre que os textos de Moreno Brandão, renomado intelectual alagoano, vêm assinados. Tanto ele quanto o Dr. Mota Lima estavam no grupo de intelectuais alagoanos que responderam ao “Inquérito” do Jornal de Alagoas, em 1910, de que o jovem Graciliano Ramos participou – como indica Valdemar de S. Lima em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 103. O Índio não apresenta textos com assinatura do farmacêutico Dr. Mota Lima – o que sugere pela coincidência de serem dois os seus artigos, a hipótese de ser ele o “Lambda”, e Graciliano, modesto.

 

[267] Foram seis publicações da coluna “Factos e fitas”, edições de O Índio do nº 1 ao nº 6, entre 30-01 e 06-03-1921. 

 

[268] Vivice M. C.  Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 141-142, relata que, ao pesquisar o periódico, descobriu um episódio curioso a respeito: quinze dias após a saída de Graciliano, O Índio, nº 16, 15-05-1921, ed. 16, t. 3, noticiou o aniversário de Sebastião Ramos, na listagem de sua “Crônica Social”, “Aniversários”: “De amanhã – o cel. Sebastião Ramos de Oliveira, abastado proprietário neste município e pai do nosso querido ex-companheiro de redação Graciliano Ramos”. Com isso, o número posterior, nº 17, 22-05-1921, ed. 17, t. 2, publicou “Uma carta”, assinada por “G. Ramos”, que negou taxativamente irônico qualquer participação sua no jornal. Com o alto estilo reconhecível, tal como praticado nos números anteriores, comparando-se ao personagem mau-caráter de Eça de Queiroz, em Os Maias, Dámaso Salcede, que usa a mesma desculpa depois de publicar um mexerico, Graciliano, com paradoxo gaiato, argumenta que não sabe escrever, escrevendo: “Julguei-me vítima de uma pilhéria – desculpem-me a franqueza – pilhéria de muito mau gosto, porque aqui todo mundo sabe que sou um camelo”; “Não escrevo, meus caros redatores, nunca escrevi, graças a Deus, como diria o Dámaso Salcede. Sou inteiramente impenetrável à arte que os senhores publicistas possuem de embromar superiormente os leitores metendo-lhes caraminholas na cabeça”.

 

[269] A 15ª edição de O Índio, 08-05-1921, ed. 15, t. 2, publicou esta nota no alto da página 2: “Traços a esmo” – “O autor desta coluna retirou-se d’O Índio. De hoje em diante não serão publicados os TRAÇOS”. Não há notícias a respeito das razões da “retirada” de Graciliano, como algum conflito com o jornal ou irritação com as reações dos leitores. A partir dos números seguintes, os proprietários da empresa de energia elétrica e do cinema tiveram tratamento mais condescendente e elogioso. Mas não muito: as reclamações voltaram logo. Ver, por exemplo, em O Índio, 24-07-1921, ed. 26, t. 3, o artigo de cunho editorial sob o título “Luz à vontade”, em que a “vontade” é a do proprietário da usina elétrica.

 

[270] Linhas tortas, p. 82-83. Essa crônica, publicada em O Índio, 10-04-1921, ed. 11, t. 2, tem sido sempre lembrada como uma profecia equivocada de Graciliano Ramos sobre o futuro do futebol no Brasil. Entretanto, a crônica refere-se à chegada do futebol ao sertão, mais especificamente à região de Palmeira dos Índios. Nesses tempos, Graciliano dedicou-se ao bilhar e ao ciclismo, mas, ainda que não praticasse o futebol, não há depoimentos que indiquem aversão ao esporte. Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 30, lembra que o irmão, em torno de 1925, passou como lição para seus alunos caseiros a descrição de uma partida de futebol que ocorreria entre os dois times de Palmeira. Em Caetés, capítulo 21, p. 150-151, no passeio com as senhoras, João Valério passa pelo campo de futebol do C.S.P [Centro Sportivo Palmeirense], que havia sido transformado em plantio de mandioca e algodão. Um dirigente pretendia limpar o terreno e reorganizar o clube, mas D. Engrácia é contra: “Isto assim está melhor do que cheio de vadios trocando pontapés”. Durante a Copa do Mundo, em 1938, respondeu a enquete sobre prognóstico para a partida de Brasil x Polônia: “Nunca joguei futebol. Nem mesmo na meninice. Mas leio jornais e conheço teoricamente... o complicado esporte das multidões. O Brasil vai ganhar. Deve ganhar”: Diário da Noite, 04-06-1938, ed. 3255, t. 12. (Sobre o resultado, Brasil 6 x Polônia 5, ver: Diário da Noite, 06-06-1938, ed. 3257, t. 1). Como autor consagrado, frisou em depoimentos sua indiferença à música, mas não mencionou o futebol: ver em Homero Senna, República das letras, p. 191, João Condé,  Arquivos implacáveis, Flash – Graciliano Ramos, Letras e Artes – Suplemento de A Manhã, 01-08-1948, ed. 93, t. 8. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 123-124, lembra a amusicalidade do pai, mas em relação ao futebol não indica indiferença completa, como viu na célebre e dramática final da Copa de 50, no momento do jogo Brasil x Uruguai no Maracanã: ”Volta e meia o Velho surgia à porta do quarto, em pijama, limpando com pedra-pomes os dedos manchados de nicotina, abria uma careta de expectativa, que tal?”,  Então, perdemos? Achei que sim, do jeito que estava. Largou contrariado: – Só falta o Getúlio voltar, desta vez eleito”. Ricardo Ramos, sem repelir a divulgação usual de que a profecia do Graciliano de 1921 teria sido um equívoco sobre o futuro do futebol no Brasil, procura justificar o pai: “Graciliano teria ecoado as posições do exaltado Lima Barreto, reagindo contra a importação de um esporte então minoritário, decididamente elitista e racista”.

 

[271] Cartas, 04-08-1921, p. 76.

 

[272] A seção “Correspondência” deixou de ser publicada em meados de abril. Ivan Barros, em Graciliano era assim, p. 185-192, transcreve como “bilhetes” os textos daquela seção de O Índio e atribui a autoria a Graciliano, sem outras explicações.

 

[273] Um episódio sugestivo para a identificação das autorias é o da última crônica de “Garranchos”: O “X” do pseudônimo vem abaixo revelado entre parênteses como “João Moraes”, depois de anunciar que estaria na redação à espera do proprietário da empresa de eletricidade, que se irritara com a crônica anterior. Nesta, o autor reclamava ironicamente da precariedade do fornecimento de luz, principalmente aos sábados. Se “João Moraes”, subscrito à nota, não assumiu de fato a briga, a gaiatice da situação se daria sob a hipótese de o texto dessa última crônica ser realmente de Graciliano, que, sendo assim, no momento em que deixava o jornal, empurrava para outro a tarefa de desafiar o proprietário (ed. 14, 01-05-1921).

 

[274] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 19-20, lembra alguns ensinamentos do pai: ”Não escreva algo – É crime confesso de imprecisão”. Também não usava reticências e exclamações: “Reticências, porque é melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclamações, porque não sou idiota para viver me espantando à toa”. Em Novos rumos, 07 a 13-06-1963, ed. 224, t. 5, “Presença de Graciliano”, entrevista de Heloísa Ramos a Regina Montana, a esposa relembra comentários semelhantes de Graciliano sobre tais aversões: “Não vivo me admirando, nem deixo coisas por dizer. O que tem que ser dito, deve ser dito. Para que, então, vou precisar de reticências e exclamações?” Um dos raros momentos em que Graciliano na maturidade usa reticências é para figurar o pensamento entrecortado e dificultoso de Fabiano na “Cadeia”, capítulo de Vidas secas.

 

[275] Ver a análise de características de seu estilo em Rolando Morel Pinto, Graciliano Ramos – autor e ator, por exemplo, p. 23.

 

[276] Infância, O inferno, p. 81.

 

[277] R. Morel Pinto, Graciliano Ramos – autor e ator, p. 51-56.

 

[278] O Índio, 20-02-1921, ed. 4, t. 1 (esse exemplar da BN traz abaixo da crônica anotação manuscrita indicando autoria de “J. Pinto”). As sátiras ao cinema local traem o habitué “cinemófilo”, para usar a expressão do próprio Graciliano em Linhas tortas, VIII, p. 28. Por outro lado, as reclamações sobre o cinema somam-se às reivindicações pela luz elétrica de qualidade, pela estrada de ferro e pela educação formal, dentro do programa civilizatório de O Índio. Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 109, lembra que ainda nos anos 30, durante a temporada em Palmeira dos Índios e a escrita de S. Bernardo, Graciliano embora escrevesse a Ló xingando o cinema da cidade, não perdia uma sessão. A carta sobre cinema, nesse período, Cartas, 10-1932, p. 131, diz: “Há uns dois dias fui ao cinema. Sabe o que apareceu? Uma fita de Max Linder e pedaços da guerra de 1914. Calcule. Não conhece Max Linder? Conhece nada! No tempo dele você ainda não tinha nascido. Pois é o que se vê no cinema de Palmeira, hoje que o cinema é coisa séria. Aqui é assim, Ló. Uma peste”.

 

[279] Trata-se de um comentário sobre o artigo de “Lambda”, festejando o início de sua participação no jornal com um artigo publicado no mesmo número. A nota decifra e resume a proposição do texto e realça o que nele responde à campanha permanente de O Índio: criar escolas e combater o analfabetismo.

 

[280] No conto de Gervásio Lobato, “Tudo vai sem novidade”, o patrão fica surpreso ao deparar-se, em Lisboa, com seu criado saloio, Tibúrcio. Tem esse andamento:

 “— Olá! Tu por aqui, Tibúrcio? [...]

— Então como está tudo por lá?

— Tudo bom, muito obrigado. [...]

— E o meu cavalo ruço… o Janota?

— Ah! É verdade; esqueci-me de dizer-lhe; esse é que não tem lá passado muito bem”.

E assim, sucessivamente, aos poucos, Tibúrcio vai dando conta ao patrão de todas as desgraças: o cavalo morrera no incêndio que passara da casa para a cocheira, depois de cair uma tocha do velório da mãe, que havia morrido por desgosto, pois o pai se enforcara ao ter todas as suas fazendas penhoradas. O personagem vai acrescentando a cada fala: “Mas o resto vai sem novidade”. Ver reprodução do conto em Gazeta de Petrópolis, 11-05-1895, ed. 36, t. 2, também publicado por Mariano Torres (org.), Maravilhas do conto humorístico.

 

[281] Graciliano não cumpriu plenamente a promessa de 1914, feita à mãe, ao comentar o conselho do pai para que ele voltasse do Rio (ver Carta de 20-10-1914, p. 39-40). Em 1921, recentemente viúvo, retomou contato com o amigo Pinto: “Vou por aqui, arrastando-me, mal. Há cinco anos não abro um livro. Doente, triste, só – um bicho” (Carta de 10-05-1921, p. 74); “Depois que aqui cheguei, nenhuma tentativa fiz para garatujar coisa nenhuma. Até o dia em que o senhor vigário veio pedir-me para rabiscar o jornaleco vagabundo de que te mandei algumas amostras, vivi sem abrir um livro, inteiramente burrificado” (Carta de 08-12-1921, p. 77). Francisco de Assis Barbosa, em “50 anos de Graciliano Ramos”, A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 42, fala sobre o início da viuvez em 1920: “Depois de longo período sem leituras, Graciliano Ramos deu para devorar tudo que havia de bom nas livrarias de Maceió e do Recife. Lê tudo”; “De uma feita, trouxe para Palmeira dos Índios quase todos os volumes da Biblioteca Nelson, que encontrara numa livraria do Recife, a mil réis cada um. Lia francês, inglês, italiano”.

 

[282] Depois da atuação em O Índio, 1921, sua primeira publicação localizada, além dos relatórios, foi em 1929, “Professores improvisados” – ver abaixo.

 

[283] Conforme registro no Catálogo eletrônico do IEB:  < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações socias> página 9> manuscritos recebidos de autores não identificados [disponíveis até meados de 2023, dos 4 itens, 3 foram ocultados pela repetição do primeiro às vésperas da entrada de Graciliano Ramos no domínio público – se precisar, substitua o código do endereço pelo Código=229215, conforme abaixo]:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229215 >.

Ver publicação do manuscrito em 2024, ano em que a obra de Graciliano passou a domínio público: Os filhos da coruja. Edição de Thiago Mio Salla. Ilustrações de Gustavo Magalhães. São Paulo: Todavia, 2024. (Baião).

 

[284] O Malho, 26-08-1922, ed. 1041, t. 9.

 

[285] Maria Ramos de Oliveira (Marili) foi professora e escritora. Publicou: Graciliano Ramos; Histórias mal-arranjadas. Contos; Ficção e realidade. Contos – Prêmio Moinho Nordeste 1985. Com “Desencanto”, participou do livro Contos alagoanos de hoje. Com o conto “Os meus amores”, ganhou o prêmio Guimarães Passos da Assembleia Legislativa/AAL, 1985 – conforme informações de F. R. A. de  Barros, ABC das Alagoas, tomo R-Z , p. 11.

 

[286] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 32. Se a citada A arte de escrever for de título dado para coletânea de Schopenhauer, certamente sua crítica ferina entusiasmou Graciliano e suas lições deram-lhe formação.

 

[287] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35, informa: “Em fevereiro de 1922, em dependência da Intendência Municipal, Graciliano voltou-se para o magistério, passando a lecionar português, aritmética, história, geografia e francês a um grupo de comerciários e pequenos negociantes da localidade, integrado, entre outros, por João Moraes, Jovino Melo, Fredovino Maia, José Pinto de Barros, Necéforo Cavalcante, Juvenal Brena Wanderley e Cícero Silva Pereira”. No ano anterior, no momento em que Graciliano deixava o jornal, foi noticiado em O Índio, 01-05-1921, ed. 14, t. 1: “Em vista da notável falta de escolas que há aqui, resolveram alguns moços, auxiliares do comércio e funcionários públicos, organizar um grêmio literário noturno, que se reunirá em uma das dependências do palacete da Intendência Municipal, gentilmente cedida pelo chefe do poder executivo. É para lamentar, entretanto, que rapazes desejosos de obter instrução lutem com dificuldades, invencíveis talvez, para encontrar professores. É já a segunda tentativa que faz a mocidade do comércio palmeirense a fim de criar um estabelecimento de ensino, onde possa aproveitar no livro as horas que lhe restam do trabalho. Infelizmente, tem encontrado sempre as mesmas dificuldades. Todavia é necessário não desanimar. Todo o esforço que se fizer em benefício da instrução é digno de aplausos. Tomem os moços a direção do movimento; procurem chegar-se à civilização, de que ainda estamos longe, já que não temos quem olhe para o lamentável estado em que vivemos”.

 

[288] Como se viu acima, Graciliano resenhou, no artigo “Literatura” (1911), a tradução para o italiano de O caçador de esmeraldas, de Bilac. Em seus poemas usou italiano uma ou outra vez: no título do soneto Partenza tua (1910), na epígrafe em A aranha (1911) e no título do poema Ritorno (1913). Ver Cartas, 07-02-1913, p. 19, ao amigo Pinto: “Perguntas se ainda estudo o italiano. Não, eu não estudo nada: já sei muito, até mais do que era preciso saber”. Em Correio da Manhã, 28-03-1953, ed. 18408, t. 2, “Graciliano Ramos (no 7º dia de sua morte)”, Otto Maria Carpeaux lembra que Graciliano aprendeu italiano para ler Dante.

 

[289] “Professores improvisados”, Viventes das Alagoas, p. 134-135. Crônica originalmente publicada – já identificada a autoria com “Graciliano Ramos” – na Revista de Ensino. Órgão Oficial do Departamento Geral de Instrução Pública de Alagoas. Maceió: Imprensa Oficial, nº 17 – setembro-outubro 1929, ed. 17, t. 50 e 51. Ver considerações a respeito em “Cuore” como também em “Graciliano e I Malavoglia”, artigos em que abordo a relação de Graciliano com o italiano.

 

[290] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 107.

 

[291] Em “Há 50 anos – Graciliano comprou a casa onde escreveu ‘Caetés’ e seus relatórios de prefeito”, Diário de Pernambuco, 11-01-1973, ed. 9, t. 31, Tadeu Rocha, apoiado em documentos, informa que Graciliano comprou em 16-01-1923 a casa na Rua General Gabino Besouro, nº 12, Palmeira dos Índios.

Reformou-a visando um escritório de estudos e e ali viveu desde então, onde permaneceu, após o casamento em 1928, juntamente com Heloísa Ramos e filhos até sua mudança para Maceió (M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 47, indica a data da mudança: 29-05-1930).  Dias antes de morrer no Rio de Janeiro, a casa foi vendida em 16-03-1953, sendo a operação conduzida por seu procurador, o amigo Padre Francisco Xavier de Macedo. A campanha, desde 1959 encabeçada por Valdemar de Souza Lima, enfim conseguiu do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – o tombamento e a restauração da “Casa Museu Graciliano Ramos”, inaugurada em 1973, já com a rua sob novo nome e numeração: Rua José Pinto de Barros, 90. (Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 34, ao mencionar a sua própria casa – presume-se a dos pais – indica a vizinhança: dá como endereço a Rua Gabino Besouro, 18, “hoje”, diz, “Rua José Pinto de Barros, 140”). Sobre a entrada do processo de tombamento, no IPHAN, em 1963, ver no acervo digital do IPHAN pareceres de Lúcio Costa e Manuel Bandeira, designados por Rodrigo Melo de Franco Andrade – disponíveis em:

< https://www.researchgate.net/publication/380853701_Casa_Museu_Graciliano_Ramos_-_IPHAN_pareceres_Lucio_Costa_-_Manuel_Bandeira  >.

Heloísa Ramos, contra a ideia estática de “museu”, manifestou-se a favor da denominação “casa de cultura”, em: Diário de Pernambuco, 02-10-1972, ed. 235, t. 2.

 

[292] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 53-54: trata-se de uma das primeiras referências ao hábito alcoólico de Graciliano. O imóvel, adquirido na época por Graciliano, ficava no Pinga-Fogo, atual Rua José Pinto de Barros, tinha no jardim a abreviatura de seu nome com enormes pontos, configurando, segundo Clara Ramos, a palavra “GoRo”. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 111, relembra o período em que convivia com o pai no Rio: “Uma noite, cursava a faculdade e lia O homicida, de Ferri. Ele chegou e perguntou o que era, mostrei, falou do livro mencionando trechos, destacando um ou outro aspecto, seguiu a conversa com Beccaria, Lombroso, Garofalo”; “Riu do meu espanto: Você acha que eu teria feito o Luís da Silva sem estudar isso?” (Entretanto, o personagem na verdade torna-se criminoso por efeito das grades sociais e da opressão de classe, dentro de uma perspectiva materialista histórica – tanto quanto em S. Bernardo. Graciliano não utilizou na configuração de sua obra concepções deterministas da sociologia criminal pelo viés dos autores acima mencionados).

 

[293] Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 53. As referências da autora encontram-se esmiuçadas nos casos e anedotas de Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, capítulo “Uma transformação inevitável”, p. 91-99, que informa, entre outros detalhes: Graciliano foi filiado ao Clube de Ciclistas de Palmeira dos Índios, e Manuel Leal esteve preso com ele em 1936 (ver: Memórias do cárcere, Parte III , 24, p. 122-123).

 

[294] Em Cartas, 01-01-1926, p. 80, Graciliano conta ao amigo Pinto que encontrou velharias e manuscritos ao abrir o compartimento inferior de uma estante: “Deitei fora os tamancos, dei os selos ao meu rapaz mais velho e queimei os papéis. Foi uma festa na cozinha. Os pequenos ajudaram-me com entusiasmo. E como o primeiro lamentasse a destruição de coisas que tinham dado tanto trabalho a fazer, o segundo respondeu com um senso que me encheu de espanto: “Para que estas porcarias ocupando a estante?” Os outros acabaram concordando com ele e no domingo seguinte vieram perguntar-me se ainda havia papel para queimar”. Sem referir-se à terceira narrativa, Caetés, Graciliano diz: “Não havia, que tive a fraqueza de poupar ao fogo umas coisas velhas que me trazem recordações agradáveis e dois contos que andei compondo ultimamente, porque tenho estado desocupado e me imaginei com força para fabricar dois tipos de criminosos”. Em um depoimento a João Condé, “Paulo Honório”, Graciliano diz que o personagem se configurou em um conto escrito em 1924. Ver: João Condé (org.). Dez romancistas falam de seus personagens, texto reproduzido por Maria Lúcia P. Gama,  “Projeto para inéditos”, Revista do IEB, n. 35, p. 204-206. Em visita à residência de Graciliano Ramos, no Rio, Francisco de Assis Barbosa colheu seu depoimento numa “reportagem biográfica” realizada às vésperas da comemoração em 1942 do aniversário de cinquenta anos do autor. Aí registra o depoimento sobre a elaboração nos anos 20 de dois contos, “A carta” e “Entre grades”, além do “horrível” Caetés, que o movimento moderno o encorajara a fabricar, escrevendo “tal como se fala de verdade”. Graciliano cita 1926 como o ano em que Caetés estava pronto. De “A carta” e “Entre grades” nasceram, nos anos 30, S. Bernardo e Angústia. Ver: Francisco de Assis Barbosa, “50 anos de Graciliano Ramos”, em Augusto Frederico Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos – entrevista publicada na revista Diretrizes, 29-10-1942, ed. 122, t. 13, 14, 16, sob o título “A vida de Graciliano Ramos”. Em A Manhã, suplemento Letras e Artes, 01-08-1948, enquete na seção Flash dos Arquivos implacáveis de João Condé, Graciliano diz que escreveu Caetés aos 34 anos. Suas cartas de outubro de 1930 revelam que depois do convite de Augusto Frederico Schmidt para sua publicação, Graciliano trabalhava intensamente na reelaboração do romance. O enredo de Caetés dá indicações de dois anos de duração: de janeiro de 1926 a finais de 1927. O primeiro mês é mencionado no final do capítulo 1: “Percorri à toa as ruas desertas, envoltas num luar baço, tentando achar tranquilidade no pó e no calor de janeiro” (Caetés, p. 14). No primeiro ano do enredo, o ano de 1926 é sugerido no capítulo 3, quando o mitomaníaco Nicolau Varejão conta lorotas espíritas sobre sua vida anterior: da guerra do Paraguai [1870] foi para a Itália, onde ficou trinta anos. E como Nicolau Varejão diz ter sessenta anos de idade, o Dr. Liberato se espanta, zombeteiro: “Não é possível. Setenta com trinta ... Caso o senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Itália, não pode ter mais de vinte e seis [1926]” (Caetés, capítulo 3, p. 20).  No capítulo 15 é o Natal do ano sugerido de 1926, depois ocorre o suicídio de Adrião no período junino, passam-se com pulos sinópticos nos últimos capítulos os dois ou três meses finais de 1927.

 

[295] Linhas tortas, “Alguns tipos sem importância”, p. 194-195, publicado na revista Dom Casmurro, em 19-08-1939, ed. 114, t. 2. Como a publicação de Caetés ocorreu no final de 1933, Graciliano indica nesse passo que a versão inicial do romance, portanto, foi escrita em 1925. 

 

[296] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 29: “Adalberon Cavalcanti Lins, Natalício Medeiros, Odon Braga“. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 50, registra um depoimento de Adalberon Cavalcanti Lins: “Certa vez após ouvir uma péssima exposição, disse, apertando os olhos e puxando uma tragada de seu cigarro Raquel, ao mesmo tempo em que soprava a fumaça na cinza:  Cavalcanti, deixa pra lá essa droga de Português, que não vale nada. O bom mesmo é ser doutor. Seu pai arranja um pistolão e dentro de pouco tempo você meterá um anelão de bacharel no dedo. Mande o resto para o inferno”; “Minhas orelhas pegaram fogo. Em compensação a alfinetada modificou meu comportamento. Marili Ramos e Natalício Ferreira Ferro (meus colegas) não haveriam de presenciar outra desmoralização”. Adalberon Cavalcanti Lins (Palmeira dos Índios, 1907-1990) tornou-se advogado, político e escritor. Publicou romances como Curral novo, Sidrônio, Caminhos incertos, O tigre dos Palmares, O ninho da águia. Junto a Marili Ramos, participou da coletânea Contos alagoanos de hoje,  com o conto “O homem coxo”, de acordo com informações em: < https://apalca.com.br/patronos/adalberon-cavalcante -lins/ >.

 

[297] Anos depois, Graciliano daria o célebre conselho à irmã, então com 42 anos, referido a seu conto “Mariana”, que ele havia encaminhado para a publicação no Correio da Manhã, 20-11-1949, ed. 17386, t. 38: “Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As caboclas de nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava roupa. Arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos”. Como se vê, Graciliano revela as preocupações que teve na construção de Vidas secas. Mais adiante, diz: “Em Mariana você mostrou umas coisinhas suas. Mas – repito – você não é Mariana. E – com o perdão da palavra – essas mijadas curtas não adiantam” – em Cartas, Rio, 23-11-1949, p. 212-213 . Conselho com o mesmo tipo de foco nas classes, ele tinha dado a Dona Ló, em Cartas, Maceió, 19-12-1935, p. 156-157, antes da prisão e da escrita de Vidas secas – ver à frente, no período.

 

[298] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 30-31.

 

[299] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 32-34. Marili informa que cada estrofe refere-se a um personagem da cidade: a 1ª a um delegado, novo em Palmeira, que tinha farmácia, barba preta e lia a sorte; a 2ª a um promotor, anticlerical (empastelou O Índio); a 3ª a José Tobias, o farmacêutico; a 4ª a Francisco Cavalcanti, que deixara seu armazém e se dedicava à política e ao pôquer.

 

[300] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35, informa a data da nomeação: 03-11-1926.

 

[301] A “patente” pode ter sido a ele atribuída pela condição de filho do “coronel” Sebastião Ramos. Mas Graciliano nem mesmo ironicamente se dedicou a comentar a respeito, tanto para o seu caso como para o do pai. Por outro lado, em Infância, p. 233-234, o mendigo Venta-Romba, vendo que um mal-entendido estava esclarecido, depois de se despedir do “major” Sebastião Ramos, comenta aparvalhado ao receber ordem de prisão: “– Brincadeira de seu Major”, e segue, entre os lamentos e o choro do inocente, repetindo ao ver confirmada a sentença: “– Por que, seu Major?”. O Índio, depois de Graciliano ter ali encerrado sua participação, contém várias menções ao “Cel. Sebastião Ramos”, incluindo uma pesquisa para candidatos a prefeito publicada em algumas edições de 1922, onde Sebastião Ramos ocupa sempre o último lugar entre oito ou dez candidatos. Não há registros precisos para as circunstâncias de alguns dos qualificativos dados a Graciliano, além do consistente “Prefeito”: “Mestre” a partir de 1914, “Major” para os anos 20, em Palmeira dos Índios, assim como, ver abaixo, “Professor”, e, a partir dos anos 30, “Velho”, tratamento inaugurado pela geração mais nova dos amigos de Maceió. Nomeado com algum fundamento “jornalista”, é o que se vê, por exemplo, em Diário de Pernambuco, 25-04-1930, ed. 95, t. 2. Homero Senna, em artigo rememorativo no Diário de Notícias, 20-03-1955, ed. 9930, t. 58, nota que Graciliano era chamado “Major Graça” pelos companheiros da Livraria José Olympio, no Rio – percebe-se aí o estágio jocoso da patente. O hipocorístico familiar “Grace” tornou-se “Graça” no ambiente intelectual. Graciliano foi também condecorado com “Dr.”: no Correio da Manhã, 09-09-1930, ed. 10956, t. 2, quando o jornal noticiou que Álvaro Paes encarregara o Dr. Graciliano, diretor da Imprensa Oficial, de um projeto de uniformização dos orçamentos municipais, e, no Jornal do Brasil, por duas vezes: em 28-03-1934, ed. 73, t. 14, sobre a posse do novo presidente da Associação Brasileira de Educação, quando, em meio a longa listagem dos novos diretores estaduais, o Dr. Graciliano Ramos aparece como responsável por Alagoas; e em 02-02-1937, ed. 27, t. 8, no pronunciamento de Otávio Mangabeira à câmara dos deputados protestando contra a prisão política de inocentes, entre eles o Dr. Graciliano Ramos, que acabava de ser solto depois de passar por grandes provações. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 79, transcreve carta de Gastão Cruls, a quem Graciliano corrigiu por ter anexado um “Dr.” no registro de seu nome como correspondente do Boletim de Ariel. A autora cita a resposta de Gastão Cruls: “Estamos juntos nessa ojeriza ao característico do bacharelismo patrício, mas como nem todos pensam assim, tive que antepor a alguns nomes o nefasto título”.

 

[302] F. de A. Barbosa, “50 anos de Graciliano Ramos”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 45-46. Na bibliografia de Graciliano Ramos, é rara a menção a um vínculo de efeito entre o relatório do presidente da junta escolar e a candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios. Também não há referências à sua atividade na junta escolar, nem acesso a tal relatório, quiçá um embrião do que seriam os dois famosos relatórios do prefeito. Muitos anos depois, em 1935, quando Graciliano era Diretor da Instrução Pública, há de sua autoria “Alguns números relativos à instrução primária em Alagoas”, que Moacir M. de Sant’Ana apresenta em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 51-52, ao testemunhar ausência de documentações oficiais a respeito: trata-se de uma publicação no Diário de Pernambuco, 28-06-1935, ed. 152, t. 13, repetida na revista A Escola, em setembro. Em todo caso, Álvaro Paes foi um dos articuladores da candidatura em 1927 e possivelmente foi dele a visita acima mencionada, como se vê, mais à frente, no artigo de José Lins e na crônica de Graciliano de 1930, “Álvaro Paes”, coletada em Linhas tortas, p. 90.

 

[303] No final de 1945, José Lins do Rego lamentou que o seu partido, UDN, tivesse perdido as eleições por ser dispersivo e propôs a criação de um partido articulado, democrático e verdadeiramente voltado para o povo, em contraposição ao Partido Comunista. Referindo-se à publicação de José Lins do Rego do dia 05-12-1945 em O Globo, Graciliano  respondeu com o artigo “Os amigos do povo”, Tribuna Popular, 09-12-1945, ed. 171, t. 3: o partido democrático e amigo do povo já existia: o Partido Comunista. Destacadamente no início e no fim, como, de resto, em todo o artigo, Graciliano foi amoroso e delicado com o amigo, sem deixar de ser preciso. Texto publicado com esse título em Linhas tortas, p. 260-261. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 154: manuscrito de 07-12-1945. (Ver resposta repetitiva,  colada à de Graciliano, enviada por um leitor: Tribuna Popular, em 11-12-1945, ed. 172, t. 5). Na mesma semana, a Tribuna Popular, 14-12-1945, ed. 175, t. 4, anunciou a formação da diretoria do movimento antifascista “Sociedade Amigos da Democracia Portuguesa”, com participação, entre outros, de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, José Lins e Graciliano. Em Memórias do cárcere, Parte IV, 5, p. 214-216, comentou a decepção que teve na cadeia quando em 1936 o amigo lhe enviou Usina (obra dedicada a Graciliano e a José Olympio), que acabava de ser publicada, cujo início narrava a prisão do personagem Ricardo em Fernando de Noronha, onde Zé Lins nunca tinha estado: “Por que se havia lançado àquilo? O admirável romancista precisava dormir no chão, passar fome, perder as unhas nas sindicâncias”; “A cadeia não é um brinquedo literário” (a menção a Fernando de Noronha, onde o moleque Ricardo estava preso, é só um preâmbulo rápido do romance completamente dedicado à  mudança do sistema de engenho de cana-de-açúcar para sua industrialização como usina). Antes, como conta em Memórias do cárcere, Parte I, 5, p. 61, quando conduzido preso no trem para Recife, ele via e pensava: “À noitinha percebi construções negras num terreno alagado”; “Bem, os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia”; “Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida”. Também em “Decadência do romance brasileiro”, Graciliano avaliou que a obra dos romancistas de 30, entre eles seus amigos Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego, a partir do final da década tinha se degenerado. Entretanto, em meio às vicissitudes, críticas e diferenças de estilo, a amizade fraterna entre eles durou toda a vida, incluindo o empenho de José Lins pela libertação em 1937 do amigo preso e a hospedagem em sua casa quando Graciliano saiu da prisão.

 

[304] José Lins do Rego, “O mestre Graciliano”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 89-90. Publicado também em A Manhã, 29-10-1942, ed. 377, t. 4.

 

[305] Joel Silveira, Na fogueira: memórias, p. 278-279. Publicado originalmente na revista Vamos Ler!, 20 de abril de 1939, ed. 142, t. 8-9, republicado na revista Leitura, dezembro de 1942, ed. 1, t. 11 e 12. Ver o artigo de José Lins do Rego, “O romancista Graciliano Ramos”, recorte com identificação manuscrita por Graciliano Ramos: O Estado, 28-01-1934 [Recife] – IEB, Arquivo Graciliano Ramos, republicado em Diário de Notícias, 25-02-1934, ed. 2212, t. 19: “Vi Graciliano numa sala com um governador conversando sobre mamona, melhoria de sementes, todas essas pequenas coisas que o meu amigo Álvaro Paes discutia com os matutos com a satisfação e a gravidade de quem estivesse debatendo sobre a a existência de Deus ou sobre a imortalidade da alma. Um companheiro provocou Graciliano Ramos para a conversa. Falava-se de chins e de japoneses. O meu amigo todo cheio de entusiasmo pelos últimos.  O gênio de Palmeira ficou-se com os chineses: Gente forte, não é assim? Cultos como o diabo“. (Ver, décadas depois, a apreciação especializada da revolução chinesa por Graciliano Ramos,  em seu artigo “Coisas da China”, Voz Operária, 16-06-1949, ed. 4, t. 6 e 9). José Lins acrescenta: “E foi por aí, deixando a nós da cidade metidos entre argumentos cerrados. Mesmo assim, com essa vitória o homem não me impressionou. Aquilo de falar de chineses, era leitura de almanaque, bizarrices de sertanejo com leituras por cima dos assuntos. Tinha eu conhecido o Zeferino Galvão, de Pesqueira, um sábio que sabia tudo, que tinha um dicionário de 100.000 palavras para publicar e que era cacete até as entranhas. O de Palmeira seria sem dúvida como aquele velho de Pesqueira”. Mas convivendo com o amigo em Maceió, Zé Lins deu-se conta de sua grandeza: “Viveu quinze anos num balcão de loja, vendendo chapéus a matutos, passando chita feia às pobres meninas de Palmeira. E o espírito ficou o mesmo e o olho continuou vigilante para o mundo”; “Os matutos que não lhe pagaram as contas, os honestos sertanejos que lhe gastaram os sapatos da sua loja com o ‘pago na safra’ que nunca chegou, se levaram o comerciante a fechar as portas, deram ao homem de letras um material humano mais valioso e mais rico que todas as bugigangas que ele lhes vendera como as coisas mais finas deste mundo. Graciliano perdeu com os sertanejos muito pano mas os seus fregueses é que foram roubados. Os seus livros, que ele tirou de dentro dessa gente, lhe pagaram de todos os prejuízos”. (O artigo de José Lins é do início de 1934. Graciliano tinha acabado de publicar seu único livro: Caetés. Já tinha escrito S. Bernardo, publicado no final de 1934). Afora um ano passado no Rio, entre 1914 e 1915, Graciliano lidou com a loja de 1910 a 1930.  Em 1927, o governador de Alagoas era Pedro da Costa Rego (de 1924 a 1928). Seu aliado, Álvaro Paes, foi governador (06-1928 a 10-1930) enquanto Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios e, a seguir, em Maceió, Diretor da Imprensa Oficial, 1930-1931. Graciliano, a partir de 1933, era Diretor da Instrução Pública do Estado de Alagoas (próximo do que se chamou “secretário de educação” no Brasil, entre os séculos XX e XXI) quando foi demitido e preso em 1936, enquanto Álvaro Paes era prefeito em Palmeira dos Índios. O governador de Alagoas era Osman Loureiro, de 05-1935 a 11-1937, seguindo até 1940 como interventor durante o Estado Novo, como se vê em:

< https://fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/osman-loureiro-de-farias >.

 

[306] H. Senna, República das letras, p. 186.

 

[307] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36, indica a data de 7 de novembro de 1927. Ivan Barros, Graciliano era assim, p. 318-319, transcreve o “Termo de Promessa” da posse do prefeito em 07-01-1928, em que a data da eleição é citada duas vezes na ata: 7 de novembro de 1927, data também indicada por Clara Ramos, Mestre Graciliano –  confirmação humana de uma obra, p. 58.

 

[308] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 138-139. Valdemar de Souza Lima nasceu na região em 1902, morou em Palmeira dos Índios nos anos 30 e foi convidado em 1934, pelo então Diretor da Instrução Pública, Graciliano Ramos, a ocupar o cargo de Inspetor das Escolas Primárias do município, conforme informação de: < https://apalca.com.br/patronos/valdemar-de-souza-lima/ > . Com linguagem inventiva, é dele a narrativa mais minuciosa sobre todo o episódio da candidatura e da atuação do prefeito Graciliano. Sem mencionar qualquer nexo de causa com o já citado relatório de presidente da junta escolar, Valdemar de S. Lima relata que a proposição da candidatura foi decorrência de um trauma vivido pela cidade em 1926: o assassinato do prefeito Cel. Lauro de Almeida Lima, seguido da execução do assassino, o administrador da Recebedoria Estadual João Ferreira de Gusmão e Melo. O governador Costa Rego, pretendendo acabar com desvios de impostos nos municípios, tinha dado carta branca ao fiscal eficiente e incorruptível, que, entretanto, revertida em arrogância, criou conflitos com o prefeito. O autor cita a gota d’água do caso (semelhante a uma passagem em “Contas”, Vidas secas, em que Fabiano relembra sua via-crúcis): “Certo dia, fiscalizando a feira da cidade, ele se aproximou de um pobre matuto que vendia algumas rapaduras num caixão de sabão e exigiu deste a apresentação da coleta, que o infeliz não tinha”; “Em vista disso, Gusmão prendeu a mercadoria e o dono dela, ordenando a um soldado que o levasse para a cadeia” (p. 128-129). Indignações com a atitude injusta e autoritária, difamações, quiproquós e tomadas de satisfação levaram ao assassinato do prefeito pelo fiscal em 26-02-1926. Fugido, o fiscal foi encontrado pelo delegado e seu destacamento, que o fuzilaram e profanaram o cadáver. Terminou o mandato o inapto vice-prefeito Manuel Sampaio Luz, o Juca. Atentos à necessidade de uma política não viciosa, Álvaro Paes, os irmãos Otávio e Francisco Cavalcanti, do Partido Democrata, amigos de Graciliano, com a proximidade das eleições lembraram seu nome, muito bem recebido pelo governador Costa Rego. No início Graciliano recusou o convite manifestando sua repulsa pelo coronelismo e pela histórica podridão política do país. Escapou da pressão, que se valeu inclusive do pai, Sebastião Ramos, para tentar convencê-lo. Finalmente diante do mexerico, reputado ao partido da oposição, de que não aceitava porque não tinha competência e tinha medo, Graciliano sentiu-se mordido nos brios. Tendo a garantia de seus “padrinhos” de que teria plena autonomia, aceitou. Na carta a Chico Cavalcanti em que manifestava a aceitação da candidatura, Graciliano arrematava com uma profecia ilustrada pela anedota do matuto sem habilidade, burlado por um grupo que o encorajara a montar um burro brabo, convencendo a vítima de que ela estava plenamente capacitada para isso. Após a queda, o matuto se erguia, aos berros, empunhando uma faca: “Apareça o filho de uma puta que disse que eu sabia montar em burro brabo!” (Tem-se divulgado a anedota de Valdemar de S. Lima deturpada com o acréscimo de um “não”: “Apareça o filho de uma puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!” – equívoco que tira da frase todo o seu humor). Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 29, fala em “vitória esmagadora”. Porém, entre outros, Valdemar de Souza Lima, p. 149, lembra que Graciliano não teve concorrentes na eleição: “Bem poderia Aureliano [Wanderley] ter-lhe feito frente, disputando a prefeitura. Mas recuara pelas razões já conhecidas. Buscava desforrar-se agora, fazendo-lhe oposição sistemática”. 

