Marcos Falchero Falleiros
Cronologia de Graciliano
Ramos
Edição do Autor
2024
.
Graciliano Ramos, o
construtor
Graciliano Ramos
estreou na literatura aos onze anos de idade, com o conto “Pequeno pedinte”,
publicado no jornalzinho da escola em Viçosa, O Dilúculo, que ele e o primo haviam criado sob orientação do
professor de geografia Mário Venâncio, uma figura exótica que apareceu na
cidade como novo agente do correio, literato e, em 1906, suicida. Foi esse
amável profeta que, mais ou menos um ano antes de tomar ácido fênico, disse ao
menino Graciliano que ele seria escritor – e o deixou aturdido com a novidade,
andando pelas ruas, cego e surdo, aos tropeções.
Graciliano confessa
que o conto de estreia e as outras publicações que apresentou no jornalzinho
eram completamente refeitas pelo mestre, o que muito o envergonhava, pois era
claro que todos perceberiam o embuste. Mas se dermos um desconto ao acirrado
senso crítico do autor, podemos entender que os arrebiques e as interpolações
no texto, praticados por Mário Venâncio, mais estragaram do que aprimoraram a
história de meia página: nela vemos a voz narrativa condoída e irmanada à
condição de desamparo de uma criança nas mãos da hipócrita caridade – um nível
de percepção e sensibilidade que era o embrião das muitas manifestações do
adulto que culminaram em Vidas secas.
Há antecedentes,
entretanto, mesmo para a manifestação precoce do menino: trata-se de sua
alfabetização torturada por palmatórias, gritos, impaciência do pai, grosseria
generalizada de escolas precárias, que o pequeno superou ansiosamente para
poder decifrar as histórias que o fascinavam. Assim, há em sua vida um vínculo
estreito entre alfabetização e literatura, de tal modo que, “quase analfabeto”
aos nove anos, como conta em Infância,
aos onze era um pequeno escritor jornalista e a partir dos quatorze publicava
em revistas como O Malho, no Rio, e
em jornais e revistas de Maceió, sonetos e outras formas poéticas com imagens
muito bem elaboradas, revelando domínio de vocabulário erudito e de regras de
versificação, além das manobras sintáticas impecáveis. Era o resultado de quem
desistira das escolas infames para entregar-se com muita competência ao
autodidatismo. O evento “Graciliano Ramos” pode, portanto, encher a humanidade
de entusiasmo, quando vemos a possibilidade do surgimento de um intelectual
extremamente refinado saído de um ambiente tosco e brutal, tanto quanto um
basbaque do século XXI, amamentado por internet, pode se espantar com o
ambiente sertanejo sofisticado que Graciliano e seus amigos criavam nas
brenhas, entre Viçosa e Palmeira dos Índios, providos de jornais e obras vindas
longinquamente de carroça.
As cartas de sua
juventude são tão intelectualizadas e fascinantes quanto o que se encontra de
melhor na correspondência de grandes escritores pelo mundo afora – cheias de gaiatices, humildes e sem
pedantismo. Depois da experiência frustrante de um ano no Rio de Janeiro, no
segundo semestre de 1915, aos vinte e dois anos de idade, voltou para junto da
família em Palmeira dos Índios, casou-se, assumiu do pai a loja de tecidos e de
variedades, batizou-a “Loja Sincera”, teve quatro filhos, enviuvou. Em 1921
participou durante três meses do jornal O
Índio, que Padre Macedo havia inaugurado no início do ano – também nesse
caso com produções literariamente históricas. E, após sete anos de viuvez, no
início de 1928, tornou-se prefeito da cidade e casou-se novamente. Os dois
relatórios de prefeito para prestação anual de contas ao governo estadual,
escritos em 1929 e em 1930, entraram para a literatura, tal a qualidade
inesperada desses textos que, como acontece normalmente, deveriam ser acanalhados,
demagógicos, burocráticos e enfadonhos. Ao contrário, os textos dos dois
relatórios são diretos, de um humor que soma a sátira à picaretagem que o cerca
com a precisão da honestidade produtiva e dinâmica. Northrop Frye mostra a
dificuldade de definir o que é literatura devido às duas direções da linguagem:
a direção interna, para a literatura, e a direção externa, para a referência
das coisas. O crítico observa que os textos externos às vezes sobrevivem em
razão de seu estilo depois que sua funcionalidade para a representação dos
fatos se perdeu. No Brasil temos os exemplos dos sermões de Vieira e, com
Euclides da Cunha, Os sertões, instalado
inegavelmente na literatura como não romance. Podemos considerar assim também
os relatórios do prefeito Graciliano. Fizeram sucesso.
O poeta Augusto
Frederico Schmidt, com editora no Rio, leu os relatórios e adivinhou que o
prefeito deveria ter algum romance pronto. De fato, entre 1924 e 1925,
Graciliano, viúvo e acabrunhado, tinha retomado a elaboração ou iniciado a
escrita de três contos: “A carta” – serviria de ponto de partida para S. Bernardo, ainda que descartado o
texto inicial; “Entre grades” – seria
desdobrado em Angústia; o terceiro
conto espichou-se e virou Caetés.
Esse era o romance que em 1930 Graciliano tinha para apresentar a Schmidt, em
resposta ao contato que o editor adivinho estabelecera com o prefeito
desconhecido.
Graças à demora na
publicação, Graciliano pôde desfazer o negócio, com alívio. A vida inteira ele
manifestou ojeriza por essa “porcaria”, para usar seus termos ao referir-se
especialmente a Caetés. Ainda que
insistente nesse comportamento, Graciliano nunca deu sinais de encenações de
falsa modéstia. Bem pensadas, suas observações revelam um espírito crítico
qualificado, que localiza com clareza os problemas de seus livros. Como disse
Antonio Candido, Caetés é um livro
“temporão”, nascido tarde: cheira a Eça de Queiroz do século XIX, sendo um
misto: vê-se nele a cópia da cópia que o português fez de Madame Bovary, filiando-se à família dos romances de adultério, e,
com um traço próprio muito significativo, mostra-se fundamentalmente baseado em
A ilustre casa de Ramires. No
entanto, é modernamente límpido, posto em linguagem direta e bruta. Antonio
Candido considera que a obra tem um ar de treinamento, como se fosse um
exercício para que o escritor se preparasse para a grande obra que realizaria a
seguir. Caetés é, portanto, um
romance cheio de atrativos e aspectos inquietantes de novidade em meio a sua
velhice – se emprestarmos de Manuel Bandeira o que ele disse sobre os poemas
inaugurais de Mário de Andrade, podemos dizer que Caetés é de um “ruim esquisito”.
Antes de enviar a
Schmidt o livro, Graciliano renunciou ao cargo de prefeito nos inícios de 1930,
vendeu a Loja Sincera e mudou-se com a mulher e filhos para Maceió, convidado
pelo governador para o cargo de Diretor da Imprensa Oficial. Lá retrabalhou
bastante o texto do romance em meio à Revolução de 30. Assim, as andanças da
história da modernização conservadora no Brasil deixavam sua obra de 1925 mais
ainda para trás. No final de 1931, demitiu-se do cargo em que tinha sido
mantido apesar dos tenentes de Getúlio, mas que não conseguiu suportar. Voltou
para Palmeira dos Índios e, no final de 1932, S. Bernardo já estava pronto, ao mesmo tempo em que ele pedia ao
editor do Rio que cancelasse a publicação e devolvesse a cópia de Caetés.
Entretanto, Jorge
Amado havia lido os originais na livraria de Schmidt e, jovem autor
entusiasmado pelo aparecimento de um novo colega, foi a Maceió, em 1933, para
conhecê-lo. Com a ajuda da esposa de Graciliano, Heloísa, sequestrou o Caetés de volta para Schmidt. O ambiente
intelectual de Maceió era na época uma concentração de talentos, não só dos
locais, como também daqueles que haviam chegado: por exemplo, José Lins do Rego
e Rachel de Queiroz. É engano considerar que as características marcantes da
obra de Graciliano Ramos foram sendo desvendadas ao longo de sua produção pelos
anos seguintes. As resenhas surgidas imediatamente à publicação de Caetés, no final de 1933, já mostravam o
grande autor, a quem as casualidades da história ofereceram um ninho primoroso
de acolhimento em Maceió. Jorge Amado destacou seu estilo geométrico. Aurélio
Buarque de Holanda disse que o amigo escrevia com a economia de quem passa
telegrama.
Graciliano foi
convidado no início de 1933 para ser Diretor da Instrução Pública de Alagoas.
Assim, enquanto começava a escrever Angústia,
ao mesmo tempo realizava uma pequena revolução educacional no estado – o
que certamente influiu para sua prisão em 1936, quando foi levado para os
presídios do Rio de Janeiro, durante a grande caçada que o fascismo de Getúlio
Vargas lançou, enchendo as prisões do país com todo tipo de cabeça pensante e
pensamento crítico, após o chabu da tentativa revolucionária comunista de 1935.
Mas a exposição clara e cruel do que é a propriedade privada em S. Bernardo, publicado no final de 1934,
também deve ter entrado nas considerações doentias dos algozes ao elaborar sua
listagem dos que mereciam cadeia. S.
Bernardo, portanto, é o achado, o começo e o ponto de partida de sua grande
obra, afinal equacionada por um marxismo refinado e independente,
verdadeiramente materialista e dialético – uma saída que não lhe permitiu o
mundo estagnado de Caetés.
No Rio de Janeiro, em
meio aos dez meses e dez dias de prisão, foi publicado Angústia, em agosto de 1936. Após sair da cadeia, enquanto Heloísa
voltava para Maceió para organizar a mudança, Graciliano foi para uma pensão,
onde ficou escrevendo Vidas secas
paralelamente à produção de artigos para ganhar uns cobres. Com a chegada da
esposa e das duas filhas menores, ficaram todos no quartinho, onde elas ouviam
a leitura do pai e acompanhavam a sina dos retirantes. Escrevia os capítulos e,
para a sobrevivência, publicava-os nos jornais como contos, de tal modo que seu
colega de pensão, Rubem Braga, chamou Vidas
secas, afinal publicado em 1938, de “romance desmontável”, sem dar-se conta
de sua organicidade – pois além dos capítulos inteiriços, para vendê-los
isolados como contos, Graciliano os escreveu cronologicamente fora da ordem
final, enquanto mentalmente organizava sua futura distribuição, indesmontável,
ainda que possamos ler os capítulos com sentidos coerentes cada um por si.
Com isso ele fechou
sua ficção principal. Seu modernismo brutalista assimila na economia gráfica do
texto o chão rachado da seca, que se retrai em sulcos negros, para falar claro
contra a “bruma obsoleta e antidemocrática, a dissipar, fraudulenta no
fundo” – como nos termos de Roberto Schwarz ao tratar da poesia de Oswald de
Andrade. Disse Álvaro Lins que o estilo de Graciliano tem algo de hierático. É
que, em parelha com o feitio gráfico acima mencionado, soma-se o aspecto do
deserto bíblico em sua textualidade, que tanto impressionou o menino ao ouvir
histórias do Velho Testamento, associando-as
ao sertão pernambucano onde viveu na tenra infância de Buíque. Mas no seu deserto sem Deus, a
vontade-de-ordem como vontade-de-justiça equaciona-se nessa cabeça prodigiosa
por meio de uma imaginação limitada ao que foi vivido com os pés no chão, sob a
geométrica racionalidade de seu construtivismo. Trata-se de um estilo de
retábulos, de quadros que parecem irmanados ao corte seco e áspero das
xilogravuras nordestinas dos cordéis – o que explica a via-crúcis do “romance
desmontável” de Vidas secas, o “caos
organizado”, que Antonio Candido viu em Angústia,
e a confissão de Leon Hirzsman de que encontrou, ao filmar S. Bernardo, o roteiro pronto no livro –
e assim, ao se estender a caracterização do retábulo para o estilo de
fotograma, confirma-se a grande vocação cinematográfica da obra de Graciliano
Ramos, que fez Alfredo Bosi ver em S.
Bernardo uma “série de tomadas cortantes”.
Se o essencial de sua
obra, que até aqui percorria o trajeto da ficção, já trazia marcas inescapáveis
da biografia do autor, a seguir ele passa, como diz Antonio Candido, da
necessidade de inventar à necessidade de depor. Sua literatura se desdobrará de
maneira imediata no memorialismo, formando um todo fluido em que ficção e
confissão se confundem nas ranhuras da verdade realista. Antes de ser preso,
enquanto escrevia Angústia com tantos
aspectos de sua vida, veio-lhe a ideia de tratar diretamente dela e vários
títulos de capítulos que seriam do futuro livro, Infância, foram anotados. Depois, no Rio, ao sair da prisão, passou
a escrevê-los de 1938 até 1945, quando o livro foi publicado. Como já
comentavam na época as resenhas, não se trata de um memorialismo pitoresco, mas
de um estudo de caso sob demorada prospecção – isto é, o que temos na verdade é
a gênese de sua obra.
Indo à outra ponta da
biografia, a partir de 1946, Graciliano finalmente conseguiu escrever
rotineiramente – até o final da vida – Memórias
do cárcere, a sua projetada denúncia da prisão em 1936 – não só testemunho,
mas outra prospecção, como em Infância, agora
ampliada por tantas interrogações subjacentes que fazem estremecer o que se
constata com solidez. Sendo um dos documentos mais importantes da história do
Brasil, foi escrito com independência humanista e sem atrelamentos políticos
por este militante do Partido Comunista a partir de 1945.
Mesmo o conjunto
completo de sua produção desde os onze anos de idade, apesar de todas as
vicissitudes que poderiam tornar a obra dispersiva, mantém uma organicidade que
vai da poesia à crônica, da crítica literária ao manifesto, do conto à
tentativa (abandonada, é certo) de teatro, da literatura infantil ao folclore,
e se encerra com a esperança ressabiada de Viagem,
a narrativa de sua visita à URSS e ao mundo comunista dos anos 50. Mas, desse
amplo conjunto, ressalta a obra principal, a essência do evento “Graciliano
Ramos”: S. Bernardo, Angústia, Vidas
secas, Infância e Memórias do cárcere.
Vê-se então o
mapeamento do que se eleva substancialmente acima do todo. Sem planejamentos
esquemáticos, sem intenções proselitistas, avesso a forçar teorizações de linha
política, a conceptualização marxista de Graciliano deu uma das respostas mais
importantes às aporias da arte engajada. As cinco obras revelam sua orgacidade
construtivista alcançada pelo autor, mais por consequência lógica que por uma
premeditação programática.
Essa mente
sistemática percorreu na ficção, com sua genialidade distraída, o trajeto das
três classes, de modo descendente: iniciou revelando a “construção do burguês”,
como Carlos Nelson Coutinho qualificou S.
Bernardo, que Graciliano adaptou ao enfoque rural frente a seu contexto não
industrializado; no mundo urbano de Maceió, abordou a falta de saída do
“parafuso”, como o próprio autor qualifica a condição de pequeno-burguês de
Luís da Silva – ou a classe “anexa”, por ele assim definida em carta ao filho;
encerra, então, o ciclo ficcional, com a proletarização a caminho, em Vidas secas, apontando no final da
narrativa o caminho para o Sul industrializado como um inchaço-bomba, profecia
comprovada nas décadas seguintes pelos movimentos operários de um povo que
tinha amadurecido seu nível de consciência. Restava, assim, as balizas da
autoria: a gênese da obra, em Infância,
e sua consequência na história, com Memórias
do cárcere.
Cronologia de Graciliano
Ramos[1]
1892-1895 –
Quebrangulo
Graciliano Ramos de
Oliveira[2]
nasceu no dia 27 de outubro de 1892[[3]],
em Quebrangulo (município então denominado Vitória[4]),
interior de Alagoas, na região de Palmeira dos Índios e Viçosa. Foi o
primogênito de Maria Amélia e de Sebastião Ramos de Oliveira, casados no ano
anterior – o pai, “negociante miúdo”[5],
com cerca de trinta e um anos de idade, e a mãe, a Mariquinha[6],
da família Ferreira Ferro, em torno dos treze[7].
O casal viria a ter, até 1921, dezesseis filhos, quatorze se criaram.[8]
Os ascendentes paternos são senhores de engenho arruinados, reduzidos
à precária situação do avô Tertuliano Ramos de Oliveira, natureza sensível,
propensa às artes, com a qual irá o neto dizer-se identificado no futuro. Pelo
lado materno, a criança descende de prósperos criadores de gado; e o patriarca
Pedro Ferro conserva a propriedade e a autoridade na família.[9]
Antes de Graciliano
completar três anos de idade, e menos de um ano após o nascimento da irmã
Leonor, o pai distribuiu à praça o folheto:
Ao público
Resolvendo mudar-me desta vila, liquidei meu estabelecimento de
fazendas. Agradeço ao comércio de Maceió a confiança com que sempre me honrou.
Aos meus amigos ofereço o meu pequeno préstimo, na fazenda Pintadinho,
município de Buique, Estado de Pernambuco, para onde sigo com minha família no
dia 13 deste.
Vitória, 9 de junho de 1895.
Sebastião Ramos.[10]
Vagos clarões entre
nuvens espessas, como rasgos num tecido negro, são vistos pelo escritor de Infância como a primeira memória do
menino: um vaso cheio de pitombas escondido atrás de uma porta, e, na escola
que serviu de pouso para a viagem de mudança, umas crianças que berravam o
bê-á-bá sob o comando de um velho de barbas longas.
E sons estranhos também surgiram: letras, sílabas, palavras
misteriosas.[11]
1895-1899 -
Buíque
Na Fazenda “Pintadinho”,
a manhã da consciência se abriu para a criança. O escritor maduro escavará
rigorosamente essas “impressões da infância” (título preterido de Infância).[12]
Frio e calor, trevas densas e claridades ofuscantes.[13]
Hibernação e clarões:
surgiu a percepção das diferenças de classe e de poder graças ao contraste
entre o gibão enfeitado do pai e as figuras dos humildes empregados: o casal
Sinha Leopoldina e Amaro Vaqueiro, de gibão remendado, e o capanga José Baía,
que o acalentava com histórias de onças, onomatopeias, gargalhadas, galopes com
a criança sobre os joelhos, rodopios e uma cantiga. Os personagens e a cantiga
ressurgirão em sua obra: em Angústia
com o próprio nome, José Baía, ou fictício em S. Bernardo, Casimiro Lopes, que acalenta o filho abandonado de
Madalena.
Eu nasci de sete meses,
Fui criado sem mamar.
Bebi leite de cem vacas
Na porteira do curral.[14]
Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos.
Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos
grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas,
tilintar de esporas, batecum de sapatões no tijolo gasto. Retalhos e sons
dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor.[15]
Uma de suas irmãs
naturais[16],
acolhida na família, era a evidência doméstica de faltas antigas do pai. A
cabeleira negra, os beiços vermelhos, os olhos provocadores de Mocinha levavam
a mãe ao desespero.
E com certeza se amofinava, coitada, revendo-se em nós, percebendo cá
fora, soltos dela, pedaços de sua carne propícia aos furúnculos. Maltratava-se
maltratando-nos.[17]
Depois de viver o inverno
sertanejo, em torno dos cinco anos de idade viu a seca devastar a propriedade
do pai.
Espanto, e enorme, senti ao enxergar meu pai abatido na sala, o gesto
lento.[18]
O pai o acusou de ter
dado sumiço a seu cinturão que, na verdade, estava dentro da rede de onde tinha
acabado de se levantar. O menino apanhou de chicote, aterrorizado por um
interrogatório aos gritos. Ao perceber seu equívoco, o pai não se desculpou.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.[19]
Numa visita à fazenda vizinha, de uma família cujo luxo escandalizava
sua gente cautelosa, o pai distanciou-se com o proprietário para tratar de
negócios. Graciliano e a mãe, bisonhos, ficaram cercados de saias: cálices de
licor foram servidos pela senhora da casa e suas filhas, uma delas grande,
morena, vermelha, que se perdeu mais tarde com a decadência do pai perdulário.
Estimulado pelo álcool, o menino sentiu precisão de carícias do outro sexo,
acamaradou-se com as desconhecidas encantadoras, esfregando-se na morena.
Tornou-se loquaz, perguntava e repetia, depois das explicações, a mesma
pergunta sobre uma árvore que no início da visita havia instigado sua
curiosidade encabulada:
– Minha filha, que pau é
aquele?
A mãe, potência abafada pelas gargalhadas, procurava contê-lo.
Não me ocorria que ela se
restabelecesse, voltasse comigo à casa triste, me fustigasse e puxasse as orelhas.
Parecia-me que as moças ruidosas e a senhora encanecida iriam, no futuro,
trazer-me a garrafinha, os cálices e a bandeja, escutar-me os devaneios.[20]
Em meio à seca, a família
deixou a fazenda “Pintadinho”[21]
e se instalou na vila ao lado, Buíque-PE[[22]],
onde Sebastião Ramos abriu um pequeno comércio.
Na vila de Buíque, o
menino causou grande rebuliço em casa ao acordar a família, aos gritos,
assustado com a visita de quatro ou cinco almas do outro mundo. Ganhou
notoriedade e tentou sem êxito reduzir os exageros da repercussão.[23]
Ficou-me, entretanto, um resto de pavor, que se confundiu com os
receios domésticos.[24]
Embora tivesse apaziguado
o pânico descabelado da mãe ao descartar convicto o fim do mundo com a próxima
passagem de um cometa, notícia que ela havia lido em publicações salesianas[25],
algum tempo depois Mariquinha lhe aplicou várias chineladas quando o menino
abusado negou a existência do inferno. Experiência depois aproveitada em Vidas secas.
– A senhora esteve lá?
– Os padres estiveram lá?
– Não há nada disso.
– Não há não. É conversa.[26]
Com o moleque José,
agregado de ascendência escrava, seu modelo de atitudes e de sotaque, que o
conduzia em passeios ao sítio de Sebastião Ramos, Graciliano acompanhou,
montado em seu carneiro branco e humilhado pela inocência, sem-vergonhices com
flores peludas, pregadas na areia pela molecada que se juntava a eles no
caminho e esperava a reação irada das mulheres que por lá passavam. Sentiu
satisfação quando o moleque revelou-se falível num equívoco, achando que seu
bisavô vinha ao longe. Graciliano, entretanto, apegou-se com entusiasmo a sua
expressão, encontrando nela um dístico que declamou e depois cantou, mesmo com
as reprimendas cortantes da mãe, irritada com a idiotice do menino.
Seu Ferreira de gibão
No cavalo de seu Afro.
Entre outras lições,
aprendeu com o parceiro-pajem a participar do sofrimento alheio, quando, num
ímpeto de perversidade, ficou do lado da Lei para ajudar o pai que surrava o
pequeno criado. Mas o tiro saiu pela culatra e o filho também apanhou,
castigado pelo enxerimento.[27]
Sofreu uma crise de
nervos e de fé ao ver, reduzido a um tronco escuro com escorrimento verde pelas
fossas nasais, o cadáver da pretinha que havia tentado salvar de sua choupana
incendiada uma imagem da Virgem Maria.[28]
Culpas indecisas o
condenavam à prisão na loja do pai, castigo útil para que vigiasse o
estabelecimento. Configurou seu diminuto senso moral através de exames
demorados de consciência ao tentar decifrar quais as ações prejudiciais e quais
as inofensivas. Sem poder adivinhar o arbítrio das acusações, curvou-se à
fatalidade, aspecto que marcou sua personalidade. Num misto de inveja e receio,
observava as crianças da rua com quem era proibido de brincar. Sozinho,
apegou-se a aranhas e baratas, um mundo liliputiano sem gritos e agressões.
Divagava imaginando o mundo coberto de homens e mulheres da altura de
um polegar de criança.[29]
Além dos lobisomens,
invisíveis e de pouco efeito, o soldado José da Luz, caboré enxerido de farda
bem passada, vermelha e azul, e o Padre João Inácio, com seu terrível olho de
vidro, eram instrumentos de repressão, as figuras da ordem, representantes da
polícia e da religião que os adultos usavam para intimidar suas travessuras.
Padre João Inácio, pobre mas pertencente à poderosa família Albuquerque, chefe
de partido, autoritário e independente, injuriava a todos, principalmente os
desvalidos – “arreda, povo, raça de cachorro com porco” – mas cuidava de
variolosos sem medo de contágio. José da Luz, pachola e palrador ocioso às
custas do Estado, entretanto, foi-lhe benéfico, desanuviou-lhe a
pusilanimidade.
Um anarquista.[30]
O pai, o Tentador, impôs
a escravidão ao menino oferecendo-lhe ardilosamente o aprendizado da arma
terrível de gente sabida: adivinhar os
sinais pretos em um papel amarelo. Iniciou, com a violência da palmatória e dos
gritos, sua alfabetização. A mãe e a irmã natural, Mocinha, tentavam
protegê-lo. Quando conseguiu familiarizar-se com as letras, vieram outras com o
mesmo nome mas com outros feitios: maldades maiúsculas, minúsculas, impressas,
manuscritas: atordoamento, preguiça, desespero. A entrada na escola se deu a
seguir pelas mãos meigas, incapazes de qualquer violência, de uma professora
cheirosa: D. Maria.[31]
Resignei-me – e venci as malvadas. Duas porém se defenderam: as
miseráveis dentais que ainda hoje me causam dissabores quando escrevo.
Livrara-me do aperto crismando as consoantes difíceis: o T era um boi,
o D uma peruinha. Meu pai rira da inovação, mas retomara depressa a exigência e
a gravidade.
Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. E as duas letras
amansaram. Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas se reuniam, formavam
sentenças graves, arrevesadas, que me atordoavam.
“Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”
– Mocinha, quem é o Terteão?
Mocinha confessou honestamente que não conhecia Terteão.[32]
A tirada racista que
Graciliano proferiu em linguagem de cozinha, surpreso ao ver limpo e bem
vestido um negro velho, provocou o elogio que lhe fez na infância Sebastião Ramos,
fazendo a observação do menino repercutir na loja por deturpações exageradas
dos fregueses e parceiros, como se o pai expusesse o filho com o entusiasmo de
um negociante ao anunciar sua mercadoria vagabunda.
“Estão vendo esta maravilha? Produto meu.”[33]
A mãe aplicou-lhe dois
apelidos: de bezerro-encourado,
graças a seus trajes sempre desengonçados, feitos por costureira módica, e de cabra-cega, devido a uma inflamação nos
olhos que o perseguia na meninice.
Bezerro-encourado é um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o
couro, vestem com ele um órfão, que neste disfarce é amamentado. A vaca sente o
cheiro do filho, engana-se e adota o animal.
Essa injúria revelou muito cedo a minha condição na família: comparado
ao bicho infeliz, considerei-me um pupilo enfadonho, aceito a custo.
Minha mãe tinha a franqueza de manifestar-me viva antipatia.
Na escuridão percebi o enorme valor das palavras.[34]
Tomou consciência da
diferença entre fachada pública e intimidade doméstica com o comportamento do
solteirão Chico Brabo, o vizinho amável na janela mas violento em casa com seu
empregado João, uma criança.[35]
O caráter sereno de José
Leonardo e a sua fazenda produtiva, um modesto oásis verde, aquoso, limpo, fora
do padrão regional, deram-lhe a experiência do equilíbrio que o dispôs a
sentimentos benévolos.
Nunca me havia ocorrido que as rapaduras fossem consequência do
trabalho humano.
O luar feria pedrinhas alvas nos caminhos. Achei que uma delas
brilhava mais que as outras – e José Leonardo obrigou-me a aceitá-la. Conservei
alguns anos a preciosidade que faiscava na treva.
Mudei-me, fui viver na cidade. A pedra faiscante sumiu-se – e o meu
quarto, rezadas as orações, apagado o candeeiro de querosene, escureceu.[36]
Mocinha fugiu depois que
o pai, certamente preocupado com despesas de enxoval e de festa de casamento,
proibiu sua aproximação com um jovem de família importante em Buíque. Renegada
pelo pai, casou-se sem festa, na missa das sete, e após alguns anos de
equilíbrio e felicidade foi abandonada pelo marido.
Mocinha desapareceu e não deixou vestígio.[37]
1900-1904 –
Viçosa
Com algum
restabelecimento econômico, a família retornou para Alagoas em fins de 1899,
mudando-se para Viçosa (ou “Assembleia”[38])
quando Graciliano estava com sete anos.
José Leonardo e Antônio Vale despediram-se – e
com eles o sertão desapareceu. Xiquexiques e mandacarus foram substituídos por
uma vegetação densa e muito verde; nos caminhos escuros os chocalhos
calaram-se; surgiram regatos, cresceram, transformaram-se em rios e atrasaram a
marcha.[39]
Como informa Moacir
Medeiros de Sant’Ana:
chegaram a um engenho, onde durante meses ficaram hospedados, antes de
seu pai montar casa, na Rua do Juazeiro, bem próximo da cadeia pública, e
instalar loja na cidade, numa esquina do largo principal da mesma. O engenho
era o “Aquidabã”, então de fogo morto – de propriedade de João Leite dos Passos
– dez anos mais moço do que seu primo Sebastião Ramos – erguido nas cercanias
do riacho Veados, bem próximo da vila de Anel.[40]
Novas palavras e objetos
inexistentes no sertão deixavam desorientado o menino que agora estava cercado
de tios menores que ele, de uma parentela confusa e respeitável, com mulheres
ásperas e de cachimbo, homens enrugados, duas primas bonitas, que findaram
tuberculosas, e uma nova irmã natural, morena, grossa, feia.
O pai abriu em sociedade,
gora, com Manuel Costa, uma loja em Viçosa, de tecidos, miudezas, ferragens,
perfumaria, em prédio vistoso de esquina, várias portas e o letreiro vermelho e
negro “Ramos & Costa”, feito por Joaquim Correntão, que pintava índios
empenachados e falava muito em chimpanzés e orangotangos.
A terra era um lamaçal cheio de ladeiras.[41]
Aos sete anos de idade,
enjoado pelo desentendimento de Camões e pelo tom proverbial e moralizante das
cartilhas de Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas[42],
o menino retomou em Viçosa as regras de pontuação do terceiro livro, numa
escola pública com setenta alunos. Senhores de engenho, pais de Adelaide, a
prima rica de Graciliano, haviam deixado
a menina na cidade, sob a guarda da traiçoeira professora mulata Maria do Ó,
que a submetia à condição de criada espezinhada da casa, apesar do fornecimento
farto com que a família de Adelaide a presenteava. Tal crueldade e torpeza
provocaram no menino equívocos de ódio racista, acrescido a seguir, com a
mudança de escola, de repulsa à volubilidade e aos trejeitos afeminados de um
professor[43]
alheio ao ensino, que, durante as aulas, entre dengoso e irritadiço, conforme o
resultado, dedicava-se obsessivamente a empoar-se e a alisar o cabelo com
azeite e banha.
surgiu uma novidade que me levou a desconfiar da instrução de Alagoas:
no interior de Pernambuco havia 1899 depois dos nomes da terra e do mês;
escrevíamos agora 1900, e isto me embrulhou o espírito.[44]
Com o esforço para
aguentar-se e trepar, Sebastião Ramos sofria síncopes, desacordava, alarmava os
filhos chorosos, órfãos. Após as visitas duras e cerimoniosas de parentes da
lavoura, aos quais procurava nivelar-se, abatia-se, deitava-se, em tremuras,
anunciava aos gritos que ia morrer.
Vinha o Dr. Mota Lima, dava-lhe um vomitório de substância,
encorajava-o pregando-lhe os óculos grossos de míope. O doente se envergonhava
daquele barulho – e horas depois lisonjeava os proprietários, colaborava na
política.[45]
Durante o enterro de uma
criança, Graciliano ficou com as mãos úmidas e a vista turva ao sentir-se
espiado no ossuário por uma caveira indiferente e com dentes arreganhados que
pareciam zombar dele, em meio a arcarias de costelas e a rosários de vértebras.
Deu-se conta do próprio esqueleto, que tateou ao anoitecer, demoradamente,
impressionado.
Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia jeito de
eliminá-la.[46]
Tornou-se coroinha, de
moderado a fervoroso, ambicionou o seminário, mas trapalhão com os trâmites
litúrgicos, logo desistiu.
Um dia, no quintal, descobri uma de minhas irmãs vestida na batina,
mascarada, fazendo carnaval. Indignei-me, depois encolhi os ombros, insensível
à profanação.[47]
Passou a frequentar com
familiaridade Seu Nuno, o devoto que o encaminhara para ajudante de missa. As
moças da casa, risonhas e tranquilas, moviam-se como peças de máquina vagarosa.
Com elas aprendeu a ironia, misto de malícia e bondade, quando elogiaram com
insistência brejeira o seu paletó cor de macaco.
Percebi afinal que elas zombavam, e não me susceptibilizei. Longe
disso: julguei curiosa aquela maneira de falar pelo avesso, diferente das
grosserias a que me habituara.
Ainda hoje se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as
mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco.[48]
As passagens bíblicas
contadas pelo jovem Padre Pimentel, da família de Seu Nuno, em cujos cenários o
menino via a imagem do sertão pernambucano[49],
as histórias de Trancoso contadas por D. Agnelina, professora pouco
alfabetizada mas talentosa para, durante as demoradas visitas noturnas a sua
casa, despertar-lhe afeição a mentiras impressas, e o estímulo do pai à
leitura, impaciente após três noites, interrompendo a estória de uma família
perdida na floresta – acenderam-lhe o fascínio pela literatura. Com o exemplo
dos astrônomos, capazes de ler céu e estrelas, a prima Emília o encorajou a
enfrentar sua agonia por desvendar as letras para decifrar até o fim a estória
que o pai lhe sonegara.[50]
Padre Pimentel era uma santa criatura e insinuou-me alguns
conhecimentos, os primeiros que aceitei com prazer. Narrou-me a viagem de
Abraão, a vida nas tendas, a chegada à Palestina. Usava linguagem simples,
comparações que atualizavam os acontecimentos. Não hesitei, ouvindo a mudança
de homens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldeia no
interior de Pernambuco.
Aos nove anos eu era quase analfabeto.[51]
Nasceu sua afeição pelo estudo dos dicionários além da mera consulta,
aprendeu história e geografia nas figuras e bandeiras dos exemplares encalhados
da loja do pai, decifrou jornais, folhinhas, almanaques.[52]
Sempre trêmulo e
balbuciante quando acuado por zombarias, guinchos, insultos e desprezo de dois
empregados da loja do pai e de um frequentador boçal, sentiu-se por fim
silenciosamente seguro quando tripudiaram sobre sua pronúncia de “Samuel
Smiles”, que o professor Rijo lhe havia indicado com firmeza.
Imbecis. Tinham decidido por maioria que Samuel era Símiles.[53]
A prima Emília[54]
acusou horrorizada a procedência maligna, protestante, do folheto O menino da mata e o seu cão Piloto, que
ele encontrara como uma dádiva na loja do pai. Afligido pela censura, não
conseguiu terminar de ler o livrinho.[55]
Era obrigado a suportar o frequentador da loja do pai, Fernando,
capanga aparentado do coronelismo local. Saco de pancada do chefe poderoso, o
rapaz espoliava os pobres e desgraçava suas filhas. Graciliano, ao ler sobre
Nero no dicionário, duvidou que o facínora romano pudesse ser mais malvado que
ele. Surpreendeu-se quando Fernando, dobrando a marteladas pregos de uma
madeira de embalagem largada no chão da loja, repreendeu o desleixo dos
empregados que poderia causar acidente em crianças descalças: uma bondade
inesperada, que abalou sua visão do mal.[56]
Conseguiu, afinal,
empréstimos de livros com o tabelião Jerônimo Barreto, num rompante
inexplicável de sua timidez para a ousadia do pedido. Aos dez anos[57],
leu seu primeiro romance, na “prosa fofa” de O guarani. A seguir, seu benfeitor o encaminhou para os folhetins,
que o menino lia, durante as aulas no Internato Alagoano do professor Jovino
Xavier, escondidos em meio ao atlas, onde ele procurava os trajetos dos
enredos, povoando os mapas com fuzuês de Rocambole, estradas e caleças. Passou
a ser visto como um indivíduo esquisito.
Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e
linguagem.[58]
Sebastião Ramos,
circunstancialmente juiz substituto, aproveitou a autoridade momentânea e
mandou prender o mendigo Venta-Romba, que havia assustado a família ao entrar
sem licença em sua casa, para peditórios. Ao ver aquela ruína, banhada em
lágrimas, levada pelo soldado, tropeçando ladeira abaixo, o menino Graciliano
sentiu, lúgubre, um aperto no coração e um vago remorso.
Mais tarde, quando os castigos cessaram, tornei-me em casa insolente e
grosseiro – e julgo que a prisão de Venta-Romba influiu nisto. Deve ter
contribuído também para a desconfiança que a autoridade me inspira.[59]
Conheceu a figura exótica do novo agente do correio, Mário Venâncio,
também seu professor de geografia, que sugeriu nas aulas a fundação de um
jornalzinho. Graciliano e o primo Cícero Teixeira de Vasconcelos (futuro
Monsenhor e senador constituinte[60])
apegaram-se encarniçadamente ao fogo de palha e tornaram-se diretores e
redatores de O Dilúculo, publicação
quinzenal[61]
de duzentos exemplares impressos em Maceió. O
Dilúculo teve dezessete edições, de 24-06-1904 a 16-04-1905. Durante esses
quase dez meses de existência, foi inicialmente apresentado como “Órgão do Internato
Alagoano” e passou a propriedade e redação exclusivas de Graciliano em janeiro
de 1905[[62]].
Em editorial de inauguração assim se explicava o título[63]:
Dilúculo por quê?
Também a inteligência do
homem, se, na infância, se manifesta de um modo vago, indeciso, mais tarde, em pleno zênite, poderá ofuscar com o
esplendor do talento.
Não; não é esta a nossa
comparação. Não nos levamos pela vaidade de estabelecermos uma comparação
absurda.
O título do jornal dá a
entender, apenas, que é ele redigido pela infância, – o dilúculo.[64]
Aos onze anos, publicou suas primeiras produções literárias, refeitas
pelo mentor[65],
como o conto “Pequeno pedinte” no primeiro número, de 24-06-1904, assinando G.
Ramos, ou “Paisagem”, em 11-08-1904, assinando Ramos Oliveira.[66]
Pequeno
pedinte
Tinha oito anos.
A pobrezinha da criança
sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmolas aos
transeuntes caridosos, tinha oito anos.
Oh! Não ter um seio de
mãe para afogar o pranto que existe no seu coração.
Pobre pequeno mendigo.
Quantas noites passara
dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.
Quantas vergonhas não
passara quando ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o
motejo. Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis.
É domingo.
O pequeno está à porta da
igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de
Deus.
Diversos indivíduos
demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida.
Terminada a missa, volta
quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.
Depois vêm os dias, os
meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o
negro pão amassado com o fel da caridade fingida.
G. Ramos[67]
Paisagem
(Ao professor Jovino)
Na eminência, muito
branca, com o seu vasto alpendre povoado pelo rumor das colmeias, surge a
campesina habitação, dominando a várzea. O sol, flamejante, mergulha por trás
das altas serranias, refletindo seus derradeiros raios nas quietas águas do
açude, onde os palmípedes deslizam entre os nenúfares. Não longe, despida de
reboco, com a sua elevada chaminé, de onde se desprende um vapor negro,
destaca-se a casa do engenho, do verde pérola da colina. As senzalas
distendem-se mais à distância. Os rebanhos, guiados por um rapazola trêfego,
voltam ao aprisco.
E o gado manso no serviço
dos campos, rumina tranquilamente, sobre os resíduos da cana. Pela ladeirinha
que conduz ao mais alto da colina, desce um velho africano com grande feixe de
lenha à cabeça. Mísero! Tão velhinho já, e ainda condenado àquele penoso
trabalho!
Súbito, o silvo do vapor
que faz rolar as moendas, corta o silêncio do campo, que já vai adormecendo no
crepúsculo.
A tarde brumosa e
melancólica extingue-se lentamente e a noite desce cheia de estrelas. Branca,
como a prece da infância, a lua sobe para o azul translúcido.
Ramos Oliveira[68]
Frequentava as tertúlias
e a redação de O Dilúculo na
residência-agência-de-correio de Mário Venâncio, no morro do Pão-sem-Miolo,
convertida em “asilo de doidos”. O mestre viu em seus escritos sinais de
Aluísio Azevedo, de Coelho Neto e profetizou o futuro escritor, orientando-o,
para seu desgosto, à insipidez e obscuridade da grande literatura.
Não me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos,
viagens, questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou
mortos.
Acanhado, as orelhas ardendo, repeli o vaticínio: os meus exercícios
eram composições tolas, não prestavam. Sem dúvida, afirmava o adivinho. Mas eu
faria romances.
E, desatento, andava na rua aos encontrões, meio cego, meio surdo.
Nunca descreveria um candeeiro como o de metal amarelo que iluminava com azeite
e difíceis pavios, duas páginas das Cenas
da vida amazônica. Os candeeiros me passavam despercebidos. E seriam
necessários?[69]
Em meio a escapadas aos
folhetins de Ponson du Terrail, Pérez Escrich, Paul de Kock, o menino
Graciliano lia Julio Verne, Cervantes, Swift, Defoe, Victor Hugo, Zola, Aluísio
Azevedo, Balzac[70].
Com moedas roubadas da loja do pai, encomendava livros pelo correio, através
dos catálogos da Garnier e da Francisco Alves.
Esses delitos não me causavam remorso. Cheguei a convencer-me de que
meu pai, encolhido e avaro por natureza, os aprovava tacitamente.[71]
Passou a frequentar a Escola Dramática Pedro Silva[72],
a Sociedade Amor e Caridade, a Sociedade Recreativa e Instrutora Viçosense:
“uma vasta sala com duas estantes que constituíam a biblioteca, a mesa comprida
no centro cheia de jornais e revistas do país e do estrangeiro, que recebíamos
gratuitamente da França, Inglaterra, Itália, Portugal, Argentina, Estados
Unidos” – como lembrou em 1953 o amigo Pinto da Mota Lima[73].
Em Infância, Graciliano confessou a
lembrança envergonhada do precoce orador:
O discurso que fiz na Amor e Caridade foi um desastre.[74]
Um hóspede intruso,
encarregado de fundar loja maçônica na cidade, entre manifestações de
malandragem ponderosa, depreciou o conto “Pequeno pedinte”. Para alívio vingativo do menino, o líder maçom fez o pai
desinteressar-se pelo Supremo Arquiteto do Universo depois de dar-lhe um golpe
com empréstimo de dinheiro.[75]
Apreendeu confusamente o interdito homossexual
com o colega que, sempre acuado como por um processo secreto, levava
cotidianamente surras violentas, aplicadas na escola pelo diretor, e, em casa,
pelo pai. Tinha cheiro de formiga e mofo, era desprezado por todos e assediado
pelos alunos mais velhos com bilhetes, acenos, remoques. Com o tempo, tornou-se
um criminoso cruel e protegido, bacharelou-se ameaçando examinadores, fundou um
jornal, vingou-se do velho diretor empobrecido dando-lhe um emprego mesquinho,
teve mulheres e foi assassinado.[76]
Brotou a sexualidade
inflamada que desorientou o precoce. Apesar da afeição pelas heroínas loiras
dos folhetins, apaixonou-se pela colega sabida em sintaxe, a moreninha Laura.
Substituiu tamancos e camisas de algodão sem colarinho por gravata vermelha,
terno e chapéu. Recostado à janela da
Escola Dramática, alheio aos ensaios
de seu grupo, permanecia secretamente ansioso até ao anoitecer para vê-la ao
longe em sua casa. Para suprimir as indecências, embrulhou e escondeu O cortiço. Atenazado pela figuração da
amada, em fantasias oscilantes entre a espiritualidade e o sexo, foi aconselhado à segunda via pelo amigo
empregado da loja, que o alertou para o risco de loucura e conduziu o menino de
onze anos de idade à prostituta Otília da Conceição.
Entrei em casa nauseado, engolindo soluços.
Correram semanas. Adoeci. A artrite amarrou-me à espreguiçadeira, o
meu desgraçado corpo se cobriu de manchas. Capengando, abri a estante, exumei O cortiço, desempacavirei-o, restituí-o
à convivência dos outros romances. Não me inspirava curiosidade. E já não era
objeto de aversão.[77]
Presenteado pelos avós
maternos, tornou-se proprietário, como conta Clara Ramos:
Aos doze anos, ele recebera dos avós maternos o pedaço de terra que
lhe dá os rendimentos de sua própria criação de gado.[78]
1905 –
Maceió
Aos doze anos, Graciliano
mudou-se para Maceió como aluno do Colégio
Quinze de Março, internato do Prof. Agnelo Marques Barbosa.
No colégio de Maceió, onde estive pouco tempo, fui um aluno medíocre.[79]
Tornou-se autodidata,
estudou línguas, leu traduções dos russos Gogol, Tchecov, Andreiev,
Dostoiévski. Antes de fixar sua simpatia, acima de tudo, por Tolstói[80],
impressionou-se inicialmente com Gorki,
Eça de Queiroz[81]
e Casa de Pensão.
1906-1910 –
Viçosa
Aos treze anos, de volta
a Viçosa[82],
lançou o quinzenário Echo Viçosense,
a 1º de fevereiro de 1906, referido no corpo de redatores como “Oliveira Ramos”[83],
ao lado de Rodrigues Maia, Constantino Falcão, Saturnino Accioly, Julio Accioly
e Mário Venâncio[84].
Após o suicídio de Mário Venâncio, o jornal encerrou suas atividades no segundo
número, publicado em edição extraordinária para homenageá-lo.
Esse amável profeta bebeu ácido fênico. Levantei-me da
espreguiçadeira, onde me seguravam as novidades e os sofrimentos da artrite e
de uma novela russa, fui encontrar o infeliz amigo estirado no sofá, junto a
uma mesa coberta de papéis, brochuras, pedaços de lacre, almofadas e carimbos.[85]
Graciliano publicou no
primeiro número do Echo Viçosense:
Dolente
I
– Perdi amor e esperança; acabaram-se as minhas ilusões! E o rapazito
trêmulo enxugava, convulsivamente, os olhos chorosos e vermelhos à manga curta
da jaqueta parda.
– Perdi o meu amor! Morreu aquela a quem tanto amava, sim, morreu em
meu coração!... Novas lágrimas orvalharam-lhe os olhos que se fixavam em um
ponto do horizonte onde as trevas da noite se amontoavam. O peito do mísero
arfava com força; um tremor convulso se apoderava dele, sua cabeça ardia, tinha
horror de si próprio!
Na escura cabana o silêncio da noite era apenas interrompido pelo arfar
de seu peito.
Na escuridão do céu algumas estrelas reluziam, apenas. Em sua grandeza
a floresta inteira afigurava-se-lhe uma lúgubre procissão de espectros. Formas
brancas apareciam e desapareciam como fantasmas. Às vezes pios lúgubres
quebravam o silêncio: eram as corujas empoleiradas nos esguios ramos dos
salgueiros.
O vento sibilava através da folhagem.
II
Amanhecia.
No azul, muito branca e muito pura desmaiava a estrela matutina. Uma
forte rajada havia varrido as nuvens tenebrosas.
Um pastorzinho conduzindo o seu rebanho passara cantando uma trova
campestre e sorria descobrindo o mísero que, sentado à soleira da cabana, tinha
ainda os olhos úmidos do pranto vertido naquela noite de desespero. No entanto,
ele olhava, distraidamente, o verde mar das florestas. Ah! Mas bem depressa um
frêmito percorrera-lhe os membros. Todo ele tremia.
A aragem fresca da manhã trouxera-lhe aos ouvidos perfeitas
gargalhadas argentinas, e ela, ela, a cruel, passara em um grupo de crianças,
passara altaneira sem ao menos lançar-lhe um olhar de compaixão! Ele, no
entanto, com um olhar súplice, implorava a piedade daquela a quem amava tanto!
– Morreu, morreu para o meu coração que já não tem vida, morreu a
minha última esperança! soluçava sentido.
Viçosa, 16 de janeiro de 1906 Feliciano[86]
Aos quatorze anos
publicou sob pseudônimo[87]
dois sonetos em O Malho. Graciliano
dedicou-se à poesia aproximadamente por oito anos, de 1907, com 14 anos de
idade, até 1914[[88]],
quando, no Rio de Janeiro, aos 22 anos,
encerrou sua carreira de poeta.
Segue a lista[89]
em ordem cronológica de todos os poemas e pseudônimos encontrados nos
periódicos[90],
com indicação das datas de publicação antecedidas pelas siglas: M – O Malho (com o número da edição), JA – Jornal de Alagoas, CM – Correio de Maceió, AG – Argos, e, para o crédito dos pesquisadores que os localizaram: [FAC] –
Fernando Alves Cristóvão e [MMS] – Moacir Medeiros de Sant’Ana[91]:
-Incompreensível-Feliciano
Olivença-M-250,29-06-1907[MMS]
-Confissão-Feliciano de
Olivença-M-251,06-07-1907[MMS]
-Céptico-Almeida
Cunha-JA,10-02-1909[MMS]
-Sonho de
um doudo -
S. de Almeida Cunha - JA,13-02/ M-340, 20-03-1909 [MMS]
-Noite de
inverno-Almeida
Cunha-JA,18-02-1909[sem transcrição][MMS]
-Esperança
morta-Almeida
Cunha-JA,26-02-1909[sem transcrição][MMS]
-Inverno-Almeida
Cunha-JA,04-03-1909[sem transcrição][MMS]
-A gôndola - Soares de Almeida Cunha
- JA, 10-03-1909 [sem transcrição]
[MMS]
-O mar-S. de Almeida
Cunha-JA,24-03-1909[MMS]
-Pela
estrada do amor-Almeida Cunha-M-342,03-04-1909[FACeMMS]
.
-A tormenta-S. de Almeida
Cunha-JA,23-04/M-356,10-07-1909[MMS]
-Por estas
noites-S.
de Almeida Cunha-M-360,07-08-1909[MMS]
.
-Triolets-S. de Almeida
Cunha-M-380,25-12-1909[FAC]
-Geyser-S. de Almeida
Cunha-JA,12-01-1910[MMS]
-Olhando um
quadro-S.
de Almeida Cunha-JA,16-01-1910[MMS]
-Partenza
tua - S.
de Almeida Cunha - JA,12-03/ M-417, 10-09-1910 [FACeMMS]
-Devaneio-S. de Almeida
Cunha-M-414,20-08-1910[FACeMMS]
.