 

[309] Ver: Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 139.   

 

[310] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 140-144.

 

[311] Ivan Barros, em Graciliano era assim, p. 318-319, reproduz o “Termo de Promessa”, ata que descreve o juramento oral de praxe e as assinaturas da documentação em sessão “no Paço Municipal”, “unidos ao meio-dia” prefeito, vice e membros do conselho, para assumir o mandato “no triênio [sic] 1928-1931”. Ver no IEB – USP, Arquivo Graciliano Ramos, o “Termo de Promessa”, catalogado em:

< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> carreira pública> prefeitura de Palmeira dos Índios> outros itens do acervo, item 1:

 < http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=230107 >.

 

[312] Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >: Heloísa de Medeiros Ramos, em solteira Heloísa Leite de Medeiros, nasceu em Maceió, 11-01-1910, e faleceu em Salvador, 23-07-1999. Graciliano, como indicam seus textos, chamava-a pelos hipocorísticos “Ló”, “Lozinha”, “Lozíssima”, “Sinha Ló”. Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 57, informa que eles se casaram no religioso em Maceió, no dia 16 de fevereiro de 1928, e, no civil, quatro dias depois, tendo por testemunhas o Padre Francisco Xavier de Macedo e Francisco Cavalcanti, no dia 20, em Palmeira dos Índios.

 

[313] Cartas, 16-01-1928, p. 89-90.

 

[314] Cartas, 18-01-1928, p. 91-92.

 

[315] Cartas, 20-01-1928, p. 93-94. Padre José Leite, causa involuntária do amor entre eles, tornou-se, sempre presente, grande amigo de Graciliano.

 

[316] Cartas, 24-01-1928, p. 95-98. José Paulo Paes, em Amor/humor por via postal, Cartas à Heloísa, p. 20-21, encontrou nesse último trecho a mesma formulação de Caetés, capítulo 1, p. 13: “A religiosidade de que a minha alma é capaz ali se concentrava, diante de Luísa”. Há também parentesco de concepção com o soneto de 1912, “Na igreja”, visto acima.

 

[317] A menção a “gente da Saúde” lembra a notícia citada acima, quando Graciliano reportou ao pai na carta de 09-01-1915, a agitação da cidade por ocasião do imbróglio com Nilo Peçanha: ver: O Século, 31-12-1914, ed. 2570, t. 1. Sobre “capangas da Saúde”, ou desordeiros desse bairro da zona portuária do Rio, nos anos de 1910, ver, por exemplo: A Época, 27-10-1913, ed. 455, t. 1, e, sobre tumultos armados por tais capangas na eleição da Associação Comercial, Correio da Manhã, 05-05-1916, ed. 6280, t. 1. 

 

[318] Albino Mendes foi um célebre falsificador de dinheiro, atuante no Rio de Janeiro do início do século XX, como informa O Malho, 16-01-1915, ed. 644, t. 15.

 

[319] A formulação fica bem ilustrada pelo noticiário do assassinato de “Lili das Joias”, como era conhecida a demi-mondaine Rosa Schwartz, no período em que o jovem Graciliano obtinha no Rio escassos trabalhos como suplente no Correio da Manhã, meses antes de conseguir pouca coisa em O Século, como relata em Cartas, de 20-10-1914 e de 18-12-1914. Ver: “Uma mulher degolada e roubada por um desconhecido”, Correio da Manhã, 08-10-1914, ed. 5705, t. 3, e, para a solução do caso no ano seguinte, “O assassino de Lili das Joias”, O Século, 11-09-1915, ed. 2482, t. 3.

 

[320] Cartas, 31-01-1928, p. 100.

 

[321] Segundo Cartas, nota 16, p. 224, “o sacerdote revelara ao pai de Heloísa que o pretendente à mão de sua filha escrevia um romance, buscando com isso valorizá-lo aos olhos do futuro sogro”. 

 

[322] Cartas, 04-02-1928, p. 101-103.

 

[323] Avaliações sobre o prefeito Graciliano, relativas às áreas de direito administrativo, de gestão pública, a questões de personalismo, de meio ambiente e de direito de animais têm sido enfocadas no meio acadêmico como, por exemplo, indicados na bibliografia: Manoela Massuchetto Jazar et alii, “O prefeito Graciliano Ramos pelo olhar da gestão urbana contemporânea”, e Fábio Lins de L. Carvalho, Graciliano Ramos e a administração pública.

 

[324] Memórias do cárcere, Parte I, 4, p. 51, sobre o contexto de 1930 a 1936: “Parecera-me então que a demagogia tenentista, aquele palavrório chocho, nos meteria no atoleiro. Ali estava o resultado: ladroagens, uma onda de burrice a inundar tudo, confusão, mal-entendidos, charlatanismo, energúmenos microcéfalos vestidos de verde a esgoelar-se em discursos imbecis, a semear delações”.

 

[325] Ver: Ângela M. dos Santos, “As interpretações de um Código de Posturas alagoano à luz da História Social”, como também sua dissertação O pensamento graciliânico e suas relações sociopolíticas e administrativas em Alagoas, com farta documentação fac-similar do percurso administrativo de Graciliano, como prefeito, diretor da imprensa oficial e diretor da instrução pública.

 

[326] Em O Índio, 11-09-1921, ed. 33, t. 3, na coluna de “Zé da Cidade”, uma nota verberava a profusão de pornografia disponível em “A Brazileira”, comércio de João Moraes. Curiosamente, o nome “João Moraes”, entre outros momentos, aparece no jornal, como se indicou acima, subscrevendo o “X” da última aparição da coluna “Garranchos”, em O Índio, 01-05-1921,  ed. 14, t. 1.

 

[327] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 146-147. Os itens indicados parecem atender à crítica publicada alguns anos antes em O Índio, 13-03-1921, ed. 7, t. 2,  em texto com o título “Palmeira”, assinado por “Z.” (em Cartas, 04-08-1921, p. 76, a Pinto da Mota Lima, Graciliano atribui o pseudônimo “Z.” ao Padre Macedo, mas o texto a seguir tem passagens, formulações e vocabulário com a precisão sintática e o tom irônico de Graciliano):

Um olhar retrospectivo sobre nossa urbs, tão bela em sua topografia, deixa-nos uma sensação de pesar. É que Palmeira, à maneira de nossas formosas camponesas, tem simplesmente os adornos legados pela pródiga natureza, enquanto a desfiguram atavios artificiais e arcaicos.

De sorte que melhor será dizer-se que é uma cabocla mal vestida, por isso que a formosura não pode resplandecer entre uma cabeleira em desalinho e empiolhada, nem o talhe figurar majestoso no indivíduo andrajoso e sujo.

E nem se fale de benefícios particulares, porque, afinal, não passam de pontos luminosos em fundo preto.

Brilham por si e para seus donos. São pérolas engastadas num montão de ruínas.

Palmeira tem, é verdade, algumas casas mais ou menos novas e bem feitas, um palacete municipal, um açougue público, uma empresa de luz elétrica, um cinema com suas fitas e bancos quebrados, um jornal que vem de nascer, bem magro, uma garage à espera de autos, alguns templos e nada mais. Não temos estética urbana, que aqui as vias públicas imitam perfeitamente as veredas tortuosas de nossos antigos pebas.

Cada rua tem seu ziguezague.

E fosse só isso, inda bem.

Há pior, muito pior: o açude fétido e imundo, que lhe empesta o ambiente, transformando esta parte suavíssima do sertão em um foco de epidemias. Mesmo assim, é o deleite de grande parte da população, que, como os nossos suínos, lá está todas as horas do dia, mergulhada e bem contente de seu mal-aventurado bem-estar.

E que se não diga cousa alguma das exibições pornográficas e descaradas, em plena rua, à vista de todos aqueles que, forçados, hão de passar o velho paredão.

E assim progride nossa Palmeira, coberta de andrajos e cheia de micróbios. Até quando? Ninguém sabe. Seu futuro está nas mãos dos que a governam. Não lhes sei os intuitos. Entretanto, não lhes ignoro as promessas.

O resultado de dois anos foi de algum modo satisfatório. Demonstrou regular administração e critério. Agora, porém, o busílis! Muitas vantagens, muita coisa projetada.

Têm razão. A árvore é bem nascida. Com boas chuvas crescerá, e teremos flores e frutos. Que sejam doces.                                                                                                                                                 

                                                                                  Z.

(Segundo registros históricos da Câmara Municipal da cidade, em:

 < https://palmeiradosindios.al.leg.br/institucional/historia > [havia acesso em 2011], a administração de 1919 a 1921 teve como intendente (prefeito) Lauro de Almeida Lima e, como vice, Francisco Cavalcanti; na de 1921 a 1923, o intendente foi Francisco Cavalcanti e o vice, Luiz Ferreira de Souza).                                          

 

[328] Ver: < https://palmeiradosindios.al.leg.br/institucional/historia > [havia acesso em 2011]. Texto não assinado de O Índio, 13-02-1921, ed. 3, t. 1, acima, criticava a mendicância com bem menos compaixão que a do menino Graciliano em seu conto “Pequeno pedinte”. Citando a alma piedosa do Bispo Myriel de Os miseráveis, de Victor Hugo, reclamava do excesso de pedintes “malandros robustos” que se disfarçavam com farrapos e propunha greve de esmolas para obrigá-los “a arrebentar-se de fome ou a pegar no cabo da peroba”.

 

[329] Ver: Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 147-148. O autor relata vários episódios de entreveros, que, em seu primeiro relatório, Viventes das Alagoas, p. 170, Graciliano resume: “Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta”. Em reportagem com dados equivocados, Freitas Neto cita, sem indicação de fonte ou data, trecho de uma carta de renúncia do vice-prefeito José Alcides de Morais: “Reputo contraproducente e, portanto, prejudicial aos interesses do município, a política anti-econômica de pressão aos criadores, que a atual administração municipal vem exercendo. A continuação dessa política matará inevitavelmente a iniciativa privada, descontentando e dispersando a população rural, que é nosso melhor elemento de trabalho e progresso”, em:

< https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19721022-29928-nac-0280-lit-4-not  >.

 

[330] Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 149-151, nomeia o velho cacique como “major”. Em meados de 1936, enquanto Graciliano se encontrava preso no Rio de Janeiro, jornais noticiaram a prisão preventiva, em Alagoas, do coronel Aureliano Vargas Wanderley, presidente da câmara municipal na administração de Álvaro Paes, o ex-governador que se tornara prefeito de Palmeira dos Índios naquele período. O coronel era acusado de ser o mandante do assassinato de um agricultor. Ver: A Noite, 09-05-1936, ed. 8739, t. 11, e Diário de Notícias, 05-05-1936, ed. 2877, t. 2. Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 37-39, conta a história que, desacorçoado, ouviu do pai, a respeito de um capanga torturado na polícia para indicar o mandante do atentado a tiros, sem feridos, que o prefeito sofrera enquanto passeava de automóvel com Dona Ló (grávida de Ricardo – portanto, em 1928). Interrogado o pistoleiro, torturado, e sem conseguir a indicação do nome do mandante, Graciliano ordenou que o libertassem, prometendo ao criminoso que seria morto se voltasse a Alagoas. Graciliano nunca fez referência explícita a esse atentado. O filho moço, no Rio de Janeiro, ao ouvir inquieto a história, lembra que o pai respondeu: “Queria o quê? Você morto, sua mãe morta? Ou eu? Não, certamente. Então?”

 

[331] R. Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 33-34.

 

[332] Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 152. Tadeu Rocha, em Modernismo & regionalismo, p. 160, transcreve bilhete de Graciliano ao Dr. Hebreliano Wanderley, pedindo dados do Posto para o 1º relatório:

Gabinete do Prefeito

Palmeira dos Índios

Alagoas

                                                       Em 20 de dezembro de 1928.

Amigo Doutor Hebreliano:

Estou arranjando qualquer coisa parecida com um relatório, que sou obrigado a publicar em janeiro.

Ainda está em esboço, mas, para adiantar o serviço, tenho de fazê-lo aos poucos, nas horas vagas.

Como necessito ter tudo preparado no dia 8, peço-lhe o obséquio de mandar-me uma exposição dos trabalhos realizados até agora por esse “Posto”.

Amigo

Graciliano Ramos

 

[333] Neste período como prefeito (ao contrário da oportunidade que Graciliano terá como Diretor da Instrução Pública de Alagoas entre 1933 e 1936), a educação ficará sem destaque em meio à diversidade dos problemas resolvidos em sua administração. A vigorosa contrariedade com a baixa qualidade da educação, que as rememorações de Infância demonstram ter sido uma percepção vinda da criança, manifesta-se nas cartas do rapaz e torna-se uma das principais linhas editoriais de O Índio em 1921. Presente em toda a sua obra, suas avaliações-esterótipo, petrificadas na fixação obsessiva do diagnóstico (uma delas é a das “professoras-analfabetas”), aparecem escassamente nos relatórios. No relatório interno ao Conselho Municipal, de março de 1928, Graciliano diz: “Acho absurdo despender um município que até agora nada gastou com instrução, 2:000$000 para manter uma banda de música”, em: Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 33-34. No 2º relatório, de 1930, exercício de 1929, sem especificar a condição das escolas em cada aldeia e o modo como foram implantadas, diz no item “Instrução”: “Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. Presumo que esses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras. Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros”. Em: Viventes das Alagoas, p. 179.

 

[334] Ver: Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 152.

 

[335] Pouco antes de sua renúncia, uma nota de A Noite, 13-03-1930, ed. 6581, t. 6, Rio de Janeiro, anunciava: “O prefeito de Palmeira dos Índios comunicou ao governador Álvaro Paes já estarem prontos 27 quilômetros da estrada de rodagem ligando aquela localidade à de Santana do Ipanema”. Em 1937, quando Graciliano, após sua prisão, vivia no Rio, escrevia Vidas secas e publicava capítulos nos jornais, o Diário de Notícias, 09-07-1937, ed. 3238, t. 2, mencionava, em nota a respeito de obras contra as secas, a “estrada de rodagem de Palmeira a Santana do Ipanema, construída há oito anos pelos prefeitos Graciliano Ramos e Ormindo Barros”.

 

[336] 2º Relatório ao Governo do Estado de Alagoas, Viventes das Alagoas, p. 180.  

 

[337] Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 152-154.

 

[338] A Manhã, 01-08-1948, Suplemento Letras e Artes, ed 93, t. 8. Também em 1948, em entrevista a Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras, p. 186, à pergunta: “ – Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas...”, Graciliano respondeu: “– Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil”. Anos antes do Graciliano prefeito, em O Índio, 11-09-1921, ed. 33, t. 3, o procedimento já era mencionado em nota da coluna “Cousas d’aqui” de “Zé da Cidade”: “Os presos estão entupindo o buraco das ruas. Inda bem. Ao menos fazem exercício físico, o que servirá muito para a sua (deles) saúde”.

 

[339] Ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >: Ricardo Ramos, nascido em 04-01-1929, tornou-se renomado escritor. Faleceu em São Paulo, 20-03-1992.

 

[340] Álvaro Paes, nascido em Palmeira dos Índios, foi jornalista, professor, diretor da imprensa oficial de Alagoas nos anos 10 e prefeito de Itaguaí, no Rio de Janeiro (como informou orgulhosamente O Índio,    

12-06-1924, ed. 172, t. 3). Foi aliado de Costa Rego e deputado estadual e federal. Houve muita afinidade entre Graciliano e Álvaro Paes no espirito do tempo em que eclodiu a revolução de 30. Governador de Alagoas (entre junho de 1928 e outubro de 1930), foi deposto pelo novo poder, quando na verdade, junto a Graciliano, representava os professados anseios modernizantes e civilizatórios daquela revolução, com bem mais consistência que a “demagogia tenentista”. Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 122-123, lembra que Graciliano tornou-se das administrações municipais alagoanas o símbolo do dinamismo empreendido por Álvaro Paes, citando o Jornal de Alagoas de 14-08-1930: “À frente dos melhores prefeitos do atual triênio esteve até há pouco o Sr. Graciliano Ramos, pela inteligência, pela atividade, pela energia, pela honestidade e pela felicidade de suas iniciativas”. Graciliano escreveu sobre o amigo na crônica coletada em Linhas tortas, p. 89-91, s.d. (Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 33, informa que foi publicada no Jornal de Alagoas, 12-06-1930, assinada por “G. R.”): “Às vezes Álvaro Paes encontra no sertão alguns sujeitos pedantes, abominavelmente sabidos, desses que aprendem o francês do Pereira e vivem a estropiá-lo, a torto e a direito, em leituras inúteis. Não se perturba. Fala em Anatole France, em Renan e na Grécia. Depois, com sagacidade, vai metendo na conversa, em doses adequadas às circunstâncias, agricultura, pecuária, bancos e açudes. Um homem bom e de paciência rara. Há pouco tempo, em trânsito por esses cafundós onde Judas perdeu as botas, saltou do automóvel e entrou num casebre que tinha por mobília dois tamboretes e uma esteira. Visitou as plantações e deu à família conselhos que levaram o dono da casa a oferecer-lhe, comovido, um tatu. Aqui vai uma prova da bondade e da paciência de Álvaro Paes. Ele ama o sertão, está convencido de que existem ali recursos imensos. E quer transmitir aos outros o entusiasmo que o anima. Por isso, quando viaja, acompanham-no alguns citadinos, ordinariamente literatos, a quem ele vai impingindo imoderados louvores à beleza e à riqueza da terra”. Álvaro Paes, depois de ser deposto pela Revolução de 30, foi prefeito de Palmeira dos Índios no período em que Graciliano era preso e conduzido ao Rio de Janeiro. Ver: “Congresso das Municipalidades Alagoanas”, A Noite, 06-03-1936, ed. 8685, t. 2.

 

[341] Os relatórios foram publicados no Diário Oficial do Estado de Alagoas nos dia 24-01-1929 e 16-01-1930, como informa Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36. O primeiro foi apresentado a partir da página 2, o segundo ocupou com destaque a 1ª página. Ver fac-símiles reproduzidos em "Graciliano Ramos criou 'manual' do político irônico ao renunciar a prefeitura 90 anos atrás", David Lucena, Folha de São Paulo, 10-04-2020:

 < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/prefeito-por-dois-anos-graciliano-ramos-criou-manual-para-gestores-publicos.shtml  >.

 

[342] Em 1937, tendo ido a São Paulo a convite de Oswald de Andrade, Graciliano escreveu a Heloísa: “Acredita você que me vieram falar dos relatórios da prefeitura de Palmeira? Pois é verdade. Por onde me vire esses infames relatórios me perseguem” – em Cartas, 28-02-1937, p. 179.

 

[343] Ver, a respeito, meu artigo Os relatórios de Graciliano Ramos: “Northrop Frye, numa obra [Anatomia da crítica] que acolhe intensa erudição para responder ao que é literatura através de uma articulação teórica complexa, mostra a dificuldade de circunscrever seu objeto quando define a linguagem por duas direções: a direção para a literatura, interna, centrípeta, e a direção para a referência fatual, externa, centrífuga. Mas observa que os textos externos frequentemente sobrevivem em razão de seu estilo ou de sua configuração verbal atraente, depois que sua funcionalidade para a representação dos fatos se perdeu. Sobre a retórica da prosa não literária, a respeito de alguns sermões, cartas, o discurso de Lincoln, a fala de Vanzetti, as falas de 1940 de Churchill, diz: ‘Nenhum destes teve intenção primacialmente literária, e teria falhado a seu propósito inicial se tivesse tido, mas são todos literários agora, e dados para o crítico’. Sem que se possa, entretanto, negar-lhes ‘intenção primacialmente literária’, vêm à mente do leitor brasileiro os casos riquíssimos dos sermões de Vieira e de Os sertões, de Euclides da Cunha – este, um ensaio de história, geografia, sociologia dado irrefutavelmente à literatura como não romance. Em menor escala podemos considerar assim também os relatórios do prefeito Graciliano, cuja aplicação de âmbito mais prosaico e reduzido a dois anos, faz deles peças, em sua pequenez de funcionalidade externa, mais ainda significativas para o campo literário”. Ver análise com quadros de ocorrências linguísticas e figuras retóricas em: Sônia Jaconi, A transgressão sertaneja do gênero relatório: revelação do escritor no texto do prefeito Graciliano Ramos (tese) e sua publicação em livro, Graciliano Ramos: o prefeito escritor.

 

[344] Além das comprovações apresentadas mais abaixo, Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 39-40, menciona que, segundo Jorge Amado, José Américo de Almeida teria sido, talvez, o divulgador dos relatórios no Rio de Janeiro. Pedro Mota Lima, da família vizinha e amiga do jovem Graciliano em Viçosa, divulgou-os na imprensa carioca. Ver: A Manhã, 12-05-1929, ed. 1054, t. 14, sob o título “O riso higieniza o espírito” e o subtítulo “Bom humor oficial...”. Quanto à menção de Jorge Amado, ver sua entrevista a Marilene Felinto e Alcino Leite Neto, Folha de São Paulo, 06-07-1991, reproduzida em: < https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2020/12/muro-de-berlim-estava-caindo-na-minha-cabeca-disse-jorge-amado-a-folha.shtml  >.

 

[345] O Jornal do Brasil, 17-01-1930, ed. 15, t. 6, reproduz telegramas de apoio ao candidato a presidente da república, Júlio Prestes, e registra, entre eles, o assinado pelo Prefeito Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios, Alagoas: “10 – O Sr. Senador Costa Rego encontrando-se nesta cidade, em excursão de propaganda política, realizou hoje notável conferência sobre a candidatura de V. Ex. à Presidência da República. Saudações respeitosas”. De Recife, o getulista Diário da Manhã, 01-03-1930, ed. 301, t. 9, com título referido à “terra do Sr. Álvaro Paes” e rubrica de “Palmeira dos Índios”, dá notícia com feição capciosa de violências do chefe situacionista na campanha eleitoral e diz, sem nomear, que o prefeito, um “símile de Washington Luís das mensagens ocas, não descansa do trabalho afanoso de conseguir votos para o Julinho”.

 

[346] Relatório ao Governador do Estado de Alagoas [1º], Viventes das Alagoas, p. 159-173.

 

[347] Desde os tempos de O Índio, nos três meses que Graciliano esteve no jornal, em torno de fevereiro a abril de 1921 (de 31-01-1931 a 01-05-1921), era aguda e rotineira a crítica à empresa de energia elétrica que se instalara na cidade – o que culminou na “intimação” ao Sr. Garcia, o proprietário, no último “Garranchos”, O Índio, 01-05-1921, ed. 14, t. 1, quando Graciliano deixou o jornal. Mas Padre Macedo, em O Índio, 09-10-1921, ed. 37, t. 2, coloca Graciliano e Manoel Garcia de Almeida na lista de convidados para a inauguração da luz elétrica na Igreja Matriz. No ano seguinte, sob o título “Lei 132”, O Índio, 05-01-1922, ed. 53, t. 2, noticiou a expansão do contrato de fornecimento de luz que o intendente (prefeito) Francisco Cavalcanti acabava de assinar com o proprietário. Meses depois, em O Índio, 02-04-1922, ed. 61, t. 1, apareceu uma interpelação com acusações fortes ao Sr. Garcia. Finalmente, O Índio, de 02-07-1922, ed. 74, t. 3, informou que Leobino Soares da Mota, mal adquirira a empresa, já oferecia luz gratuita às igrejas da cidade. A nota agradece e recomenda o novo proprietário a “Deus Remunerador”.

 

[348] Ver nota acima sobre o artigo “Palmeira”, assinado por Z. em O Índio, 13-03-1921, ed. 7, t. 2 : “uma cabocla mal vestida”; “a formosura não pode resplandecer entre uma cabeleira em desalinho e empiolhada”, “coberta de andrajos e cheia de micróbios”.

 

[349] No relatório interno para o Conselho Municipal, de 19-03-1928, antes de completar três meses como prefeito, Graciliano descreve a situação financeira da cidade, os problemas a serem enfrentados e conclui: “De resto o contribuinte, que se desempenha bem para com a repartição estadual e federal, está habituado a pagar à Prefeitura se quer, como quer e quando quer [passagem posteriormente mencionada no primeiro relatório]. Isto se explica pelo fato de sermos todos, prefeitos, conselheiros e contribuintes, mais ou menos compadres”. Em: Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 34.

 

[350] 2º Relatório ao Governador do Estado de Alagoas, Viventes das Alagoas, p. 175-185.

[352] Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 78.

 

[353] Em História do romance Caetés, p. 14, Moacir M. de Sant’Ana cita o jornal de Penedo relativamente a trechos do 1º relatório transcritos do Jornal do Brasil: “De uma Prefeitura alagoana”, em A Semana, Penedo, 07-04-1929 . Em novembro de 1941 a Revista do Brasil, nº 41, publicou a resposta do prefeito Graciliano juntamente a uma carta referente ao 2º relatório, com datação de Penedo, 02-02-1930, enviada por Jurandir Gomes, que criticava a menção de Graciliano à má remuneração do trabalhadores da prefeitura (como se o prefeito estivesse justificando, quando na verdade ele estava denunciando a situação). A resposta manifestou simpatia aos elogios e ao equívoco de leitura do rapaz (o qual veio a ser seu colega de colaborações episódicas à revista Novidade, de Maceió, em 1931). Ver em Garranchos, p. 189-191, e, em F. R. A de Barros, ABC das Alagoas, tomo F-Q, o verbete na p. 114, “GOMES JÚNIOR, Jurandir”, em que o emissor é citado, como também o registro disseminado do nome “Jurandir Gomes”, com participações em academias, instituições culturais e publicações alagoanas.

 

[354] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36. Há também o registro de Moreno Brandão, na rubrica “Aspectos do sertão”, do Correio Paulistano, 14-12-1929, ed. 23736, t. 6, em que cita a alta capacidade administrativa do prefeito na pujante Palmeira dos Índios: "Chama-se ele Graciliano Ramos. É um fino humorista, cujo relatório apresentado este ano ao Conselho Municipal [sic] deu ensejo aos mais largos e disparatados comentários por parte da imprensa de todo o país, habituada apenas a descobrir superioridades mentais nos centros populosos das regiões parálicas, e, sobretudo, na sede do governo da União". Dentro do espírito laudatório pró construção de rodovias, o jornalista cita a obra de destaque de Graciliano e seu modus operandi: “Os trabalhadores empregados na abertura dessa rodovia percebem de 3$000 a 3$500 por dia, o que é um salário muito elevado em terras onde a vida é muito barata e simples”. Além disso, anuncia, sem nomear, Caetés: “apesar de empolgado pela vida prática, ainda não se desvinculou de suas tendências literárias, consoante o demonstra o fato de haver escrito recentemente um belo romance, que se conserva inédito por falta de editores”.

 

[355] Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 84-87. O pesquisador transcreve também uma publicação do Correio da Pedra, 15-09-1929, com elogios aos trabalhos do prefeito de Mata Grande e de Graciliano, p. 88-89. Moacir M. de Sant’Ana, em História do romance Caetés, p. 13-14, informa: os três artigos em O Semeador foram publicados sob o título “A  Prefeitura de Palmeira”, nos dias 25-01-1929, 04 e 05-02-1929; o 2º relatório mereceu (como o 1º, com “Prefeitos laboriosos”, 15-09-1929) um editorial do Correio da Pedra, 02-03-1930, sob o título “Um administrador”: rebateu críticas feitas por outros órgãos da imprensa alagoana, “por motivo de sua linguagem julgada por muitos inconveniente para documentos oficiais”, argumentando que existiam “no relatório em questão expressões um tanto ásperas, mas para os que as interpretam ao sabor de suas paixões“.

 

[356] Jornal do Brasil,  27-02-1929, ed. 50, t. 6. Ver também Diário de Pernambuco, 04-03-1930, ed. 53, t. 2, e trechos do relatório, indicando como fonte o Diário da Manhã, Recife, março de 1929, reproduzidos na “Nota pitoresca da semana” do Correio da Manhã, 07-12-1947, ed. 16288, t. 42.

 

[357] Última Hora, de 24-03-1953 a 30-03-1953, ed. 546, 547, 548, 549, 550, 551, t. 2. Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 95-104, reproduz os artigos como publicação da Gazeta de Alagoas, entre 05-04-1953 e 24-05-1953.

 

[358] Francisco Inácio Peixoto, da revista Verde, foi um implantador ousado da arquitetura moderna em Cataguases-MG, através, por exemplo, da mobilização de Oscar Niemeyer. Ver: Tiago Cavalcante da Silva, “A arquitetura modernista de Cataguases na correspondência pessoal de Francisco Inácio Peixoto”. F. Inácio Peixoto participou da coletânea de contos editada por Graciliano Ramos, com o conto “A fuga”, em Seleção de Contos Brasileiros – 2º volume: Leste.

 

[359] Sobre a Livraria Schmidt Editora e o contexto editorial, ideológico e cultural de 1930, ver Laurence Hallewell, O livro no Brasil, p. 466-474.

 

[360] Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 186, coletada de O Globo, 18-12-1948, ao invés de mencionar o convite para a publicação de Caetés, Graciliano diz: “Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial”. De fato, além das tratativas para a publicação, houve por parte de Rômulo de Castro - Schmidt sugestão de que Graciliano lhes mandasse artigos para imprensa, tal como comprova a carta de 24-07-1930, reproduzida por Wellington Pascoal de Mendonça, A consagração de Graciliano Ramos, p.pdf. 53:

Meu caro Graciliano,

Como vai, meu amigo? Em que está pensando? Ainda não reparou que o seu livro é esperado com ansiedade?

V. precisa decidir-se: ou edita V. mesmo os "Caetés", ou nos manda os originais.

Ainda não veio resposta a minha última carta. V. está assim tão sem tempo?

Junto mais dois jornais para V. ver mais coisas.

Graciliano, V. não poderia mandar um artigo para as "Novidades Literárias"?

Escreva, por favor, qualquer coisa sobre Alagoas, sobre os Cangaceiros, sobre o que V. quiser.

Espero sua resposta imediata.

Considere-se abraçado pelo seu amº

Rômulo

Ver: Catálogo eletrônico do IEB: < https://www.ieb.usp.br/ >:  acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 1>  contato com Rômulo de Castro> item 2:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229767 >.

De acordo com notas e informes da imprensa do Rio de Janeiro, o jornal “As Novidades Literárias” foi uma publicação conduzida por Augusto Frederico Schmidt, Djalma Cavalcanti e Jayme Ovalle. Tais informes indicam, sem menção a Graciliano Ramos, que o quinzenário durou cerca de seis edições em 1930, com profusa participação de renomados intelectuais. Ver, por exemplo: O Paiz, 06-07-1930, ed. 16694 t. 7; Para Todos, 02-08-1930, ed. 607, t. 38; O Jornal, 07-09-1930 ed. 3626, t. 9;  O Jornal, 15-01-1931, ed. 3736, t. 11.

 

[361] Em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 37, sem reprodução fac-similar ou indicação de fonte, Moacir M. de Sant’Ana informa que Graciliano, nessa data, “em telegrama lacônico, dirigido de Palmeira dos Índios, comunicou ao chefe do governo estadual, sua renúncia: ‘Exmo. Governador do Estado – Maceió – Comunico a V. Excia. que hoje renunciei ao cargo de Prefeito deste município. Saudações. Graciliano Ramos’ “. Ver em Catálogo eletrônico do IEB registro de carta de Álvaro Paes, datada de 14-04-1930, agradecendo os serviços prestados e acusando recebimento das prestações de contas e do telegrama de Graciliano informando a renúncia: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 1> contato com Álvaro Paes:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229693 >. Não há registros de combinação da renúncia com Álvaro Paes que envolvesse antecipadamente o convite para o cargo de Diretor da Imprensa Oficial. Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 154, a respeito da interrupção do mandato em meio à construção da rodovia, diz: “quando Álvaro Paes o levou para Maceió, a fim de ocupar o cargo de Diretor do Diário Oficial, 30 quilômetros [sic] dela – mais tarde aproveitados pela antiga IFOCS na construção da estrada de rodagem Central de Alagoas – tinham sido entregues ao tráfego”. (Em A Noite, 13-03-1930, ed. 6581, t. 6, noticiou-se 27 quilômetros). Graciliano, em  Leitura, 12-1942, ed. 1, t. 12, relembra o momento nesses termos: “Em princípio de 1930 larguei a prefeitura e dias depois fui convidado para diretor da imprensa oficial”.

 

[362] Diário de Pernambuco, 25-04-1930, ed. 95, t. 2. No Rio de Janeiro, A Noite, 16-04-1930, ed. 6615, t. 2, publicou pequena nota.

 

[363] Ivan Barros, em Graciliano Ramos era assim, p. 43, registra em nota a informação de Heloísa Ramos de que todo o estoque da Loja Sincera foi vendido, como liquidação, em uma semana. Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, no capítulo “O comerciante”, p. 58-73, testemunha detalhadamente circunstâncias da Loja Sincera: a fachada tinha em alto-relevo o nome “Graciliano Ramos”. Graciliano trabalhou ali cerca de 19 anos. Deu à loja uma configuração límpida e fluente no modo de organizar os espaços, a disposição de tecidos e outras mercadorias, além de elaborar um formulário-teste para selecionar empregados, escolhidos com eficiência enxuta. Estabeleceu para cada produto um “preço fixo”. Tornou-se guarda-livros, autodidata em contabilidade, fazia registros com precisão técnica, manuscritos, numa cidade em que era raridade a máquina de escrever, à qual sempre foi indiferente (entretanto, Heloísa Ramos em depoimento ao Jornal do Brasil, 19-04-1981, ed. 11, t. 46, a respeito da doação ao IEB dos manuscritos e outros itens de Graciliano, diz que deixou para Palmeira dos Índios a máquina de escrever, na qual ele batia as faturas da loja – “Porque os livros ele sempre escreveu a mão”). Tinha a seu lado um lavatório, a obsessão das mãos limpas e a ojeriza a dinheiro: estendia sua carteira para que o outro com quem negociava retirasse a quantia devida (como lembra Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 29). Repelia publicidade da loja (afora em O Índio), mais ainda quando espalhafatosa. Cobrava devedores com delicadeza. Repudiava malandragens e truques para sonegação de impostos. Adquiriu, um ano antes da morte de Maria Augusta, o prédio em que ficava o seu estabelecimento. O biógrafo conta o caso em que o pai Sebastião Ramos, para valorizar mais o algodão que fora vender em Maceió, propôs aos compradores a inclusão, no preço, de dívida da Loja Sincera que Graciliano teria de pagar a eles mais à frente. Quando soube da “surpresa” preparada pelo pai, Graciliano repudiou a interferência nos seus negócios e exigiu do pai que desfizesse a combinação. E assim, com a crise mundial de 1929, diante do convite do amigo Álvaro Paes para ser Diretor do Diário Oficial, ponderou e resolveu liquidar a Loja Sincera: p. 73: “Pagou todas as dívidas; e em abril de 1930, quando arrumou os troços para se mudar para Maceió, contava só com trinta contos de réis no bolso”. Mais à frente, p. 155, referindo-se ao momento da Revolução de 30, em outubro, o autor comenta a situação de Graciliano em Maceió, como Diretor da Imprensa Oficial do governo deposto: “Para o sertão não lhe convinha voltar. Tinha vendido a loja e alugado o prédio”.

 

[364] 1930-1936 – Maceió

 

Segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano  Ramos: vida e obra, p. 47, ele chegou a Maceió com a família em 29-05-1930, passando a residir na Rua Boa Vista, 384. Assumiu o cargo em 31-05-1930, de acordo com o fac-símile do ofício manuscrito que o pesquisador apresenta na p. 239, com a legenda: “Graciliano Ramos comunica ao Secretário do Interior haver assumido o cargo de Diretor da Imprensa Oficial”. (Vivice M. C. Azevedo, em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 125,  lembra que dois de seus artigos publicados são de abril 1930 (os “macobebas”) e que o Jornal de Alagoas de 03-05-1930 lhe deu boas-vindas, informando que Graciliano estava em Maceió “há dias”).

 

[365] Cartas, 12-06-1930, p. 110.

 

[366] Antonio Candido, em “No aparecimento de Caetés”, Ficção e confissão, p. 92-95, observa a importância do grupo para a recepção da obra, num evento de concentração que se revela "um fato importante de sociabilidade literária, considerada como estímulo à produção e à formação de juízos críticos – o que significa que pode ter influído na própria natureza do discurso que se elaborava ou se projetava a partir de Maceió": “um grupo intelectual que funcionou como público restrito de alta qualidade, cujo papel foi não apenas receber o livro, mas manifestar o seu juízo sobre ele”. Destaca a “leitura” de Santa Rosa configurada pelo desenho de sua capa para o romance e as resenhas de Valdemar Cavalcanti e de Aurélio Buarque de Holanda, publicadas no Boletim de Ariel (respectivamente nos números de dezembro 1933, ed. 3, t. 7 e fevereiro 1934 [pasta 1933 da Hemeroteca BN], ed. 5B, t. 15 a 17). Trata-se, pois, para Antonio Candido, do fato, “importante para a história literária, de um autor, vinculado a um grupo intelectual numa determinada cidade, produzir um livro que o grupo é capaz de avaliar imediatamente nos devidos termos, compreendendo o seu significado e distinguindo aspectos que se tornariam por assim dizer canônicos no desenvolvimento da crítica posterior”.    