-Na
penumbra-S.
de Almeida Cunha-M-420,01-10-1910[FACeMMS]
-Argos-Soeiro Lobato-AGn.2,out
1910/M-575,20-09-1913[FACeMMS]
-A coruja-Soeiro Lobato-AGn.5,jan 1911/M-456,10-06-1911[FACeMMS]
-Velhas
páginas-Soeiro
Lobato-M-434,07-01-1911[FACeMMS]
.
-Um soneto-S. de Almeida
Cunha-M-450,29-04-1911[FACeMMS]
.
-Never Mind!!-Soeiro
Lobato-M-459,01-07-1911[FACeMMS]
-Desejo
infrene-Soeiro
Lobato-M-463,29-07-1911[FACeMMS]
-Desterrado-Soeiro
Lobato-M-466,19-08-1911[FACeMMS]
-Batalha-Soeiro
Lobato-CM,21-09/M-475,21-10-1911[FACeMMS]
-A caminho-Soeiro Lobato-CM,22-09-1911[MMS]
-A aranha-Soeiro
Lobato-CM,01-10/M-482,09-12-1911[FACeMMS]
-Último
sonho de Cleópatra-Soeiro Lobato-CM,03-10-1911[MMS]
-O piolho-Soeiro
Lobato-CM,06-10-1911[MMS]
-Cobra
mansa-Soeiro
Lobato-M-489,27-01-1912[FACeMMS]
-Balada-Soeiro
Lobato-M-492,17-02-1912[MMS]
-Balada-[outro poema]Soeiro
Lobato-M-495,09-03-1912[MMS]
-Na Igreja-Soeiro
Lobato-M-520,31-08-1912[FACeMMS]
-A cavalo-Soeiro
Lobato-M-565,12-07-1913[FACeMMS]
-Ritorno-Soeiro
Lobato-M-569,09-08-1913[FACeMMS]
-A velha
cruz-Soeiro
Lobato-M-571,23-08-1913[FAC]
-Cemitério
campestre-Soeiro
Lobato-M-572,30-08-1913[FACeMMS]
-O velho tronco-Soeiro
Lobato-M-640,19-12-1914[FAC]
O menino que aos nove anos era quase analfabeto revelou, desde a
estreia, riqueza e propriedade de léxico, forte domínio tanto de articulação
textual como de aproveitamento imagético e muita habilidade para a
versificação:
Incompreensível[92]
À Alda.
Ouve, querida, não te compreendo:
Outrora, mesmo como um passarinho
Alegre e saltitante sobre o ninho
Vivias rindo e do amor descrendo.
Então sobre teu rosto eu ia lendo
Que a tua alma tão pura como o arminho
Não trilhava de amor esse caminho
Que eu trilhando tão triste ia vivendo.
Tudo mudou, teu rosto agora é triste,
A palidez de cera cobre-o todo,
E de alegre em teus olhos nada existe;
Hoje, se te pergunto, não respondes
Por que andas tão triste deste modo...
Baixas os grandes olhos e os escondes.
Maceió. Feliciano Olivença
(O Malho,
22-06-1907, ed. 249, t. 31)
Publicou o segundo soneto
em O Malho, no mês seguinte, com o
pseudônimo agora preposicionado:
Confissão[93]
(À senhorita Aurea
Accioly)
Não quero merecer um sorriso de amor
Daquela que atormenta e que fere meu peito;
Não quero mitigar ao menos minha dor
De lágrimas regando um coração desfeito.
Tragarei sem tremer a taça do licor
Amargo que o destino a mim sempre tem feito
Beber, mas sem mostrar o profundo terror
Que o coração me empolga e o lacera sem jeito.
Lamentarei, sozinho, a forte dor tão funda
Que o peito me devora, esta dor lancinante,
Que mata, lentamente, e que afinal é oriunda
Dos agrores do amor, e da sinistra sorte,
Que me persegue sempre, embora, agonizante,
Eu só possa esperar a placidez da morte...
Maceió Feliciano de Olivença
(O Malho,
06-07-1907, ed. 251, t. 14)
Nestes últimos anos de
residência em Viçosa, Graciliano aprofundou a amizade de afinidades
intelectuais com os irmãos Rodolfo e, principalmente, Joaquim, entre outros
filhos do vizinho farmacêutico Dr. Mota Lima[94].
Não há registro de publicação de poemas durante o ano de 1908. Em 1909 adota o
pseudônimo “Almeida Cunha” e variações como “S. de Almeida Cunha” e “Soares de
Almeida Cunha”.[95]
Céptico[96]
A
Vasco Tavares[97]
Quanto mais para o céu ergo o olhar compungido,
De tristeza repleto e de esperança vazio,
Mais encontro impiedoso, agitado e sombrio
Sempre o céu que me abate e me torna descrido.
É em vão que a crença busco, embalde fantasio
Meu passado sem névoa, meu passado perdido...
Só sinto o coração pulsando dolorido[98]
Ao peso glacial de um cepticismo frio.
Tenho a cabeça em brasa e o pensamento enfermo.
A alma se me compunge e tudo é triste e ermo
Nos arcanos sem fim de um peito esquelético.
Pesada treva envolve o meu olhar ardente,
E mais fico agitado e mais fico descrente
Quanto mais para o céu ergo os olhos de céptico.
Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 10-02-1909)
A partir de 1909, o poeta adolescente passou a
enviar para O Malho também alguns dos poemas que havia publicado
nos periódicos de Alagoas[99]:
Sonho de um doudo
Às minhas
visões
Como num sonho oriental submerso,
Às vezes fico a meditar, cismando,
Longe da terra o pensamento voando,
O olhar exangue de ilusões asperso.
Vejo em revoada, pálido e disperso,
De belas formas feminis um bando
Que, vaporoso, foge se evolando
Em brancas nuvens diáfanas imerso.
Bocas vermelhas, palpitantes e úmidas,
Pomas ebúrneas, rígidas e túmidas
Vejo através do pensamento infrene...
E quando acordo, pálido e tristonho,
Por essas formas virginais de sonho
Sinto um desejo lúbrico e perene...
Viçosa, Alagoas S. de Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 13-02-1909; O Malho, 20-03-1909, ed. 340, t. 42)
Publicou mais quatro poemas no Jornal de Alagoas (sem acesso)[100]:
Noite de inverno, de Almeida Cunha, Viçosa - 12-02-1909, em 18-02-1909
Esperança morta, de Almeida Cunha, Viçosa - 15-02-1909, em 26-02-1909
Inverno, a Manoel Teixeira de
Vasconcelos, de Almeida Cunha, 04-03-1909
A gôndola, de Soares de Almeida Cunha, em 10-03-1909
O Jornal de Alagoas noticiou, em 18-03-1909, a visita à redação do “inteligente
moço Graciliano Ramos de Oliveira, nosso apreciado colaborador”, como registra
Moacir Medeiros de Sant’Ana.[101]
Parte da obra,
entretanto, o poeta federal de O Malho
limitou à projeção estadual, como neste poema publicado, aos dezesseis anos, no
Jornal de Alagoas:
O Mar[102]
No profundo rugir doloroso, tristonho
Que vives a soltar nas grandes noites ermas,
Interpreto o sofrer prolongado, medonho
Dessas ondas enfermas.
Não sei que dor te vence, ó soluçante e cavo
Neurastênico mar convulsivo e impetuoso,
Quando quebras na praia, enlouquecido e bravo,
Teu dorso espumoroso.
Em teu longo prantear, que a tristeza derrama
Em minh’alma, eu traduzo a tortura de um céptico
Que se estorce, desvaira e, compungido, brama
Com fúrias de epiléptico.
Qual um doido a bramir, continuamente em febre,
Vives como expiando um torvo e horrendo crime...
Quem há que esse grilhão da mágoa horrível quebre
Que te doma e te oprime?
De teus gritos de dor, lancinantes e fundos,
Nada posso entender, atro oceano queixoso...
Nem te posso sondar os arcanos profundos,
Velho mar misterioso.
Maceió, 17 de Março de 1909 S. de Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 24-03-1909)
O cosmopolitismo da
revista carioca O Malho, com linha
editorial de sátira política[103],
atualizava e alimentava o jovem provinciano. A partir dos dezesseis anos, além
da participação local em Jornal de
Alagoas, Correio de Maceió e Argos, Graciliano intensificou o envio
de poemas para esse importante periódico de circulação nacional. A Caixa do Malho,
seção da correspondência conduzida pelo burlesco Dr. Cabuhy Pitanga[104],
entre várias respostas desaforadas, apresentou respeitosamente, em uma de suas
manifestações a sério, a listagem de poemas aceitos para publicação, incluindo
o Pela estrada do amor, de Almeida
Cunha.[105]
Pela estrada do amor
Venho trilhando pela estrada incerta
Cheia de espinhos e de abrolhos cheia
Onde te vi seguir risonha e alheia
À agra saudade que meu peito aperta.
Para beijar-te a minha boca anseia
Em convulsões, doridamente aberta,
E o meu olhar ensanguentado, alerta
A estrada sonda, ressequida e feia.
Vejo-te ao longe, o vulto iluminado
Pela cáustica luz de um sol ardente...
E exausto, doido, ansioso e desvairado,
Corro, mas tombo dolorosamente,
Os pés sangrando e fito o olhar magoado
Num céu de bronze ensanguentado e quente.
Viçosa, Alagoas. Almeida Cunha
(O Malho,
03-04-1909, ed. 342, t. 40)
Assim, publicou
periodicamente poemas no Jornal de
Alagoas e em O Malho, como
também, com menos intensidade, no Correio
de Maceió e em Argos.
A tormenta
Um diabólico alvor de
relâmpagos brilha
Sinistramente no ar
umedecido e baço.
Tudo negror. E o vento
entoando em tonadilha
Queixas e maldições,
arqueja de cansaço.
Ribomba a quando e
quando, em lúgubre fracasso
Um trovão demorado, e a tétrica
mantilha
Que se ergue apavorante e
densa no ar, de espaço
A espaço um raio fende e,
ensanguentado, trilha.
No profundo negror dos
encharcados ermos
Julgo ouvir, no rolar
merencório das águas,
Lamentações de dor e
gemidos de enfermos...
Pavor em tudo e em tudo
um tiritar de morte,
Coaxam sentidas rãs. E um
soluço de mágoas
Voa no atro rugir
gargalhante do norte.
(Viçosa, Alagoas) S. de Almeida Cunha
(Jornal de Alagoas, 23-04-1909; O
Malho, 10-07-1909, FCRB, nº 356, t. 28)[106]
Por estas noites...
Não sei que febre de pecar me invade
Por estas noites tácitas e quentes,
– Noites cheias da tíbia claridade
Dos astros – noites tristes e silentes.
Nestas horas – que horror! – embora nade
Um luar de prata pelo espaço, ardentes
Os lábios sinto. E que cruel saudade
Aos olhos traz-me lágrimas ferventes!
Tremo excitado, em lúbricos anseios,
Lembrando ebúrneas formas femininas
De rijos colos e marmóreos seios...
E ao perpassar das grandes noites, teimam
Me enebriando estas visões divinas
Que a minha mente enfebrecida queimam.
(Viçosa, Alagoas) S. de Almeida Cunha
(O
Malho, 07-08-1909, FCRB, nº 360,
t. 36)[107]
Triolets[108]
Segue a viagem, minha amada,
Que é necessário que tu partas
Nada de dor, de pranto, nada...
Segue a viagem, minha amada.
Tens de prazer a alma cansada,
Temos de amor as almas fartas...
Segue a viagem, minha amada,
Que é necessário que tu partas.
Oculta
a dor da despedida,
Ostenta
o riso no semblante.
Por
que soluças comovida?
Oculta
a dor da despedida
Não
se desvende na partida
Teu
coração febricitante.
Oculta
a dor da despedida,
Ostenta
o riso no semblante.
Com tanto amor a carne cansa,
Com tanto amor a alma não pode.
Se de prazer tens esperança,
Com tanto amor a carne cansa.
Meu coração hoje descansa,
Teu coração que se acomode.
Com tanto amor a carne cansa,
Com tanto amor a alma não pode.
Por
que mostrar tanta tristeza
Em
teu semblante doentio?
Tua
pupila em fogo acesa
Por
que mostrar tanta tristeza?
Tu
tens a vista ardente presa
Em
meu olhar triste e vazio...
Por
que mostrar tanta tristeza
Em
teu semblante doentio?
Já tanto amamos, no entretanto
Para gozar inda palpitas...
Levas o olhar raso de pranto...
(Já tanto amamos, no entretanto!...)
E em tanto amor, em gozo tanto
Que de carícias inauditas!
Já tanto amamos, no entretanto
Para gozar inda palpitas.
Levas
a ebúrnea palidez
Na
bela fronte alva de neve.
(Quanta
mudança num só mês!)
Levas
a ebúrnea palidez
No
rijo colo ardente, em vez
Do
róseo tom mimoso e breve,
Levas
a ebúrnea palidez
Na
bela fronte alva de neve.
Teu níveo seio imaculado,
Ora palpita, ora estremece,
A recordar-se do passado.
Teu níveo seio imaculado,
Lírio no hastil desabrochado,
Ao rijo sol da dor fenece.
Teu níveo seio imaculado,
Ora palpita, ora estremece.
Quanta
tristeza em tua boca,
A
mesma boca que sorria
Ébria
de amor, de gozo louca!
Quanta
tristeza em tua boca
Que,
contraída, agora evoca
Todo
um passado de alegria!
Quanta
tristeza em tua boca,
A
mesma boca que sorria...
Vamos! Sufoca na garganta
Este soluço que te invade.
Este gemer, que não me espanta,
Vamos! Sufoca na garganta
De tanto amor, ventura tanta
Que mais guardar, senão saudade?
Vamos! Sufoca na garganta
Este soluço que te invade.
E,
francamente eu te confesso,
Já
chega o tempo da fadiga
Também
nos cansa o amor em excesso...
(E,
francamente eu te confesso)
Dentro
do peito eu já começo
A
me esquecer da quadra antiga
E,
francamente eu te confesso,
Já
chega o tempo da fadiga.
S. de Almeida Cunha – Viçosa
(Alagoas)
(O Malho,
25-12-1909, ed. 380, t. 33)
Geyser
Nas estranhas regiões da alva Islândia nevoenta
Muitas vezes do solo incerto, acidentado,
Rompendo a crosta branca, o terreno gelado,
Do "geyser" rijo e forte o alto jato
rebenta.
Assim também, senhora, em meu peito fermenta
O amor feroz, o amor – o gérmen do pecado –
A bramar, a rugir, num furor concentrado,
Num doido tumultuar de rígida tormenta,
Que importa que a aparência impassível e calma
Do semblante não mostre o que vai dentro d'alma
– A fúria das paixões em convulsiva guerra –
Se a contrastar, feroz, com a calma do semblante
Ruge no peito o amor, o indomável gigante
Como um "geyser" queimando o coração da
terra?
S.
de Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 12-01-1910)[109]
Olhando um
quadro
Bela tarde outonal de nuvens tremulantes:
Umas cor de safira, essas verdes, aquelas
Raiadas de opalina, essas outras cambiantes,
Com laivos cor de sangue e listras amarelas.
Tarde cheia de odor de rosas desfolhadas,
Plena do sussurrar indistinto de insetos
Zumbindo, do arvoredo ocultos nas ramadas,
Melodiosas canções nuns acordes secretos.
Da cordilheira, ao longe, a velha grimpa escura
Rompe do firmamento as nuvens multicores
E com o vivo matiz do ocaso se mistura
Pondo na terra inteira um contraste de cores.
À tíbia luz solar cambiante que desmaia,
Há um misto de alegria e um misto de tristeza
Das gramíneas em flor na fronde verde-gaia
Destacando-se ao pé do sarçal que se enfeza.
Tremulam do bambual tristonho, quando e quando
As hastes sacudindo, as velhas ramas pecas
Enquanto passa no ar, em revoada bailando,
Uma nuvem febril de inquietas folhas secas.
Para as bandas do oriente, oculto já nas sombras
Da noite, se distende o capinzal que ostenta
Entre verdes frouxéis de viçosas alfombras
Uma vegetação de cor amarelenta.
Olhando em derredor, tudo o que a vista alcança
É um fulvo milharal, um infinito tesoiro
Que brilha muito vivo e fulge à semelhança
Dum estranho painel feito de espigas de oiro.
Volateando pelo ar, um cardume de araras
Conversa alegremente e, a conversar parece
Que fala da colheita, analisando as searas,
E discute, parlando a abundância da messe.
Em tudo a calma, em tudo a paz das coisas santas:
Nas hortas, nos casais, no bosque, no gramado
No maduro pomar, cujas frutas são tantas
Que rolam pelo chão de folhas tapetado.
E, ao último fulgor do dia que se deita
E com triste negror da noite já se alterna,
Ri-se a moça aldeã de volta da colheita,
Mostrando ingenuamente um pedaço da perna...
S. de
Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 16-01-1910)[110]
Partenza
tua
Hoje que não te vejo, hoje que ausente,
Não posso olhar-te, tudo me convida
A só pensar naquela despedida
Que me anda agora a revolver a mente.
E – a alma plena de angústia, a alma ferida –
Inda recordo dolorosamente
Teu olhar, negro olhar, olhar ardente
Derradeira lembrança da partida.
Vejo teu vulto a se perder na curva
Da estrada, e – a vista carregada e turva
A demonstrar a dor que me domina –
Creio inda ver, ao longe, no ar suspenso,
A se agitar, um pequenino lenço
Entre a cerrada névoa matutina.
S. Paulo[111] S. de Almeida Cunha
(Jornal de
Alagoas, 12-03-1910; O Malho,
10-09-1910, ed. 417, t. 29)[112]
Devaneio
Tantas passaram, gárrulas, em bando
Tantas que já nem me recordo a conta,
Foram-se rindo, o meu olhar fitando
Numa constante e destemida afronta:
E ainda a turma feminina aponta
A rir... No entanto, aflita, doidejando,
Minh’alma é sempre a mariposa tonta
A meiga luz de teu olhar buscando,
– Formas risonhas de mulheres belas
Passai! vamos, passai! Deixai comigo
Minhas quimeras pálidas, singelas.
Ela somente eu busco apaixonado,
Ela, talvez o derradeiro abrigo
Deste meu velho coração fanado.
(O Malho, 20-08-1910, ed. 414, t.
34)
Em entrevista descoberta
em 1959 pelo pesquisador Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano aparece aos
dezessete anos no Jornal de Alagoas
de 18-09-1910, convidado como um dos caçulas da intelectualidade alagoana[113], a qual vinha
respondendo,“à maneira do que na capital federal fez João do Rio”, a “Um
Inquérito”, promovido sob a chamada: “A Arte e a Literatura em Alagoas – O que
são, o que pensam, o que leem nossos artistas e literatos – Qual a escola predominante
entre nós – O Jornalismo”. O jovem Graciliano discorreu sobre literatura
brasileira, contrapondo à ingenuidade do indianismo de suas primeiras leituras
de menino crédulo, historiadores e cronistas do descobrimento, como Léry,
Gabriel Soares e Southey, que descreveram a selvageria dos nativos. Ainda assim
considerou a poesia indianista de árcades e românticos a única expressão
autêntica de arte nacional. Confessou suas atividades líricas e afirmou ser
afeiçoado à poesia parnasiana, apesar de preferir a prosa e o realismo, a
“escola do futuro”, sublinhando suas predileções pelo “realismo nu” de Adolfo
Caminha, pela “linguagem sarcástica” de Eça de Queiroz e pelo afrontamento da
sociedade atrasada na fatura sincera de Aluísio Azevedo, com destaque a Casa de pensão. Apontou o jornalismo
como fundamental, não só para a literatura. Entendeu que a literatura
brasileira era pouco divulgada fora do país por ser o português a língua menos
conhecida entre as “novo-latinas”. Posicionou-se sem radicalismo quanto a linha
fonética ou etimológica na ortografia, seguindo a usual por falta de
conhecimento para praticar a etimológica. Foi ponderadamente entusiasta em
relação à cultura alagoana e à evolução do pensamento brasileiro. Citou em
francês Pascal e crônica de teatro, com minucioso conhecimento de atores,
teatros e peças, de dramaturgos, como Martins Pena, de seus críticos, como
Sílvio Romero. Criticou a proposição de uma academia alagoana de letras, que
seria uma “panelinha acadêmica”, mera caricatura da brasileira. Assinou: G.
Ramos de Oliveira.
Antes de penetrar no labirinto mais ou menos intrincado deste
Inquérito, cujos quesitos não poderei responder com precisão, devo dizer que o Jornal de Alagoas cometeu um erro grave
colocando-me entre os literatos alagoanos.
Minhas ideias tem pouco valor, porque de literatura pouco conheço.
Não quis ser dos primeiros, desejaria mesmo ser o último.[114]
Continuou com as
publicações de poemas, principalmente em O
Malho, usando pela penúltima vez, dentre o que foi localizado, o pseudônimo
S. de Almeida Cunha:
Na penumbra
Esta sombria e lúgubre
vereda,
Cheia de sombras rígidas,
conjuntas,
Nem mais um traço mostra
da alameda
Onde passaram nossas
almas juntas.
Tudo é floresta
emaranhada e treda
Onde só se ouvem as
lúgubres perguntas
Que triste, o vento, a
soluçar segreda
Nas ramagens das árvores
defuntas.
E eu habito este bosque,
e, na penumbra,
Muitas vezes, assim como
um bom sonho
Meu vivo olhar teu vulto
além vislumbra.
Fico, porém, sem forças
no caminho,
Febril, exausto, pálido,
tristonho,
Frio, arquejante,
trêmulo, sozinho...
S. Paulo S. de Almeida Cunha
(O Malho, 01-10-1910, ed. 420, t. 30)[115]
Como transcreve Moacir M.
de Sant’Ana em A face oculta de
Graciliano Ramos, a revista Argos nº
2, de outubro de 1910 anunciou, com entusiasmo, carta à redação, datada de
Viçosa, 29 de setembro, assinada por Manoel Maria Soeiro Lobato:
Reside na florescente e adiantada cidade de Viçosa esse moço talentoso
e modesto, que, oculto à sombra do nome glorioso do velho clássico lusitano,
surpreendeu-nos agradavelmente com uma boa carta literária acompanhada de
inspirados e bem trabalhados versos intitulados “Argos”...[116]
O remetente ofereceu o
soneto à nova revista maceioense e fingiu ser apenas um leitor da série de
entrevistas do Inquérito do Jornal de Alagoas, para, de acordo com
um quesito que lhe chamou a atenção pela relevância, propor o desenvolvimento
das letras alagoanas através de revistas como aquela, desejando-lhe vida mais
longa que uma publicação anterior, Exedra
(julho de 1907)[117]. Garantiu que o poema
foi produzido “em janeiro do ano passado”, antes do aparecimento da revista, a
coincidência da homonímia não tendo, portanto, nenhuma intenção bajulatória. Se
por falta de outra coisa quisessem publicar o soneto, pediu que não fosse
alterada a ortografia de palavras ali transcritas de acordo com a lição de
Cesare Cantù.
Eu mesmo, se tivesse de dizer alguma coisa sobre as questões que o
“Jornal” apresenta aos literatos de nosso estado, lembraria a criação de uma
revista que, como O Malho, aceitasse
colaboração dos literatos incipientes.
Mas não sou literato, nem poeta, nem simples amador. Escrevo pouco,
raramente publico o que escrevo.
Tenho sempre pensado comigo mesmo que não tenho o direito de cultivar
coisas que minha inteligência não chega a compreender.
Argos [118]
Na grande nave grega,
olhos limpos, serenos,
Fitando o manto azul dos
vastos horizontes,
Corta os mares da
Thracia, em busca de Propontis
A heroica expedição dos
rígidos helenos.
Longe, no imenso azul,
destaca-se de Lemnos
A forma secular dos
altaneiros montes;
Ouve-se o marulhar de
peregrinas fontes,
Soam flautas febris em
cristalinos trenos.
E desliza, a correr
mansamente, a grande Argos,
Sulcando, descuidosa, os
mares vastos, largos,
Da Kolchis fantasiando o
mágico tesoiro.
Que o instrumento de
Orpheus serenamente embale-a,
E um dia volte à patria o povo da Thessalia
Conduzindo, triunfante, o
rico velo de oiro.[119]
Soeiro
Lobato
1910 -1914 – Palmeira dos
Índios
A irmã Leonor, depois de
casada, mudou-se para Palmeira dos Índios seguindo orientação médica que lhe
recomendara o clima seco do sertão. Sebastião Ramos avaliou a praça e resolveu
que a família deveria acompanhar o jovem casal[120].
Como relata Valdemar de Souza Lima:
Assim, entre outubro de 1910 e janeiro de 1911, sob o pretexto de
salvar a filha enferma, Sebastião Ramos, já então “promovido a coronel”,
mudou-se com os seus para Palmeira dos Índios, a fim de começar vida nova.[121]
Sebastião Ramos, depois
de sondagens cuidadosas e negaças, adquiriu uma loja em Palmeira dos Índios, e
também, por meio de barganhas depreciativas, um sítio com terreno útil para a
criação de gado e instalações precárias de máquina a vapor para descaroçar
algodão.[122]
No dia 27 de outubro de 1910, chegado pela manhã, Graciliano entrou no
estabelecimento, pôs o paletó no cabide e foi ajudar o pessoal que suava na
formulação do balanço. Exatamente naquela data ele completava 18 anos.[123]
Em janeiro de 1911, Sebastião Ramos alugou uma casa na Rua de Baixo e
mandou buscar o restante da família, então ainda residindo em Viçosa, e nela a
instalou.[124]
Na primeira das cartas
coligidas pela viúva Heloísa Ramos e publicadas em 1980, Graciliano Ramos em
14-11-1910 perguntava à mãe sobre a saúde das crianças mais novas da família,
as irmãzinhas Marili e Carmem. Com gaiatice de verve intelectualizada reclamou
por suas ceroulas – “estou quase nu” – e prometeu aparecer dali a uns dez anos.
Aqui estamos todos bons nesta santa Palmeira, terra que, se não é boa,
sempre é menos ruim do que eu julgava. Aqui não há cafés, há maus bilhares,
pouca cerveja, nenhum divertimento. Enfim, gasta-se pouco dinheiro e vende-se
alguma coisa, isto é, ganha-se mais do que se gasta.[125]
A revista Argos, nº 5, de janeiro de 1911,
divulgou nova carta assinada por Manoel Maria Soeiro Lobato, datada de Viçosa,
19-12-1910. Extasiado com os elogios e a publicação de seu soneto, o jovem
Graciliano comparou sua gratidão com a de um judeu que recebeu uma dívida, e
seu acanhamento, com o de um sapo igualado a um boi. Desenvolveu, com bisonho
exibicionismo de conhecimento da mitologia e da história da Grécia antiga, uma
longa e jocosa figuração com a nave Argos,
na qual viajava como um hilota incapaz de proezas, acolhido benevolamente pela
tripulação de heróis da revista. Valendo-se dessa generosidade, ofereceu-lhe
mais um soneto, “A Coruja”, publicado neste mesmo número.
Geralmente o indivíduo de procedência humilde, sentindo-se colocado em
um plano superior, fica pretensioso, torna-se fátuo e pedante. Comigo dá-se
exatamente o contrário: sempre que alguém elogia qualquer coisa que eu faço,
seja merecida ou imerecidamente, julgo estar aquém do juízo feito a meu
respeito.
Como pode o noviço ouvir de ânimo sereno a exaltação de uns pobres
versos feitos apressadamente, entre algumas baforadas de fumo, em um momento de
“spleen”?
Tinha pensado de mim para mim que a nave heroica só recebia em seu
bojo os argonautas arrojados que, em busca das regiões sonhadas do ideal,
esperassem descobrir no fim da penosa jornada o Velocino lendário.
Pois bem, o trovador mostrará seus versos, mas fala assim ao rapsodo:
“Guardai-os bem num modesto recanto da revista, num retiro ignorado, para que
não façam contraste com os cantos inspirados do marido de Eurídice”.[126]
A coruja[127]
A Severino Leite:
Baixe o quarto crescente a sua branca toalha
Ou o plenilúnio esparja a sua luz vermelha,
Ei-la sempre a gritar numa voz que assemelha
O agoureiro rumor de um rasgar de mortalha.
Se da noite silente o negro véu se espalha
Sem o pisco luzir de uma fulva centelha,
Ela põe-se a piar de uma casa na telha
Ou no simples beiral de um casebre de palha.
Triste e reconcentrada, é a predileta filha
Da treva. É singular que sempre a noite escolha!
Dizem que à luz do sol o seu olhar não brilha.
Aos cemitérios vai. E ali, de tulha em tulha
De ossos, mexe, remexe um garrancho, uma folha,
Sempre e sempre a fazer a costumada bulha.[128]
Maceió Soeiro Lobato
(versão
publicada em O Malho, 10-06-1911, ed.
456, t. 37)
Iniciou 1911 mantendo,
predominantemente na forma reduzida de “Soeiro Lobato”, o pseudônimo “Manuel
Maria Soeiro Lobato” com que tinha se apresentado à Argos entre setembro e outubro de 1910. Publicou em O Malho, com gaiatice nos dados
biográficos fictícios e datação retrospecta, a série de quatro sonetos[129],
apresentados como se fossem provenientes de Portugal, Porto, e o tema “Velhas
páginas” percorrendo o ciclo das estações do ano ao modo europeu:
Velhas páginas
I
Maio varria o campo, enfeitava as florestas,
Engrinaldando
a serra e os montes perfumando,
Quando eu senti
no peito as agudas arestas
Deste amor
insensato a minh’alma rasgando.
Em volta a
primavera, a sacudir o pando
Véu das
ramagens, doida, a celebrar as festas
Do amor,
descorolava o odorífero bando
De violetas
gráceis, de dálias e de giestas.
Eu te amei,
tu me amaste, ambos nós loucamente:
– Eu,
mostrando o fervor de uma alma rude e austera,
– Tu, a
ardência febril de um coração ardente.
E o nosso
amor cresceu ao perpassar da calma
Estação, a
caçar à luz da primavera
O róseo
despontar da primavera d’alma.
II
Com que dor
rememoro e com que mágoa lembro
O dia em
que partiste! Um dulçor erradio
Pairava,
álacre, no ar. E o abrasador setembro[130]
Corria à
clara luz de um claro sol de estio.
Muita vez
vem-me n’alma o desejo sombrio
De volver
ao passado. E idealizo e relembro
O teu grego
perfil, enquanto um calefrio
O ser me
agita, fibra a fibra, membro a membro.
Como
recordo, então, aquelas manhãs claras
De estio: o
sol ardente, altaneiro e brilhante
Rutilando
no campo, a fecundar as searas.
Eu,
sozinho, a sentir a profunda vontade
De chorar,
exibindo ao verão cintilante
O verão de
minh’alma, o verão da saudade.
III
Fulva tarde
de outubro. A despertar de um sono
Prolongado,
lá vão, como um triste lamento
Do verão
que se foi, num lânguido abandono,
Folhas em
profusão levadas pelo vento.
Voltas. E
eu torno a ver-te o rosto macilento
Macerado de
amor. Mas agora tenciono
Transformar
em meu peito este amor tão violento
A
contrastar com a calma e a doçura do outono.
Não vês? À
loira luz do sol que já se deita
Anda um
rancho febril pelo verde gramado
A dividir,
feliz, os frutos da colheita.
Pois bem!
Vamos nós dous, repletos de desejos,
Gozar o
nosso amor num retiro encantado
E viver da
colheita ideal dos nossos beijos.
IV
Enquanto no
papel, a relembrar a tua
Imagem, vou
deitando estas linhas singelas,
Anda o
vento a varrer soturnamente a rua,
Agitando os
portais, sacudindo as janelas.
E o céu, a
se tingir de negras aquarelas
Pela
aproximação da noite, se acentua,
Sem astros
a luzir – doiradas sentinelas
Na vasta
superfície imensamente nua.
Olho – e
apenas descubro a neve carregada,
Escuto – e
apenas ouço o gargalhar desfeito
Do vento e
o gotejar da chuva na calçada.
E sinto a
aguilhoada, indiferente e absorto,
Do frio
enregelar, medonha, no meu peito
Mortas
recordações de um sentimento morto.
Porto,
1900 Soeiro Lobato
(1)
1 - Manuel Maria Soeiro Lobato, brasileiro, nosso amigo, residente em
Viçosa – Estado de Minas – e que, por
muito tempo, residiu também em Portugal. (N.
da R.)
(O Malho, 07-01-1911, ed.
434, t. 37)
Dentre o que foi localizado, utilizou pela última vez o pseudônimo S.
de Almeida Cunha:
Um soneto
Disse-me alguém que ainda favorece
Aquele afeto que por mim nutrias:
– “Ela mostrou-me um vívido interesse
De ler uns versos que escreveste há dias.
Vamos! Manda-lhe os versos. Obedece.
Fantasias de crianças! Fantasias!
Mas, dize lá, se acaso ela quisesse
Um sacrificio teu, tu que farias?”
E eu te mandei, de amor arrebatado
(Que doidice, querida, que doidice!)
Breve, um soneto rápido e sucinto.
Mas me arrependo de te haver mandado
Esses versos, que neles eu não disse
A vigésima parte do que sinto.
S. de Almeida Cunha
(O Malho, 29-04-1911, ed.
450, t. 37)
Entre junho e julho de 1911, passou uma temporada na Fazenda de
Maniçoba, dos avós maternos, na região de Buíque. Clara Ramos comenta:
Não há hemoptises na
época. Nem haverá depois provas que lhe confirmem o diagnóstico. Mas o período
o marca e Graciliano há de referir-se, por toda a vida, a essa tuberculose dos
18 anos.[131]
De Maniçoba, Graciliano escreveu cartas
– à mãe, referindo-se a personagem muito
engraçada, que será assunto de sua futura crônica “Ciríaco”, em Cultura Política[132]:
Quando chegar aí – está
compreendendo? – hei de ter o corpo pesando 70 quilos e a alma leve de pecados,
tão leve como os vagons que levam
material para a construção da estrada de ferro de Palmeira.[133]
Por aqui nada de novo,
tudo na santa paz do Senhor... não, há uma coisa
de novo: o Siriaco, o velho Siriaco, o impagável, o incomensurável Siriaco.
NB: Mando dizer ao
Antônio Panta que guarde todos os meus Malhos.[134]
– e ao pai, menciona os futuros personagens de Infância:
Encontrei-me com o padre
João Inácio e com o José Leonardo. Ambos mandam-lhe lembranças.[135]
Conheceu o bisavô, que aos noventa anos, pai de uma criança de seis,
apresentava uma velhice “pura, limpa, isenta de pigarro, de bronquite”, que
será retratada décadas depois na crônica Um
antepassado, publicada na revista Cultura
Política.[136]
– Doente?
Balancei a cabeça,
esmorecido, bambo. E, num gesto vago, mostrando o organismo chinfrim:
– Um bando de cacos.
– É o que se ganha na
rua.[137]
Começou esquadrinhando os
livros que se arrumavam em cima dum caixão. Abriu um volume.
Encostou a página de
letra miúda aos olhos muito azuis, afastou-a, aproximou-a: – Quelques? Que diabo é quelques?[138]
O Jornal de Alagoas, em matéria assinada por Nababo, publicou em 08-07-1911 o Perfil de um tipo “alto como uma pirâmide, esguio como um cipreste”,
“modesto e retraído, algumas vezes acanhado e tímido”:
ora debruçado sobre um
lote de fazendas, como a cismar na vida e no futuro, até que um freguês
impertinente venha arrancá-lo de sua meditação, para regatear-lhe o preço de um
lenço “de rapé”; ora traçando sobre o papel grosseiro do estabelecimento
algumas linhas abstratas, sem ordem e sem significação; ora com o dedo índex
entre as folhas de um livro e os olhos fitos no teto, como que para melhor
concentrar sua atenção sobre o conteúdo da respectiva página; ora retirado a um
canto do salão, desdobrando algumas tiras de papel entrelinhadas, que outro
qualquer não poderia compreender; ora recolhido à sua vasta e silenciosa
“república”.[139]
Nababo assegura que a
aparência de misantropo e egoísta do retratado, com dezoito anos, esconde uma “alma nobre, generosa, um
espírito excepcionalmente grande”:
Mas, quem é esse personagem de dezoito anos de idade, alto, esguio,
entregue aparentemente às relações da vida comercial, singelo, reservado,
humilde e retraído de sua honrosa profissão, pela atração irresistível dos
livros? (...) Pois não adivinham?
É Graciliano Ramos![140]
Publicou, dentre os localizados em periódicos de 1911, onze poemas.
Além dos já transcritos, mais estes:
Never Mind!!
Que
importa! Junto de teu níveo seio,
Seio
túrgido, branco, imaculado,
Irei gozar
no derradeiro anseio
A inefável
delícia do pecado...
Falam –
que importa? – de teu corpo amado,
E eu, surdo
a tudo e a tudo absorto e alheio,
Tremo ao
ver-te comigo, lado a lado,
Volvendo o
corpo num gentil meneio.
Tem veneno
o teu beijo. À luz ativa
De teu
olhar, minh’alma fica morta,
Presa,
encantada, tímida, cativa...
Que eu
morra embora, meu amor, que importa?
Bendigo a
boca meiga e compassiva
Que fere e
mata, mas também conforta.
Alagoas Soeiro Lobato
(O Malho, 01-07-1911, ed. 459, t. 37)
Desejo infrene
Não sei
como passar esta noite soturna
De um
silêncio ermo e frio, um silêncio nefasto...
Tem um peso
de bronze a calma taciturna
Do moroso
volver destas horas que arrasto.
Fica junto
ao meu quarto a tua alcova. Gasto
Horas a
ouvir-te a voz. Na densa paz noturna,
No intenso
turbilhão das trevas, negro e basto,
De viela em
viela andando, o vento se encafurna.
E a noite
avança. E eu sei que estás aqui bem perto
De mim a um
passo ou dous apenas de meu leito,
Ouço,
perscruto a treva, estendo o olhar incerto...
E não poder
unir, num mudo abraço estreito,
Teu corpo,
estranho vale ao meu amor aberto,
Sobre o
alvor de teu peito a ardência de meu peito.
Maceió – 1911 Soeiro Lobato
(O Malho, 29-07-1911, ed. 463, t. 37)
Desterrado
a Rodolpho
Motta[141]:
Quem dera
demonstrar tudo que sinto! Entanto,
Terra
bendita, mãe piedosa, tu nem pensas
Que, ao deixar
o teu solo imaculado e santo,
Ferem-me o
coração punhaladas intensas.
Ah! Não
podes saber quanta tristeza e quanto
Fel encerra
este adeus a tuas matas densas.
– Terra que
me bebeste o primitivo pranto,
Terra que
me embalaste as primitivas crenças.
Pátria que
me abrigaste os dias mais risonhos,
Berço de
meu amor, de meus primeiros sonhos,
Túmulo
erguido sobre as cinzas de um passado,
-Guarda, ó
patria abençoada!estes meus versos cruentos
Que são
queixas febris, soluços e lamentos
Formando o
derradeiro adeus de um desterrado.
Buíque,
Pernambuco Soeiro Lobato
(O Malho, 19-08-1911, ed.
466, t. 37)
Batalha
Luta
medonha, desigual contenda,
Esta em que
me empenhei, esta em que vivo
Contra o
teu vulto airosamente altivo
De uma
amazona impávida de lenda,
Redobras de
furor p’ra que se renda
Minh’alma
aflita. E quanto mais me esquivo,
Mais se
enfurece o teu calor lascivo
Para vencer
esta batalha horrenda.
E lutas
corpo a corpo. Estou vencido!
Não mais a
fúria do teu níveo braço
– Clava pequena
de marfim brunido.[142]
Não mais
minh’alma tímida castigues
Com teus
olhares maus, lâminas de aço,
Pontas
delgadas de aguçados piques.
Soeiro Lobato
(Correio de Maceió, 21-09-1911; O Malho, 21-10-1911, ed. 475, t. 37)
A caminho[143]
Afronto a
tempestade, o vento afronto
Para
transpor este caminho extenso.
Vem de uma
estrela o pequenino pranto,[144]
Frio,
cortante, mau, ríspido, intenso.
Ando à toa,
a cismar, nervoso e triste,
A ver se a
trilha alcantilada venço.
Raios
coriscam no ar, trovões sem conto,
Céu
carrancudo de um negror imenso.
Viajo a
noite inteira. E, quando o dia
Vence a
tormenta tétrica e pesada,
Alcanço o
fim de minha romaria.
Mas não
acho conforto nem poisada
– Tua casa
pequena está vazia
Tua janela
há muito está fechada.
Soeiro
Lobato
(Correio de Maceió, 22-09-1911)
A aranha[145]
A Braulio Cavalcante[146]:
Diedi parimente retta ad un
bel ragno
che tappezzava una delle mie pareti.
Silvio Pellico – Le mie
prigioni[147]
Em dias de
verão, na minha alcova cheia
Da luz do
sol, que, lado a lado, a doira e banha,
Minha
antiga inquilina, uma peluda aranha,
Entre a
parede e o teto o seu vulto passeia.
É uma amiga
pontual. Sempre arrepiada e feia,
Ergue e
balança no ar a sua forma estranha,
Sobe, desce
e no fio as pernas emaranha,
Enquanto
vai tecendo a complicada teia.
Não lhe
tenho aversão, não me aborreço dela,
Pois vive
egoisticamente a preparar a tela
Que treme
semelhando uma diáfana rede.
Mesmo um
facto anormal dá-se às vezes comigo:
Fico
inquieto em não vendo o velho insecto amigo
Sempre no
seu lugar – o canto da parede.
Pernambuco Soeiro Lobato
(Correio de Maceió, 01-10-1911;
O Malho, 09-12-1911, ed. 482, t. 37)
Último sonho de Cleópatra[148]
(A Octavio
Cavalcanti)[149]
Da tarde
queda e calma à luz morna e dormente,
Das sombras
sai, contruído em primoroso estilo,
O grande
paço real alteando o peristilo
De pedras
do Sinai, de mármores do Oriente.
Mudos,
fitando o albor do deserto tranquilo,
Velam
colossos fora. E, o alvo corpo pendente
Ondeando,
ergue a rainha os braços vagamente,
A beber,
extasiada, a viração do Nilo.
É o
derradeiro sonho. Aperta o níveo busto
Num mudo
abraço, estende os lábios ressequidos,
Talvez, num
beijo errante, a procurar Augusto...
E, ao sol
que doira o alvor do mármore lacônio
Vê passarem
de manso os vultos esquecidos
De antigos
cortesãos, de César e de Antônio.
Soeiro Lobato
(Correio de Maceió, 03-10-1911)
O piolho[150]
Namorei
noutro tempo uma moça, um peixão,
A menina Guiomar,
Filha de um tal Gouveia.
De certo
era a melhor de todo o quarteirão
(É preciso notar
Que o dito
quarteirão só tinha gente feia).
Eu andava
esquecido e macambúzio; andava
Pensando na urdidura
De um bando de sonetos...
Sonetos!
Versos maus que eu fazia e mandava
Àquela criatura
De olhos
gázeos, azuis, e cabelos bem pretos.
Era mesmo um
martírio, uma paixão do diabo!
Tornei-me em breve tolo.
Às vezes mesmo chego
A meditar
que o amor podia até dar cabo
De meu rico miolo
E dos
cobres mensais de meu querido emprego.
Sim, porque
todo dia era um brinde, um presente,
Uma coisa qualquer,
Uns agrados diversos,
Que sonetos
ja não serviam, finalmente,
À matreira mulher;
Presentes
preferia a meus sentidos versos.
Um dia – há
coisas tais que a gente nunca esquece –
Entre acontecimentos
Vários, inda me lembro.
Foi... não
sei dizer bem a data, mas parece
Ter sido em novecentos
E sete, dia
santo, a oito de setembro.
Que os
leitores perdoem-me eu ser prolixo. Agora
Vou resumir o conto:
Não quero interrompê-los
Mais tempo.
Certo dia – ó ceus! maldita hora! –
Estando como tonto,
Pedi a
minha amada um cacho de cabelos.
Muitos dias
levei esperando o tal cacho.
A catadura brava,
Sombrio e carrancudo,
Sem comer,
sem dormir, sentia que o ígneo facho
Da paixão me queimava
O sangue, o
coração, as tripas, bofes, tudo.
Depois de
uma semana, um dia, muito cedo,
Uma negrinha farta
De carnes, muito feia,
Sorrateira
e manhosa, entregou-me, em segredo,
Uma pequena carta
De minha
namorada, a filha do Gouveia.
Findava
assim: “Meu bem, meu querido Manoel,
Papai agora anda
De nós a desconfiar.
Por isso,
antes não pude enviar-te o lindo anel
De meus cabelos. Manda
Um frasco
de Houbigant. Tua noiva Guiomar.”
Vinha
dentro da carta um molho de cabelos.
Muito tempo, enlevado
Beijei o negro molho,
Ansioso,
sem pensar em mim, quando, ao volvê-los,
Ao virá-los para um lado,
Vejo dentro
– Jesus! – um bicho branco, um piolho...
(Correio de Maceió, 06-10-1911)
Ao completar dezenove anos, escreveu em 27-10-1911, de Palmeira dos
Índios para Viçosa, carta ao amigo, o “meu Pinto velho dos pés compridos”,
Joaquim Pinto da Mota Lima Filho. Disse que estava para responder uma carta a
Rodolfo mas precisava do endereço do ex-futuro membro da Academia Brasileira de
Letras – ex, já que abandonara
covardemente aquela obra monumental que “estávamos a escrever”, com o
pseudônimo de M. Soares[151].
Ressaltou jocoso, insinuando um pseudônimo de Joaquim, que o motivo principal
da carta era pedir informações sobre um tipo talvez aparentado com o nosso
ex-embaixador de Haia e com S. M. D. Pedro Banana, “que o diabo tenha debaixo
de sua santa guarda” – “Rui d’Alcântara”, de quem lera no Jornal de Alagoas uma violenta crise de caiporismo: Rui escapou de
comer cuscuz com cabelos e de tomar
café pelo bico do bule. A seguir pediu notícias da Argos. Perguntou se Joaquim finalmente passara a cultivar o
realismo, superando sua tendência ao imaginário, ao impossível. Dizendo-se
mártir dos tipógrafos, lamentou que em sua resenha (talvez sua primeira
publicação de crítica literária[152])
sobre a tradução Il cacciatore di
smeraldi, tivessem colocado grego,
estragando o trocadilho feito com o nome do tradutor na frase que pretendia
ser: “Se o senhor Carlo parla greco”.
Convidou o amigo para no ano vindouro passar com ele dois meses no sertão, onde
poderia dedicar-se a Histórias das Mil e Uma Noites e a Contos da Carochinha.
Perguntou se ele ainda estava muito apegado a lendas. A propósito de lendas,
falou do recém-fundado Grêmio Literário
Correia Paes, que se propunha a ensinar leitura a muita gente boa de
Palmeira. Mandou lembranças aos familiares e ao “Revmo. Mota Lima”.
Creio que esse Rui
d’Alcântara é um falsário, um indivíduo que, antigamente com o nome de Aníbal
não sei de quê, – uma mistura de italiano com espanhol – andou viajando pelos
Andes, pendurado nas garras de uma águia. Mas o Alcântara foi mais infeliz que
o Aníbal, porque ao menos este não passou um dia sem comer. Também cabelo não é
lá muito bom alimento, principalmente para um pobre de Cristo que passa uma
horrível noite de penitência, em risco de morrer afogado, vendo uma coisa que
ninguém nunca viu – uma trovoada em junho. Dize ao Rui, se o conheceres, que
Santo Antônio é muito nervoso e tem um medo danado de relâmpagos e trovões.[153]
Graciliano atuou na Escola
Dramática Palmeirense, como lembra sua irmã Marili Ramos:
Padre Raul Silva fundou
em 1912 ou 1913, em Palmeira dos Índios, a Escola
Dramática Palmeirense, com o seguinte elenco: Graciliano Ramos, Levino
Moura, Marçal José Oliveira, Francisco Cavalcanti, Flora de Zé Maria, Lalá Lima
e José de Souza Soares.
Grace traduziu do francês
uma peça teatral, que foi levada à cena por ele e outros do grupo.[154]
Dentre os poemas localizados, encontram-se apenas quatro publicados em
1912:
Cobra mansa[155]
Ao Tobias Filho[156]:
Flexível,
devagar, pouco a pouco desdobra
O corpo
enovelado em seu cabaz redondo
E lá vai,
pachorrenta, indolente, transpondo
A rua lado
a lado a retorcer-se a cobra.
Bicho assim
ninguém viu – tem mansidão de sobra:
Apenas a um
sinal do domador, o hediondo
Corpo move,
indo e vindo, a colear, expondo
A quem quer
assistir, sua estranha manobra.
Seu olhar
um poder magnético exerce,
Duro olhar
de metal, que fixamente brilha,
Enquanto
ela vai e vem, sempre e sempre a mexer-se.
Enfim, quem
há que a veja e não a admire e aplauda,
Quando ao
braço de alguém devagar se enrodilha,
A agitar,
secamente, os cascavéis da cauda?
Soeiro Lobato
(O Malho, 27-01-1912, ed. 489, t. 29)
Nos dois poemas a seguir, os títulos repetidos sugerem a intenção do
exercício da forma fixa que os nomeia:
Balada[157]
Todas as vezes que te vejo,
Angelical, branca visão,
Fulge-me o olhar num mau lampejo,
Pulsa-me forte o coração.
Rio em te vendo e tremo e arquejo
Num sofrimento mudo, atroz,
Se não consigo achar ensejo
De ver-te o rosto e ouvir-te a voz.
És a Canaã de meu desejo,
Terra ideal da promissão.
Barco sem leme, em vão bordejo
Pr'a conquistar-te, Amor... Em vão!
Por que meu fado malfazejo
Se mostra assim tão mau, feroz?
Chamo-te, bramo e lacrimejo...
Perde-se no ermo a minha voz.
Único bem que busco e almejo
Das sombras desta solidão,
Sobe-me ao rosto a cor do pejo,
Se logro enfim premer-te a mão.
Louco, insensato, o sol invejo,
Que ousa ficar contigo, a sós,
E o vento que, num doce arpejo,
Leva o rumor de tua voz.
Em minhas cismas antevejo
O gozo extremo de ambos nós,
Se unir pudesse o mesmo beijo,
A tua voz à minha voz.
Soeiro Lobato
(O Malho, 09-03-1912, ed. 495, t. 29)
Balada[158]
Venho de longe. E,
caminhando
Às intempéries da estação,
Venho, mendigo, me
arrastando,
Lento, arrimado ao meu
bordão,
De meu passado, a quando
e quando,
Recordo o tempo
encantador,
A quadra antiga
relembrando
De teu amor, de meu amor.
Velho romeiro, o passo
errando,
Incerto o olhar, trêmula
a mão.
Só com chorar a dor
abrando,
Deste meu velho coração.
Que ponto ignoto enfim
demando?
Nem sei dizer, nem posso
expor...
Sei que ando à toa, aos
tombos ando,
Só pelo amor... só pelo
amor...
Meu velho manto, à aragem
pando,
Cai-me em farrapos pelo
chão.
Nem posso andar, os pés
sangrando
Pela inclemência do
verão.
Trôpego, incerto, a esmo,
expondo,
À luz de um sol
abrasador,
De quentes lágrimas um bando,
Recordações de nosso amor.
Enquanto eu vago só, guardando
Dentro do peito a minha dor,
Manda-me um olhar sereno e brando
Que inda reanime o meu amor.
Soeiro
Lobato
(O Malho, 17-02-1912,
ed. 492, t. 37)
Na Igreja[159]
Quando, na igreja aberta à luz do dia,
Com esta turba devota me confundo,
Ralando os joelhos sobre a laje fria,
Ao ver dez círios crepitando ao fundo,
Prende-me um sonho místico e profundo,
Um sentimento estranho me inebria...
E, olhando o céu, menos prezando o mundo
Fanatizado, eu rezo: Ave Maria!
Rezo, rezo comigo...Ah! se soubesses...
Não é à Virgem que eu dedico preces
E tantas mágoas e palavras tantas:
Ralando os joelhos sobre a laje dura,
Eu rezo a ti, ó santa criatura,
Bendita entre as mulheres e entre as santas![160]
Maio
Buíque (Pernambuco) Soeiro Lobato
(O Malho, 31-08-1912, ed.
520, t. 46)
Marili Ramos[161]
registra episódios de sua vivência com Graciliano nesses tempos, o irmão
quatorze anos mais velho. Ela, aos seis anos, tendo saído à rua de calcinha e
colete, ouviu da janela um autoritário “meia volta!” do rapaz adulto, cujo
significado ignorava, mas pôde perceber do que se tratava quando ele foi
buscá-la puxando-a pela orelha. De outra vez, foi retirada, agora pelas duas
orelhas, do alto de um guarda-comida (“o mesmo citado em Infância”) que ela havia escalado para servir-se de conhaque.
Graciliano, à mesa, fazia as refeições concentrado em leituras, alheio a tudo:
o pai trocou o açúcar por sal, mas a brincadeira não teve graça: depois de
tomar o café com a mistura, saiu da mesa vermelho, irritado, recolhendo-se a
seu quarto em silêncio.
Ele saía, sempre, da mesa
machucando miolo de pão, fazendo bolinhas que nos jogava no rosto.
Lavava as mãos, com
sabão, uma infinidade de vezes. Para não as sujar novamente pegando em
dinheiro, não raro abria a carteira e apresentava-a para que a pessoa se
pagasse do devido.
Gostava de tomar banho
cantando, de preferência Mestiça e O Luar do Sertão.[162]
Escreveu ao “meu velho”
amigo Pinto, desculpando-se do atraso no agradecimento pelo Almanaque do Malho[163], encomenda que pretendia pagar para não
parecer “presente pedido”. Justificou a falta em razão de nos últimos tempos
estar doente “como um corno”, um saco de moléstias por todas as partes do
corpo, inclusive as “partes inconfessáveis”. Não fora ao carnaval de Viçosa,
pois o queixo inchado não faria bonito como máscara natural, mas esperava que o
amigo, “grandíssimo bandalho!”, cumprisse a promessa de vir a Palmeira passar
uns dias com ele, sem risco de “moer o resto de tuas carnes” com maus cavalos,
agora que havia a estrada de ferro de Viçosa até Quebrangulo. Disse que não
estudava mais italiano – “já sei muito” – e que não tomaria o conselho de Pinto
para que estudasse francês, “língua miserável inventada pelo diabo”. Propôs
trocarem temporariamente o seu manual de línguas método “Brunswick”, que não
lhe servia para nada, pelo “Pereira”, que o amigo utilizava.
Não gozarás aqui de grande conforto – mas sempre encontrarás um quarto
com duas cadeiras e uma mesa, um bocado de livros, uma bilha d’água, papel, penas
e tinta, enfim o necessário a um indivíduo que tem fumaças de literatura.
espero que afinal venhas iluminar minha pobre palhoça com tua presença
e minha velha cabeça com as luzes de teu espírito.
Não te esqueças de trazer contigo umas noites de penitência...
P.S. Eu já não leio jornais. Se vires no Malho alguma coisa minha, faze-me o favor de cortá-la e meter
dentro de alguma carta que me escreveres.[164]
Publicou apenas cinco poemas em 1913, a crer no que foi localizado em
periódicos. Com publicações ocorridas exclusivamente em O Malho, teria sido,
assim, escassa a produção dos últimos
anos de poeta, mas quantia não muito diferente dos anteriores, à exceção de
1909 e 1911, com onze poemas encontrados em cada um desses anos.
A cavalo[165]
Tarde. A noite a cair. Monto à pressa o cavalo
E a rédea solta ao vento, em disparada, à toa
Deixo a vila dormente e pelo campo abalo,
Galopando, a trilhar, a margem da lagoa.
Chove. Ergo o braço no ar. A vergastada soa,
Vibrada fortemente em prolongado estalo.
E, ao tropel do animal, que parece que voa,
Pela estrada sem fim, rápido, o monte escalo.
Chego ao alto. Demoro. Admiro com desgosto
Aquela casa branca... E, enternecido, aflito,
Algo sinto de quente umedecer-me o rosto...
Serão lágrimas?Céus! Será a chuva? Partamos!
Esporeio o animal – Corre, corre, maldito,
Não te demores mais, anda, rebenta, vamos!...
Recife
Soeiro Lobato
(O Malho, 12-07-1913, ed.
565, t. 37)
Ritorno[166]
Quanto
tempo! Há treze anos, mais ou menos,
Que eu te
não via, ó pequenina vila,
Onde os
dias passei, lentos, serenos,
De minha
infância, límpida e tranquila.
Ao sair era criança!
E tão
mudada, diferente, agora
Venho encontrar-te!
Encontro em toda a parte
A mesma paz de outrora.
A mesma
calma pachorrenta e mansa.
Tudo o que
vejo lembra-me o passado,
A larga e velha rua
Conserva o
mesmo alinhamento antigo.
De um lado e de outro lado
A mesma
fila estreita e pequenina
De casas
tristes, úmidas, serpeja.
Ao fundo
surge o presbitério amigo,
Junto à pequena igreja,
Que tem na
frente uma inscrição latina
Sobre a fachada nua.
Enleado, soturno,
Absorto
fico, a contemplar, à toa,
Os contornos da serra,
Onde se
estende o denso véu noturno,
Ao longe as
margens curvas da lagoa,
Mais longe ainda, os muros
Tristes e escuros
Do
cemitério, tímido e modesto,
Onde, de
certo a desfazer-se estão,
Na umidade da terra,
De minha alma algum resto,
Bocados
soltos de meu coração.
Amo-te,
vila de costume antigo,
De prédios
velhos, de feição tranquila.
Povoado vetusto,
Simpatizo contigo.
E, após um
mês, ao separar-me a custo
De ti,
fere-me o peito a garra adunca,
E negra da saudade.
P’ra mim não mudas nunca
Dizem que hoje és cidade,
Mas gosto
sempre de chamar-te vila.
Por que te
adoro, pobre lugarejo?
Por que guardo,
devoto, dentro da alma
Este culto
profano de pagão?
É que, em
desilusões e desenganos,
Tudo em mim transformou-se
E agora vejo,
Depois de
tantos e tão longos anos,
Que és sempre quieto e são.
Tens a
mesma aparência doce e calma
E a mesma
vida cristalina e doce.
Recife Soeiro Lobato
(O Malho, 09-08-1913, ed.
569, t. 37)
A velha cruz
Quanta
tristeza ao ver a velha cruz tristonha,
Velha cruz
secular firmemente plantada
Entre os
verdes frouxéis da floresta risonha
E o regato
que corre a marginar a estrada!
Velha
cruz...Quer, virente, a natureza ponha
A alegria
vivaz no campo, quer fechada
Se mostre,
indiferente, assim como quem sonha,
Ela fica a
cismar como uma alma penada.
Ali – há
quem suponha, há mesmo quem garanta
Morreu
assassinada uma campônia santa,
Cujo corpo
foi feito em mais de mil pedaços!
E, ao ver a
velha cruz, sempre tristonha e firme,
Inda hoje
no sertão existe quem afirme
Que a alma
penada vaga à sombra de seus braços.
Soeiro Lobato
(O Malho, 23-08-1913, ed. 571, t. 37)
Cemitério campestre
Junto à
ermida campestre, a um mísero canto
Da aldeia,
da montanha às abas encostada,
Velha e
nua, erma e triste, a provocar o espanto
Das almas
rudes, ei-la, a agoirenta morada.
Cruzes em
toda a parte, enchendo o campo-santo,
Cruzes
aqui, ali, cruzes além. Mesclada
Ao cardo
que rebenta em flor, em cada canto,
Uma
vegetação mais ou menos fanada.
Nem um
túmulo erguido. Em toda a parte apenas
Covas em
profusão – canteiros de açucenas,
Crótons,
dálias gráceis, saudades roxas, vários
Lírios do
campo. Mas o que infunde respeito,
E crença,
ao mesmo tempo, é o firme, o grave aspecto
Da grande e
velha cruz coberta de rosários.
Soeiro Lobato
(O Malho, 30-08-1913, ed. 572, t. 37)
Republicou o poema Argos em O Malho, um ano antes de sua ida para o
Rio de Janeiro.[167]
Segundo o que foi coletado em Cartas,
houve no primeiro semestre de 1914 frequente correspondência de
Graciliano, aos 21 anos, com o amigo Pinto Mota Lima, 24[[168]],
principalmente em fevereiro, com quatro cartas, seguidas de uma carta em abril,
e, por último, a carta de julho, em que Graciliano se propôs a acompanhar o
amigo ao saber de seu projeto de mudança para o Rio de Janeiro. Sudra e As estrelas, de Graciliano, e Désillusion,
Mirage[169],
e, para brincar com O Malho, Cornucópia, de Pinto Mota Lima, foram as
produções dos jovens literatos citadas nesse momento.
Mesclando a dinâmica dos namoros com a prática literária a que os dois
se dedicavam, cheio de sagacidade intelectual nas alusões a peripécias e
galanteios, com refinamento irônico de
formulações referidas a personagens e passagens desses eventos, como “tempos pautílicos, helvéticos discursos, preceptoras luzentes, cacetadas olímpicas,
augustas festas de igreja”, o moço
Graciliano frisava nesse início de 1914 as pautilificações[170],
termo com que nomeava o flerte entre Pinto Mota Lima e Pautila Cavalcanti por
ocasião de uma recente temporada do amigo em Palmeira dos Índios, entregue a
impagáveis rezas e correrias doidas por entre bancas de jogos, em busca de uns
grandes olhos negros e de uns cabelos complicadamente encaracolados. Perguntou,
sob irônica ameaça, se Pinto o autorizava entregar como recordação a Pautila
uma camisa, um pente e um espelho que o amigo esquecera em sua casa, mas
posteriormente avisou que os objetos, os dois últimos tendo-lhe sido muito
úteis, estavam à espera dele para que viesse matar a saudade dos ares pautílicos, onde encontraria a mesma
enxerga, as mesmas tiras de papel, os mesmos romances franceses e o amigo
velho. Em julho, na última carta do período, ainda insistia no convite ao
amigo, que, segundo diziam, vivia em Viçosa metido numa misantropia, desgostoso
e apaixonado.
E as pautilificações? Continuas ainda muito equestre?[171] A rosa daquela noite já murchou?[172]
Manda-me dizer alguma coisa sobre o estado de tua alma. Eu nunca mais a vi. De longe apenas, algumas vezes.
Não aparece mais à janela. Creio que o sol lhe
tinha queimado o rosto. Pudera! um mês inteiro recebendo aquela quentura na
cara. (02-02-1914)[173]
Lamentei que vocês não
tivessem feito relações mais íntimas. E disse: “ – Perderam muito tempo. Dois
meses somente em olhares e sorrisos! E a calçada da Intendência aí tão
próxima...” (18-02-1914)[174]
E ela ria com aquele modo preguiçoso que tu conheces... Os olhos
lânguidos, os braços caídos, todo o corpo pendido para a frente num abandono...
Fizeram-se confidências. Ah! se tu estivesses aqui. (18-02-1914)
Está magnífica! Cada vez
mais lânguida, com aquele ar sorna e velhaco de quem tem preguiça até de falar,
até de olhar para a gente. (13-04-1914)[175]
Graciliano, negando ser um daqueles augustinos[176]
que viviam adulando as imperatrizes romanas, pediu, nada realista, que Pinto providenciasse umas contas de aljôfar
prometidas a uma aparição deliciosa de saia estreita, olhos lânguidos, nariz
levemente recurvado, que desceu um dia do céu para reclamar, num tom de
angelical indignação, a falta do produto em Palmeira dos Índios. Mas
prescreveu, nada romântico,
instruções pragmáticas a Pinto para aquisição e envio das contas, brancas,
pequenas, boas, encomenda reiterada com ênfase e urgência na carta seguinte.
Uma das estratégias de flerte era a frequência à igreja[177],
a que naquele momento se dedicavam uns amigos, lá ouvindo rezas intermináveis,
feito dois malucos, ansiosos pelas devotas do outro lado, de olhos negros, de
cabelos encaracolados. Nessas cartas, Graciliano referiu-se constantemente a
conversas com a tua Dea, para quem
lera a tradução do poema em francês de Pinto, Désillusion, durante uma das badernas
formidáveis promovidas pelo Dr. Helvécio, o patrono da gente moça, com uma
cervejada levada do diabo, moças em quantidade e a lei da atração levando a
gente a ficar ali até três e meia da madrugada, apesar de, afinal, ser tudo
burla, todos a serem enganados de muito boa vontade e a causa de seus maiores
pesares não valer uma lágrima. Disse, também, que apesar do primeiro impulso,
tinha pensado bem e visto que seria tolice traduzir para ela o Mirage, pois a moça
teria mandado o pretendente às favas ao ouvir todas aquelas mentiradas
poéticas.
Quanto às atividades intelectuais, Graciliano cobrou de Pinto uma
récua de alexandrinos e uma diatribe contra o menino sublime[178], em preparo. Sempre dizendo-se burro
pra burro, incapaz de escrever, pois logo a imaginação escapava para a rua e
punha-se a doidejar por aqui, por ali, falou, na primeira das cartas, de um
conto de quase setenta tiras, difícil de concluir, pois ele se metera em
funduras. Na carta seguinte disse que Sudra
estava com 86 páginas e, em outra, que o tinha abandonado já com 150 páginas.
Além disso, só conseguira produzir o seu pobre As estrelas. De nenhum livro que estava lendo, passara das vinte
páginas: Origem das espécies, O capital,
A adega, Napoleão – o pequeno, A campanha da Rússia[179], e uma infinidade de gramáticas e
outras cacetadas. Em abril disse que, pondo em ordem suas coisas, com um
pressentimento ruim, tinha feito um caderno com trinta e seis cadernos de
papel, onde estava copiando tudo o que fizera no ano anterior. Comentou que
desconhecia a métrica francesa e suas diferenças com o que sabia a respeito da
portuguesa e brasileira através do Tratado
de versificação de Bilac e
Passos. Ironizou os alexandrinos sem sentido[180]
que o amigo tinha mandado a O Malho juntamente
com uma carta assinada por Japuru,
cheia de uma seriedade idiota de indivíduo que tinha muita certeza de estar
fazendo coisa boa. (Entretanto, o soneto Cornucópia
seria publicado normalmente em O
Malho, frustrando a intenção de fazer piada com a revista). Elogiou,
entusiasmado, a facilidade do amigo para a fabricação de sonetos, e – animal extraordinário – fazê-los em francês, mesmo
como principiante. Enquanto o poeta dos sonetos filosóficos ainda reformava o Désillusion, Graciliano dedicava-se a
traduzi-lo, e traduzia também o Mirage, que,
bem superior ao outro, recomendava não enviar ao Jornal de Alagoas, pois se a tipografia do periódico desgraçava
trabalhos em português, em francês o poema seria ali certamente esculhambado.
Na carta de julho aludiu a um mal-entendido sobre suas observações a respeito
dos poemas em francês, pois Pinto irritado lhe respondera ser a língua francesa
adequada a eufemismos e a outras coisas de pronúncia difícil... Graciliano
referiu-se às publicações dos versos em revistas do Rio e pediu que ele
enviasse os recortes, lembrou que o tinha aconselhado a publicá-los em folhas
como o Figaro, de lugares onde havia
civilização, segundo ouvira dizer vagamente.
Quando viste publicada no
Malho essa extraordinária Cornucópia[181], o fruto mais perfeito da parvoíce
humana, com que cara ficaste? Puseste ao lado, na margem, um grande ponto de
interrogação. E eu respondo, muito naturalmente: – Sei lá! Naturalmente, não leram
a droga. Se leram, são uns burros. O Policarpo Japuru esperou pregar uma troça
ao Malho, mas saiu logrado[182].
Ah! V. julgava estar fazendo coisa sem sentido? Não, senhor, tudo aqui está
muito bom, fique v. sabendo. (18-02-1914)
Graciliano, “infecundo”, pedia versos ao amigo:
Quanto soneto já fizeste
depois de Mirage? Parlapatão!
Mentiroso! Passeios, beijos, palavras
açucaradas...Patife! Tu algum dia passeaste com ela, safado? Algum dia
beijaste a moça? Toda essa corja de sujeitos que fazem versos mente, e mente
muito. Detesto semelhante gente. (13-04-1914)
Quanto às relações familiares e de amizade, observou a respeito de um
retrato recebido de Rodolfo Mota Lima que ele estava gordo como o diabo, pediu,
em saudação de despedida, a bênção apostólica de Dr. Mota Lima e prometeu
enviar-lhe Les morts que parlent[183].
O velho Sebastião, interpelando-o quatro vezes para que fizesse a
correspondência comercial, estava a vigiá-lo como um Cérbero, raivoso das
tolices do filho, que se fazia de desentendido.
Comentou a sério, em segredo, pois se recusava a dar justificativas, que
alguém daí andava acusando-o de maldizê-la. Além dessa pessoa, enfrentava
uma velha senhorita palmeirense que estava fazendo a seu respeito amáveis
referências, como canalha, miserável, pulha, até assassino, toda a linguagem
que costumava usar a boa imprensa alagoana. Considerando tudo um bando de
tolices, com muitas verdades, não tinha se zangado, pois respeitava as ideias
dos outros. Previra tudo em seu Sudra, mas
não tinha a mania das perseguições, como Jesus... Anunciou a chegada da Paulista[184] a Palmeira, com esperança de que seu Sebastião assim procurasse outro
meio de vida e ele pudesse abandonar aquela porcaria.
Estava pensando seriamente em ser padre: “Parece-me que é a única profissão compatível
com o meu gênio”.
Informou ao amigo Pinto Mota Lima, em julho de 1914, que começara a
dar aulas.
Depois de procurar por
muito tempo alguma ocupação, resolvi-me a ensinar alguma coisa à rapaziada
palmeirense. Tenho quinze alunos. Posso dizer que pela primeira vez em minha
vida tenho ganho algum dinheiro honradamente. Falta-me uma pessoa que ensine
aritmética. Tenho pensado em ti... (20-07-1914)[185]
Começava a partir daí a se criar a alcunha de Mestre Graça que o consagrou, como lembra Clara Ramos:
Graciliano iniciara então
sua carreira de professor de roça, que deverá estender-se, com períodos de
interrupção, até 1932.[186]
Quanto ao ambiente intelectual da cidade, em carta de julho, lamentou
que Pinto não fosse mais gordo, com os bigodes de Emílio de Menezes, para
enfrentar um letrado de Palmeira que o considerou sem jeito para poeta, ...sem
ter lido seus poemas. Divertiu-se com o debate entre dois advogados sobre a
diferença entre o verbo há e a
preposição a, cuja distinção um deles
conseguiu equacionar flexionando em hão
com um exemplo do verbo impessoal. Um terceiro bacharel pretendeu que élite fosse proparoxítona, causando
grande trabalho a Graciliano para lhe explicar que em francês não havia
vocábulos esdrúxulos. Além desses, apareceu por lá um russo, com muita leitura,
que lhe falou sobre o anarquismo e pronunciava mijares e mijões, e, pela
primeira vez naquela terra, surgira um homem ilustrado, espírita, falava como
se estivesse trepado numa cátedra, mas para a mentalidade local dava a
impressão de palhaço, como quando atirou uma diatribe ao catolicismo. E foi
fundada uma sociedade de dança, a terceira talvez, em que o presidente não
sabia ler mas marcava com o francês as quadrilhas. Era o mais atrasado de seus
alunos: Graciliano tinha de fazer-lhe em breve um discurso para uma sessão
solene.
Depois de morder toda essa
gente, manifestando seu desagrado em viver na mesquinhez interiorana, lembrou,
a propósito de dentes, um disse-me-disse sobre viagem do amigo para o Rio de
Janeiro, duvidando da notícia, entretanto, por ele não lhe ter mencionado nada
a respeito. Confessou que não se conformaria com a libertação de um forçado que
vivia com ele no mesmo banho, preso à mesma grilheta. Antes de enviar a carta no dia seguinte,
porém, acrescentou um N. B. para contar que durante o dia e a noite anterior
tomara uma grande resolução: “Parece-me que vou para o Rio. Queres ir comigo?”,
perguntou com picardia, enxerindo-se no projeto do amigo e revirando-o em
convidado. Sugeriu correspondência detalhada sobre o assunto e que ele viesse a
Palmeira para pautilizar um pouco e
combinarem a viagem: “Vens ou não vens? Vais ou não vais? Eu vou”.
Aquela pinta que uma
velha te ofereceu[187]
já não é a mesma – fez-se grande e bonita; é possível que esteja a concorrer
para o desenvolvimento da espécie. Manda-te lembranças.
Expressou com veemência bem-humorada sua aversão à vida provinciana:
Se resolveres deitar fora
a tanga, se arribares para essas bandas onde dizem que há gente civilizada, não
me escrevas um cartão, que te não hei de responder palavra. Eu não escreverei
nunca a um sujeito que trabalhe em um jornal do Rio de Janeiro. Sabes por quê?
Porque vendo chita na Palmeira dos Índios. (20-07-1914)[188]
Seguia cerrado o namoro com Maria Augusta de Barros, costureira, filha
de Rita Bezerra de Amorim e de Aprijo de Barros, pequeno lavrador e criador,
como conta Valdemar de Souza Lima:
Faziam assim: ele se
debruçava na janela com as costas voltadas para a via pública, a costureira
punha a cadeira do lado de dentro e, bem ligadinhos, permaneciam em doce
colóquio.
Às vezes chovia e os fuxicos aumentavam:
As goteiras largavam
então água em catadupas sobre o traseiro dele. A cena era jocosa. Uns passavam
e se detinham a apreciar o quadro, bufando; enquanto outros, dando pela
marmota, torciam a cara, aborrecidos com a licenciosidade.[189]
Graciliano combinou os projetos da viagem com a namorada, que o encorajou
e se dispôs a esperá-lo. Marili Ramos relembra:
Papai não via com bons
olhos tal namoro, muito avançado para a época. Contavam que, na véspera da
viagem para o Sul, ao despedir-se dela, ele lhe cortara, com os dentes, um
cacho de cabelo, para levar no bolsinho do paletó, bem perto do coração, uma
parte dela.
Correspondiam-se com
regularidade.[190]
Discípulos e companheiros organizaram a despedida. Graciliano deixou
Palmeira dos Índios em 16-08-1914[[191]].
Na estação de Quebrangulo, tomou o trem para Viçosa.
E realizaram, na véspera
do bota-fora, uma serenata realmente tão completa e retumbante, que ficou
célebre nos anais do burgo. E no dia seguinte, uma cavalgada de cinquenta
figuras escalou o paredão da serra do Muro, indo impor Graciliano até Quebrangulo.[192]
Já em Viçosa, Graciliano escreveu um bilhete ao pai, refugando
irritado sugestões de gente de Maceió, relativas a indicação para o Rio de
Janeiro de emprego no comércio.
Vou procurar alguma coisa
na imprensa, que agora, com a guerra, está boa a valer, penso.[193]
O Jornal de Alagoas noticiou
em 25-08-1914 a partida no dia anterior dos dois amigos, que haviam comparecido
à redação para as despedidas.[194]
1914 -1915 – Rio de
Janeiro
Graciliano e Pinto Mota Lima embarcaram no navio Itassucê, em Maceió, a 24-08-1914, e
chegaram ao Rio de Janeiro em 29-08-1914. Interpretando, corrigindo e filtrando
os dados[195],
o percurso dos endereços de Graciliano no Rio pode ser assim sugerido:
Rua Costa Bastos, nº 88, casa 3 (até 19-10-1914)
Rua do Passeio, 110 - Largo da Lapa (de outubro
de 1914 a abril de 1915)
Rua Riachuelo, 19 (em torno de abril a julho de
1915)
Rua Maranguape, 13 (em torno de agosto 1915).
Das cartas publicadas,
cinco foram desse segundo semestre de 1914, principalmente para a mãe e a irmã
Leonor. Graciliano falou das dificuldades de moradia e de trabalho, do
vestuário, da alimentação, de suas produções intelectuais, manifestou saudades,
a intenção de persistir e, gregário, despedia-se sempre amorosamente, com
abraços ao pai, à mãe, beijos nos pequenos, “a lista inteira enfim”, incluindo
figuras da cidade.
Na primeira dessas cinco
cartas, deu um carão em Leonor,
exigindo, como faria durante todo o período, que lhe escrevessem mesmo que não
houvesse assunto – as doidices de Terto Canuto, criação de galinhas, morte do
Papa (Pio X faleceu a 20 de agosto de 1914). Em carta posterior, confessou que
largava tudo para entregar-se a demoradas releituras delas. Estava escrevendo
às quatro horas da madrugada: ia às vezes à casa de Rodolfo, ou ficava dormindo
na agradável companhia de percevejos, ou lia um livro pau de história. Acordava ao meio-dia, e, na mesma rua do quarto em
que morava, tomava café-da-manhã em uma pensão, onde, às sete da noite,
jantava. Trabalhava na revisão do Correio
da Manhã das nove às duas da madrugada, com intervalo à meia-noite para
duas enormes xícaras de café, dois pães e um pedaço de queijo: “e não sei
quando poderei chegar a alguma coisa”. Dali a uns dias, contou à mãe e às irmãs
Leonor, Otília, Otacília, que depois de muita pesquisa e pechincha, mudara-se
para uma casa de pensão bem mais confortável, onde finalmente ouvira seu nome,
com a dona da casa chamando: “O café para seu Ramos”: “Estou admirado!”, “Enfim
tenho um nome”. Vê uma ruma de livros num quarto fronteiro: “Bom sinal”. A
família serve-se em mesa separada: “Melhor sinal”. Mas ouve a filha da dona
rebentar lá fora as teclas de um piano: “Não é bom sinal...”
Meu antigo quarto da Avenida tinha um metro de largura, uma cama onde
havia um bando de animais, um toucador e uma cadeira; entrava-lhe pela única
janela que possuía uma inundação de sol; pelos corredores e por toda a parte
hóspedes gritavam, cantavam, desciam escadas e subiam escadas; e o barulho da
rua que apenas se modificava um pouco depois das duas da madrugada, era capaz
de endoidecer um surdo. Custava-me cinquenta mil réis aquele chiqueiro, onde às
vezes o criado passava três dias sem entrar, para fazer a limpeza. (20-10-1914)[196]
Apresentou uma cronologia
de seus feitos e argumentou que poderia voltar, mas só depois de lutar por um
bom tempo. Pinto, mesmo próximo dos familiares, andava triste, nostálgico –
“ele, eu, todos enfim”. Confessou ser um animal estúpido, que dizia não gostar
de café com leite sem nunca o ter experimentado. Agora descobrira que era, com
um pouquinho de café e muito açúcar, uma das coisas melhores que havia sobre a
terra. Tinha raros contatos com alagoanos e acreditava que a colônia alagoana,
conforme diziam, era mesmo a pior de todas. Entre os do Rio, por quem tinha
mais antipatia, certamente mútua, era um sujeito[197]
que lhe havia prometido lugar na redação de O
Século.
23 de setembro – entrei para o Correio
da Manhã na qualidade de foca; 11
de outubro – passei a suplente de revisão; 16 de outubro – ganhei os primeiros
cinco mil réis em novo emprego; (20-10-1914)
pode juntar abaixo da
última linha: 18 de dezembro: – Entrei, como suplente de revisão, para O Século; à noite, no Correio. Não faço ainda nada, porque sou
suplente. (18-12-1914)[198]
É o diabo! A gente nunca
perde a esperança. A esperança foi a única coisa que ficou dentro da caixa que
Júpiter ofereceu a Pandora. Mas... vocês não sabem nada de mitologia, e eu
estou aqui a dizer uma chusma de tolices. (20-10-1914)
A Leonor, sempre em tom
mais íntimo de amorosa fraternidade, respondeu que estava claro que o pai lia
as cartas, mas não havia segredos nelas. Comentava as novidades de Palmeira,
entre outras, a de sua fazenda, onde o gado diminuía, a do irmão Clodoaldo, que
agora montava em bicicleta, a da morte de uma figura querida da cidade, e, à
lembrança do alegre dr. Helvécio e do casamento da simpática senhora Donana,
repeliu a da desagradável D. Luz, mandando para o diabo todas as professoras
analfabetas que havia por lá.
Meu pai mandou-me dizer
que vocês estavam magnificamente e que esse Pinga-Fogo[199]
era um paraíso. Deu-me o conselho de voltar, caso fosse caipora, prometendo-me
aí uma penca de felicidades. É o que farei, não tem dúvida nenhuma. Mas depois,
quando tiver lutado muito tempo e quando me sentir inteiramente desanimado.
(20-10-1914)
Então meu pai está mesmo
feito uma espécie de padre? Interessante... (08-12-1914)[200]
Quanto à ida de Leonor
para Maniçoba, fez uma listagem irônica da paisagem que a esperava – macambiras, quipás, mandacarus,
xique-xiques, alastrados, coroas-de-frade, rabos de raposa, palmatórias – e
recomendou que levasse muitos livros. Com ares de escritor, pediu dados
detalhados sobre a cidade.
Tu me farás um favor.
Manda-me dizer circunstancialmente tudo o que se passar aí durante o Natal.
Novenas, missas, procissões, tudo. Fico-te agradecido. (08-12-1914)
Andando sempre com a
mesma roupa desde que chegou, pretendia comprar um terno. Outra despesa
extraordinária foi a compra de um dicionário de 50$ por 24$, num sebo, além de
material de papelaria. Contou, procurando assunto, que tinha ocorrido um
extraordinário rebuliço na pensão, com o casamento, em São Paulo, da senhorita
Lili, que lhe devolveu um livro, por intermédio da mãe, juntamente com um botão
de flores de laranjeira: “Se eu soubesse fazer versos líricos, tinha hoje um
assunto magnífico...” Por sua vez, a mãe da moça emprestou-lhe o pavoroso La trouée, de Pedro Eremita, algum
idiota que se fez santo. Graciliano disse à senhora que ia ver se conseguia ler
o livro. Preocupado com a saúde da mãe, beijando-lhe as mãos, agradeceu sua
carta, que Rodolfo tinha levado ao Correio
da Manhã, e garantiu a reciprocidade no prazer que ela manifestara em
receber as do filho.
Estou quase satisfeito,
porque ontem, depois de maduras reflexões, comprei duas caixas de papel, uma de
penas, uma de grampos, um livro em branco, um tinteiro e a caneta com que te
estou a escrever. Tudo por 6$. Creio que agora poderei continuar a trabalhar em
meus contos. (08-12-1914)
Vou escrever agora um
soneto para o jornal de um amigo que me pediu qualquer coisa para publicar.
Quanta honra para um pobre marquês... (08-12-1914)
Pois é verdade – não
tenho assunto e estou condenado a entregar, dentro de quatro dias, um soneto e
um artigo[201]
para dois jornalecos de dois rapazes que trabalham na revisão do Correio. (14-12-1914)[202]
Nos momentos finais de seu tempo de poeta, publicou o último soneto[203],
dentre os localizados:
O velho tronco
No florido pomar o velho tronco dorme,
Tristemente isolado. Eu creio que é ironia,
Raiva ou sátira cruel, capricho ou zombaria
Do acaso estar ali aquela cousa informe.
E foi grande. E, estendendo a galharia enorme,
Muita vez, a agitar a ramagem sombria,
Amantes abrigou. O sonho, a fantasia,
Jazem mortos ao pé do tronco desconforme.
Vede. Agora – coitado! – é um teto que declina,
Um corpo que apodrece, uma pesada ruína,
Um ser exposto à chuva e ao sol, ermo e fanado.
Não vive mais o grande, o velho confidente
De amores, e, se vive, eu creio que é somente
Para carpir desgosto e chorar o passado.
Recife
Soeiro Lobato
(O Malho, 19-12-1914, ed.
640, t. 30)
Joaquim Pinto da Mota Lima Filho, em “Pensando em
Graciliano”, Diário de Notícias,
01-11-1953, por ocasião do falecimento de Graciliano, relembrou o tempo de
juventude em que viveram no Rio:
Antes de arranjar
trabalho, ia ver Graciliano todos os dias na pensão do largo da Lapa.
No Passeio Público líamos
as cartas de casa, à sombra das velhas árvores, olhando as cegonhas à beira do
lago artificial.
A vida era fácil. Graciliano
pagava oitenta mil réis por mês na pensão de d. Helena, uma das muitas casas
que hospedavam estudantes. O primeiro terno que fizemos no Rio nos custou cem
mil réis. As botinas, vinte e cinco, o mais que então se pagava por um calçado.
A gente tomava seu café,
abria o Jornal do Brasil e procurava casa na coluna Aluga-se. Escolhia o bairro e ia ver com
toda a calma.
Graciliano frequentava o
teatro: Leopoldo Fróis e principalmente os portugueses, Chaby, Cristiano de
Sousa, Adelina e Aura Abranches, na companhia de Alexandre Azevedo.
Fazíamos às vezes longas
caminhadas. Uma noite fomos a pé, contornando a praia, com um companheiro de
jornal, da ponta do Leme à igrejinha de Copacabana.
De outra vez deixamos
nosso quarto da rua Riachuelo, certa madrugada, com uma chuvinha fina, tomamos
um bonde no largo de São Francisco e descemos no fim da linha de Piedade para
andar nas ruas suburbanas, àquela hora desertas e quase às escuras.[204]
No primeiro semestre de 1915, o último de sua estada de um ano no Rio
de Janeiro, foram publicadas onze cartas, à mãe, ao pai, à irmã Leonor e uma à
irmã Otacília. Confirmando o gosto pela prosa, confessado na entrevista dos
dezessete anos, citou contos ou novelas que vinha escrevendo: uma sobre um
padre, A carta, O discurso, Maldição de Jeovah, Um
retardatário. Oscilante entre possibilidades que se abriam a ele, como as
providenciadas por Ildefonso Falcão[205],
e a resolução de voltar, definida em maio de 1915, bem antes, portanto, dos
acontecimentos trágicos em Palmeira dos Índios, Graciliano entrou em estado de
desorientação em agosto, transtornado com as notícias imprecisas dos telegramas
sobre a morte do irmão Clodoaldo e a enfermidade que atingira a mãe e a irmã
Leonor.
No início do ano de 1915, em carta ao pai, manifestava alívio pelo seu
restabelecimento e o aconselhava a continuar com a medicação, para evitar
recaída. Contava que apesar de só ter conseguido três vezes trabalho em O Século, persistia apresentando-se à redação
do jornal só para não fazer desfeita ao intratável e rude chefe da revisão do Correio, que o colocara entre os preferidos e o encaminhara para lá.
Mesmo com as intriguinhas do ambiente, encontrava alguns bons companheiros,
como um velho português. Com todas essas dificuldades, preferia a revisão ao
balcão “aí”, onde estaria condenado à preguiça. Tinha feito a revisão em O Século das últimas notícias sobre Nilo
Peçanha, mas não sabia bem do que se tratava: “a cidade está agitada”[206].
Mais à frente, em carta de fevereiro à mãe, após eleições para deputados e
senadores em 30-01-1915, mandaria dizer ao pai que o processo era o mesmo que
conheciam: atas falsas, livros roubados, atentados. Divertiu-se com um colega
que lhe perguntou se “o nosso
partido” tinha vencido. Graciliano soube então que pertencia ao Partido
Liberal.
Entre eles, conheço um
velho, um português paupérrimo com quem trabalho sempre, boa criatura com quem
me entretenho em longas palestras e que lamenta que indivíduos mais ou menos
preparados como nós (é amável e não é modesto) vivam na miséria, enquanto se
empregam uns boçais... Pensam que eu vivo na miséria, porque ganho pouco. Não
digo o contrário por dois motivos – não desejo que me arranquem os dias de
trabalho nem que me peçam dinheiro emprestado. (09-01-1915)[207]
Em carta a Leonor, num mar de suor, zumbidos, olhos que ferviam e
letras que dançavam, reclamou do terrível calor no início do ano, que já havia
matado quatro pessoas. Saudoso, com vontade de voltar, mas decidido a
permanecer e não abandonar a luta, comentou singelamente todas as notícias de
Palmeira, os ensaios de carnaval, mas no Rio, “carnaval de verdade”, já tinha
iniciado desde o fim do ano. Prometeu enviar-lhe o figurino que ela pedira.
Tranquilizou a mãe, garantindo que não estava doente, os cento e vinte
mil-réis que ganhava por mês eram suficientes para lavadeira, bondes, cafés,
teatros e lhe deixavam com a consciência tranquila pelos cobres ganhos por
esforço próprio e sem adulações, com uma vida melhor que a dos soldados e burros-sem-rabo. Almoçava às duas,
quando – se lá houvesse trabalho – voltava de O Século, à tarde dormia, escrevia ou lia, jantava às sete,
passeava de bonde ou ia ao cinema antes de ir às oito e meia para o Correio – se lá houvesse trabalho. Voltava às duas da
madrugada, ou às duas e meia, a pé, quando não havia mais bondes, tomava café,
dormia sonhando com provas e pastéis,
acordava às nove.
Pediu à mãe que contasse a Leonor que ele havia
passado pela Rua das Marrecas, 27, relembrando a leitura com as irmãs das
personagens e peripécias engraçadas
relacionadas ao endereço de A
família Agulha[208].
Protestou que cobrassem muito caro o que chamavam hereticamente de frutas-do-conde, as sagradas pinhas
palmeirenses. Lamentou que tudo no Rio dependia da semostração: tudo era
reclamo, o burro falando em voz alta às vezes convencia os mais burros, e os
que tinham algum talento, não falavam, pregavam, pontificavam, vitrinas
expunham joias, mulheres aprimoravam-se em encantos fictícios, a imprensa
publicava autoelogios, trocas do elogio pago, necrológios mentirosamente
laudatórios, homens sérios abordavam a multidão: “Experimentem a pílula do dr.
X”. Contou um caso de propaganda performática: num café, um indivíduo começara
a fazer escândalo, com gestos violentos, protestando contra a patifaria – mas, esclarecendo a seguir: “Descansem, meus
senhores. Não é aqui, nem agora. É hoje à noite, no Recreio. É a nova peça A moratória conjugal, uma peça de gênero
livre, somente para homens”. Um pobre-diabo tímido, como ele, estava condenado:
ao ser apresentado a um poeta como literato, tinha negado a condição ao invés
de “dizer tolices sobre a arte e sobre outras coisas que não conheço”.
Disse a Leonor que recebera a carta de Clodoaldo, de janeiro. Estava
acostumado com coisas espantosas, mas a notícia, dada a ela por uma senhora, de
que Graciliano fora visto embarcando para Natal-RN, era de arromba. Estava
comovido pelos cuidados com a sua vida, tinha vontade de chorar. Soube,
agradecido, da resposta da irmã, muito amável, muito delicada, à carta de Maria
Augusta que pedia notícias da saúde de Seu Sebastião. Mostrou algum
arrependimento por ter dispensado a pensão que recebia da família, pois talvez
os cento e vinte mil-réis que estava ganhando não fossem suficientes. Mas não
lhe agradava viver às sopas de casa.
Quanto às doenças do filho de Leonor, era urucubaca
hereditária, pois, além de afilhado, “o homem” era seu sobrinho. As
lembranças enfáticas a Olímpia, irmã de Francisco e Octavio, podem ter
inspirado o futuro Caetés.
N. B. Lembranças, muitas
lembranças, à d. Olímpia Cavalcanti. (09-02-1915)[209]
Pinto deixara a casa de Rodolfo, dormia no quarto de Graciliano havia
uma semana e comia na casa de Costa Rego, seu primo, que lhe dera recomendações
para a Tribuna e para Álvaro Paes[210].
Pinto ganhara, finalmente, desde a chegada, cinco mil-réis no Correio, onde trabalhara uma noite. De
chapéu sujo e amarelo[211],
tinha dado uma série de cabeçadas. Talvez tomasse juízo, a dona da pensão de
Graciliano lhe arranjara um quarto em Riachuelo, na casa da irmã dela.
Graciliano reclamou dos bons amigos que
não lhe escreviam. Despediu-se logo da irmã, pois andava muito ocupado em
modificar “A Carta”.[212]
Escreveu a Otacília em 18-02-1915 festejando tanto a diminuição do
calor, graças a N. S. Jesus Cristo, quanto o fim do carnaval, um pau com formigas: “o de lá[213]
é muito melhor”. Mandou um conselho a Clodoaldo: que mandasse ao diabo o namoro
e deixasse de ser idiota. Sobre a compra de uma vaca, disse que foi um roubo,
ele conhecia bem o negociante, grande vocação para ladrão. Otília tinha
colocado um N. B. na carta de Otacília, chamando Graciliano de preguiçoso. Ele
mandou dizer-lhe que ela é que era preguiçosa, a tratante. Elogiou a letra de
Otacília: “Nem pareces minha irmã...”
Brincando com Leonor, em carta de 20-03-1915, chamou de inqualificável
procedimento de um animal relativamente civilizado e mais ou menos batizado, ela
ter ido para Maniçoba vestida numa tanga, viver com onças e outros bichos,
antes de lhe enviar “umas linhas tortas” que ele publicara no Jornal de Alagoas[214].
Mas dava-se conta de que ela perceberia que sua reclamação era invejosa de sua
viagem como a da fábula da raposa: “Estão verdes!” Vivia agora com três
ortografias diferentes: a do Correio,
a do Século, e a dele próprio. Disse
que era muito desagradável morar com um imbecil: para fugir desse pau com formigas, deixaria a pensão e
talvez fosse viver com o Pinto. Mandou lembranças a todo o pessoal sertanejo e
bênçãos a dois afilhados de crisma que deveria ter por lá: um filho do Gato e
um menino que tinha nome de mulher.
Escreveu para a mãe na sexta-feira santa, 02-04-1915, divertindo-se
com todo tipo de provocação: disse que soube que estavam na semana santa
casualmente, vendo um cartaz de cinema[215].
No grande dia em que a cristandade chorava alegremente a morte de seu Deus, d.
Helena surrupiara-lhes piedosamente o almoço e o jantar. Mergulhou na leitura
de A relíquia, de A loucura de Jesus e de O evangelho de S. Mateus[216]. Jejuou segundo os preceitos da Santa
Madre Igreja, mas como achava o peixe do Rio de Janeiro ruim como o diabo,
preferiu jejuar com carne, muita carne, feijão, arroz, verduras. Perguntou se
Leonor ainda estava vivendo entre os quipás,
mandacarus, coroas-de-frade e xique-xiques da deliciosa Maniçoba. Reclamou
notícias de Palmeira, que há muito tempo não recebia: as últimas que recebera
não eram boas: “Vive tudo a morrer”. Lançou a respeito uma série de
interrogações sobre a rotina da cidade.[217]
Ontem, quinta-feira, para
quebrar a monotonia da semana santa (que parece não ser aqui muito diferente
das outras semanas), joguei bilhar[218]
até uma hora da madrugada com três companheiros – o Jaime, o Carvalho, o
Sílvio. Cinco partidas devotas, quinhentos pontos, numa sala chique com mais de
vinte bilhares. Prejuízo de minha parte – oitocentos réis. (02-04-1915)[219]
Em abril, passou a colaborar, assinando com as iniciais R. O.[220]
a coluna “Traços a esmo”, no Paraíba
do Sul, jornal do interior do estado do Rio, a convite de Ildefonso Falcão.
Rodolfo Mota Lima ali também publicava crônicas.
Oh! Aquilo é delicioso!
Eu adoro o cinema. Gosto dos automóveis, dos passeios a barco, daqueles
terríveis e invariáveis castelos com subterrâneos, dos lugares escusos onde os
ladrões se reúnem, mascarados, depois de haverem passado pela complicação de
uns corredores sombrios que têm alçapões traiçoeiros e veios de água a cantar.
Admiro as florestas da Índia, os palácios exóticos, os ritos bárbaros do
Oriente, todas as cópias dos velhos carapetões que o Júlio Verne pregou à
humanidade. (Paraíba do Sul,
13-05-1915)[221]
Em maio, Graciliano resolveu voltar para Palmeira e deixou de procurar
trabalho no Correio da Manhã e em O Século.
Em final de maio escreveu ao pai anunciando sua resolução de voltar.
Mas achava que não deveria ir, pois tinha consciência de que era um tipo não
propriamente equilibrado e sua presença em Palmeira seria dispensável. No Rio
não era santo, mas ia no caminho do céu, apesar de o pai considerá-lo ateu: “Eu
não me pareço ateu, como está em sua carta. Sempre o fui, graças a Deus, como
dizia o saloio”. Argumentou que muitos santos foram ateus que entraram para a
igreja com medo da fogueira: é que eles preferiram queimar a ser queimados,
como dissera um moderno escritor socialista. Mas a religião havia perdido sua
força: o Deus estava morto, coitado! Ainda insepulto, mas morto a valer, como
os infernais hereges da atualidade afirmavam. Observou que a carta estava
perdendo o fio da meada e atribuiu a culpa às dúvidas do pai sobre sua
religiosidade, que, por todos os atos de sua vida, parecia suficientemente
demonstrada. Disse que só havia dado desgostos ao pai: jogara, metera-se em
farras, pintara a manta, nada teria
de útil para fazer na terra adorável. Entretanto, sendo também inútil no Rio,
preferia ser inútil em Palmeira. Abandonara o Correio e o Século e
dedicava seu tempo agora a fazer nada, esperando comprar a passagem e umas
gravatas: “Eu sou sempre o homem das gravatas”. Mas um amigo do Século, o velho Cordeiro, que Graciliano
anteriormente havia favorecido, sendo agora chefe de revisão do Rio, iria propor à casa que o
colocassem, por quatro mil réis, como efetivo, no lugar de dois animais que não
sabiam ler e recebiam, cada um, dois mil e quinhentos. Rodolfo continuava
insistindo para que ele ficasse, procuraria algo cavável na Gazeta de
Notícias. Sabendo que essas coisas envolveriam conversas repassadas de um
para outro, foi despedir-se do amigo.
Para que servia eu aí?
Para ensinar gramática aos rapazes? Mas eu sou burro como o diabo. Demais
pode-se muito bem aprender gramática sem professor. E eu era, positivamente, um
professor avacalhado.
Entretanto, se o velho
Cordeiro, o único português passável
que há no Rio, conseguir minha entrada no jornal de que falei, como efetivo, é
claro, e o Rodolfo arranjar-me qualquer coisa na Gazeta, parece-me que fico. (24-05-1915)
Nessa situação indecisa, despediu-se com um adeus, ou até logo,
conforme as circunstâncias: que o pai pedisse a Deus que o inspirasse, afinal
Graciliano nunca tivera encrenca
séria com esse cavalheiro, talvez viessem a ser amigos, mas duvidava um pouco.
Se Leonor já tivesse voltado de Maniçoba, ele lhe enviaria uns jornais com
artigos seus. Não os enviava para Otília, não só para ser equitativo, mas
também por terem suas crônicas uma linguagem imprópria para uma ignorante
provinciana que vestia saias largas, que não tocava piano, não dançava
quadrilhas, não falava francês, não comia com garfo, não tinha doze dúzias de
namorados. Mandou lembranças a todos, que talvez abraçasse em breve, sem levar
nada do Rio, nem o é! sim!, nem o uê!!!
Não sei se será
conveniente continuarem aí a escrever-me. Está claro que, aparecendo qualquer
coisa de extraordinário, devem avisar-me, porque afinal pode ser que, por
acaso, eu fique. E se for, o que é mais provável, o Pinto terá o cuidado de
mandar-me as cartas que me forem endereçadas.
Os tais artiguetes são um
bocado duros. Eu só escrevo coisas alegres, mesmo quando estou triste. Coisas
tristes, faço-as também, às vezes, mas para meu uso particular, para a gaveta e
para as traças. (24-05-1915)
Em 10-07-1915, desculpou-se com Leonor pelo papel miserável da carta,
pois as tiras ele tinha gastado, bem,
nas cartas aos pais, e mal, talvez, nas folhas que cobriu de traços[222]
enviados ao Paraíba do Sul.
Desculpou-se também por não lhe ter dado boas-vindas pelo seu retorno de
Maniçoba, mas a culpa era do padre: “um padre ordenado por mim”: a novela que
escrevera nos últimos dias e que haveria de ter um êxito considerável em
Palmeira[223].
Compensaria com egoísmo os dois meses sem resposta à Leonor del mio cuore, falando de suas reles
produções, já que nem a mãe entenderia o assunto, nem o pai, homem de negócios,
muito positivo.
Os traços[224]
não eram Arte, revelavam mais habilidade que talento e, feitos de graça,
serviam para relações por interesse, que, segundo Balzac, eram as amizades mais
fortes – para Graciliano a observação seria talvez maliciosa, mas com um fundo
de verdade. Após inimizade inicial com Falcão, devido a uma teima boba entre
eles no Correio, fizeram as pazes
durante o carnaval. Depois o novo amigo, que era redator de O Século, lhe encomendara uma notícia
sobre um livro, tinha gostado, pedira um artigo[225]
e a seguir o convidara para sustentar a seção no Paraíba do Sul. Além das novelas A carta e O discurso, já
conhecidas por Falcão, mostrou-lhe Maldição
de Jeovah, numa tarde magnífica, fazia um mês, que passaram na companhia de
Pinto, que ainda morava com Graciliano. Falcão antes o julgava burro, agora
viera visitá-lo para que opinasse sobre os originais de um livro que iria
publicar[226].