 

[367] Como observa Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 47-48, há várias referências à presença marcante de Graciliano no bar: Valdemar Cavalcanti considera que o grupo fez de um café insignificante, o “Café do Cupertino”, “quase um centro de irradiação cultural”; “E Graciliano estava sempre presente às intermináveis discussões, fumando, um após outro, o seu ‘Selma’ ponta de cortiça”. Em Momento, de março de 1934 (IEB - Arquivo Graciliano Ramos - Recortes), na resenha “Nota sobre ‘Caetés’ ”, Aderbal Jurema diz: “Eu julgava encontrar no romance de Graciliano Ramos, aquele silencioso companheiro de banca do Café Central de Maceió, o desenvolvimento de uma tese social”. O crítico comenta que não esperava um livro somente humano, introspectivo, sem foco na desigualdade de classes. No Café, das conversas pitorescas, surgiam civilizadas questões políticas e literárias. Graciliano sempre falava por último, admirável pelas opiniões seguras, em meio a excitantes xícaras de café: “Por tudo isso me surpreendeu o plano do romance de Graciliano”. Anos depois, em resenha sobre Memórias do cárcere, em Diário de Notícias, 07-03-1954, ed.  9613, t. 54, Aderbal Jurema relembra com emoção quando o conheceu no Café, “já com os mesmos tiques e as mesmíssimas idiossincrasias que, mais tarde, iriam dar nervo e sangue aos seus melhores romances, inclusive o São Bernardo, que ele me deu para ler ainda nos originais datilografados”; “Era, naquela época, um homem maduro, embora não tivesse completado quarenta anos, e que falava medindo as palavras, atento não somente à construção da frase, mas, sobretudo, ao vocábulo exato para exprimir o que queria transmitir aos companheiros de mesa de café. Lembro-me bem de seu aspecto caipira, as pernas cruzadas, o cigarro ao canto da boca que vez por outra soltava um palavrão como um desabafo”. Raul Lima, em Diário de Notícias, 25-08-1946, ed. 7312, t. 24, lembra que era revisor da Imprensa Oficial quando para seu desagrado Graciliano chegou como diretor e acabou com “um acordo dos revisores, segundo o qual trabalhávamos apenas três vezes por semana”. Mas ressalta a atenção do diretor: “não deixava de descer frequentemente ao revisor jornalista e literatelho e falar-lhe de livros e leituras. Em breve a crítica saudaria, com especial ênfase, o livro Caetés, daquele burocrata ainda meio matuto que se revelava dono de um estilo e uma linguagem notáveis de sobriedade e precisão”. E em “Lembrança de Aloísio Branco”, Diário de Notícias, 15-09-1946, ed. 7330, t. 26, Raul Lima ameniza a dor da perda do jovem inteligente e criativo com a lembrança do convívio com ele e o grupo da “pequenina capital das Alagoas”, “nas mesas do Ponto Central, onde Graciliano incinerava, com a brasa do cigarro, pequenos torrões de açúcar. Nessas mesas, que uma mulher – Rachel de Queiroz –, com certa estranheza do meio provinciano, então igualmente frequentou, um funcionário do Banco do Brasil [Santa Rosa] desenhava, sobre o mármore, bonecos e garatujas”. Aurélio Buarque de Holanda, em entrevista a Homero Senna, República das letras, sob o subtítulo “À noite, no ‘Ponto Central’ “, p. 244-245, lembra: “Um grupo notável, como outro talvez nunca mais se reúna em pequena capital de província”; “À noite, o grupo – com exceção de Jorge de Lima – reunia-se no ‘Ponto Central’, não faltando às conversas outros escritores mais jovens”. Aloísio Branco, morto aos vinte e oito anos, “foi uma das mais brilhantes promessas de ensaísta que já tivemos”. E destaca o fenômeno: “Vários dos mais importantes livros da moderna literatura brasileira foram escritos, então, em Maceió: Angústia, de Graciliano Ramos; Menino de engenho, Doidinho, Banguê, parte do Moleque Ricardo, de José Lins do Rego”. Jorge Amado, Navegação de cabotagem, p. 29, foi a Maceió em 1933, vindo do Rio de Janeiro via Penedo, entusiasmado para conhecer Graciliano depois de ter lido – antes de serem retirados por Graciliano – os originais de Caetés que até então estavam na livraria de Schmidt. Fala do encontro: “fui encontrá-lo num bar, bebia café negro em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra – todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficamos amigos na mesma hora”; “Eu o recordo como vi pela primeira vez, na mesa do bar: chapéu-palheta, a bengala, o cigarro, a face magra, sóbrio de gestos. Parecia seco e difícil, diziam-no pessimista, era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro”.

 

[368] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano  Ramos: vida e obra, p. 47-48. Para consultar currículos e obras dos participantes, especialmente os alagoanos, ver: Francisco Reinaldo Amorim de Barros, ABC das Alagoas – Dicionário biobibliográfico, histórico e geográfico de Alagoas.

 

[369] Theo Brandão, médico e folclorista, e, citado acima, Moacir Soares Pereira, químico, bacharel em direito e (assim como José Lins do Rego) ativista do integralismo, com o qual rompeu por repulsa ao nazismo, são certamente as duas figuras citadas, junto a “Zelins”, na crônica “Doutores”, de Maceió, em que Graciliano comenta o valor do título “doutor”, tal como a transcreve Vivice M. C. Azevedo, em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 136: “Têm, naturalmente, as suas honras de sabedoria oficial no consultório ou na repartição, mas findo o trabalho, escondem o anel, dobram a carta e vão para os cafés discutir fitas do [cinema] Floriano, literatura, sociologia e outras habilidades. Um sujeito da rua grita para eles: – Oh Theo! Oh Moacir! Como vai, Zelins?” Ver: Garranchos, p. 129-132, e:           

< https://historiadealagoas.com.br/theo-brandao-do-folclore-alagoano.html >,                                                             < https://historiadealagoas.com.br/integralistas-em-alagoas.html >  e

< https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/mspereira.html >.

 

[370] Rachel de Queiroz, em “Centenário de Graciliano”, O Estado de São Paulo, 17-05-1992, Caderno 2, acervo p. 66, relembra o período: “conheci Graciliano antes mesmo de ele ser editado; e nem o conheci pessoalmente, então, foi só no papel. Era em 1932, e eu visitava Augusto Frederico Schmidt na sua Livraria Católica, na Travessa do Ouvidor. Era uma loja comprida, com o escritório no fundo”; “Schmidt me tomara os originais de João Miguel (que eu resgatara dos comunistas), meteu-os na gaveta e, dessa mesma gaveta, puxou outro original, pessimamente datilografado, e me mandou que o folheasse: ‘Leia!’ E como eu levantasse os olhos ele ordenou de novo: ‘Vá lendo’. E eu fui lendo, encantada e reverente: eram os originais de Caetés. Por fim me tomou da mão o manuscrito e me contou quem era aquele alagoano ‘um Eça de Queiroz, é o puro Eça!’”; “Quando, em fins de 1934, fui morar em Maceió, já Graciliano era nacionalmente famoso, já publicara São Bernardo”; “embora mal passasse dos 40 anos, para nós”, “todos na casa dos 20 anos”, “era o ‘ ‘velho’ Graça, o Mestre’ ”. Em:

< https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19920517-36005-nac-0066-cd2-2-not >,

ou: < https://blogdoims.com.br/salvando-os-originais-de-angustia-por-elvia-bezerra/ >.

 

[371] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano  Ramos: vida e obra, p. 47-48. Para o contexto de Maceió e as movimentações culturais do período, ver: Moacir M. de Sant’Ana, História do Modernismo em Alagoas - 1922-1932; Documentário do Modernismo (Alagoas: 1922-1931).

 

[372] Em “Visão de Graciliano Ramos”, publicado em Diretrizes , 29-10-1942, ed. 122, t. 7, 23, e como posfácio a Angústia, Otto Maria Carpeaux a seguir reforça essa qualificação, p. 232: “O nosso amigo comum Aurelio Buarque de Holanda chamou-me a atenção para a circunstância de representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo diferente de romance”. Rachel de Queiroz disse o mesmo: “Os livros de Graciliano Ramos são todos diferentíssimos uns dos outros, parecem escritos cada um por um homem diverso, vivendo em mundos opostos”, em Diário de Notícias, 09-10-1938, ed. 3893, t. 13 e 14. Nenhum deles observa que os romances diferentes resultam da própria inteireza do estilo único de retábulos. É o resultado da uniformidade do estilo marcante de Graciliano, que recorta com precisão e realismo, dentro de seu contexto, cada uma das classes sociais e com isso esgota sua ficção.

 

[373] Cartas, 18-08-1926 p. 83-86. Sobre as línguas, disse ainda: “Um sertanejo daqui foi o ano passado a Bauru, ao café. De volta, confessou-me que o que lá havia mais extraordinário era se falarem mais de vinte línguas, difíceis, principalmente a ‘língua paulista e a língua japão’ ”. Em Memórias do cárcere, Parte III, 34, relembrou a velha história: “Os paranaenses, graves, metódicos, arrumavam-se para descansar da melhor maneira, examinavam lentos a sala acanhada, permutando cochichos. Lembrei-me de um caboclo da minha terra, impelido ao sul finda a ilusão da borracha. De regresso, com chapéu de abas largas, roupa de casimira e relógio, esse tipo me dissera: – ‘Vossa mercê não imagina. Em São Paulo há um bando de línguas. Língua Bahia, língua Mato Grosso, língua Paraná. São diferentes da nossa, mas o senhor entende. O que ninguém entende é a língua Japão: essa é uma língua filha da puta’ ”. Em outro contexto, anos depois, 1952, Graciliano atacou explicitamente Mário de Andrade em “Uma palestra”, Linhas tortas, p. 275-276: “No Brasil, nesse infeliz meio século que se foi, indivíduos sagazes, de escrúpulos medianos, resolveram subir rápido criando uma língua nova do pé para a mão, uma espécie de esperanto, com pronomes e infinitos em greve, oposicionistas em demasia, e preposições no fim dos períodos. Revolta, cisma, e devotos desse credo tupinambá logo anunciaram nos jornais uma frescura que se chamava ‘Gramatiquinha da fala brasileira’ “.

 

[374] F. de A. Barbosa, “50 anos de Graciliano Ramos”, A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 43-45.

 

[375] Dom Casmurro, 13-07-1940, ed. 157, t. 2, coligida em Linhas tortas, p. 147-151.

 

[376] Dom Casmurro, 12-12-1942, ed. 280, t, 3.

 

[377] Carta apresentada por Moacir M. de Sant’Ana, em História do romance Caetés, p. 37-38, com observação na p. 10: encontrada posteriormente à publicação em 1980 da correspondência de Graciliano, a carta foi ditada ao pesquisador em telefonema de São Paulo, 02-11-1983, por Heloísa Ramos. Apesar da observação, o pesquisador não menciona uma possível resposta de Graciliano a essa carta. Ver: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 1> contato com Rômulo de Castro> item 1:

 < http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229766 >.

 

[378] O grupo de Maceió formou-se e se dissolveu gradativamente durante a década, rumo ao Rio de Janeiro: Jorge de Lima em 1931, com Aloísio Branco (que retornou – e faleceu em 1937), José Lins do Rego em 1935, Graciliano (preso) em 1936, Aurélio Buarque de Holanda em 1938, Rachel de Queiroz, que retornou em 1939, entre tantos outros do grupo de Maceió, como Valdemar Cavalcanti e Alberto Passos Guimarães. Para o percurso desse grupo, que, concentrando-se em Maceió nos inícios dos anos 30, projetar-se-ia pelo Rio de Janeiro nos finais da década, articulado a debates entre Modernismo e Regionalismo, ver: Simone Silva,  “A ‘roda de Maceió’ e o projeto regionalista. Uma perspectiva etnográfica das disputas ocorridas no mundo do livro dos anos 1930”; como também: Vamireh Chacon,  “Gilberto Freyre, Mário e Oswald de Andrade”; Neroaldo Pontes de Azevedo, Modernismo e regionalismo (Os anos 20 em Pernambuco); Tadeu Rocha, Modernismo & regionalismo. Para uma percepção abrangente e minuciosa do período e referências bibliográficas exaustivas de sua fortuna crítica, ver: Luís Bueno, Uma história do romance de 30.

 

[379] Correio da Manhã, 22-07-1930, ed. 10914, t. 6. E, assim, durante todos esses anos antecedentes à publicação de Caetés, surgiram notícias da obra.

 

[380] Revista de Ensino, 09 e 10-1929, de Maceió, ed.  17, t. 50-51 – crônica coletada em Viventes das Alagoas, p. 133-135.

 

[381] Diário de Notícias, 25-07-1930, ed. 44, t. 3.

 

[382] Vamos Ler! n. 65, 28 de outubro de 1937, com manuscrito registrado no Catálogo de manuscritos do AGR, p. 174. Os textos das duas crônicas estão coligidos em Garranchos, p. 125-128, 160-163.

 

[383] Texto também publicado em O Jornal, 11-09-1938, ed. 5904, t. 25 e 27.

 

[384] Ricardo Ramos, Retrato fragmentado, p. 36-37.

 

[385] Novidade, 16-05-1931, ed. 6, t. 8.

 

[386] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 72. Ver também: Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50.

 

[387] Texto coligido em Linhas tortas, p. 89-91. A respeito, ver nota em Diário de Notícias, 24-08-1930, ed. 74, t. 4, que noticia viagem de Álvaro Paes pelo interior para inspecionar obras, acompanhado do “jornalista Graciliano Ramos” e do “Dr. Jorge de Lima”.

 

[388] Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n. 3, dezembro de 1933, p. 81, ed. 3, t. 25  -  trecho “de um romance a apparecer: Os Cahetés”.

 

[389] Momento, Recife, n. 2, dezembro de 1933, p. 10 - reprodução fac-similar em: Carlos Benites de Azevedo, Entre crônicas, contos, cartas e pequenas histórias da república de Alexandre e dos meninos pelados, p. 154.

 

[390] A Noite. Rio de Janeiro, 07-02-1934, ed. 205, t. 14 - apresentação na seção “Noite Ilustrada” de trecho de Caetés: “mais um escritor nortista”, com destaque “pela singularidade do tema e pela feição agradável e despretensiosa do estilo”.

 

[391] Literatura, Rio de Janeiro, n. 18, 20-06-1934, p. 1 - resenha sobre Doidinho, de José Lins do Rego – em Garranchos, p. 133-137.

 

[392] Diário da Manhã. Recife, 30-08-1934, ed. 830, t. 16 - publicação de trecho de Caetés na seção “Um conto para ler no bonde”.

 

[393] Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n. 12, 09-1934, ed. 12B [pasta 1933], t. 15-16 - trecho “do romance a apparecer: S. Bernardo”.

 

[394] Folha de Minas, Belo Horizonte, 17-02-1935 - resenha coletada em Linhas tortas, p. 92-96, sob o título “O romance de Jorge Amado”.

 

[395] Diário de Pernambuco, 10-03-1935, ed. 57, t. 11 – em Garranchos, p. 138-142.

 

[396] Diário de Pernambuco 28-06-1935, ed. 152 t. 13; A Escola, Maceió, vol. I, p. 13-14, set. 1935, fasc. 1 – os detalhes bibliográficos estão indicados em Aline da S. Santos, Graciliano Ramos: literato e gestor - contribuições à educação alagoana (1920 - 1940). Em Garranchos, p. 143-145.

 

[397] Diário de Pernambuco, 24-01-1936, ed. 20A, t. 10.

 

[398] Jornal do Recife, 13-11-1931, ed. 255, t. 2.

 

[399] Diário de Pernambuco, 22-12-1933, ed. 291, t. 3.

 

[400] Para contextualizar essa publicação recifense, anunciada como o “Boletim de Ariel do Norte”, ver a diatribe de Murilo Mendes em Boletim de Ariel, 12-1935, ed. 3, t. 7, “A poesia e os confusionistas”: o poeta ataca o esquerdismo e a “incultura proletária” dos “juremistas” –  no que inclui Valdemar Cavalcanti –  depois que a publicação considerou ridículo que ele e Jorge de Lima escrevessem poemas a Jesus.

 

[401] O Jornal, 08-12-1933, ed. 4336, t. 6. 

 

[402] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 80. Em registros da publicação, na coleção incompleta da Hemeroteca Digital da BN, constam como correspondentes da revista em Alagoas: Valdemar Cavalcanti: Boletim de Ariel, 09-1932, ed. 12, t. 2 ; e Raul Lima: Boletim de Ariel, 10-1935 a 09-1936, ed. 1[pasta 1935], t. 8, e 10-1938, ed. 1, t. 3.

 

[403] Ver passagem da carta para Alceu de Amoroso Lima em que Jorge de Lima conta que esteve no velório da criança e comenta o temperamento de Graciliano Ramos, “uma figura fora do comum”, dizendo que ele estava “até alegre” e querendo conversar. Carta de 08-09-1930, obtida do Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, através de Leonardo D’Ávila, por Lygia Barbachan Albuquerque Schmitz, transcrita em sua dissertação: Cartas de Graciliano Ramos: caput mortuum de uma vida literária,  p.pdf. 81. Em 1935, ao falar da incômoda miséria que Jorge Amado expunha em Suor, Graciliano incluiu Jorge de Lima em lado oposto: “Há uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem comprar capas de borracha” – em Linhas tortas, “O romance de Jorge Amado”, p. 92.

 

[404] Segundo Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 41, Ló levou para a casa da avó Austrelina Leite de Medeiros, em Pilar-AL, Múcio, Maria Augusta e Ricardo, e Graciliano ficou em Maceió com Márcio e Júnio, que estudavam no Liceu Alagoano. Entretanto, em Cartas, 27-09-1930, p. 112, Graciliano diz a Ló que deu o recado dela a Múcio. E em Cartas, 01-10-1930, p. 113, Graciliano diz à esposa: “Não se importe com Múcio nem com a roupa. No dia do aniversário dele mandei arranjar por Alaíde tudo que ele precisava, da cabeça aos pés”; e “Recebi agora uma carta de Márcio. Não me manda dizer se melhorou”. Como se brincasse com alguma observação de Ló, assinou com o cognome “gato”, do que fará menções também nas cartas de 1932.

 

[405] Sobre o assunto, ver acima: o Correio da Manhã, 09-09-1930, ed. 10956, t. 2, noticiava nessa época que Álvaro Paes encarregara Graciliano, diretor da Imprensa Oficial, de um projeto de uniformização dos orçamentos municipais.

 

[406] Bordão do Dr. Liberato, médico, personagem de Caetés.

 

[407] A Casa Ramalho foi uma importante livraria, papelaria e editora de Maceió, que se anunciava fundada em 1893. Como editora publicou obras variadas, teóricas e literárias, de intelectuais alagoanos e, em 1938, lançou a revista Alagoas – mensário ilustrado (agosto 1938, ed, 1, t. 5), com participação expressiva dos intelectuais de Maceió (ver, por exemplo, o índice da edição de setembro 1938, ed. 2, t. 6). É por meio dessa casa que depreciativamente João Valério em Caetés devaneia publicar o seu “Caetés”, como diz no capítulo 3, p. 23: “numa brochura de cem a duzentas páginas, cheias de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho”. É o movimento especular de ironia consigo mesmo que Graciliano projetava com feição provinciana – tal comentário nessa carta a Ló se aproxima do que diz João Valério no capítulo 8, p. 51: “As minhas ambições são modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmácia Neves, no café Bacurau, dissessem: ‘Então já leram o romance do Valério?’ Ou que, na redação da Semana, em discussões entre Isidoro e padre Atanásio, a minha autoridade fosse invocada: ’Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério’ “. Apresento, a respeito, observações em“A inexistência de Caetés”.

 

[408] Cartas, 26-09-1930, p. 111.

 

[409] Cartas, 04-10-1930, p. 114-115.

 

[410] O médico José Carneiro de Albuquerque foi prefeito de Maceió de 1928 a outubro de 1930. Destacou-se por uma administração dinâmica, incluindo combate sanitário às formigas. Foi um dos médicos que atendeu Graciliano, em 1932 – ver abaixo. O otimismo leibniziano é satirizado por Voltaire, em Cândido, ou o otimismo, com o bordão “o melhor dos mundos possíveis” que acompanha peripécias rocambolescas regadas de carnificina.

 

[411] Cartas, 07-10-1930, p. 115.

 

[412] Cartas, 10-10-1930, p. 116.

 

[413] Cartas, 11-10-1930, p. 117. Há muitas anedotas em torno da atuação de Graciliano durante esse período, mas o que há de mais verídico certamente é seu depoimento com as reminiscências sobre o quartel do 20º Batalhão de Maceió, quando chegou ao local, preso, em 1936 - em Memórias do cárcere, Parte I, 4, p. 50-51: “Estivera ali em 1930, envolvera-me estupidamente numa conspiração besta com um coronel, um major e um comandante de polícia, e vinte e quatro horas depois achava-me preso e só. Dezesseis cretinos de um piquete de Agildo Barata haviam fingido querer fuzilar-me. Um dos soldadinhos que me acompanhavam chorava como um desgraçado”. Ainda referindo-se ao momento de 1936, acrescenta na p. 51: “desci do automóvel, atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com braçadeiras vermelhas”. Mais à frente, Memórias do cárcere, Parte III, 22, p. 114,  fala de detalhes da prisão e de sua expectativa no período de detenção durante a Revolução de 30: “Eram dezesseis malucos. Esvaziaram-me os pneumáticos do carro, encheram-me de perguntas e ameaças. Atrapalhado em excesso, não respondi; tirei do bolso um papel e mastiguei-o. Preso, estirado na cama, o chapéu cobrindo-me o rosto, ouvi pancadas; sentei-me, vi perto um indivíduo a bater com a soleira do fuzil no chão, querendo assustar-me. – ‘Você dispara esse diabo e mata um companheiro. Com licença.’ Estirei o braço e virei a asa do registro de segurança. Achava-me bastante apreensivo, mas era receio comum. Alguns dias de reclusão, vários aborrecimentos. Mal sério não me fariam aqueles militares vagabundos, incapazes de pegar direito numa arma”. A lembrança desses dias comporá onze anos depois a crônica satírica “Bagunça”, que esculhambaria já pelo título a solenidade da revista estadonovista Cultura Política, 10-11-1941, ed. 9, t. 395-396, “Edição extraordinária comemorativa do quarto aniversário do regime de 10 de novembro de 1937” – se o editor não suprimisse títulos além de preparar capciosas sinopses: crônica coletada em Viventes das Alagoas, p. 58-61: “A cidade amanheceu calma e tudo indicava que assim permaneceria muitos anos”; “Um jornal afirmou que as coisas iam bem, outro arriscou timidamente que talvez elas pudessem melhorar um pouco”; “Ao meio-dia chegou, num telegrama curto do Presidente da República, a informação de que tudo se achava em ordem”; “O Governador mandou o telegrama à Imprensa Oficial, depois telefonou mandando suspender a publicação dele”; “Às duas horas, reuniu os secretários, o comandante da polícia e amigos de confiança”; “Mas o comandante da polícia exibia disposições belicosas: num instante organizou planos, guarneceu as fronteiras e dinamitou as pontes sem dificuldade”; “Uma noite alguns cavalheiros ponderosos tiveram uma longa entrevista com o Governador. Ignoram-se os termos da conversa. Provavelmente se referiram a D. Pedro II e às desgraças que ameaçavam o Estado. Às onze horas S. Ex.ª embarcou”. E termina com uma síntese perfeita do período: “Vários se acautelavam, pensando no Rio, e, bastante dignos para renegar de chofre convicções antigas, limitavam-se a introduzir no bolso um lencinho encarnado. Via-se dele uma ponta discreta, que, em conformidade com as notícias, mergulhava ou reaparecia. Depois da vitória foram esses os mais afoitos e intransigentes. Não mereceram demasiada atenção. A maioria animava-se de verdade, oferecia moedas de prata para a liquidação da dívida externa, esperava que altos-fornos se construíssem de repente, corresse o petróleo e a população subisse a duzentos milhões. Esses desejos encurtaram-se, mas ainda ficaram extensos, e moços verbosos, falando muito na realidade brasileira, procuraram em países distantes receitas convenientes aos males nacionais. Os políticos maduros, educados na poesia e na retórica, arrepiavam-se ouvindo sujeitos imberbes que se agarravam à economia e à sociologia, citavam livros desconhecidos. – Que materialismo!”(Com o mesmo teor a respeito dos pusilânimes oportunistas de 30, foi publicada em Novidade, 06-06-1931, ed. 9, t. 6, por Lima Júnior ,“Carta a um antigo correligionário político”, assinada com o nome do filósofo  sofista que se manteve fiel ao paganismo, “Libânio”, 314-394 d. C.). Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 74-75, declara: “O próprio Diretor da Imprensa Oficial escreve o folheto visando a acalmar o povo: os bichos-papões que o assustam existem apenas nas imaginações exaltadas”; “Os folhetos tranquilizadores, impressos em papel verde, são atirados de um aeroplano sobre a população”. Mas logo as “tropas de Juarez Távora entram em Maceió com Agildo Barata no comando e uma grande curiosidade: – Cadê aquele sujeito que disse que a gente era alma do outro mundo?”; “Seguira para Palmeira. Subitamente reanimado, fora articular a resistência com meia dúzia de conspiradores. É, no entanto, detido e recambiado ao quartel do 20º Batalhão, onde passa uma noite”. Segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 42, o boletim pedido por Álvaro Paes, citado na carta a Ló, pode ser o intitulado “O povo deve confiar no governo” (cujo fac-símile o pesquisador apresenta na p. 217): um texto solene que fala de boatos sobre a revolução como “obra satânica dos inimigos da paz e da ordem”. O pesquisador ressalva que o registro acima de Clara Ramos poderia ser de um outro boletim, com menção aos revolucionários como “almas do outro mundo”. Marili Ramos, em Graciliano Ramos, p. 57, conta que também participou das encrencas: Graciliano, tendo encontrado Palmeira já aderida aos revolucionários, na volta foi detido em S. Miguel dos Campos: “Em tais circunstâncias, Heloísa e eu não esperando que ele voltasse vivo, enterramos os originais de Caetés, numa lata tampada, em baixo de um pé de sapoti, no quintal da casa de minha irmã Otília, em Jaraguá. Graças a Deus, já alta noite, ele chegou”. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 44, detalha que o episódio ocorreu dias depois da fuga de Álvaro Paes, quando Heloísa já havia voltado com as crianças para casa, assim tendo ido com a cunhada esconder o manuscrito no bairro de Maceió em atenção ao pedido de Graciliano para que a esposa zelasse pelos originais do romance. Heloísa não seguiu entretanto sua recomendação de que se precatasse e não saísse de casa.

 

[414] ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >. Luíza de Medeiros Ramos Amado foi casada com James Amado (1922-2013), viveu em Salvador-BA, e, segundo noticiário sobre seu falecimento, em 07-02-2022, estava morando com a filha em São Luiz de Paraitinga - SP.  Ver, por exemplo: < https://aloalobahia.com/fotos/filha-de-graciliano-ramos-morre-aos-90-anos-em-salvador  >.

 

[415] A respeito da revista e do movimento editorial da Maceió no período, ver: Ieda Lebensztayn, Graciliano Ramos e a Novidade: o astronomo do Inferno e os meninos impossiveis, e: Carlos Moliterno, "Nota sobre publicações literárias em Maceió, nas décadas de 20 e 30":

< https://www.historiadealagoas.com.br/nota-sobre-publicacoes-literarias-em-maceio-nas-decadas-de-20-e-30.html/  >.

 

[416] Luiz Augusto de Medeiros (1905-1984), irmão, primogênito, de Heloísa e padrinho de batismo de Luíza Ramos, foi médico oftalmologista e escritor. Foi dos primeiros leitores de Graciliano e grande admirador de sua obra, incluindo as crônicas de “J. Calisto” que lia em O Índio quando era adolescente. Em 1957 participou na televisão do programa de prêmios “O céu é o limite” respondendo sobre “Graciliano Ramos” (perdeu quando do lapso na resposta sobre as palavras que Luís da Silva em Angústia garatujava com as letras do nome “Marina”: ar, mar, rima, arma, ira, amar” ou “ar, mar, ria, arma, ira) – ver em: O Mundo Ilustrado, 08-01-1958, ed. 2, t. 40-41. Com alguma convivência no meio intelectual, suas participações foram registradas, por exemplo, em A Manhã, 21-11-1944, ed. 1009, t. 3, no informe de que ele e Willy Lewin traduziriam obras de Gérard de Nerval. Mas posteriormente no lançamento de Aurélia constou apenas a tradução de Luiz Augusto de Medeiros e capa de Santa Rosa  – por exemplo, na resenha assinada por A. F. em A Manhã, 04-05-1945, ed. 1144, t. 3. No período, mencionava-se sua coletânea de contos sob o título As mãos, a sair, como em A Manhã, 05-10-1944, ed. 969, t. 3. Publicou o conto “Fila A n. 20” em Leitura, 09-1943, ed. 10, t. 26-29. O conto “Prelúdio em si menor” foi referido à revista Letras Brasileiras, em meio a textos de Murilo Mendes e Drummond, no anúncio publicado em A Manhã, 22-03-1945, ed. 1109, t. 7: o conto foi publicado em Vamos Ler!, 10-05-1945, ed. 458, t. 10, 11, 56. “Prelúdio em si menor” foi coletado por Graciliano Ramos (org.) em  Seleção de Contos Brasileiros – Norte e Nordeste (v. 1), como também em Romeu de Avelar (org.), Antologia de contistas alagoanos. Ainda de autoria de Luiz Augusto de Medeiros, o conto “Leonídio” foi publicado por Ricardo Ramos (org.), em Contos alagoanos de hoje.

 

[417] Em carta datada de 15-04-1931, Rômulo de Castro dizia a Graciliano que Schmidt iria enviar-lhe as provas de Caetés, que estavam sendo impressas em São Paulo : “Ele vem demorando por causa da crise. De fato está um buraco o negócio... principalmente de livros” – ver em Wellington Pascoal de Mendonça,  A consagração de Graciliano Ramos, p.pdf. 53.

 

[418] Cartas, 25-04-1931, p. 118

 

[419] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 157-158. Em A Noite, 15-01-1931, ed. 6876, t. 7, uma nota de Maceió indica a formação de várias comissões para “apuração de responsabilidades funcionais ou criminais em diversos municípios do Estado”, entre eles, Viçosa, Quebrangulo e Palmeira dos Índios. A data da sentença reproduzida por Valdemar de Souza Lima é de 27-07-1931, mas em Cartas, 03-08-1931, p. 119, a nota do editor diz que se trata de alusão a tal processo. Assim sendo, Graciliano, alguns dias depois da data acima indicada da absolvição, dizia ao pai: “Creio que a denúncia não terá consequências, mas não tenho certeza. Não pedi nada a Benon Maia, primeiro porque não gosto de fazer pedidos, em segundo lugar porque os homens que estão no governo não têm interesse em satisfazer-me. Entre eles há alguns que são meus inimigos pessoais. Far-me-ão o mal que puderem, o que é razoável. Eu faria o mesmo. A verdade é que não vou ao Palácio dos Martírios senão forçado, e os negócios daqui da Imprensa são resolvidos pelo telefone ou por ofício. A desorganização em que está aí o município presentemente não me preocupa. Qualquer transformação agora seria inútil. É maluqueira a gente comprometer-se à toa. Não sei se me faço compreender. Pensa que, se me aparecesse a possibilidade de uma combinação para modificar isso por aí, eu desejaria colaborar nela? As nomeações de delegados de polícia não valem nada, só servem para alimentar a vaidade de alguns coronéis que estavam encostados há vinte anos e que agora infelizmente surgiram. O que nos falta é um plano de trabalho, uma orientação segura, coisa que só será obtida por gente que conheça as necessidades e as possibilidades do Estado. Isso não se conseguirá nunca nos mexericos das repartições, necessita entendimento com os homens que produzem. E adeus, que estou hoje muito besta. O aluguel da casa não serve, é melhor deixá-la fechada”.

 

[420] Artigo assinado por R. C., intitulado “Cahetés”, no Jornal d [...?] (IEB – Arquivo Graciliano Ramos – Recortes - sem o nome completo do jornal e datado com grafia manuscrita de Graciliano: “8-11-1931”). O articulista elogia as publicações de Schmidt-editor, incluindo, entre obras de renome, o “esperadíssimo” Caetés. Afirma mas põe em dúvida o caráter nordestino do romance, urbano, de cidadezinha sertaneja, negando qualquer aproximação com A bagaceira, de José Américo de Almeida. E faz a relação com Machado. A comparação com Machado  perseguiu Graciliano pela vida toda e, como se vê, antes mesmo de ser publicado. Em “Machado de Assis”, artigo coletado em Linhas tortas, p. 109, ele reclama: “Se um sujeito admitia a concordância e não trocava o lugar das palavras, o jornal dizia: ‘Bem. Isto é Machado de Assis.’ Se o camarada evitava o chavão e não amarrava três adjetivos em cada substantivo, a explicação impunha-se: ‘Muito seco, duro. Esqueleto. Machado de Assis.’ Faltavam num livro cinquenta páginas de paisagem? ‘Claro. Esse homem aprendeu isso com Machado de Assis. É a história da casa sem quintal.’ “ (Humberto de Campos, em Brasil anedótico, p. 130, registra a expressão como lembrança de uma conversa com Coelho Neto, que teria usado a formulação “casa sem quintal” para qualificar a literatura de Machado). Em depoimento a O Dia, 04-05-1941, ed. 5444, t. 9, Graciliano destaca, antes de Zola, a influência fundamental de Balzac: “um deslumbramento”, “o maior romancista do mundo”. Acentua a força de As ilusões perdidas: “Ali há de tudo, desde a base econômica, admiravelmente definida e levantada e dentro da qual o livro tem durabilidade eterna”. Depois, Eça de Queiroz, que, na verdade, ele vê como uma derivação dos franceses. E o artigo conclui: “Ao contrário, porém, do que se pensa, Graciliano não foi influenciado por Machado de Assis”; “Não considera Machado um caso de genialidade e dele se julga afastado por uma questão de educação literária e por imperativo do temperamento. – ‘Meu espírito formou-se num ambiente de riso claro e vivo – continua o romancista. Ao demais, o que me distancia de Machado é o seu medo de definir-se, a ausência completa da coragem de uma atitude. O escritor tem o dever de refletir a sua época e iluminá-la, ao mesmo tempo. Machado de Assis não foi assim. Trabalhando a língua como ninguém, podia, no entanto, fazer uma grande obra viável às ideias. Não amo Machado. E releio Eça de Queiroz... pelo que ele me transmite, harmoniosamente, do espírito francês’”. A carta de Graciliano de 1946 a Haroldo Bruno, Estudos de literatura brasileiras, p. 97-99,  entre muitos pontos relevantes, menciona Machado sob o mesmo diagnóstico, mas em termos mais ásperos:

Rio – 1 – Setembro – 1946

Prezado Sr. Haroldo Bruno:

Muito lhe agradeço a carta de 12 de agosto e o excelente artigo vindo com ela. As nossas opiniões coincidem, exceto nos elogios que me dispensa. Mas isto pode ser considerado falsa modéstia – e convém mudarmos de assunto. Conversemos à toa, sem ordem, a respeito de alguns pontos de seu trabalho.

Na verdade é bem desagradável sermos discípulos de algum figurão que às vezes desconhecemos. Na América do Norte acharam-me este ano três mestres nunca lidos por mim. Certos críticos insistem nessas filiações: indispensável imitar alguém. Quando apareci, deram-me por modelo o velho Machado e expuseram para isso razões interessantes. Não admitem que andemos sem muletas: somos todos coxos. Aqui entre nós: sempre julguei Machado de Assis um sujeito de maus bofes e bastante covarde. Assim, seu juízo me traz verdadeiro alívio.

Muito justa a observação referente à mudança que se operou do primeiro ao último livro. Realmente, no começo apenas desejei mostrar uma cidadezinha do interior – fuxicos, preguiça, conversas à porta da farmácia. Até por volta de 1930 surgiram ataques à novela de costumes, ao estudo social, ao documento, e elogios imoderados ao romance introspectivo. Sem dúvida, pretendiam anular o fator econômico – e em consequência apresentaram-nos fantasmas. Ora, essas divagações arbitrárias não me despertavam interesse. Achei que só realizaríamos introspecção direita examinando a coisa externa, pois o mundo subjetivo não exclui o objetivo: baseia-se nele. Quem fugia à observação tinha evidentemente um fim político, mas as mofinas contra as reportagens eram de fato razoáveis. Conseguiríamos, evitando a parolagem chinfrim dos comícios, ferir os nossos inimigos com as suas próprias armas. Usaríamos até a linguagem correta, instrumento que de ordinário eles não utilizam. A sintaxe é também arma, não lhe parece? É meio de opressão. Assim pensando, fiz os meus últimos livros.

Bem. Como o tempo é escasso, não lhe mando uma carta: vai apenas, por enquanto, este bilhete. Alegra-me a ideia de ler os seus contos, quando V. para aqui vier, o que, desejo, acontecerá breve. Realmente, para que vivermos no Nordeste? Prendemo-nos à concha, mas isto não traz conveniência a ninguém – e um dia nos agarram, metem-nos de chofre num porão e obrigam-nos a viajar. Está certo: não precisam de nós. Espero que o meu amigo se decida a vir logo, antes que o forcem. Toco neste ponto, relendo o fim da sua carta, porque estou cheio de lembranças. Tenho aqui ao lado vários capítulos de uma história de cadeias; possivelmente não chegarei à última página, pois tenho mais de cinquenta anos e o negócio dará talvez uns quatro volumes. Como Infância foi composto em sete anos, presumo, assim andando em marcha de caranguejo, não concluir o trabalho num quarto de século. Rebentarei antes, é claro: a colônia correcional me arrasou os pulmões.

Adeus, por hoje. Novos agradecimentos e abraços, que tenciono dar-lhe pessoalmente. Amigo às ordens,

                                                                                                                        a) Graciliano Ramos

Agradeço a Zenir Campos Reis a indicação da carta e a recomendação de sua importância – a respeito, ver seu ensaio: Tempos futuros. Décadas depois de muitas discussões sobre o assunto, Roberto Schwarz abordou com vigor o equívoco da percepção de um Machado de Assis omisso.

 

[421] O verbo tem a intenção de sugerir que já em 1931 Graciliano escrevia S. Bernardo, em razão de expressões e comentários vinculados ao livro que aparecem em carta de 16-10-1931 a Aloísio Branco:  “trabalhos rurais”, “oito capítulos perdidos” (formulação semelhante aos “dois capítulos perdidos” de Paulo Honório), “leitura dumas coisas sobre zootecnia para descobrir o Schwitz e o Caracu”. Aloísio Branco, que se tinha mudado com Jorge de Lima para o Rio de Janeiro, frequentava a livraria de Schmidt, como se vê abaixo:

Imprensa Oficial

Gabinete do Diretor

Maceió

                                               Aloísio:

               Desejo que Nosso Senhor o ilumine sempre com sua divina graça.

               Você não me mandou endereço, naturalmente porque vive fora da terra. Infelizmente o carteiro não vai a esses lugares por onde você anda – e eu sou forçado a escolher uma região intermediária, a Livraria Católica. Está o meu amigo agora lá, mexendo nos livros e desejando que uma guerra das brabas espatife todas as máquinas e traga aos homens a quantidade de sofrimento necessário à salvação que procuramos.

               Nós aqui continuamos a achar bom o automóvel, pelo menos para levar com rapidez confissão e absolvição a um doente que quer morrer depressa. E pensamos que o linotipo e os navios nos oferecem publicações católicas sem atraso e numerosas.

               A propósito de linotipo, ainda não me vieram as provas [de Caetés]. Mas recebi uma carta de S. Paulo com a notícia de que a composição está concluída. O resultado dessa demora é que fiquei desanimado e abandonei os trabalhos rurais a que me vinha dedicando. Oito capítulos perdidos e mais a leitura dumas coisas sobre zootecnia para descobrir o Schwitz e o Caracu. Deixei isso.

               O café abundante continua a arrasar-me os nervos. Nenhuma leitura, além de duas obras sobre a Rússia, pouco interessantes. Vi esse livro de que você falou: o Aurélio esteve a cacetear-me com um pedaço de diálogo muito mal feito.

               Adeus, meu caro Aloísio. Desejo-lhe felicidades. Abrace o Rômulo e o Schmidt. E abrace-me também.

                                          Graciliano

Maceió – 16-10-1931

Trata-se de carta apresentada em encarte fac-similar por Tadeu Rocha, em Modernismo & regionalismo.

 

[422] Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 75, indica a circunstância de seu pedido de demissão do cargo em que fora mantido pela revolução de outubro de 1930: “Mestre Graça só deixará o cargo no fim do ano vindouro, quando, pretextando necessidade de compressão de despesas, exigirem dele a redução de vencimentos de um funcionário sob suas ordens”. Ver reprodução fac-similar do pedido de demissão de Graciliano em: Ângela M. dos Santos, O pensamento graciliânico e suas relações sociopolíticas e administrativas em Alagoas, dissertação que apresenta conjunto de documentação do percurso administrativo de Graciliano.

 

[423] Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras – 20 entrevistas com escritores, p. 186-187.

 

[424] Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 77.