Recentemente, no Café do Rio,
trazendo o álbum de uma poetisa para Graciliano escrever nele uns versos[227],
Falcão lhe pedira uma de suas novelas para suprir o convite de publicação que
recebera da Revista Americana, pois
ele mesmo não tinha nada pronto. O Café
do Rio era o ponto de encontro dos amigos como Rodolfo, onde discutiam
coisas transcendentes e tomavam copos de água... gratuitos, à exceção do Velho
Cordeiro, que às vezes se dava ao luxo de uma xícara de café ou de um cálice de
anis.[228]
Falcão ali reapareceu, entusiasmado, parabenizando Graciliano pelo
conto[229]
que lhe havia passado: Um retardatário[230].
Abraçando-o, veio com a seguinte estória: antes de levar o texto para a Revista Americana[231],
encontrara o secretário da revista Concórdia,
publicação tão importante quanto a outra, no formato da Ilustração Francesa, em papel couché.
O secretário da Concórdia começara
casualmente a folhear o texto, acabara
arrebatado, uma a uma, pelas 25 páginas do conto – e o tomara para sua revista,
lamentando que só os cabotinos apareciam, enquanto talentos como aquele ficavam
na obscuridade: “Uma caterva de patranhas enfim”, Graciliano observou a Leonor.
O amável Mecenas, entretanto, preferiria que a publicação ocorresse na Revista Americana, de sujeitos graúdos.
Havia ainda outras duas novelas[232]
para lá publicar, que Graciliano achava ruins, mas se insistissem, ele se
convenceria de que não eram más. Tinha medo de aparecer e não tinha a
fotografia que o sujeito da Concórdia
exigia juntamente com umas notas a seu respeito. Mas Falcão queria que
Graciliano aparecesse, estava disposto a escrever ele mesmo as notas e viria
buscá-lo para tirar o retrato. Com tergiversações minuciosas, Graciliano
mandava ao diabo a modéstia, a timidez e o receio de expor na maturidade
sandices a público, submetendo-se àquele mundo em que tudo era fita, era preciso ser afoito, imodesto,
cínico, fazer réclame, estudar pose. Afinal, justificava, se suas
produções ficassem inéditas nunca poderia saber se prestavam. Portanto, iria
publicar em revistas sérias, de gente grande, coisas sobre Palmeira dos Índios,
único lugar que conhecera um pouco desde que tivera idade de pensar[233]:
que Leonor dissesse ao pai que ele não estava perdendo tempo. Se desse certo,
poderia conseguir alguma coisa, se não, paciência... E que Leonor mandasse ao
diabo preocupações com estar tuberculosa, ele, que era magro, nunca havia pensado
nisso[234]. Tinha muito ainda o que fazer no dia,
eram três horas da tarde e até às seis precisava de estar com umas quinze tiras
prontas. Em N. B., combinou: se publicasse, mandaria as novelas para Leonor
desde que ela não as mostrasse absolutamente a ninguém, pois não queria
provocar animadversão com certas personalidades que pudessem reconhecer-se em
suas alusões.[235]
E pensando bem, chega-se
a esta conclusão – um animal que, aos treze anos[236],
publicava sonetos idiotas no Correio de
Maceió e no Malho (barbaridades,
está claro!) pode, talvez, aos vinte e três, quase, não tendo perdido todo seu
tempo, fazer qualquer página passável. É verdade ou não é verdade? (10-07-1915)
Graciliano, atarantado depois de receber um telegrama anunciando a
morte do irmão Clodoaldo, escreveu ao pai em 06-08-1915. A notícia era
contraditória, pois nas últimas cartas,
com data posterior à do telegrama, não tinham dito nada a respeito de
doença do irmão, o que o levou a imaginar alguma blague, hipótese descartada pela crueldade que implicaria uma
brincadeira desse tipo, mas que, desorientado, ele repisou, para a seguir
afastar novamente tal possibilidade. O telegrama havia demorado muito para chegar.
Espantava-se com a notícia repentina: teria sido um acidente, um desastre?
Garantiu que ele próprio estava com a saúde perfeita, não havia motivo
para a preocupação manifestada pelo pai. Indicado por amigos, preparava-se para
entrar, justamente no aniversário de sua saída de Palmeira, dia 16, em dois
jornais ricos[237]
que seriam inaugurados. Mas diante da notícia trágica, dava-se conta de que
nada disso se realizaria. Para evitar ser levado pelo primeiro impulso, atitude
sempre desaconselhável, não tomaria o próximo paquete, esperaria
esclarecimentos. Indicou seu endereço: Rua Maranguape, nº 13.
Em carta ao pai, de 26-08-1915, comentou que tudo se esclarecera com
as cartas dele recebidas no dia anterior, que lhe informavam o erro na data do
telegrama. Fez reflexões sobre a perda de um ente querido, sobre a felicidade
dos que vão e a infelicidade dos que ficam. Nunca se era feliz, quando se
conseguia experimentar algum contentamento relativo partia-se o anel da cadeia
que nos prendia à vida. Mas não era injustiça perder um filho pequeno, antes
era um grande favor que se fazia a uma criança[238]
livrá-la das torpezas da vida: o nosso pesar era egoísta.
Como Deus é mau e
injusto! Como seria mau e injusto, quero dizer, se existisse! (26-08-1915)
A carta de Palmeira dos Índios, de 18-08-1915, dizia haver febre de
mau caráter na cidade, mas garantia que todos em casa estavam bem de saúde.
Entretanto, o telegrama de 19-08-1915 informava que Leonor e a mãe, doentes de
febre, tinham sido atacadas no mesmo dia. Graciliano advertiu que via maus
presságios de coisas tristíssimas, o diagnóstico para Clodoaldo parecia
equivocado, possivelmente de médico novato, as febres talvez fossem epidêmicas
em razão da seca que o norte vinha sofrendo.
Retomou o assunto de carta anterior sobre sua presença inútil,
prejudicial ou aborrecedora em Palmeira: o que o entristecia e apavorava era
ter lá uma vida parasitária, a pior das vergonhas, o emprego na loja era uma
sinecura, já bastava o que lhe vinha acontecendo, envergonhava-se da mesada que
recebia, um roubo a seus irmãos. Seria possível arranjar lá um trabalho de
verdade?
Dos ”dois jornais ricos”, acima referidos por
Graciliano, ficaram notícias apenas de A
Tarde[239]. Assumira a oferta de trabalho em A Tarde pensando na possibilidade de uma
circunstância imprevista que o obrigasse a ficar, ou para passar o cargo para
Pinto, caso voltasse a Palmeira, como pretendia. O emprego lhe parecia
suficiente para manter-se. Poderia também conseguir trabalho à noite em outro
jornal, alcançando no total cerca de trezentos mil-réis, ou dar lições em algum
colégio, embora achasse que não sabia nada, ou tornar-se sem muita dificuldade
redator de qualquer coisa, com a desvantagem de levar calote de quando em vez.
Empregos públicos sem pistolões não eram fáceis. Sem dizer nada sobre sua
volta, o pai deixava-o indeciso, falava em ser sua carreira prejudicada, mas Graciliano não sabia bem se tinha
carreira: as perspectivas eram aquelas, com ordenado medíocre, sem futuro de
outra espécie à vista. Tinha o bom senso de julgar-se aproximadamente
analfabeto, embora houvesse analfabetos que venciam, mas ele era uma espécie de
idiota que não sabia cavar como os
outros. Contava isso tudo ao pai com sinceridade, como se estivesse falando
consigo mesmo, mas queria saber sua opinião.
Tinha se encontrado com um conterrâneo, que estava encantado, achando
o Rio um paraíso. Talvez pudesse aproveitar sua companhia para a volta: que o
pai escrevesse logo, Graciliano estava apreensivo, com receio de receber outras
notícias más naquele funesto mês de agosto.
Não me tenta a Palmeira.
Mas acredito que com o sacrificar-me, não sacrificarei grande coisa.
O que é mau é abandonar a
gente uma coisa que começa a aparecer depois de uma espera longa. (26-08-1915)
Muitos habitantes de Palmeira dos Índios, fugindo do surto de peste
bubônica, abandonaram a cidade, entre eles a família de Maria Augusta. Ela,
entretanto, recusou-se a ir: hospedou-se na residência dos Ramos, auxiliando no
tratamento dos doentes e costurando mortalhas para os que sucumbiram. Marili
Ramos relembra:
Papai surpreendeu-se.
Pediu-lhe que considerasse o que fazia. Ela, calma, respondeu que morreria
contente morrendo conosco. Com tal expediente ela venceu a prevenção que havia,
tornou-se membro da família, e tratou com desvelo os doentes.[240]
Faleceram três irmãos e um sobrinho de Graciliano: primeiramente
Clodoaldo, logo depois a Leonor del mio
cuore (1894-1915, 20 anos), seu filho Heleno (sobrinho e afilhado de
Graciliano, daí contaminado duplamente por sua urucubaca, como ele dissera em carta anterior) e Otacília
(1900-1915, 15 anos). A mãe e a irmã Marili, atacadas pela peste, sobreviveram.[241]
Depois de trabalhar como suplente e revisor escassamente no Correio da Manhã, quase nada em O Século, possivelmente alguns dias em A Tarde, produzir contos, algum poema e
publicar crônicas no Paraíba do Sul e
no Jornal de Alagoas, Graciliano
voltou para Palmeira dos Índios aos 22 anos de idade. A menina Marili viveu o
retorno do irmão moço:
Estávamos em setembro.
Uma noitinha, Grace chegou.
Corri para a calçada. Vi
um rapaz alto, delgado, com um grande lenço roxo no pescoço, desmontar e
entregar as rédeas a um criado. Achei lindo o lenço. Elogiei-o. O rapaz tirou-o
do pescoço, sacudiu a poeira, e o pôs em meus ombros. Radiante, embrulhei-me
nele, e fiquei querendo muito bem ao meu irmão rapaz.[242]
1915 -1930 – Palmeira dos
Índios
Perto de um mês depois de voltar do Rio, às vésperas de completar 23
anos de idade, Graciliano providenciou os papéis para se casar em 21-10-1915
com Maria Augusta de Barros, dezenove anos[243],
depois de os pais da moça terem retornado a Palmeira dos Índios, com o fim do
surto bubônico. Marili Ramos lembra:
A família de Maria
Augusta voltou. Ela, porém, continuou conosco. Um dia, seu pai, senhor Aprijo
Barros, tomava café lá em casa, quando Grace entrou na sala de jantar, com um
braço sobre os ombros da namorada e disse: “Seu Aprijo, eu vou casar com esta
pequena. Que acha?”
Maria Augusta, moça
alegre, muito simpática, um tanto bonita, de cabelos castanhos claros, longos e
cacheados, era boa costureira, econômica, trabalhadora e tinha um jeito
especial para arrumar a casa e conservá-la caprichosamente asseada. Ótima
companheira, votava particular afeição a Otília e a mamãe, a quem chamava
madrinha.[244]
Para escândalo mudo dos circunstantes e constrangimento da noiva
católica, casaram-se apenas no civil, depois de Graciliano improvisar mobílias
e alugar uma casa. Valdemar de Souza Lima e Clara Ramos comentam:
casa que Terto Canuto
possuía no Pingafogo, para onde transportou, cedidos que lhes foram, uma mesa
de jantar, meia dúzia de cadeiras de cipó, um guarda-comidas e outros trastes
usados [245]
Apesar da advertência da
sogra de que, se concordasse com a mancebia legalizada, jamais teria uma união
religiosa e real, a moça conseguirá do marido, meses depois, os sacramentos que
lhe apaziguarão a consciência.[246]
Graciliano, casado e comerciante, tentou – de 1915 a 1920 – abandonar
as leituras e a prática da literatura, como prometia nas cartas do Rio de
Janeiro.[247]
Com a instalação em Palmeira dos Índios do Tiro de Guerra nº 384,
Graciliano, casado, prestou o serviço militar.[248]
O primeiro filho do jovem casal, Márcio Ramos, nasceu em 14-09-1916.[249]
Sebastião Ramos de Oliveira publicou reiteradamente
esta nota em maio de 1917:
Declaração
Faço saber a todos
aqueles a quem interessar possa esta declaração que no dia 30 de abril, próximo
passado, me retirei da firma Ramos & Filho, que nesta cidade existia,
ficando daquela época em diante responsável pelo Ativo e Passivo da citada casa
meu filho e antigo sócio Graciliano Ramos, que continuará a negociar com sua
firma individual.
Palmeira dos Índios, 6 de
maio de 1917.[250]
Segundo Marili Ramos, a partir daí o estabelecimento passou a se
chamar Loja Sincera:
Logo depois de casado,
Grace estabeleceu-se na casa comercial que pertencera a papai. Deu à casa o
nome de Loja Sincera. Ficava essa loja no Quadro, hoje Praça da Independência[251]
Nasceu em 13-09-1917 Júnio Ramos[252],
o segundo filho de Graciliano e Maria Augusta.
Dois anos depois do nascimento de Júnio, nasceu em 29-09-1919 Múcio
Ramos[253],
o terceiro filho do casal.
Marili Ramos lembra como, depois de seus doze anos de idade, o irmão
foi importante para sua formação, em “conversas que iam além das onze horas da
noite, nos dias em que não havia cinema”. A menina sentia-se à vontade para
expor suas dúvidas a ele, que lhe dava verdadeiras aulas sobre reprodução,
história, física, astronomia, despertando sua grande simpatia por Galileu,
revelando seu espírito crítico para os desmandos dos poderosos e da Igreja.
ele informava, sem
constrangimento, que Lutero, sendo interrogado pela irmã católica, qual a
melhor religião, dissera: “Para a vida, a minha; para a morte, a sua”.
Recordo-me do dia em que ele,
muito pensativo, disse: “Onde estará, realmente, a verdade? Você não sabe como
é feliz quem tem fé”.[254]
Colaborava com a esposa nos afazeres domésticos, como registra
Valdemar de Souza Lima:
Dona Amália Ramos, irmã
dele, contou-me que Graciliano, nos dias de domingo, quando se achava
despreocupado em casa, munia-se de um pano para limpar os móveis da sala de
visitas. E uma amiga do casal, indo, certa manhã, tratar de um negócio com
Maria Augusta, ficou surpreendida com ele na cozinha, uma toalha enrolada na
cabeça, ralando, pachorrentamente, o milho do cuscuz, enquanto a mulher de lado
cuidava de outros arranjos, pouco se lhe dando a ele que a sua performance se
tornasse conhecida lá fora e o tachassem de “dominado”.[255]
Além da compra de livros, acompanhou pelos jornais eventos como a
Revolução Russa e, posteriormente, a Semana de Arte Moderna de São Paulo, como
contou a Homero Senna:
Tendo vivido quinze anos
completamente isolado, sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por
ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras.
Depois da revolução russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo
me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos,
iam-me daqui, do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio
do Mercure de France.[256]
Faleceu Maria Augusta, aos 24 anos, em decorrência do parto da menina
nascida em 23-11-1920, batizada com o nome da mãe: Maria Augusta Ramos[257].
Marili Ramos relembra esse momento lancinante[258],
em que Graciliano, aos 28 anos, tornou-se viúvo, com quatro filhos para criar:
Ficou-me gravada na
memória a figura dele, sentado na cama, tendo na perna a cabeça da morta[259],
alisando-lhe os longos cabelos, molhando-se com abundantes lágrimas, esquecido
de todos, esquecido de tudo, entregue à dor que o avassalava.
Não pensando em se casar
novamente, não querendo ficar com empregada nem voltar para nossa casa,
convidou Daia para cuidar das crianças. Ela, com 16 anos, aceitou o convite e
encarregou-se dos sobrinhos.[260]
Há menção de que, nesse período, lecionava no Colégio Sagrada Família.[261]
Graciliano passou a vestir-se de negro e raspou o cabelo.
Durante um ano, tudo nele
era preto – do chapéu aos sapatos, tudo preto.
Nos primeiros tempos de
viuvez, deu-lhe na telha também mandar cortar o cabelo rente, e mais tarde,
achando que isso ainda era pouco, recomendou ao cabeleireiro que lhe raspasse
definitivamente a cabeça.[262]
Ainda que tenha sempre ironizado o Espiritismo, dedicou-se a leituras
sobre teorizações, por exemplo, do astrônomo e estudioso de paranormalidade
Camille Flammarion, cujas obras, anos depois, Ricardo Ramos encontraria na
estante do pai: Avant la mort e Autour de la mort, sob o título geral de
La mort et son mystère.
Enviuvara, a primeira mulher
morta de parto. Do dia para a noite, ele e três filhos pequenos, mais uma
coitada recém-nascida. De dia, tentava ocupar-se dos meninos. Mas as noites
eram longas, solitárias, ampliavam a lembrança. Em volta, o clima de interior,
de crendice, as empregadas viam a antiga dona da casa no seu quarto, penteando
os cabelos. Sugestionado, passou a invocá-la. O tempo corria, nada, nem sombra.
Desconfiado procurou informar-se, e leu, leu muito.[263]
Cinco anos depois da experiência frustrada no Rio de Janeiro, que
pusera fim a suas atividades de escritor e jornalista, o jovem viúvo passou a
colaborar com o novo semanário de Palmeira, O
Índio - Jornal Independente, Literário e Noticioso[264],
a convite de seu fundador, o Padre Francisco Xavier de Macedo. Há marcas de seu
estilo em textos sem assinatura, como artigos, respostas a correspondência,
notas[265],
mas os textos de autoria identificada com mais persistência são aqueles
assinados com os pseudônimos[266]:
X para a coluna Garranchos, Anastácio
Anacleto para versinhos, ditos ou pequenas notas de cunho epigramático na
coluna Factos e fitas, de curtíssima
duração[267],
e, para as crônicas de Traços a esmo,
J. Calisto. Durante três meses,
Graciliano, aos vinte e oito anos, participou ativamente das quatorze primeiras
edições do jornal, desde o número inaugural em 30-01-1921 até a edição de
01-05-1921[[268]].
Depois “retirou-se”.[269]
Enquanto atuou, Graciliano publicou crônicas como esta:
O futebol não pega,
tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas
capitais de importância. Não confundamos.
As grandes cidades estão
no litoral; isto aqui é diferente, é sertão.
Reabilitem os esportes
regionais, que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a
corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar
galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada, a rasteira.
A rasteira! Este, sim, é
o esporte nacional por excelência![270]
Não há notícias de identificação comprovada de autoria dos textos não
assinados de O Índio. Os traços de
estilo de Graciliano Ramos são insuficientes para identificá-lo sem risco de
equívoco, uma vez que, além da influência que pudesse exercer sobre os
companheiros de redação, disseminando tais marcas, sua ingerência editorial
parece ter sido ampla, a crer no seu depoimento em carta de 04-08-1921, ao
amigo Pinto: “Durante o tempo que ali trabalhei, esforcei-me por melhorar os
artigos dos outros. Mas quem melhoraria os meus, que eram quase todos?”[271]
Correspondência
As respostas à correspondência para O Índio, que Ivan Barros atribui a
Graciliano[272],
ainda que predominantemente mais cordatas e contidas, têm muito do espírito
esculhambador do Dr. Cabuhy Pitanga de O
Malho, com o qual o amigo Pinto e ele se divertiam na juventude. Alguns
exemplos:
MATUTO
ATREVIDO – Não publicamos panegíricos. O amigo excedeu-se em elogios
individuais, o que é contrário a nossa índole. De resto os fatos de que trata
seu artigo já foram comentados por este jornal debaixo de um ponto de vista
diferente. Publicaremos, sendo feitos com algum jeito, artigos de interesse
geral. (13-02-1921, ed. 3, t. 4)
S. L. – Caramba! hombre! O sr. atirou-nos tantos
elogios que estamos positivamente
confusos. Fala em nosso engenho
sublime... Francamente, é excessivo. Não somos o que o sr. diz: somos
apenas uns pobres diabos que aqui nos arriscamos a rabiscar papel como Deus é
servido. Demais seu trabalho tem defeitos graves. Começa a explicar o motivo
pelo qual nos aparece. Diz em seguida que não tem absolutamente nenhuma ideia,
o que é estranhável em quem escreve. Entra depois a prodigalizar-nos elogios em
penca e termina com a descrição de um pôr de sol. Há, portanto, em seu
trabalho, ausência completa de unidade. Entretanto, aproveitaremos, quando
houver espaço, o fim de sua produção, convenientemente modificado, porque o
princípio e o meio – valha-nos Deus! – nem com a mão do Padre Eterno.
(20-02-1921, ed. 4, t. 4)
MOACYR –
Sua carta é tão amável, tão modesta, que, depois de a ter lido, estávamos
positivamente predispostos a seu favor. O sr. tinha pelo menos cinquenta por
cento de probabilidades de ser bem aceito. Com a leitura dos originais, ficamos
um pouco desapontados. Com a breca! O sr. emprega umas palavras tão difíceis...
Tem uma linguagem muito campanuda. Não compreendemos bem as charadas, que
nessas coisas de tratos à bola não somos fortes. Os Traços estão fracos. Parece-nos que o sr. teve a preocupação de
substituir ideias por palavras. O soneto “Descontente” tem alguns defeitos. O
segundo e o penúltimo versos estão positivamente quebrados. Há ali rimas
forçadas e alguns cochilos de gramática, como nessa e esse, nos dois
primeiros versos do primeiro terceto, por
os, no penúltimo verso do último terceto. O destino em pugilato só pode entrar por necessidade de rima. Temos
para com o amigo uma franqueza assim porque sua carta nos inspirou muita
simpatia. Os Traços serão
aproveitados, quando houver espaço. Os versos e as charadas não. Só
publicaremos versos por exceção. (27-02-1921, ed. 5, t. 4)
L. (S. Miguel de Campos) – Recebemos seus Traços do carnaval. Temos aqui uma
chusma de trabalhos com o título de Traços.
Começando por nosso amigo, correligionário e quase parente J. Calisto, que
faz Traços à toa, a esmo, como ele muito bem diz, nossos
colaboradores entraram a traçar tanta
coisa que é mesmo um nunca acabar.
Ora, os Traços que o amigo nos mandou chegaram
com um atraso lamentável. Como quer que demos notícia de coisas que se passaram
pelo carnaval? Valia quase o mesmo noticiar a chegada de D. João VI ao Brasil –
ou D. João vi, como diz um
respeitável e pitoresco assinante desta folha. Pode, pois, o amigo gabar-se de
ser um perfeito repórter-tartaruga. Até admira que um homem tão moço escreva
coisas tão velhas... (06-03-1921, ed. 6, t. 4)
JOÃO DA LUA
(Maceió) – Apesar do nome, queremos
acreditar que o senhor não vem do mundo da lua. Deve ser um cidadão cá da
terra, visível, palpável, como os outros. Entretanto, permita que lhe digamos
que achamos em seu trabalho um certo modo de lunático, o que justifica perfeitamente
o nome que adota. Tanta palavra gasta para dizer que gosta da noite... Nós
também gostamos dela, graças a Deus, pois o travesseiro sempre é mais agradável
que a mesa dura em que escrevemos; mas não vamos tão longe. O Coliseu, os
Ciclopes, Hécate, Cômodo, Hebe, a fonte de Hipocrene, Febo, Glauco, Ione e o
mistério, tudo de mistura a propósito da noite, a encher duas tiras –
francamente – parece-nos excessivo. Receberemos com prazer coisa menos
complicada, acessível à percepção do vulgo. Que nós, afinal, como toda a gente,
só compreendemos o que é feito para ser compreendido. E o seu trabalho é
confuso como o oráculo de Delfos, já que a mitologia lhe agrada... (13-03-1921,
ed. 7, t. 4)
HPITO SBEM (Arapiraca) – O senhor tem muita graça.
Não ouviu daí as gargalhadas que nós demos? Pois nós nos rimos muito. É pena
que esteja a gastar tanta verve em Arapiraca. É conveniente ler com atenção e
não ver em tudo frivolidades. Há coisas que são mais sérias do que parecem a um
espírito que busca em tudo palhaçadas, sem penetrar nunca a essência do que lê.
Não recebemos seu presente. Tenha a bondade de mandá-lo à senhora sua avó.
(20-03-1921, ed. 8, t. 4)
MOEMA –
Ficamos espantados. V. Excia. escreveu uma página demasiado vermelha. Até
admira que uma senhora possa fazer uma descrição que a nós, bichos barbados,
pareceu um tanto escabrosa. Não teríamos escrúpulo em assistir àquela cena.
Sentiríamos mesmo muito prazer em desempenhar qualquer papel nela. Não nos
atrevemos, porém, a aqui apresentá-la ao público...Et pour cause... (03-04-1921, ed. 10, t. 4)
PAULO DIAS
(Rio de Janeiro) – O conto é longo
demais. Não sabemos se nos será possível encontrar aqui espaço para ele. Talvez
o publiquemos em folhetim. Os dois sonetos são frios, graves, dão uma impressão
de imobilidade que entristece. O senhor parece-nos um conhecedor perfeito da
técnica, mas não é poeta. Não há poesia em seus versos. Está tudo muito bem
contado, medido, mas sem vida. Nunca publicamos versos. Vamos ver se abrimos
aqui uma exceção para os seus. (03-04-1921, ed. 10, t. 4)
LOBISHOMEM
(Viçosa) – Estava o Calisto posto em
sossego, de suas crônicas colhendo o desenxabido fruto, quando lhe chegou, dos
saudosos campos da Viçosa, a carta homo-lupina que o senhor lhe mandou.
Magnífico assunto, sim senhor. O homem lhe agradece e promete desemaranhar-se
da incumbência como Deus for servido. (10-04-1921, ed. 11, t. 4)
J. LUCIANO (Palmeira) – É impossível a publicação
de seu artigo. Há nele uma confusão lamentável. Tenha o amigo paciência e vá
escrevendo, escrevendo sempre. Com algum tempo de estudo e experiência, é muito
possível que venha a fazer coisa razoável, se tiver gosto. É conveniente não
desanimar e ir para diante, apesar do insucesso, que é muito natural nas
primeiras tentativas. Há gente que, tendo começado como o senhor, tem
conseguido bons resultados. Tem ainda muito tempo para queimar as pestanas.
(17-04-1921, ed. 12, t. 4)
Artigos
O humor abusado de Graciliano certamente contaminou os colegas na
redação e deu o tom da linha editorial de O
Índio: combate ao analfabetismo e crítica ferina à falta de escolas na
cidade, ao comportamento da cidadania, ao fornecimento da luz[273],
da água, ao funcionamento do cinema, junto à reivindicação persistente por mais
civilização e pela estrada de ferro, empacada em Quebrangulo. As referências
bem informadas de geografia, literatura, mitologia, história antiga e
contemporânea, a ironia que inclui caracterização da preguiça e do imobilismo
no campo semântico do “dormir”, do “digerir”, do “bocejo”, ou se vale da hipérbole,
principalmente para retratar descontroles com “guinchos”, “coices”, “urros”,
são marcas de estilo que sugerem a autoria de Graciliano. Avesso ao efeito
altissonante do enlevo canastrão, da patriotada campanuda, das fórmulas
comparativas do tipo “o mar, qual líquida esmeralda”, Graciliano a essa altura
já evitava o “algo”, mas as exclamações e as reticências ainda tinham boa
frequência em sua escrita[274].
Desde jovem, apesar dos sonetos, aplicava uma sintaxe clássica sob versão
materialista e brutalizada, que trocava “lábios” por “beiços”[275]
e usava um “aquilo” depreciativo para tudo e todos, sem deixar, entretanto, de
exercitar pleno domínio gramatical na solução precisa e árida dos períodos,
sempre com elegância e ritmo, por exemplo, na colocação de pronomes à antiga,
como em “Já se não usam arco e frecha e tacape” (13-02-1921, ed. 3, t. 1). Além
do apego a termos como “tira” para folha de papel, “vermelho” para o erótico,
“telegrama” para notícias do exterior, “arame” para telegrama, “ordinariamente”
para significar “normalmente”, seu estilo peculiar faz uso de vocabulário com
significado rigorosamente dicionarizado, mas não usual, o que revigora o
sentido original da palavra pelo estranhamento, dando-lhe voltagem irônica, por
exemplo, quando em Infância fala da
mãe, que lhe aplicava “chineladas e outros castigos oportunos”[276],
ou, de modo mais sutil, na crônica
providenciada por sugestão do “velho amigo Lobisomem”, quando menciona o
“casamento maximalista efetuado no
Rio”, ao invés de “realizado” ou “ocorrido”. Ao lado do tom asseverativo, com
autoridade insubordinável, típico de suas frases nominais, como em “Tolice”[277]
(13-02-1921, ed. 3, t. 1), a obra futura confirmaria o traço estereotípico de
seu estilo, marcado por uma impressionabilidade no reconhecimento do mundo, que
repetiria obsessivamente peças fixas significando “assim-que-as-coisas-são”.
Entretanto, a localização de certas características não garante a
comprovação de sua autoria, assim como não é suficiente o contexto de Caetés que os artigos possam retratar,
pois estariam refletindo uma percepção do ambiente comum a todos, aproveitada
posteriormente pelo romancista em chave própria. Na verdade, há dificuldades de
identificar a autoria em certas passagens mesmo após os pesquisadores terem
descoberto seus pseudônimos e seções pelas quais foi responsável, por exemplo,
na coluna “Garranchos”, quando o autor faz conclamações solenes de moralismo,
como se fosse Padre Macedo, tanto quanto em certas passagens transcritas a
seguir. Marcas típicas da escrita de Graciliano podem ser efeito de seu
copidesque sobre textos alheios. Os textos abaixo, dentro do conjunto de
artigos e notas não assinados de O Índio,
limitam-se, desse modo, tão somente a exemplificar o espírito do jornal vigente
nesses quatorze primeiros números, apanhados como uma coleta de objetos de
pesquisa para potencial identificação de autorias. Por exemplo:
Nosso povo
O estado em que se
encontram as nossas populações sertanejas – não nos iludamos – é a mais
profunda barbaria. Já se não usam arco e frecha e tacape, já se não come carne
humana, mas não se está longe do tempo em que se fabricavam instrumentos de
música com as canelas dos inimigos derrotados.
Somos talvez o povo mais
ignorante do mundo. O cruzamento de raças que estão colocadas nos degraus mais
baixos da escala humana deu em resultado o ser obtuso que nós conhecemos,
perfeitamente tapado – o homem-toupeira.
Além de essencialmente
estúpido, é um ente que vive abandonado. Não consta que haja quem,
praticamente, se tenha preocupado com a sorte do pobre hilota que, entre nós,
nasce, cresce, trabalha na roça, procria, bebe cachaça e morre. Outra coisa
ainda não aprendeu a fazer o infeliz. As mais rudimentares noções são-lhe
vedadas; ignora a existência dos objetos mais simples, de coisas absolutamente
indispensáveis à existência de uma criatura.
Não tem desejos. Vive
numa animalidade que espanta. Parece que em seu cérebro exíguo não há lugar
senão para as sensações que mais de perto se relacionam com os atos essenciais
da vida. Dir-se-ia que não pensa.
Parece incrível que se
possa viver como vivem pobres diabos meio selvagens, quase bichos, sem nenhum
conforto. As casas em que moram são ainda as habitações do homem primitivo, não
muito mais cômodas talvez que as cavernas dos trogloditas. Uma saleta acanhada
e uma cozinha onde ninguém se pode ter em pé, tão baixo é aquilo, tal é a
morada. Juntam-se ali, numa promiscuidade de causar pasmo, às vezes famílias
numerosas, que o sertanejo é de uma fecundidade admirável.
Não pode haver criaturas mais
sujas. A roupa escassa que usam é imunda. Dormem juntos, em camas de varas, no
chão, em esteiras, moços e velhos. Raparigas chegadas à puberdade, pobres
crianças quase, na idade dos sonhos doidos e dos desejos violentos, assistem à
vida conjugal do pais, nua, viva, perfeitamente animal. A verdade não
dissimulada, sem nenhum véu, passa-lhes diante dos olhos. É ali que a
prostituição vai buscar um número fantástico de vítimas.
A quantidade de
casamentos que se desfazem, por culpa da mulher ou por malandragem do homem,
que apenas quer colher o fruto virginal que a fêmea lhe pode dar, é
inacreditável. Carne para o alcoice.
O matuto não tem
religião. A religiosidade que há nele reduz-se a práticas da mais triste
superstição, do mais grosseiro fanatismo. Adora litografias esquisitas, pedaços
de papel []. Deus e o Padre Cícero são iguais. – Eles dois se cortam, diz o
romeiro convencido.
Aqui mesmo, há meses, num
arrabalde a menos de um quilômetro da cidade, multidões se reuniam aos domingos
para render culto a um cajueiro desfolhado, em que os devotos pretendiam ver a
forma de uma cruz.
Falou-se em cortar a
árvore. Tolice. Seria difícil derrubar todos os cajueiros. E quando não
houvesse mais cajueiros, poderiam aqueles desgraçados adorar outros []. O que é
necessário não é cortar árvores numa pobre terra que se transforma em deserto,
por falta de florestas.
O essencial é cortar o
fanatismo.
E o fanatismo só se corta
espalhando-se a instrução. (13-02-1921, ed. 3, t. 1)
*** Seria interessante
fazer-se uma estatística dos mendigos que há por aqui. Talvez não haja terra
que, em relação ao número de seus habitantes, possua mais pedintes. Eles aqui e
os cães em Constantinopla. É uma inundação de cegos, manetas, coxos, mutilados
de todos os gêneros, doentes de todos os feitios. Há ainda a considerar o
retirante e o romeiro, um que vem do sertão, por causa da seca, outro que vai
para o sertão, por amor do Padre Cícero. Tudo é gente que não trabalha, braços
roubados à lavoura. Malandros robustos, a vender saúde, cobrem-se de farrapos,
inventam um pai doente e lá se vão a cantar lamúrias, pelos balcões e pelas
esquinas, a embromar a caridade papalva dos tolos. Má compreendida caridade
essa que se limita a dar esmolas à gente que pede pelas portas, a cantar.
Ordinariamente, os mais necessitados são justamente os que mais acanhamento têm
de pedir. O verdadeiro altruísmo não é o que distribui cobre aos mendigos,
comprando um vintém de céu, como dizia o bispo Myriel, de Victor Hugo. Quantos
pedintes precisam realmente de uma esmola? É necessário defender-se a gente da
praga da mendicidade fingida. Enquanto não aparece outra ideia, aqui lançamos
uma, que é a mais simples: Façamos greve contra os pedintes. Abra-se uma
exceção para os cegos, que aqui não podem trabalhar, e a alguns indivíduos a
que faltam membros de importância – e obrigue-se o resto a arrebentar-se de
fome ou a pegar no cabo da peroba. (13-02-1921, ed. 3, t. 1)
Nossa índole
A nota característica de
nossa gente é a preguiça – um desalento geral, contagioso, que se apodera
tiranicamente dos indivíduos, que penetra os organismos, estendendo-se do dedo
grande do pé ao coiro cabeludo. Todos nós sentimos uma grande frouxidão de
ânimo, uma disposição especial para o repouso. Nutrimos singular aversão a tudo
quanto é movimento. Gostamos de estar parados. Não nos incomodem – e tudo vai
bem. Quando estamos em pé, desejamos encostar-nos; encostados, procuramos uma
cadeira; sentados, suspiramos pela cama. Dormir – eis aí o estado ideal do
homem.
Ausência completa de
ação. Evitamos tudo quanto possa exigir de nós qualquer esforço. Nem sequer
pensamos, que o pensamento é doloroso.
Trabalhamos
constrangidos, e a cada passo – uff! – achamos a tarefa demasiado pesada. Se
encontramos meio de deixar o serviço para o dia seguinte, somos quase felizes;
se conseguimos deixá-lo para sempre, a felicidade é completa.
Vimos um dia um matuto
cortar uma árvore a machado. Tivemos a pachorra de observar a operação
minuciosamente. O homem coçava a cabeça, fazia uma viagem em torno do pau,
cuspia, acendia o cigarro, deixava cair a ferramenta, apanhava-a, jogava-a
contra o tronco, desanimado, num desespero por aquilo ser tão duro. A cada
instante suspendia o trabalho, limpava o rosto com a manga do casaco, olhava o
curso do sol, carrancudo como um condenado. Depois de quatro horas, tinha dado
quatro mil e seiscentas machadadas e tinha cortado metade do pau.
Assim somos todos nós.
Qualquer exercício deixa-nos exaustos. Encontrar aqui uma criatura que saiba
trabalhar com método e vontade é extraordinariamente difícil. O que sabemos
superiormente é desperdiçar o tempo com palavreados inúteis. Gostamos de
cavaquear. Ao começar qualquer empresa, perdemos em discutir a maneira de
executá-la o duplo do que seria preciso para levá-la ao fim. Temos a arte de parolar,
estragar palavras para não dizer coisa nenhuma.
Cheguem a uma esquina
onde haja três homens. Se estiverem ali nove cadeiras, todas elas estarão
ocupadas. Cada pessoa serve-se de três – uma para sentar-se, outra para colocar
os pés, a terceira para encostar os ombros. Ouçam o que dizem. Faz pena.
Maluqueiras, pulhices... Não há ali coisa que se aproveite.
De resto muita
ignorância, toleima de causar lástima, uma presunção de quem traz o rei na
barriga. Cada um de nós imagina-se pelo menos igual à soma de todos os outros
juntos. Conhecemos um cidadão que costumava dizer a respeito de indivíduos que
andam cá por baixo, julgando-se muito em cima, como o batráquio da fábula:
– Se aquele sujeito fosse
a milésima parte do que julga ser, nem o czar era igual a ele.
(Nesse tempo havia um
czar em certo país que se chamou Rússia, de que talvez ainda se recordem alguns
antiquários que se preocupam com as épocas pré-históricas anteriores a 1914.)
A observação é sagaz. Que
afinal somos apenas isto – criaturas extremamente vaidosas, indolentes e
papagueadoras... (20-02-1921, ed. 4, t. 1)
Ao correr da fita
O cinema de Palmeira tem
a extravagante particularidade de fazer de um film em oito atos uma estopada em oitenta ditos. Quer isto dizer
que em cada ato a projeção se interrompe pelo menos dez vezes. A gente paga
para assistir a uma seção de uma hora e acaba passando três horas a ver aquele
jogo interessante de apagar e acender. Custando uma hora de projeção seiscentos
réis, o espectador passa um formidável calote no proprietário do cinema se o
triplo do tempo custa igualmente seis tostões. É claro! De resto é uma coisa
extremamente agradável estar-se ali. A companhia é ótima. Há uma chusma de
pessoas caridosas, que nos fazem o favor de ler aos nossos ouvidos as letras
que por ali aparecem, naturalmente porque nos sabem analfabetos. Indivíduos há
que gostam de comentar a fita em voz alta e dão-nos explicações muito
pitorescas a respeito. Em suma, está-se lá muito bem. Ah! ali é o “ponto
preferido da élite palmeirense”, como dizem os cartazes. Concordamos em
absoluto. Dá até vontade de dormir naqueles bancos tão cômodos, a que, por
maior comodidade, vão tirando os encostos. Infinitamente agradável. Quando está
claro, é aquela beleza de meu Deus. Aqui e ali senhoras de palito na boca... É
delicioso ver uma senhora em um teatro, a remexer um dente cariado. De vez em
quando – crac! – rebenta um banco. Não é nada de extraordinário, nestes tempos
de câmbio baixo, quando até bancos de outra natureza quebram a valer. É
magnífico! Só temos a louvar o esforço que o proprietário do cinema tem
empregado para dar a um film em seis
atos elasticidade suficiente para levá-lo em três horas...(20-02-1921, ed. 4,
t. 1)[278]
Estradas e votos
Hoje, eleição para
deputados e senadores. Este jornal traz uma notícia a respeito. Trabalho
inútil, porque o povo de Palmeira conhece perfeitamente quando se avizinha a
época das eleições... por causa da estrada.
Acham disparate? Pois não
é. Existe em não sei que ponto do globo um caminho de ferro que, por artes de
certa companhia inglesa de parceria com o governo, tomou a grande resolução de
estender um de seus braços até esta pouco heroica e leal cidade dos enduapes e das
tangas. São coisas da geração passada, faz já um horror de anos. Todos os meses
a estrada chegava ali pelo Pinga-Fogo. Vem hoje, vem amanhã, vem, não vem... o
caminho de ferro ficou em caminho. Desde então, de três em três anos, quando se
aproximam as eleições federais, a população palmeirense se alvoroça como
formigueiro em vésperas de trovoada.
– Aí vem a estrada,
tenham mais um pouco de paciência, é questão de meses. Não desanimem os
eleitores, que desta vez a coisa é séria.
– Mas homem, diz o matuto,
desconfiado e indeciso, coçando a orelha, eu já estou tão habituado a ouvir
essa cantiga... Parece que isso não pega.
– Não, senhor, pega. Das
outras vezes não valeu, mas agora é deveras. É um negócio como outro qualquer –
uma simples troca de dormentes por votos.
Ora aí está como vamos
ter, mais uma vez, a suspirada estrada. Pouca gente acredita, mas que!... Se
até já saiu qualquer coisa a respeito no “Diário Oficial”! Ouvindo falar assim
em coisas difíceis, o matuto convence-se. Tem ao “Diário Oficial” o vago medo
que nos inspiram as coisas sobrenaturais.
Enfim, vamos esperar. E
se ainda não for agora, será de hoje a três anos. Será em qualquer tempo, para
o futuro, quando toda a gente tiver asas e ninguém precisar mais de estradas de
ferro. (20-02-1921, ed. 4, t. 2)
No claro e no escuro
A propósito de um
comentário que fizemos a respeito do cinema que há nesta cidade, o empresário
da novel casa de diversões abespinhou-se sem motivo e deu-nos na tela uma
resposta que talvez lhe tenha parecido espirituosa. Oferece-nos o homem assunto
para quando por qualquer motivo se acabe o que há cá por casa. Não
compreendemos bem o sentido da oferta. Não percebemos se o senhor empresário
nos dá seu cinema como fonte de assunto, o que seria exigir muito do público, ou
se quer trabalhar conosco a fabricar artigos, notícias, comentários e outras
coisas pouco divertidas. Ora isto aqui não é casa da viúva Fagundes, mas enfim
seremos muito felizes se o proprietário do cinema nos quiser dar a honra de sua
colaboração, que naturalmente, a julgar pelos cartazes, terá muito valor.
(27-02-1921, ed. 5, t. 3)
Sangue
Sangue, sempre sangue!
Estamos ainda muito perto do homem primitivo, do troglodita, que não encontrava
outro meio de defesa além da luta corporal. Se em algumas coisas evoluímos, se
um certo progresso, geralmente de ordem material, entre nós se acentua, não
resta dúvida de que, moralmente, não estamos distantes do selvícola antropófago
e bruto, vingativo e cruel, sanguinário e traiçoeiro.
Há dentro em nós uma alma
de caraíba. Admiramos ainda o assassino, glorificamos o criminoso, celebramos
os feitos do bronco herói das estradas. Uma indulgência estranha, mesclada de
respeito e de um não sei quê de ternura, atira-nos a perdoar os homicidas,
engrandecendo-os, emprestando-lhes mesmo uma auréola que talvez eles nunca
tenham ambicionado.
Matar um homem! Que ação!
É-se respeitado, sobe-se no conceito público, toma-se ar de importância, é-se
temido pelos outros. Daí a facilidade com que os crimes se desenrolam.
A impunidade, mas
impunidade absoluta, que em nosso meio existe – ai de nós! – completa a obra da
desmoralização. Rigorosamente falando, não há entre nós um tribunal para julgar
crimes: há uma comédia ridícula representada por oito malandros, que
sistematicamente se encarregam de jogar à rua o rebotalho do povo, estragando
em um minuto o resultado de longos e pacientes trabalhos.
O júri é a instituição
mais pulha que já foi enxertada nestas pobres terras de botocudos que andam
vestidos. A mentalidade do juiz de fato balança entre as duas pontas deste
dilema – perversidade fria ou inconsciência absoluta. De resto, quando se dá
qualquer crime, põem-se em jogo tantos elementos em favor do criminoso,
executa-se tal trabalho subterrâneo, exploram-se interesses, lisonjeiam-se vaidades,
fazem-se pedidos indiretos, insinuam-se promessas, movem-se em suma tantas
forças em favor de um miserável que a gente chega a desconfiar, a perguntar se
todos os homens serão bandidos ou malucos.
Em nosso número passado
demos uma notícia que nos encheu de tristeza e asco. Uma criança de onze anos
cometeu um assassínio. Matou friamente, covardemente, enquanto a vítima dormia.
Um assassino de onze
anos! Que será para o futuro um pequenino monstro que em idade assim tenra já
se mostra um infame e traiçoeiro matador? Que dirão dele os protetores que,
naturalmente, há de ter? Que é pequeno, que não pensa, que praticou o crime
como teria praticado uma travessura insignificante...
Maluqueiras...potocas...
Mas podem afirmar que de hoje a três meses estará em liberdade. Coisa triste!
(06-03-1921, ed. 6, t. 1)
Cavalos, cordas e amores
Não é muito dizer que
para andar-se pelos passeios de Palmeira é necessário ser-se um pouco acrobata.
É que nos quer parecer que as calçadas cá da terra não se fizeram para o
transeunte circular com facilidade, mas... para amarrar cavalos. Chega um cavaleiro,
apeia (ou desapeia), deixa o animal
na rua, puxa-lhe o cabresto, que amarra à dobradiça da porta que fica fronteira
ao bicho. Donde se conclui que as dobradiças têm aqui função dupla: garantem a
segurança das moradas e servem com eficiência para prender as cordas dos
sendeiros. Aos sábados, então, são tantos os cavalos que não apenas dificultam,
mas chegam a interromper o trânsito pelos passeios.
Para uma criatura passar
ali, necessário se faz o emprego de uma ginástica complicada: saltar a corda,
arriscando-se a embaraçar as pernas e quebrar as ventas, num trambolhão, ou
baixar-se em curvaturas difíceis, que põem a espinha de um cidadão num arco.
É um exercício muito
recomendável às pessoas que padecem de reumatismo. Apenas as senhoras não se
sentem dispostas a executá-lo em plena via pública. Aquilo tem algum perigo,
pois não só lhes ameaça a integridade das canelas, mas pode obrigá-las a
atitudes desagradáveis, expondo a olhos curiosos particularidades que não devem
ser exibidas. Têm, portanto, de abandonar a calçada, tornando o caminho mais
longo, cheio de curvas e ziguezagues.
Há ainda a observar que
não somente animais machos enchem as ruas. Há também éguas (com o perdão da
palavra). Não raro uns e outros se aventuram a praticar atos que, francamente,
não estão de acordo com o que se poderia esperar de quadrúpedes bem educados...
Não haveria um meio de se
proibir que, pelo menos aos sábados, em plena feira, esses desavergonhados
bichos nos viessem interromper o caminho e exibir-nos seus amores crus? (06-03-1921,
ed. 6, t. 1)
O espírito da terra...
A plateia, a deliciosa
plateia de Palmeira... Não sabemos bem se vamos ao cinema assistir às
magníficas projeções que há ali ou admirar o espírito que grande número de
espectadores exibe. É realmente admirável a graça que certos rapazes desta
encantadora cidade possuem. É de a gente morrer de rir. Apenas a sala fica às
escuras, começam os trabalhos. São guinchos, gritos, patadas nos bancos, urros,
cacarejos e outros interessantes rumores onomatopaicos. Se na tela um sujeito
beija uma rapariga, estalam nos bancos beijos em chusma, num barulho irritante
que mexe o sistema nervoso de um pobre homem que não esteja habituado àquilo.
Os comentários que se fazem às figuras que ali há são coisas incisivas, numa
linguagem que não abusa de metáforas, de uma clareza admirável. Muito
espirituosa a plateia... Cogita-se seriamente de acabar de rebentar a pitoresca
mobília daquela interessante sala. É o que parece, pois muitos espectadores –
que naturalmente gostam de deitar-se cedo – confundem aquilo com a cama,
recostam-se, espreguiçam-se, escancaram a boca num bocejo e... lá vai o encosto
do banco cair em cheio nas pernas da gente que está à retaguarda. É uma
gargalhada que se ouve no Xucuru. Sim, senhor, boa troça rebentar os móveis.
Nada mais pândego que um sujeito comodista, que gosta de dormir, dar um pontapé
na cadeira que lhe fica em frente, virar para trás e ir cair em cheio por cima
de uma senhora, por exemplo. Tem graça, tem muita graça. O senhor empresário,
pelo menos, acha naquilo muito espírito. Tanto que não gosta que se façam
referências a seu estabelecimento. Perde a mobília, mas o prejuízo é pequeno,
que os bancos não prestam. (13-03-1921, ed. 7, t. 2)
Pois façamo-las[279]
No artigo com que hoje
inicia sua colaboração nesta folha, Lambda, um experimentado escritor que
modestamente se exime de declarar seu nome, ocultando-se à sombra de um
pseudônimo com que há tempos assinou magníficos artigos na imprensa da capital,
emprega esta frase que não devemos deixar passar sem comentário: “Tratemos de
fazer muitos leitores, criando escolas e mais escolas”.
Aí está o que devemos
fazer. Fundemos escolas, muitas escolas. Não esperemos que o governo federal, o
governo estadual, o governo municipal cogitem da educação do povo. Os poderes
públicos têm outras coisas em que pensar – eleições, negociatas, arranjos...
Cuidemos nós mesmos de
fundar estabelecimentos de ensino...
Há tempos que a imprensa
carioca se esforça em combater o analfabetismo, numa campanha intensa, que tem
encontrado apoio em todas as classes sociais, menos na classe dos políticos.
Ora isto é uma classe que não tem nenhum interesse em que a desgraçada gente
que está embaixo saiba ler ou não. É até preferível para eles que o país esteja
cheio de analfabetos. Uma pequena minoria de pedantes empavonados, de anel no
dedo, governa o resto.
Um rebanho de bestas é
mais fácil de conduzir que uma sociedade de homens que conheçam seus deveres e
seus direitos.
Os antigos partas tinham
o hábito de furar os olhos aos inimigos vencidos, para melhor dominá-los.
O método adotado pelo
governo brasileiro não é muito diverso. Não pode mergulhar na ignorância as
almas que saíram dela, mas conserva cuidadosamente nas trevas os que ainda
estão cegos.
Lambda tem razão. Abramos
escolas, muitas escolas. Somos os interessados.
Deixemos o governo
dormir, digerindo o que nos arranca, enquanto não aparece coisa melhor para
substituí-lo. (03-04-1921, ed. 10, t. 2-3)
Esforços perdidos
Muito precisamos do
serviço censitário em nosso país, a fim de conhecermos exatamente a população
de nosso solo. Infelizmente, ainda nos é impossível obter com precisão o
recenseamento geral de todo o território brasileiro. Para colhermos dados
exatos seria preciso que o nosso povo estivesse mais aproximado da civilização.
Mas como poderemos ser civilizados, se não temos escolas? Em nossos sertões,
especialmente no Norte do Brasil, a proporção de analfabetos assusta.
Ordinariamente, os indivíduos aqui não sabem se são brasileiros, ignoram sua
idade, havendo até quem não saiba como se chama. Que se pode esperar de pessoas
meio selvagens, que fogem à vista do agente censitário, julgando-o
representante do anticristo?
Parece-nos patente que
principiamos pelo ponto em que deveríamos terminar. Nosso maior esforço devia
ser empregado em combater a grande enfermidade que atrofia a população
brasileira – o analfabetismo. Abri escolas, senhores dirigentes deste miserável
país, para que nós possamos ser verdadeiros brasileiros. (17-04-1921, ed. 12,
t. 2)
Para onde?
Hoje, dia do trabalho.
Parede geral, demonstração da força dos operários, os conscientes, está claro,
os que sabem o que têm a reivindicar.
Entre nós, tudo bem,
graças a Deus, como no conto de Gervásio Lobato.[280]
Mas lá fora o mundo
ferve. A classe média, pálida, faz concessões... E o proletariado, unido, com
os olhos fitos no oriente, onde uma nova estrela brilha, a cada concessão que
recebe mais exigente se torna.
A velha ordem
esbarronda-se. As coroas caem desastradamente. A qualidade é superada pela
quantidade. O número vence.
Uma extraordinária
revolução de Spartacus, terrivelmente aumentada, infinitamente maior que a que
se fez na Roma antiga, ameaça estender-se por todo o orbe. A eclosão de uma
sociedade diferente da nossa está iminente.
Onde a opressão foi maior,
a reação foi tremenda. E aí está a terra eslava, banhada em sangue, a espalhar
pelo ocidente uma assustadora torrente de ideias avançadas.
Para onde vamos?
Todos os meios empregados
pelos governos conservadores da Europa têm sido inúteis contra a sanha
revolucionária dos russos. O ouro, a perfídia, as ameaças, tudo falhou. Debalde
a Inglaterra engrossou a voz, mostrando o espantalho do bloqueio. Em vão a
França atirou contra a república dos conselhos as hordas de Koltchak e
Denikine. Inutilmente a Polônia lutou contra o gigante moscovita, que tinha a
ladrar-lhe aos calcanhares as matilhas do general Wrangel.
A onda cresce. Para onde
nos levará ela?
Neste período de
transição, nesta época terrível de violências e de sonhos, neste Maelstrom de
paixões antagônicas, qual das partes sairá vencedora – a ordem rubra que fez de
Gorki, banido pelos Romanov, uma figura importante na política russa, ou a
ordem prudente, velhaca, oportunista, que meteu Debs na prisão?
Parece claro que a
primeira vencerá.
E depois? Será realizado
o ideal dos trabalhadores? Será o sacrifício da burguesia compensado por
vantagens correspondentes à classe operária? Não estará esta destinada a atirar
seus próprios filhos às entranhas de fogo de um novo deus, feroz e sanguinário
como a antiga divindade fenícia?
Se os telegramas não
mentem, os sovietes, pouco depois da revolução, suspenderam o direito de greve
e aumentaram o dia de trabalho para doze horas. Isto não é animador para o
proletariado... De resto a ânsia de liberdade é tão velha como o homem, e não
se sabe bem se ele hoje será mais feliz do que no tempo em que havia escravos.
E que será amanhã?
Provavelmente o que foi
ontem, o que será sempre... (01-05-1921, ed. 14, t. 1)
Graciliano continuou como comerciante na Loja Sincera, além das atividades de magistério e da retomada das
leituras intensas a que se dedicava desde menino. Assim, após o retorno do Rio
em 1915[[281]],
passou os quase quinze anos[282]
seguintes, descontada a recidiva do viúvo nos três meses em O Índio, sem outras publicações jornalísticas e literárias. Um manuscrito
de 1923, “Os filhos da coruja”, assinado “J. Calisto”, preservado no Arquivo
Graciliano Ramos, IEB, não teve publicação na época, segundo o que foi
localizado[283].
O Dr. Cabuhy Pitanga em O Malho, 26-08-1922,
respondeu a “J. Calisto” de “Palmeira - Alagoas” que seu interessante conto “Um
louco”, poderia talvez ser publicado após uma segunda leitura[284].
Mas, se nada disso foi localizado como publicação, o estilo surpreendente dos
relatórios de prefeito em 1929 e 1930 revelaria o literato.
Marili Ramos[285],
adolescente, tinha livre acesso aos livros da biblioteca do irmão:
Grace
deixava a estante dos livros sempre aberta. Aconselhou-me a que lesse o que
quisesse e, achando alguma coisa de que não gostasse, deixasse. Foi desse modo
que li: Quo vadis, A retirada da Laguna,
Inocência, Ouro sobre azul, O oficial de fortuna, A arte de escrever, A ilustre
casa de Ramires, O mandarim, Os Maias, As cidades e as serras, As minas de
Salomão, Ilusões perdidas, O lírio do vale, A guerra dos mundos, Os primeiros
homens na lua, Terra, Napoleão, alguns livros de Walter Scott e todos os de
Machado de Assis.[286]
Em 1922 Graciliano deu aulas de “português, aritmética, história,
geografia e francês” na Intendência Municipal, segundo Moacir Medeiros de
Sant’Ana.[287]
Desde jovem, antes de sua viagem ao Rio de Janeiro, referia-se a seu
aprendizado de italiano, cujo indício se encontra em resenha, em títulos e
epígrafe de seus poemas.[288]
Quanto às aulas de italiano que possivelmente teria ministrado, não há
informações sobre período e circunstâncias. A notícia mais detalhada a respeito
é uma crônica do autor, imaginosa e hilariante, com um quê de O homem que sabia javanês, de Lima
Barreto, publicada em Maceió, 1929: “Professores improvisados”:
Por motivo de ordem
econômica, resolvi um dia, a exemplo de toda a gente, ministrar aos outros
alguns conhecimentos proveitosos a mim.
Procurei matéria exótica,
de verificação difícil. Imaginando, sem grande esforço, que na Itália existia
uma língua, pedi catálogos ao Garnier e dispus-me resolutamente a estropiar o
italiano com a ajuda de Deus. Anunciei: “Italiano rápido e barato a cinco
mil-réis por cabeça, mensalmente. Aproveitem. Lições em todos os dias úteis e
inúteis. Tempo é dinheiro, como diz o gringo.”
– Isto deve ser fácil,
pensei. É só arrumar no fim das palavras one
ou ine. De estrangeiro cá na
terra ninguém entende. E se aparecer por aí um carcamano, adoeço e perco a
fala.
Pois, senhores, não me
dei mal. Matricularam-se cerca de trinta idiotas: comecei a trabalhar com
energia e confiança. Ainda estaria trabalhando, se dois alunos, finda a
primeira quinzena, não entrassem em concorrência comigo, deslealmente, fundando
escolas que italianizaram toda a localidade.[289]
Quanto ao aprendizado e ensino de esperanto, há o informe de Valdemar
de Souza Lima, sem indicar data específica das atividades:
No fim da Primeira Guerra
Mundial surgiu o esperanto entre as camadas cultas de vários Estados do Nordeste
Oriental.
Na cidade serrana
formaram com ele [o divulgador do movimento em Maceió, Paulino Santiago] o
vigário local, João Guimarães Lessa, o Juiz Olegário Vilela, o promotor público
e também educador Helvécio Souza e Graciliano Ramos.
Integrando-se numa classe
bem ajustada, com seis meses de treinamento, já haviam feito relativo
progresso; e então resolveram instalar uma escola para ir transmitindo os
rudimentos desse idioma internacional a outros que se mostrassem interessados
no assunto.
A escola de esperanto
ficava na Rua de Baixo, num prédio amplo,
As aulas eram ministradas
três vezes por semana, à noite, pelo espaço de duas horas. Um dos últimos
remanescentes dessa plêiade é o ex-tabelião Cícero Silva Pereira. Aliás ainda
hoje ele conserva um dicionário de esperanto – oferta de Graciliano, com a
dedicatória de seu próprio punho.[290]
Há registros da compra em 1923 de sua casa
em Palmeira dos Índios – que a partir de 1973 tornou-se a Casa Museu Graciliano
Ramos, tombada pelo IPHAN graças a uma campanha encarniçada liderada por
Valdemar de Souza Lima desde 1959.[291]
Nessa época, segundo Valdemar de Souza Lima e Clara Ramos, Graciliano
se dedicava ao bilhar, ao ciclismo, fumava cigarros Rachel e, à noite, recolhido a sua residência, lia Sociologia Criminal,
tomando café e conhaque Palhinha.[292]
O dono da Loja Sincera frequenta, na Rua da Cadeia, o Café Genésio, de
Genésio de Matos Moreira, a quem apelidou Bacurau e irá mencionar,
estabelecimento e proprietário, no livro que dentro em pouco escreverá.
Mestre Graça dá longos passeios de bicicleta a Palmeira de Fora,
vestindo calças de flanela branca, camisa branca, um boné branco a encimar-lhe
a branca figura. Tornou-se também assíduo à casa de diversão de Balbino Freire,
cuja afluência quadruplicou com os torneios de bilhar travados com Manuel Leal.[293]
A partir de 1924[[294]],
Graciliano escreveu três contos: “A carta”, “Entre grades” e um terceiro, que deu origem a Caetés. Terminou o romance em torno de
1925, mas ainda em 1930 o reformava para a publicação a convite de Augusto
Frederico Schmidt.
Há
alguns anos porém, achei-me numa situação difícil – ausência de numerário,
compromissos de peso, umas noites longas cheias de projetos lúgubres.
Esforcei-me por distrair-me redigindo contos ordinários e em dois deles se
esboçaram uns criminosos que extinguiram as minhas apoquentações. O terceiro
conto estirou-se demais e desandou em romance,
Publiquei-o
oito anos depois de escrito, por insistência de Augusto Frederico Schmidt, que
tinha virado editor. É uma narrativa idiota, conversa de papagaios.[295]
Em 1925, Graciliano reunia à noite, em sua
casa, para aulas de gramática, alguns rapazes[296],
e duas irmãs, Marili e Daia. Como só Marili cumpria as tarefas e trazia
redações para a aula, tornava-se alvo de atenção, sentindo-se apreensiva e
envergonhada com as observações jocosas do irmão durante a leitura elogiosa de
seu texto. O conto, em que uma pobre mulher morria num casebre, em noite de
tempestade, deixando uma filha, era comentado pelo irmão:
Por
que matou a pobre mulher? Que é que vai fazer com a menina?[297]
Depois de passar aos alunos a tarefa de
descrever uma partida de futebol, o irmão (quatorze anos mais velho) pediu que
Marili esperasse após a aula, corrigiu seu exercício e a fez compreender ser
indispensável a crítica.
Encontrando-nos
com mamãe, fez cara séria, dizendo: “Parabéns, dona Maria, sua filha é uma
escritora”.
Certa vez, depois de folhear à noite o
periódico Revista Feminina, de que
era assinante, Marili, muito decepcionada, não encontrou um conto seu que havia
enviado secretamente para publicação na seção de principiantes, “Jardim
Fechado”. Pela manhã, refolheando a revista, ali afinal o encontrou, com grande
surpresa. Radiante, foi mostrá-lo ao irmão:
Nem
a mim, Badida (era assim que ele me chamava na intimidade) você mostrou?
Ele,
o seco, o introvertido, o agreste, queixava-se com mansidão e afagava em
seguida. À noite, nesse dia, ele me levou a uma festa em casa do senhor Leobino
Soares da Mota.[298]
Marili Ramos conta que, em 1926, Graciliano
e amigos organizaram o grupo “Os 13”, em que cada membro, por rodízio sorteado,
era responsável por oferecer aos restantes e a suas famílias o almoço aos
domingos – festa que durava o dia todo (e “terminava à hora do cinema”), com
músicas, cantos, declamações parnasianas. Nessa época, Graciliano participou
com as irmãs do corso no carnaval, com lança-perfume, confete, serpentina e
batalhas carnavalescas. Compôs a letra a ser cantada com a música de “Cabôca de
Caxangá” (de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, 1913), dedicando cada
estrofe a figuras da cidade.
Seu comissário é capitão, é bicho brabo,
Sabe coisa como diabo,
É boticário, é doutor,
É cartomante, é quiromante, é necromante,
Prende a gente num instante,
Tem barba de espanador.
Não sei que faz o Olivar, cabeça fraca,
Pra banda de Arapiraca
Que é terra que ninguém quer
Bebe água fria
Pra curar dispepsia,
Ensina filosofia para uso de mulher.
Sentou-se um homem, no cinema, inda outro
dia,
De uma cuja em companhia
Não me lembro mais quem é
E um cachorro estava perto, no escuro,
Pisou o rabo grosso e duro,
Julgando pisar um pé.
O Cavalcanti, aquele tipo tão solene,
Não vende mais querosene,
Não vende mais bacalhau
E trinca aqui, trinca acolá, pintando o
sete,
Só pensa em four de valete,
Só pensa em trunfo de pau.[299]
No final de 1926, o “major” Graciliano foi
nomeado Presidente da Junta Escolar de Palmeira dos Índios.[300]
Em
Palmeira dos Índios, o major[301]
Graça não queria intimidade com ninguém. Tratava bem a todos, é verdade. Portas
a dentro, sua vida era outra. Fechava-se com os livros e não dava trelas. Um
belo dia apareceu por lá um cidadão de Maceió, político influente: foi à loja e
começou a conversar. O homenzinho era literato.
O
cidadão de Maceió citava romances e mais romances, Eça pra cá, Anatole pra lá.
Estava era provocando. Então Graciliano desandou a falar do luso e do francês,
que foi um nunca acabar. O fato é que conhecia um e outro muito mais que seu
interlocutor.
Pouco
tempo depois Graciliano Ramos era surpreendido com a nomeação de Presidente da
Junta Escolar do município. Pensou em recusar, mas acabou aceitando a prebenda,
que tomava tempo e não dava dinheiro algum.
No
fim do ano, o presidente da Junta Escolar escreveu o seu relatório, mandou
imprimir um folheto, enviou-o ao diretor da Instrução Pública. O relatório
impressionou de tal forma que o autor acabou sendo indicado para o cargo de
prefeito de Palmeira dos Índios.[302]
Em 1927 conheceu José Lins do Rego, iniciando a amizade forte que se
manteria até o fim de sua vida, apesar de algumas rusgas fraternas[303]:
O
tabelião de Mata Grande nos havia dito:
– Os
senhores vão encontrar em Palmeira dos Índios o homem que sabe mais mitologia
em todo o sertão.
O
prefeito nos apresentou:
–
Este é o professor Graciliano Ramos.
–
Professor de coisa nenhuma – foi nos dizendo ele.
E
ficou para um canto da sala, encolhido, de olhos desconfiados, com um sorriso
amargo na boca, enquanto o governador falava para os correligionários. Quis
provocá-lo, e tive medo da mitologia. Mas aos poucos fui me chegando para o
sertanejo quieto, de cara maliciosa. Falou-me de uns artigos que havia lido com
a minha assinatura, com tanta discrição no falar, com palavras tão sóbrias, que
me encantaram.[304]
Em depoimento de 1939 a Joel Silveira,
Graciliano mencionou, com o traço típico de seu humor, uma outra avaliação do
amigo, que havia sido feita em 1934, no artigo “O romancista Graciliano Ramos”.
Projetos não tenho. Estou no fim da vida, se é
que a isto se pode dar o nome de vida. Instrução quase nenhuma. José Lins do
Rêgo tem razão quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em
almanaque.[305]
Em meados de 1927, amigos
ligados ao Partido Democrata, os irmãos Francisco e Otávio Cavalcanti,
liderados pelo deputado palmeirense Álvaro Paes, que seria a seguir governador
de Alagoas, propuseram a Graciliano a
candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios.
Assassinaram o meu
antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas
falsas, os defuntos votando, e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.[306]
Aos 35 anos, Graciliano, sem comício, sem campanha e sem entusiasmo,
foi candidato único na eleição de 7 de novembro de 1927[[307]]:
Ele compareceu à sua
secção, votou e sumiu-se. Do arquivo da Prefeitura Municipal consta a ata da
respectiva apuração, que, como se sabe, na República Velha, realizava-se dez
dias depois da eleição. Presidiu o ato o conselheiro José Caetano de Morais
Filho, pai do candidato a vice-prefeito, secretariado pelo tabelião Cícero
Silva Pereira, da qual extraí os seguintes dados:
Para Prefeito –
Graciliano Ramos – 433 votos
Para Vice-Prefeito – José
Alcides de Morais – 433 votos.[308]
Simultaneamente, dez cidadãos foram eleitos para o “Conselho
Municipal”.[309]
Em dezembro de 1927, Graciliano conheceu Heloísa
Leite de Medeiros, antes de que ela completasse dezoito anos de idade. Depois
de relutância por parte da moça, começaram o namoro às vésperas do ano novo.
Valdemar de Souza Lima relata[310]:
Graciliano, eleito aos 35 anos, viúvo com quatro filhos, viu Heloísa, que
visitava a cidade na companhia da avó Austrelina para assistir à primeira missa
de seu primo Padre José Leite, ordenado recentemente e convidado pelo Padre
Macedo para oficiá-la em Palmeira. Acompanhada de outras pupilas de Padre
Macedo, Heloísa vendia bilhetes da quermesse para fundos de construção da
Igreja Matriz. Graciliano, além de comprá-los abundantemente, passou a
frequentar a igreja com assiduidade – o que fez seus amigos gaiatos lhe
enviarem bentinhos embrulhados para presente em papel de seda e fita. Quando
Heloísa estava para regressar a Maceió, em 31 de dezembro, finalmente cedeu ao
pedido de namoro e Graciliano conseguiu que ela e a avó ficassem para sua posse
na semana seguinte, em 7 de janeiro de 1928[[311]].
Durante a festa na residência do Pinga-Fogo, Padre Macedo quis se retirar com
suas hóspedes, alegando ser hora das obrigações espirituais. Graciliano mandou
que buscassem seu breviário e o trancou em um cômodo. Ao terminar as rezas, o
vigário teve de socar a porta, aos berros, para ser libertado. Graciliano
incumbiu-o de ir a Maceió providenciar junto ao pai de Heloísa, Américo
Medeiros, o consentimento do matrimônio. Logo a seguir, ainda em fevereiro, o
casamento religioso foi oficiado em Maceió pelo primo de Heloísa, o Padre José
Leite, antes do casamento civil em Palmeira dos Índios. Enquanto Graciliano já
atuava como prefeito, os noivos, durante um mês, trocaram muitas cartas.[312]
Dança-me na cabeça uma
chusma de ideias desencontradas. Entre elas, tenaz, surge a lembrança de uma
criaturinha a quem eu disse aqui em casa, depois da prisão do vigário, nem sei
que tolices. (16-01-1928)[313]
És uma extraordinária quantidade de mulheres.
Na sexta-feira, antevéspera de tua partida,
encontrei pelo menos vinte. No sábado, em nossa casa, havia uma na sala, outra
na sala de jantar, dez ou doze ao pé da janela.
O pior é que todas me agradam, não posso
escolher. (18-01-1928)[314]
O José Leite quererá casar-nos? Eu, como te disse
anteontem, não entendo de confissões, nunca me confessei. (20-01-1928)[315]
Logo começas aplicando-me dois nomes feios:
hipócrita e romântico. Isso, depois de me haveres chamado pau d’água, é duro.
A vinte e quatro de dezembro eu julgava que te
chamavas Ana Leite, a sete de janeiro era teu noivo.
Achas extraordinário que me ajoelhe a teus pés e
te adore? Por que não me ajoelharia, se não tenho deuses e o sentimento de
religiosidade de que sou capaz se concentra em ti? (24-01-1928)[316]
Ainda alguns pontos das tuas cartas: esquecer a
baiana? É possível. Não é só possível, é certo.
Pesada a minha consciência porque vivi no Rio?
Que ideia! Que imaginas tu que eu tenha estado a fazer no Rio? Julgas que
procurei companheiros entre a gente da Saúde[317],
que passei dinheiro falso com Albino Mendes[318],
que furtei cofres, que usei navalhas, que surripiei joias das estrangeiras do demi-monde?[319]
Mas vê se me livras da confissão. Isto agora é
sério. Estou pronto a fazer o que quiseres no convento, mas essa história de
confessar a um padre não está certa. (31-01-1928)[320]
A propósito: que história é essa de posição
elevada? Enganaram-te, minha filha. Para os cargos de administração municipal
escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que
tenho na cabeça uns parafusos a menos, mas não sou imbecil, não dou para o
ofício e qualquer dia renuncio.
“Sonho do meu poeta”? Que é lá isso?
Pensarás acaso que eu, quitandeiro e homem de
ordem, me entregue a ocupações tão censuráveis?
Padre Macedo esteve aqui em casa agora à noite,
saiu às onze horas. Desculpou-se de uma pequenina indiscrição[321]
que aí cometeu contra mim e disse coisas transcendentes sobre o céu, o
inferno, a metafísica e outras instituições terríveis. (04-02-1928)[322]
O “déspota esclarecido”[323]
administrou a cidade pondo efetivamente em prática o que a “demagogia
tenentista” (para usar seus termos[324])
alardearia como programa no contexto da Revolução de 30. Cartas anônimas, entre
azedumes e sátiras, eram postas sob a porta da Loja Sincera. Provocavam
encrencas as realizações do prefeito, que mandou matar cachorros, proibiu
porcos, gado vacum, ovino, caprino soltos na rua, deixou a cidade limpa. Logo
após a posse, fez os funcionários procurarem na prefeitura o “Código
Municipal”. Foi encontrado um de 1865, do Império, utilizado até que o novo
código fosse criado e referendado pelo Conselho Municipal, Lei nº 197, após o primeiro
semestre de seu governo, como relata Valdemar de Souza Lima:
Esse código de posturas[325]
de 28 de agosto de 1928 é bastante curioso. Compõe-se de 82 artigos, fora os
parágrafos. Por alguns de seus dispositivos e sob pena de pesadas sanções, era
proibido, por exemplo: “açambarcar gêneros alimentícios em tempos de carestia”;
“manter estabelecimentos comerciais abertos depois das nove horas”; “pescar no
açude da cidade”; “vender carne de reses doentes”; “estender couros em lugares
habitados”; “escrever palavras indecorosas ou pintar figuras obscenas em
prédios, portas, muros ou passeios, bem como deitar pasquins nos referidos
lugares”; “vender ou distribuir gratuitamente impressos imorais ou gravuras
ofensivas ao pudor”[326];
“transitar a cavalo em corridas pelas ruas da cidade”; “dar estalos com
relhos”, “ter cães soltos sem mordaça”; “fazer cercas em praças ou ruas da zona
urbana”; e o farmacêutico que vendesse drogas sem receitas ou sem autorização
do médico estava sujeito à multa de dez mil-réis (essa quantia em dobro para
quem vendesse “carne fresca no açougue da cidade sem que houvesse antes pago o
imposto devido”); finalmente, os hoteleiros eram obrigados “a ter livros em que
se inscrevessem os dias de entradas e saídas de hóspedes e manter em lugar bem visível
a tabela de preços das refeições e das diárias, assim como das rações para
animais” e outras coisas que usassem fornecer, não podendo cobrar preços mais
elevados que os publicados na tabela, “multa de vinte mil-réis para os
infratores”.[327]
Segundo registro da Câmara Municipal de Palmeira dos Índios:
O
artigo 50 do Código de Graciliano Ramos decretava: "É proibido mendigar”.[328]
Logo, um dos conselheiros municipais veio a Graciliano reclamar ter
sido interpelado pelo fiscal quando preparava sua carne no açougue, contestando
a obrigação de pagar antecipadamente o imposto de acordo com a nova lei (que
ele próprio assinara).[329]
Como o turuna, do partido conservador, chefe da oposição, Major
Aureliano Wanderley, continuou fazendo abates de gado miúdo debaixo de árvore,
mesmo depois da proibição pelo novo código e da consequente construção de um
matadouro municipal, o prefeito mandou cortar o “imbuzeiro do Major”. Um dia,
quando estava no barbeiro, Graciliano ouviu-o na calçada dizendo impropérios
aos circunstantes:
o
prefeito se suspendeu da cadeira com a toalhinha estendida no peito, uma banda
da cara ainda coberta de espuma, descreveu uma curva por detrás do fígaro
apalermado, e plantou-se diante do inimigo, pronto para dar-lhe o troco.[330]
Sem registro de altercação às vias de fato, afora
boatos, o entrevero teve grande repercussão.
O fiscal Muritiba confessou seu constrangimento
para multar seu Sebastião, que tinha deixado vacas soltas na rua. Graciliano
ordenou que multasse, proferindo a frase: “Prefeito não tem pai”. Ricardo Ramos
relembra como Graciliano lhe contou o caso:
Eu
paguei a multa, peguei o recibo, de noite falei com seu Sebastião: “Olhe aqui,
veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing. Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque
do coração. Por isso eu mesmo paguei”. O velho impou, estourou esbravejando,
subiu nas tamancas. E terminou me devolvendo o dinheiro.[331]
Criou pioneiramente posto de saúde na cidade (o
primeiro no interior de Alagoas): o “Posto de Higiene”, que viabilizava
inclusive o cumprimento do novo código de posturas que tornava a vacina
obrigatória.[332]
Fez reforma geral na instrução primária[333],
aumentou o número de unidades escolares e de matrículas, aumentou o salário dos
professores.[334]
Seu empenho de construtor comprovou-se na reforma
do prédio da prefeitura, no terrapleno da Lagoa, na construção da Estrada de
Palmeira de Fora e no projeto de sua extensão até Santana do Ipanema, que
chegou a 27 quilômetros até o momento de sua renúncia. No seu segundo e último
relatório ao governador, de 11-01-1930, poucos meses antes de sua renúncia,
anunciou[335]:
Abandonei
as trilhas dos caetés e procurei saber o preço duma estrada que fosse ter a
Sant’Ana do Ipanema. Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos
mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despesa avultada. Os seiscentos
mil-réis ficariam perdidos entre os barrancos que enfeitam um caminho atribuído
ao defunto Delmiro Gouveia e que o Estado pagou com liberalidade: os sessenta
contos, caso eu os pudesse arrancar ao povo, não serviriam talvez ao
contribuinte, que, apertado pelos cobradores, diz sempre não ter encomendado
obras públicas, mas a alguém haveriam de servir. Comecei os trabalhos em
janeiro. Estão prontos vinte e cinco quilômetros. Gastei 26:817$930.[336]
Percebendo que cerca dos 40 trabalhadores das
obras passavam fome, aumentou-lhes o salário, provocando grande procura de
emprego na prefeitura, segundo Valdemar de S. Lima[337].
Anos depois, os “Arquivos implacáveis” de João Condé, entre outros itens
biográficos sobre Graciliano, registravam na coluna “Flash”:
Quando
prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construir estradas.[338]
Nasceu em 04-01-1929 o primeiro filho do casal,
Ricardo de Medeiros Ramos.[339]
Graciliano enviou ao amigo palmeirense Álvaro
Correia Paes[340], governador do estado, dois relatórios anuais,
datados de 10 de janeiro de 1929 e de 11 de janeiro de 1930, relativos aos
exercícios de 1928 e de 1929. Publicados no Diário
Oficial do Estado de Alagoas[341],
houve, desde o primeiro, divertidas repercussões no país, causando entusiasmo[342]
pela inteligência das tiradas em registro desburocratizado, que desmascaravam
mazelas crônicas do Brasil com a ironia honesta e precisa de uma administração
vigorosa: a “ordem”, revolucionária, que o prefeito impunha à cidadezinha,
significava vontade-de-justiça, comprovada nas prestações de contas que se
apresentavam nítidas na imprensa oficial. A harmonia entre a forma e o conteúdo
crítico indicava que a prática ética moldava sua linguagem[343].
Jornais reproduziram integralmente os documentos ou destacaram partes deles,
que revelavam, pelo texto desempolado e antidemagógico, a existência de um
grande escritor[344].
Praticamente todos os trechos dos relatórios tornaram-se famosos. São muito
citados. Por exemplo:
1º relatório – 1929:
Havia
em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante do
destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do
Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e
prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de
polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com
tenacidade e encontrei obstáculos dentro da prefeitura e fora dela - dentro,
uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna,
oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso
Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para
levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano
passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa
nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas
obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Os
litros aqui tinham mil e quatrocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em
outras desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de querosene e caixões de
sabão, a que arrancavam tábuas, para enganar o comprador. Fui descaradamente
roubado em compras de cal para as trabalhos públicos.
No
cemitério enterrei 189$000 - pagamento ao coveiro e conservação.
Relativamente à quantia
orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro
considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores,
que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi
feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do Estado, que não
precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se
derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um
telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama[345].
Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado
morreu, que nós choramos e que em 1556 D. Pero Sardinha foi comido pelos
caetés.
Houve
lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em
fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas
centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e
coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças.
Convenho em que o
dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de
outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra,
cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus
parentes, que necessitam, coitados.
Há
quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e
adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada
canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela
se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato
administrativo seja isento da ideia de lucro pessoal; há até quem pretenda
embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.[346]
2º relatório – 1930:
Pensei
em construir um novo cemitério, pois o que temos dentro em pouco será
insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não
me permitiriam a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos
esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.
A
Prefeitura foi intrujada quando, em 1920[[347]],
aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio
referente a claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos
dá.
Dos
administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros,
inimigos de inovações, não se dedicaram a nada.
E o palmeirense afirmava,
convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa
muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada.[348]
Favoreci
a agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos
pequeninos senhores feudais, exploradores da canalha; suprimi, nas questões
rurais, a presença de certos intermediários, que estragavam tudo; facilitei o
transporte; estimulei as relações entre o produtor e o consumidor.
Canafístula
era um chiqueiro. Encontrei lá o ano passado mais de cem porcos misturados com
gente. Nunca vi tanto porco.
Não
pretendo levar ao público a ideia de que os meus empreendimentos tenham vulto.
Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros
ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um
pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esforço de imaginação ou
microcóspio.
Quando
iniciei a rodovia de Sant’Ana, a opinião de alguns munícipes era de que ela não
prestava porque estava boa demais. Como se eles não a merecessem. E
argumentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia
ser executado pelo Município.
Agora
mudaram de conversa. Os impostos cresceram, dizem. Ou as obras públicas de
Palmeira dos Índios são pagas pelo Estado. Chegarei a convencer-me de que não
fui eu que as realizei.
Bons
Companheiros
Já
estou convencido. Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do
povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens
que se esfalfam para não perder salários miseráveis.
Quase
tudo foi feito por eles. Eu apenas teria tido o mérito de escolhê-los e
vigiá-los, se nisto houvesse mérito.
Esforcei-me
por não cometer injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim
como arma política. Com inabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o
proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em
pasto a lavoura, devia enforcar-me.
O esforço empregado para
dar ao Município o necessário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de
métodos administrativos originais. Em conformidade com eles, deveríamos
proceder sempre com a máxima condescendência, não onerar os camaradas[349],
ser rigorosos apenas com os pobres-diabos sem proteção, diminuir a receita,
reduzir a despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém vive sem comer,
deixar esse luxo de obras públicas à Federação, ao Estado ou, em falta destes,
à Divina Providência.[350]
Nasceu o segundo filho do casal, Roberto de Medeiros Ramos, em 22-01-1930,
ainda em Palmeira dos Índios. A criança faleceu nesse ano, agosto, em Maceió.[351]
Álvaro Paes, em mensagem ao Congresso Legislativo, celebrou o sucesso
da administração dinâmica do amigo, destacando a importância das obras
construídas e das reformas, a
implantação inédita de serviços públicos e a retidão das receitas e dos
orçamentos apresentados nos relatórios: “exemplo de trabalho e honestidade”.[352]
Segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana, o Jornal de Alagoas, declarando “uma grande sensação de surpresa
agradável” “no espírito público”, publicou o relatório de 1929 na íntegra, no
dia seguinte à edição do Diário Oficial.
O pesquisador acrescenta:
Diversos periódicos
alagoanos, como O Semeador, órgão
católico de Maceió, A Semana, de
Penedo[353],
o Correio da Pedra, pertencente à
antiga fábrica de linhas fundada por Delmiro Gouveia, além de outros, como o Jornal do Brasil, A Esquerda, e o órgão católico
União, estes do Rio de Janeiro, não só discorreram sobre aquela peça
administrativa, da qual reproduziram trechos, como também de idêntica forma
procederam acerca da segunda do mesmo gênero,[354]
De cunho jocoso, no espírito do retratado, O Semeador publicou três artigos a
respeito, com passagens desse tipo:
O Sr. Graciliano, porém,
deu cabo dessa república chinesa, reduzindo-a a uma monarquia em que ele de
fato reina e governa.
Em questão de limpeza, o
Sr. Graciliano é ali, no duro! Quer Palmeira asseadinha, varridinha, sem os
memoráveis montões de lixo. Depois não quis que criassem bichos brabos pelas
ruas. Mandou matar os cães “boêmios”.
Olha S. Excia. que o seu
relatório fez surgir muito comentário azedo. Avalie só que certo amigo nosso
disse coisas brabas, coisas cabeludas a seu respeito, chamando o Sr. Graciliano
até de “futurista”... Que injúria, Santo Deus![355]
O Jornal do Brasil publicou
trechos do primeiro relatório sob o título “De uma prefeitura alagoana – onde
se foi aninhar um grande humorista”, assim apresentados:
Chama-se Graciliano
Ramos. É Prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas. Dispensa apresentações
outras que a da leitura de seu relatório, que o “Diário Oficial” daquele Estado
registrou sem o devido destaque, no meio da vulgaridade dos documentos públicos[356]
Marques Rebelo, logo após a morte do amigo, publicou “Encontro com
Graciliano” numa série de seis artigos, que, na verdade, em meio a breve
contextualização, suspendiam a palavra de sua coluna “Conversa do Dia”, do
jornal Última hora[357],
para entregá-la abundantemente a trechos dos relatórios. Ele conta que soube de
Graciliano quando viu Rômulo de Castro, secretário de Schmidt, lendo folhetos
com capa cor de telha, num bar próximo da Livraria Católica, que era ponto de
encontro dos intelectuais nos inícios dos anos 30 no Rio de Janeiro. Eram os
relatórios do prefeito de Alagoas, circulando em edição própria, que Rômulo
retinha com entusiasmo e sovinice. Não conseguindo se apoderar dos folhetos,
Marques Rebelo escreveu para o prefeito de Palmeira dos Índios pedindo
exemplares.
E, quando chegaram,
vieram acompanhados de carta em estilo tão seco e agressivo como o dos próprios
relatórios, mas agradecendo o interesse e prometendo amizade.
E fui para a casa de
Francisco Inácio Peixoto[358],
para assombrá-lo com a minha descoberta.
Marques Rebelo relata a reação do amigo cataguasense da revista Verde:
Caramba, seu Marques,
trata-se de um grande escritor!
O teor dos relatórios evidenciou que o prefeito tinha atividades
literárias. Com a repercussão nacional e a circulação deles no Rio de Janeiro,
Augusto Frederico Schmidt, farejador de talentos propícios a impulsionar os
inícios de sua Livraria Schmidt Editora, ex-“Católica”[359],
buscou contato com Graciliano, adivinhando que o prefeito fosse autor de algum
romance.[360]
Graciliano Ramos renunciou ao cargo de prefeito em 10-04-1930, segundo
Moacir Medeiros de Sant’Ana.[361]
Jornais anunciaram a renúncia: o Diário
de Pernambuco, 25-04-1930, na
coluna de pequenas notas “Notícias do Nordeste” – “Alagoas”, comentou:
Renunciou o mandato de
prefeito do município de Palmeira dos Índios o consagrado jornalista Graciliano
Ramos, sendo ignorada a causa que o levou a tão inopinada resolução.
O ex-prefeito de Palmeira
dos Índios ligou seu nome a muitos melhoramentos locais de alta monta,
merecendo especial notação a rodovia que liga o citado município ao de Sant’Ana
do Ipanema.[362]
Antes de se mudar com a família para Maceió, Graciliano se desfez da
Loja Sincera.[363]
1930-1936 – Maceió
Imediatadamente após a mudança, com esposa e filhos, para Maceió, no
final de maio, Graciliano assumiu o cargo de Diretor da Imprensa Oficial[364].
Mais de uma semana depois, ele comunicou ao pai:
Fomos muito bem de
viagem: doze horas de chuva, lama, rios cheios e atoleiros. Podia ser pior.
Chegamos quase vivos. E aqui estamos vivendo com a graça de Deus (ou sem a
graça de Deus, não sei bem), na Rua da Boa Vista, 384.[365]
No período em que Graciliano viveu em Maceió, entre 1930 e 1936,
concentrou-se na cidade, como um ninho para acolher a revelação do escritor[366],
um grupo significativo de intelectuais. Moacir Medeiros de Sant’Ana descreve
detalhadamente o tempo e o ambiente em que eles se reuniam: no Café do
Cupertino, também chamado Ponto Central[367],
então recentemente inaugurado, em frente ao Relógio Oficial no centro de
Maceió, ou no Bar Alemão, onde festejaram a despedida para o Rio de Janeiro de
Jorge de Lima e de Aloísio Branco. Participavam:
Alberto Passos Guimarães,
Aloísio Branco, Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio, Jayme de Altavila,
Jorge de Lima, Manuel Diégues Júnior, Mário Brandão, Moacir Soares Pereira,
Raul Lima, Valdemar Cavalcanti e José Lins do Rego, que residiu naquela capital
durante quase dez anos, de 14 de dezembro de 1926 a 11 de abril de 1935.[368]
Outros intelectuais chegavam, como Theo Brandão[369],
Aderbal Jurema, o artista plástico Santa Rosa (capista de presença marcante nas
obras literárias do período),
e, em 1934, a cearense
Rachel de Queiroz[370],
na época já a conhecida autora de O
Quinze e João Miguel, e
finalmente o pernambucano José Auto, que, a exemplo de Santa Rosa, era
funcionário da agência local do Banco do Brasil.[371]
Apesar de sua aversão ao Modernismo, quiçá respondendo com silêncio ao
que sentisse como falso antagonismo, Graciliano não se dedicou a Gilberto
Freyre e a debates vinculados ao presumido Manifesto Regionalista de 1926, ao
contrário de José Lins do Rego. Ironizou repetidamente no seu estilo estereotípico
tanto o Modernismo quanto os vermelhões crepusculares e as enchentes do
regionalismo. Sua obra construtivista de “clássico experimentador” (Carpeaux)[372]
parece responder com um modernismo brutalista e escorreito ao que considera
dois equívocos em disputa. Ainda em Palmeira dos Índios, o viúvo dizia em carta
ao amigo Pinto, de 18-08-1926, sobre o “Poema” de Mário de Andrade:
Li
hoje uma poesia que tem este começo:
‘Neste rio tem uma
iara...
De primeiro o velho
que tinha visto a iara
Contava
que ela era feiosa, muito!’
Isto é bom, com certeza,
porque há quem ache bom. Naturalmente os meus netos aí descobrirão belezas que
eu não percebo. Questão de hábito. Se me não engano, é opinião de M. Bergeret.
Acreditas que no Brasil possa aparecer alguma coisa nova? Em vista da amostra,
eu dispensava o resto.
E mais à frente:
Outra
coisa: vê se me arranjas aí uma gramática e um dicionário de língua paulista,
que não entendo, infelizmente. E manda-me dizer se é absolutamente
indispensável escrever sem vírgulas.[373]
Mas ainda que sempre chamasse o Modernismo
de “tapeação”, mostrou-se de certo modo adepto ao movimento – a crer no
registro de seu relato por Francisco de A. Barbosa, em Homenagem a Graciliano Ramos: “Verificou que, apesar do português
impecável, a sua literatura era dura, descolorida, sem plástica. Não tentara
ainda o diálogo, com medo de fracassar. O movimento moderno encorajou-o. E se o
fizesse tal como se fala de verdade? Da tentativa nasceu Caetés”[374].
Os dois polos, “vermelhões regionalistas” e “tapeações modernistas” aparecem
juntos na crônica “Justificação de voto”, Dom
Casmurro, 13-07-1940[[375]],
em que Graciliano fala sobre mais uma de suas participações como jurado num
concurso de contos:
Contemplei vários
poentes, ensanguentados, é claro, como todos os poentes que se respeitam, e
reli as duas descrições úteis a românticos e realistas: a queimada e a
enchente.
Junto a esses, alguns
cidadãos, poucos, enveredavam pelo modernismo e, adotando cacoetes postos em
moda de 1922 a 1930, arrumavam frases curtas, telegráficas, confusas, trocavam
os lugares dos pronomes, começavam nomes próprios com letra minúscula.
Afastei isso tudo. E como
era necessário escolher treze contos, separei casos simples e humanos, alguns
bem idiotas, mas sem francês, sem inglês, sobretudo sem a ponta de faca da
honra cabocla, mentirosa e besta, sem ritmos infalíveis, o binário e o
ternário, sem enchente e queimada, sem as tapeações do modernismo.
Para os equívocos em debate, ver: “O Modernismo morreu?” em Dom Casmurro, com depoimento de
Graciliano em 12-12-1942.[376]
Intensificaram-se as combinações para a publicação de Caetés, como deixa ver a carta[377]
datada de Rio, 17-06-1930, remetida por Rômulo de Castro, com p.s. de Augusto
Frederico Schmidt:
Meu caro Graciliano:
Só hoje obtive resposta à minha carta de 9 de maio. Já
estava pensando que v. queria se ver livre dos incômodos de mais uma afeição.
Já estava farto delas...
Hoje lhe mandei registrada uma prova em dois volumes da simpatia de Tristão de
Athayde.
Quem me disse que o Álvaro Paes era seu cunhado, foi um
outro admirador seu, que atende pelo nome de Arthur Gaspar Viana.
Quanto à sua obra, já não lhe direi mais nada além disso:
você conta com os dois maiores críticos do Brasil, Tristão e Agrippino, mas
você obterá um êxito formidável.
Fiquei muito satisfeito com a sua resolução no
pós-escrito: “Vou publicar Os Cahetés”.
Estou pronto a lhe prestar a chusma de favores. A
Livraria Católica se encarregará, se
lhe convém, da distribuição e reclamo do livro. Espero que você me diga alguma
coisa sobre esta questão. Eu sou empregado dessa Livraria, da qual é sócio o
Schmidt.
Você lê muito? Qual é o gênero da leitura que prefere?
Terei muito prazer em lhe enviar de vez em quando alguns livros.
Bem, Graciliano, por hoje chega. À sua inteira disposição
está o seu amigo de fato.
Rômulo de Castro
P.S. – Ia me esquecendo
de lhe responder quanto à “história dos folhetins”; é que pretendíamos publicar
nalgum jornal ou revista daqui o seu romance, em folhetim. Mas, em vista de sua
resolução em publicá-lo, “mortus est pintus in casca”.
Rômulo
P.S. – Sr. Graciliano:
Pedi
licença ao meu amigo e companheiro de trabalho Rômulo para reforçar o pedido
dele Rômulo, para que fique a Livraria aqui depositária do seu romance Cahetés.
Estou
absolutamente certo do sucesso do seu livro, me autorizando a pensar assim o
capítulo que mandou ao Rômulo. A edição deve ser grande. Quem sabe se o sr. não
logrará o êxito de A bagaceira, por
exemplo?
Saudações,
A.F. Schmidt
Em meio à “roda de Maceió”[378],
já desde 1930, algumas notas de jornais anunciavam Caetés, que seria publicado somente em 1933. O Correio da Manhã, em julho de 1930,
dizia:
Da Bahia e de Recife
chegam notícias do próximo aparecimento de um romance, que promete barulho: Os Cahetés, da autoria do sr. Graciliano
Ramos, romancista de Palmeira dos Índios, em Alagoas, inteiramente desconhecido
aqui, isto é, na Avenida e na rua do Ouvidor.[379]
Depois dos três meses de 1921 em O
Índio, Graciliano somente voltou a publicar artigos nove anos depois, em
Maceió, inicialmente com o pseudônimo “Lúcio Guedes”, ao mesmo tempo em que
firmava o nome que o tornaria nacionalmente conhecido. Há registros de sua
participação no Jornal de Alagoas, na
revista de curta duração, Novidade,
em 1931, assim como em periódicos de estados circunvizinhos. Com suas
publicações no Rio de Janeiro, capital do país, Graciliano consolidaria em Boletim de Ariel e em Literatura o reconhecimento do
romancista expressivo de Caetés,
1933, e de S. Bernardo, 1934.
Ao apresentar em 1972 resultados de pesquisa
minuciosa nos periódicos alagoanos, Vivice M. C. Azevedo em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano
Ramos, com contextualização e transcrição de trechos, registra a descoberta
das seguintes publicações de Graciliano, que ainda usou em 1930 o último dos
pseudônimos localizados, “Lúcio Guedes”:
- “Macobeba pré-histórico”- Jornal de Alagoas, 27-04-1930 - Lúcio Guedes
- “Macobeba antigo” - Jornal de Alagoas, 29-04-1930 - Lúcio Guedes
- “Prefeituras municipais I ” - Jornal de Alagoas, 31-07-1930 - Lúcio
Guedes
- “Prefeituras municipais II” - Jornal de Alagoas, 08-08-1930 - Lúcio
Guedes
Ao mesmo tempo, Graciliano deixava de usar
pseudônimos e passava a assinar “G.R.” ou “Graciliano Ramos”, sem o “Oliveira”,
abandonado há tempos, estendendo ou comprimindo aquele “G. Ramos” da estreia
dos seus onze anos com o “Pequeno pedinte” de 1904 em O Dilúculo. Se aos dezessete anos seu nome “G. Ramos de Oliveira”
aparecia como intelectual alagoano na entrevista ao Jornal de Alagoas de 18-09-1910,
na mesma época a descrição-homenagem de “Nababo” anunciava em 1911 o
“Graciliano Ramos” - que assinou em 1929 a sátira “Professores improvisados”
publicada na Revista de Ensino, 09 e
10-1929 [[380]]
e nomeou o prefeito conhecido pelos relatórios, citado pela imprensa,
apresentado como autor de Caetés: pelos anos seguintes, o nome
“Graciliano Ramos” seria consagrado como um dos mais expressivos escritores da
literatura brasileira. Ainda segundo os achados de Vivice M. C. Azevedo, as
publicações assinadas são:
- “O álcool” - Jornal de Alagoas, 21-06-1930 - G. R.
- “Sertanejos” - Novidade, 11-04-1931, ed. 1, t. 10 -
Graciliano Ramos
- “Lampião” -
Novidade, 25-04-1931, ed. 3,
t. 3 - Graciliano Ramos (em Viventes
das Alagoas)
- “Chavões” - Novidade,
30-05-1931, ed. 8, t. 7 - Graciliano Ramos
- Capítulo XXIV de Caetés- Novidade, 06-06-1931, ed. 9, t. 5 e 12 - Graciliano Ramos
- “O testa de ferro” - Jornal de Alagoas, 16-08-1931 - G.
R.
- “Milagres” -
Novidade, n. 14, 07-11-1931, ed. 14, t. 3 -
Graciliano Ramos (em Linhas tortas)
- “Mulheres” - Jornal
de Alagoas, 20-05-1933 - Graciliano Ramos
- “Comandante de burros”-
Jornal de Alagoas, 27-05-1933 -
Graciliano Ramos (Carlos A. Dória, Leia
Livros, nº 118, ago. 1988)
- “Doutores” - Jornal
de Alagoas, 11-06-1933 - Graciliano Ramos
- “D. Maria Amália” - Jornal de Alagoas, 18-06-1933 -
Graciliano Ramos (em Viventes das
Alagoas)
- Capítulo 7 e 19 de S. Bernardo - Jornal de Alagoas,
31-05-1933 – Graciliano Ramos
Vivice Azevedo agradece a Moacir Medeiros de Sant’Ana a indicação e a
localização de “Comandante de burros” e “Doutores”. Sobre o texto “O álcool”, a
pesquisadora destaca o tom jocoso da crônica, crítico de um nacionalismo
estreito, avesso à seriedade solene com que então se enfocava o assunto – ver,
por exemplo, a notícia relativa à campanha do álcool-motor, em que Álvaro Paes
é citado: Diário de Notícias,
25-07-1930[[381]]. Sobre o texto “Mulheres”, ver
contextualização da pesquisadora sobre feminismo na imprensa da época,
especialmente no Jornal de Alagoas.
(Com o mesmo título, já no Rio de Janeiro, Graciliano publicou em 1937, Vamos Ler!, a crônica “Mulheres...”[382] – trata-se de outro texto, que termina
ironizando o moralismo fascista de Plínio Salgado). Dos textos descobertos pela
pesquisadora, os que eram inéditos em livro e ainda acessíveis foram reunidos
em coletânea póstuma, de 2012: Garranchos,
edição de Thiago Mio Salla. Carlos Alberto Dória, juntamente com o texto
“Comandante de burros”, apresentou “Antonio Silvino”, indicando este último
como publicação do Jornal de Alagoas
de 18-09-1938[[383]]:
portanto, um período subsequente ao de Maceió, quando Graciliano, após a
prisão, vivia no Rio de Janeiro. As duas crônicas, a primeira com o título
estropiado pelo plural em comandantes,
foram incorporadas a edições posteriores de Viventes
das Alagoas – sem notificação editorial. Ver: Viventes das Alagoas, 15. ed., Record, 1992, onde, além disso, foi
suprimido este último parágrafo de “Antônio Silvino”, publicado por Carlos
Alberto Dória: “O trabalho desse sertanejo deve ter sido enorme, mas a verdade
é que ele não se transformou para realizá-lo. Homem de ordem, indispôs-se com
outros homens de ordem, fez tropelias no sertão, caiu numa cilada e penou vinte
anos para lá das grades. Continuou, porém, a ser o que era, apesar da cadeia:
homem de ordem, membro da classe média, com todas as virtudes da classe média”.