 

[425] Cartas, 30-05-1932, p. 119-120. Nota da edição informa que Graciliano "submeteu-se a cirurgia para livrar-se de abscesso resultante de uma queda". Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50, acrescenta: “a 14 de abril daquele ano de 1932 internou-se no Hospital S. Vicente, da Santa Casa de Misericórdia, de Maceió, onde foi operado pelo Dr. Clemente Magalhães da Silveira”; e, depois das semanas de internação, “foi convalescer na residência do sogro, Américo Augusto de Medeiros, na antiga Rua do Macena, nº 159, (Cincinato Pinto), na capital alagoana, onde permaneceu até 29 de junho, quando regressou a Palmeira”. Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 58, relembra 1932: “ensinou na sacristia da matriz, hoje catedral. Foi aí que ele transformou a novela A carta em S. Bernardo – romance terminado em Maceió, na casa do senhor Américo Medeiros, seu sogro”. Há referências sempre vagas à escola aberta por Graciliano na sacristia da enorme igreja matriz Nossa Senhora do Amparo, que Padre Macedo construía, mas não há notícias sobre a configuração e a continuidade de tal atividade pedagógica. Em Memórias do cárcere, Parte III, 8, p. 52, Graciliano lembra as sequelas da psoíte em 1936, enquanto se arrastava, preso, transferido para a Ilha Grande, no caminho da Colônia Correcional: “As dores no pé da barriga avivavam lembranças insuportáveis do hospital. Meses compridos vira-me forçado a amparar-me a uma bengala; esse arrimo agora me fazia grande falta, e os passos arrastavam-se trôpegos, indecisos, parando a cada instante. Os soldados começaram a impacientar-se, e isto agravou a dificuldade. Tentei elastecer a carne entanguida, propensa à imobilidade; experimentei a sensação de ter um dreno de borracha metido no ventre”. Em passagem anterior, ele relembra as confusões da internação e da cirurgia em 1932: Memórias do cárcere, Parte II, 11, p. 269, 270: “E a mesa de operações, o escalpelo, um médico indiferente a dizer: – ‘Não adianta. Vamos fechar isto.’ Um páreo entre Clemente Magalhães e dr. José Carneiro. Morrerá, viverá? Clemente afirmava, dr. José Carneiro negava, queria, chateado, coser aquilo e mandar-me logo para o necrotério. Afrânio Jorge me segurava a cabeça e não consentia o homicídio”; “Dr. José Carneiro fora pago, indevidamente, na minha opinião. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me o ventre, o coração fatigado a subir, a descer, padre José Leite velando, oferecendo-me livros, contando, para entreter-me, histórias de Rodrigo Bórgia. Colapso de uma hora. O coração velho ia aquietar-se, dias longos de névoa, Mário Marroquim a discutir política, só. Minhas primas Alena e Lica sussurravam”; “Sombras, nuvens, escuridão, um relógio fanhoso a bater, cochichos, o deslizar de vultos amarelos, bichos moles e fosforescentes enroscando-se”.

Sobre Dr. Clemente Magalhães da Silveira Filho, origem de sua família e outras relações:

< https://historiadealagoas.com.br/familias-na-politica-alagoana-do-seculo-xx-7-magalhaes-da-silveira.html  >.

Sobre Dr. José Carneiro: < https://historiadealagoas.com.br/historia-do-medico-que-deu-nome-ao-hospital-escola-doutor-jose-carneiro.html  >.

Sobre Dr. Afrânio Jorge: < https://historiadealagoas.com.br/dr-afranio-jorge-e-o-historico-conflito-com-os-filhos-do-governador-fernandes-lima.html  >.

Relativamente aos desdobramentos da psoíte e da cirurgia, há uma informação inesperada de José Condé colhida na sua detalhada reportagem biográfica “Graciliano Ramos”, em O Cruzeiro, 15-04-1939, ed. 24, t. 11-12: “Graciliano que está inteiramente restabelecido da doença, pensa voltar novamente ao Rio. Chega a marcar a data do embarque, mas, na véspera, é surpreendido com a sua nomeação para diretor da Instrução Pública do Estado”.

 

[426] Cartas, 20-08-1932, p. 120-121.

 

[427] Cartas, 01-09-1932, p. 123.

 

[428] Cartas, 15-09-1932, p. 125.

 

[429] Cartas, 17-09-1932, p. 126-127.

 

[430] Cartas, 03, 04-10-1932, p. 127-129.

 

[431] O nome “Luís” nessa passagem não é explicitado. Luiz Augusto de Medeiros, o cunhado, como visto acima, morando no Rio, certamente procurava notícias sobre o andamento da edição de Caetés.

 

[432] Toda a história dessa publicação foi-se configurando como uma lenda provinciana e exclamativa, em que o falatório vai desde Santa Rosa a José Américo de Almeida mostrando os relatórios, que trazia do Nordeste, e garantindo, no Rio, que o ex-prefeito alagoano tinha um romance inédito, até as peripécias que, por exemplo, resume Josélia Aguiar em Jorge Amado – uma biografia, p.pdf. 55, em que os amigos brigam pela devolução dos originais (que a seguir Jorge Amado vai buscar de volta em Maceió): “Empenhado em pressionar o poeta-editor, Jorge uniu-se a Santa Rosa. Contaram ainda com um terceiro elemento que desembarcara por aqueles dias, outro literato da roda alagoana e hóspede na mesma pensão do Catete, o jornalista Alberto Passos Guimarães, que, vestindo a única roupa que tinha – calça de listas e paletó mescla –, impressionava com ares de advogado. Fingindo ser representante de Graciliano, encontrou-se com o editor, a quem ameaçou com severo processo”. Ver a entrevista de Jorge Amado a Marilene Felinto e Alcino Leite Neto em 1991:

 < https://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_18out00.shtml >. Ou, como Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 67, conta – uma história ocorrida às vésperas de seu nascimento – a respeito da irritação paradoxal do pai, tanto com o romance salvo da fogueira quanto com a demora de sua publicação: “E enquanto desproposita em Alagoas, amaldiçoando o editor, José Geraldo Vieira, no Rio, ao entrar numa tarde na editora da Rua Sachet, depara com o poeta em agoniado monólogo, a caminhar de um lado para outro: – Caetés! Será que esqueci no táxi quando vim do almoço com Nazaré Prado? Ou deixei na barca de Paquetá, ao voltar das meninas do Ovalle?” – mas a autora esclarece onde estavam os originais: “Os Caetés permanecem temerosos, esquecidos, no bolso de uma capa do editor” (a anedota encontra-se detalhada no prefácio a Alexandre e outros heróis, “A dioptria de Alexandre”, de José Geraldo Vieira). As notícias sobre Caetés, desde 1930,  continuavam a pingar em notas e promessas: em O Jornal de 09-07-1930, ed. 3574, t. 12: “Deve aparecer breve o romance do sr. Graciliano Ramos – Caetés. Em 1931, O Jornal, 16-01-1931, ed. 3737, t. 12, foi mais discreto e Caetés passou a romance de um “jovem escritor alagoano ainda desconhecido no Rio”. Mais para o final do ano, O Jornal, 14-10-1931, ed. 3696, t. 8, publicou nota de mesmo teor, acrescentando que se tratava de edição de Schmidt. Num reclame geral da editora, de meia página em O Jornal, 13-12-1931, ed. 4025, t. 15, anunciando muitos lançamentos, como o João Miguel de Rachel de Queiroz, Oscarina de Marques Rebelo, O país do carnaval de Jorge Amado, além da contratação de Casa grande & senzala, apareceu em letras garrafais Caetés, com a menção sucinta: “o grande romance do Norte, ansiosamente esperado”. Logo no início do ano seguinte, o mesmo O Jornal, 15-01-1932, ed. 4049, t. 11, dizia que dois livros novos seriam lançados naquele mês por Schmidt Editor: Instinto do Brasil, do Ribeiro Couto, e Caetés, de Graciliano Ramos. No mês em que finalmente Caetés iria chegar às livrarias por Schmidt Editor, uma nota publicada no Diário Carioca, 03-12-1933, ed. 1637, t. 23, perguntava cheia de equívocos: “Por que será que Adersen Editores estão retardando tanto Caetés, apesar de considerá-lo um bom livro?”

 

[433] Graciliano fez constantemente essa comparação. Por exemplo, em Memórias do cárcere, Parte II, 3, p. 225, quando viu, “com um estremecimento de repugnância”, seu primeiro romance sendo lido e se explicou, envergonhado, considerando sua publicação em 1933 um acidente: “julgava-me então capaz de fazer obra menos ruim, meses atrás concluíra uma novela talvez aceitável”. Entretanto, em Cartas, p. 165, bilhete enviado do Pavilhão dos Primários a Heloísa, em 27-03-1936, diz: “Entre os livros existentes, encontrei um volume do Caetés, que foi lido por um bando de pessoas”. Em entrevista, inédita, de 1941, para Gazeta Magazine, realizada por Paulo de Medeiros e Albuquerque e cedida em 1973 para o amigo Ivan Barros publicar, Graciliano conta a história de Caetés: em 1930, atendendo ao convite de Schmidt, enviou-lhe os originais: “Pouco depois recebi uma carta de Prudente de Morais, neto, fazendo sérias restrições ao livro. A razão estava com ele” – em Ivan Barros, Graciliano era assim, p. 160-161, coletada em Conversas, p. 101-109. Ivan Barros inicia a transcrição da entrevista com uma mensagem que o jornalista lhe enviou: “Meu caro Ivan:”, “Quando, em 1941, eu lhe levei meu exemplar da 1ª edição do romance Caetés, Graciliano, depois de relutar um pouco, escreveu o seguinte: ‘Paulo de Medeiros e Albuquerque: uma desgraça ter de autografar isto. Não é livro, não é nada. Enfim, como não há outro jeito, aqui deixo a minha assinatura. Um abraço do Graciliano Ramos’ “. Pedro Dantas (o pseudônimo permanente de Prudente de Morais, neto) relembra em “Graciliano – o estilo de uma amargura nos porquês de um bom-dia”, Suplemento Literário, O Estado de São Paulo, 22-10-1972, ed. 795, t. 1: “Farejando novidades recém-desempacotadas, no palanque dos fundos da Livraria Católica, na Rua Rodrigo Silva, ao lado da Igreja, depois demolida, de Nossa Senhora do Parto, dei com os olhos numa pasta que denunciava os originais de algum livro a publicar. Abri e comecei a ler. Li um capítulo inteiro”. Prudente de Morais, neto conta que não conhecia o autor e nem sabia dos relatórios, tal como ali soube por Rômulo de Castro, o qual lhe propôs que levasse a obra por uns dias para ler em casa. Depois, como após a leitura Prudente pediu que transmitisse ao autor seus comentários críticos, Rômulo sugeriu que ele próprio escrevesse a Graciliano. E, assim, escreveu ao desconhecido, “transmitindo-lhe a opinião altamente favorável que formara à leitura dos originais dos seus Caetés. Expunha-lhe, também, algumas poucas reservas, das quais já nem me lembro bem. Lembro-me de haver esboçado uma improvisada ‘Teoria’, a respeito das habituais debilidades dos nossos romances. A ideia era mais ou menos esta: nosso romance ressentia-se da pouca densidade da nossa vida social, que não oferecia suficiente ‘matéria romanceável’ – donde as deficiências do gênero, entre nós”; “Graciliano respondeu-me com uma esplêndida carta, bem característica do seu temperamento. Falava da alegre surpresa que fora a palavra de um desconhecido, que o correio lhe trouxera em momento de dúvida e depressão,  recebia com desconfiada reserva a opinião elogiosa, mas lia com vidro de aumento as duas ou três ressalvas críticas. E contestava formalmente minha esboçada teoria sobre o romance”. Prudente de Morais, neto lembra que Graciliano dizia que não nos faltava “matéria romanceável”: “Se não sabíamos aproveitá-la, era por incapacidade pessoal, era por burrice”; “Não tenho certeza se essa última palavra constava do texto da carta ou se lhe foi acrescentada mais tarde, em conversa sobre o mesmo assunto. Conversa retomada mais de uma vez, quando o escritor, já então consagrado, fazia ponto na Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor”. Essa “teoria” no feitio do “tamanho fluminense” de José de Alencar (ver Roberto Schwarz, “A importação do romance e suas contradições em Alencar”, Ao vencedor, as batatas), contestada por Graciliano incluindo possivelmente uma autocrítica relativa a Caetés, foi retomada com destaque em “Decadência do romance brasileiro”. Nesse texto ele saúda os eventos da Semana de 22 e da Revolução de 30 e indica suas vicissitudes, que, no entanto, acabaram com a retórica tão bem representada pela obra de Graça Aranha: “As novelas que apareceram no começo do século, medíocres, falsas, sumiram-se completamente. Uma delas, Canaã, que obteve enorme êxito, dá engulhos, é pavorosa”.  Trata-se de artigo publicado em Literatura, nº 1, Rio de Janeiro, setembro 1946, p. 20-24, publicado posteriormente em Diário de S. Paulo, 22-03-1953, Monitor Campista, Campos, 28-03-1953, na revista Travessia, em 1983, v. 4, n. 6, p. 93-98, e em Garranchos, p. 262-267. Ver J. C. Garbuglio et alii, Graciliano Ramos, p. 114-116, com manuscrito datado de 20-10-1941, e Catálogo de manuscritos do AGR, p. 170-171.  O artigo foi publicado primeiramente com traduções no exterior: em Nueva Gaceta, n. 11, dezembro de 1941, Buenos Aires, em :

 < https://americalee.cedinci.org/wp-content/uploads/2019/09/NUEVAGACETA_AIAPE_n11.pdf>, citado em Otto Maria Carpeaux, Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, p. 252, como “Decadencia de la novela brasileña”, Nueva Gaceta (erroneamente localizada em Montevideo), além da publicação: “The decline of the Brazilian novel”, Smith College monthly. Northampton, Mass, feb. 1943, p. 21-22, 28 - como consta no catálogo da exposição Graciliano Ramos – Biblioteca Nacional, 1963, item 98:

< https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital (> buscar “Graciliano Ramos”). Em carta a Nelson Werneck Sodré, Rio de Janeiro, 02-10-1942, Graciliano diz: “No começo do ano [sic], publiquei na Argentina um artigo sobre a decadência do romance brasileiro, coisa que felizmente os meus amigos não leram. Umas afirmações desagradáveis. Como não haveríamos de estar em decadência? Vivemos dormindo, alguns sonhando histórias bestas que julgam romances, e, em conformidade com hábitos péssimos da terra, são elogiados por amigos inescrupulosos. Tão cedo não teremos livros como Banguê, Jubiabá, João Miguel. Essa gente secou”: ver manuscrito em < https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital (> “Graciliano Ramos”). Ver também a menção ao debate com Prudente de Morais, neto em “O fator econômico no romance brasileiro”, Linhas tortas, p. 253-259, coletado de O Observador Econômico e Financeiro, 04-1937, ed. 15, t. 45-47, “O fator econômico no romance” [sem “brasileiro”] e republicado na Tribuna Popular, 15-07-1945, ed. 48, t. 9-10, como “O fator econômico no romance brasileiro”. O Catálogo de manuscritos do AGR, p. 153-154, registra o manuscrito, de 1937, sem o adjetivo “brasileiro”.

 

[434] Cartas, 08-10-1932, p. 130.

 

[435] A menção à “economia política” mostra-se sugestiva se lembrarmos que a conceptualização marxista subjacente à obra de Graciliano Ramos, a partir de S. Bernardo, deixa no romance traços alegóricos da “construção do burguês” –  para usar a expressão de Carlos Nelson Coutinho, Literatura e humanismo, p. 140-153. Apresento considerações a respeito em “O elogio do marxismo em Graciliano Ramos”, como também em “Fausto, O manifesto comunista e S. Bernardo”.

 

[436] Cartas, 24-10-1932, p. 133.

 

[437] S. Bernardo, cap. XXXVI, p. 181.

 

[438] Cartas, 27-10-1932, p. 134.

 

[439] Em “Paulo Honório”, depoimento a João Condé, Graciliano conta que depois da cirurgia retomou a escrita do romance “em Palmeira dos Índios, na minha casa do Pinga-Fogo, ouvindo os sapos, a ventania, os bois de seu Sebastião Ramos. Às vezes meu pai me visitava carrancudo, largava uns monossílabos. A carranca e fragmentos de velhas narrações dele combinaram-se na edificação de Paulo Honório. Infelizmente esse colaborador morreu em 1934 e não chegou a ler o romance” – texto publicado em João Condé, Dez romancistas falam de seus personagens, 1946. Ver registro do manuscrito no IEB em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 171-172. Em “Alguns tipos sem importância”, em Dom Casmurro, 19-08-1939, ed. 114, t. 2, coligido em Linhas tortas, p. 195, Graciliano mencionara o pai com outra direção: “É possível que esse sujeito [Paulo Honório] reflita alguma tendência que no autor existisse para matar alguém, ato que na realidade não poderia praticar um cidadão criado na ordem, acostumado a ver o pai, homem sisudo e meio termo, pagar o imposto regularmente”. O manuscrito se encontra no IEB, como descreve o Catálogo de manuscritos do AGR, p. 150 (além da publicação em Dom Casmurro, Brito Broca, no prefácio a Linhas tortas, edição de 1972 – prefácio suprimido em edições posteriores – p. 12, diz sobre “Alguns tipos sem importância”: “O amigo a que Graciliano se refere e que lhe pedira esse artigo foi o autor destas linhas. Atendendo a uma solicitação de Júlio S. de Toledo, diretor da revista Publicações Médicas, de São Paulo, procurei obter de Graciliano uma crônica para a seção ‘Variedades’ daquele periódico“).

 

[440] Clóvis Ramos, o irmão vinte e cinco anos mais novo, desde menino lidando com gado e lavoura, conta que Graciliano veio a ele para perguntar sobre a vida de uma fazenda: “Perguntou não me lembro o quê, e eu, irritado porque estava fazendo umas contas de um gado que vendi, respondi rispidamente:  ‘Sei lá! Quem pariu Mateus que o balance’. Graciliano me agradeceu, todo alegre, dizendo que era daquela frase que precisava” – em Jornal do Brasil, 21-10-1972, ed. 184, t. 44, depoimento reproduzido por Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 79. A expressão, com a grafia “mateu”, em minúscula e sem s, é usada no cap. 11 de S. Bernardo, p. 63, quando Paulo Honório se recusa a dar mais dinheiro ao jornalista Costa Brito, da Gazeta.

 

[441] Cartas, 01-11-1932, p. 134-135.

 

[442] Cartas, 11-1932, p. 135-136.

 

[443] Cartas, 11-1932, p. 137.

 

[444] Cartas, 11-1932, p. 138-139.

 

[445] < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica >: Clara Medeiros Ramos, nascida em Maceió, 09-11-1932, falecida no Rio de Janeiro – RJ, 07-04-1993.  Em Cadeia, p. 99, Clara Ramos apresenta fac-símile da dedicatória que Graciliano lhe fez em exemplar de S. Bernardo: “Para Clarita, irmã gêmea de São Bernardo, vinte anos atrás. Muitos abraços. Graciliano 9-novembro-1952”.  A autora apresenta uma foto relativa à passagem que transcreve de Memórias do cárcere, Parte II, 11 , p. 267, 270: “Perplexo, tomei o envelope. Era realmente para mim, rasguei-o, vi um cartão, a fotografia de meus três filhos mais novos”; “num instante as crianças me apareceram vivas e fortes: tinham deixado a praia, a areia branca de Pajuçara, feito longa viagem, transposto diversas grades – e estavam no cubículo 35. Uma delas usava boina [Luíza], um laço de fita ornava os cabelos da segunda [Clara]; as camisinhas leves deixavam à mostra as pernas afeitas às correrias ao sol; ao centro, o garoto carrancudo, com jeito de homem”. Ao lembrar-se da psoíte e da elaboração de S. Bernardo, Graciliano acrescenta: “A garota que ali estava no cartão, de pernas à mostra e fita no cabelo, nascera quando se findava essa história rude e agreste. Dois filhos gêmeos – uma criança viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladrão”. (Na dedicatória à Clarita, percebe-se que Graciliano não fazia caso do S. Bernardo abreviado no “São”. De acordo com a transcrição impressa das cartas, às vezes São Bernardo vem grafado na forma extensa, sem grifo, mas predomina sua formulação como título da obra, abreviado e em itálico: S. Bernardo).

 

[446] A carta, de 03-01-1933, encontra-se reproduzida integralmente em fac-símile na edição comemorativa dos 80 anos de Caetés, 1. ed. [recurso eletrônico], 2013, p.pdf. 195. Graciliano menciona Valdemar Cavalcanti, aludindo a sua intermediação, lista cláusulas com as quais concorda e indica a redação adequada para outras. Pede que expliquem o sentido da expressão “igualdade de condições”, questiona seu contexto e encerra: “O livro não terá duas edições, está claro. Mas se por acaso tivesse, não a daria por duzentos exemplares, porque isso apenas chega para a distribuição gratuita”; “São estas, prezados Senhores, as alterações com que me contentarei, insignificantes, como veem”; “Se lhes agrada o negócio, tenham a bondade de remeter-me (por via aérea será melhor) novo contrato, que será definitivo, e que devolverei sem demora, depois de escrever nele as coisas necessárias”. Wellington Pascoal de Mendonça, em sua dissertação A consagração de Graciliano Ramos, p.pdf. 62 e 57, transcreve correspondência vinculada a Valdemar Cavalcanti –  o que comprova o empenho do amigo e admirador, um agente literário informal pela publicação de Caetés. Em carta a Valdemar Cavalcanti, da Adersen Editores, de 13-04-1933, cerca de três meses depois da carta de Graciliano acima mencionada, Sebastião de Oliveira Hersen (o “-ersen” em sociedade com o “Ad-“, Adolfo Aizen)  lamenta que sua situação financeira tenha inviabilizado a publicação. Recebera no Rio o gerente da impressora de São Paulo que lhe mostrara as provas (222 páginas), “já revistas pelo Graciliano Ramos”,  mas não fora possível negociar a compra com preço razoável. Diz que logo estará em Maceió, quando poderão “se lhes interessar ainda, combinar outro prazo para a saída de Caetés, assim como para S. Bernardo. Mas só lhe proporei qualquer modalidade de negócio quando estiver com o dinheiro no bolso, isento, pois, de nova gafe. Converse com o Graciliano Ramos e me diga depois qualquer coisa”; “Os originais dele [Caetés] e do S. Bernardo estão em meu poder, à inteira disposição do autor, não pagando aluguel [sic] pelo tempo em que continuarem aqui, assim como o desenho de Santa Rosa, que, no caso do Caetés ser feito noutra parte, eu faria questão fechada de oferecer, gratuitamente, é claro”. Wellington Pascoal de Mendonça transcreve também, p.pdf. 57, uma carta de 19-04-1933, à Companhia Editora Nacional, de Valdemar Cavalcanti, que apresenta Caetés como “água forte” de “vidas em desordem”, não meramente “postais” de “cidadezinha do interior”, e propõe sua publicação pela editora, incluído o prelo de São Paulo e a capa de Santa Rosa. Relata toda a história, a relação com Schmidt e o modo como o editor fez os originais circularem entre intelectuais no Rio de Janeiro. Destaca a prestigiosa apreciação de Prudente de Morais, neto: “E criou-se no pequeno círculo uma sensação de surpresa: a de uma boa descoberta. Uns até levaram seus comentários à imprensa. Lembro-me bem de um artigo de Jorge Amado, o romancista de O país do carnaval, no número de novembro do Boletim de Ariel, no qual se encontra o nome de G. Ramos na vanguarda dos maiores escritores do Norte. E ainda hoje estão empatadas, em composição, as 220 páginas do livro, – na Sociedade Impressora Paulista – o que aliás poderá facilitar, a esta Editora, caso queira entrar em negociações com a edição, um largo beneficiamento econômico. Com a saída do Caetés, poderá entrar para a fecundação dos prelos, um outro romance de Graciliano Ramos, o mais recente: S. Bernardo – retrato da vida rural sertaneja”.

 

[447] Em Vamos Ler!, 20-04-1939, Joel Silveira – “Graciliano Ramos conta a sua vida”, ed. 142, t. 8-9, reportagem reproduzida em Joel Silveira, Na fogueira, p. 278-280, coletada em Conversas, p. 88-96.

 

[448] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 58, detalha: “Em 1933 e 1934, ele morou na Praça do Montepio, hoje  Bráulio Cavalcante e o resto do tempo que viveu em Alagoas foi na rua da Caridade, 167”. Indica o atual nome da rua, Desembargador Almeida Guimarães, nas proximidades da sede do C. R. B.- Clube de Regatas Brasil, em Pajuçara. E conclui: “Foi aí que ele foi preso”.

 

[449] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50-51.

 

[450] Jorge Amado, Navegação de cabotagem, p.pdf. 29. Mais do que Jorge Amado confessa, há anedotas que falam de sua ida a Maceió, combinada com Schmidt, com o objetivo de resgatar Caetés. Em Memórias do cárcere, Parte II, 3, p. 225, v. 1, Graciliano relembra: “A publicação daquilo fora consequência de uma leviandade. Escrita dez anos antes, a miserável história passara às mãos do editor Schmidt e emperrara. Já revistas as provas, tinham surgido obstáculos, demora, cartas, desavenças e a entrega dos originais a amigos meus do Rio. Em 1933 Jorge Amado me visitara em Alagoas, dissera que Schmidt queria editar o livro; mas não me convinha o negócio: julgava-me então capaz de fazer obra menos ruim, meses atrás concluíra uma novela talvez aceitável. Jorge se conformara com a recusa. Deixando-me, apossara-se dos malditos papéis e dera-os ao livreiro”. Jorge Amado conspirou com D. Heloísa: segundo Dênis de Moraes, em O velho Graça, 2012, p. 96: “Em segredo, Jorge convenceu Heloísa a entregar-lhe os originais. E assim o livro voltaria às mãos de Schmidt, sem que Graciliano desconfiasse. Quando o complô lhe foi revelado, já era tarde”. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 69, conta que a dedicatória do livro a três amigos foi obra de Jorge Amado: “O romance é finalmente publicado em 1933 [dezembro], sob a rubrica Schmidt Editor. Alberto Passos Guimarães encarrega-se da revisão das provas. Santa Rosa faz a capa. E Jorge Amado, a dedicatória, onde se inclui, por direito, (fora inclusive o supervisor da edição). O livro sai dedicado aos três amigos”; “Se Graciliano aprova a auto-homenagem e a conserva nas edições seguintes, o mesmo não acontece com a edição em si, fato que irá lamentar sempre, em sua idiossincrasia ao livro”. Em dedicatória autógrafa de exemplar de Caetés a Pedro Moacir Maia, como reproduzida em Cartas inéditas, p. 143, Graciliano se desculpa: “Essa segunda edição foi jogada ao público por motivo de ordem econômica”.

 

[451] No depoimento-entrevista colhido de Graciliano, certamente em um texto elaborado posteriomente às conversas em café, bancas de jornais e na livraria, José Condé relata assim o ano de 1933: “Conhece nesta época o romancista Jorge Amado, que traz os originais de São Bernardo para a editora Ariel, no Rio”: O Cruzeiro, 15-04-1939, ed. 24, t. 11-12. Entretanto, na “enquete”, acima citada, para Gazeta Magazine, 1941, de Paulo de Medeiros e Albuquerque, publicada por Ivan Barros em Graciliano era assim, p. 157-163, Graciliano não diz explicitamente que Jorge Amado levou os originais de S. Bernardo para a Editora Ariel: “Nessa época [1933] apareceu por lá Jorge Amado. E ele, grande amigo, insistiu muito para que eu publicasse São Bernardo. É, portanto, um pouco padrinho do livro”. Sobre S. Bernardo, Graciliano acrescenta: “Tem algumas passagens que me satisfazem. Mas englobado vale pouco. É menos ruim do que Caetés, mas não chega a ser um romance. Mas, levado, principalmente, pela opinião de Jorge Amado, mandei os originais para Gastão Cruls, então da Ariel Editora”. Ver acima, em carta da Adersen Editores a Valdemar Cavalcanti, em 13-04-1933, Hersen diz que está com originais de Caetés e S. Bernardo. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 79-80, reproduz carta de Gastão Cruls a Graciliano, de 29-03-1934 (quase um ano depois), combinando a publicação de S. Bernardo. Gastão Cruls elogia Caetés, conta que estava pronto para publicá-lo quando Schmidt reassumiu o processo e propõe o  contrato: “Já li também, nos originais, o São Bernardo, e é sobre esse assunto que lhe quero falar. Aceitamos lançá-lo, não imediatamente, quando temos compromissos anteriores de outras edições, mas daqui a algum tempo, no máximo até agosto ou setembro. Acho mesmo que esse retardo será propício à maior divulgação dos Caetés, que lhe prepara o caminho para a segunda vitória. Quanto às condições da edição, seriam mais ou menos estas, a serem confirmadas posteriormente por carta-contrato. Edição de 2000 exemplares cabendo ao autor 10% sobre o preço bruto da edição. Os pagamentos serão feitos 5% seis meses após o aparecimento do livro no mercado e 5% quando a edição estiver totalmente esgotada. Mande-me dizer com franqueza se acha bem tudo isso”. Depois, em dezembro de 1934, além do atraso no prazo combinado, S. Bernardo foi editado com apenas 1000 exemplares, e Gastão Cruls justificou-se: “Se o seu Caetés não tivesse tido uma tão má divulgação e distribuição, eu não hesitaria em fazer 2000 exemplares”.

 

[452] Recorte de resenha de Jorge Amado, sem título, com identificação manuscrita de Graciliano Ramos: “Literatura  5 - dezembro - 1933”, Recortes, IEB – AGR.

 

[453] “Um romance: ‘Cahetés’ ”, com identificação manuscrita de Graciliano Ramos: “Rio Magazine - janeiro-1934”: Recortes, IEB – AGR.

 

[454] Diário de Notícias, 14-01-1934, ed. 2178, t. 20.

 

[455] Boletim de Ariel, 02-1934, ed. 5b [pasta 1933], t. 15-17. Ver sobre Caetés e a importância do seu ambiente de recepção, Antonio Candido, “No aparecimento de Caetés”, em Ficção e confissão, p. 92-101. Outras resenhas: Valdemar Cavalcanti, Boletim de Ariel, 12-1933, ed. 3, t. 17; De Cavalcanti Freitas, Boletim de Ariel, 03-1934, ed. 6b [pasta 1933], t. 20; Agrippino Grieco, “Corja, Sinhá Dona e Cahetés”, O Jornal, ed. 4386, t. 17, 22; José Geraldo Vieira, A Nação, 04-02-1934, AGR – IEB, recorte com identificação manuscrita de Graciliano Ramos (não localizado na hemeroteca digital da BN, segundo tal indicação); José Lins do Rego, Literatura, 05-02-1934, no IEB-AGR. Além da resenha, José Lins do Rego publicou o famoso (com a menção brincalhona à suposta cultura de almanaque de Graciliano) “O romancista Graciliano Ramos”, Diário de Notícias, 25-02-1934, ed. 2212, t. 19.

 

[456] “Paulo Honório”, em João Condé, Dez romancistas falam de seus personagens, 1946, e Jornal de Letras, 12-1949, ed. 6, t. 2; apresentado por Maria Lúcia Palma Gama, “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 35, 1993, coletado em Garranchos, p. 271-276. Ver registro do manuscrito no IEB em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 171-172.

 

[457] Beira-Mar, 27-10-1934, ed. 434, t. 48.

 

[458] Em setembro, o Boletim de Ariel, 09-1934, ed. 12b [pasta 1933], t. 14, dava a “auspiciosa notícia”: “já entrou para o prelo, confiado a Ariel, editora ltda., mais um trabalho de Graciliano Ramos, o romance S. Bernardo, obra cheia de palpitante interesse e que consagrará definitivamente o nome do ilustre escritor alagoano”. Uma nota do Diário de Notícias, 20-05-1934, ed. 2284, t. 19, anunciava que em setembro sairia dos prelos da Ariel S. Bernardo, o segundo romance do “vitorioso autor” de Caetés.

 

[459] Ver, por exemplo: Gazeta de Notícias, 23-12-1934, ed. 78, t. 5, por Lúcia Miguel Pereira. A crítica de Augusto Frederico Schmidt, Diário de Notícias, 16-12-1934, ed. 2455, t. 17 e 20, foi atacada por Jorge Amado em “S. Bernardo e a política literária”, Boletim de Ariel, 02-1935 – recorte com identificação manuscrita de Graciliano Ramos, em AGR – IEB – resenha repetida no Jornal de Alagoas, 21-04-1935 – AGR – IEB, recorte com identificação manuscrita de Graciliano. A resenha furiosa de Jorge Amado relatou sua enquete perguntando a outros intelectuais como interpretavam a má intenção na apreciação morna de Schmidt, que teria tratado depreciativamente com ligeireza aquele que se revelava em S. Bernardo um dos maiores escritores da literatura brasileira. Mas o que parece ter mais divertido Graciliano foi a crítica de Antonio Tavernard, que, afora as “passagens sujas de palavrões”, considerou o romance grandioso e sua personagem shakespeariana, anunciando cheio de entusiamo, o novo autor: “Gratuliano Ramos – conservo este nome e conserve-o quem me ler! Ele há de ser o Dostoiévski tropical!” – recorte em AGR – IEB, com identificação datiloscrita “Folha de Minas, Belo Horizonte [sic], 03-03-1935” e anotação manuscrita de Graciliano Ramos: “Antonio Tavernard  (Belém - Pará)”. Em carta de Maceió, Cartas, 30-03-1935, p. 145, Graciliano dá notícias de sua rotina a Ló: "estive até tarde em casa do Aloísio (o integralista), e como li os pedaços de uma prosa do Plínio Salgado, o sono me agarrou quando voltei e dormi doze horas pouco mais ou menos"; "Acabo de receber uma carta do Gastão com várias notícias e dois artigos: um do Pará, outro de Minas. A crítica do mineiro está bem feita. O paraense ataca a minha linguagem, que acha obscena, mas diz que eu serei o Dostoiévski dos Trópicos. Levante-se e cumprimente. Uma espécie de Dostoiévski cambembe, está ouvindo?"; "Adeus, Ló. Cuidado com os meninos, especialmente com a Luísa, por causa das tendências comunistas dela". (Luíza, ao quatro anos, tinha assustado um padre ao apresentar-se a ele dizendo ser comunista – como depõe no documentário O universo Graciliano, de Sylvio Back. Em carta anterior, 24-03-1935, p. 142, Graciliano tinha mencionado o episódio da viagem de Ló com as crianças para Palmeira dos Índios: “Acabo de ler o papel que v. me mandou contando as aventuras da cambada no trem, especialmente o comunismo de nossa amiga Luísa”).

 

[460] Oscar Mendes, “Egoísmo”, Folha de Minas, 17-02-1935, recorte com identificação manuscrita de Graciliano, em AGR – IEB.

 

[461] Em resenha de Caetés, Eloy Pontes diz: “O Sr. Graciliano Ramos escreve, às vezes, com os verbos no tempo no presente e no tempo passado no mesmo período, o que nos parece erro evidente de sintaxe”. – O Globo, 07-05-1934, recorte com identificação datiloscrita, AGR – IEB. A respeito do uso do presente no romance, apresento considerações em “A inexistência de Caetés”.

 

[462] A citação foi repetida anos depois, com o mesmo intuito, em “Uma palestra”, mas no contexto de suas atividades no PCB - coligida em Linhas tortas, p. 274-277, datada de fevereiro 1952. A Imprensa Popular noticiou repetidas vezes o evento, sempre mencionado como discussão dos trabalhos de Stalin sobre linguística. Na palestra, de que Graciliano fez parte sem nenhuma menção a Stalin, os outros colegas participantes falaram da teoria de Marx  sobre linguística e da contribuição de Stalin. Sobre a fala de Graciliano foi dito que “leu um trabalho sobre linguagem literária mostrando os equívocos e as tolices que circularam por um tempo em nossa vida literária a respeito de uma ‘língua brasileira’ que não existe”. O texto não titubeou em forçar a nota, dizendo que Graciliano “defendeu a preservação da língua nacional, comprovando as afirmações de Stalin a respeito de que uma língua não se transforma por saltos nem pertence a esta ou àquela classe”. A palestra ocorreu na Escola do Povo, sob patrocínio da revista Para todos, como indica a Imprensa Popular, 23-12-1951, ed. 949, t. 9. O jornal na edição de 17-02-1952, ed. 986, t. 3, anunciou o número de fevereiro da Para todos contendo em seu índice “Graciliano Ramos e a arte de escrever – contribuição à linguística”.

 

[463] Ao contrário do que supõe a seguir, Graciliano não só “reincidirá” na criação de outras obras como também formalizará a complexidade dessa concepção no discurso indireto livre de Vidas secas. Ver: Alfredo Bosi, Céu, inferno. Como se verá à frente, o assunto será retomado por Graciliano nos embates com o jdanovismo-PC, e em comentários de sua última obra, Viagem.

 

[464] A carta foi divulgada por Gutemberg da Mota e Silva, Jornal do Brasil, 17-01-1980, ed. 284, t. 37, sob o título “A revolução social me levaria à fome e ao suicídio” e com reprodução do manuscrito. Segundo o jornalista, a carta, guardada com muito carinho por Oscar Mendes, pernambucano radicado em Minas, foi posta a público com relutância, pois o receptor se sentia constrangido pelos elogios que lhe remetera Graciliano Ramos. Graciliano se despede com “Considere-me um seu amigo e admirador”, data de Maceió, 05-04-1935, com o endereço do sogro: Rua do Macena, 159. Outro crítico a quem escreveu foi Jayme de Barros. Em Cartas, a Ló, 03-04-1935, p. 146-147, Graciliano lembra que Paulo Honório escreveu a negócio para Minas (Capítulo XXXVI, último: “Há cerca de quatro meses, porém, enquanto escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um grito de coruja e sobressaltei-me”): “Pois eu agora acabo de escrever duas cartas a dois sujeitos de Minas, sobre o mencionado Paulo Honório. Não tratei de porcos –  só literatura. Os dois sujeitos são o Oscar Mendes e o Jaime de Barros, que escreveram dois artigos muito sérios, um na Folha de Minas, outro no Estado de Minas, a respeito do S. Bernardo. Umas cartas literárias, cheias de merda de galinha. Paciência. Eu sou um literato horrível, e só dou para isso. Tenho procurado outras profissões. Tolice. Creio que meu pai e minha mãe me fizeram lendo o Alencar, que era o que havia no tempo deles. O Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 — e eu só penso nos romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar. Em 1914-1918 morreram uns dez ou doze milhões de pessoas. Agora morrerá muito mais gente. Mas pode ser que a mortandade dê assunto para uns dois ou três romances – e tudo estará muito bem. Por aí vê você que eu sou um monstro ou um idiota”; “Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica. Tudo isto é muito pedante e muito besta, mas é continuação das cartas que escrevi ao Oscar Mendes e ao Jaime de Barros. Apenas suponho que esta vai saindo melhor, o que é ridículo. Mas você, na que recebi hoje, falou-me na possibilidade de vivermos aí, se não estou enganado. É possível que nos metamos outra vez em Palmeira, que eu compre algodão e venda trapos, mas com certeza hei de comprar e vender muito mal. Comprando algodão ou vendendo fazenda, construindo o terrapleno da lagoa ou entregando os diplomas às normalistas (não vale a pena contar: foi uma estopada), hei de fazer sempre romances. Não dou para outra coisa. Ora aqui há uns dois ou três indivíduos que falam comigo. Aí não há nenhum. Estou, pois, com vontade de ir para Minas, onde há muitos leprosos. Talvez encontre outros doentes como eu”.

 

[465] Sobre as primícias literárias de Heloísa Ramos, com destaque para o nome “Maria Antônia”, personagem ou título de algum texto que ela procurava elaborar (em Cartas, o anexo de identificação de nomes próprios indica: “Maria Antônia - Mulher do povo, de Palmeira dos Índios”), várias vezes Graciliano trata do assunto: Cartas, 19-12-1935, p. 156-157: “Como andam o plus-valor e a circulação das mercadorias? Volto ao conselho que lhe dei pela manhã. Estou convencido de que você poderá, com algum esforço, escrever umas páginas boas. Experimente, veja se consegue arranjar aí um assunto. Estude a gente miúda, deixe a burguesia, que já aproveitei e não é interessante. Falo sério. Parece-me, depois das letras recebidas ontem, que você é uma sujeita capaz de realizar qualquer coisa boa. Seria ótimo que isto acontecesse. Tenha coragem. Compre uma caneta, umas folhas de papel, entenda-se com a Doca, com a sua lavadeira, criaturas deste gênero, que não utilizo porque não as conheço bem”. Em 30-12-1935, p. 158: “Sapeque a história, sinha Ló, aceite o meu conselho. A sua nova carta reforça a minha opinião. O material de que você me fala é ótimo. As fateiras, o casal de retirantes, o culto dos bodes, tudo muito bom, digno de ser aproveitado. Veja se consegue arranjar um cordão e amarrar isso”; “Atire-se às fateiras, aos protestantes e aos dois sertanejos. A sua lembrança de aproveitar esse material para mim tem graça. As observações duma pessoa não servem a outra pessoa, sinha Ló. O que lhe disse está dito. Uma opinião: não me parece que o enredo seja coisa demasiado importante. Não me preocupo com enredo: o que me interessa é o jogo dos fatos interiores, paixões, manias etc. Você não se ocupará com isso, creio eu. Descreva a sua gente por fora, mexa com ela, obrigue-a a mover-se, a falar”. Em 28-01-1936, p. 161: “Mande-me notícias de Maria Antônia. Pergunta-me se essa criatura deve falar como toda a gente. Está claro. Pois havia de usar linguagem diferente? Falar como as outras pessoas, sem dúvida. Foi o palavreado difícil de personagens sabidos demais que arrasou a antiga literatura brasileira. Literatura brasileira uma ova, que o Brasil nunca teve literatura. Vai ter de hoje em diante. E você deve trabalhar para que Maria Antônia entre nela. Veja se consegue pegar a vida dela, a do curandeiro, isso que aí deixamos assentado. Imagino que a preguiça não lhe amarrou as mãos. Enfim tem você um excelente material, material como poucos sujeitos encontraram. Pode dar coisa muito boa. O que é preciso é ter muita coragem e muita paciência, trabalhar seis meses, um ano, várias horas por dia, sem grandes esperanças”. Tempos depois, após a prisão, Graciliano na pensão do Rio mudou de ideia em relação à oferta de Heloísa para que ele aproveitasse suas tentativas literárias – ver  em Cartas, 14-03-1937, p. 189-190: “Outra coisa: o Garay me pediu um conto regional para La Prensa. Você quer mandar-me as suas notas sobre a história de Ana Maria [em 1935 era “Maria Antônia”] ? Talvez com isso eu faça o conto para o argentino. Se você não quiser escrever a história, é claro. Não tem muita pressa. Seria necessário enviar-me a oração, que é o mais importante do caso. Para que servia a oração? Seria possível arranjar uma oração que se adaptasse ao fim da narrativa, uma oração de verdade, com as palavras que os matutos empregam? Se não conseguir toda, basta que venham algumas palavras. Uma oração para doença nervosa, para afastar o espírito, não é isto? Não me lembro direito. Terminei ontem um conto horrivelmente chato. O protagonista não tem nome, não fala, não anda. Está parado num canto de parede e escuta um político também sem nome. A chateação, que saiu comprida, é para descobrir o que o personagem pensa, encolhido, calado [ver: “Um pobre-diabo”, Insônia Diário de Pernambuco, 15-08-1937, ed. 235, t. 17]. A pior amolação deste mundo. Um sujeito disse no Jornal que os romancistas de hoje são todos muito cacetes e o mais cacete de todos sou eu. Ele tem razão. O conto que terminei ontem é uma estopada que nenhum leitor normal aguenta”.

 

[466] Além da casa do sogro na Semana Santa e no trabalho após o expediente, Graciliano dedicava-se à escrita de Angústia no próprio cenário. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 89, fala sobre as visitas de Aurélio Buarque de Holanda à Rua da Caridade, 167, em Pajuçara: “É ali que Graciliano costuma escrever, de cuecas, em companhia apenas do Aulete, dos maços de cigarros e caixas de fósforos, de uma garrafa de aguardente, de um bule de café. Sua família está fora”; “Assim o Aurélio narrará o preâmbulo de suas visitas dominicais: ele enfia o olho pela fechadura, mas não enxerga nada porque o dono da casa dependurou na chave um paletó que o protege de indiscrições. O visitante dá então alguns pinotes, grita por cima do muro. Graciliano vem lhe abrir a porta. Depois lê para o amigo páginas do livro que está escrevendo”.

 

[467] Na mocidade, em O Índio, Graciliano já tinha tratado de modo hilariante a Semana Santa e o jejum – em Linhas tortas, p. 73-76. Na carta a Ló, Cartas, p. 149-151, Quinta-feira Santa [18-04-1935], a acidez provocativa é mais intensa: “Hoje ninguém trabalha, que é pecado, por causa da morte do J. Cristo, esse rapaz que andou fazendo discursos na província e acabou tentando chefiar revolução na capital”; “Em todo o caso penso no J. Cristo, sem nenhuma simpatia, está visto. Foi o pior dos revolucionários, muito mais prejudicial que o Juarez Távora”; “Depois tudo se endireita, porque a revolução daqui foi miudinha, uma revolução besta, sem mártires, sem santos, sem doutores. A do J. Cristo foi a encrenca mais desastrosa que a humanidade já aguentou. Há dois mil anos que rebentou o fuzuê, e nunca mais as coisas voltaram aos eixos. Estou aqui pensando no que seria o mundo se o J. Cristo, em vez de se entregar àquela mania que todo judeu tem de consertar o que está certo, tivesse ficado em casa, fabricando bancos e mesas, como o marido da mãe dele. O mundo seria hoje menos feio, menos triste, menos besta, menos safado, menos ruim. Nem vale a pena tentar a comparação. Quando o J. Cristo começou a fazer meetings na beira do lago, as coisas iam assim assim, nem muito bem nem muito mal. Em todo o caso iam melhor que hoje. J. Cristo meteu os pés pelas mãos e esbagaçou tudo. E o que veio foi esta porcaria que se vê. Estou aperreado, Ló, com a besteira daqueles rapazes que acreditaram nas conversas dele. Rapazes sérios, gente de trabalho, até homens casados, largaram as ocupações de cada dia e saíram atrás do Filho do Homem, procurando o reino do Filho do Homem. Outros aqui procuram o reino do Alberto [presume-se: Alberto Passos Guimarães, da revista Novidade, um dos presentes na dedicatória de Caetés, foi militante comunista, pelo PCB], que está ficando tão feroz como o J. Cristo. Só falta pegar um chicote e expulsar do Tesouro, do Palácio dos Martírios e da Prefeitura os vendilhões que lá vivem, roendo um ordenado mesquinho, coitados”.

 

[468] Cartas, p. 151-153, Sábado de Aleluia [20-04-1935].

 

[469] Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50-60.

 

[470] Graciliano só se refere a calçados e fardamentos. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 57, anota que a implantação da merenda escolar atribuída à administração de Graciliano foi afirmada por Clara Ramos e Medeiros Lima. Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 45-46, 48 faz a mesma afirmação, com nuances. Nos mesmos termos que posteriormente Clara Ramos citaria, Medeiros Lima, em “Um homem do tamanho de sua obra”, Politika, 06 a 12-11-1972, ed. 55, t. 40-44, relata que ao encontrar uma escola vazia, professoras ali ociosas, ausentes as crianças pobres que não tinham roupas e precisavam ajudar os pais pescadores, Graciliano ordenou: ” – A partir de  amanhã as senhoras irão de porta em porta convidar as crianças a virem à escola. Digam aos pais que de agora em diante elas terão merenda paga pelo estado”. “Em quinze dias de campanha, todas as salas de aula do grupo estavam lotadas. As crianças acorreram em massa. Alarmada, a diretora telefona: – Doutor [sic] Graciliano, o senhor precisa vir aqui. Não tenho onde acomodar os meninos. Não dispomos de bancos suficientes”. Então, Graciliano autorizou a compra de caixotes. A seguir promoveu o fardamento oferecendo às crianças tecido e calçados. Em Mestre Graciliano, p. 85-87, Clara Ramos aborda detalhadamente o assunto qualificando Graciliano Ramos como “precursor da merenda escolar no país”, que será oficialmente instituída em 1955 a partir da atuação de Josué de Castro. Cita Emil Farhat em seu relato sobre o “teimoso secretário” que resistia às intenções politiqueiras do interventor de criar novas escolas, afirmando em contraposição a essa diretriz que o necessário era construir cozinhas nas já existentes. Além disso, Clara Ramos lembra a contrariedade que causou a supressão nas escolas do Hino de Alagoas (a “estupidez com solecismos”) e o fim dos apadrinhamentos, como também a irritação das normalistas da capital com a efetivação de professoras do interior por meio de concursos após preparação formativa e, para documentar a gratidão dos justos, reproduz a carta que uma dessas professoras enviou a ela.

 

[471] Ver referência bibliográfica detalhada em:  Aline da S. Santos, Graciliano Ramos: literato e gestor - contribuições à educação alagoana (1920 - 1940), p.pdf. 42, 55:  A Escola, Maceió, vol. I, p. 13-14, set. 1935, fasc. 1; texto também publicado em: Diário de Pernambuco, 28-06-1935, ed. 152 t. 13, sob o título “Alguns números relativos à instrução primária em Alagoas” – coletado em Garranchos, p. 143-145.

 

[472] Ver nota em Diário de Pernambuco, 21-10-1933, ed. 241, t. 2, sobre a condição dos exames sob presidência de Graciliano Ramos: “Conforme estava anunciado teve lugar, ontem e anteontem, o início das provas do concurso a que vêm se submetendo 78 professoras das diversas escolas isoladas do interior do estado, que se acham afastadas dos cargos respectivos por determinação do Diretor da Instrução Pública, em virtude da falta do diploma necessário ao exercício do magistério”.

 

[473] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 53-54, 55.

 

[474] Em carta a Sebastião Ramos, Cartas, 01-06-1934, p. 140, Graciliano avisa: “Provavelmente domingo estarei aí para uma visita ao lugar onde vai ser construído o grupo escolar. É um convite do Interventor, que deseja conhecer o sertão e dar aos sertanejos um bando de coisas que eles merecem. Se houver festas por aí (Deus me livre disso) o homem se alojará onde quiser; se não houver festas, a minha obrigação é convidá-lo para almoçar em sua casa”.

 

[475] Há várias e diversificadas notícias sobre Graciliano Ramos como Diretor da Instrução Pública: sua nomeação, divergências e possível saída do cargo  logo no primeiro ano (que não ocorreu), sua negativa de assumir nova ortografia: Diário Carioca, 21-01-1933, ed. 1367, t. 2, Correio da Manhã, 03 e 10-11-1933, ed. 11941, 11947, t. 2, t.3,  Correio da Manhã, 07-07-1934, ed. 12151, t. 2.

 

[476] Em entrevista no início de 1936, Graciliano indicava outra quantia – ver a seguir.

 

[477] Há ampla bibliografia a respeito. Para um enfoque a partir de Natal-RN, ver: Homero de Oliveira Costa, A insurreição comunista de 1935, em: < https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/19524 >.

 

[478] Diário de Pernambuco, 24-01-1936, ed. 20A, t. 10.

 

[479] Em Memórias do cárcere, Sebastião Hora, preso, aparece com destaque – por exemplo, Parte I, 5, p. 55: “Na antevéspera Sebastião Hora, médico, presidente da Aliança Nacional, fora metido entre operários, atravessara a cidade carregando a bagagem e viajara de segunda, com as portas trancadas”.

 

[480] No Diário de Pernambuco, de 06-12-1933, ed. 278, t. 6, na seção “Alagoas”, uma nota informava a chegada à capital de Madame Conrad, que: “por iniciativa da Companhia Nordeste do Brasil, fará demonstrações práticas da utilidade e aplicações domésticas dos refrigeradores ora oferecidos ao público. As referidas demonstrações serão feitas na Escola Profissional Feminina, com a gentil anuência do digno diretor da instrução pública, sr. Graciliano Ramos, com a colaboração da competente e dedicada diretora do mesmo estabelecimento, professora Carmen Novais”. Clara Ramos, em Mestre Graciliano,  p. 88-89, reproduz uma anedota de Aurélio Buarque de Holanda: o então secretário do prefeito encaminhara a Graciliano uma senhora em busca de colocação na Escola Profissional. Logo a senhora retornou, mostrando indignada a Aurélio o bilhete que Graciliano lhe tinha entregado como carta de apresentação: “D. Carmem – A portadora pretende um lugar de florista nessa Escola. Há disso por aí? Diz ela que sabe fazer flores tão perfeitas que enganam as abelhas. Criado de V. Exa. – Graciliano Ramos” – ver em: Correio da Manhã, 21-05-1944, ed. 15199, t. 33-34, Aurelio Buarque de Holanda, “Depoimento sobre Graciliano Ramos”.

 

[481] Cartas, 28-01-1936, p. 161.

 

[482] Em carta a José Lins do Rego, de 10-09-1935, Graciliano comentava o ambiente de Maceió: ”Recebi já há dias O moleque Ricardo, que foi devorado em pouco tempo. Não lhe mando parabéns: isto é desnecessário, você bem sabe o que fez. O receio meio ingênuo que tinha de o livro sair inferior aos três primeiros com certeza desapareceu. Vi uma nota de Carlos Lacerda, bem-feita, mas uma verdadeira denúncia à polícia. Tenho a impressão de que você está aí metido em dificuldades por causa da questão social. O livro é excelente, como os outros, mas  o que achei admirável foram as páginas 268, 269, 282 e 283. Nunca você escreveu coisa igual às duas últimas páginas. Achei interessante serem os personagens quase todos negros e mulatos. Influência americana? Nada de imitação, está claro. Não encontrei figura semelhante às dos romances negros que aqui lemos. Os seus negros e os seus mulatos são muito diferentes. Ótimo. Enfim está você aí coberto de glória, em véspera de ser lido em russo e preparando-se para escrever o quinto romance, segundo me diz o Aurélio numa carta a lápis. Esse animal está no Recife, fazendo exames. Escrevi há dias ao Zé Olympio, pedindo um milheiro do Humberto de Campos, que tem sido aqui bastante esculhambado. Terminei a minha história, mas não sei se a publique. Se isto acontecer, será lá para o ano vindouro, como lhe disse. Preciso endireitar e cortar umas coisas. Diz o Aurélio que você está com vontade de vir para o Norte. É bom para nós, mas isto por aqui está uma peste: hoje a Gazeta de Alagoas me atacou porque não fui ouvir um discurso do Armando Wucherer sobre a pátria, no dia 7 de setembro. Imagine. Adeus, Zelins. Abraços do Graciliano”. Carta com manuscrito reproduzido em Jornal do Brasil, 12-09-1977, ed. 157, t. 30-31, e transcrita em Eduardo F. Coutinho e Ângela Bezerra de Castro (orgs.), José Lins do Rego, p. 51. Curiosamente, Armando Goulart Wucherer publicou em 07-09-1943, no Diário da Manhã,  ed. 907, t. 11, um texto irreverente sobre D. Pedro I – ver em edição de  Edberto Ticianeli: < https://historiadealagoas.com.br/a-epopeia-de-um-louco.html >. Em Cartas, 28-02-1937, p. 179, de São Paulo para Ló, Graciliano compara o ambiente intelectual de lá ao poeta alagoano, nestes termos: “Ninguém leu Angústia mas vi pessoas que acham Caetés um excelente livro. Fiquei encabulado a princípio, depois lembrei-me de que estava em S. Paulo, onde essa história de literatura não é muito melhor que em Maceió. Excetuando um número reduzido de criaturas, algumas decadentes, o resto não se afasta muito de Armando Wucherer”. A crítica ao Hino de Alagoas não ocorreu por iniciativa de Graciliano Ramos. Já em 1921, Moreno Brandão, com delicadeza e consideração ao autor da letra, apontava em meio a tanta beleza, “inaturável solecismo” – ver O Índio, 18-12-1921, ed. 46, t. 1. Graciliano foi mais impiedoso. Em O Índio, 20-02-1921, ed. 4, t. 2, ridicularizava hinos, como se vê nos “Traços a esmo” de J. Calisto: "as patriotices rimadas são a causa das enxaquecas de muita gente que tem ouvidos para ouvi-las, mas não tem estômago suficientemente forte para digeri-las. As canções patrióticas! Já leram acaso alguma delas? Já tiveram ocasião de fixar os olhos nas palavras que elas contêm e, o que é mais, procuraram agarrar a ideia que as palavras deveriam encerrar? 'Amor febril/Pelo Brasil/No coração/Não há quem passe'. Entenderam? Eu também fiquei no mesmo. Vamos modificar a ordem em que aquilo está feito, a ver se será possível extrair-se dali um pensamento qualquer. 'Não há quem passe amor febril no coração pelo Brasil'. Entenderam agora? Nem eu. 'No coração, não há quem passe amor pelo Brasil'. Eu cada vez percebo menos". “Agora imaginem os senhores um pacato burguês que paga imposto e vai a sessão do júri doidamente apaixonado, metendo os pés pelas mãos, suspirando e desandando a cabeça, a exigir com ânsia, a reclamar com ardor o objeto de sua maluqueira. E qual é o objeto? O Brasil. É incrível, mas é o Brasil. Está-se a ver o patriota ardente revirando o olho, a gemer nos paroxismos de seu amor febril: – Ai patriazinha de meu coração! Estou que já não posso mais...” – ver essa crônica, entre outras referências a hinos, em Linhas tortas, 58-59. Ver em edição de Edberto Ticianeli, “O republicano Hino de Alagoas”, histórico bastante detalhado de hinos brasileiros com enfoque nas décadas de discussões de longa duração sobre o Hino de Alagoas: 

< https://historiadealagoas.com.br/o-republicano-hino-de-alagoas.html  >.

 

[483] O Diário da Manhã, Recife, 06-03-1936. ed. 306, t. 12, entretanto, recebeu a seguinte informação, divulgada sob o título “Atos oficiais”: “O governador do Estado de Alagoas, por atos de ontem” – “exonerou a pedido o cidadão Graciliano Ramos de Oliveira do cargo, em comissão, de Diretor da Instrução Pública do Estado”.

 

[484] A desconfiança de Graciliano de que tenha sido preso em razão de denúncia de parente é uma constante que pode ter inspirado o conto “A prisão de J. Carmo Gomes”, Insônia. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 165-166, observa: “O escritor conjectura se não teria sido o pai de Heloísa o seu denunciante. Há muito o elegera o suspeito principal. Não teria o velho, atormentado com os ciúmes da filha, imaginado estar salvando seu casamento ao afastá-lo de uma jovem escritora, com quem na verdade nada tivera?”; “Graciliano romanceia de fato. O sogro pertence à categoria dos seres amoráveis, sem vocação para o mal”.

 

[485] Memórias do cárcere, Parte I, 2 e 3, p. 38-49.

 

[486] Diário da Manhã, 04-03-1936, ed. 304, t. 1.

 

[487] Diário de Pernambuco, 05-03-1936, ed. 54, t. 2

 

[488] A Nação, 11-03-1936, ed. 971, t. 6.

 

[489] O Jornal, 15-03-1936, ed. 5134, t. 9.

 

[490] 1936-1953 – Rio de Janeiro

 

Em Cartas, p. 165, nos bilhetes da prisão (quase todos sem datas), ele já definia para Heloísa: “Não pretendo voltar a Alagoas. Peça os conselhos de seu Américo para que as coisas não fiquem muito ruins. Vou ver se consigo trabalhar para o José Olympio ou outro editor”.

 

[491] Ver Catálogo de manuscritos do AGR, cota “Memórias do cárcere”, p. 69-129, contendo fundamentalmente manuscritos datados de 1946 a 1951. Entretanto, o arquivo (ver no Catálogo, p. 71) guarda manuscritos de 1937, 11 folhas, frente e verso, certamente abandonadas, com passagens como estas:  [p. 1] “Iniciando estas memórias, repito mentalmente a pergunta que há mais de um ano faço a mim mesmo”; [p. 2] “Isso me causava alegria e desapontamento: o material que desejava aproveitar existia ainda, existia sempre na minha memória, era um tesouro que eu queria guardar com avareza, mas um tesouro de podridões. Quando alguém me falava nele, sobressaltava-me. E pensava no trabalho. Era necessário trazê-lo para cima, sujar as mãos naquelas imundícies, apresentá-las ao público, oferecer à gente cá de fora uma visão do esgoto por onde me arrastei por onze meses”; [p. 5] “como não vamos narrar o que se passa nos livros e nos salões, empregaremos o palavrão indispensável, condenado pela crítica e insubstituível, pois não pretendemos fazer literatura, mas dizer honestamente o que vimos nas cavernas sociais”; “pareceu-me depois que uma narrativa escrita ali poderia sair com ares de reportagem”; “Julgo-me absolutamente vazio; apesar de viver aqui fora, sinto às vezes que tudo em redor se aperta e estreita, as nuvens que me toldavam o espírito reaparecem, engrossam, tenho uma escuridão dentro do cérebro”;  [p. 8] “Lamento não ter tomado algumas notas, que teriam vindo para o exterior nos dias de visita. Perdidas as primeiras, que atirei na água, não me aventurei a fazer outras”; “Os únicos manuscritos que trouxe de lá foram três contos que fiz na Casa de Correção, um pequeno vocabulário de malandros e as assinaturas autógrafas de algumas centenas de detentos”; “Não são os acontecimentos miúdos, a chatice, o ramerrão de cada dia que me levam a escrever. O que me interessa não são os fatos, que poderiam, espichados, conter-se em algumas folhas. As figuras, sim, bem estudadas, dariam para encher muitos volumes. Vendo o nome delas, tudo se reconstitui. É como se abrissem de novo as portas de ferro e outra vez me lançassem na sombra onde elas se movem. Esses nomes estão escritos no alto da página de um livro que tenho aqui aberto sobre a mesa. Folheio o volume e as fisionomias se [p. 9] avivam, o quarto pequeno onde me hospedo cresce, surgem pouco a pouco o nauseabundo porão do Manaus, as galerias da Casa de Detenção, a Sala da Capela, a enfermaria, o Pavilhão dos Primários, o alojamento da Colônia Correcional. Se eu acreditasse em presságios, diria que um aviso misterioso me perturbou o sossego durante meses. É estranho como certas coincidências tomam vulto e nos levam a fantasiar absurdos. Muito antes que essa transformação se operasse na minha vida, num tempo em que de forma nenhuma eu podia prever semelhantes ocorrências, a ideia da prisão começou a perseguir-me e tornou-se quase uma obsessão. Numa história que então escrevi as grades pretas e sujas aparecem com insistência espantosa. Aquilo me irritava. Muitas vezes tentei libertar-me disso, mas a desagradável constante resistiu e tornou-se preponderante na orientação do romance”; [p. 11] “II – A 3 de março de 1936 tive uma série de aborrecimentos pequenos, mas tão numerosos, tão cheios de circunstâncias ridículas ou idiotas, que perdi a paciência. Eram coisas absolutamente estúpidas e que por si mesmas nada valiam”; “Eu tinha passado toda a manhã concluindo o último capítulo dum romance em que a ideia da prisão vinha com insistência ao espírito do protagonista. O acúmulo de maçadas insignificantes que me apareceram depois do trabalho penoso irritou-me tanto que, como alguém aludisse a várias prisões efetuadas na véspera, invejei a sorte dos presos”; [p. 16] “Efetivamente nos meses que se sucederam àquele dia aziago estive em contato com vários escritores, e nunca ouvi dizer que algum deles tivesse sido preso por haver publicado um livro”; [p. 21] “Revi aquele casarão que tinha visitado uma única vez em outubro de 1930, pela madrugada do dia 13. O governador tinha fugido à meia-noite e três oficiais haviam formado uma espécie de junta governativa. Eu entrara ali convidado, ou intimado, quase como agora, e ao formular o pedido de demissão do cargo que ocupava, os militares se haviam mostrado surpreendidos. Eles próprios não sabiam o que ia sair daquela confusão”; “Como eram bem educados os militares!”. [p. 5 folha 1] “16 – setembro – 37” [período em que escrevia Vidas secas, na pensão] ”interroguei o guarda e ele me deu notícias magníficas. Se os rapazes tinham ido para a ilha, melhor para eles. Tinham feito reparos no lazareto, mandado para lá muitas camas, colchões, lençóis. Aquilo estava bom, os presos políticos comiam bem e passavam o dia passeando e tomando banho de mar. Desconfiei da história, mas pouco a pouco me acostumei a esses banhos de mar, que me faziam falta, e às camas sem percevejos. Não há nada mais besta que um pequeno-burguês. Acreditam que cheguei a desejar ir para a colônia? Desejei”.

 

[492] Sobre a importância histórica e literária da obra, ver, por exemplo, a mesa-redonda comemorativa do centenário de Graciliano Ramos, em evento na USP coordenado por Zenir Campos Reis: Alfredo Bosi, “A escrita do testemunho em Memórias do cárcere”, em Literatura e resistência, p. 221-237; Boris Schnaiderman, “Duas vozes diferentes em Memórias do cárcere?”, Estudos Avançados; Jacob Gorender, “Graciliano Ramos: lembranças tangenciais”, Estudos Avançados. Ricardo Ramos, na “Explicação final” da obra, Memórias do cárcere, p. 319, v. 2, comenta as circunstâncias que deixaram o livro sem conclusão e as possibilidades do título a que Graciliano aludia: “Memórias do cárcere” ou “Cadeia”: “Inclinava-se por um, mais tarde iria preferir o outro. Não valia a pena forçar a escolha”. Na entrevista a Homero Senna, em 1948, “Revisão do Modernismo”, República das letras, p. 187, Graciliano mencionou “Memórias da prisão”. Na publicação de capítulo em Fundamentos, 06-1948, ed. 1, t, 26-27, o título é “Memórias da cadeia”.

 

[493] Memórias do cárcere, Parte I, 1, p. 33-34.

 

[494] O Capitão Lobo tornou-se lendário no contexto da obra de Graciliano. Ver, por exemplo, seu depoimento em conjunto de artigos com Heloisa Ramos e Antonio Candido: “General Lobo recorda que seu prisioneiro era muito desconfiado”, Jornal do Brasil, 26-10-1972, ed. 189, t. 13.  Diz equivocadamente que conviveu com Graciliano 45 dias no Forte das Cinco Pontas, em Recife (Graciliano indica que no dia 06-03-1936 estava em Recife, quando conta que soube pelo jornal da prisão de Prestes. Mas ficou ali poucos dias: A Noite, ed. 8689, t. 27, anunciava em 11-03-1936 que Graciliano e Sebastião Hora, presos, estavam a caminho do Rio pelo navio Manaus). Guilherme Figueiredo, em Manchete, 30-01-1954, ed. 93, t. 66, referindo-se a reportagem em edição anterior sobre companheiros de prisão de Graciliano, escreve ao repórter observando que faltou uma personagem: “É o Capitão Lobo, que ofereceu um livro de cheques a Graciliano, quando este esteve preso em Alagoas” [correção: foi em Recife]; “Em 1947, quando o então Tenente-Coronel José de Figueiredo Lobo veio ao Rio, levei-o à Livraria José Olympio, para encontrar mestre Graça. Perguntei a este: ‘Conhece este homem?’ E o romancista, com sua secura sincera, olhou-o e respondeu: ‘Não’. Ao que o ‘Capitão Lobo’ retrucou, rindo: ‘Se eu tivesse sido um safado, o senhor não esqueceria a minha cara’ ”. Guilherme Figueiredo informa sobre o então Tenente-Coronel Lobo: “Conheço-o desde 1932, quando foi ajudante de ordens de meu pai [Euclides de Figueiredo] na Revolução Constitucionalista. É meu cunhado”.

 

[495] Esse episódio foi publicado, sob o título “O porão do Manaus”, no Correio da Manhã, 25-12-1949, ed. 17416, t. 45, 53.

 

[496] Foi Sérgio, isto é, Rafael Kamprad que causou estremecimento de repulsa em Graciliano quando este se deparou com o rapaz lendo Caetés: “– Pelo amor de Deus não leia isso. É uma porcaria. Ingênuo, tentei explicar-me, em grande embaraço”. Depois, o russo leu a jato resumidamente umas páginas de S. Bernardo, passando por cima das “insignificâncias”, para espanto de Graciliano: “Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza, e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões” – em Memórias do cárcere, Parte II, 3, 4,  p. 225 e 230.

 

[497] Diz Nise da Silveira em depoimento a Manchete, 09-01-1954, ed. 90 t. 24-27 (“Graciliano e seus companheiros de cárcere – Doze personagens falam de um autor”, reportagem de Darwin Brandão - apresentando depoimentos de Heloísa Ramos, Vanderlino Nunes, Maurício Lacerda, Barão de Itararé, Otávio Malta, Eneida, Francisco Chermont, Beatriz Bandeira, Campos da Paz Jr, Barreto Leite Filho, Hermes Lima): “A morte do amigo e pouco depois este livro de memórias, puxando de funduras distantes tanta coisa que buscavam esquecimento, emocionaram-me profundamente. Em tal estado de espírito prefiro o silêncio. Mas este terrível Darwin Brandão me atenaza e me obriga a bater com a pena desajeitada sobre nervos esfolados. Sim, Graciliano e eu fomos muito amigos. Era uma dessas especialíssimas, raras amizades nas quais as pessoas se comunicam de verdade, íntimo a íntimo. Nas nossas conversas, as palavras acabavam sobrando, desnecessárias, porque nos entendíamos quase de imediato, embora uma ou outra vez tivéssemos opiniões diferentes. Mas opiniões e entendimentos são duas coisas bem diversas. Quando as opiniões divergem e o entendimento persiste, então a amizade é segura e tranquila. Sendo assim, está claro que nunca achei Graciliano um sujeito esquisito, como diziam alguns. Impressionava-me ver tão transparente, por trás de suas sobrancelhas arrepiadas, constante maravilhamento diante de todas as manifestações de bondade. Mesmo procurando decifrar-lhes a motivação, não conseguia desmontá-las a ponto de esgotar a surpresa e o encanto que lhe traziam. Sabia reconhecê-las de longe por pequenas que fossem, recolhia-as como quem guarda pedaços de ouro. Não deixariam de ser encerrados em seu [ ] o copo de água que lhe deu um policial – nem o sorriso de simpatia do padre Falcão. Muitas vezes Graciliano me falou do gesto extraordinário do Capitão Lobo, tal se me mostrasse um objeto de nunca vista preciosidade. Inclinava-se sobre o caso de Paulo Turco, o detento que tomara na mais gratuita das escolhas o encargo de educar duas meninas mulatas, vizinhas do presídio, com a paixão contida do botânico que tem diante dos olhos uma planta exótica. Comentou esta história comigo várias vezes, nunca no tom de quem está fixando uma figura para livro, porém perplexo ante o mistério do homem vivo. Não era necessário que a aparição da bondade se fizesse num amigo ou companheiro, nem que se dirigisse a ele próprio. Admirava-a no agente de polícia, no padre, no oficial representante da ordem burguesa, no arrombador. Compreende-se que pessoa assim afinada para captar o bem nos mais variados comprimentos de onda, fosse do mesmo modo sensível a quaisquer manifestações da brutalidade, da perfídia, do mal. Tinha, pois, que tomar medidas de defesa. Vestir carapaça dura, enrolar-se em arame farpado. Desde a infância vinha procurando aprender e assumir o pior. Não digo aceitar ou conformar-se, ele estava a mil léguas de ser um conformista, mas a tomar sobre si as situações piores tal como se apresentassem, coisa que estudou em si mesmo, em muitas oportunidades, quando era difícil. Na Casa de Correção, onde o conheci de perto, Graciliano vivia a cadeia arbitrária na maior serenidade. Nunca o vi inquietar-se sobre a possível hora da liberdade. Não se assemelhava a esses viajantes que, no trem ou no avião, agitam-se em incessantes movimentos improdutivos e perguntam a todo instante: quando chegaremos? Graciliano – parecia um velho embarcadiço que não se importava que o porto de desembarque estivesse perto ou longe. Foi por isso um companheiro ideal de prisão. A mim ajudou muito e deve também ter ajudado a outros”. Sobre a personagem “Caralâmpia” de A terra dos meninos pelados, escrito à saída da prisão em 1937, Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 117, 118, 119, informa: “Duas pessoas são associadas a Caralâmpia: Nise da Silveira e a filha mais nova do escritor, que em 1937 chega ao Rio. É, no entanto, a Nise que a personagem intimamente se liga”. Clara Ramos lembra as estratégias dos amigos de prisão na enfermaria da Casa de Correção: “Para impedir a invasão incessante, dia e noite, de sua intimidade e, principalmente para escapar ao cotidiano horrível, a Dra. Nise da Silveira construiu um lugar à parte onde se refugiar, privando apenas consigo mesma e alguns convidados especialíssimos: o mundo de Caralâmpio”; “A denominação do refúgio vinha de longe. Datava do tempo em que, filha de um professor de Matemática, Nise deparara com determinado fulano de tal Caralâmpio numa lista de chamada e intercedera em seu favor: – Não reprove esse Caralâmpio. Gostei do nome”; “O pedido não pudera ser deferido. Estava o protegido da menina de tal sorte por fora da Matemática, que depois disso ficou na família como sinônimo do indivíduo alheio a tudo, à realidade inclusive – o tipo aluado das nuvens”. “Eneida de Moraes, ao divisar na rua a psiquiatra magra e miúda, numa embalagem física realmente incompatível com o peso e a maturidade cerebrais, faz trovejar de uma calçada à outra seu efusivo vozeirão: – Ô Caralâmpia!!”; “Graciliano e a doutora encontram-se na Livraria José Olympio, numa língua rica em símbolos embrenham-se nesse território fantástico onde poucos são acolhidos”; “José Lins, impossibilitado de decodificar a conversa meio maluca que Mestre Graça mantém com a médica, vê-se excluído das mirabolantes paragens. Fica ofendidíssimo, Nise faz menção de mostrar-lhe o caminho. Mas Graciliano barra-lhe a entrada: – Deixei-o de fora. Se não entrou logo, não entra mais”.

 

[498] Ver: Eneida de Moraes,  Aruanda - Banho de cheiro; Maria Werneck, Sala 4;  Beatriz Bandeira faz breve menção ao período em suas memórias sobre o exílio na ditadura posterior, de 1964: Beatriz Bandeira Ryff, A resistência (Anotações do exílio em Belgrado).

 

[499] Ver reprodução de documento do prontuário de Graciliano Ramos, indicando o período em que ficou na Colônia Correcional, de 11-06-1936 a 29-06-1936, em Fabio Cesar Alves, Armas de papel, p. 163. Também Dênis de Moraes, em O velho Graça, p. 355, na edição de 1993, transcreveu, segundo documentação pesquisada, o “Prontuário n. 11.473” do “Dossiê da Polícia Política sobre Graciliano Ramos” em que constam as datas: 11-06-1936 – (com a descrição:“Com ofício 893-S/2, foi transferido para a Colônia Correcional de Dois Rios”) – e a data do retorno, registrada em 29-06-1936 – (“Procedente da Colônia Correcional, foi recolhido à Casa de Detenção, com ofício no. 966-S/2”) – indicando, portanto, 18 dias de permanência naquele campo de concentração. Entretanto, Heloísa Ramos, em carta de 1936 ao irmão, logo após a volta de Graciliano da Colônia, fala em 11 dias – carta reproduzida em Jornal do Brasil, 15-06-1984, ed. 68, t. 29. A respeito, convém lembrar os dias passados na estadia de transferência do Pavilhão dos Militares, que, junto à viagem à Ilha Grande, ocupam os capítulos 1 a 7 da Parte III de Memórias do cárcere. De qualquer modo, o contraste com os muitos meses passados nos outros locais de prisão revela, pela equivalente quantidade narrativa da terceira parte de Memórias do cárcere, a intensidade da experiência e a intenção da denúncia minuciosa. Um comunicado grotescamente cínico  – em Correio da Manhã, 25-06-1936, ed. 12765, t. 7, às vésperas do retorno de Graciliano, sob o título: “Restauração moral e física dos criminosos – Um ligeiro traço da história da Colônia Correcional de Dois Rios (Comunicado da Diretoria Geral de Comunicações e Estatística da Polícia Civil do Distrito Federal)”, trazia trechos desse jaez: “A Colônia da Ilha Grande vai, por ingentes esforços da administração, produzindo resultados dignos de nota, quer nas atividades requeridas pelas pequenas indústrias, quer no trato da terra, concretizando, tanto quanto possível, os objetivos sociais de reabilitação pelo trabalho e instrução”.

 

[500] Ver a resenha-crônica “Porão”, de Graciliano, coletada em Linhas tortas, p. 97-99, com manuscrito datado de 29-07-1937, conforme registro em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 143  – a respeito de Newton Freitas e de seu anunciado livro com aquele título. Em Memórias do cárcere, Parte III, 2, p. 17, Graciliano, enquanto esperava no Pavilhão dos Militares a transferência para a Colônia Correcional, entre os que retornavam de lá quase irreconhecíveis, deformados pelos maus-tratos, viu Newton Freitas, que: “anunciou o propósito de narrar em livro a viagem no porão do Campos. Excelente ideia. Eu é que não tinha desejo nenhum de escrever”. Segundo Lívia Rangel, Um capixaba entremundos. Newton Freitas: vida e obra, p.pdf. 18, “O Porão” foi publicado entre junho e julho de 1937 no jornal paulista O Dia, e, em outubro, no jornal uruguaio Justicia, traduzido sob o título “La Bodega: impresiones de la carcel”; “Quando o artigo de Graciliano sobre o relato de Newton saiu na imprensa, o capixaba estava livre há quatro meses. Nessa época, ele havia começado a redigir o segundo texto de suas memórias como preso político, agora descrevendo a rotina presidiária de Dois Rios, as tormentas e injúrias sofridas, sem ocultar as cenas de agonia e martírio, os constrangimentos morais, as violências físicas e as mortes que presenciou na ‘ilha infernal’. Esse segundo texto recebeu o título de ‘Colônia – relato dos dias como preso político’, o qual saíra tão sucinto quanto o primeiro, apenas com uma estrutura narrativa melhor ordenada”. Além disso, a pesquisadora dá informes bastante circunstanciados sobre o autor e a obra, p.pdf. 30-32, onde se lê: “Apesar de Newton ter manifestado desde o início a intenção de transformar a sua narrativa em livro, o projeto não se concretizou”. Ver também da autora a tese de doutoramento pela USP: Lívia Rangel,  Lídia Besouchet e Newton Freitas: mediações políticas e intelectuais entre o Brasil e o Rio da Prata (1938-1950), especialmente sobre “Porão” nas p.pdf. 21, 125-130. Newton Freitas manteve correspondência com Mário de Andrade: ver Raul Antelo (org.). Correspondência: Mário de Andrade e Newton Freitas, edição que, sem mencionar a escrita em português de “Porão” (publicada na imprensa) e de “Colônia”, apresenta em apêndice  os originais em espanhol, vindos do Uruguai, e traduz estes textos com os títulos: “A cela” e “A colônia”. Os relatos de Newton Freitas coincidem bastante com as informações de Memórias do cárcere. A apresentação deles, assinada por A. N. D., Montevideo 1938, elogia a objetividade do relato – como se replicasse a crítica de Graciliano – ver nota a seguir. (Obs.: Correspondência: Mário de Andrade e Newton Freitas reproduz na p. 17 um relato de Newton Freitas em que um brasileiro lhe pergunta em Buenos Aires: “– Você não é autor de uma reportagem sobre prisões no Brasil e aparecida em A Plateia?”). Ver em Dom Casmurro, 17-06-1937, ed. 6, t. 4, anúncio de “Porão”, que seria publicado pela Editora Moderna.