O pesquisador anotou na publicação Leia
Livros, 1988: “Inexplicavelmente inéditas em livro, as duas crônicas de
Graciliano Ramos, aqui publicadas, somam-se a outras seis publicadas em Viventes das Alagoas compondo um dos
mais lúcidos conjuntos de textos sobre o cangaço”. Ricardo Ramos elenca a
produção do pai sobre o tema e ressalta sua percepção a respeito (“Graciliano
nunca idealizou Lampião”), citando uma passagem que a sintetiza de modo
conclusivo: “Abastardamo-nos tanto que já nem compreendemos esse patife de
caráter e inadvertidamente lhe penduramos na alma sentimentos cavalheirescos
que foram utilizados como atributos de outros malfeitores. Deixemos isso,
apresentemos o bandoleiro nordestino como é realmente, uma besta-fera”[384].
A coletânea Cangaços, editada em 2014
por Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla, sugere ser obra de Graciliano Ramos
(colocando-a sem discriminação, misturada a textos do autor) uma
entrevista-piada, sem assinatura, que ficcionaliza um “encontro” covarde e
precavidamente “telepático” com Lampião, publicada em Novidade, 16-05-1931[[385]].
Mas como acontece com os textos de O
Índio não assinados nem mesmo por pseudônimo, frente à possibilidade de
influência e produção coletiva, o rigor de pesquisa obriga a deixar as
hipóteses de autoria abertas, apesar dos traços de humor, formulações e estilo
típicos de Graciliano. Segundo Clara Ramos, Valdemar Cavalcanti, em depoimento
ao Jornal de Alagoas, 21-04-1978,
disse que Graciliano “escreveu artigos assinados e editoriais” para a Novidade (se tais “editoriais” foram de
fato textos de sua autoria, resta reconhecê-los[386]).
Outros textos de Graciliano publicados em jornais e revistas no período de
Maceió, anterior à sua prisão, foram:
- ”Álvaro Paes”. Jornal de
Alagoas, 12-06-1930, assinado G. R.[387];
- “Luiza”. Boletim de Ariel,
Rio de Janeiro, n. 3, dezembro de 1933[[388]];
- “Caetés VII (Capítulo de romance)”. Momento, Recife, n. 2, dezembro de 1933[[389]];
- “Precipitação”. A Noite. Rio
de Janeiro, 07-02-1934[[390]];
- “Um romancista do Nordeste”. Literatura,
Rio de Janeiro, n. 18, 20-06-1934[[391]];
- “Luiza”. Diário da Manhã.
Recife, 30-08-1934[[392]];
- “Ciúmes”. Boletim de Ariel,
Rio de Janeiro, n. 12, 09-1934[[393]];
- “Suor”. Folha de Minas,
Belo Horizonte, 17-02-1935[[394]];
- “O romance do Nordeste”. Diário
de Pernambuco, 10-03-1935[[395]];
- “Alguns números relativos à instrução primária em Alagoas”. Diário de Pernambuco 28-06-1935; A Escola, Maceió, set. 1935[[396]];
- Sob forma de entrevista-depoimento de Graciliano, publicou-se
“Aspectos da instrução pública em Alagoas” (inédito em livro, comentado
abaixo), Diário de Pernambuco,
24-01-1936.[397]
Nesse período de seis anos em Maceió, 1930-1936, em que Graciliano
Ramos ganha reconhecimento, seu nome é mencionado em várias publicações. O Jornal do Recife, 13-11-1931[[398]],
anunciava o lançamento de Revista,
com Willy Lewin, Aloísio Branco, Graciliano, entre outros. O Diário de Pernambuco, 22-12-1933[[399]],
saudou o segundo número da revista Momento,
de Aderbal Jurema e Odorico Tavares, uma publicação também de Recife, com
colaborações de José Auto, Jorge Amado, Valdemar Cavalcanti, Joaquim Cardoso,
José Lins do Rego, Graciliano e outros, com ilustrações de Tarsila, Luiz
Jardim, Manoel Bandeira, Santa Rosa, Cícero Dias[400].
O Jornal, 08-12-1933[[401]],
noticiou o número de dezembro da Boletim
de Ariel, com Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Ribeiro Couto,
Graciliano et alii. Clara Ramos, em Mestre
Graciliano, reproduz carta de Gastão Cruls a Graciliano, de 29-03-1934, em
que, além de propor a publicação de S.
Bernardo, convida Graciliano a ser representante em Alagoas de Boletim de Ariel. A autora comenta:
“Tanto as condições de lançamento do livro quanto a representação da revista
são aceitas”.[402]
Heloísa Ramos, a Ló, após a perda do filho
Roberto[403],
e novamente grávida, foi restabelecer-se na casa da avó, em Pilar-AL. Algumas
cartas de Graciliano coletadas desse período, sem referências a tais
circunstâncias, indicam que, ficando ele em Maceió com filhos mais velhos[404],
dedicava-se à reelaboração de Caetés. Na
de 26-09-1930, diz que recebeu uma visita com conversa sobre cana, algodão e
café que o fez ferrar no sono e não acordou mais.
Hoje, porém, a influência
do homem desapareceu. Fiz um capítulo de vinte e cinco folhas e mandei uma
carta ao Rômulo. Peça aos santos que esta encrenca termine daqui para novembro.
E peça também que não me apareçam outros orçamentos[405]
e artigos de jornal. Se não surgirem complicações, como dizia o dr. Liberato[406],
julgo que darei o trabalho concluído em fim de outubro. Se não aparecerem
complicações... e se o Aloísio Branco consentir. Vi ontem um daqueles
pedacinhos de papel que Schmidt me mandou. Estava pregado num dos vidros da
casa do Ramalho[407].
Há outros em outras livrarias. De sorte que o pessoal de sua terra está, com
razão, espantado e desconfiado. Há de ter graça no fim, quando compreenderem
que o livro não presta para nada.[408]
Com a Revolução de 30 deflagrada a 03-10-1930, Graciliano, em
04-10-1930, continuava com Caetés:
Recebi ontem uma carta do
Rômulo exigindo a entrega dos originais. Fiquei aflito, porque estou com dois
meses de atraso. Telegrafei ao homem pedindo uma semana de moratória. Com a
carta vinha um recorte da Vanguarda
dizendo cobras e lagartos dos Caetés.
É necessário que me desenrosque. Por isso arranjei uma datilógrafa. Enquanto
lhe escrevo, ela está aqui batendo na máquina: teco, teco, teco. Não se
assuste: é uma senhora respeitável, em tipo e em idade. Além disso são apenas
cinco horas da tarde.
À noite, se o Aloísio
consentir, vou mexer num capítulo, a ver se mando logo para o Rio aquela
encrenca.[409]
Com a Revolução de 30 a caminho de Maceió, Graciliano parecia mais
interessado na reformulação de Caetés que
preocupado com a queda do governo de que fazia parte. É o que deixa
transparecer, para tranquilizar Ló, na carta de 7 de outubro:
Naturalmente deve ter
aparecido por aí alguma notícia a respeito de revolução. E, para que v. não
fique assustada, escrevo-lhe dizendo que acho a sua terra perfeitamente
habitável.
Não há, parece-me,
inimigos do governo em Maceió. E se houvesse alguns, estou certo de que o dr.
José Carneiro sozinho bastaria para dar cabo deles. Estamos otimamente, no
melhor dos mundos possíveis.[410]
Apesar de andar com muito
sono, mandei ontem ao Rômulo cinco capítulos dessa obra-prima que vai
revolucionar o país. Isso é que vai ser uma revolução dos mil diabos, v. há de
ver. As outras são revoluções de bobagem.[411]
No dia 10-10-1930, acrescentou:
Não me parece que os
pernambucanos, ocupados como estão com os seus negócios internos, queiram vir
agora brigar com a gente. Não vêm. E se vierem, o dr. José Carneiro, sozinho,
corta as cabeças deles todos. A ordem, a paz, a legalidade, o governo constituído,
as nossas instituições e outras besteiras que o Jornal de Alagoas tem publicado até hoje não sofreram, segundo os
telegramas do barbadíssimo presidente Washington, alteração apreciável. E se
tudo isso for por água abaixo, que diabo perco eu? Tu pensas que eu sou alguma
coisa, Ló? Se a gangorra virar, deixo isto e vou plantar mamona. É um conselho
que o Álvaro Paes me tem dado muitas vezes. Se eu não fosse tão burro, já
estaria esgaravatando a terra e criando porcos. Bem, esta carta está muito
comprida, e eu tenho de escrever um boletim que o Álvaro Paes me encomendou e
traduzir os telegramas que vêm do Rio.[412]
Com o governo de Álvaro Paes deposto, Graciliano (que será mantido no
cargo) escreveu a Ló em 11-10-1930:
Não te assustes. Lê esta
carta em reserva, não a mostres a ninguém. São duas horas da manhã. Por volta
de meia-noite fui ao palácio e encontrei tudo deserto. A guarda tinha
desaparecido, as pessoas que lá em cima haviam passado uma semana sem poder
dormir tinham desaparecido também. Sem luta, sem um tiro. É possível que assim
esteja certo. Não sei. O que sei é que preciso dormir um pouco para continuar
os meus Caetés. Essa coisa de
política é bobagem, e eu não entendo disso. Agora que estamos em sossego,
talvez me seja possível trabalhar. Estou com isto por dentro da cabeça em
desgraça. E burro, minha filha, de uma burrice horrível. Fui hoje escrever uma
besteira e não pude.
Não acredites nos boatos
que aparecerem por aí. Não há perigo, nenhum perigo. O pano desceu, está finda
a peça. Eu, como tu sabes, não representei nenhum papel: sou miúdo demais. Em
toda esta porcaria o que eu sinto é o Álvaro Paes sair-se mal.[413]
Nasceu em Maceió, em 19-02-1931, Luíza de Medeiros Ramos[414],
filha de Graciliano e Heloísa.
Mantido no cargo, Graciliano continuou finalizando o Caetés e a partir de 1931 voltou a
publicar artigos-crônicas em Maceió, principalmente em Novidade.[415]
Uma carta de 25-04-1931 a seu cunhado Luiz Augusto de Medeiros[416],
residente no Rio de Janeiro, revela que Graciliano já não tinha esperança da publicação
de Caetés, embora tivesse enviado o
romance a Schmidt recentemente, há uns quatro meses, no final de 1930.
Recebi tua carta de 16 e
depois recebi também uma tapeação do Rômulo[417].
Como te disse, a história do livro acabou. A coisa é esta: eles imaginaram que
aquilo era realmente um romance e começaram a elogiá-lo antes de tempo. Quando
viram que se tinham enganado, tiveram acanhamento de desdizer-se. Compreendo
perfeitamente a situação deles e, para não entrarmos em dificuldades, não toco
mais no assunto.[418]
Implicado num processo “revolucionário” por malversação de verbas
públicas relativamente ao período da prefeitura de Palmeira dos Índios,
Graciliano foi absolvido em sentença datada de 27-07-1931, onde consta:
“Atendendo a que não ficou devidamente provada a má aplicação de 1.020$000,
ACORDA essa Junta julgar improcedente a denúncia para mandar seja o processo
arquivado”. Valdemar de Souza Lima colheu impressões de um amigo a quem
Graciliano na época tinha mostrado o mordaz documento de defesa,
no qual colocara em
situação embaraçosa o próprio Procurador Especial da Junta de Sanções, que,
como jornalista militante, em diferentes fases se tinha referido à
administração do indiciado, classificando-a de inteligente, evoluída e,
sobretudo, marcada por uma probidade inexcedível. Graciliano conservava os
recortes dos jornais e juntou-os na oportunidade, papelório que tomaria caminho
do Tribunal de Exceção.[419]
Uma resenha “avant la lettre” (datado o recorte com grafia manuscrita
de Graciliano, no IEB: “8-11-1931”) aproximou Graciliano de Machado de Assis,
antes mesmo da publicação de Caetés, que
se daria somente em dezembro de 1933. Com o subtítulo esperançoso “Sairá ainda
este mês o grande romance de Graciliano Ramos”, dizia:
As paisagens do escritor
alagoano são essas paisagens psicológicas que caracterizam o romance moderno. O
caso de Machado de Assis, o da casa sem jardim, mais uma vez se repete.[420]
Em dezembro de 1931, Graciliano demitiu-se da Imprensa Oficial e
voltou com a família para Palmeira dos Índios. Lá, continuou[421]
escrevendo S. Bernardo.
Entretanto, em vários depoimentos, Graciliano declarou ter iniciado o
romance em 1932 (e nesse ano o terminou). Por exemplo, em entrevista a Homero
Senna:
Com a revolução, quis
demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os
interventores militares[422]
que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios,
onde, numa sacristia, fiz São Bernardo.
Estava no capítulo XIX, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci
gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital.[423]
Clara Ramos conserva a memória familiar do episódio anterior a seu
nascimento:
Ao descer um degrau certo
dia, Graciliano pisa em falso; da queda resulta dor persistente na perna
direita. Sem que a princípio dê atenção ao fato, a dor, no entanto, agrava-se.
E um acidente aparentemente sem importância degenera num tumor, localizado na
fossa ilíaca, que o leva à mesa de operação do Hospital S. Vicente de Paula, em
Maceió.[424]
Portanto, sua presença em Palmeira dos Índios foi intermitente, assim
como a de Ló, grávida de Clara, e a dos filhos menores, que, conforme indicam
as cartas, logo voltaram para Maceió. As cartas dão indícios dessas
movimentações. No final de maio, 30-05-1932, Graciliano, de Maceió, escreveu ao
pai:
Saí do hospital
terça-feira, mas ainda estou doente. Ando com dificuldade, tenho as pernas meio
entorpecidas, as dores são terríveis e ainda estou com a barriga aberta, a
derramar pus. Quando dou alguns passos, paro, coberto de suor. Se faço uma
caminhada mais extensa, tenho de passar dois dias de cama, quero dizer de rede,
pois não suporto o colchão, que as dores no espinhaço são grandes.
Creio que ainda demorarei
algum tempo: não poderia fazer a viagem e estou em tratamento. Quando saí do
hospital, vim gemendo como um condenado e desci do automóvel meio morto. Mas
parece que vou melhorando. Tenho uma fome danada, uma fome de fazer medo.
Até agora os médicos têm
sido camaradas, e as despesas que fiz no pavilhão em quarenta e um dias foram
relativamente pequenas, menos de metade do que eu esperava.
Estou agora tomando
banhos de luz, raios ultravioleta. Julgo que não servem de nada, mas o nome é
bonito.[425]
Em 20 de agosto, durante a Revolução Constitucionalista, Graciliano
escreveu de Palmeira a Heloísa, em Maceió, assinando com o qualificativo “esposo fiel” (certamente para apaziguar
os ciúmes de Ló):
Depois que cheguei, a
minha ocupação é fumar.
Durante o dia converso
com seu Ribeiro, com Azevedo Gondim, com o Padilha e com a Madalena. São os
companheiros que aqui estão sempre, mas as conversas deles estão-se tornando
muito cacetes. Estive um dia em Viçosa e encontrei aquilo transformado.
Possibilidade de arranjar qualquer coisa lá — nenhuma. Nem lá nem aqui. Tudo
cavado. O que é necessário é esperar o fim da encrenca de S. Paulo.
E enquanto não me
oriento, conserto as cercas de S.
Bernardo, estiro o arame farpado, substituo os grampos velhos por outros
novos e, à noite, depois do rádio, leio a Gazeta
de Costa Brito.
Eu, os meninos, a gente
do velho Sebastião, tudo vivo.[426]
Em 1º de setembro de 1932, chamando os filhos carinhosamente, como de
costume, pelos apelidos de “Tatá” (Ricardo) e de “Lulu”(Luíza), assinou “Gato”:
Continuo a consertar as
cercas do S. Bernardo. Creio que está
ficando uma propriedade muito bonita. E se Deus não mandar o contrário,
qualquer dia terei de apresentá-la ao respeitável público. O último capítulo,
com algumas emendas que fiz, parece que está bom.
Não temos aqui nenhuma
notícia certa da revolução. O rádio desapareceu, os jornais não dizem nada, até
os boatos são escassos.[427]
Em 15 de setembro, a
respeito da filha do juiz em S. Bernardo (a
quem Paulo Honório dedica o epitalâmio: “D. Marcela era bichão. Uma peitaria,
um pé de rabo, um toitiço!”), Graciliano garante:
D. Marcela não tem
original. Você está equivocada.
Julgo que aqui neste
quarto, sozinho, vou ficando safado. Têm-me aparecido ideias vermelhas.
Anteontem abrequei a Germana num canto de parede e sapequei-lhe um beliscão
retorcido na popa da bunda.
Vai sair uma obra-prima
em língua de sertanejo, cheia de termos descabelados.
Se você quiser queimar
esta carta, pode queimar. Mas, com franqueza, faz pena perder-se uma literatura
tão boa.[428]
Em 17 de setembro:
O S. Bernardo vai indo, assim assim. Pareceu-me ontem que aquilo é
uma porcaria, sem pé nem cabeça.
Circulam por aqui boatos
desencontrados.
Não sabemos nada. Enfim
será o que Nosso Senhor quiser. E como
ele quer que esta joça rebente, teremos em breve o comunismo. Quando isso
chegar, eu irei trabalhar na estrada de rodagem, com Zé Guedes. Pedro Soares
será zelador do cemitério. Chico, Otávio, meu pai, Leobino, padre Macedo etc.,
vão plantar mamona. Você criará galinhas. Por causa dessas coisas meu pai anda
às vezes meio trombudo comigo. Acho que ele pensa que eu sou culpado de a
gasolina russa ser mais barata que a dos Estados Unidos.[429]
Uma carta escrita entre 2 e 4 de outubro de 1932, entre vários
assuntos, comentou o final da Revolução Constitucionalista e se despediu,
dizendo que precisava melhorar a “compra de São Bernardo”:
O Valdemar não tem razão.
Escrevi a ele um destes dias, agradecendo dois livros que me enviou.
As pulgas ainda existem.
Mas como eu agora estou mais magro, parece que elas vão ficando enjoadas de
mim.
Abandonei o xadrez, mas
nestes três últimos dias tenho jogado algumas partidas.
Encontrei muitas coisas
boas da língua do nordeste, que nunca foram publicadas, e meti tudo no livro.
Cada palavrão do tamanho
dum bonde. Desconfio que o padre Macedo vai falar mal de mim, na igreja, se o
livro for publicado.
Agora que não há aqui em
casa nenhuma senhora para levar-me ao bom caminho, imagine o que não tenho
arrumado na prosa de seu Paulo Honório. Creio que está um tipo bem arranjado. E
o último capítulo agrada-me. Quando o li depois dos consertos, espantei-me.
Realmente suponho que sou um sujeito de muito talento. Veja como ando besta.
3 de outubro, dia grande.
Há dois anos você estava em Pilar, comendo bagre. E aí em Maceió ainda não
tínhamos recebido o primeiro telegrama sobre a encrenca. Agora tudo mudou. Um
patriotismo infeliz tomou conta disto. E a literatura oficial é mais infeliz
que o patriotismo. O pior é que ninguém faz nada. Conversa fiada, uns
energúmenos idiotas querendo salvar esta gangorra por processos violentos.
Besteira. Sangue não serve para nada. O Álvaro Paes é que tinha razão. Plantar
algodão, plantar mamona, criar gado, isto é que é.
Por enquanto vou melhorar
o negócio da compra de São Bernardo, que Paulo Honório e Padilha estão
esperando por mim.
Agora mesmo estou ouvindo
uns estouros de bombas e uma corneta tocando. Concluo daí que a pátria está
salva e São Paulo saiu do mapa.[430]
Em outubro de 1932 a publicação de Caetés
continuava emperrada, o que levou Graciliano, com algum alívio, a desistir
do negócio e pedir os originais de volta, como contou a Ló:
Não acredito nessa
história do Luís[431].
Promessas como essa o Schmidt tem feito às dúzias: não valem nada. Escrevi a
ele rompendo todos os negócios e pedindo a devolução duma cópia que tenho lá[432].
Assim é melhor. A publicação daquilo seria um desastre, porque o livro é uma
porcaria. Não me lembro dele sem raiva. Não sei como se escreve tanta besteira.
Pensando bem, o Schmidt teve razão e fez-me um favor. Resta-me agora o S. Bernardo. Tenho alguma confiança nele[433].
As emendas sérias foram feitas. O trabalho que estou fazendo é quase material:
tolice, substituição de palavras, modificação de sintaxe. Mas tenho trabalhado
demais: um dia destes estive com os meus bichos de S. Bernardo das seis da manhã à meia-noite, sem me levantar da
banca.[434]
Dedicando-se intensamente ao S.
Bernardo, já pelo final de outubro, 24-10-1932, disse a Ló:
E não escrevo mais hoje.
O S. Bernardo espera até amanhã.
Agora vou enxugar a cabeça, ler um bocado de economia política[435],
dormir e sonhar com você. Está feito?[436]
No dia de seu aniversário, Graciliano parafraseou o Paulo Honório
quando este diz no último capítulo: “Cinquenta anos! Quantas horas inúteis!
Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê!”[437]
Esgotei todos os assuntos
e estou aqui estragando papel porque hoje é 27 e a sua última carta me veio
lembrar que hoje, às quatro da tarde, entro nos quarenta e um. Quarenta anos,
Ló. Que horror![438]
Em 1º. de novembro, Graciliano avisou que a tarefa – em sua primeira versão
– estava concluída:
O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português,
como você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro
encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um
brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas
que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a
procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião[439],
Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários[440].
O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a
gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a
formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos
anos eu não serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S. Bernardo, cochilando, e procurarão
nos monólogos de seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem.[441]
Enquanto Heloísa Ramos aguardava o trabalho de parto em Maceió,
Graciliano procurava acompanhar o processo enviando mensagens de Palmeira dos
Índios:
Estou nestes últimos dias
preocupado com a última notícia que você mandou. Disse que já tinham aparecido
sinais da vinda do rapaz (ou da moça) e até agora não chegou confirmação.
Acabei agora a tarefa
diária do S. Bernardo. Os
trabalhadores do eito descansam às seis horas. Eu estou aqui desde oito da
manhã, e já é meia-noite.
As suas últimas cartas
não têm data, Ló. Não tem importância, mas ando perguntando a mim mesmo o dia
em que lhe apareceram os primeiros sinais.[442]
Na carta seguinte, datada apenas de “novembro”, “segunda-feira”,
Graciliano ainda estava sem notícias sobre o nascimento da criança:
Se a d. Evangelina
acertou, a esta hora você deve estar descansada. Não posso ir, primeiro porque
estou adoentado, com a barriga doendo; segundo porque os tempos estão bicudos e
é preciso fazer economia; terceiro porque quem vai ter menino não sou eu.
Recebi, pelo último
correio, o Menino de engenho, do
Zélins. É excelente. Mando amanhã uma carta agradecendo a remessa do volume.
Imagine que meu pai leu o livro duas vezes. E um romance que meu pai lê duas
vezes só pode ser bom.
O S. Bernardo está acuado.[443]
Na “terça-feira”, a última carta coletada do período entre a
correspondência do casal, Graciliano dizia:
Como vai a barriga, Ló?
Tenho receio de que esse menino apareça barbado. Mande-me algumas notícias, que
ultimamente não tenho recebido daí nem um bilhete. Mas não brigo por isso,
porque sei que uma pessoa com a barriga crescida não pode escrever.
O S. Bernardo está muito transformado, Ló. Seu Paulo Honório,
magnífico, você vai ver. O diabo é que as folhas estão cheias e não há mais
lugar para fazer emendas. Se eu morresse hoje ninguém poderia ler aquilo. Mais
difícil que as cartas do Tatá.[444]
Numa quarta-feira, em 09-11-1932, nasceu Clara Ramos[445],
enquanto Graciliano finalizava seu “irmão gêmeo”, S. Bernardo.
Em 3 de janeiro de 1933, de Maceió, Graciliano
respondeu a uma carta de Adersen-Editores. Discutiu minuciosos itens relativos
a um contrato da publicação de Caetés pela
editora.[446]
Graciliano foi nomeado Diretor da Instrução Pública pelo interventor
capitão Afonso de Carvalho. Como registra Moacir Medeiros de Sant’Ana:
Seus problemas de ordem
financeira somente iriam ser atenuados durante a Interventoria de Afonso de
Carvalho – dublê de intelectual e militar, capitão de arma de artilharia,
carioca, mas filho de alagoano de Pilar – que o nomeou, a 18 de janeiro de
1933, para o cargo de Diretor da Instrução Pública de Alagoas, nomeação por ele
próprio tachada, em depoimento a Joel Silveira, como um “disparate
administrativo que nenhuma revolução poderia justificar”[447].
Nesse período, residiu em casa da Praça Bráulio Cavalcanti[448],
antiga Montepio dos Artistas, esquina com a Rua Barão de Penedo.[449]
Jorge Amado foi a Maceió com “o objetivo único” de conhecer Graciliano
Ramos (mas tinha a tarefa de resgatar Caetés
para Schmidt).
Em meados de 1933
embarquei num paquete do Lloyd Brasileiro, do tamanho de uma caixa de fósforos,
o Conde de Baependi, arribando do
porto do Rio de Janeiro para o porto fluvial da cidade de Penedo, no rio São
Francisco, no então distante estado de Alagoas. Levava-me o objetivo único de
conhecer pessoalmente o romancista Graciliano Ramos, nome àquela data sem
qualquer ressonância junto aos leitores e aos críticos: ainda não havia editado
nenhum livro. Acontecera-me ler, porém, os originais de Caetés, tomara-me de tamanho entusiasmo que decidi viajar até
Alagoas para comunicar ao autor minha admiração, de viva voz. Tinha eu vinte e
um anos incompletos e acabara de publicar Cacau.[450]
Além do “sequestro” de Caetés, Jorge Amado estimulou decisivamente a publicação de S. Bernardo, pela Editora Ariel, através
de Gastão Cruls, responsável, junto a Agrippino Grieco, pelo importante
mensário de crítica literária dos anos 30, o Boletim de Ariel.[451]
Enquanto no Rio de Janeiro se preparava a publicação dos dois
romances, Graciliano Ramos, como Diretor da Instrução Pública de Alagoas,
iniciava uma pequena revolução educacional em Alagoas.
Caetés afinal foi publicado, em
edição oficialmente datada de 1933. Anunciado no início de 1934, várias
resenhas sobre o romance foram publicadas em fevereiro. Em recorte com
identificação manuscrita de Graciliano, Jorge Amado apresentou o “estilo
geométrico” do romance, em Literatura, dezembro
de 1933:
A gente sai da leitura
desse livro, livro de uma realidade pasmosa, com o contentamento de ter
descoberto um romancista, porém mal satisfeito com a humanidade. Quanta gente
ruim... Eles são assim mesmo, a gente bem sabe. Nenhum herói desperta simpatia.
João Valério, Luíza, Nazaré, Adrião, o padre, o promotor, quanta gente insignificante,
má, perniciosa.[452]
Também em recorte coletado por Graciliano, o Rio Magazine disse em janeiro de 1934:
Schmidt Editor vai
definitivamente lançar nos primeiros dias de janeiro o esperado romance do
grande escritor alagoano Graciliano Ramos.[453]
O Diário de Notícias, 14-01-1934,
anunciou em nota o “romance moderno”:
Schmidt-Editor acaba de
lançar um romance moderno: Cahetés de
Graciliano Ramos.[454]
Entre as várias resenhas de Caetés,
a de Aurélio Buarque de Holanda, minuciosa, começou destacando o estilo de
“telegrama” do autor e acabou anunciando S.
Bernardo:
Os defeitos apontados em Caetés – insignificantes em sua maioria
– não chegam a obscurecer, antes põem em destaque, o que o romance tem de
realmente belo. Com ele o sr. Graciliano Ramos pode, sem favor, formar na
fileira dos melhores romancistas do Brasil. E dentro de poucos meses –
anuncio-o com o maior prazer aos leitores do Boletim – a publicação de São
Bernardo, que já conheço, revelará ao país um dos seus grandes, dos seus
maiores romancistas de todos os tempos.[455]
Anos depois, 1946, o período seria relembrado em “Paulo Honório”, um
depoimento a João Condé, em momento culminante do estilo e do humor de
Graciliano, que lamentou o pai ter morrido em 1934, sem ter visto S. Bernardo publicado:
Paulo Honório, concebido
em 1924, nasceu em 1932. Narro essa longa gestação, por exigência de Condé,
homem terrível e absurdo, que guarda fotografias e papéis inéditos de todo o
gênero, da novela ao rol de roupa suja, do poema à carta de cobrança, autos de
processo e correspondência amorosa, coisas obtidas pelos mais diversos meios:
sorrisos, pagamento do café, do ônibus e do bonde, ameaças, gritos, carinhos,
promessas, injúrias, cócegas, apresentação a cavalheiros ponderosos e
chantagens, pois o monstro conhece fidalgos estrangeiros e funcionários da
polícia. Para me extorquir estas declarações, Condé me ofereceu, antes de tudo,
a glória. Como a sua coleção durará séculos, posso ter a certeza de que, senão
a obra inteira, pelo menos uma das minhas personagens tomará pé no futuro. Em
segundo lugar vem um assunto pecuniário: o malvado farejou o meu orçamento,
percebe nele um desequilíbrio e dispõe-se a endireitá-lo.
– Com meia dúzia de
penadas, V. ganha um dinheirão, filho de Deus.
O jeito que tenho é
convencer-me, decidir contar a origem de Paulo Honório, alagoano, viçosense,
chegado ao Rio há doze anos e hospedado na Ariel.
Aqui vai a tarefa. Em
1924, em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas, encontrei dificuldade séria,
pus-me a ver inimigos em toda a parte e desejei suicidar-me. Realmente julgo
que me suicidei. Talvez isto não seja tão idiota como parece. Abandonando o
contas-correntes, o diário, outros objetos da minha profissão, havia-me
embrenhado na sociologia criminal. Que me induziu a isso? Teria querido matar
alguns fantasmas que me perseguiam?
Naquele inverno de 1924,
numa casa triste do Pinga-Fogo, sentado à mesa da sala de jantar, fumando,
bebendo café, ouvindo a arenga dos sapos, o mugido dos bois nos currais
próximos e os pingos das goteiras, enchi noites de insônia e isolamento a
compor uma narrativa. Surgiu um criminoso, resumo de certos proprietários rijos
existentes no Nordeste. Diálogo chinfrim, sintaxe disciplinada, arrumação
lastimosa. Felizmente essas folhas desapareceram. Mas as preocupações que me
afligiam desapareceram também, pelo menos adelgaçaram: ressurgi, desenferrujei
a alma, tornei-me prefeito municipal. Aventuro-me a admitir, pois, que o
suicídio se tenha de fato realizado.
Passaram-se anos. Deixei
a prefeitura, vendi a loja, mudei-me para Maceió e fui bocejar, falar ao
telefone e discutir literatura na Imprensa Oficial. Em consequência da bagunça
revolucionária de 30, demiti-me – e no começo de 1932 arrastava-me de novo em
Palmeira dos Índios, com vários filhos pequenos, sem ofício nem esperanças,
enxergando em redor nuvens e sombras.
Nessa crítica situação
voltou-me ao espírito o criminoso que em 1924 me havia afastado as inquietações
– um tipo vermelho, cabeludo, violento, de mãos duras, sujas de terra como
raízes, habituadas a esbofetear caboclos na lavoura. As outras figuras da
novela não tinham relevo, perdiam-se à distância, vagas e inconsistentes, mas o
sujeito cascudo e grosseiro avultava, no alpendre da casa-grande de S.
Bernardo, metido numa cadeira de vime, cachimbo na boca, olhando o prado,
novilhas caracus, habitações de moradores, capulhos embranquecendo o algodoal,
paus-d’arco floridos a enfeitar a mata. E, sem recorrer ao manuscrito de oito
anos, pois isto prejudicaria irremediavelmente a composição, restaurei o fazendeiro
cru, a lápis, na sacristia da igreja enorme que o meu velho amigo padre Macedo
andava a construir. Surgiam personagens novas, e a história foi saindo diversa
da primitiva.
Até o capítulo XVIII tudo
correu sem transtorno. Um dia de fevereiro, ao entrar em casa, senti arrepios.
À noite, com febre, fiz o capítulo XIX, uma confusão que mais tarde, quando me
restabeleci, conservei.
Ao sair do hospital, com
uma perna encrencada, coxo, na ferida ainda aberta uma tampa de esparadrapo,
recomecei o trabalho, que fui terminar em Palmeira dos Índios, na minha casa do
Pinga-Fogo, ouvindo os sapos, a ventania, os bois de seu Sebastião Ramos.
Finda a escrita,
copiei-a, tentando suprimir-lhe excrescências e acessórios dispensáveis. Houve,
pois, três redações: uma completamente abandonada em 1924, duas em 1932.
Esforcei-me em demasia para conseguir simplicidade.
Em novembro Paulo Honório
me parecia mais ou menos apresentável. Acompanhou-me à capital. Valdemar
Cavalcanti datilografou-o. Gastão Cruls editou-o. E os críticos lhe dispensaram
algumas cortesias.
Em Palmeira dos Índios,
onde foi gerado, ninguém deu por ele. Apenas seu Digno, parente de minha mãe,
vaqueiro, informado de que certo livro tinha sido feito por mim, desconfiou,
duvidou. E como lhe falassem com segurança, pegou a brochura, mediu-a, pesou-a,
examinou-lhe a capa, a ilustração de Santa Rosa – e opinou:
– Quem diria? Sim,
senhor. Está um trabalhinho direito.[456]
S. Bernardo foi publicado ainda em
1934, no final do ano, dezembro, como ocorreu com Caetés em 1933.
Graciliano já escrevia Angústia. Ao
lado de anúncio da Ariel, ilustrado com capas de Doidinho, de Suor, da
segunda edição de Cacau, e outras, a revista Beira-Mar, em fins de outubro, 27-10-1934[[457]],
divulgava entrevista com o gerente da editora, que prometia a publicação de S. Bernardo brevemente, entre as
próximas edições.[458]
Várias resenhas censuraram o uso do “baixo calão” e consideraram
inverossímil um narrador bruto e mal letrado dedicando-se a escrever um
romance.[459]
Uma crítica que certamente muito agradou Graciliano foi a de Oscar
Mendes, a tal ponto que o romancista apresentou-se a ele numa carta, de
05-04-1935, comentando aspectos significativos entre os abordados em sua
resenha “Egoísmo”[460]:
Estamos longe do tempo em
que os mais conceituados críticos nacionais eram uns sujeitos que ensinavam
colocação de pronomes e sintaxe de regência. Ainda há uns idiotas que fazem
crítica, infelizmente: o ano passado um deles descobriu que não sei conjugar verbos.[461]
Acho, como o senhor, que
transformar a literatura em cartaz, em instrumento de propaganda política, é
horrível.
O senhor deve ter visto
uma enquete que se fez na Rússia o ano passado.
Quase toda a gente
respondeu que não conhecia a literatura soviética.
Romain Rolland, depois de
rodeios, disse isto: “A arte é um ofício, uma técnica, e, como técnica, exige
aprendizagem”.[462]
O senhor não quer nenhuma
revolução. Eu desejo que as coisas mudem, embora me pareça que isto não me
trará vantagem. Pergunto a mim mesmo que trabalho me dariam se o cataclismo que
espero chegasse agora. Não sendo operário, não poderia fabricar nenhum objeto
decentemente. Faria um livro, com dificuldade, matutando, trocando palavras.
Mas hoje existe o romance-cenário, que pretende ser uma espécie de literatura.
Li um deles, russo, traduzido em francês, horrível. Junto a isso de nada
serviriam as minhas letras, aprendidas no tempo em que a gente estudava Balzac.
Creio que a revolução
social me levaria à fome e ao suicídio. Mas como, segundo o evangelho, nem só
de literatura vive o homem, é razoável que se procure o bem-estar dos outros
trabalhadores. Além disso, pode ser que o romance-artigo de fundo e o
romance-noticiário sejam realmente, depois de aperfeiçoados, melhores que os
antigos, extensos demais, pesadões. Quem sabe?
O que é certo é que não
podemos honestamente apresentar cabras de eito, homens da bagaceira, discutindo
reformas sociais. Em primeiro lugar, essa gente não se ocupa com semelhante
assunto; depois os nossos escritores, burgueses, não poderiam penetrar a alma
dos trabalhadores rurais.[463]
Julgo que ninguém conhece
bem a vida dos nossos matutos. Essas criaturas falam pouco diante de pessoas
estranhas, são acanhadas. E não creio que existe nelas a consciência de classe
a que Jorge Amado se refere. Vivi trinta anos em cidade pequena – não vi nada
que se parecesse com revolta. Se ainda tentasse escrever um romance,
provavelmente não me afastaria da gente mesquinha que há nos meus dois livros.
É uma tristeza mexer com ela, mas não conheço outra. Suponho, porém, que não há
perigo: não teremos reincidência.[464]
Enquanto Heloísa Ramos procurava em Palmeira dos Índios produzir
literatura com “Maria Antônia”[465],
Graciliano escrevia Angústia[466] e passava com humor herético a Semana
Santa de 1935 na casa do sogro.[467]
No Sábado de Aleluia,
dá detalhes sobre a escrita, produtiva, de Angústia,
demonstrando bom proveito dos dias de feriado.
Ontem à noite Luís da
Silva tirou da raiz da mangueira dezesseis mil-réis em prata e duas libras
esterlinas que Vitória tinha enterrado. Aí apareceu um gato que deve ser da
família do diabo: creio que nessa história de botija o diabo aparece sempre.
Nunca vi nenhum, mas é o que dizem. O meu diabo tem olhos de gato e veio numa
sexta-feira da Paixão. Suponho que ele fica bem com olhos de gato. Seu Américo
me deu umas informações sobre os olhos dos gatos, mas sem imaginar que eu
estava preparando um diabo num dia santo como o de ontem.
Nunca trabalhei assim,
provavelmente um espírito me segurava a mão. Vou perguntar a d. Luísa. A letra
era minha, embora piorada por causa da pressa, mas é possível que aquilo fosse
mesmo feitiçaria. Ou efeito de aguardente.
Estou em grande
atrapalhação para matar Julião Tavares. Cada vez me convenço mais de que não
tenho jeito para assassino.[468]
Moacir Medeiros de Sant’Ana desdobra um detalhado painel[469]
das realizações de Graciliano Ramos como Diretor da Instrução Pública, comprovando
a importância desse significativo acontecimento na história da educação
alagoana (mas adverte que não há registros específicos sobre a implantação
sistemática de merenda escolar naquele momento)[470].
Alguns aspectos relevantes, entre os que o pesquisador aborda, são:
A documentação oficial sobre o período da gestão de Graciliano,
1933-1936, praticamente não existe. Restou, de teor mais expressivo, a
publicação do próprio Graciliano em A
Escola, n. 1, setembro de 1935, “Alguns números relativos à instrução
primária em Alagoas”, de onde o pesquisador destaca passagens como esta: “O
quadro que nos apresentava, há poucos anos, a instrução pública em Alagoas era
este: dezena e meia de grupos escolares, ordinariamente localizados em
edifícios impróprios, e várias escolas isoladas na capital e no interior,
livres de fiscalização, providas de material bastante primitivo e quase
desertas. As professoras novas ingressavam normalmente nos grupos; as velhas
ficavam nas escolas isoladas, longe do mundo, ensinando coisas absurdas. Salas
acanhadas, palmatórias, mobília de caixões, santos nas paredes, em vez de
mapas”.[471]
O pesquisador relata o plano de ação de Graciliano: “Desde os seus
tempos de prefeito de Palmeira dos Índios, quando criou várias cadeiras de
instrução primária no município e submeteu os candidatos à prova de
habilitação, estava consciente de que a escola para ser eficaz dependia
fundamentalmente de bons professores. Ajustara, por isso, com o interventor
Afonso de Carvalho, algumas medidas tendentes à melhoria do ensino público,
entre as quais a proibição do ingresso, no magistério público primário, de
pessoas não diplomadas; a exoneração de todas as professoras primárias
interinas; a criação – na realidade recriação – de Juntas Escolares, destinadas
a propagar e fiscalizar o ensino nas escolas estaduais, municipais e
particulares; a organização do serviço de estatística escolar”; “exonerou 66 professoras interinas, todas
elas pertencentes a escolas do interior do Estado, entre as quais a sua própria
irmã, Marili Ramos, então lecionando em Anel, povoação de Viçosa”[472].
Entre outros presentes em grupo escolar de Pajuçara, Graciliano, o interventor
e um redator do Jornal de Alagoas
assistiram em julho de 1933 à distribuição de roupas e calçados a 400 crianças
pobres, ação estendida posteriormente à capital e ao interior, incluindo
material escolar.[473]
Aos poucos, as escolas de instalação precária foram desaparecendo –
segundo Moacir Medeiros de Sant’Ana: “Dez delas haviam sido fechadas na
capital, em 1934, substituídas por dois grupos escolares que empregavam 19
professores”, além de reformas, construções e instalações de escolas por todo o
interior de Alagoas[474].
A educação pré-escolar para crianças de 4 a 7 anos expandiu-se como unidade
escolar autônoma de Jardins da Infância, “em número de três, instaladas em
pavilhões circulares edificados na Praça D. Pedro II”. Em 1933, instalou-se a
Escola Profissional Feminina, em Maceió. Em 1934, foram inauguradas a
Biblioteca da Escola Normal de Maceió e as Escolas Normais de Viçosa e Penedo.
A adoção de Aventuras de Hans
Staden, de Monteiro Lobato, nas escolas primárias alagoanas, mereceu o
artigo no Jornal de Alagoas, de
15-07-1933, que saudava a escolha de histórias fabulosas, que “à imaginação e à
força receptora meio selvagem da criança agrada como uma invenção de
maravilhas”, em oposição às “histórias
cheias de monotonia e moralidade”, que submetiam a criançada “a um regime de
penitenciados a trabalhos forçados de literatura ruim”. O mesmo jornal, em
13-12-1935, em editorial sob o título “Trabalhando em silêncio”, qualificava
Graciliano como um “técnico no assunto”: “Trabalhador compenetrado dos seus
deveres, decidido nas suas determinações, a sua obra, na Instrução Pública, dia
a dia se impõe ao respeito da coletividade”, apresentando cifras que indicavam
depois de 1932 aumentos fartamente multiplicados da escolarização no estado.[475]
Ainda segundo o levantamento de Moacir M. de Sant’Ana, há o registro
de mensagem do governador Osman Loureiro à Assembleia Legislativa do Estado,
datada de 21-04-1936 (mais de um mês depois de Graciliano Ramos ter sido
demitido e preso), comunicando a aquisição no sul do país, desde o início de
seu mandato, de duas mil carteiras duplas[476],
em substituição aos caixotes que muitas vezes os próprios alunos traziam para
as aulas.
Então, após a tentativa frustrada do movimento revolucionário
comunista em novembro de 1935, desencadearam-se ações repressivas em massa que
atingiram indiscriminadamente toda atuação e pensamento críticos[477].
Graciliano Ramos, sem relação com o movimento, foi uma das vítimas da sanha
fascista que aninhava o golpe de estado de 1937. Pouco antes de ser demitido e
preso, o Diário de Pernambuco,
24-01-1936[[478]],
colheu dele, sob o título “Aspectos da instrução pública em Alagoas”, a
entrevista-depoimento, em que se destacam os seguintes dados e declarações:
Não nos temos
despreocupado da situação do professorado normal e primário de Alagoas. Assim é
que a Escola Normal Oficial teve o seu corpo docente renovado, nele ingressando
figuras brilhantes de técnicos como os drs. Theo Brandão, especialista em
higiene e puericultura, Sebastião Hora[479],
professor de psicologia e pedagogia, Mário Marroquim, catedrático de português.
Melhorado desse modo o professorado com a aquisição de valores novos, fica
assegurada uma situação de relevo ao magistério do estado.
Em 1933 foram demitidas
119 professoras interinas. Depois, mediante concurso, 50% dessas professoras
tiveram sua nomeação em caráter efetivo.
Não somente lhes foi melhorada a própria situação como também a do ensino.
Atribuo mesmo a esse fato, que contribuiu para melhorar a situação das escolas
no interior, o aumento da frequência escolar.
Graciliano enumerou os grupos escolares criados na capital e no
interior, falou do alcance e função das escolas normais (acima citadas) e
anunciou:
Cogita-se atualmente da
criação de mais uma escola normal do interior, que possivelmente será
localizada em Palmeira dos Índios. Servirá ela à vasta zona sertaneja do
estado, formando assim o professorado do sertão.
Sobre o material escolar (sem referir-se à merenda), disse:
Em 1935 adquirimos 2600
carteiras duplas. Funcionando todos os grupos escolares em 2 turnos, equivale a
dizer que temos assim carteiras para 10400 escolares. Por conta da caixa
escolar a diretoria de Instrução Pública fornece gratuitamente às crianças
pobres, livros, roupas, sapatos etc. Em 1935 fornecemos cerca de 10 mil metros
de fazenda, foram distribuídos mil pares de sapatos e cerca de 500 volumes como
prêmios escolares.
Sobre a Escola Profissional Feminina[480],
informava:
Em 1933, ao assumirmos a
direção da instrução pública, encontramos já criada a Escola Profissional
Feminina, mas ainda não iniciados os seu trabalhos. Tratamos de fazê-lo e hoje
ela se apresenta com um desenvolvimento já notável.
A sua frequência tem sido
grande e as suas instalações pequenas para comportar quantos a procuram. Posso
até lhe adiantar que muitas senhoras fazem hoje curso especializado de arte
culinária na escola.
A Escola Profissional
Feminina, que é uma realidade no ensino em Alagoas, vem prestando reais
serviços à mocidade feminina da capital. Várias são as encomendas que ela
recebe e múltiplo tem sido o aproveitamento de suas alunas.
No interior funciona um
clube agrícola em União e este ano cogitamos de criá-los em Palmeira, Penedo e
outras cidades.
Para encerrar, Graciliano destacou o serviço interno com a criação da
Seção de Estatística e Registro:
Por ele pode a diretoria
fazer o registro de todas as escolas estaduais e municipais e este ano faremos
o das escolas particulares.
O que vimos fazendo, em
prol da instrução pública no estado, tem uma compensação que nos satisfaz: é
que todos compreendem a necessidade de desenvolver as possibilidades do ensino
em Alagoas, como base inicial para a formação cultural das novas gerações.
Preocupado com retocar seu último romance, que os amigos queriam encaminhar logo para publicação, Graciliano
contou em carta a Ló, no final de janeiro, 28-01-1936, que teve uma ideia de
outro livro. Mas somente no Rio de Janeiro e depois da prisão é que o livro
seria composto – sempre lembrado por sua inter-relação com Angústia: Infância:
Um dia destes, no
banheiro, veio-me de repente uma ótima ideia para um livro. Ficou-me logo a
coisa pronta na cabeça, e até me apareceram os títulos dos capítulos que
escrevi quando saí do banheiro, para não esquecê-los. Aqui vão eles: Sombras,
O inferno, José, As almas, Letras, Meu avô, Emília,
Os astrônomos, Caveira, Fernando, Samuel Smiles. Provavelmente
me virão ideias para novos capítulos, mas o que há dá para um livro. Vou ver se
consigo escrevê-lo depois de terminado o Angústia. Parece que pode
render umas coisas interessantes. Zélins e Jorge Amado têm insistido para que
eu remeta logo os originais. Mas ainda não dei resposta às cartas deles. E só
mandarei os originais quando o dinheiro vier.[481]
Numa das passagens mais dilacerantes de Memórias do cárcere, nos capítulos 2 e 3 do início da obra,
Graciliano lembra os momentos da demissão e da prisão. Depois de contínuos telefonemas ameaçadores, recebeu em
seu gabinete o filho do governador, que, acanhado, falava de pressões
incontornáveis que exigiam seu desligamento do governo:
Não me surpreendi. Pelo
meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguira aguentar-me
ali mais de três anos, e isto era espantoso. Ocasionara descontentamentos,
decerto cometera numerosos erros, não tivera a habilidade necessária de prestar
serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma
estupidez com solecismos[482],
e isto se considerava impatriótico.
Graciliano menciona sua dedicação, depois do expediente, à escrita de Angústia, em meio ao fardamento e aos
cadernos que as crianças pobres estavam recebendo:
Lembro-me perfeitamente
da cena. O gabinete pequeno se transformara numa espécie de loja: montes de
fazenda e cadernos, que oferecíamos às crianças pobres. Findo o expediente,
sucedia retardar-me ali, a escrever, esquecia-me do tempo, e às vezes,
meia-noite, o guarda vinha dizer-me que iam fechar o portão do Palácio. Parte
do meu último livro fora composto no bureau largo, diante de petições, de
números do Literatura Internacional.
Recusou-se ao “afastamento voluntário” que o governador lhe propunha:
Os integralistas serravam
de cima, era o diabo.
Demissão ninguém me
forçaria a pedir. Havia feito isso várias vezes, inutilmente; agora não iria
acusar-me. Dessem-na de qualquer jeito, por conveniência de serviço.[483]
Preocupava-se com a possibilidade de que sua situação comprometesse os
companheiros águas-mornas da Instrução Pública, dr. Sidrônio, católico, e
Luccarini:
Luccarini tinha sido meu
inimigo. Apanhado certa vez em falta e censurado, replicara-me: – Eu também já
mandei. Mas quando queria dizer isso que o senhor está dizendo, chamava o
sujeito particularmente. – Ora essa! O senhor chega tarde, larga a banca e vive
passeando pelas seções alheias em público. Luccarini voltara ao seu lugar e
durante três meses fora de uma pontualidade irritante.
Como o premonitório Luís da Silva, em Angústia, naquela noite Graciliano ruminava a caminho de casa:
Saí do Palácio,
atordoado. Eximia-me de obrigações cacetes, mas isso continuava a aperrear-me,
juntava-se a amolações domésticas e a planos vagos. Sentia desgosto e vergonha,
desejava ausentar-me para muito longe, não pensar em despachos e informações. Andei
pelas ruas, tomei o bonde.
Realmente eu havia sido
ali uma excrescência, uma excrescência agora amputada, a rodar no bonde, a
olhar navios e coqueiros. De certo modo as ameaças dos telefonemas me
agradavam: embora indeterminadas, indicavam mudanças, forçar-me-iam a azeitar
as articulações perras. Conservara-me regulamentar e besta mais de três anos,
numa cadeira giratória, manejando carimbos, assinando empenhos, mecânico, a
deferir e indeferir de acordo com as informações de seu Benedito, realmente obedecendo
a seu Benedito. Que diabo me fariam? Imaginei um desacato, tiros ou facadas, em
hora de movimento, no relógio oficial.