 

[501] Em depoimento a Manchete, 09-01-1954, ed. 90 t. 26 (“Graciliano e seus companheiros de cárcere – Doze personagens falam de um autor”, reportagem de Darwin Brandão) –  diz Vanderlino Nunes: “A leitura das Memórias do cárcere de Graciliano Ramos acende em nosso coração um sentimento de saudade e revolta. Saudades de tantos companheiros com quem compartilhamos dias de sofrimento e incertezas; revolta pela injustiça que jamais perdoaremos. Transformados em personagens desse grande escritor, de um mestre que se tornou clássico da língua portuguesa, fomos, por assim dizer, convocados por Graça a servi-lo como elementos indispensáveis ao seu depoimento corajoso e honesto. Ele, como nós, foi vítima do terror. Mergulhou na noite negra do fascismo que também envolveu a nossa terra. Mas como era um homem que vivia ao sol, não podia deixar de trazer para a luz os aspectos revoltantes, dolorosos, humilhantes que experimentou. Privado da liberdade, sabia lutar por ela. E dizia que tudo haveria de escrever. E como o fez. Eu que tive a felicidade de privar da intimidade de Graça, contando com sua amizade em bons e maus momentos, estranhava quando ele me dizia que nunca poderia ser um repórter. Gênero difícil – afirmava. No entanto, as suas memórias o revelam como o repórter completo, o mais arguto e o mais fiel de que tenho notícia. Naqueles quatro volumes a narrativa admirável, límpida, num estilo elegante, correto, digno de ser imitado. Nada falta. Não há excessos. Do ângulo em que me achava na prisão, vi exatamente o que ele viu. Outros por ele citados, encontrados em sítios diversos, terão de notar, forçosamente, a mesma exatidão, a mesma informação precisa, minuciosa e verdadeira, que só a um repórter privilegiado é dado transmitir. Sua obra póstuma equivale a um retrato de corpo inteiro de uma época em que o aviltamento atingiu o máximo. É um retrato que exprime a verdade. Sem qualquer atavio. É feio e cruel porque assim era o ambiente que o raio de sua objetiva alcançou. Como ferro em brasa, queimará as mãos de uns poucos, deixando-as em chaga. A maioria, porém, recolherá com alegria as Memórias do cárcere, o livro que estava faltando”. Depois da saída da prisão, carta de Graciliano a Ló, Cartas, 28-02-1937, p. 177, indica que Vanderlino era seu companheiro de quarto na pensão: “Aqui vão, como ficou estabelecido, os acontecimentos da semana. Fui morar na Rua Correia Dutra, 164, numa pensãozinha modesta, onde tenho um quarto com Vandelino”. Sobre não ser “repórter” é esclarecedora a reflexão que, antes de escrever suas memórias, Graciliano apresentou na crônica “Porão”, de 29-07-1937, coletada em Linhas tortas, p. 98-99, sobre o então anunciado livro de Newton Freitas, que publicava capítulo na imprensa: “Essa história que Newton Freitas está publicando em jornal e certamente vai publicar em volume poderia ser um dramalhão reforçado, com muita metáfora e muito adjetivo comprido. O assunto daria para isso”; “Não aconteceu semelhante desastre. Newton Freitas conta uma história pavorosa em linguagem simples”; “Newton Freitas não é ficcionista. Fazendo reportagem, procura ser rigorosamente escrupuloso – e se algum pecado comete, é por tornar-se às vezes conciso demais”; “O autor só nos mostra a parte externa dos indivíduos. As suas personagens andam bem, falam, mexem-se. Notamos os seus movimentos e vemos onde elas pisam, mas não percebemos o interior delas. Estão atordoadas, evidentemente, não podem pensar direito, mas teria sido bom que os acontecimentos se apresentassem refletidos naqueles espíritos torturados. Seria preferível que, em vez de vermos um soldado empurrando brutalmente os presos por uma escada com o cano duma pistola, sentíssemos as reações que o soldado, a pistola e a escada provocaram na mente dos prisioneiros. Tendo da multidão que nos descreve uma visão puramente objetiva, Newton esgotou o assunto depressa e a narrativa saiu curta”. Curiosamente Newton Freitas publicou em Dom Casmurro, 17-06-1937, ed. 6, t. 5, o artigo “Papel, tinta e cachaça” em que elogia a capacidade de Graciliano para ver as personagens por dentro. Nas primeiras páginas de Memórias do cárcere, Parte I, 1, p. 35, além de sugerir a possibilidade de não finalização da narrativa que inicia, Graciliano alude à publicação de Newton Freitas: “Estou a descer para a cova, este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão e provavelmente isto será publicação póstuma, como convém a um livro de memórias”. E ao lembrar que entre os envolvidos, há especialistas capazes de lidar competentemente com o assunto, acrescenta: “Há também narradores, e um já nos deu há tempo excelente reportagem, dessas em que é preciso dizer tudo com rapidez”.

 

[502] Gaúcho e o vigarista Paraíba forneceram material literário para Graciliano. Certamente o conto “Um ladrão”, de 1938 (Catálogo de manuscritos do AGR, p. 31), onde Gaúcho é citado constantemente no enredo, foi alimentado por essas pesquisas in loco. Graciliano também publicou em Vamos Ler!, 20-05-1937, ed. 42, t. 3, a crônica “Contos do vigário” (coletada em Linhas tortas, p. 154-155), cheia de gírias, com passagens como esta: “O ano passado um punguista competente me asseverava que os homens se dividem em duas classes, malandros e otários, que o otário foi naturalmente feito para sustentar o malandro e não pode deixar de ser afanado. Dois tipos completamente diversos, na opinião do punguista: o otário nunca se vira, o malandro vira-se, isto é, sabe engrupir”; “O operador e o campana têm o paco; a vítima tem a grana. O negócio consiste na substituição da grana pelo paco. E a conversa é sempre a mesma, essa gente que se vira não tem imaginação. O paqueiro começa uma história mole, bancando trouxa, depois o esparro entra no jogo e dá informações. Não há nada mais besta. Pois um homem da Pauliceia caiu na papa e soltou a grana. Um furto de quatro lucas e meio, como se diz em linguagem técnica”.

 

[503] A respeito de Manuel Leal, o velho amigo, caixeiro-viajante, habitual hóspede da família em Palmeira dos Índios nos meados dos anos 20, Clara Ramos, em Mestre Graça, p. 53-54, conta que Graciliano, na época, além do Café de propriedade do Genésio, que ele apelidou de Bacurau, frequentava o bar de Balbino Freire, “cuja afluência quadruplicou com os torneios de bilhar travados com Manuel Leal. Esse parceiro é um rapagão de farta cabeleira negra que será reencontrado depois, em má situação, no porão do Manaus. Antes de se converterem em personagens de Memórias do cárcere, os craques, de fato dois virtuoses do taco, enchem as noites vazias da província com o entusiasmo de suas torcidas”.

 

[504] O episódio foi publicado em Correio da Manhã, 19-04-1952, ed. 18121, t. 10. Ver registro de manuscrito em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 114. A Biblioteca Nacional disponibiliza arquivo com título “Paraíba” – manuscrito datado de 11-06-1949, que narra o encontro com o vigarista pernóstico:

< https://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/mss_I_07_13_007A/mss_I_07_13_007A.pdf >.

 

[505] Cubano tornou-se um personagem marcante para Graciliano: em “Flash”, coluna de enquete dos “Arquivos implacáveis” de João Condé, A Manhã, Letras e Artes, 01-08-1948, ed. 91, t. 8, ele foi citado em um dos itens: “Seus maiores amigos: Capitão Lobo (um oficial conhecido na prisão de Pernambuco), Cubano (vagabundo encontrado na Colônia Correcional), José Lins do Rego e José Olympio”. Segundo a caracterização de Cubano em Memórias do cárcere, Parte III, 13 e 18, p. 76 e 100, ele “aguentava-se no papel de cão de fila”; “Caminhando, movia-se todo, para um lado, para outro, como se as juntas não funcionassem bem”; “Naquela manhã apenas me disse e repetiu o número do batismo: 35.35. Ou 33.35, não me lembro direito”; “Um dia o moleque largou o berro de comando e volveu para mim o seu andar curioso de boneco de molas: – Quando eu mandar a formatura, não é preciso o senhor se incomodar não. Sente-se numa daquelas camas, lá no fundo”.

 

[506] As relações familiares com o conterrâneo, o major diretor da prisão, foram propícias: em bilhete da prisão, Cartas, p. 166, Graciliano diz a Heloísa: “Para as visitas é necessário novo cartão da polícia. Em todo o caso, como você conseguiu entendimento com o major, espero-a terça-feira. Esperei-a ontem o dia todo, até imaginei que houvesse doença”.

 

[507] A importância de Benjamín de Garay para a divulgação da literatura brasileira na Argentina e países vizinhos foi amplamente documentada por Pedro Moacir Maia, em Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro. Garay iniciou seu contato com a literatura nordestina de 30 com atenção destacada a Graciliano Ramos, com quem se correspondeu desde 1935, correspondência intermediada por Heloísa Ramos em 1936, durante o período da prisão. Como se vê pela correspondência e por menções constantes ao tradutor no contexto da obra, a atenção de Garay foi tão significativa para a divulgação em espanhol da obra de Graciliano quanto para as remunerações modestas que as publicações de seus textos na imprensa argentina propiciaram. Ver comentários de Monteiro Lobato sobre Garay no Diário de Notícias, 09-08-1936, ed. 2957, t. 19-20: na crônica “Estranho caso de namoro”, Lobato fala de pessoas que se apaixonam por um país, com enfoque em Benjamín de Garay: ”Este chega a fazer do nosso país a sua Dulcineia”. Informa que, para superar as resistências editoriais, Garay fundou uma editora e anuncia títulos brasileiros a serem publicados, entre eles Feudo bárbaro [seria a tradução de S. Bernardo, mas gorou] : “O curioso no caso de Garay é que a grande calamidade de sua vida foi esse xodó pelo Brasil”; “Se está pobre e ainda obrigado a viver da pena, deve-o exclusivamente ao invencível rabicho pela nossa terra”. Ver também A Manhã, 07-02-1943, ed. 461, t. 4: Gilberto Freyre, em “O Velho Garay”, também fala de estrangeiros que divulgam a cultura brasileira para deter-se em Garay e propor um reconhecimento oficial das instituições brasileiras ao seu trabalho. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 270, nota 1, reproduz trecho da carta de Garay em seu primeiro contato com Graciliano, depois de ter notícias de suas obras pelo Boletim de Ariel.

 

[508] Os três contos produzidos nesse período de prisão, na Sala da Capela, tiveram edições variadas (ver bibliografia) e afinal compuseram os contos de Insônia. Ver Catálogo de manuscritos do AGR, p. 29-30: “Paulo”, datado de  Sala da Capela, 09-07-1936, publicado em O Jornal, 18-04-1937, ed. 5473, t. 25, com ilustrações de Santa Rosa; “O relógio do hospital”, Sala da Capela, 26-07-1936, publicado em La Prensa, Buenos Aires, 24-10-1937, com ilustração de Miguel Petrone; “A testemunha”, Sala da Capela, 08-08-1936, publicado na Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano I, n. 1, julho de 1938.

 

[509] O “romance encrencado” teve uma demorada história desde sua escrita, além de ter sido lançado com o autor na cadeia. Em carta de Maceió a Heloísa, Cartas, 22-03-1935, p. 140-141, Graciliano diz que não mexe no romance (calcula-se) desde outubro de 1934: “Acabo de almoçar e, como é natural, bebi um bocado de aguardente. Vou dormir. Em seguida retomarei o trabalho interrompido há cinco meses. Julgo que continuarei o Angústia, que a Rachel acha excelente, aquela bandida. Chegou a convencer-me de que eu devia continuar a história abandonada. Escrevi ontem duas folhas, tenho prontas 95. Vamos ver se é possível concluir agora esta porcaria. É quase uma hora. Creio que sapecarei o segundo horário da repartição. No quintal procurarei escrever a continuação do romance, que se passa num fundo de quintal, como v. sabe. Sairá uma obra notável”. Luiz Augusto de Medeiros, no programa de prêmios na tv “O céu é o limite”, respondendo sobre a vida e a obra do cunhado, como noticia o Diário de Pernambuco, de 11-10-1957, ed. 232, t. 13, afirmou que na verdade ele iniciou Angústia após o carnaval de 1934, em não em 1933 como Graciliano teria dito em uma entrevista. Na semana santa de 1935, escreve para Ló, Cartas, p. 152: “Terminei o espetáculo da companhia lírica. O primeiro ato é no Farol, como já disse, o segundo aqui no fundo do quintal, ao pé da mangueira, que nunca existiu”; “O ciúme de Luís da Silva é uma doença horrível”; “Por enquanto pretendo entregar-me inteiramente a este desastre que preparo e que terá, se aparecer um editor maluco, cinquenta leitores do Amazonas ao Prata, talvez nem tanto. Em seguida o Lívio Xavier, e os outros comunistas amigos da Rachel me arrasarão”. Em 1935, p. 153, carta sequente sem data, Graciliano fala de uma recebida de José Lins: “Recados para a Rachel, que ainda não voltou do Recife, e uma proposta do José Olympio, que se oferece para editar o Angústia, ainda não escrito. Edição de três mil exemplares”. Em carta a José Lins do Rego, de 10-09-1935 (ver acima), Graciliano dizia: “Terminei a minha história, mas não sei se a publique. Se isto acontecer, será lá para o ano vindouro, como lhe disse” – em Eduardo F. Coutinho e Ângela Bezerra de Castro (orgs.), José Lins do Rego, p. 51. Em Cartas, p. 154, diz a Ló em 14-12-1935: “Continuo a emendar o romance, que o Zé Olympio quer publicar em janeiro”. Em Memórias do cárcere, Parte I, 29, p. 183-184, um rótulo de garrafa de cachaça no porão do Manaus provoca a lembrança: “A sala de jantar da minha casa em Pajuçara reconstituía-se. Era noite. Sentado à mesa, entranhava-me na composição de largo capítulo: vinte e sete dias de esforço para matar uma personagem, amarrar-lhe o pescoço, elevá-la a uma árvore, dar-lhe aparência de suicida. Esse crime extenso enjoava-me. Necessários os excitantes para concluí-lo. O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada, queria abandonar a tarefa e obstinava-me nela, as ideias a pingar mesquinhas, as mãos trêmulas. Rumor das ondas, do vento. Pela janela aberta entravam folhas secas, um sopro salgado; a enorme folhagem de um sapotizeiro escurecia o quintal”. Um dos companheiros do porão, incômodo, tagarelava com abundância: “A voz dele, um burburinho, desmaiava no som das ondas, do vento; as ondas não quebravam no costado velho da embarcação, o vento não entrava pela vigia: eram ruídos longínquos a embalar-me o trabalho, na minha sala de jantar”; “Dificuldade enorme para assassinar o homem, passar-lhe a corda ao pescoço, deixá-lo pendurado a um galho, na escuridão. Que iriam pensar daquilo? Abrira-me com o editor: afirmara-lhe, em carta, que ele não venderia cem exemplares da história”. Em dedicatória manuscrita em edição de 1947 de Angústia, Graciliano escreve: “Rachel: este livro não é meu: é nosso. O seu trabalho para arrancá-lo foi pelo menos igual ao meu, sem exagero”. Há a anedota que Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 92, registra: “Um dia ele se excede na aguardente e atira no lixo os originais de Angústia. Heloísa atenta para a excepcionalidade da situação. Comunica o fato para Rachel de Queiroz. As duas mulheres unem-se na busca aos autógrafos, vão encontrá-los, molhados, no quintal. E o Zé Lins dá a sua risada e a sua versão muito pessoal do episódio: Mestre Graça forrara, com papel impermeável, um recanto seguro do quintal; ali depositara com cuidado a papelada”. Ver a respeito notícias e reproduções por Elvia Bezerra em: < https://blogdoims.com.br/salvando-os-originais-de-angustia-por-elvia-bezerra/ >. Há registros de outros títulos cogitados para o romance: Um colchão de paina (um luxo para oferecer a Marina) e 16.384 (o bilhete premiado que propiciaria aquele luxo e vida tranquila)  – termos presentes no enredo como obsessões de Luís da Silva, mas não mencionados nas cartas, que desde o início nomeiam o romance apenas como Angústia: ver a respeito, entretanto, lembrança de Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 73: o romance estava acabado e sem título, com a escolha entre os três a definir . Em novembro de 1935, no Boletim de Ariel, 11-1935, ed. 2, t. 21, José Olympio, com a listagem de publicidade sob o título “publicaremos brevemente”, já anunciava Angústia, assim como em nota de O Cruzeiro, 23-05-1936, ed. 29, t. 51. Em junho de 1936, o Diário de Notícias, 28-06-1936, ed. 2923, t. 19, publicou trecho de Angústia em que Luís da Silva se imagina sob a opressão revolucionária das assembleias comunistas: “Camarada Luís da Silva, antes da revolução você elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões. Onde está o dinheiro que essa gente lhe deu?” Julião Tavares estaria fuzilado ou enforcado e Marina trabalharia num orfanato. Em julho de 1936, o Boletim de Ariel, 07-1936, ed. 10, t. 3, publicava “Infância”, “trecho de Angústia, no prelo” – a seguir o romance apareceu na listagem das “novidades de agosto”. O Diário de Notícias, ed. 2969, t. 17, informava em 23-08-1936: “acaba de aparecer o novo romance do sr. Graciliano Ramos: Angústia”. Houve muitas resenhas sobre o livro, mas Graciliano, em bilhete da prisão, Cartas, p. 167, reclamava: “Recebi, na hora do almoço, a notícia que você me mandou e o conto do Tatá. A nota é uma tolice, o que não admira em jornal de Maceió: só podia sair maluqueira. A literatura de Ricardo é fantástica — super-realismo ou coisa semelhante. Quando escrever para casa, diga-lhe muitas amabilidades, para que ele continue a fazer versículos bíblicos. É fantástico. Se não me engano, o Angústia morreu. Um silêncio de morte. A saúde vai bem, mas continuo a não poder trabalhar”. Apesar da reclamação de Graciliano, sobre “um silêncio de morte”, foi anunciado o júri do “Prêmio Lima Barreto” da Revista Acadêmica, no Diário de Notícias, 11-10-1936, ed. 3011, t. 18: “Mário de Andrade, Aníbal Machado e Álvaro Moreira”, e, menos de quinze dias depois, com Graciliano ainda preso, o Diário de Notícias, de 25-10-1936, ed. 3023, t. 19, informava que o “Prêmio Lima Barreto” para romances de 1936 tinha sido atribuído a Angústia. Depois de sair da prisão, Graciliano escreveu a Ló, Cartas, 14-02-1937, p. 174, no carnaval de 1937: “Mais tarde encontrei o Murilo, fui à Revista Acadêmica e tomei umas bebidas em companhia da tropa de lá”; “Marques Rebelo declarou que do Prêmio Lima Barreto eu só receberia um conto, novecentos e quarenta, porque o Murilo ia deduzir sessenta mil-réis de gim bebidos na véspera”. Deduz-se, então, que o prêmio seria de dois contos de réis, mas Graciliano nas cartas sempre reclamava que Murilo, pelo jeito, não iria desembolsar o dinheiro: em Cartas, 03-03-1937, p.  185, ele disse a Ló: “Prometi a fotografia pela décima vez, enquanto ele me prometia o dinheiro do prêmio”, e , em 08-03-1937, p. 186: “De volta encontrei o Murilo Miranda, que positivamente não tem a intenção de pagar o prêmio da Revista”. Em carta a Ló, de 28-03-1937, p. 194, disse, sem especificar: “Aquele negócio da Revista está sendo pago aos pedaços. Não lhe posso mandar nada”. Em Cartas, 11-04-1937, p. 197, a Ló: “Não sei se já lhe disse que Portinari me fez um retrato maravilhoso. Bandeira me disse há dias que muita gente anda com dor de corno por causa desse retrato. É formidável. Murilo quer metê-lo na Revista e ficar com ele. Tem graça. O retrato vale mais que o prêmio. A Revista Acadêmica, sob direção de Murilo Miranda, teve o no. 27, maio de 1937, dedicado a Angústia, “Prêmio Lima Barreto” 1936, com ensaios de Mário de Andrade, Aníbal Machado, Álvaro Moreyra, Rubem Braga, Peregrino Júnior, João Silva Melo, A. D. Tavares Bastos, José Bezerra Gomes, Emil Farhat, Paulo Saraiva, Aydano do Couto Ferraz, Bezerra de Freitas, notas de Jorge Amado e Oswald de Andrade e dois retratos de Graciliano, feitos por Adami e por Portinari – o de Portinari, Graciliano reivindicou e decorava sua casa. O número seguinte da revista publicou uma carta de agradecimento do autor, datada de 11-06-1937, Revista Acadêmica, n. 28, junho de 1937, coligida em Garranchos, p. 151-154: “Esse caso do Prêmio Lima Barreto é diferente dos outros. Parece que não houve precisamente a intenção de julgar um romance nem de saber se o autor dele poderia fazer trabalho menos mau”; “Estou convencido de que me quiseram dar uma compensação. Aníbal Machado, Álvaro Moreyra e Mário de Andrade desfizeram agravos e combateram moinhos reais. Eu estava sendo triturado por um desses moinhos. E a solidariedade de alguns intelectuais brasileiros teve para mim significação extraordinária”; “Refletindo bem, penso que o prêmio não foi concedido a mim, mas a várias centenas de criaturas que se achavam como eu. Não se tratou de literatura, evidentemente. O que não quer dizer que, achando a decisão injusta, como acho, eu não a considere um ato de coragem indispensável num momento de covardia generalizada, ato imensamente útil, se não a mim, pelo menos a outros, que poderão respirar com alívio e dizer o que pensam”.

 

[510] Na edição seguinte, em 1941, o romance foi consertado: continuou pela José Olympio, com desenho de Santa Rosa e a rubrica “2ª edição, revista” na capa – Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 148, lembra os preparativos: “A mulher e a menina mais velha o auxiliam na revisão da segunda edição de Angústia. Enquanto a revisora de nove anos se restringe aos trechos selecionados pela censura caseira, a adulta pega o trabalho pesado. Heloísa é uma eficientíssima colaboradora que acumula as funções de leitora, datilógrafa e auxiliar de revisão. Como atualmente passa as suas tardes no Ministério da Saúde, é de madrugada que acompanha o marido na leitura das provas. Precisa então molhar a cabeça para manter-se acordada”. O Cruzeiro, 18-10-1941, ed. 51, t. 10, noticia a 2ª edição de Angústia, “revista carinhosamente pelo autor”.

 

[511] Posteriormente, a formulação “formoso romance” apareceu em nota sobre o lançamento da segunda edição de Angústia, em A Manhã, 09-11-1941, ed. 13, t. 28. Sobre a linguagem forte de Angústia, ver: Valeska Limeira Azevedo Gomes, Expressões risíveis na obra de Graciliano Ramos: uma leitura de Angústia.

 

[512] Ver Fernando Morais, Olga.

 

[513] Boris Schnairdeman, em Duas vozes diferentes em Memórias do cárcere?, Estudos Avançados, e Jacob Gorender, em Graciliano Ramos: lembranças tangenciais, Estudos Avançados, apontam o equívoco de Graciliano ao referir-se a “fornos crematórios” e “câmaras de gás” em 1936.

 

[514] A atuação de José Lins pela libertação de Graciliano foi fraterna e decisiva. Herman Lima, Auxiliar de Gabinete de Getúlio Vargas entre 1933-1937, conta em suas memórias, Poeira do tempo, “Capítulo que Graciliano Ramos não escreveu”, p. 307-309, que ouviu de José Lins do Rego “na rudeza de nordestino generoso e leal”: “ – Herman, você diga ao Presidente Vargas que ele precisa mandar soltar o Graciliano Ramos”. O acanalhamento cabotino sequente, coadjuvante da narrativa cúmplice, impõe sua transcrição para registro histórico: “O Doutor Getúlio, de roupão de seda azul, diante da mesa atulhada de livros e processos, fumava o indefectível charuto, no gabinete onde despachava a papelada que havia sobrado da noite anterior, necessitando maiores exames seus. Achava-se então de pé, e me ouviu sem pestanejar, até que, ao findar o meu recado, fechou um dos olhos, naquele seu sestro habitual, tão conhecido de seus familiares. Depois, virando a cabeça para o alto, a mirar algum ponto imaginário, me respondeu com estas outras palavras, também rigorosamente registradas na minha retentiva, desde aquela hora: – Você  diga ao Zé Lins que neste caso de comunismo eu não mandei prender ninguém, mas também não mando soltar ninguém. Isso é lá com a Polícia. Mas, autorizo-o a falar com o General Pinto, dizendo da minha parte que indague do Filinto Müller se há alguma coisa apurada contra o Graciliano, e, do contrário, naturalmente que soltem o homem”. A seguir, pelas tramitações de autoridades entre Alagoas e Rio, o “nada consta” encaminhou a libertação de Graciliano: ver reprodução fac-similar do documento, de 12-01-1937, com o “ponha-se em liberdade” assinado por Filinto Müller, em Fabio Cesar Alves, Armas de papel, p. 22.  Pisando em ovos, desculpando-se de modo cuidadoso, qualificando os romances de Graciliano como “livros em que o problema humano importa muito mais que o social”, Augusto Frederico Schmidt publicou uma advertência sobre o equívoco de sua prisão – em “A propósito do sr. Graciliano Ramos”, em Diário Carioca, 22-12-1936, ed. 2590, t. 4. Dias depois, retomou o assunto em defesa de integralistas presos na Bahia: “Erro e injustiça”, Diário Carioca, 27-12-1936, 2595, t. 4. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 132, conta que Schmidt presenteou a família na pensão com uma rica cesta de natal, indicou a possibilidade de morarem numa casa confortável e arranjou um emprego de ótimo salário para Graciliano. Ver depoimento de Pompeu de Souza em Diário Carioca, 08-02-1947, ed. 5713, t. 4: ao presenciar a boçalidade autoritária contra seus empregados praticada pelo novo patrão, Graciliano imediatamente desistiu do emprego, como deixa ver na crônica “O Sr. Krause”, em Linhas tortas, p. 180-184.

 

[515] Em Cartas, p. 167, bilhete da prisão, Graciliano diz a Ló: “Essa história de defesa não me agrada. Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é comédia e de qualquer maneira eu seria péssimo ator”.

 

[516] Graciliano conta em Memórias do cárcere, Parte IV, 24, p. 300, que a seguir conheceu melhor Sobral Pinto: “Palavra aqui, palavra ali – notei que ele era pobre também. E por isso queria libertar-me. As nossas ideias discrepavam. Coisa sem importância. Sobral Pinto, homem de caridade perfeita, queria tirar da cadeia um bicho inútil, na minha opinião, um filho de Deus, na opinião dele”.

 

[517] Jornal do Brasil, 15-06-1984, ed. 68, t. 29.

 

[518] Ver Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 115, e, sobre José Lins do Rego, Jornal do Brasil, 05-06-1971, ed. 50, t. 37, Jornal do Brasil, 12-09-1977, ed. 157, t. 30-31. Esses primeiros meses após a saída da prisão foram ficcionalizados por Silviano Santiago no romance Em liberdade, que encarna Graciliano Ramos e fantasia a existência do manuscrito de um diário que publica.

 

[519] Uma nota maledicente no Correio da Manhã, 17-12-1936, ed. 12915, t. 4, sob o título “Uma nova repartição”, dizia que Vargas havia incumbido Capanema de policiar a moralidade na literatura infantil e indicar orientações para sua produção no país e que o ministro tinha criado, então, de modo discutível e permanente, a Comissão de Literatura Infantil, com alguns participantes “dissolventes e até comunistas”. Fizeram parte da comissão, além de pedagogos, escritores como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes, José Lins do Rego. As cartas de Graciliano escritas a Ló no período do concurso dão várias informações sobre o livro infantil que preparava: Cartas, 14-02-1937, p. 173: “Nada fiz depois da sua saída. Apenas acabei de emendar os meninos pelados, que não sei se prestam. Vi hoje uns desenhos admiráveis que o Santa vai mandar para o mesmo concurso de coisas infantis. Os meus meninos não valem nada diante das figuras do nosso amigo, um circo de cavalinhos formidável. Formidável”. O concurso organizou-se em três níveis: 1 - gravuras para pré-escolares; 2 - literatura para crianças de 8 a 10 anos; 3 - literatura para crianças acima de 10 anos de idade. Graciliano participou do grupo intermediário. Em 21-02-1937, p. 175-176, diz: “Gastei horas e horas consertando os meninos pelados, que afinal foram ontem para a escola Remington, donde voltarão copiados amanhã. Até agora há poucos livros na comissão, conforme disse o Zélins. Provavelmente não aparecerão coisas muito melhores que os meninos pelados. Mas não acredito no prêmio, como não acredito no da Revista Acadêmica. Isso está parecendo uma grande safadeza”. Uma nota no Correio da Manhã, 25-02-1937, ed. 12973, t. 4, informava que o prazo para inscrição no concurso havia sido prorrogado até 02-03-1937.

 

[520] Em Cartas, 28-03-1937, p. 193-194, Graciliano diz a Ló: “Fez você muito bem vendendo os animais que restavam. Estranhei que ainda tivessem escapado as duas reses. Provavelmente essas duas que ficaram não sabiam que eram minhas. Se soubessem teriam morrido como as outras”; “Fique com o que apurar desse venda de Macacos. Preciso roupa, o dinheiro da Revista não chega para tudo”; “Vou cavar os cobres com um artigo enorme sobre a economia no romance”. (Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 41, fala sobre os tempos de 1915 em Palmeira dos Índios: “O coronel Sebastião Ramos firmara-se no ruralismo. Adquirira Macacos, propriedade magnífica na zona serrana”).

 

[521] A terra dos meninos pelados, em Alexandre e outros heróis, p. 135. Clara Ramos comenta em Mestre Graciliano, p. 117.

 

[522] Cartas, 02-1937, p. 171-173.

 

[523] Assim Graciliano relata em várias cartas do período para Heloísa: Cartas, 14-02-1937, p. 174-175: “Domingo desci à cidade. Ao saltar na Galeria Cruzeiro, encontrei o Rubem, que me apresentou a mulher. Nesse ponto um sujeito vestido de fêmea vomitou-me a roupa, e voltei para casa, cheio de nojo e amaldiçoando o carnaval”; “Ontem, no José Olympio, encontrei o Rubem e a Zora, mulher dele. Fomos ao hotel onde estão, no Catete, e ganhei da Zora uma partida de xadrez. Essa cidadã é filha dum aventureiro sérvio que esteve na Abissínia, onde Menelik fez dele visconde. De sorte que Zora é viscondessa na Abissínia, viscondessa negra, uma criatura filha de sérvio e terrivelmente branca”. Em 14-03-1937, p. 189: “Você conheceu Simeão? Ele esteve aí em casa uma vez, com Valdemar e Teo. É um rapaz simpático, amigo do Rui, um sujeito nervoso, meio doido, médico, literato. Arranjou uma discussão tremenda com o Rubem, que está aqui na pensão com a Zora”. Em 22-03-1937, p. 190-193: “Preciso sair, vou levar o Angústia a Gilberto Amado e depois almoçar com Portinari, que me vai fazer um retrato. Não continuo porque Rubem me entrou no quarto e provavelmente vai contar gatos”. Em 31-03-1937, p. 196: “São quase seis horas da manhã. Daqui a pouco vou começar o conto para a Argentina. Vanderlino, que está aqui espichado na cama, acorda com o barulho do despertador e marcha para o jornal. D. Laura chorará com ciúmes do marido e ouvirá as consolações de d. Elvira. Rubem escreverá crônicas para o rádio, Zora irá para o colégio, onde termina o curso. Anteontem deu-se um caso engraçado. Entrei com Rubem num café da Rua Gonçalves Dias. Minutos depois entrou Zora e começou uma galinhagem desgraçada com o Rubem. Por infelicidade um sujeito velho aproximou-se: era o professor de Latim, que fez uma cara feia por encontrar a aluna abraçada com um homem. O pior é que Zora não pode dizer que é casada: no colégio passa por solteira. É uma garota de dezoito anos. Se soubessem que ela tem marido, os colegas ficariam assanhados, voariam para cima da viscondessa abissínia”.

 

[524] Cartas, 22-03-1937, p. 190-191.

 

[525] A partir de Angústia em 1936, a obra de Graciliano foi publicada, incluindo novas edições das anteriores, quase exclusivamente pela editora José Olympio – até 1959. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 209-210, observa que nesse último período havia negligência nas republicações: “Em meados de 1959, perguntamos a José Olympio o que seria de Graciliano, de seus livros, no ano vindouro. Chamou o irmão, Daniel Pereira, que assumira o comando. Ele foi curto e grosso: nem pensar”; “Fomos para a Martins, que publicava Jorge Amado. Exatamente em 1960, com edições prefaciadas e ilustradas, que rápidas retomaram o ritmo do escritor, ativando-o. Em pouco, Vidas secas vendia 300 mil exemplares num ano. E os demais livros seguiam o padrão, com desenvoltura”.

 

[526] Ver: Gustavo Alejandro Sorá, Brasilianas. José Olympio e a gênese do mercado editorial brasileiro, e Lucila Soares, Rua do Ouvidor, 110 – Uma história da Livraria José Olympio. Para ilustrar o quadro, é interessante o depoimento de João Cabral de Melo Neto, herdeiro que consolidou o veio da linguagem nordestina. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 193, relembra: “Sentados num corredor de hotel, enquanto lá dentro jantavam, animados, escritores de várias instâncias literárias, João Cabral e eu nos abstínhamos, enfastiados. Um pelo temperamento, outro pela rotina. Aí falamos de meu pai. E João Cabral, inesperado, me declarou: – Eu não o conheci. Surpreso, pois até eu vinha com João desde longe, reagi: – Não é possível! João Cabral simplesmente declarou: – Eu o via na José Olympio e não me aproximava. Por mais que quisesse, era inatingível. Nunca cheguei nem perto”.

 

[527] A percepção acanalhada do mundo tende a tachar o senso crítico de “pessimismo”. Esse hábito reacionário aparece em vários registros críticos e anedotas a respeito de Graciliano Ramos, do tipo: “Bom dia”, resposta: “Você acha?”, ou “Do jeito que a coisa anda, vamos ter que pedir esmolas”, resposta: “A quem?” Ver, por exemplo: Jornal do Brasil, 07-09-1941, ed. 211 t. 11; Letras e Artes - Suplemento de A Manhã, 10-04- 1949, ed. 121 t. 14 e 13; Letras e Artes - Suplemento de A Manhã, 04-09-1949, ed. 136 t. 11; Manchete, 20-12- 1952, ed. 35 t. 40.

 

[528] Ver foto do banquinho em Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, edição de 1986, p. X, com a legenda: “Pertenceu à Biblioteca Alfredo Pujol, adquirida pelo editor José Olympio, que doou o banco ao Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de Rui Barbosa” – “o banco do Graciliano”, assim referido por Drummond na crônica “A casa”, de Fala, amendoeira, como lembra Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 139. Fernando A. Cristóvão, p. 152-153, 160-161, 363, incorpora em suas análises e lista o manuscrito abandonado do romance J. Carmo Gomes ambientado na José Olympio – figurada como “Livraria do Soares”. Trata-se da continuidade do conto “A prisão de J. Carmo Gomes”(a “parte I”) em mais três partes, com um Graciliano aderidamente autobiográfico, dividido em dois, significativamente como no conto “Paulo”, e num conflito com certa equivalência: “J. Carmo Gomes”, o “comunista” e “Christiano Pereira”, o “escritor”. Fernando A. Cristóvão publicou as partes III e IV na Colóquio Letras, n. 3 e n. 4, Lisboa, Gulbenkian, 1971, e em sua coletânea Cruzeiro do sul, a norte - Estudos luso-brasileiros. A parte II foi publicada por Erwin Torralbo Gimenez, Estudos Avançados, vol. 27, n. 9, 2013. Na crônica “A livraria José Olympio”, Linhas tortas, p. 121, Graciliano diz: “Está aí um lugar onde se encontra excelente e abundante material para um romance, que poderia ser editado ali mesmo”. Em Cartas, 09-04-1938, p. 204, ao filho Júnio, disse: “Durante uns três dias Fabiano fez alguma figura na vitrine. Depois escondeu-se e os compradores se sumiram. É o diabo. Vamos ver o que dizem os críticos. Dias da Costa, que publicou esta semana um bom artigo, acha que Fabiano, sinha Vitória, os dois meninos e Baleia serão muito atacados. Está bem, vamos esperar isso. E enquanto esperamos vivemos chocando um projeto vago, qualquer coisa a respeito dum romance que vá da favela ao arranha-céu onde os tubarões da indústria digerem o país, e entre o morro e o escritório – a livraria, o jornal, a pensão do Catete, o restaurante Reis, o bar automático, o cinema, o teatro, o mangue e o café da Cinelândia. Enfim tudo indeciso, provavelmente não será escrito o livro”. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 106, lembra que o projeto do romance foi logo abandonado: “A quem perguntava que fim tinha levado o livro, mais de uma vez o ouvi explicar-se: – Eu não sentia aquilo”. O interessante da história é que o último capítulo não escrito de Memórias do cárcere (as primeiras sensações ao sair da prisão) aparece ficcionalizado nesse romance inconcluso. Outro romance abandonado por Graciliano é o “Manuscrito João Pinho”, conforme o título que lhe atribuiu Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, edição de 1986, p. 160 e nota 15, p. 219-220: o pesquisador teve acesso a três capítulos num conjunto lacunar. (Curiosamente, V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 93, cita um dos colegas de bilhar de Graciliano dos tempos de Palmeira, homônimo: “João Correia Pinho”). Heloísa Ramos, em entrevista a Novos Rumos, 07a13-06-1963, ed. 224, t. 5, considera que o romance seria uma composição a partir dos contos Luciana e Minsk, de Insônia. Fernando A. Cristóvão registra menção paralela, em “J. Carmo” e em “João Pinho”, do Soares e de outro personagem. O pesquisador também observa que há diferenças decisivas entre a narrativa do “Manuscrito João Pinho” e a dos citados contos de Insônia.

 

[529] O Cruzeiro, 21-02-1953, ed. 19, t. 79.