Foi o que imaginei: uma
agressão pública, muitos integralistas atacando-me, furando-me, partindo-me as
costelas, os braços e a cabeça. Recolhi-me.
Na casinha de Pajuçara
fiquei até a madrugada consertando as últimas páginas do romance. Os consertos
não me satisfaziam: indispensável recopiar tudo, suprimir as repetições
excessivas. Alguns capítulos não me pareciam muito ruins, e isto fazia que os
defeitos medonhos avultassem. O meu Luís da Silva era uma falastrão, vivia a
badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte. Aquele
assassinato, realizado em vinte e sete dias de esforço, com razoável gasto de
café e aguardente, dava-me impressão de falsidade. Realmente eu era um
assassino bem chinfrim. O delírio final se atamancara numa noite, e fervilhava
de redundâncias.
Minha mulher vivia a
atenazar-me com uma ciumeira incrível, absolutamente desarrazoada. Eu devia
enganá-la e vingar-me, se tivesse jeito para essas coisas. Agora, com a
demissão, as contendas iriam acirrar-se, enfurecer-me, cegar-me, inutilizar-me
dias inteiros, deixar-me apático e vazio, aborrecendo o manuscrito. Largara-o
duas vezes, estivera um ano sem vê-lo, machucara folhas e rasgara folhas.
Graciliano entregou os originais de Angústia para a datilógrafa. Luccarini veio adverti-lo de que seria
preso, convinha fugir dali. Tomou a decisão de esperar pela prisão:
No dia seguinte, 3 de
março, entreguei pela manhã os originais a d. Jeni, datilógrafa. Ao meio-dia
uma parenta me visitou – e este caso insignificante exerceu grande influência
na minha vida, talvez haja desviado o curso dela. Essa pessoa indiscreta deu-me
conselhos e aludiu a crimes vários praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que
me denunciasse, caso ainda não o tivesse feito[484].
A criatura respondeu-me com quatro pedras na mão e retirou-se. Minha mulher deu
razão a ela e conseguiu arrastar-me a um dos acessos de desespero que ultimamente
se amiudavam. Como era possível trabalhar em semelhante inferno? Nesse ponto
surgiu Luccarini. Entrou sem pedir licença, atarantado, cochichou rapidamente
que iam prender-me e era urgente afastar-me de casa, recebeu um abraço e saiu.
Ótimo. Num instante
decidi-me. Não me arredaria, esperaria tranquilo que me viessem buscar. Se
quisesse andar alguns metros, chegaria à praia, esconder-me-ia por detrás de
uma duna, lá ficaria em segurança. Se me resolvesse a tomar o bonde, iria até o
fim da linha, saltaria em Bebedouro, passaria o resto do dia a percorrer
aqueles lugares que examinei para escrever o antepenúltimo capítulo do romance.
Não valia a pena. Expliquei em voz alta que não valia a pena. Entrei na sala de
jantar, abri uma garrafa de aguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices,
a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara. Propriamente não era
monólogo: minha mulher replicava com estridência. Escapava-me a significação da
réplica, mas a voz aguda me endoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheço pior
tortura que ouvir gritos. Devia existir uma razão econômica para esse
desconchavo: as minhas finanças equilibravam-se com dificuldade, evitávamos
reuniões, festas, passeios. De fato as privações não me inquietavam. Minha
mulher, porém, sentia-se lesada, o que me fazia perder os estribos.
Se a vida comum era ruim,
essa que Luccarini me oferecera num sussurro, a tremura e a humilhação
constante, dava engulhos. Além disso eu estava curioso de saber a arguição que
armariam contra mim. Bebendo aguardente, imaginava a cara de um juiz,
entretinha-me em longo diálogo, e saía-me, perfeitamente, como sucede em todas
as conversas interiores que arquiteto.
Graciliano lembra o Luís da Silva de “entre grades”:
A cadeia era o único
lugar que me proporcionaria o mínimo de tranquilidade necessária para corrigir
o livro. O meu protagonista se enleara nesta obsessão: escrever um romance além
das grades úmidas e pretas.
Demais estaria eu certo
de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas
ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes,
únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as
opiniões de Jacob. Isso constituiria um libelo mesquinho, que testemunhas
falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me contra os depoimentos
venenosos? De forma nenhuma. Não há nada mais precário que a justiça. E se
quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade
matéria para condenação. Não me repugnava a idéia de fuzilar um proprietário
por ser proprietário. Era razoável que a propriedade me castigasse as
intenções.
Recebeu a visita digna da professora Irene:
D. Irene, diretora de um
grupo escolar vizinho, apareceu à tarde. Envergonhei-me de tocar na demissão, e
falamos sobre assuntos diversos. Aí, me chegaram dois telegramas. Um encerrava
insultos; no outro, certo candidato prejudicado felicitava a instrução alagoana
pelo meu afastamento. Rasguei os papéis, disposto a esquecê-los. Sumiram-se na
verdade os nomes dos signatários e as expressões injuriosas, ter-se-ia talvez a
pequena infâmia esvaído inteiramente se não contrastasse com a presença de d.
Irene ali na sala. O que me interessava no momento era o esforço despendido por
ela em três anos. Talvez isso houvesse concorrido para embranquecer-lhe os
cabelos, dar-lhe aquela gravidade atenta. Não sorria nunca. E sob o penteado
grisalho o rosto moço tinha uma beleza fria. No estabelecimento dela
espalhavam-se a princípio duzentos e poucos meninos, das famílias mais arrumadas
de Pajuçara. Numa campanha de quinze dias, por becos, ruelas, cabanas de
pescadores, d. Irene enchera a escola. Aumentado o material, divididas as aulas
em dois turnos, mais de oitocentas crianças haviam superlotado o prédio,
exibindo farrapos, arrastando tamancos.
Calçados e vestidos pela
caixa escolar, os garotos se haviam apresentado com decência. Lembrava-me da
lufa-lufa necessária para modificá-los, ria-me pensando em Flora Ferraz sentada
no chão, às oito horas da noite, a experimentar sapatos em negrinhos. Avizinhando-me
dela, repelira-me com raiva:
– O senhor tem coragem de
me dar a mão? Estou suja. Desde a manhã aqui pegando os pés destes moleques!
Quatro dessas
criaturinhas arrebanhadas nesse tempo, beiçudas e retintas, haviam obtido as
melhores notas nos últimos exames.
– Que nos dirão os
racistas, d. Irene?
Veio para prendê-lo um tenente espevitado saboreando com bafios de
vingança um caso antecedente:
Afinal, cerca de sete
horas, um automóvel deslizou na areia, deteve-se à porta – e um oficial do
exército, espigado, escuro, cafuz ou mulato, entrou na sala.
– Que demora, tenente!
Desde o meio-dia estou à sua espera.
– Não é possível, objetou
o rapaz empertigando-se.
– Como não? Está aqui a
valise pronta, não falta nada.
O sujeitinho deu um passo
à retaguarda, fez meia-volta, aprumou-se, encarou-me. Tinha-lhe observado esse
curioso sestro um mês antes, na repartição, onde me surgira pleiteando a
aprovação de uma sobrinha reprovada. Eu lhe mostrara um ofício em que a
diretora do Grupo Escolar de Penedo contava direito aquele negócio: a absurda
pretensão de se nomear para uma aluna banca especial fora de tempo.
– Impossível, tenente.
Isso é antirregulamentar. Demais, se a garota não conseguiu aprender num ano,
certamente não foi recuperar em dias o tempo perdido. Sua sobrinha não é nenhum
gênio, suponho.
O tenente recuara, rodara
sobre os calcanhares, perfilara-se em atitude perfeitamente militar e replicara
com absoluta impudência:
– É o que ela é. Um
gênio. Posso afirmar-lhe que é gênio.
Agora, finda a pirueta,
olhando a valise, prova de que não haviam sabido guardar segredo, encolheu os
ombros, sorriu, excessivamente gentil:
– Vai apenas essa maleta?
Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.
– Obrigado, tenente.
Comecei a perceber que as
minhas prerrogativas bestas de pequeno-burguês iam cessar, ou tinham cessado.
Saímos da sala e entramos
no automóvel, um grande carro oficial.[485]
Em 4 de março, o Diário da Manhã[486],
Recife, informava na primeira página, sob o título “A repressão ao comunismo,
em Alagoas”, que um oficial havia sido excluído da Força Pública, o capitão
Francisco Alves Mata e “vinte extremistas remetidos para Recife”, citando,
entre outros, o médico Sebastião Hora e o advogado Antonio Leite. Em subtítulo
destacado, finalizava: “Exonerado da Diretoria da Instrução o sr. Graciliano
Ramos”.
No dia 5 de março, o Diário de
Pernambuco[487], publicou a nota: “Seguiram presos para
o Recife o sr. Graciliano Ramos e o ex-capitão Alves Mata”.
O texto de A Nação, 11-03-1936,
foi explicitamente sórdido: sob a foto de Graciliano, explicou na legenda: ”Sr.
Graciliano Ramos, que, diretor da Instrução em Alagoas, é extremista
declarado”. E, em meio à louvação das medidas enérgicas do general Newton
Cavalcanti no combate ao comunismo, detalhou:
E tomando providências
contra os que queriam subverter o regime do país, prendeu também o sr.
Graciliano Ramos, diretor da Instrução, fazendo-o transportar para Recife.
O sr. Graciliano Ramos,
autor de um livro inconveniente às meninas alagoanas, já se vinha tornando
intolerável pela perseguição às professoras que não seguiam o credo vermelho e
pela liberdade com que agia a favor do comunismo.
As providências tomadas
pelo general Newton Cavalcanti causaram a melhor impressão em Alagoas.[488]
Em notícia com a manchete “Chegaram do Norte 116 comunistas implicados
no levante de novembro” e o subtítulo “Os dez vermelhos de Alagoas”, O Jornal, 15-03-1936[[489]],
apresentou o seguinte texto:
Chegaram também pelo
“Manaus” os principais elementos comunistas que em Alagoas perturbaram a ordem
daquele industrioso estado brasileiro.
Esses srs. foram presos
quando fracassou o movimento, sendo considerados inocentes pelo juiz federal
Alpheu Rosas. Já se encontravam soltos, quando o general Newton Cavalcanti
ordenou a prisão deles e os enviou para o Rio. São os seguintes: Manoel Brasil,
Antonio Soares Filho, Pedro Mendonça, Abdias Martins, Maria Joana, cabo Vicente
Ribeiro Carvalho, capitão Francisco Alves Mata, drs. Graciliano Ramos,
Sebastião Hora e Epifânio Guilhermino.
PARA A POLÍCIA CENTRAL
Esses presos foram logo
ao desembarcar nas Docas do Lloyd conduzidos para a Polícia Central, em ônibus
da Light que ali os esperavam.
1936-1953 – Rio de
Janeiro
Preso durante dez meses e dez dias, de 03-03-1936 a 13-01-1937, ao
sair da prisão, Graciliano permaneceu no Rio de Janeiro[490],
onde dez anos depois retomaria[491]
lenta e continuamente, de 1946 até pouco antes de sua morte em 1953, a
elaboração de Memórias do cárcere[492] – um retrato preciso e realista dessa experiência
kafkiana. Inicialmente publicada em quatro volumes, meses depois de sua morte,
a obra ficou sem a finalização, que o autor deixou simbolicamente em aberto.
Contém quatro partes: “Viagens”, “Pavilhão dos Primários”, “Colônia
Correcional” e “Casa de Correção”, núcleos das várias prisões por que passou.
Sobre a demora na escrita da obra, Graciliano diz nas primeiras linhas
de Memórias do cárcere:
Restar-me-ia alegar que o
DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me impediram o trabalho.
Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte.
Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses
autos-de-fé. Em geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras
de ordem, tiradas demagógicas, e disto escasso prejuízo veio à produção
literária.
Certos escritores se
desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade –
talvez ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa
ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a
Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos
coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível
acharmos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes
com louvores dos sustentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o
nosso pequenino fascismo tupinambá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio
de autoridade e, quando formos verazes, ninguém nos dará crédito. De fato ele
não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos a esse
exercício.
Quem dormiu no chão deve
lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em
tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita:
inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.[493]
Viagens
Chegamos ao quartel do
20º Batalhão.
Evidentemente as minhas
reflexões tendiam a justificar a inércia, a facilidade com que me deixara
agarrar. Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido
uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a ideia de
não pertencer a nenhuma organização, de ser inteiramente incapaz de realizar
tarefas práticas.
Sentado na cama, o chapéu
em cima da valise, abri com o pente as páginas dos três volumes que trouxera: Território Humano de José Geraldo
Vieira, Gente Nova de Agrippino
Grieco e Dois Poetas de Otávio de
Faria. Li a primeira folha do primeiro umas três vezes, inutilmente.
Disse-me que tinha ordem
de levar-me ao Recife e perguntou-me se queria um carro.
Senti-me lesado, mas
respondi afirmativamente – e foi esta a
última relação que tive com os poderes públicos de Alagoas.
Ao sentar-me, descobri minha mulher na lufa-lufa dos
passageiros. Vinha pálida e chorava aquele choro fácil, sereno, que não lhe
contrai um músculo, choro superficial, tão diferente dos meus: arrancos
interiores, repuxos medonhos no diafragma, ordinariamente sem lágrimas. Diante
do rosto molhado e calmo, as desavenças esmoreceram.
Arrependia-me vagamente de asperezas e
injustiças, ao mesmo tempo supunha-me fraco, a escorregar em condescendências
inúteis, e queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que
faço quando emendo um período – riscar, engrossar os riscos e
transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de
ideias obliteradas. Aquela viagem era uma dádiva imprevista.
Iria qualquer informação doida transformar-me em
delator, levar à cadeia rapazes inofensivos que tencionavam eliminar a
burguesia distribuindo às escondidas nos cafés papéis mimeografados? Um deles,
Jacob, figurava no meu último livro, com o nome de Moisés.
E meus filhos mais velhos, da Juventude
Comunista, pichadores de paredes, provavelmente andavam perseguidos, a
esconder-se.
Apavorava-me supor que uma indiscrição minha
poderia fornecer aos carcereiros uma pista.
Levantava-me quando entrou um moço grave, de
olhos vivos ligeiramente estrábicos, fumando por uma longa piteira.
– Capitão Lobo.
– Respeito as suas ideias. Não concordo com elas,
mas respeito-as.
As lembranças me apareciam juntas, confusas,
sumiam-se de repente, deixando-me no interior dolorosos sulcos negros.
Um fato nesse dia 6
abalou-me, o único de que tenho lembrança clara. A hora do café abri um jornal
do Recife e li, em telegrama do Rio, a notícia arrasadora: Prestes havia sido
preso na véspera.
Eu não tinha opinião
firme a respeito desse homem. Acompanhara-o de longe em 1924, informara-me da
viagem romântica pelo interior, daquele grande sonho, aparentemente frustrado.
Era como se
percebêssemos na sombra um deslizar de fantasma ou sonâmbulo. Mas essa estranha
figura de apóstolo disponível tinha os olhos muito abertos, examinava
cuidadosamente a vida miserável das nossas populações rurais, ignorada pelos
estadistas capengas que nos dominavam.
Que significava
aquilo? Um protesto, nada mais. Se por milagre a coluna alcançasse vitória,
seria um desastre, pois nem ela própria sabia o que desejava.
– Não
lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo[494],
adivinhando-me talvez o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem.
Estou facilitando-lhe um empréstimo.
Foi pouco mais ou
menos o que ele me disse. Tornei a agradecer e a recusar, as orelhas em fogo,
na tremenda confusão que me causava a enorme surpresa.
Insensatez. Tinham-nos
jogado para o norte; de repente, sem razão concebível, atiravam-nos em sentido
contrário.
Ausência de
interrogatório, nenhum vestígio de processos.
Alcançamos o porto,
descemos, segurando maletas e pacotes, alinhamo-nos e, entre filas de guardas,
invadimos um navio atracado, percorremos o convés, chegamos ao escotilhão da
popa, mergulhamos numa escadinha. Tinha-me atarantado e era o último da fila.
Ao pisar o primeiro degrau, senti um objeto roçar-me as costas: voltei-me, dei
de cara com um negro fornido que me dirigia uma pistola para-bellum. Busquei
evitar o contato, desviei-me; o tipo avançou a arma, encostou-me ao peito o
cano longo, o dedo no gatilho.[495]
Viajávamos no Manaus, um calhambeque muito vagabundo.
Naquela manhã chegamos a Maceió. Examinei atentamente, por uma vigia, a praia
de Pajuçara, tentei localizar a casa onde morei. Que estariam fazendo as
crianças?
Não era, com precisão,
calor: era abafamento. Insuficiência de ar para tantos pulmões. Os grupos
arquejavam, tossiam, engrossavam debaixo da escotilha. Metido na roupa leve,
mexia-me devagar, cautelosamente. Não me arriscaria a calçar chinelos:
conservava os sapatos, e, embora tivesse os pés resguardados, repugnava-me em
certos pontos encostar as solas na tábua: andava sobre os calcanhares, banzeiro
como um papagaio, receoso de pisar nas imundícies, cada vez mais abundantes. As
cascas de frutas, restos de comida, detritos de toda espécie, aumentavam.
Aquela gente escarrava no chão, vomitava no chão; a um canto, perto da escada,
havia sempre alguns indivíduos de costas, molhando a parede; corria desse
mictório improvisado um filete que desaguava no charco movediço.
Aí nos fizeram entrar em
diversos ônibus grandes, as aberturas laterais guarnecidas por longas hastes
paralelas de metal branco.
Apesar da confusão, devia
aparentar calma, pois o carcereiro me indicou, largou uma frase que me feriu
como chicotada:
– Este parece um cadeeiro
velho. Estremeci:
– Hem?
– Entra como se estivesse
em sua casa.
Avizinhei-me de um guarda
velho, que se dispunha a conduzir-nos:
– Faz favor de me dizer
para onde vamos?
– Pavilhão dos Primários,
informou o sujeito.
– Melhor ou pior que isto
aqui?
– Melhor, melhor. Vivem
lá cantando e berrando como uns doidos.
Pavilhão dos Primários
Avançamos entre duas
filas de homens que, de punhos erguidos, se puseram a cantar, na música do Hino
Nacional:
Do norte, das florestas amazônicas,
Ao sul, onde a coxilha a vista encanta,
A terra brasileira, à luz dos trópicos...
Um sujeito moreno, de
cabeleira anelada, perguntou:
– Qual é deles?
Outro, peludo, baixo,
indicou-me erguendo o braço.
– Será realmente
impossível achar água? Estou imundo. Faz uma semana que não me lavo.
Renato cortou a
dificuldade. A um canto, disfarçando a latrina, havia um guarda-vento.
Colocou-o diante da pia, agarrou um caneco:
– Dispa-se.
Nem me deu tempo de
recusar. Minutos depois achava-me coberto de espuma a receber açoites líquidos
em todo o corpo. Enxuguei-me com a toalhinha de rosto, encabulado por incomodar
o solícito homem, que passava a borracha no chão molhado. Restava-me um pijama
limpo.
– Sérgio de quê?
perguntei. Qual é o seu sobrenome? – Isto é pseudônimo. Eu me chamo Rafael
Kamprad[496].
– Alemão? Pelo jeito de falar, parece alemão.
– Russo, do Cáucaso.
Previdente, desviara de
casa objetos nocivos, confiara a um aluno cartas de Trotski, mas com tanta
infelicidade que num instante haviam caído os papéis nas mãos da polícia.
E haviam-lhe deformado os
pés na tortura. Rafael Kamprad, ou Sérgio, contava-me isso com um sorriso
plácido.
O rapaz simpático e
franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.
– Italiano?
– Argentino. Secretário
do Partido Comunista Argentino.
Sim senhor, achava-me
entre indivíduos importantes, que me espicaçavam a curiosidade.
Estremeci ouvindo perto
um canto de galo. Quem teria metido ali o animal?
Lá em cima, um sujeito de
bugalhos imóveis e expressão lorpa estirava o pescoço e esgoelava-se daquele
modo.
– Idiota! bradaram
furiosamente na vizinhança.
– Alô! alô! Fala a Rádio
Libertadora.
Não era apenas um
divertimento arranjado com o fim de matar tempo e elevar o ânimo dos presos:
vieram notícias de jornais, comentários, acerbas críticas ao governo, trechos
de livros, o Hino do Brasileiro Pobre,
algumas canções bastante patrióticas, sambas.
– A Beatriz não vai
querer cantar? disse alguém.
Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino. Palmas, aclamações,
gritos exigindo o canto de Beatriz Bandeira. Um sussurro doce flutuou longe:
As granadas vêm caindo,
Incendiando o meu quartel
Chamaram-me da porta: uma
das mulheres recolhidas à sala 4 desejava falar comigo. Estranhei. Quem seria?
O rosto moço revelava
fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a
Maceió, apresentou-se:
– Nise da Silveira.[497]
Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que
senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da
profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta
e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida,
sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço.
De pijama, sem sapatos,
seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão
muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos
enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou
imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver
convidado para deixar-me assim confuso.
Despedi-me de Nise e
desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos: quem seria a criatura
feminina de pulmões tão rijos e garganta macha? Nenhum interesse me animava a
descobrir isso; refugiei-me na questão para fugir à lembrança de me haver
conservado inerte e frio diante da psiquiatra. Foi Valdemar Bessa quem me
satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma
dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Elisa Berger, Cármen Ghioldi, Maria
Werneck, Rosa Meireles, outras.[498]
Segunda-feira pela manhã vieram
chamar-me à secretaria.
De longe, num dos bancos
largos, conhecidos no dia da inquirição enfadonha, bocejada, avistei minha
mulher a renovar o choro manso, tranquilo, da silenciosa despedida, na estação
da Great Western.
Mocinha exígua, criada em
rua modesta de capital vagabunda, com certeza se atarantava na cidade grande,
encolhia-se muda. Enganei-me. Estancado o pranto leve, enxutos os olhos, fez um
resumo dos seus atos, na aparência convicta de uma aprovação que não existia em
mim.
Desconhecida e
insignificante, iniciara em seu favor um trabalho de aranha, estendendo fios em
várias direções, e ainda hoje não sei se a impelia o desejo de me ser útil ou o
prazer de mexer-se, avançar, recuar, preparando a sua teia. Hospedara-se em
casa de uns tios, no Méier. Estivera no Ministério da Guerra, no Ministério da
Justiça, no Palácio do Catete, na Chefatura de Polícia, falara a deputados e a
generais, largava rápido a língua do nordeste e começava a adotar uma gíria
burocrática singular, enganando-se às vezes no sentido de algumas expressões.
Estabelecera rapidamente comunicação com a família de José Lins. Entendera-se
com José Olímpio e combinara com ele mandar buscar por via aérea uma das cópias
do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.
Naquele
dia a comida veio muito ruim, de aspecto mais desagradável que o ordinário.
Cheguei-me à porta, vi a
pequena distância Agildo Barata no passadiço, junto aos varões do parapeito,
formulando uma arenga bastante arrepiada. A voz álgida não se detinha,
derramava-se num fio invariável. Escutando-o, às vezes me assaltava a doida
impressão de que o regato sonoro deixava de correr, era gelo cheio de arestas
cortantes, onde se assanhavam aranhas caranguejeiras e outros viventes da
umidade. Também me vinha à ideia um miar de gato comedido, vagaroso, a esconder
mal as garras. Esses disparates – água tranquila, gelo, caranguejeiras, gatos –
associavam-se, emprestando a Agildo uma personalidade estranha, complexa em
demasia.
Por esse tempo caiu-me
entre as unhas um jornaleco ordinário, e surpreendeu-me ver nele o meu retrato,
miudinho, numa coluna, encimando esta legenda fera, em grifo: o bagunceiro de Alagoas.
Um desordeiro, a prisão
era justa.
E como diabo tinham
descoberto aquela fotografia? Escarafunchei a memória, lembrei-me de que, meses
atrás, a indignada folha me estampara a carranca noticiando o aparecimento de
um livro, com abundância de elogios chinfrins.
Colônia Correcional[499]
Era o Pavilhão dos
Militares. O chão liso, as paredes nuas valorizavam demais o conforto escasso
perdido uma hora antes: o colchão magro, a cama dura, o guarda-vento. Iríamos
para a Colônia?
Gritos nos deram a
notícia de que uma turma viera dias antes da Colônia e estava ali perto.
As figuras estranhas
apinhadas ali riam. Riam para mim, como se eu fosse uma carcaça também. Quantos
meses fazia que tinham vivido comigo no Pavilhão dos Primários? Dois meses.
Farrapos. Regressavam da
Colônia, farrapos.
Aquele devia ser o Newton
Freitas[500],
o camarada alegre e ruidoso que no Pavilhão soltava risadas enormes, com ou sem
propósito.
Despertaram-nos antes de
amanhecer, ordenaram que nos vestíssemos sem rumor.
Um tintureiro nos
aguardava na rua, abriu-se para receber-nos. Ignoro como entrei, acho que subi
por uma pequena escada.
O trem parou, desembarcamos
em Mangaratiba.
Faltavam-me cigarros.
Procurei auxílio,
enxerguei perto um soldado negro, dirigi-me a ele.
Dei-lhe vinte mil-réis,
fiquei olhando algumas senhoras que desciam do trem, da primeira classe,
ingressavam no embarcadouro, em companhia de um sujeito magro, baixo, de cara
chupada. Alguém me disse que o tipo se chamava Sardinha, era médico e mandava
provisoriamente na Colônia Correcional de Dois Rios.
E se uma daquelas
senhoras quisesse mijar? Esse pensamento burlesco um minuto me agravou os
arranhões da goela, o desejo de rir. Nenhum motivo para acanharem-se, mijariam
facilmente na rede de Macedo, no capote do Zoppo, na minha valise.
Retirei da valise a
calça do pijama e introduzi no cós dela o dinheiro de papel que me restava;
deixei no porta-níqueis uma cédula de cinquenta mil-réis.
Entre as perneiras dos
soldados, vi o mundo lá fora, o sol, água, ilhas, montes,
uma
terra próxima a alargar-se.
– Obrigado, sargento.
Não é necessário o cavalo. Vou a pé.
Voltou-se para os dois
policiais:
– Este senhor está
doente, não pode acompanhar os outros. Andem muito devagar com ele, parando
para descansar.
– Aquilo é horrível,
hem, sargento? Alongou o beiço grosso, resmungou: – Não.
Para o senhor, não. – Em
qualquer parte o senhor está em casa.
No fim da tarde
alcançamos um pátio branco. Ao fundo, enorme galpão fechado, e junto a ele
cercas de arame, certamente o curral onde nos confinariam.
O cheiro de carniça
invadiu-me os gorgomilos, trouxe-me enjoo, lágrimas, embrulho no estômago.
Nos arredores vultos indecisos,
provavelmente os meus vizinhos da lancha, do carro de segunda classe, do
tintureiro, matavam a fome.
– Coma.
Apesar da recusa, a
criatura afável, isenta de fisionomia, continuava a embalar-me com a oferta
vagarosa, insistência mole, gorda e úmida.
Nunca imaginara que um
homem se dirigisse a outro daquele jeito: desvelo excessivo, uma ternura
flácida e trêmula.
E o barbeiro iniciou a
tarefa, meteu-me nos cabelos uma pequena máquina cega. Verboso, prosseguia nas
justificações, pensando causar-me dano; carrasco amável, queria harmonizar-se
com a vítima.
Joguei fora a ponta do
cigarro, os homens se lançaram sobre ela, empurrando-se. Levantaram-se. A ponta
do cigarro tinha desaparecido.
Não me comportava de
maneira conveniente: a postura e a linguagem violavam as normas. Sem ambages, o
anspeçada Aguiar encarregou-se de me explicar isso. Miúdo e teso, surgiu,
olhou-me duro, resmungou:
– Cruza os braços, chefe.
Surpreendiam-me nelas
dois pormenores: o sujeito usava ironia, chamando-me chefe, e tuteava-me.
Admirou-me a franqueza de
Vanderlino[501]
ao dizer o nome e o ofício da personagem.
– Gaúcho[502],
ladrão, arrombador.
Finda a surpresa,
confessei a mim mesmo que poderia tornar-me sem esforço amigo do ladrão. A
firmeza, a ausência de hipocrisia, a coragem de afirmar, tudo revelava um
caráter.
Despertei, vi a dois
passos um soldado cafuzo a sacudir violentamente o primeiro sujeito da fila
vizinha. Muxicões terríveis. A mão esquerda, segura à roupa de zebra, arrastou
o paciente desconchavado, o punho direito malhou-o com fúria na cara e no
peito.
Um sujeito miúdo,
estrábico e manco a compensar todas as deficiências com uma arenga enérgica, em
termos que me arrisco a reproduzir, sem receio de enganar-me. Um bichinho
aleijado e branco, de farda branca e gorro certinho, redondo.
– Aqui não há direito.
Escutem. Nenhum direito. Quem foi grande esqueça-se disto. Aqui não há grandes.
Tudo igual. Os que têm protetores ficam lá fora. Atenção. Vocês não vêm
corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer.
– Bem. Nós precisamos do
companheiro. Trago-lhe uma tarefa: corrigir isto.
Passei a vista nas
primeiras linhas. Relatório a um deputado, narração minuciosa da Colônia.
Se o queijo ficasse em
meu poder, os ladrões o abafariam; por isso Vanderlino apossou-se dele,
trancou-o na mala e durante algum tempo me submeteu a duas, três rações
diárias, fatias quase transparentes, insignificâncias cortadas a gilete.
O soldado esperava de
mim um obséquio. O diretor da prisão aniversariava no dia seguinte, o pessoal andava a
preparar-lhe uma festa, e Alfeu tinha desejo de fazer um discurso,
representando a polícia.
O medo me envolvera um
infindável minuto, medo horroroso de aguentar coices na barriga e no peito, de
me esconder para arrumar as letras miseráveis.
– E então? Ponha-se no
meu lugar. Se você estivesse aqui preso e soubesse escrever, fazia esse
discurso?
– Não fazia, murmurou o
soldado.
– Está aí. Você mesmo
reconhece. É impossível. Agora o rosto de Alfeu manifestava confusão e desassossego.
Tive pena do pobre selvagem que me inspirara tanto horror, precisei dizer ainda
uma palavra, dissipar nuvens:
– Fica zangado comigo,
Alfeu? Ergueu os olhos, quase doces:
– Não,
não fico, o senhor tem razão.
Mas Leal não tinha o
sossego, a conversa amável de seu Mota. Andava irritado, sombrio, num desespero
mudo contínuo. Um dia essa mudez se quebrou e o infeliz, de volta do trabalho,
suado, coberto de pó vermelho, dirigiu-se a mim, ríspido:
– Porque
é que estou preso? Hem? Diga.
– Que
é que você quer que lhe diga? Sei lá! Nem sei porque estou preso.
O meu antigo camarada
engasgou-se, esteve um minuto a examinar-me com espanto e censura. Tomou
fôlego, e, de supetão:
– Você? Ora essa! Está
preso porque é comunista. Sempre foi.
Declarou isso aos berros,
sem ligar importância aos guardas e à polícia.
– Desde menino. Sempre
foi. Ainda usava calças curtas e já lia essas coisas no balcão de seu pai[503].
Mas eu? Que foi que eu fiz para estar aqui? Hem? Explique.
– Paraíba[504],
disse o negro, aqui seu Fulano vai escrever uma história e vem pedir a você
algumas informações. Diabo. A notícia do livro chegara a Cubano, talvez à
polícia; não me deixariam salvar as notas guardadas na valise.
– Sim, coisas de
vigarismo. Diga como é que você trabalha.
Organizaram-se as
filas, o reverendo surgiu com o tenente Bicicleta, o oficial de beiço rachado,
passeou algum tempo a examinar-nos, depois de colocar-se junto à grade,
risonho, esfregando as mãos, um brilho de contentamento nos olhos.
Larguei um disparate
cabeludo, o moço perdeu os estribos e pôs-se a rir. O pregador interrompeu-se,
o oficial de beiço rachado fez um gesto, o rapaz saiu da fileira, avizinhou-se
da grade e foi submetido a um ligeiro interrogatório.
Estremeci. Por minha
causa o pobre ia ficar às escuras, receber um pires de feijão por dia, sem
conseguir estirar-se no cubículo molhado e exíguo, de um metro e pouco.
O meu companheiro,
homem robusto, poderia aguentar-se ali uma semana; depois recobraria as forças.
Não me seria possível resistir.
Com efeito, lá dentro
os melindres de consciência embotam-se, alteram-se os valores morais – e
o nosso dever principal é existir.
Cubano[505]
bateu palmas à hora do almoço e os homens se alinharam.
– Perdoe-me. Eu não
posso deixar o senhor morrer de fome. Vai à força.
E agarrou-se comigo,
em luta desigual, absurda.
Um murro me lançaria
ao chão. Tive consciência disso, percebi que o estranho adversário me poupava e
limitei-me a fugir às mãos ásperas, aos dedos de ferro. À enorme cólera
juntou-se uma gratidão insensata.
Logo reconheci o
médico, o diretor suplente que viajara conosco na lancha, entre senhoras
acomodadas em cadeiras de vime.
O sujeito de
fisionomia cortante, em silêncio, estendeu-me um papel. Li. Era um telegrama
chamando-me com urgência ao Rio.
– Está bem. Quando
viajo? – Amanhã,
com os outros.
– Não
senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional. Duzentas páginas
ou mais.
O médico enterrou-me
os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras. Deu-me as costas e saiu
resmungando:
– A culpa é desses
cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.
Casa de Correção
– Sua mulher esteve aqui
hoje. Vai bem. Eu o esperava desde ontem. Houve atraso. Vou telefonar a ela
marcando uma visita para amanhã. Vai bem. Toda a família vai bem. José Leite e
Amália vão bem.
– Ah! Sou de Alagoas,
nasci em Pilar. Vamos. Pegou-me o braço, levou-me à porta. Essa incrível
familiaridade perturbava-me. Difícil admitir que um instrumento da polícia, só
por ter nascido na minha terra e conhecer parentes de minha mulher, procedesse
de tal jeito.[506]
– Que vagabundo
monstruoso! Estava medonho. Magro, barbado, covas no rosto cheio de pregas, os
olhos duros encovados. Demorei-me um pouco diante do espelho. Não podia ver-me
na Colônia, de nenhum modo avaliava os estragos, a medonha devastação.
Vendo alguns
indivíduos afastarem-se com toalhas, acompanhei-os, desci a escada. Lá embaixo,
como na véspera, achei as grades abertas e sem vigilância.
Ao fundo, Apporelly
arrumava cartas sobre uma pequena mesa redonda, entranhado numa infindável
paciência. Avizinhei-me dele, pedi notícias do livro que me anunciara meses
antes: a biografia do Barão de Itararé.
A narrativa ainda não
começara, as glórias do senhor barão conservavam-se espalhadas no jornal. Lamentei
aquele desperdício de tempo, embora também me achasse inútil, ocioso: quase um
ano a jogar poker e xadrez, matar percevejos, ouvir hinos e discursos.
Minha mulher, à porta, recebeu-me com
espanto: – Como
está magro! Porque raspou a cabeça?
Aí a criatura me
forneceu novidades, esforçando-se por desviar coisas desagradáveis.
Inteirando-se da minha
viagem para a Colônia, ficara satisfeita: ao menos lá, supunha, não me seria
difícil encontrar mulheres.
Ciumenta em excesso,
minha companheira achava natural que, depois de longa abstinência, me
encostasse a fêmeas ordinárias. Essas não lhe faziam mossa. Tinha horror às
senhoras educadas e inteligentes. O ciúme dela não era, por assim dizer,
físico: era mental. Abandonou o assunto maluco e entregou-me cem mil-réis que
recebera de uma revista argentina. A publicação do conto enviado a Benjamín de
Garay[507]
rendera vinte e cinco pesos.
Enfim a necessidade
urgente de escrever dois contos: pegar de qualquer jeito o relógio do hospital
e Paulo[508].
Seriam contos? Não sei fazer contos: precisava livrar-me daquilo, afastar o
hospital e dormir.
A novela de Amadeu
Amaral Júnior deixou-me em horrível constrangimento. Vazia e de vacuidade
contagiosa. A minha frieza levou o rapaz à cólera. Já se havia comportado assim
no Pavilhão, ao mostrar-me o conto.
Walter Pompeu
cortou-me o almoço e o jantar. Sentava-se à minha direita, na primeira mesa. E,
percebendo o horror que me inspira o homossexualismo, iniciou um jogo desonesto
no refeitório.
Agradava-me escutar os
gracejos de Apporelly, fragmentos das viagens longas do bacharel feroz,
projetos literários de Hermes Lima. Também me dava prazer a fala engrolada,
rápida, baixa, de Gikovate.
A palestra do judeu
proporcionou-me censuras; notei em redor frieza e hostilidade, enfim percebi
que me consideravam trotskista.
A vaidade imensa de
Trotski me enjoava; o terceiro volume da autobiografia dele me deixara
impressão lastimosa. Pimponice, egocentrismo, desonestidade. Mas isso não era
razão para inimizar-me com pessoas que enxergavam qualidades boas no político
malandro.
– Vou arranjar-lhe um
bom lugar para escrever em sossego, disse-me o diretor uma noite. Aqui você não
melhora. É necessário tratar-se.
No dia seguinte,
depois do café, levaram-me à enfermaria, recinto acanhado, onde cubículos
formavam círculo em torno do banheiro, ordinariamente sem água, como notei
depois.
O último cubículo, junto à porta do fundo, se
abriu; Nise da Silveira e Eneida, minhas conhecidas da
sala quatro, saíram. Um minuto depois, abancados à mesa, resvalávamos em
camaradagem a narrar os nossos achaques.
– É rigorosamente
proibido juntar homens com mulheres. E eu pus essas duas moças aqui. Tive
confiança em você. – Muito obrigado.
– Vai-me fazer uma
promessa.
E largou dois
palavrões obscenos. Dei uma gargalhada. Em linguagem correta, ele desejava que
as minhas companheiras não inspirassem nenhum desejo.
– Isso é um disparate,
major. Prometo não realizar o ato. Mas não sentir desejo? O senhor é bem
exigente.
Tinham-me dito dela,
anos atrás: mulher de grande inteligência e grande caráter. Renovei a frase,
mencionando o autor.
– Lamento isso, murmurou
Nise com ar arrepiado. – Por quê?
– Porque tenho dessa
criatura uma opinião muito diferente. Não acho nenhum caráter nela.
Enfim o romance
encrencado veio a lume, brochura feia de capa azul[509].
A tiragem, de dois milheiros, rendia-me um conto e quatrocentos e esta ninharia
ainda significava para mim grande vantagem. Minha mulher apareceu com alguns
volumes. Guardei um e distribuí o resto na enfermaria e na Sala da Capela, mas
logo me arrependi desses oferecimentos. A leitura me revelou coisas medonhas,
pontuação errada, lacunas, trocas horríveis de palavras. A datilógrafa, o
linotipista e o revisor tinham feito no livro sérios estragos. Onde eu
escrevera opinião pública havia polícia; remorsos em vez
de rumores. Um desastre.[510]
Nise interrompia o crapaud,
esforçava-se por mostrar na minha narração capenga belezas que eu nem de longe
percebia. Certa manhã Eneida saiu do cubículo e avizinhou-se de mim, pálida, os
olhos fundos:
– Li o teu romance de cabo
a rabo, e não dormi um instante, apanhei uma insônia dos diabos. Pavoroso!
Arriscara-me a fixar a
decadência da família rural, a ruína da burguesia, a imprensa corrupta, a
malandragem política, e atrevera-me a estudar a loucura e o crime. Ninguém tratava
disso, referiam-se a um drama sentimental e besta em cidade pequena.
Um era insensato. Dedicava-me alguns elogios sem pé nem cabeça,
punha-me de lado e atacava furioso um escritor que nenhuma relação tinha
comigo. Outro me declarava autor de um formoso romance[511].
Ao ler isso, escondi a folha debaixo do colchão e deitei-me, a estalar de
raiva.
– Vá tomar banho e
mudar a roupa, disse-me Eneida. Você não vai receber sua mulher assim vestido
em pijama. O diretor me anunciara na véspera uma visita para aquela manhã.
A cama, pouco antes em
desordem, estava refeita; desaparecera a confusão de jornais velhos, papéis e
livros deixados pelos cantos; e a mesinha se enfeitava com vasos de flores.
A minha surpresa
aumentou quando me deram esclarecimento: ia haver uma espécie de festa em honra
do livro infeliz.
Ao sair da cela,
encontrei minha mulher, que me ofereceu um pacote cilíndrico e pesado. Tirei os
barbantes, o invólucro de papel escuro, uma delgada pasta de algodão, e
descobri uma garrafa de aguardente.
Uma noite chegaram-nos
gritos medonhos do Pavilhão dos Primários, informações confusas de vozes
numerosas. Aplicando o ouvido, percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam
ser entregues à Gestapo: àquela hora tentavam arrancá-las da sala 4.[512]
À noite, na sala 4,
Elisa despertava banhada num suor de agonia, os olhos espavoridos. A lembrança
dos tormentos não a deixava; um relógio interior indicava o instante exato em
que, meses atrás, a seviciavam na presença de Harry, imóvel, impotente. Olga
Prestes, casada com brasileiro, estava grávida.
A brasa do cigarro a
queimar-me os dedos convencia-me de que não me achava adormecido.
Ideias fúnebres iam,
vinham, engrossavam-me o coração. Miseráveis. O campo sórdido, o opróbrio, a
dor. E depois os fornos crematórios, as câmaras de gases.[513]
Uma noite, depois do
chá, os militares trouxeram para o salão todos os bancos do refeitório.
Num quarto de hora a
prisão se mudou em teatro; íamos assistir a uma comédia. A peça não fora
escrita: examinara-se o assunto nos cubículos, à tarde, e os atores, de
improviso, desenvolveriam em liberdade os seus talentos no decurso da
representação.
Súbito o pano de boca
se descerrou e distinguimos uma caricatura do tribunal que nos chateara uma
semana.
As cortinas
cerraram-se. A plateia ria. Na saleta do café, os guardas riam.
– José Lins[514]
é um maluco. Não escrevo isto. Para que me metem nessa encrenca[515]?
O doutor Sobral Pinto deve ser rico[516],
e eu nem tenho dinheiro para pagar os selos da procuração. Deixem-me em paz.
– Não há processo.
– Dê graças a Deus,
replicou o homem sagaz espetando-me com o olhar duro de gavião. Porque é que o
senhor está preso?
– Sei lá! Nunca me
disseram nada.
– São uns idiotas. Dê
graças a Deus. Se eu fosse chefe de polícia, o senhor estaria aqui regularmente,
com processo.
– Muito bem. Onde é que
o senhor ia achar matéria para isso, doutor?
– Nos seus romances,
homem. Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo.
Na
Casa de Correção Graciliano completou 44 anos de idade, em 27-10-1936.
No
período do lançamento do filme Memórias
do cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, Heloísa Ramos, em entrevista ao Jornal do Brasil, 15-06-1984[[517]],
apresentou três cartas de 1936 que escreveu ao irmão Luiz Augusto de Medeiros.
Seguem trechos – em 6 de julho:
Fui visitar Grace
sexta-feira, que havia chegado da Colônia segunda-feira. Não avalia você o que
ele passou – 11 dias de horror, 3 dias com febre alta, delírio, etc.
Rasparam-lhe a cabeça, se não fosse a febre e a cicatriz da operação que ele
mostrou teria pegado na enxada.
Chegou aqui na Casa de
Correção tão deteriorado que o Agildo Barata o abraçou chorando, passando a mão
na cabeça dele como se fosse uma criança. Achei-o envelhecidíssimo, se bem que
se mostrasse alegre, querendo conversar coisas agradáveis.
Prometeu-me que logo
que se sentisse bem iria escrever um livro sobre o que viu na Colônia cujo
título será Casa dos Mortos Mirins.
Em
25 de julho:
Ontem mesmo pedi a
transferência dele para a enfermaria da Correção. Conforme o seu estado farei
um grande alarme, exigindo das autoridades a transferência dele para uma casa
de saúde particular, alegando que ele apanhou a doença na Colônia devido ao mau
tratamento de lá. Ontem mal podia andar.
Em
1º de setembro:
Há dias saiu o Angústia. Estou aguardando a dedicatória
do Grace para enviar o seu exemplar.
O Angústia saiu com muitos erros como era de se esperar e a não
divisão dos capítulos diminuiu o livro que está sendo vendido ao preço de 7
contos.
Ontem passei a tarde
na Câmara dos Deputados. Fui assistir à aprovação dos Tribunais Especiais. Foi
uma maravilha de cretinice e o projeto passou, é claro.
Ao
sair da prisão em 13-01-1937, Graciliano hospedou-se com Heloísa na casa de
José Lins do Rego, na Rua Alfredo Chaves, Largo dos Leões.[518]
Com
o anúncio de concurso de literatura infantil pelo Ministério de Educação e
Saúde, Graciliano, estimulado a concorrer ao prêmio, dedicou-se à escrita de A terra dos meninos pelados, que lhe
valeu o 3º lugar na categoria intermediária, a de literatura para crianças de
oito a dez anos.[519]
Em fevereiro, no período carnavalesco, Heloísa viajou a Maceió para
desfazer-se dos bens do casal[520]
e trazer as crianças, caso se confirmasse a possibilidade de mudança definitiva
da família para o Rio de Janeiro. Graciliano passou a chamar Ló de “Talima”, a
menina que é apresentada em A terra dos
meninos pelados como “bonita” e “boa”, “meio desparafusada, mas um
coraçãozinho de açúcar”.[521]
Depois que o Itanagé se sumiu, fiquei ainda algum
tempo encostado ao guindaste, meio zonzo.
Defronte do José Olympio
encontrei o Vanderlino e outro cidadão da imprensa. Ficou combinada uma viagem
amanhã à casa do Álvaro Moreyra, onde se almoçará. Marchei para a Galeria
Cruzeiro, mas a travessia foi lenta por causa dos cordões carnavalescos. Horríveis,
horríveis. Num carro, gente miúda e escura, provavelmente a negrada faminta do
morro, ria e dizia para baixo: “Guarde o seu sorriso”. Pensei numa porção de
besteiras e quando dei por mim estava quase gritando: horrível, horrível.
Tomei o bonde, aqui
cheguei às cinco horas e encontrei a casa deserta.
Zé Lins falou-me a
respeito do novo livro que já projeta, mas, vendo-me distraído, calou-se.
Trataremos da Pedra Bonita amanhã ou
depois. O jantar foi uma tristeza.
Cristina veio mostrar-me
a roupa e tentou arranjar-me na cabeça o chapéu da fantasia dela, mas eu tinha
os braços tão pesados que não pude fazer uma carícia à criança. Sinha Maria
trouxe-me uma xícara de café. Zé Lins e Naná saíram para o Copacabana.
Diga a Márcio e a Júnio
que não posso escrever agora a eles. Estou horrivelmente cansado.
Abraços para eles e para
Maria. Conte a Tatá a história dos meninos pelados. Diga-me qual é a opinião
dele. Adeus, Talima. Você é uma santa, você é uma sujeita como há poucas. De
ruim só tem os pés, muito menores que os meus. Os seus sapatos não me servem, o
calcanhar fica de fora. Paciência, não há ninguém perfeito. Só Deus.[522]
Graciliano foi morar numa pensãozinha na Rua Correia Dutra, 164,
dividindo o quarto com um de seus ex-companheiros de prisão, Vanderlino Nunes.
Conviveu com Rubem Braga e conheceu sua jovem companheira Zora Seljan. O casal
também se estabeleceu na pensão de D. Elvira, no Catete[523].
Em 22-03-1937 ele dá notícias sobre o ambiente e o convívio com os amigos:
Fui
algumas vezes à cidade, e o Rubem tem passado as manhãs aqui no meu quarto,
contando gatos.
Na
casa aqui ao lado há mulheres que à noite passeiam nuas. Nunca as vi assim.
Vanderlino passa horas à janela, espiando-as. Nunca as vi assim, mas parece que
há uma bonita e bastante cabeluda. Na casa do outro lado mora uma velha que
sobe uns degraus de cimento coçando o rabo. Vanderlino levanta-se à noite. Às
vezes, vejo-o encostado à janela, olhando mulheres nuas que passam a dois
metros de distância. E Rubem conta gatos pela manhã. Há sempre muitos deles na
coberta de zinco dos barracões.[524]
Desde sua saída da prisão, Graciliano tornou-se um frequentador
assíduo da Livraria José Olympio[525],
um dos núcleos intelectuais mais significativos do país no período[526].
Seu temperamento gregário de interiorano sertanejo destacava-se no convívio com
a intelectualidade, produzindo, graças às suas tiradas de caráter limpo e ao
espírito crítico agudo, um profuso anedotário a seu respeito[527].
Ficou célebre sua presença no fundo da livraria, acomodado no banquinho[528]
de que ele se apossou. Entre muitas novas amizades, aproximou-se de Portinari.
Os dois se tornaram amigos de muita afinidade. Entre os jornalistas que o
abordavam encarniçadamente estavam João Condé, dos “Arquivos Implacáveis”,
sempre saudado com o estribilho “Olá grande reacionário e agente provocador”[529],
e Joel Silveira, o sergipano com quem argumentou que um país só seria grande se
tivesse um golfo e que Sergipe e Alagoas, estados inúteis, desenhavam uma
geografia apropriada para que lá se cavasse o “Golfo das Alagoas” – sugestão de
batismo que causou disputa com indignado protesto bairrista do sergipano. Outra
formulação famosa, também recolhida por Joel Silveira em suas memórias[530],
foi sobre o modo de escrever: “Deve-se escrever da mesma maneira como as
lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício”. Graciliano repassou então todo o
processo de molhar, lavar, torcer, molhar, torcer, passar anil, ensaboar,
enxaguar e concluiu: “Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais
uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota”. “Pois
quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para
enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”.
Durante o carnaval, Aporelly apresentou Oswald de Andrade a Graciliano
Ramos[531].
Oswald comandou uma campanha para que ele se estabelecesse em São Paulo[532].
Logo após o carnaval, Graciliano viajou a São Paulo com José Lins do Rego[533].