 

[530] Os dois casos são narrados em suas memórias de 1998: Joel Silveira, Na fogueira, capítulo 66, p. 283-284 (ao contrário do que se divulga, a entrevista de Graciliano, em 1948, foi concedida a Homero Senna e não foram mencionados esses tópicos do Golfo das Alagoas e do escritor-e-lavadeiras). Em Mário Hélio Gomes de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, um depoimento de Joel Silveira mais detalhado, “Graciliano sempre Graciliano”, p. 15-25, além dos itens acima referidos, comenta, por exemplo, que por ocasião do lançamento de seus contos sob o título Onda raivosa, desatou uma polêmica juvenil, inoportuna, contra a resenha de Mário de Andrade sobre seu livro, predominantemente elogiosa, mas equivocada numa correção. Os textos de Mário de Andrade, a respeito, são: “A palavra em falso” e  a réplica “A raposa e o tostão”, em Diário de Notícias, 06-08-1939, ed. 5146, t. 14 e 27-08-1939, ed. 5164, t. 14 – intermediados pelos de Joel e de Jorge Amado em Dom Casmurro, “Tristeza de ler Mário de Andrade”, 12-08-1939, ed. 113, t. 8, e “A solidão é triste...”, “Fala um tostão”, 02-09-1939, ed. 116, t. 2. O jornalista conta que Graciliano entrou na briga publicando as crônicas sobre a qualificação de “tostão” empregada por Mário para uma literatura descuidada e menor: “Os sapateiros da literatura” e “Os tostões do sr. Mário de Andrade” – ver em Linhas tortas, p. 187-188, p. 189-190. Apesar da cordial hostilidade entre Graciliano e Mário de Andrade, Graciliano defendeu também a necessidade da técnica na arte, como Mário de Andrade, que alertava para que não se confundissem as rupturas do modernismo com desleixo. Conta ainda Joel Silveira que, depois disso, quando entrava na Livraria José Olympio, José Lins do Rego gritava para o fundo: “– Seu Graça, o tostão está chegando”.

 

[531] Ver em Cartas, 14-02-1937, p. 174: “Apporelly apresentou-me ao Oswald de Andrade, que me apresentou a mulher e ficou em silêncio meia hora, numa cadeira junto à minha. Não lhe disse uma palavra e tive a impressão de que ele nunca tinha visto o meu nome. Afinal o homem se voltou e perguntou-me: – ‘Então v. é Fulano mesmo?’ Ficamos camaradas”;  “Com Oswald de Andrade e Bárbara, a mulher dele, fui à Praça 11, ver os pretos do morro. Oswald pediu-me o Angústia, que ainda não conhecia. Quarta-feira dei-lhe, na livraria do José Olympio, o volume que aqui havia. Quinta-feira tive na Avenida uma prova do exagero e da insinceridade dos paulistas. Oswald de Andrade afirmou-me que Angústia havia abafado a banca (uma frase da Nise) e que agora era um trabalho sério escrever no Brasil. Para não fazer coisa que se assemelhasse àquilo, não valia a pena escrever. Comparou o troço com obras grandes da Europa e dos Estados Unidos. Quis saber a minha maneira de trabalhar e perguntou quantos anos tinha gastado para fazer o livrinho. Enfim uma série de conversas que, se fossem levadas a sério, me encheriam de vaidade. Não foram nem encheram, graças a Deus, mas é possível que o romance não seja mal recebido em S. Paulo”.

 

[532] Ver em Cartas, 21-02-1937, p. 176: “Almocei ontem com o José Olympio, que me falou na possibilidade de se arranjar um emprego qualquer em S. Paulo. Creio que já lhe disse que o Oswald de Andrade havia insistido comigo para que fosse morar lá. Tudo muito vago”; 28-02-1937, p. 178: “Na livraria Zélins queria achar quem aceitasse um convite para vir a S. Paulo. Ninguém queria vir. Julgo que ninguém queria vir, porque ele me convidou com tanta insistência que fiquei desconfiado. Recusei as passagens gratuitas, hospedagem etc. Estava com remorso de abandonar o conto e uns vagos projetos de trabalho. José Américo e Otávio Tarquínio submeteram o caso a votação e acharam que eu devia fazer a viagem, que todos pensavam assim. Unanimidade na votação. Mais tarde, no café, João Alphonsus e Manuel Bandeira aconselharam-me a não perder uma boa ocasião de conhecer S. Paulo”.

 

[533] Em Cartas, de São Paulo, 28-02-1937, p. 178-180, para Ló, Graciliano fala da agenda intensa que ele e José Lins enfrentaram, visitando o Brás e o Anhangabaú, núcleos de imigrantes japoneses, russos, estonianos, finlandeses e muitos eventos: “Às dez horas de sexta-feira embarcamos. A minha cama, como você deve esperar, tinha o número 13. Não dormi bem não, mas dormi e aqui cheguei ontem pela manhã”; “Na estação encontrei uns cidadãos importantes, donos duma dessas companhias que distribuem artigos para a imprensa”; “Trepamos num automóvel, percorremos a cidade e fomos hospedados num hotel de criados fardados, com um luxo infeliz e dois elevadores. Estamos no quarto andar, apartamento 401”; ”Andei nisso incógnito, naturalmente. Apenas durante o almoço, no Automóvel Clube ou coisa parecida, um lugar onde se reúne a plutocracia paulista, ministros e o diabo, ouvi um português sapecar o meu nome perto de mim. Parece que ele falava em escritores. Feitas as apresentações, o homem se espantou de me encontrar ali e deu-me uns recados que trazia de Lisboa. Prometeu-me levar ao José Olympio uns livros que me mandavam uns romancistas portugueses”; “À noite tivemos um banquete. É verdade, um banquete medonho de mais de cento e cinquenta talheres. Naturalmente você está aí arrancando os cabelos ao pensar que apareci nesse banquete com a roupa com que desembarquei na Colônia. Explica-se: é que não tenho outra”; “Os únicos animais que usavam smoking eram os criados. Em todo o caso é bom você ter cuidado para as traças não acabarem de comer o meu smoking”; “Acordei hoje bem-disposto. O champagne e o whisky não me fizeram mal. Zélins está um Sardanapalo. Pediu os jornais pelo telefone e leu-os metido na banheira, num banho fumegante. Agora está espichado na cama, enrolado num roupão, conversando pelo arame com Oswald de Andrade, que promete estar aqui dentro de meia hora”; “Creio que vou escrever qualquer coisa para os rapazes que nos têm obsequiado mas eles só dão cinquenta mil-réis por artigo”. Em Cartas, ainda em São Paulo, 01-03-1937, p. 180-182, o relato de Graciliano indica que a agitação continua: “Oswald de Andrade chegou às oito horas e, feitos uns elogios a Usina, reconciliou-se com Zélins, de quem era inimigo terrível. Deu-me umas notícias de fazer dormir em pé. Depois que transmiti a ele um recado do Rubem, que foi convidado para trabalhar num jornal daqui, Oswald voltou a tratar da minha vinda para S. Paulo. Falou-me de Sérgio Milliet, que ainda não conheço e a que já me referi em uma das minhas cartas. Quando conheci Oswald no Rio, pelo carnaval, ele passou meia hora calado, depois me disse de supetão que Sérgio Milliet tinha feito ao Angústia umas referências de espantar. Ao avistar-me com Mário de Andrade aconteceu coisa parecida: o autor de Macunaíma não conhecia Angústia, mas Sérgio Milliet lhe havia dito do livro isto, aquilo etc. O Murilo e os outros rapazes da Revista já me tinham dito que esse homem dava ao livrinho um valor excessivo. Bem. Não pedi nada ao Oswald, mas, ao sair do Rio, ele me garantiu que encontraria meio de trazer-me para aqui. A promessa justificaria  a viagem que fiz, mas realmente não pensei nela quando embarquei. Várias pessoas torciam para que me mudasse para S. Paulo, entre elas o Prado, excelente rapaz de quem me tornei camarada, apesar de ele ser político e deputado perrepista. Eu ignorava que Sérgio Milliet fosse troço. Pois é chefe aí de qualquer coisa. Oswald me disse que tinha falado com ele a respeito dum lugar que me serve. Não sei de que se trata. A coisa depende de Sérgio Milliet e de outro que não conheço nem de nome, mas que é meu amigo na opinião de Oswald. Não creio muito nisso, que está me parecendo fácil demais, o que nunca me acontece, mas enfim talvez tenha sido bom eu ter perdido ontem o trem para o Rio. E também foi bom não ter ficado em casa pelo carnaval, procedimento que você censurou à toa. Bem. Vamos aos acontecimentos de ontem. Descemos com Oswald. No andar térreo encontramos os dois rapazes da companhia de publicidade e mais o Rubens do Amaral, jornalista velho, sujeito de valor. Eles tinham um programa complicado. Fomos à casa do Oswald buscar Bárbara. Entre outras coisas, lá vimos uns quadros maravilhosos. Saímos, passamos o dia na Rivière, almoçamos num restaurante à beira da represa, que é uma espécie de lago da Suíça”; “Jantamos em casa de Oswald. Um jantar maravilhoso que a Baiana, uma preta que nos foi apresentada na cozinha, preparou. Ele tem dois filhos: um rapaz, que é pintor [Oswald de Andrade filho, Nonê], e um pequeno de seis anos [Rudá de Andrade], da Pagu. Leitura dum capítulo do romance Marco Zero, do dono da casa. Parece que vai ser uma obra notável. Pela manhã ele nos tinha dado volumes do Serafim Ponte Grande, e na viagem Rubens do Amaral teimava em ler uns pedaços horríveis em voz alta, parando sempre nos lugares que Bárbara não podia ouvir. Parava sempre, não havia página que pudesse ser lida. Durante o jantar os dois rapazes se levantaram algumas vezes e telefonaram a um terceiro a respeito das nossas passagens de volta. Saímos. No hotel uma surpresa: só havia passagem para um. Acompanhamos Zélins à estação, depois entramos num cinema, onde vimos o Gordo e o Magro. E agora, oito da manhã, estou aqui no hotel, só, à espera do café e sem saber como empregar o dia”; “Em todo o caso preciso falar com Oswald de Andrade e ver se encontro o Sérgio Milliet, que chega hoje. Não sei, pode ser que esta viagem me seja útil. O número treze tem-me perseguido. O lugar onde me deitei no wagon era número treze, a cadeira onde me sentei no banquete número treze. No bilhete de volta, que já me chegou, parece que a cama também é treze. Estou ficando supersticioso. É um bom número, nunca me fez mal. Aqui ninguém me conhece, não encontrei o meu livro em parte nenhuma. Veja que sou um cidadão perfeitamente desconhecido do público”.

 

[534] Em carta do Rio, 03-03-1937, p. 183-185, Graciliano relata a Heloísa as últimas peripécias paulistanas e as sequências cariocas: “Julgo que, na minha carta de anteontem, fiquei ali por volta de nove horas, sentado na cama enorme do Hotel Terminus, à espera do café e do banho”; “Às dez horas os dois rapazes da linha de jornais me perguntaram por que não tinha aparecido cedo no escritório deles, como havíamos combinado na véspera. Ia desculpar-me, mas Oswald de Andrade, que estava com eles, me convidou para almoçar”; “Levei as suas cartas ao correio e fui à casa de Oswald, onde me recebeu uma datilógrafa bonita que tem uma mancha escura, quase preta, debaixo do olho esquerdo. Estava acabando de bater na máquina um capítulo de romance destinado à Revista”; “Fomos depois ao atelier de pintura do filho do Oswald [Nonê de Andrade], moço que veio da Europa, inteligente e simpático como o diabo”; “Depois do jantar, Bárbara me leu dois contos que fez para o concurso do Ministério da Educação. Tinha mandado três cópias ao Santa Rosa, mas como o Santa não tinha respondido, deu-me outras cópias para a comissão. Sérgio Milliet não havia voltado. Oswald queria que eu demorasse mais um dia para encontrar-me com ele, mas receei tornar-me importuno. Mais um dia de hotel e amolações seria demais para as pessoas que me receberam sem conhecer-me. O autor de Serafim Ponte Grande falaria com Sérgio Milliet a respeito dessa história de colocação, história que saiu da cabeça dele e em que não acredito muito, como lhe disse”; “Às nove horas achava-me no hall do hotel, com um livro aberto e com os olhos fechados. Despertaram-me os dois rapazes, que iam pagar as despesas. Minutos depois estávamos na estação. Insistiram para que eu colaborasse na empresa deles”; “Disseram-me que o representante deles aqui me procuraria a fim de combinar o pagamento e o número de artigos, artigos miúdos, que eles não querem trabalho extenso. Às dez horas deixei S. Paulo”. De volta ao Rio: “Fui à livraria, encontrei Zélins, Santa, Jardim. Fomos ao Ministério levar os álbuns de figuras dos dois últimos e os contos de Bárbara”; “No Ministério conheci Carlos Drummond de Andrade, um sujeito seco, duro como osso”; “Marchamos para a Cinelândia, entrei na Revista e entreguei ao Murilo o capítulo do romance do Oswald”; “Preciso ver se arrumo uma espécie de artigo para S. Paulo. Se de outra vez eu não puder escrever muito, não se espante: necessito trabalhar”. Dias depois, nos “relatórios semanais”, Graciliano escreve a Ló, Cartas, 08-03-1937, p. 186: “Pois, depois que voltei de S. Paulo, meti-me em casa. Não sei se lhe disse que Franchini me tinha pedido uns artigos para os jornais dele. Tinha me falado em seis artigos por mês, o que deve ser engano, pois os outros colaboradores apenas fazem dois. De qualquer forma estive esta semana arranjando os troços enquanto espero que o representante receba as instruções a que Franchini aludiu quando nos despedimos. Eles pagam pouco, julgo que cinquenta mil-réis por colaboração. Escrevi nestes últimos dias umas cinco tolices. Vou procurar o representante dos paulistas”. Em 14-03-1937, p. 188: “Fez ontem dois meses que lhe apareci no Méier e fomos pedir a Naná [esposa de José Lins do Rego] uma cama para dormir. E nestes dois meses tenho rolado daqui para ali, à toa, andei até em S. Paulo. Viagem inútil. Fui procurar os representantes da I.B.R., essa companhia de que falei. Encontrei lá uma italiana zangada e falando inglês, mas não achei nada referente às instruções sobre os artigos pedidos. Um dos homens, um doutor amável, foi correto: – ‘Não tem dúvida. Se os diretores pediram seis artigos por mês, o senhor pode trazê-los’. Não levei nada, por escrúpulo. Estou me acostumando às conversas dos paulistas. Em todo o caso vou escrevendo uns troços, que serão depois vendidos, a eles ou a outros”. Um ano antes, no tempo em que Graciliano era conduzido preso, a Gazeta de Notícias, em 10-03-1936, ed. 57, t. 5, já dava notícias laudatórias dessa recém-fundada empresa de São Paulo. Sob manchete e subtítulo “Elementos propulsores da nossa imprensa”, “Visita do chanceler Macedo Soares às instalações da I. B. R., empresa de intercâmbio jornalístico em S. Paulo”, afirmava-se: “Contando com corpo redacional dos mais brilhantes, constituído por técnicos de grande renome, a nova empresa tem, como era de se esperar, o melhor acolhimento no seio da imprensa”, nomeando os responsáveis: “Dirigem a I. B. R., aliás com todo o brilho, os srs. M. Franchini Netto e Oswaldo Quartim Barbosa”. Nesse período final dos anos de 1930, junto a outros colegas literatos, subscritos com o “copirraite da I. B. R.”, os textos de Graciliano foram publicados no Diário de Notícias, como, por exemplo, em 02-10-1938, ed. 3887, t. 13, “Cabeças”, recolhido postumamente em Viventes das Alagoas, p. 139. Vinculado a tal copirraite, Graciliano chegou a publicar trechos de Vidas secas, como em “Travessura” – “trecho de romance”, em 23-01-1938, ed. 3675, t. 17-18, mas a quase totalidade de sua produção para a I.B.R. são crônicas e resenhas recolhidas em Linhas tortas. Em 08-03-1937, ele dizia a Ló, Cartas, p. 187, que vislumbrava nas resenhas um filão para a venda de seus artigos: “Mas antes tentarei escrever cinquenta mil-réis de literatura. Falta assunto. Talvez faça alguma coisa sobre os livros novos do José Olympio. As memórias de Oliveira Lima renderam um escândalo medonho. Uns sujeitos desconhecidos têm atacado estupidamente o Caminho de pedras. Ainda ontem o Jornal trouxe uma coisa besta que tentava escangalhar esse livro, uma opinião integraloide como a de Sucupira”: ver em O Jornal, 07-03-1937, ed. 5438, t. 30, a resenha de L. de M. Campos que desanca o romance e a autora, Rachel de Queiroz.

 

[535] Cartas, São Paulo, 28-02-1937, p. 178.

 

[536] Cartas, 08-03-1937, p. 185-187.

 

[537] “A propósito da seca” foi publicado em O Observador Econômico e Financeiro, em edição datada de 02-1937, ed. 13, t. 89, texto coligido em Linhas tortas, p. 132. “O fator econômico no romance” foi publicado no Observador na edição datada de 04-1937, ed. 15, t. 45-47, coligido em Linhas tortas como “O fator econômico no romance brasileiro”, p. 253-259. Dias depois da carta de 08-03-1937, Graciliano disse a Ló na de 31-03-1937, Cartas, p. 194: “O troço que escrevi para o Observador em casa do Zélins era horrível, nunca pensei que me dessem por aquilo mais de vinte mil-réis. Deram cem, mas não supus que pedissem outro. Pois a semana passada o Olímpio Guilherme telefonou umas quatro vezes aqui para a pensão, procurando-me. Quando eu entrava em casa, recebia a notícia de que me haviam chamado ao telefone. Afinal falei pelo arame com o diretor da revista e dois dias depois aceitei a encomenda dum artigo sob medida: três páginas, três mil palavras a respeito da influência da economia no romance brasileiro”.

 

[538] Sem outros desdobramentos localizados, Graciliano publicou em 1942, um trecho da peça Ideias novas - 1º quadro, cenas de I a VII – que, portanto, presume-se, ficou inconclusa: Revista do Brasil, ano V, n. 49, 3a. fase, Rio de Janeiro, jul. 1942. Referida por Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar, ed. de 1986, p. 362. Texto coligido em Garranchos, p. 192-206.

 

[539] A previsão de Ló se confirmou: Graciliano obteve o 3º lugar na categoria intermediária. O Jornal do Brasil, em 05-03-1937, ed. 53, t. 13, anunciava cerca de oitenta inscritos, entre eles A terra dos meninos pelados, sob o pseudônimo “L. Silva”. Em carta a Ló, de 08-03-1937, Cartas, p. 186, a respeito de concursos e prêmios, desconfiado de que a Revista Acadêmica não lhe pagaria, Graciliano comentava: “Tudo isso é uma pilhéria desagradável, e foi um desastre Valdemar ter metido aquelas notas na Gazeta. E desastre maior haver noticiado a publicação dos meninos pelados. Como você sabe, essa história foi escrita para um concurso e mandada para o ministério com pseudônimo [“L. Silva”]. O nome do autor não podia ser descoberto antes do julgamento. É verdade que eu não tinha esperança de alcançar o prêmio, mas enfim havia oitenta concorrentes e eu era um deles. Agora, dois meses antes da apuração, a nota da Gazeta me exclui do concurso. O intuito de Valdemar não foi esse, é claro, mas se ele soubesse que a história tinha sido escrita para um concurso, não publicaria aquilo. Não desejo que se diga mais nada sobre os meninos pelados e sobre a conversa da Revista. É bom ele não pensar que estou ressentido (realmente não estou), mas qualquer publicidade me prejudica. Afinal o meu afastamento do concurso foi um bem: não me preocuparei com essas coisas incertas. E eu só tinha feito aquilo por insistência do Rodrigo. Acabou-se, não tem importância”. Graciliano não foi eliminado do concurso. Já em abril, o Correio da Manhã, 03-04-1937, ed. 13004, t. 2, anunciava o resultado para a categoria desenhos, pré-escolar: em 1º lugar: Santa Rosa, com O circo; 2º: Luiz Jardim, O tatu e o macaco; 3º: Paulo Werneck e Margarida Estrella, A carnaubeira. O resultado para as duas categorias seguintes só saiu em junho, como noticiou o Correio da Manhã, 26-06-1937, ed. 13073, t. 7: na série para crianças de oito a dez anos: 1º: Lúcia Miguel Pereira, [A] fada menina; 2º: Marques Rebelo e Arnaldo Tabayá, A casa das três rolinhas; 3º: Graciliano Ramos, A terra dos meninos pelados. Para a terceira categoria, crianças acima de dez anos: 1º: Luiz Jardim, Boi Aruá; 2º: Esther da Costa Lima, A grande aventura de Luiz e Eduardo; 3º: Érico Veríssimo, Aventuras de Tibicuera. Para a contextualização do concurso, ver: Aline Santos Costa, A Comissão Nacional de Literatura Infantil e a formação do público leitor infanto-juvenil no Governo Vargas (1936 – 1938). Além de várias representações em teatro, A terra dos meninos pelados foi encenado no período natalino de  2003 pela TV Globo num musical em quatro episódios com adaptação livre por Cláudio Lobato e Márcio Trigo, como indicam notas e anúncios, por exemplo, no Jornal do Brasil, de 16e17-05-1971, ed. 33, t. 60, de 01-06-2003, ed. 54, t. 56, e de 19-12-2003, ed. 255, t. 99.

 

[540] Cartas, 11-04-1937, p. 197-199.

 

[541] Dentre as primeiras publicações de Graciliano ao ser libertado, está “Dois dedos”, no Diário de Pernambuco, 17-01-1937, ed. 60, t. 15 e 16. O conto também foi publicado antes, em O Jornal, 10-01-1937, ed. 5391, t. 23, às vésperas de Graciliano sair da prisão. Mas o conto é do final de 1935, escrito para atender ao pedido de Benjamín de Garay – como se depreende das cartas em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos, p. 28, a de 13-12-1935: “Mas é o diabo, seu Garay. Eu nunca escrevi contos, e nem sei se me seria possível, enchendo-me de boa vontade, arranjar uma história decente”, e, logo após sua prisão, a carta de Heloísa para Garay, p. 33, de 07-03-1936: “Comunico-lhe que já pus no correio o conto que o senhor pediu para a revista El Hogar”. Mais de um ano depois, portanto, Graciliano pergunta a Garay sobre o “Dois dedos” nessa carta de 22-04-1937, p. 45-46 (posteriormente ele soube que o conto foi publicado em Mundo Argentino, como diz em Cartas, a Ló, 13-05-1937, p. 202-203). Em Memórias do cárcere, Parte I, 5, p. 59, Graciliano comenta o momento em que era conduzido preso, no trem para Recife, no início de março de 1936, quando pediu ao investigador Tavares, seu conhecido, que entregasse ao retornar um bilhete a Heloísa: “Benjamin Garay andava a traduzir-me um livro, a dizer que o traduzia [Feudo bárbaro], e forçava-me a gastar papel e tempo numa correspondência longa. Ultimamente me exigira colaboração para não sei que revista de Buenos Aires. Pensei num conto deixado na gaveta sapecado, cheio de abundantes minúcias exasperadoras, e, a lápis, em pedacinhos de papel arrancados da carteira, sugeri a minha mulher que tirasse duas cópias dele e mandasse uma a Garay”. Em Memórias do cárcere, Parte II, 12, p. 176, em maio de 1936, Ló, ao chegar ao Rio de Janeiro, quando o visita na prisão, confirma que enviou o conto para Garay. Graciliano rememora: “– Bem. Dá essa droga a José Lins, depois que ela aparecer em espanhol. Vamos ver se ele arranja publicação numa revista daqui. Sempre são alguns cobres” (depois da publicação na Argentina, houve no início de 1937, como se viu acima, mais de uma publicação do conto no Brasil). Em Memórias do cárcere, Parte IV, 2, p. 199, como já foi citado no período, julho de 1936, depois da Colônia Correcional, Graciliano fala sobre o dinheiro pago pelo conto, que Ló recebera de Garay: 25 pesos, 100 mil réis. O Catálogo de manuscritos do AGR, p. 28, registra o manuscrito “Dois dedos”, datado de 23-11-1935.

 

[542] Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 45-46. Ver reprodução fac-similar, p. 134-135, da publicação de “El reloj del hospital” em La Prensa, Buenos Aires, 24-10-1937, com a nota a respeito da ilustração: “A ilustração de Miguel Petrone para ‘O relógio do hospital’ agradou tanto a Graciliano Ramos que lhe foi oferecida”. Além disso, Pedro Moacir Maia reproduz outra publicação, “A prisão de J. Carmo Gomes”, p. 136 (fac-símile), e registra várias menções a tratativas de tradução, como de “Um pobre-diabo”, p. 67, e principalmente dos capítulos de Vidas secas.

 

[543] Diário de Notícias em 31-01-1937, ed. 3104, t. 17.

 

[544] Diário de Notícias, 25-04-1937, ed. 3174, t. 17 e 18.

 

[545] “Norte e Sul”, coligida em Linhas tortas, p. 135-136, retoma como assunto, do mesmo modo que em “O fator econômico no romance” e em “Porão”, a essência de sua obra, que já se manifestava desde Caetés, como viu Antonio Candido em Ficção e confissão, p. 17: “Em Graciliano, já neste livro de estreia (não por acaso escrito na primeira pessoa), cenas e personagens formam uma constelação estreitamente dependente do narrador; a vida externa, os fatos, os outros se definem em função do ‘pensamento dominante’ – o amor por Luísa”. Ver em nota acima a carta a Haroldo Bruno.

 

[546] Em História concisa da literatura brasileira, p. 471, Alfredo Bosi avalia a obra de Otávio de Faria: “O drama das consciências atribuladas, divididas entre o pecado e o ideal de santidade, daria matéria para vigorosos romances intimistas, caso o escritor fosse capaz daquela contensão estilística de um Mauriac ou de um Julien Green, narradores que lhe são afins. Mas há uma tal dispersão nos seus últimos livros que os conflitos morais não logram caracterizar-se e perdem-se na enxurrada de diálogos frouxos e anotações psicológicas banais. Quem apreciou certos momentos felizes naquela história de meninos angustiados pelo sexo, que é Mundos mortos, e leu com admiração as últimas páginas de Caminhos da vida, não  deixará de lamentar a queda formal que se deu nas obras seguintes onde tão descompassadas andam intenção e fatura. E mais deplora ainda a carência de equilíbrio e de senso construtivo quando sente que as ambições do autor, se realizadas, o situariam num lugar privilegiado do romance contemporâneo”.

 

[547] Luís Bueno aborda minuciosamente a polêmica, apontando sua divisão como marca estruturante da época: Uma história do romance de 30, especialmente p. 401-439 (“Saindo da polarização”) e p. 619-640 (“Diante do outro: Angústia”).  A resposta de Otávio de Faria, “O defunto se levanta...” foi publicada em O Jornal, 30-05-1937, ed. 5508, t. 25 e 26. Ver também para um apanhado detalhado do contexto e discussão de seus valores, Manoel Freire Rodrigues; Samara Inácio Silva, “O desvanecimento dos romances intimistas dos anos 30”.

 

[548] Ver Catálogo de manuscritos do AGR, p. 21-25: “Baleia”-04-05-1937 [9], “Mudança”-16-07-1937 [1], “Sinha Victoria”-18-06-1937 [4], “Cadeia”-21-06-1937 [3], “O menino mais novo”-26-06-1937 [5], “O menino mais velho”-08-07-1937 [6], “Inverno”-14-07-1937 [7], “Festa”-22-07-1937 [8], “Contas”-29-07-1937 [10], “Fabiano”-22-08-1937 [2], “O mundo coberto de pennas”-27-08-1937 [12], “O soldado amarello”-06-09-1937 [11], “Fuga”-06-10-1937 [13]. A numeração entre colchetes indica a ordem em que os capítulos foram publicados no livro.

 

[549] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 25 e 124.

 

[550] Cartas, 07-05-1937, p. 200-202. Ao falar em “quarta história” (caso esteja se referindo ao conjunto do futuro Vidas secas) a carta de Graciliano deixa ver que “Baleia” pode não ter sido a primeira, ainda que tenha sido o primeiro manuscrito passado a limpo e publicado.

 

[551] Crônica publicada em Linhas tortas, p. 168-169. Trata-se do rio Paraíba. Graciliano fala sobre a peça teatral de Carlos Lacerda, mas em cartaz com a autoria incógnita devido a perseguições e censura – agradeço a Telê Ancona Lopez a informação, por ela obtida através de Moacir Werneck de Castro em correspondência pessoal, Rio, 3 de maio 89. O Catálogo de manuscritos do AGR, p. 142, registra publicação da crônica em O Popular, 17-09-1937.

 

[552] Cartas, 13-05-1937, p. 202-203.

 

[553] O Jornal, 23-05-1937, ed. 5502, t. 25-26.

 

[554] Diário de Notícias, 14-08-1938, ed. 3846, t. 15.

 

[555] Como Graciliano revelou a Garay: “O meu plano foi este, meu caro Garay: fiz uma série de contos com os mesmos personagens. Nada de originalidade, questão de pecúnia, somente: os contos poderão ser publicados em jornal, o que não aconteceria se eu lhe enviasse capítulos de romance. Cada história começa e acaba, naturalmente, sem prejuízo para o leitor, mas todos juntos formam um romance, que não edito agora porque o público tem coisas muito mais sérias em que pensar e não perde tempo com literatura” – carta de 08-12-1937, em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 67.

 

[556] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 128-129, acrescenta que o pai usava também outras expressões sertanejas: “Não se meta a cavalo de cão. Veja só o diabo para que tece! Calada, surucucu!” E lembra: “Para que o velho Graça possa dormir à tarde, Heloísa leva as crianças à praça do Largo do Machado”.

 

[557] Clara Ramos, Cadeia, p. 169-170.

 

[558] Suplemento Literário, O Estado de São Paulo, 22-10-1972, ed. 795, t. 1.

 

[559] Dênis de Moraes, em O velho Graça, 2012, p. 165, indica dados diferentes: “No segundo semestre de 1938, por interferência de amigos como Prudente de Morais, neto, Graciliano foi nomeado para exercer temporariamente a função de assistente-técnico na secretaria-geral da Universidade do Distrito Federal (UDF). Com validade de 6 de outubro a 31 de dezembro, o contrato assegurava remuneração mensal de 900 mil-réis”. Por outro lado, o IEB registra o documento de sua nomeação com data de 05-11-1938:

< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> carreira pública> secretaria geral de educação e cultura> itens 1 e 2 (para item 2, 03-11-1938, Codigo=405521):

 <  http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=405517 >.

 

[560] Carta a Octavio Dias Leite, publicada em “Homenagem a Graciliano Ramos”, Margens. Revista de Cultura, n. 3, p. 40-41.

 

[561] Pode-se notar o título “Baleia”, rasurado, no fac-símile do datiloscrito reproduzido por Pedro M. Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos, p. 140. Ver:

< https://blog.bbm.usp.br/2016/o-mundo-coberto-de-penas/ >.

 

[562] O Jornal, em 06-02-1938, ed. 5721, t. 25.

 

[563] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p.129. Segundo Dênis de Moraes, Schmidt sugeriu “Vidas amargas” e Daniel Pereira, irmão de José Olympio, “Vidas secas” – O velho Graça, 2012, p. 161.

 

[564] No Boletim de Ariel, 04-1938, ed. 7, t. 23, a obra foi anunciada juntamente com a 2ª edição de São Bernardo. Em recorte no AGR-IEB, com identificação manuscrita de Graciliano, a nota de “Livros novos” de O Estado da Bahia, 07-04-1938, diz: “Este autor estreou, nas letras nacionais, com o romance Caetés, há exatamente 5 anos. Era um livro seco, um livro sem frases. Inaugurava um período novo na literatura brasileira. O sofrimento dos personagens aparecia em bruto, de maneira quase brutal. Depois, em 1934, veio o São Bernardo, um livro que escapava a qualquer qualificação, porque o drama sentimental de Paulo Honório, explodindo em súbitas brutalidades, simplesmente atordoava o leitor diante da força de humanidade do romancista, que o prendia da primeira à última página. Depois veio Angústia, em 1936... Deste livro tem-se dito muita coisa, inclusive que ele é a obra máxima de Graciliano Ramos. Um livro que leva a análise psicológica do personagem às últimas consequências, torturando-o, fechando-o num círculo de dolorosa angústia, que contagia o leitor. Livro denso, amargo, triste, esse livro deixou para trás, no gênero, até mesmo Machado de Assis, entretanto o maior de nossos romancistas. E houve mesmo quem afirmasse que esse Angústia era o mais humano dos romances nacionais”. “Depois de dois  anos de silêncio, Graciliano volta ao público com o seu romance Vidas secas, agora editado pela Livraria José Olympio. O romance conta a vida de uma pobre família de ‘flagelados’, um homem, uma mulher, dois meninos e uma cachorrinha, que procuram viver o mais humildemente possível na terra calcinada do nordeste”. “Livro interior, apesar de num ambiente regional, este Vidas secas abre caminho para uma nova forma de romance, que vem substituir, com vantagem, o romance regional – o romance de análise psicológica das populações nordestinas”.

 

[565] Vidas secas recebeu, junto a outras obras latino-americanas, o prêmio da Fundação William Faulkner, como obra representativa da literatura brasileira contemporânea. Ver: Leitura, 02-1963, ed. 68, t. 4; Correio da Manhã, 02-03-1963, ed. 21444, t. 3: “Graciliano está entre os 14 premiados da Fundação Faulkner”.

 

[566] O filme foi premiado e teve grande sucesso, tanto no Brasil  como no exterior, com destaque para o Festival de Cannes. Ver, a respeito das limitações do filme: Neusa Pinsard Caccese, "Vida secas: romance e fita", Sônia Brayner (org.), Graciliano Ramos, (Fortuna Crítica, 2), p. 158-164.

 

[567] Como informa Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 142.

 

[568] Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras, p. 190

 

[569] Alexande Eulálio, “A morte de Graciliano Ramos”, Os brilhos todos, p. 33-36.

 

[570] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 91-92.

 

[571] Correio da Manhã, 29-09-1938, ed. 13464, t. 2.

 

[572] A carta é cheia de respeitosa ironia – o que agrava o deboche e lhe dá um teor acanalhado que a torna positivamente inviável. Ver trechos e comentários em Dênis de Morais, O velho Graça, 2012, p. 172-173. A carta esteve disponível na internet em reprodução fac-similar. Ver reprodução em Cláudio Roberto da Silva, Entre literatura, memória e história: a escrita de si em Getúlio Vargas e em Graciliano Ramos, anexo. Traz o seguinte texto arrascunhado:

Rio – 29 – agosto – 1938

Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas:

Peço permissão a V. Excia. para entretê-lo com alguns fatos de pequena importância, referentes a um indivíduo. Desculpe-me V. Excia. importuná-los com eles: são insignificantes, mas a verdade é que deviam ter sido narrados há quase dois anos. Resumo-os em poucas linhas.

Em princípio de 1936 eu ocupava um cargo na administração de Alagoas. Creio que não servi direito: por circunstâncias alheias à minha vontade, fui remetido para o Rio de maneira bastante desagradável. Percorri vários lugares estranhos e conheci de perto vagabundos, malandros, operários, soldados, jornalistas, médicos, engenheiros e professores da universidade. Só não conheci o delegado de polícia, porque se esqueceram de interrogar-me. Depois de onze meses abriram-me as grades, em silêncio, e nunca mais me incomodaram. Donde concluo que a minha presença aqui não constituía perigo.

Mas eu vivia em Maceió, era lá que trabalhava, embora o meu trabalho tenha sido julgado subversivo. Quando me trouxeram para o Rio, imaginei muitas coisas: que me conservassem detido e arranjassem um processo, que me devolvessem ao lugar donde me tiraram, que me dessem meio de viver em outra parte. Está claro que a comissão incumbida de malhar o extremismo não era obrigada a oferecer-me colocação; retirou-me, porém, o ofício que eu tinha, e até hoje ignoro por que se deu semelhante desastre.                                                                                                                                                                Adotei, em falta de melhor, uma profissão horrível: esta de escrever, difícil para um sujeito que em 1930 era prefeito na roça. Se não me houvesse resignado a ela, provavelmente não estaria agora redigindo estas impertinências, que um negócio de livraria me sugeriu a semana passada. O meu editor referiu-me com entusiasmo a publicação de cinquenta miheiros dos discursos de V. Excia. – e isto me trouxe a ideia esquisita de que V. Excia. havia descido um pouco. Apesar de vivermos enormemente afastados, dentro de alguns dias nos encontraremos numa vitrine, representados por discursos políticos e por três ou quatro romances. Essa vizinhança me induz a apoquentá-lo, coisa que não teria sido possível antes de 1930.

V. Excia. é um escritor. Mas, embora lance os seus livros com uma tiragem que nos faz inveja, não vai ganhar muito e sabe que neste país a literatura não rende. Andaria tudo bem se tivéssemos exportação, pois o mercado interno é lastimável. Um bluff a exportação. Ultimamente uma companhia americana resolveu traduzir para o espanhol alguns romances brasileiros. Com certeza apareceram dificuldades: as obras escolhidas encalharam. E é provável que circulem na América do Sul os livros da Academia. V. Excia. conhece os livros da Academia? Realmente o sr. conde Affonso Celso entregou a alma a Deus, mas podemos estar certos de que o substituto dele não será melhor. Enfim não possuímos literatura, o que temos é diletantismo, um diletantismo produtor de coisas ordinariamente fracas.

Mas estou descambando em generalidades, e no começo desta carta pedi licença para tratar dum caso pessoal. Como disse a V. Excia., a comissão repressora dum dos extremismos, do primeiro, achou inconveniente que eu permanecesse em Alagoas, trouxe-me para o Rio e concedeu-me hospedagem durante onze meses. Sem motivo, suprimiu-me a hospedagem, o que me causou transtorno considerável. Agora é necessário que eu trabalhe, não apenas em livros, mas em coisas menos aéreas. Ou que o Estado me remeta ao ponto donde me afastou, porque enfim não tive intenção de mudar-me nem de ser literato.

Como declarei a V. Excia., ignoro as razões por que me tornei indesejável na minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei vinte mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas cinquenta mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem.

Sinto muito, Sr. Presidente, haver-lhe roubado alguns minutos. Mas a culpa é de V. Excia., que vai editar o seu livro numa casa onde trabalham sujeitos completamente desconhecidos. Pelo êxito dele, que julgo certo, aqui lhe trago as minhas felicitações.

Caso V. Excia. queira ocupar-se com o assunto desta carta, peço-lhe que se entenda com o meu amigo Mauro de Freitas, uma das poucas pessoas decentes que aqui tenho conhecido.

Apresento-lhe os meus respeitos, senhor presidente, e confesso-me admirador de V. Excia.

 

[573] Jornal do Commercio, 29-09-1938, ed. 307, t. 5.

 

[574] Jornal do Brasil, 20-04-1980, ed. 12, t. 43. 

 

[575] Alzira Vargas, Getúlio Vargas, meu pai, p. 175.

 

[576] Paulo Mercadante, Graciliano Ramos: o manifesto do trágico, p. 94-99, episódio referido pelo autor no documentário de Sylvio Back, O universo Graciliano, em que comenta que Getúlio, “sozinho”, poderia estar acompanhado de seguranças à distância. Ver também Antônio C. Villaça, Saltimbancos da Porciúncula, p. 40. Para uma análise da cooptação por Getúlio Vargas dos intelectuais no Estado Novo, ver Adriana Coelho Florent, Graciliano Ramos em seu tempo, especialmente o item  “A função do escritor durante o Estado Novo e o papel do ministério de Capanema”, p.  109-113.

 

[577] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 142-143.

 

[578] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 143-145.

 

[579] Vamos Ler!,  23-05-1940, ed. 199, t. 3 e 58; Linhas tortas, p. 206-207.

 

[580] Linhas tortas: “Prêmios”, p. 197-199, “Um livro inédito”, p. 152-153, “Conversa de bastidores”, p. 246-249. Graciliano deixou um manuscrito, datado de 05-01-1941, repetindo e aprofundando a análise crítica de “Um livro inédito”, como indica sua publicação na revista Teresa, n. 2, USP, 2001, p. 82-85, coligida em Garranchos, p. 179-184 (a figuração que Graciliano faz nesse texto parece mais adequada à personagem masculina “Oronte” de O misantropo, de Molière, mas a transcrição do manuscrito realizada pela edição de Teresa, repetida em Garranchos, indica “Orante”, personagem feminina de Les fâcheux, conforme nota de ambas as publicações).

 

[581] O Tico-Tico – jornal das crianças, 27-12-1939, ed. 1786, t. 29.

 

[582] Suplemento Juvenil, 24-05-1941, ed. 1015, t. 5.

 

[583] Pequena História da República, em  Alexandre e outros heróis, p. 155-207.

 

[584] Cultura Política, 08-1944, ed. 43, t. 226.

 

[585] Linhas tortas, “Booker Washington”, p. 211-214. O Catálogo de manuscritos do AGR, p. 150, registra o manuscrito datado de 2 nov. 1940.

 

[586] A carta encontra-se disponível no Arquivo Anísio Teixeira, FGV CPDOC, Programa de Arquivos Pessoais, pasta AT c 1938 08 04:

< https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=AT_Corresp&hf=www18.fgv.br&pagfis=5621 >.

 

[587] Ver Anísio Teixeira em FGV CPDOC ,“guia de fundos”: 

< https://www18.fgv.br/gci/cpdocguia/detalhesfundo.aspx?sigla=AT > .

 

[588] Ver Haroldo Ceravolo Sereza, “Da revista ao livro: Brandão entre o mar e o amor (1941)”.

 

[589] IEB – Arquivo Graciliano Ramos – texto dirigido à Célula Theodore Dreiser, do PCB:

< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos>  literatura> textos inéditos> discursos> página 4, item 40:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229149 >, coletado em Garranchos, p. 277.

 

[590] Como indicado acima, ver: Adriana Coelho Florent, Graciliano Ramos em seu tempo, item “A função do escritor durante o Estado Novo e o papel do ministério de Capanema”, p.  109-113.

 

[591] Título sugerido por Jorge Amado, como indica Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 35. Alguns dos textos da coletânea têm outra origem: por exemplo, a primeira publicação da coletânea, “Carnaval 1910”, vem de O Cruzeiro, 14-02-1942. Alguns textos não estão em Viventes das Alagoas, apesar de publicados em Cultura Política: “A viúva Lacerda”, 07-1944, ed. 42, t. 77-178, “Booker Washington”, 08-1944, ed. 43, t. 226-228 – coligidos em Linhas tortas, respectivamente p. 191-193 e p. 211-214. Em Cultura Política, nas edições de 1941 até meados de 1942, as crônicas vinham sem título e muitas eram introduzidas por uma sinopse que procurava amoldar o conteúdo ao proselitismo ideológico do Estado Novo: ver acima nota sobre “Bagunça”. A crônica “Uma visita inconveniente”, Cultura Política, 12-1942, ed. 22, t. 165-166, não foi publicada nem em Viventes das Alagoas, nem em Linhas tortas – como indicam observações a respeito em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 171, e em Maria Lúcia Palma Gama, “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 35, p. 204. A crônica foi publicada na revista Travessia, em 1983, v. 4, n. 6, p. 102-104, e coligida em Garranchos, p. 221-225.

 

[592] Anuário Brasileiro de Literatura, 1943, ed. 0, t. 15.

 

[593] Diretrizes, 29-10-1942, ed. 122, t. 13, 14, 16.

 

[594] O Jornal, 27-10-1942, ed. 7173, t. 2.

 

[595] A Manhã, 27-10-1942, ed. 375, t. 2.

 

[596] A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 119-120.

 

[597] Diário de Notícias, 15-04-1962, ed. 12091, t. 38, 41.

 

[598] Diretrizes, 05-11-1942, ed. 123, t. 17.

 

[599] A Manhã, 01-08-1948, ed. 93, t. 8.

 

[600] Diário de Notícias, 21-08-1938, ed. 3852, t. 14, coligido em Linhas tortas, p. 178-179.

 

[601] Careta, 22-01-1944, ed. 1856, t. 18.

 

[602] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 205.

 

[603] O Jornal, 13-02-1944, ed. 7899, t. 13; Diário de Notícias, 13-02-1944, ed. 6563, t. 30.

 

[604] Dom Casmurro, 31-05-1941, ed. 202 t. 1; em Linhas tortas, p. 218-221.  Datado de 02-02-1944, “A imprensa francesa clandestina”, Linhas tortas p. 243-245.

 

[605] Texto divulgado por Dênis de Moraes em anexo a O velho Graça, 2012a partir da publicação em Renovação, maio-junho 1944.

 

[606] Mestre Graciliano, p. 175-177, reproduz uma carta de Graciliano à sua nora Natália, esposa de Júnio. Diz Clara Ramos que o pai considerou a moça muito inteligente e com traços de literata. A carta de 19-11-1944 conta uma engraçada história sobre a negociação do preço da reforma de um divã de sua casa. E deteve-se, sempre jocoso, sobre negociações de tradução de suas obras: “Em maio do ano passado certo Committee on Cultural Relations with Latin America, de New Haven (no outro mundo), me pediu permissão para traduzir Angústia em língua de branco. Mandei a licença, embora não confiasse na história, por causa das numerosas safadezas que me têm vindo de Buenos Aires. Em março deste ano, novo pedido do mesmo Committee, agora assinado por um gringo da Califórnia e relativo a S. Bernardo. Nem dei resposta. Pois agora me chega uma carta de editora rica de Nova Iorque oferecendo-me contrato vantajoso sobre Angústia e aceitando a tradução do homem de New Haven. Como a proposta vem cheia de salamaleques referentes aos outros romances meus, passados, presentes e futuros, estou fazendo projetos imensos para quando me vierem os dólares e tencionando mudar inteiramente a vida. Em primeiro lugar, comprarei vários divãs, pois o que o judeu reformou é chinfrim e não convém a um artista lido na América do Norte. Em seguida esquecerei a minha língua: entrarei a falar inglês, como Jararaca e Ratinho. E, cidadão importante, deixarei de trabalhar. Viveremos todos numa grande casa enfeitada de penduricalhos”. Mais à frente, p. 179, Clara Ramos cita um depoimento do pai: “A última edição de minhas obras rendeu 50 contos. Da edição americana de Angústia, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco”. A história da tradução norte-americana e do mencionado contrato milionário foi recomposta, a partir de pesquisa do acervo familiar, por Eliza Mitiyo Morinaka, Tradução como política : escritores e tradutores em tempos de guerra (1943-1947). Em uma das passagens, p. 244, a autora relata: “O contrato de cinco longas páginas foi assinado por Graciliano Ramos em 16 de novembro de 1944. Uma das cláusulas previa os direitos para a publicação de dois outros romances, contanto que os manuscritos fossem aceitos pela Alfred Knopf. Porém, a editora Knopf não se interessou mais pelos romances do escritor”. Ver resposta de Graciliano no Catálogo eletrônico do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros da USP – Universidade de São Paulo: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 9> organização original da correspondência> correspondência ativa> página 9: itens 81 e 82. A ficha apresenta descrição do conteúdo, em carta a Alfred Abraham Knopf, de 28-10-1944: “Graciliano responde a uma carta de 17 de outubro de 1944, que trata das condições estabelecidas pela editora para a publicação do romance Angústia em inglês. Concordando com a proposta, declara-se à espera do contrato. Agradece os elogios ao romance e o interesse por editar outros livros seus. Em sua gratidão, destaca a seriedade do editor Knopf, preocupado em escolher bem o tradutor, a pessoa a quem confiar, nas palavras de Graciliano, ‘o horrível trabalho de passar obras de arte de uma língua para outra’. E o escritor se refere ao ‘acaso feliz’ que lhe permitiu, ‘ignorando a Norte-América’, haver aceitado o oferecimento de Kaplan, tradutor referendado pela editora. Quanto a novas traduções, Graciliano se refere a S. Bernardo e Vidas secas, chamando-as ‘duas histórias talvez legíveis’. Anuncia que enviará, quando estiverem prontos, um volume de contos e outro de memórias (Insônia saiu em 1947; Infância, em 1945) e que talvez ‘um deles não seja inteiramente ruim e desperte aí algum interesse’ ”:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229268 >.

 

[607] Informações sobre o escritor, poeta e tradutor Serafín José García, uruguaio, assim como reproduções em ebook de sua obra, podem ser obtidas no site de edição sofisticada: < https://serafin.uy/ >. Ver a partir daí trecho de sua tradução de Angústia, publicado em Marcha, 04-08-1944, n. 244, p. 14-15, com uma apresentação do tradutor, que compara Graciliano a Dostoiévski: “Do atormentado quanto genial romancista russo tem o autor de Angústia a segurança introspectiva e o agudo poder de captação psicológica”: < https://anaforas.fic.edu.uy/jspui/handle/123456789/75467 >. O Catálogo eletrônico do IEB registra no AGR três cartas de Serafín a Graciliano”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 7> contato com Serafín J. García: de 03-08-1943: “Serafín García fala sobre o interesse do Editorial Rueda em publicar Angústia em Buenos Aires, e pede permissão para enviar os acordos relativos aos direitos da tradução e da edição à Argentina”; de 25-10-1945: “explica o atraso na entrega de cartas e de um exemplar de Angústia, devido à censura no país e a atrasos administrativos, e agradece pelo exemplar de Infância enviado por Graciliano”; de 16-12-1945: “comenta um mal-entendido quanto aos direitos de autor da edição uruguaia de Angústia”:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229743 >, e códigos 229744, 229746. O Catálogo eletrônico do IEB registra também as cartas relacionadas, de Graciliano a Serafín: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 9> organização original da correspondência> correspondência ativa> página 9: itens 85 a 89, com descrições minuciosas nas fichas, como por exemplo, no item 85, em carta de 19-07-1945: “Graciliano responde a uma carta de 20 de junho de 1945, que lhe serviu para entender várias confusões, decorrentes de se terem extraviado algumas enviadas por Serafín. Recebera apenas uma, das mãos do irmão do amigo, na livraria José Olympio. Confessando embora relaxar às vezes a correspondência por causa ‘das amolações e da escassez do tempo’, explica que não era este o caso, e sim arte do ‘diabo’ a perturbar-lhes as comunicações. Em seu estilo autoirônico singular, aponta esse desencontro involuntário entre amigos como sinal das difíceis relações de então, entre os países da América do Sul. Como exemplo, narra suas peripécias para localizar uma ‘mulher invisível’ que lhe deixara um recado na livraria, D. Cleo, portadora de carta de Buenos Aires. Viajava por Minas e São Paulo e sempre se desencontrava com Graciliano quando ia à José Olympio. Só depois de seis meses ela lhe deixou a encomenda: carta de Jorge Amado, oitenta pesos argentinos e o pedido de uma colaboração para a Nueva Gaceta, feito por Rodolfo Ghioldi. Assim, Graciliano entende que um engano de endereços determinou a demora de Burbujas [livro de contos de Serafín, 1945] do Uruguai para o Rio. Agradece ao amigo a mediação com os editores da Independencia [editora de Angústia, 1944] e a proposta de publicar seus outros livros, depois da ‘magnífica’ edição de Angústia. Manifesta sua expectativa quanto à remessa de En carne viva e Asfalto [obras de Serafín] e explica que tardaria a remeter Vidas secas, esgotado até nos sebos, com reedições previstas apenas para o ano seguinte, dada a ‘ditadura da tipografia’. Promete então ‘as impressões da infância’, cujas quartas provas já haviam sido revistas. A um pedido para representar o Brasil numa antologia de contos americanos, nega ser contista, mas se dispõe a selecionar ‘uns casos muito vagabundos’ que, segundo ironiza, chegariam ao Uruguai pelo correio depois de publicado o livro”. Carta de 19-07-1945 em:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229271 > e carta de 12-11-1945, código 229272, carta de 13-10-1945, 229273. Ver também “Con Graciliano Ramos”, em que o tradutor fala do encontro com ele no Rio de Janeiro – depoimento publicado na coletânea de narrativas de seus contatos com vários escritores: Serafín J. García, Primeros encuentros, p. 26-30.

 

[608] Ver contextualização em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 118. Em “Uma tradução frustrada”, p. 113-119, Pedro Moacir Maia faz um relato detalhado dos quiproquós, em torno de 1938, com a tradução que teria sido a primeira da obra de Graciliano: S. Bernardo, com o título Feudo bárbaro (título de que Graciliano não gostou. Garay argumentou que em espanhol “S. Bernardo” não teria sentido). Mas o projeto não foi adiante. A tradução estava sendo realizada por Raúl Navarro (que chegou a produzir cinquenta páginas). Foi a ele que Graciliano escreveu em novembro de 1937, p. 123, em resposta a seu pedido de dados biográficos para a publicação de dois contos (em antologia, segundo Pedro M. Maia, p. 115, “Dois dedos” e “O relógio do hospital”, que já tinham sido publicados em jornais argentinos): “Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidadão. Depois que redigi esses infames relatórios, os jornais e o Governo resolveram não me deixar em paz. Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital, coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis – Caetés, publicado em 1933, S. Bernardo, em 1934, e Angústia, em 1936. Evidentemente, isso não dá uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances”.

 

[609] Em Templo Cultural Delfos, >“Graciliano Ramos”, < https://www.elfikurten.com.br/ >, Elfi Kürten Fenske apresenta traduções das obras de Graciliano em listagem detalhada, que pode ser somada à relação incompleta publicada, por exemplo, na edição comemorativa dos 80 anos de Caetés. Elizabeth Ramos e Eliza Mitiyo Morinaka apresentam em seus estudos (ver bibliografia) questões sobre tradução com abordagem específica de aspectos da obra de Graciliano e tabelas com identificação de seus tradutores em diversos países. Com complementação e correção parciais desses registros, segue uma listagem das traduções (afora as edições em Portugal), em que Vidas secas aparece com destaque, traduzido em dezessete idiomas:

 

Alemão

Nach eden ist es weit [Vidas secas]. Tradução Wilhelm Keller. Tübingen-Basel: Horst Erdmann, 1965.

São Bernardo. Tradução Wilhelm Keller. Frankfurt: Fischer Bucherei, 1965.

Angst [Angústia]. Tradução Willy Keller. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1978.

Karges Leben [Vidas secas]. Tradução Willy Keller. Zurique: TA-Media, AG, 1981.

Raimundo im Land Tatipirún [A terra dos meninos pelados].Trad. Inês Koebel. Zurique: Nagel & Kimche, 1996.

Kindheit [Infância]. Tradução Inés Koebel. Editora Wagenbach, 2013.

 

Búlgaro

Сух живот [Cyx Knbot, Vidas secas]. Trad. Rumen Stoyanov. Sófia: Narodna Kultura, 1969.

 

Catalão

Vides seques. Trad. Josep Domènech Ponsatí. Martorell: Adesiara Editorial, 2011.

 

Dinamarquês

Tørken [Vidas secas]. Trad. Tine Lykke Prado.Copenhague: Mellemfolkeligt Samvirke-ong, 1986.

 

Espanhol

Angustia. Traducción, prólogo y notas de Serafín J. García. Montevidéu: Independencia, 1944.

Infancia. Trad. Bernardo Kordon. Buenos Aires: Siglo Veinte, 1948.

Vidas secas. Trad. Bernardo Kordon. Buenos Aires: Editorial Futuro, 1947.

Vidas secas. Trad. Bernardo Kordon. Buenos Aires: Editora Capricornio, 1958.

Vidas secas. Havana: Casa de las Américas, 1964.

Vidas secas. Montevidéu: Nuestra América, 1970.

Vidas secas. Trad. José Luis Díaz de Liaño. Madri: Espasa-Calpe, 1974.

Angustia. Trad. Cristina Peri Rossi. Madri: Ediciones Alfaguara, 1978.

San Bernardo. Trad. Saúl Ibargoyen Islas. Caracas: Monte Avila Editores, 1980.

Vidas secas. Trad. Florencia Garramuño. Buenos Aires: Corregidor, 2001.

Vidas secas. Prólogo Marcos Antonio de Moraes – trad. Pablo Rocca. Montevidéu: Ediciones de la Banda Oriental, 2004.

Angustia. Trad. Cristina Peri Rossi. México: Páramo Ediciones, 2008.

Infancia. Trad. Florencia Garramuño. Buenos Aires, Rosario: Beatriz Viterbo Editora, 2010.

 

Esperanto

Vivoj Sekaj [Vidas secas]. El la portugala tradukis Leopoldo H. Knoedt. Fonto (Gersi Alfredo Bays), Chapecó, SC — Brazilo, 1997.

 

Finlandês

São Bernardo. Trad. Maija Westerlund. Helsinque, Porvoo: WSOY - Werner Söderström Osakeyhtiö, 1961.

 

Francês

Enfance [Infância]. Tradução G. Gougenheim. Paris: Gallimard, 1956.

Sécheresse [Vidas Secas]. Tradução Marie-Claude Roussel. Paris: Gallimard, 1964.

São Bernardo. Tradução Geneviève Leibrich. Paris: Gallimard, 1986.

Mémoires de Prison [Memórias do Cárcere]. Tradução Jorge Coli e Antoine Sell. Paris: Gallimard, 1988.

Angoisse [Angústia]. Tradução Nicole Biros e Geneviève Leibrich. Paris: Gallimard, 1992.

Insomnie [Insônia]. Tradução Michel Laban. Paris: Gallimard, 1998.

Vies arides [Vidas secas]. Tradução Mathieu Dosse. Paris: Editions Chandeigne, 2014.

 

Húngaro

Emberfarkas [São Bernardo]. Trad. Benyhe János, Hargitai György. Budapeste: Európa Könyvkiadó, 1962.

Aszály [Vidas Secas]. Tradução Benyhe János e Hargitai György. Budapeste: Európa Könyvkiadó, 1967.

 

Inglês

Anguish [Angústia]. Trad. L. C. Kaplan. Nova Iorque: A. A. Knopf, 1946.

Barren Lives [Vidas secas]. Trad.Ralph Edward Dimmick. Austin: University of Texas Press, 1965.

Anguish [Angústia]. Trad. L. C. Kaplan. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1972.

Jail: prison memoirs [Memórias do cárcere]. Trad. Thomas Colchie. Nova Iorque: Evans, 1974.

Sao Bernardo. Tradução R. L. Scott-Buccleuch. Londres: Peter Owen, 1975.

Childhood [Infância]. Tradução Celso de Oliveira. Londres: Peter Owen, 1979.

Sao Bernardo. Tradução R. L. Scott-Buccleuch. Nova Iorque: Taplinger, 1979.

 

Italiano

Angoscia [Angústia]. Trad. Franco Lo Presti Seminerio. Milão: Fratelli Bocca, 1954.

Terra Bruciata [Vidas secas]. Trad. Edoardo Bizzarri. Milão: Nuova Accademia, 1961.

Siccità [Vidas secas]. Trad. Edoardo Bizzarri. Milão: Accademia Editrice, 1963.

Vite Secche [Vidas secas]. Trad. Edoardo Bizzarri. Roma: Biblioteca Del Vascello, 1993.

San Bernardo. Trad. Luís Fernando Oliveira da Fonseca e Gianni Perlo Turim: Bollati Boringhieri, 1993.

Insonnia [Insônia]. Trad. Alessandra Ravetti. Roma: Edizioni Fahrenheit 451, 2008.

 

Neerlandês (Flamengo/Holandês)

De Doem van de Droogte [Vidas secas]. Trad. Rudolf Simoens. Bruxelas: Reinaert, 1971.

Vlucht Voor de Droogte [Vidas secas]. Tradução Cecilia Correia Castilho. Antuérpia: Nederlandse vertaling Het Wereldvenster, 1981.

Angst [Angústia]. Tradução August Willemsen. Amsterdã: Coppens & Frenks, Uitgevers,1995.

São Bernardo. Tradução August Willemsen. Amsterdã: Coppens & Frenks, 1996.

Dorre Levens [Vidas Secas]. Trad. August Willemsen. Amsterdã: Coppens & Frenks, 1998.

Kannibale [Caetés]. Tradução August Willemsen. Amsterdã: Coppens & Frenks, 2002.

 

Polonês

Zwiedle Zycie [Vidas secas]. Trad. Janina Wrzoskowa. Varsóvia: Czytelnik, 1950.

Bezsenność [Insônia, conto] in: Opowiadania brazylijskie [Histórias brasileiras]. Trad. Janina Z. Klawe. Cracóvia: Wydawnictwo Literackie, 1977.

Fazenda S. Bernardo. Trad. A. Hermanowicz Palka. Cracóvia: Wydawnictwo Literackie, 1985.

 

Romeno

Vieti Seci [Vidas secas]. Trad. Andrei Benedek. Bucareste: Editura pentru Literatura Universala, 1966.

São Bernardo. Trad. H. R. Radian. Bucareste: Univers, 1971.

 

Russo

Иссушенные Жизни. [Issushennyye Zhizni, Vidas Secas]. Trad. Sylvana [Sattva] Brandão e Zarem Chernov. Moscou: Editora Estatal, 1961.

Сан-Бернардо. [San-Bernardo, São Bernardo]. Trad. Liliana Brevern e Inna Chezhegova. Moscou: Editora do Estado, 1977.

 

Sueco

Förtorkade Liv [Vidas Secas]. Tradução Örjan Sjögren. Lysekil: Pontes, 1993.

 

Tcheco

Vyprahlé Zivoty [Vidas secas]. Tradução Vlasta Havlínová. Praga: SNKLHU, 1959.

Statek Sao Bernardo [São Bernardo] Tradução Pavla Lidmilová. Praga: Odeon, 1983.

 

Turco

Kiraç [Vidas secas]. Trad. Aklan Akdag. Istambul: Can Yayınları, 1985.

 

[610] O Jornal, 19-08-1944, ed. 7458, t. 11.

 

[611] Diário de Notícias, 21-05-1939, ed. 5080, t. 18.

 

[612] Para tomar conhecimento das divertidas mentiras do Barão de Münchhausen, consultar: Rudolph Erich Raspe, Aventuras maravilhosas do celebérrimo Barão de Münchhausen. Para uma avaliação de Histórias de Alexandre pelo viés psicanalítico, ver: Wagner da Matta Pereira, Um olho torto na literatura de Graciliano Ramos.

 

[613] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p.  164. Anos depois, o comediante nordestino Chico Anysio criou um quadro em seus programas televisivos em que Alexandre aparecia como “Pantaleão” (figurando o olho torto com óculos em que uma das lentes era escura) e Cesária passou a “Terta”, que confirmava as lorotas do marido após sua pergunta, que se popularizou: “É mentira, Terta?”: Chico Anísio, É  mentira, Terta? A publicação registra como sua fonte o folclore nordestino.

 

[614] Como indicado na bibliografia deste trabalho, as sete histórias selecionadas foram: “Primeira história verdadeira [Primeira aventura de Alexandre]”, “O olho torto de Alexandre”, “História de uma bota”, “O estribo de prata”, “A safra dos tatus”, “Uma canoa furada”, “Moqueca”.

 

[615] Imprensa Popular, 23-12-1951, ed. 949, t. 9.

 

[616] Vamos Ler!, 25-10-1945, ed. 482, t. 26-27.

 

[617] Leitura, 09-1945, ed. 33, t. 74.

 

[618] Diretrizes, 25-05-1944, ed. 208, t. 15.

 

[619] Para uma apreciação comparativa das percepções da infância, ver: Elizabete Maria Álvares dos Santos, A opressão da criança em Graciliano Ramos e Charles Dickens.

 

[620] Ver em Vinicius Dantas, Bibliografia de Antonio Candido, p. 69: “Notas de Crítica Literária – Graciliano Ramos”, (I), (II), (III), (IV) e (Conclusão), em edições sucessivas de 5as. feiras, p. 4, do Diário de S. Paulo,  04-10-1945, 11-10-1945, 18-10-1945, 25-10-1945 e 01-11-1945. O pesquisador descreve o percurso do conjunto, já sob o título “Ficção e confissão”: como introdução da 3a. edição de Caetés, 1955, até a 7ª edição, 1965, e, a seguir, da 12ª edição de São Bernardo, 1970, até a 20ª edição, 1973. No prefácio da edição em livro, 1992, Antonio Candido relembra, com pequena variação das datas, na p. 10: “Tempos depois da sua morte [de Graciliano], Antonio Olavo Pereira, que dirigia a sucursal paulista da Editora José Olympio, me convocou para dizer que Graciliano tinha manifestado o desejo de que fosse escrita por mim a introdução à próxima edição de sua obra. Foi assim que refundi os cinco artigos, escrevi a análise de Memórias do cárcere e uma conclusão, compondo o ensaio Ficção e confissão, que de 1955 a 1969 foi, situada no 1º volume, Caetés, a introdução desejada pelo grande escritor. A princípio, na edição José Olympio, do Rio; depois, na edição Martins, de São Paulo. Em 1969 Martins a deslocou para São Bernardo e em 1974 resolveu aposentá-Ia. Deste modo saiu de circulação o meu ensaio, do qual José Olympio fizera em 1956 uma tiragem à parte em pequeno volume, cujos 1.000 exemplares se esgotaram depressa”.

 

[621] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 11.

 

[622] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 7-9: “Este foi o nosso único contacto epistolar. Houve outro, pessoal, no começo de 1947, num jantar em casa de Lúcia Miguel Pereira e Octavio Tarquínio de Sousa, promovido para nos apresentar um ao outro”.

 

[623] O PCB – Partido Comunista do Brasil foi interditado em 1947 sob alegação de não ser partido brasileiro, mas uma seção internacional como indicava seu nome Partido Comunista do Brasil. Em 1961, em busca de legalização, trocou o nome para PCB – Partido Comunista Brasileiro. A seguir, uma dissidência fundou em 1962 o PCdoB – Partido Comunista do Brasil. Ver histórico em: < https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/Partido%20Comunista%20Brasileiro%20(PCB)%20-%20Primeira%20Rep%C3%BAblica.pdf >.

 

[624] Tribuna Popular, 20-09-1945, ed. 105, t. 5 e 8.

 

[625] Tribuna Popular, 18-08-1945, ed. 77, t. 1 e 2.

 

[626] Ver registro de fragmento do trecho em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 184-185.

 

[627] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 166.

 

[628] Ver notícia sobre os homenageados entre vários intelectuais como Dyonélio Machado e Niemeyer, em: Tribuna Popular, 23-04-1946, ed. 282, t. 1 e 6.

 

[629] Ver listagem pormenorizada que indica intensa participação política de Graciliano, em fichas policiais apresentadas por Dênis de Moraes, “Os ventríloquos de Zdanov”, O velho Graça, 2012, especialmente p. 240-244.

 

[630] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 140-142, p. 194-208.

 

[631] Correio da Manhã, 10-11-1953, ed. 18598, t. 2.

 

[632] No entanto, ainda em 1946, o que se registrou no momento de sua filiação (acima, Tribuna Popular, 18-08-1945, ed. 77, t. 1 e 2), Graciliano retomava em “O Partido Comunista e a criação literária”, Tribuna Popular, 22-05-1946, ed. 3016,  t. 3, coligido em Garranchos, p. 259-261: “Afirmam cidadãos vultosos que no Comunismo não existe ambiente favorável à criação literária; chegando aqui, murchamos, deitamos um pouco de chumbo nos miolos e somos utilizados em serviços módicos: distribuir folhas volantes, bater palmas em comícios, pichar muros. Isso – e nada mais”; “Afirmação contraditória. Por volta de 1936 esses mesmos cavalheiros impugnaram com vigor os produtos vermelhos. Sem examiná-los, sem declará-los bons ou maus como arte, exigiram simplesmente a prisão dos autores. Chegaram a ver realizados os seus desejos – e hoje não é razoável negarem o que ontem badalaram, numa crítica policial bastante safada”; “É desnecessário asseverarmos que o Partido Comunista nenhum dano causa à produção literária”; “E é claro que não haveria conveniência em fabricar normas estéticas, conceber receitas para a obra de arte. Cada qual tem a sua técnica, o seu jeito de matar pulgas, como se diz em linguagem vulgar”.

 

[633] Última Hora, 07-12-1953, ed, 763, t. 2.

 

[634] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 215-216.

 

[635] Cartas, 01-05-1952, p. 216, ver nota 41.

 

[636] Viagem, cap. 8 – (Atlântico, 11-junho-1952), p. 57.

 

[637] Graciliano Ramos, “Prestes”, anexo a Luís Carlos Prestes, Carta aos comunistas, p. 37-42.

 

[638] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 178.

 

[639] Tribuna Popular, respectivamente: 20-09-1945, ed. 105, t. 5 e 8; 25-09-1945, ed. 109, t. 3;  07 e 09-10-1945, ed. 120, t. 1-2, ed. 121, t. 1-2; 10-10-1945, ed. 122, t. 3.

 

[640] Cartas, 12-10-1945, p. 206-207.

 

[641] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 93-94.

 

[642] Reproduzido por Maria Lúcia Palma Gama, em “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 35, p. 210-211. Texto coligido em Garranchos, p. 255-258. Original registrado em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 185-186.

[643] Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 208.

 

[644] Diário da Noite, 18-12-1945, ed. 3973, t. 15.

 

[645] Memórias do cárcere foi filmado por Nelson Pereira dos Santos. O lançamento do filme em 1984, nos estertores da ditadura militar de 1964-1985, recebeu atenção de Florestan Fernandes em seu artigo sobre a obra e o filme: “Os que falam de ‘literatura crítica’ e de ‘arte engajada’ quase sempre permanecem na periferia dos símbolos e na superfície da luta política. Graciliano Ramos travou o combate ao nível mais profundo da defesa da dignidade do eu e da condenação irretratável do despotismo institucionalizado. Temperamento e circunstâncias acenderam a chama do ‘intelectual revoltado’, gerando-se assim a única obra de denúncia integral e de desmascaramento completo existente em nossa literatura”; “Não voltei a ler o livro. Nem agora, que senti um ímpeto irrefreável de incentivar os leitores a não perderem a sua transposição cinematográfica. O vigor do livro, na minha memória, prende-se à revolta íntima, ao afã de denunciar e desmascarar além e acima dos limites do inconformismo ideológico e político, de buscar uma objetividade tão intransigente e penetrante que nos lembra a ‘verdadeira ciência’, no sentido de Karl Marx” – em Florestan Fernandes, "Memórias do Cárcere. Sociólogo analisa adaptação cinematográfica do clássico de Graciliano Ramos", Folha de S. Paulo, Colunas Eternas, 20-08-1984. Republicado em Folha de S. Paulo, 19-01-2022. Reproduzido por Débora Mazza em:

< https://aterraeredonda.com.br/memorias-do-carcere-segundo-florestan-fernandes/ >.

 

[646] Clara Ramos, Cadeia, p. 48.

 

[647] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 181; ver no Catálogo de manuscritos do AGR, a data de finalização de cada volume: p. 91 (1ºv -27-05-1947); p.  105 (2ºv-12-09-1948); p. 118 (3ºv-06-04-1950); p. 128 (4ºv-01-04-1951). As datas de conclusão dos manuscritos apresentadas por Clara Ramos diferem no 1ºv, 28-05-1947, e, no último, 01-09-1951. Em Cartas, 12-10-1945, p. 207, ao filho Júnio, Graciliano anunciava seu projeto: “Findos alguns compromissos neste resto de ano, iniciarei um trabalho a respeito das prisões de 1936. É difícil e arriscado: tenciono apresentar aquela gente em cuecas, sem muitos disfarces, com os nomes verdadeiros. Necessito a autorização das personagens: não tenho o direito de utilizar gente viva num livro de memórias que encerrará talvez inconveniências”.

 

[648] O Jornal, 01-07-1943, ed. 7378, t. 4.

 

[649] Ver fac-símile em Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 312.

 

[650] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 130-131. Sobre a carta, colhida do Projeto Portinari e divulgada por Annateresa Fabris e Mariarosaria Fabris, ver das autoras A função social da arte: Cândido Portinari e Graciliano Ramos.

 

[651] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 60.

 

[652] Ver Catálogo de manuscritos do AGR, p. 68.

 

[653] Célio Borja, “Setenta anos de memória e história”, Depoimentos. Faculdade de Direito da UERJ.

 

[654] Citação do discurso do pai por Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 80-81; manuscrito no AGR-IEB, coligido em Garranchos, p. 268-270.

 

[655] Graciliano Ramos (org), “Prefácio”. Seleção de Contos Brasileiros,  v. I, p. 15-16.

 

[656] Homero Senna, “Revisão do Modernismo”,  República das letras, p. 185.

 

[657] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 179.

 

[658] Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 231-237.

 

[659] Audálio Dantas, “O jornalista Graciliano Ramos”, Jornal da UBE, nº 102, p. 12.

 

[660] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 87-88.

 

[661] Ver histórico detalhado em Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 244-247.

 

[662] Diário de Notícias, 09-04-1949, ed. 8115, t. 3.

 

[663] Diário de Notícias, 07-05-1949, ed. 8141, t. 7.

 

[664] Imprensa Popular, 09-10-1956, ed. 1934, t. 3.

 

[665] Ver recorte em AGR-IEB: O Globo, 29-04-1949 e 30-04-1949, com identificação manuscrita de Graciliano Ramos. A notícia acrescenta que o contrato de tradução de Angústia nos EUA incluiu o direito à representação da obra na televisão. A seguir, Clara Ramos passou a atuar como rádio-atriz – ver entrevista a Carioca, 09-02-1950, ed. 749, t. 39: “Mais uma ‘estrela’ na constelação do rádio”.

 

[666] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 201.

 

[667] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 228.

 

[668] Valentim Facioli, “Um homem bruto da terra - biografia intelectual”, em José Carlos Garbuglio et alii, Graciliano Ramos, p. 80-87, 116-117.

 

[669] Ver: Cláudio Veiga, “Graciliano Ramos, tradutor de Camus”, Aproximações, p. 85-94; Padma Viswanathan,  “Graciliano Ramos, tradutor de Albert Camus”, site A Terra é redonda.

 

[670] Ana Maria Bicalho, “Graciliano Ramos, o tradutor visível”, Itinerário, n. 7, p. 149.

 

[671] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 221.

 

[672] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 132-134.

 

[673] Diário de Notícias, 07-07-1940, ed. 5428, t. 13 e 15.

 

[674] Cartas, 25-04-1931, p. 118.

 

[675] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 19.

 

[676] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 41.

 

[677] H. Pereira da Silva, Graciliano Ramos – Estudo crítico-psicanalítico. O texto é bastante ralo no uso da psicanálise e de termos freudianos, como, destacadamente por exemplo, “complexo de édipo”.

 

[678] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 119-120.

 

[679] Diário Carioca, 17-07-1952, ed. 7373, t. 3.

 

[680] Diário de Notícias, em 16-05-1951, ed. 8759, t. 2.

 

[681] Diário de Notícias, em 16-05-1952, ed. 9062, t. 2.

 

[682] Para todos, 2ª quinzena-11-1957, ed. 37, t. 10.

 

[683] Em apresentação ao livro de memórias de Álvaro Moreyra, Antonio Carlos Secchin informa que as orelhas da edição de 1954 traziam texto de Graciliano com esse teor: Álvaro Moreyra, As amargas, não..., p. VIII.

 

[684] Diário de Notícias, 03-08-1952, ed. 9129, t. 41.

 

[685] Ver: Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 240-244; Mário Magalhães, “Memórias de um militante stalinista”, Folha de São Paulo, 09-03-2003.

 

[686] Imprensa Popular, 07-10-1951, ed. 903, t. 9.

 

[687] Imprensa Popular, 14-10-1951, ed. 909, t. 3.

 

[688] Reproduzido em Travessia, v. 4, n. 6, UFSC, p. 99-100, 1983, sob o título “Viver em paz com a humanidade inteira”, coligido em Garranchos, p. 323-326.

 

[689] Tribuna da Imprensa, 24-09-1951, ed. 540, t. 1, 10; Tribuna da Imprensa, 10-10-1951, ed. 554, t. 8.

 

[690] Fundamentos, 09-1951, ed. 22, t. 9: “Estes versos são o produto do exercício calculado e frio do que resta, de técnica poética, a um homem apodrecido. Estes versos são da lavra de Manuel Bandeira” etc.

 

[691] Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada, p. 100.

 

[692] Imprensa Popular, 04-05-1952, ed. 1044, t. 8.

 

[693] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 231.

 

[694] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 74.

 

[695] Viagem, p. 11, 19.

 

[696] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 231-234.

 

[697] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 155.

 

[698] Fundamentos, 01-1953, ed. 31, t. 6.

 

[699] Última Hora, 26-10-1954, ed. 1030, t. 3.

 

[700] Tribuna da Imprensa, 08-11-1954, ed. 1480, t. 31.

 

[701] Imprensa Popular, 23-11-1954, ed. 1360, t. 5; Imprensa Popular, 25-01-1955, ed. 1411, t. 5.

 

[702] Imprensa Popular, 31-12-1954, ed. 1392 t. 4;  14-11-1954, ed. 1354, t. 3; 01-01-1955, ed. 1393, t. 3; 05-01-1955, ed. 1395, t. 4.

 

[703] Correio da Manhã, 30-09-1955, ed. 19177, t. 1 e 8. Para avaliação comparativa entre obras com esse foco e as decorrentes inquietações ideológicas, ver: Marcel Lúcio Matias Ribeiro, Impressões de Viagem.

 

[704] Imprensa Popular, 10-07-1952, ed. 1101, t. 1; Momento Feminino, 07-1952, ed. 94, t. 3.

 

[705] O Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp, conserva correspondência relacionada a Octavio Brandão. Duas cartas – uma de Sattva Brandão, 1950, e outra de Zarem Chernov, 1957 (esta, de cunho familiar) – foram traduzidas por Erick Fishuk e apresentadas em seu site:

< https://fishuk.cc/2015/11/brandao1.html > e < https://fishuk.cc/2015/11/brandao2.html >. Na primeira, Sattva revela que não sabe bem quem seja Graciliano Ramos e pede às irmãs no Brasil que mandem dados e obras dele, se possível a partir de contato com o autor, pois precisam dessas informações: Vólia está escrevendo sobre ele e sobre Monteiro Lobato para a Enciclopédia Soviética.

 

[706] Viagem, 11 (21-junho-1952), p. 70. O Catálogo eletrônico do IEB registra carta de Sattva Brandão a Graciliano, datada de 21-07-1952, em que “comenta sobre a publicação do capítulo ‘Prisão’, de Vidas secas, em revistas russas”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 7> contato com Sattva Brandão:

< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229701 >

 

[707] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 44.

 

[708] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 165-167.

 

[709] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 233-239.

 

[710] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 242.

 

[711] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 175.

 

[712] Diário de Notícias, 18-12-1953, ed. 9545, t. 74.

 

[713] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 240.

 

[714] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 168.

 

[715] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 244-245.

 

[716] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 169.

 

[717] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 243.

 

[718] Manchete, 15-11-1952, ed. 30. t. 14-16.

 

[719] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 114.

 

[720] Última Hora, 17-08-1954, ed. 973, t. 27.

 

[721] Última Hora, 05-03-1953, ed. 530, t. 3.

 

[722] Vinicius de MORAES, Novos poemas II (1949-1956), p. 35.

 

[723] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 249.

 

[724] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 16.

 

[725] Jornal do Brasil, 15-06-1984, ed. 68, t. 29.

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