A colocação que Oswald de Andrade pretendia conseguir para ele através de
Sérgio Milliet não se concretizou. Graciliano obteve apenas uma combinação à
base de cinquenta mil-réis por unidade pela produção cotidiana de pequenos
artigos para a empresa de notícias I. B. R – Imprensa Brasileira Reunida Ltda.,
que então mobilizava vários literatos, como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, José
Lins do Rego, Jorge de Lima.[534]
Em carta para Ló, 28-02-1937,
Graciliano comentou os antecedentes da viagem a São Paulo:
Comecei a escrever um
conto muito chato, fiz uma carta ao Garay e revi a cópia datilografada dos
meninos pelados, que foram para o Ministério da Educação. Vi lá, num corredor,
o nariz e o beiço caído de s. exa. o sr. Gustavo Capanema. Zélins acha
excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje
e fale com ministros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode
mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro.[535]
Em carta de 08-03-1937[[536]],
para Ló, Graciliano fala da produção de artigos para a I. B. R., comenta seu
convívio com amigos de teatro e a sugestão de Eugênia Moreyra para que ele
escrevesse uma peça teatral:
Anteontem, como
necessitasse dinheiro para pagar a quinzena da pensão, fui ao Observador Econômico, onde me deram cem
mil-réis por aquela miséria que escrevi em casa de Zélins[537].
É um horror, não vale cinco tostões. Em todo o caso recebi o dinheiro, cheio de
remorsos.
Ontem almocei com Álvaro
Moreyra, passei quase o dia todo conversando com Eugênia e Tina. Álvaro estava
um pouco mole, as meninas andavam na praia, de maillot, com os namorados.
O vocabulário que se
adota em casa do Álvaro é pouco mais ou menos igual ao dos livros de Jorge
Amado. Eugênia adota essa linguagem naturalmente e, como é atriz, fala com
arte. Anda querendo organizar uma companhia. Ontem insistiu comigo para que
escrevesse um drama ou comédia. Como não conheço técnica de teatro,
emprestou-me um livro, Teatro social
norte-americano, e disse que até maio eu lhe devia entregar a peça, o que
não acontecerá.[538]
A carta que Graciliano escreveu a Ló em 11-04-1937 é um tocante
retrato do período, que inclui a expectativa pelo resultado do concurso para A terra dos meninos pelados:
Por falar
em prêmio, o negócio do Ministério da Educação está sendo lido. Os álbuns de
figuras foram julgados, como você viu. E saiu vitoriosa gente nossa: Santa,
Jardim e Paulo. Agora é uma torcida braba em torno dos livros de literatura.
Marques Rebelo anda cheio de veneno como uma cascavel. Creio que Bandeira
gostou do livro dele. Rodrigo me disse que não é coisa muito boa. E Marques já
se julga derrotado antes do julgamento, fala mal de todo mundo, acha a comissão
incapaz e todos os concorrentes idiotas, menos ele. Certamente os meus meninos
pelados se enterram. É bom. Você ficaria satisfeita se eles conseguissem o
terceiro lugar. Tolice. É melhor não terem coisa nenhuma. Um terceiro lugar
seria um desastre[539].
E não acredito que paguem esses prêmios. Convém não pensar nisso. Jantei com
Rodrigo ontem.
Depois do
jantar fomos ao cinema, a primeira vez que vi cinema depois da sua saída. A
senhora de Rodrigo queria ver uma fita horrível. Separei-me deles depois de
meia-noite, na Avenida. É uma gente muito fina, de amabilidade mineira, sem
espalhafato. Conversei ontem um bocado com o Rômulo, na Ouvidor. Ele acha que
eu tenho uma mulher de exceção. Fiquei cheio de vaidade, mas pensei nessa sua
doença. Se a opinião do Clemente é verdadeira, talvez seja bom você tomar
banhos frios. Um dia a gente se encontra e tudo se endireita. Uma coisa me
surpreende: tenho sonhado constantemente com meu pai. Nunca penso nele, na vida
que tenho não me sobra tempo para sentimentalismo. É aqui no duro, arrumando
frases com dificuldade. Mas quando sonho o velho me aparece, vivo, e noto que
tenho uma grande amizade a ele.
Sobre suas preocupações,
incluindo os filhos e o projeto de casamento de Júnio, Graciliano dizia:
Trabalho para ver se
posso fazer qualquer coisa por todos eles. Mas se não querem, se apenas desejam
ser marinheiros, soldados, funcionários de trezentos mil-réis, paciência, não
posso transformar ninguém. É necessário que eu não endoideça, apesar da cadeia.
Preciso ter a cabeça no lugar certo e afastar essas coisas de coração. Se o
coração entrar na dança, acabo enforcando-me. E por enquanto não pretendo
enforcar-me. Se seu Júnio se casa, acabou-se, não tenho nada com isso. Não irei
a Alagoas para dar conselhos a ele. Não irei de forma nenhuma. Hoje eu só iria
a Alagoas se pudesse oferecer a isso um terremoto que acabasse tudo.
Valdemar já está bom?
Recebi uma carta dele. E Aurélio? Barreto? Humberto? Lembranças a todos. Não
sei se lhe disse que tenho recusado uns trabalhos bestas que aparecem:
traduções, peças de teatro, serviços de jornal, que não sei fazer. Esta semana
ofereceram-me a crítica literária numa coisa que vão fundar. Recusei: não entendo
de crítica e não confiei no sujeito que me fez a proposta. Não quero trabalhar
de graça.[540]
Em 22-04-1937, escreveu a Benjamín de Garay:
Você não acha que é
safadeza sustentar um cidadão durante um ano e de repente mandá-lo embora,
desempregá-lo sem motivo? Foi o que me aconteceu.
Agora preciso dar
dinheiro à mulher da pensão e aumentar os lucros da Light.
Como não possuo bondes
nem casas, lembrei-me de explorar um hospital, um médico, enfermeiros e a
doença que me ia matando anos atrás.
La Prensa quererá publicar isso, Garay? Não é precisamente o que você pediu:
coisa regional e pitoresca: é delírio, complicação interior. As violências
agradáveis a El Hogar e Mundo Argentino são difíceis, não
consigo fazê-las. Desgraçadamente não sei matar ninguém direito, mesmo no
papel, e isto é uma vergonha para um sujeito mais ou menos perigoso.
Vai o delírio, meu caro
Garay. Se você quiser traduzi-lo e metê-lo num jornal que tenha dinheiro,
ficar-lhe-ei muito obrigado. E não se esqueça de mandar-me um número. Não vi a
tradução que você fez do meu conto Dois
dedos, nem sei em que revista saiu.[541]
Bem, Garay amigo, adeus.
Muitos e muitos agradecimentos pelas amabilidades que enchem a sua carta.
Livraria José Olympio
Ouvidor, 110[[542]]
Uma coluna não assinada, “Letras e Artes”, do Diário de Notícias, em 31-01-1937[[543]],
publicou nota casual com considerações sobre o equívoco da divisão entre a
literatura brasileira do “Norte” e a do “Sul”. Meses depois, Graciliano, que
nesse período caçava assuntos para conseguir os cinquenta mil-réis da I. B. R.,
apresentou no mesmo jornal, Diário de
Notícias, 25-04-1937[[544]],
a crônica “Norte e Sul”, retomando explicitamente o que sempre formalizou em
sua obra[545]:
o jogo do “interior” com o “exterior” – a literatura que retrata a coação do “real”
pelas grades sociais e sua relação dialética na “introspecção” – em outras palavras, de acordo com o
estereótipo mesquinho, a unidade dinâmica do “norte” com o “sul”. No artigo,
Graciliano critica a valorização exclusiva do “intimismo” como “espiritismo
literário” de “tapeação”, com “torturas interiores sem causa”. Foi o suficiente
para que Otávio de Faria[546],
escritor caudaloso, considerasse, veemente e paternal, com argumentação
capciosa e atrapalhada, que Graciliano estaria respondendo a uma polêmica
conduzida por ele em 1935.[547]
Na pensão, em meio à
produção de muitos textos para vender na imprensa, Graciliano escreveu
“Baleia”, manuscrito datado de 04-05-1937[[548]].
Nomear cães com nomes de peixes e correlatos aquáticos vinha de uma tradição
sertaneja cujo pensamento mágico procurava assim afastar a hidrofobia. Mais
tarde ele declarou que se inspirou na cachorra “Piaba”, cuja morte presenciou
quando criança, na fazenda dos avós, transformados, por sua vez, em Fabiano e
Sinha Vitória: “meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois
meninos”[549].
Divulga-se que Graciliano assimilou certo uso regional de “Sinha” sem acento,
paroxítona, para indicar a mulher do povo em contraposição a “Sinhá” para
nomear mulheres da elite – uma diferença, não dicionarizada, que foi raramente
respeitada na imprensa de sua época e nem sempre observada pelos críticos e
revisores. Igualmente Graciliano assimilou de seu meio o anonimato das
crianças, poupadas da inserção social como “meninos”. Seu rigor aritmético
limitou-os a dois, algarismo suficiente para a indicação de série, que ele
evitou fechar como ficaria sugerido se os irmãos fossem uma menina e um menino.
Em carta para Maceió, em 07-05-1937, ele contou a
Ló:
Escrevi um conto sobre a
morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que
se passa na alma duma cachorra.
O
meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que
todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do
sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo
todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta[550]
história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos
parados. Tento saber o que eles têm por dentro.
Em crônica coligida em Linhas tortas, “O rio”, Graciliano fala sobre a peça teatral que o
impressionou:
O rio, uma coisa estranha do teatro brasileiro”; “uma peça sem enredo”; “há
pedaços de histórias, que se entrelaçam ou se justapõem, e figuras insignificantes.[551]
A última carta coletada do período, de Graciliano
para Ló, do Rio para Maceió, foi de 13-05-1937.
Recebi ontem a sua carta e vi que você está
bastante agitada. Apresso-me a dar resposta, para você não se aperrear muito:
provavelmente não lhe agradou o que escrevi a semana passada. Mas repito o que
lhe disse. Você poderia vir passar aqui algum tempo, poderia até ficar
definitivamente, caso os negócios endireitassem. As crianças viriam depois. Que
acha?
Precisamos ir ao morro e ao cinema, o que não
pudemos fazer. Se não nos aguentarmos aqui, daremos o fora. Mas é bom
esperarmos até o fim. O projeto de voltar para Alagoas é tolice, não lhe
parece? Penso que será melhor você vir logo que as ameaças de encrenca
desapareçam. Garay me diz que mandou para você o número do Mundo Argentino que
trouxe o conto. Recebeu-o? Ele vai remeter-me outro. Traduziu ou vai traduzir
para La Prensa o Relógio do hospital. Vamos ver se essa coisa
será publicada. Se for, teremos possibilidade de um bom negócio. Por sugestão
dele, enviei ontem um exemplar de Angústia a José Gollán, o homem que se
encarrega de literatura nesse jornal riquíssimo. Também mandei para lá a
história da cachorra, a última coisa que me saiu da cabeça. E adeus por hoje,
Ló. Vou escrever ao Garay uma carta comprida. Preciso entender-me com ele a
respeito dessa história de La Prensa. Não tenho muitas esperanças, mas
vamos ver se cavamos isso. Até
logo, Ló. Beije as crianças. Abraços numerosos.[552]
Após a publicação de “Baleia” em jornal[553],
Graciliano deixou de ir à livraria, envergonhado pelo texto que temia ser
considerado piegas. Mas, afinal, deu-se conta da forte impressão que a
narrativa causou. Nesse processo, desdobraria os quadros orgânicos de Vidas secas, finalizado pelo manuscrito
de 06-10-1937, com vários capítulos vendidos para os jornais como contos. Rubem Braga em Diário de Notícias, 14-08-1938[[554]],
cunhou a qualificação de “romance desmontável”, lembrando-se da penúria de
Graciliano na pensão e da necessidade de vender os capítulos a retalho[555].
Por outro lado, os quadros da via-crúcis em retábulos da obra são extremamente
articulados, os treze capítulos espelhados principalmente nas correlações 1-13
(o primeiro e o último capítulo): “Mudança” e “Fuga”; 2-12: “Fabiano” e “O
mundo coberto de penas”; 3-11: “Cadeia” e “O soldado amarelo”; 4-10: “Sinha
Vitória” e “Contas” – tendo como centro “Inverno”, na divisão precisa do
capítulo 7, com seis capítulos de cada “lado”. Uma circularidade pendular que é
espiral, no caminho da história.
Ainda em meados de 1937,
Heloísa voltou para o Rio de Janeiro, trazendo as filhas menores, Luíza e
Clara. A família passou a morar no quarto de pensão da Rua Correia Dutra. Clara
Ramos lembra o silêncio sem palavras do convívio com o pai espremido no quarto,
escrevendo o ganha-pão. Escrevia principalmente Vidas secas, dedicado com as filhas, interrompendo o ranger da pena
para acolhê-las em viagens no mapa do Larousse, ameaçadas por seus xingos
gaiatos: “Cala a boca, serpente”, “Quieta, excomungada do diabo”. E ao ler para
elas e para Ló o que produzia, povoava o quarto com a família dos retirantes.[556]
Rodrigo Melo Franco de Andrade, responsável pelo Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (atual IPHAN), encomendou a Graciliano a
reelaboração de legendas para gravuras do acervo.
Clara Ramos apresentou, em Cadeia, a carta datada de 22-08-1937[[557]],
para o primogênito Márcio, a quem Graciliano escreveu preocupado em
providenciar tratamento para o filho epilético, que havia sofrido
desequilíbrios psíquicos por conta da prisão do pai.
O diabo é se eu tiver
necessidade de voltar para Alagoas. Penso que não acontecerá semelhante
desgraça. Não tenho nada por enquanto.
Ando escrevendo uns
troços ordinários para pagar a casa e a boia. O ano passado, exatamente há um
ano, eu tinha isso de graça e melhor. Mas o governo me pôs na rua, perdi o meu
último emprego, o de preso político, e agora é isso que se vê.
Dão-me cem mil-réis, 150,
por um desses contos que você deve ter visto, mas aparecem outros ganchos.
Agora estou botando sintaxe, pontuação e
ortografia numa literatura braba do Ministério da Educação. Esse
ministério é a Providência com o outro nome. Deu-me dois contos de réis por uma
coisa que me custou uma semana de trabalho. E as emendas de umas legendas,
sapecadas em duas horas, renderam-me quinhentos mil-réis. Infelizmente isso não
dá para nada. A mulher da pensão é muito mais exigente que o diretor da Casa de
Correção.
Não sei se lhe disse na
outra carta que ando preparando um romance. Ando. É uma história de bichos –
cachorros e matutos. Julgo que Afrânio Mello [do Jornal de Alagoas] tem medo que me torne amigo de Julião Tavares.
Diga a ele que não há perigo. Continuarei com os Silvas. Os meus cachorros e
matutos são inteiramente Silvas, Silvas até os ossos, mais Silvas que o outro,
o funcionário. Censuraram-me porque só me ocupo com proprietários e classe
anexa. Salto para o extremo oposto e ofereço para o respeitável público almas
de cachorros e outros bichos semelhantes. Estavam fazendo um cavalo de batalha
porque apareceram nestes últimos tempos uns personagens falando errado de
propósito. Todo mundo estava vendo que eram pessoas da cidade vestidas de
matutos. Bem. Os meus cachorros não falam. E isto é interessante, porque todos
os bichos que têm surgido na literatura falam. Donde se conclui que eles nunca
foram bichos. Os meus matutos também não falam, e isto é um buraco. Vou ver se
consigo adivinhar o que eles pensam, mas sem reproduzir a linguagem deles. Se
isto não for novidade, macacos me mordam.
Pedro Dantas (o nome jornalístico de Prudente de Morais, neto), em sua
publicação “O estilo de uma amargura nos porquês de um bom dia”, Suplemento Literário, O Estado de São Paulo,
22-10-1972[[558]],
conta que Graciliano trabalhou com ele durante alguns meses, em 1937, como
secretário geral da Universidade do Distrito Federal, interinamente, até ser
afastado após o golpe de novembro. Há registros controversos.[559]
Em carta a Octavio Dias Leite, em 03-09-1937,
Graciliano alude ao possível título Cardinheiras[560]
(aves de arribação). Entretanto, substituindo uma primeira opção, Baleia[561],
provas tipográficas revelam que a novela estava prestes a ser condenada ao
trocadilho de: O mundo coberto de penas
(que O Jornal, em 06-02-1938[[562]],
anunciou como O monte de penas). Uma das versões do anedotário sugere
que uma exclamação de Augusto Frederico Schmidt, ao ler a obra, foi o que
definiu o nome do livro: “que vidas secas!”[563].
A Editora José Olympio[564]
em listagem publicitária anunciou o título Vidas secas entre os itens das “novidades de março” de 1938[[565]]. Em 1963, o
romance foi filmado por Nelson Pereira dos Santos.[566]
Carlos Drummond de Andrade, chefe de gabinete do
ministro Gustavo Capanema, obteve para Graciliano Ramos[567],
em meados do segundo semestre de 1938, a nomeação de inspetor de ensino
secundário do Distrito Federal, um emprego, oficialmente interino, que ele
manteve até a morte. Em entrevista a Homero Senna, Graciliano disse que aquilo
era uma sinecura, mas que nunca faltara ao serviço nem pedira licença[568].
As referências a essa atividade de visitas a escolas põem em destaque as
inspeções no Colégio de São Bento: a emoção que suas visitas causavam ao aluno
Alexandre Eulálio[569]
e o convívio fraterno com os monges beneditinos, as conversas amistosas sobre
literatura e Bíblia. Graciliano disse aos monges que a mulher de Ló ao olhar
para trás transformou-se em estátua de sal porque tinha culpa no cartório. Os
monges impressionados sugeriram que ele desenvolvesse a interpretação, ao que
Graciliano respondeu às gargalhadas: “Logo eu, exegeta?” – lembra Ricardo Ramos[570].
Vários jornais, geralmente em colunas semioficiais do tipo “Atos do
Presidente”, como no Correio da Manhã,
noticiaram a nomeação em 29-09-1938.[571]
Um manuscrito arrascunhado, conservado pelo genro
James Amado, de uma carta de Graciliano para Getúlio, sugere por certas menções
que seria preparativa de tal nomeação. A carta – não enviada – traz data de
29-08-1938[[572]].
O Jornal do Commercio, em 29-09-1938[[573]],
publicou em nota que Graciliano tinha ido ao Palácio do Catete agradecer a
Getúlio a nomeação. Em depoimento ao Jornal
do Brasil, 20-04-1980[[574]],
a filha de Getúlio, Alzira Vargas, disse que quando conheceu Graciliano foi
presenteada por ele com exemplares autografados de suas obras. A informação
está também em Getúlio Vargas, meu pai:
“Fui-lhe apresentada algum tempo depois no Catete, por Mauro de Freitas,
oficial de gabinete da presidência [citado na carta não enviada a Getúlio],
quando foi agradecer a papai sua nomeação para um pequeno cargo federal”.[575]
Paulo Mercadante testemunha que o mestre, em
1949, contou-lhe o seguinte episódio de 1937: Getúlio certa noite andava,
sozinho, em torno do Catete, por onde encontrou Graciliano, que, ao ser
cumprimentado pelo ditador, não respondeu. Pelo contexto das datas, Mercadante
considera a possibilidade de Graciliano a seguir ter escrito o capítulo de Vidas secas sobre o encontro de Fabiano
com o Soldado Amarelo.[576]
A família mudou-se para uma pensão melhor, nas redondezas, Rua Artur
Bernardes (então Rua Carvalho Monteiro).[577]
Graciliano passou a tossir muito, com marcas de sangue. Heloísa,
enquanto lhe administrava uma alimentação reforçada, conseguiu trabalho, por
meio de Eneida, no Colégio Universitário, sob direção de Abgar Renault.
Encaminhou o marido para um tisiologista e organizou a mudança da família para
a Rua Resedá, 13, térreo, apto. 101, na Lagoa – lembra Clara Ramos[578],
citando, em alusão ao novo endereço, a
crônica “Conversa fiada”, publicada em Vamos
Ler!, 23-05-1940, e coligida em Linhas
tortas.[579]
Tendo participado como jurado de vários concursos literários, um deles
destacou-se pela presença do candidato “Viator”, pseudônimo de inscrição de
Guimarães Rosa, cujo Sagarana, ainda
sem esse título e em versão a desbastar, não venceu o Concurso Humberto de
Campos, da Livraria José Olympio, em 1938 – prêmio dado a Luís Jardim pelo Maria Perigosa. O voto desfavorável de
Graciliano Ramos, entretanto, destacou as qualidades de “Viator”. O assunto,
mencionado em “Prêmios”, Linhas tortas,
foi mais detalhadamente tema de duas de suas crônicas ali também reunidas:
antes de identificar Viator, “Um livro inédito”, de 20-08-1939, e, depois de
conhecer Guimarães Rosa em 1944, “Conversa de bastidores”, de 16-05-1946.[580]
Aborrecendo-me assim, abri um cartapácio de
quinhentas páginas grandes: uma dúzia de contos enormes, assinados por certo
Viator, que ninguém presumia quem fosse. Em tais casos rogamos a Deus que o
original não preste e nos poupe o dever de ir ao fim. Não se deu isso: aquele
era trabalho sério em demasia. Certamente de um médico mineiro, lembrava a
origem: montanhoso, subia muito, descia – e os pontos elevados eram magníficos,
os vales me desapontavam. Admirei um excelente feitiço, a patifaria de Lalino
Salatiel e, superior a tudo, uma figura notável, dessas que se conservam na
memória do leitor: seu Joãozinho Bem-Bem. Por outro lado enjoei um doutor
impossível, feito cavador de enxada, o namoro de um engenheiro com uma
professorinha e passagens que me sugeriam propaganda de soro antiofídico.
Em fim de 1944, Ildefonso Falcão, aqui de
passagem, apresentou-me J. Guimarães Rosa, secretário de embaixada,
recém-chegado da Europa.
Achando-me diante de uma inteligência livre de
mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa
concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os
restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica.
Devo acrescentar que Rosa
é um animalista notável: fervilham bichos no livro, não convenções de apólogo,
mas irracionais direitos, exibidos com peladuras, esparavões e os necessários
movimentos de orelhas e de rabos. Talvez o hábito de examinar essas criaturas
haja aconselhado o meu amigo a trabalhar com lentidão bovina.
Certamente ele fará um
romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em
1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se.
Graciliano ou foi profético ou conselheiro ou homenageado: Guimarães
Rosa publicou Grande sertão: veredas em
1956.
A publicação em 1939 de A terra dos meninos pelados, pela “Coleção Infantil” da Livraria do
Globo, de Porto Alegre, foi comentada em O
Tico-Tico – jornal das crianças, 27-12-1939[[581]]:
“Muito interessará também aos pequenos leitores de A terra dos meninos pelados a velha macaca que dormia quando
começava a contar uma história”, ”volume cartonado e muito bem impresso”, com
ilustrações de Nelson Boeira Faedrich.
Em 1939, a revista Diretrizes
em parceria com o Suplemento Juvenil lançou
o “Concurso Nacional Republicano” de “Uma Pequena História da República para
Crianças” – cujo objetivo era festejar, nos moldes ideológicos do Estado Novo,
o quinquagésimo aniversário da Proclamação da República. Dentro desse contexto
inviável, Graciliano não inscreveu seu texto bem-humorado e zombeteiro, em que
o estilo dos relatórios do prefeito, agora mais contido, focava a História do
Brasil. O concorrente que ganhou o prêmio foi publicado em edição de luxo,
saudado por Capanema e Vargas, e assim anunciado pelo Suplemento Juvenil, 24-05-1941:
Todos os episódios que
levaram o Brasil à Proclamação da República. As ideias e os gestos dos grandes
brasileiros que idealizaram, fundaram, proclamaram, consolidaram e
transformaram o regime republicano, culminando na instituição, em novembro de
1937, do Estado Novo.[582]
O texto de Graciliano,
datado de 13-01-1940, permaneceu inédito. Foi publicado postumamente na revista
Senhor, em 1960. A obra foi
incorporada ao volume Alexandre e outros
heróis, em 1962, juntamente com Histórias
de Alexandre e A terra dos meninos
pelados. As críticas ao desajuste desse aglomerado conseguiram
posteriormente que cada obra tivesse sua edição específica e bem cuidada –
entre elas, Pequena história da República,
que vai até 1930, ignorando o Estado Novo.
Os homens maduros de hoje
eram meninos. O sr. Getúlio Vargas, no sul, montava em cabos de vassoura; o sr.
Ministro da Guerra comandava soldados de chumbo; o sr. Ministro da Educação
vivia longe da escola, porque ainda não existia.
A abolição trouxe, é
claro, um grande assanhamento nas senzalas. Os negros dançaram, cantaram,
praticaram excessos, depois saíram sem destino, meio doidos.
Sinhá-moça
exigiu qualquer coisa, impaciente, batendo o pé, e a negra teve um rompante: –
Cativeiro já se acabou, sinhá. Agora é tão bom como tão bom.
Arrumou
a trouxa e ganhou o mundo. Depois voltou, arrependida, mas achou mudanças: os
brancos arriados, murchos, bambos; as plantações murchas, bambas, arriadas; a
fazenda quase deserta.
Antônio Conselheiro, um pobre-diabo, tencionava,
com ladainhas e benditos, salvar a humanidade.
Apareceu no sertão da Bahia no fim do século
passado, com um surrão às costas, vestido num camisão azul, barbudo, rezando,
pedindo esmolas e dizendo coisas desconexas. Louco e meio analfabeto,
facilmente reuniu uma considerável multidão de sujeitos menos loucos e mais
analfabetos que ele, a pior canalha da roça.
Oswaldo Cruz achava que era vergonhoso uma pessoa
apresentar marcas de bexigas. Pensando como ele, o Congresso tornou obrigatória
a vacina. E muita gente se descontentou. Estávamos ou não estávamos numa terra
de liberdade? Tínhamos ou não tínhamos o direito de adoecer e transmitir as
nossas doenças aos outros?[583]
Graciliano traduziu Up from slavery, de Booker T.
Washington, dando-lhe o título de Memórias
de um negro, obra publicada em 1940
pela Companhia Editora Nacional, São Paulo. Anos depois, em Cultura Política, 08-1944[[584]],
publicou texto a respeito do autor, apontando restrições e sugerindo
comportamento acanalhado do self-made man
– texto coletado em Linhas tortas, datado
de 2 de novembro de 1940[[585]].
Ricardo Ramos recorda nestes termos o comentário do pai sobre as dificuldades
da tradução: “– Tive de cortar muito, quase acabei com dois
capítulos. Imprestáveis. O homem vinha direito, umas observações ótimas, de
repente se estrepava todo. Negro burro”. Em carta a Anísio Teixeira, datada de
04-08-1938[[586]],
Graciliano falou sobre o início da tradução, indicando que o trabalho era uma
encomenda do pedagogo (consultor e tradutor da Companhia Editora Nacional)[587],
além de aludir a uma obra de literatura infantil a que não dera prosseguimento
– o projeto de Histórias de Alexandre,
e à edição de A terra dos meninos pelados:
Recebi ontem a sua carta,
que me surpreeendeu um pouco, porque algumas pessoas me haviam dito que a
tradução se afastava muito do livro que recebi. Agora estou sossegado. Se o
serviço lhe agrada, vou fazer os outros capítulos;
Se eu tivesse aqui o
original inglês, talvez fosse melhor. É verdade que o meu inglês não é grande
coisa: sempre foi ruim e nestes últimos anos deve ter piorado. Mas se eu
tivesse os dois textos, o perigo de enganar o preto seria menor. O livro para
crianças encalhou no princípio. Penso exatamente como você: se se procura um
assunto infantil e se usa linguagem infantil, a criança percebe que somos tolos
e não lê. O que eu pretendia fazer era contar umas histórias de mentirosos do
Nordeste; talvez os meninos gostassem de alguns tipos. Veremos isso para o
futuro. Tenho livro para crianças na livraria do Globo, mas coisa bem
ordinária. O que pretendia escrever agora seria menos ruim, parece-me.
Quanto ao pagamento da
tradução, você fará o que achar conveniente. De qualquer forma tudo estará
direito.
Em julho de 1941, a Diretrizes anunciou
um concurso em parceria com a Editora Martins para premiar os leitores que
descobrissem o autor de cada um dos capítulos publicados a seguir nas edições
da revista: era uma novela de criação coletiva, Brandão entre o mar e o amor, escrita por Jorge Amado, José Lins do
Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Rachel de Queiroz. Graciliano foi
incumbido do terceiro capítulo, com o título “Mário”, personagem que o autor,
no seu estilo, deixa num quarto, mergulhado em introspecção[588].
Em 1942, o conjunto foi publicado pela Editora Martins, com capa expressiva de
Santa Rosa. Em 1946, falando sobre o processo da criação literária, Graciliano
aludiu à experiência: “A criação, porém,
é rigorosamente individual: absurdo imaginarmos quadros e poemas
compostos por diversas criaturas; tentativas malograram-se; aqui há tempo
alguns literatos fabricaram, com infelicidade notável, uma espécie de romance —
um desastre”.[589]
Almir de Andrade, diretor da Cultura
Política – revista mensal de estudos brasileiros, convidou Graciliano para
ser revisor daquele solene instrumento de fomentação ideológica do DIP –
Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo. Havia a intenção de
agradar e pagar bem para cooptar os intelectuais[590].
Junto à participação de nomes como Nelson Werneck Sodré, Lúcio Cardoso, Marques
Rebelo, entre outros, Graciliano, com espírito crítico independente e
debochado, publicou crônicas no mensário entre 1941 e 1944 – em coluna própria,
intitulada, com variáveis, “Quadros e costumes do Nordeste”, a maioria delas
reunidas postumamente em 1962, sob o título Viventes
das Alagoas[591].
Graciliano também esteve presente na revista luso-brasileira Atlântico, uma publicação de Lisboa,
associada entre o Secretariado da Propaganda Nacional – SPN – da ditadura
salazarista e o DIP brasileiro, com a participação dos mais importantes
intelectuais dos dois países, como Drummond, Bandeira, Sophia de Mello Breyner
Andresen. Entre 1942 e 1944, Graciliano ali publicou, antes da edição de Infância em 1945, os capítulos “O fim do
mundo”, “O moleque José”, “O Barão de Macaúbas”. Publicou também o conto
“Insônia”.
Na listagem geral de endereços de intelectuais residentes no Rio de
Janeiro, o Anuário Brasileiro de Literatura[592]
indicou o de Graciliano: Rua Conde de Bonfim, 752 – Tijuca. Trata-se do
endereço de “modesto apartamento” como foi citado por Francisco de Assis
Barbosa na entrevista que fez com o autor às vésperas dos seus 50 anos,
publicada sob o título “A vida de Graciliano Ramos”, em Diretrizes, 29-10-1942[[593]]
– e depois, como “50 anos de Graciliano Ramos”, em Homenagem a Graciliano Ramos – o volume que reuniu discursos e
textos relativos ao evento. Como se nota, os filhos iam chegando de Alagoas:
Na casa de Graciliano,
todos conversam literatura. Clarita Ramos, linda menina de 9 anos, adora Manuel
Bandeira. Sabe de cor muiitos dos versos do grande poeta. Luíza quer continuar
com o pai A terra dos meninos pelados. Maria
Augusta, a mais velha, do primeiro casamento do escritor, lê e discute a obra
paterna. E D. Heloísa, Sra. Graciliano Ramos, é quem bate à máquina os escritos
do marido.
Bastante mencionado na imprensa, o aniversário de cinquenta anos de
Graciliano Ramos foi comemorado no Restaurante “Lido”, em Copacabana. O Jornal, 27-10-1942[[594]],
indicou a “comissão promotora do banquete”, composta por José Olympio, José
Lins do Rego, Otávio Tarquínio de Sousa e Álvaro Lins – outras publicações
incluíram Augusto Frederico Schmidt e Francisco de Assis Barbosa. No mesmo tom,
A Manhã[595], no próprio dia, anunciou a festa à
noite e remeteu os interessados ao livro de adesões na Livraria José Olympio. A
surpresa para o autor foi o Prêmio, pelo conjunto da obra, da Sociedade dos
Amigos de Felipe de Oliveira, no valor de cinco mil cruzeiros (a nova moeda
tinha acabado de entrar em vigor e muitos jornais ainda falaram em “contos de
réis”). O festejo teve simbolismo de desagravo ao romancista, relativo à prisão
de 1936. O destaque foi a presença de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e
Saúde da ditadura de Getúlio Vargas. Saudado por Schmidt, Graciliano também
discursou, com a verve de sempre, assim como vários intelectuais. Rubem Braga,
que não pôde ir, mandou seu texto bem humorado, “Discurso de um ausente ao
banquete de homenagem a Graciliano Ramos”, lembrando os tempos da pensão do
Catete:
Nas noites de verão a
gente podia apagar a luz do banheiro e ficar espiando a janela da vizinha até
que ela viesse tirar a roupa, mostrando um belo corpo moreno completamente nu.
Como era bonita a nossa vizinha, Brasiliano! Você vivia zombando de mim e de
Vanderlino porque nós gostávamos de espiar, mas uma noite te pegamos lá no
escuro, de tocaia. Corremos para a outra janela. E sabemos que você cuspiu de
nojo e disse a palavra “peste” quando no lugar da bela moça morena quem se
mostrou nua foi a cafetina gorda de carnes brancas e bambas.[596]
O cardápio impresso do jantar sob o timbre do Restaurante “Lido”
anunciava: “Creme de espargos à Caetés”; “Filé de robalo à São Bernardo”; “Peru à Angústia”; “Arroz”; “Torta de maçã à Vidas secas”. Eneida, ao retomar em 1962
seu artigo de 1949, inaugural da série “Os ranhetas”, comentou com essas
lembranças no Diário de Notícias,
15-04-1962[[597]],
o lançamento de Viventes das Alagoas:
Não compareci ao jantar
porque estava novamente nas grades, mas quando saí, um amigo – para que me
sentisse presente – guardara-me um cardápio. Pobre Graça. Perdi esse documento
que, com certeza, faz parte dos arquivos implacáveis de João Condé, mas jamais
esqueci que havia um “hors d’oeuvre à Caetés”
e um “Peru à Angústia”. Esse peru
assim até hoje me persegue. O mau gosto do cardápio vingou-me de certas
coisinhas contra o velho Graça. A vingança é que ele engolira aquele peru e
aquele “hors d’oeuvre”.
Uma crônica de mexericos em Diretrizes,
05-11-1942[[598]],
contou que na Livraria José Olympio havia muita conversa sobre a vaga aberta na
ABL, Academia Brasileira de Letras. Aludia à importância de Graciliano para
destacá-lo como candidato, e, ao final do texto, acrescentava outros, como
Augusto Frederico Schmidt e Afonso Arinos. Nos itens da coluna Flash dos Arquivos implacáveis de João Condé, A Manhã, 01-08-1948[[599]],
Graciliano ao dizer que fumava três maços de cigarro “Selma” por dia, que
odiava a burguesia, que era ateu, que apesar de o acharem pessimista,
discordava, que esperava morrer ao 57 anos, que lhe era indiferente estar preso
ou solto – entre outros itens, acrescentou: “Indiferente às Academias”. Sobre
“Uma eleição” em 1938 na ABL, disse:
Essas quarenta cadeiras
não são como empregos públicos. Mais duras que empregos públicos. Para entrar
no funcionalismo os concorrentes esperam lugares novos, mortes e demissões, não
raro utilizam a carta anônima e a delação, armas bastante apreciáveis. Um
sujeito cai, outro se levanta em cima dele. É jogo. Na Academia não se dá isso.
Quem entra lá fica pregado, só sai depois de morto.
As quarenta cadeiras são
como aposentadorias: os cidadãos que nelas se sentam recebem de ordinário
ataques, não por feitos atuais, na verdade pouco sensíveis, mas por outros
antigos.
É razoável, pois, que a
sociedade, usando uma prudente reserva quando a importunam homens capazes de
prejudicá-la, tenha preferido certos cavalheiros inofensivos, autores de obras
escassas, meio inéditas e, portanto, pouco sujeitas a discussões.[600]
Peregrino Jr. observou em Careta,
22-01-1944[[601]],
que foram publicados em 1943 vários dos mais importantes romances da literatura
brasileira, como Fogo morto, de José
Lins do Rego. Uma das exceções foi Graciliano Ramos, que não publicou livros
nesse ano em que morreu sua mãe, Maria Amélia, a Mariquinha. Clara Ramos anota:
Havia visitas. De pé,
encostado à sua mesa, Graciliano falava. A mulher entregou-lhe um telegrama.
Ele passou os olhos pelo papel, piscou fortemente, colocou a mensagem sobre a
escrivaninha – e retomou o assunto com um controle de meter inveja ao mais impassível
oriental. Sua mãe morrera na véspera.[602]
Entre outras personalidades, Graciliano foi convidado por Beatrix
Reynal para participar na rádio PRA-2, do Ministério da Educação, do programa
“Franceses, nós cremos em vós”. A poetisa, radicada no Rio de Janeiro, militava
no Brasil pela resistência francesa. A palestra de Graciliano no dia
14-02-1944, sob o tema “A imprensa francesa clandestina”, foi anunciada em O Jornal, 13-02-1944, no Diário de Notícias, 13-02-1944[[603]].
Anos antes, Graciliano escrevera sobre a poetisa, em Dom Casmurro, 31-05-1941[[604]],
artigo coligido em Linhas tortas, com
o título “Para nós, humildes...”. Também em Linhas
tortas encontra-se o texto “A imprensa francesa clandestina”.
Deu entrevista a Ernesto Luiz Maia (pseudônimo de Newton Rodrigues)
sob o título “Os chamados romances sociais não atingiram as massas”.[605]
Acho que as massas, as camadas populares, não
foram atingidas e que nossos escritores só alcançaram o pequeno burguês. Por
quê? Porque a massa é muito nebulosa, é difícil interpretá-la, saber de que ela
gosta.
Graciliano tem o seu primeiro romance publicado no exterior[606]:
Angustia. Traducción, prólogo y notas
de Serafín J. García[607].
Montevidéu: Independencia, 1944 [[608]].
Suas obras passaram a ser traduzidas pelo mundo todo.[609]
A Cia. Editora Leitura anunciou, em 1944, Os russos – antigos e modernos (obra posteriormente publicada com
outro título: O livro de ouro dos contos
russos): a grande coletânea de contos russos, traduzidos por 41 renomados
escritores brasileiros, organização de Rubem Braga e supervisão de Graciliano
Ramos – ver anúncio chamativo, de um quarto de página, em O Jornal, 19-08-1944.[610]
Entre 1938 e 1941, no Diário de
Notícias e em O Jornal, Graciliano
publicou alguns contos do que viria a ser no final de 1944 a edição de Histórias de Alexandre, pela Cia.
Editora Leitura, coletânea de treze contos de um mentiroso, colhidos do
folclore nordestino, conforme a advertência que já aparecia em nota na
publicação de “O olho torto de Alexandre” pelo Diário de Notícias, em 1939[[611]]:
“As histórias de Alexandre não são originais: pertencem ao folclore do
Nordeste, e é possível que algumas tenham sido escritas”. Câmara Cascudo,
apesar de colher manifestações correlatas em sua vastíssima pesquisa
folclórica, não dá destaque a esta obra de Graciliano, que, por sua vez, não dá
indicação de qualquer fonte, além da nota acima. No prefácio a Alexandre e outros heróis, José Geraldo
Vieira menciona o Tuti-Name – O livro do papagaio – uma obra de origem remota e
percurso oriental (hindu, persa, turco), como indicam Aurélio Buarque de
Holanda e Paulo Rónai em Mar de histórias,
2 – pouco relacionada com Histórias de
Alexandre. Em edições posteriores foram acrescentados os capítulos
“Apresentação de Alexandre e Cesária” e “Um missionário”. O protagonista narra
suas façanhas a Seu Firmino, preto cego e cético, a Seu Libório, cantador de
emboladas, a Das Dores, rezadeira e afilhada, a Mestre Gaudêncio, curandeiro. A
coadjuvante é Cesária, esposa de Alexandre, que ajuda nos detalhes das mentiras
e confirma o potoqueiro. Clara Ramos informa que enquanto o pai escrevia e
publicava as histórias, chamadas na intimidade de Proezas de Alexandre, em
casa passaram a usar seu estribilho:
A esse Barão de
Münchhausen[612]
sertanejo, que está sempre a exigir da mulher a ratificação de suas lorotas –
“não é, Cesária?” – as garotas costumam referir-se nas brincadeiras com o pai.[613]
Foi publicada a extração de Histórias
de Alexandre na versão intitulada 7
histórias verdadeiras[614],
em dezembro de 1951, com forte apelo natalino, que anunciava o livro como ótimo
presente para as crianças – uma edição da editora do PCB, Editorial Vitória.
Como reproduz o jornal comunista, Imprensa
Popular, 23-12-1951[[615]],
junto ao livro vinha uma carta-convite do autor e um formulário para as
crianças encaminharem seu interesse:
Com certeza você
compreende, meu pequeno leitor, que o escritor vive quase sempre afastado do
seu público. Por isso, nem sempre sabe para quem escreve, como são recebidos os
seus livros, quais as suas falhas, como melhorar as suas histórias, os seus
romances.
Pensando nisso resolvi
ter com vocês em fevereiro ou março uma conversa sobre as 7 histórias verdadeiras em que eu conto as aventuras de Alexandre.
Nessa conversa nós nos tornaremos conhecidos. Vocês farão críticas e sugestões,
que me servirão de ensinamento para outras histórias.
Sei que você gostará
dessa reunião para a qual poderá convidar também os seus amigos.
Para receber o seu
convite, preencha o cupão abaixo e remeta-o até 31 de janeiro à editora deste
livro, a fim de ser avisado do dia e lugar dessa conversa.
Graciliano passou a escrever os capítulos de Infância desde 1938, tendo datado o primeiro manuscrito, “Samuel
Smiles”, em outubro desse ano. Publicou os capítulos como contos em jornais e
revistas, continuamente, até o início de 1945. Em janeiro de 1936, em Maceió,
antes de ser preso, tivera a ideia do livro, quando registrou em carta a
Heloísa (ver acima) vários títulos e temas do que efetivamente veio a realizar
somente no Rio. Mas esquecendo-se disso, em entrevista a Vamos Ler!, 25-10-1945[[616]],
Graciliano declarou durante o lançamento da obra que não tinha inicialmente
intenção de compor um livro com suas lembranças da infância. Negou o boato de
que faria memórias consecutivas, mas garantiu que pretendia escrever sobre a
prisão em 1936. Inicialmente intitulado “Impressões da infância”, como revelam
provas tipográficas e notas da imprensa, o livro foi anunciado em Leitura, 09-1945[[617]],
como a “primeira parte” de suas memórias. Também foi muito enfatizada a relação
entre ficção e confissão, por exemplo, em Diretrizes,
25-05-1944[[618]]:
“O grande romancista de S. Bernardo, em
conversa na Livraria José Olympio, anunciou que está terminando o primeiro
volume de suas memórias”; “Não se
trata de simples narração mas de uma espécie de profunda interpretação desse
tempo em que o memorialista e o ficcionista se confundem e fazem uma obra rica
de aspectos psicológicos e sociais, fixando uma época e continuando os
processos do romancista de Angústia e
Vidas secas”[619].
Antonio Candido articulou tal relação no apanhado completo da obra publicado em
série no Diário de São Paulo em 1945[[620]]
(depois acrescido da abordagem de Memórias
do cárcere), como lembra ao apresentar em 1992 a coletânea Ficção e confissão, em que justifica a
republicação do ensaio, apesar de considerá-lo ultrapassado: “Mas ainda me
parece justo o pressuposto básico, isto é, que ele passou da ficção à
autobiografia como desdobramento coerente e necessário da sua obra”.[621]
Antonio Candido reproduz em Ficção
e confissão a carta de agradecimento de Graciliano, de 12-11-1945:
Só agora, lido o último
artigo da série que V. me dedicou, posso mandar-lhe estas linhas e conversar um
pouco. Muito obrigado.
Onde as nossas opiniões
coincidem é no julgamento de Angústia.
Sempre achei absurdos os elogios concedidos a este livro, e alguns, verdadeiros
disparates, me exasperaram, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com
outros gigantes. O que eu sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano
completo se a seca houvesse destruído minha gente, como V. muito bem reconhece.
Por que é que Angústia saiu ruim? Diversas pessoas
procuraram razões, que não me satisfizeram.
Por que é mau? Devemos
afastar a ideia de o terem prejudicado as reminiscências pessoais, que não
prejudicaram Infância, como V.
afirma. Pego-me a esta razão, velha e clara: Angústia é um livro mal escrito. Foi isto o que o desgraçou. Ao
reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita
repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas,
desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem
examinadas no seu último artigo.
Forjei o livro em tempo
de perturbações, mudanças, encrencas de todo o gênero, abandonando-o com ódio,
retomando-o sem entusiasmo. Matei Julião Tavares em vinte e sete dias; o último
capítulo, um delírio enorme, foi arranjado numa noite.
A 3 de março de 1936 dei
o manuscrito à datilógrafa e no mesmo dia fui preso. Nos longos meses de
viagens obrigatórias supus que a polícia me houvesse abafado esse material
perigoso. Isto não aconteceu – e o romance foi publicado em agosto. Achava-me
então na sala da capela. Não se conferiu a cópia com o original. Imagine.
Esta explicação tem
apenas o fim de exibir-lhe o prazer que me causou o seu juízo. Quando um
modernista retardatário e pouco exigente me vem seringar amabilidades a Angústia, digo sempre: – “Nada impede
que seja um livro pessimamente escrito. Seria preciso fazê-lo de novo.”
Permita-me que apenas
toque nos seus estudos relativos a São
Bernardo, Vidas secas e Infância. Ser-me-ia difícil estender-me
sobre eles. O que faço é agradecer. Por muito vaidoso que sejamos, às vezes
certas opiniões nos amarram: diante delas ficamos atrapalhados e sem jeito.
Adeus, Antonio Candido.
Abraços do admirador e amigo[622]
Graciliano Ramos, a
convite de Luís Carlos Prestes, filiou-se em 18-08-1945 ao PCB – Partido
Comunista Brasileiro (então “do Brasil”, mas com a sigla PCB[623]),
no momento em que Infância chegava às
livrarias. Segundo Ricardo Ramos, numa viagem de avião a Belo Horizonte,
Prestes aproximou-se de Graciliano convidando-o a filiar-se ao Partido
Comunista. (O II Congresso da ABDE – Associação Brasileira de Escritores – em
Belo Horizonte, foi em 1947. Graciliano esteve em Belo Horizonte em setembro de
1945 – já estava filiado e sua viagem teve por objetivo não só representar o
PCB na campanha pela Constituinte mas também apresentar-se candidato a deputado
por Alagoas – ver Tribuna Popular, 20-09-1945[[624]]).
No momento de sua filiação, o jornal comunista, em 18-08-1945[[625]],
afirmou: “O ingresso do maior romancista brasileiro, um dos maiores escritores
contemporâneos, no P. C. B., é mais uma prova concreta que não há nenhuma
divergência entre o conceito individual de liberdade e de trabalho de um
romancista com os princípios do Partido Comunista”; “As declarações de
Graciliano Ramos, que justificam a sua inscrição no Partido Comunista, estão
nos seus livros, nos depoimentos de S.
Bernardo, Angústia e Vidas secas”. E reproduziu a declaração
do escritor: “Ao visitar, pela primeira vez, Luís Carlos Prestes, disse-lhe que
estava inteiramente solidário com todas as ideias dele. Quando em 1936[[626]]
fui viver no Pavilhão dos Primários, na Sala da Capela, na Colônia Correcional
de Dois Rios, e em outros lugares semelhantes, encontrei os excelentes
companheiros que hoje trabalham no Partido Comunista. Sempre me senti
perfeitamente ligado a eles, e se até agora me limitei a apoiá-los, sem tomar
posição de militante, foi por não saber se poderia de qualquer maneira ser
útil, nessa agitação em que nos achamos, o trabalho de ficcionista”; “Um severo
exame de consciência me aconselhava prudência, uma prudência que de fato me
humilhava. Na verdade eu desejava que algum antigo companheiro me viesse trazer
algum estímulo e isto era difícil, pois ninguém adivinhava as minhas intenções.
Mas o certo é que foram adivinhadas. E os escrúpulos mencionados se varreram
pelo menos por enquanto”. Quanto ao porquê de ter-se filiado, Clara Ramos
registra uma resposta do pai: “Naturalmente porque sou comunista. É uma
resposta besta, mas não tenho outra. Acho que deixei isso bem claro na minha
vida e na minha escrita”[627].
Recebeu a carteirinha de filiado juntamente com o amigo Portinari[628].
Graciliano participou vigorosamente como militante, até o final da vida, em textos
de manifestos e conclamações, comícios, movimentos, viagem à URSS, associações
e células como a “Theodore Dreiser” (nome do escritor comunista
norte-americano, por ele escolhido para batizar esse núcleo de escritores do
partido)[629].
Leal e disciplinado, não se submeteu, entretanto, às regras constritivas de
cunho ortodoxo e à canastrice estética do “realismo socialista”, que propunha
olhares cheios de enlevo voltados para o horizonte por heróis musculosos e
“positivos” do proletariado. Já em 1935 (ver acima) em carta a Oscar Mendes
sobre S. Bernardo, ele declarava sua
posição revolucionária somada ao desprezo pela literatura de propaganda
soviética. Como lembra Ricardo Ramos[630],
Jdanov, o teórico russo dessa linha decretada pelo stalinismo, era assim definido
pelo pai: “um cavalo!”. Do mesmo modo contrariou-se com o “Manifesto de Agosto”
de 1950, assinado por Prestes, pois considerou inviável e cega sua proposta de
insurreição armada. Sofreu constrangimentos de líderes do partido, que
desfizeram a célula que dirigia, procuraram em vão interferir na escrita de Memórias do cárcere, silenciaram sobre
sua publicação, póstuma, como também sobre o relato de Graciliano, Viagem, de sua visita principalmente à
URSS. Oswald de Andrade disse em sua coluna Telefonema,
sob o título “O encarcerado”, Correio da
Manhã, 10-11-1953[[631]], que Graciliano se absteve de publicar Memórias do cárcere em vida por
imposição político-partidária[632].
Com espírito reacionário anticomunista e equívoco, somado à intenção de
escândalo, Wilson Martins entendeu que Memórias
do cárcere sofreu alterações à revelia do autor. Ricardo Ramos respondeu,
como se vê, por exemplo, em “Não foram deturpadas as Memórias do cárcere”, Última
Hora, 07-12-1953[[633]].
Como lamenta Ricardo Ramos[634],
Clara Ramos em 1979 retomou o assunto com Wilson Martins, depois mencionado
pela autora em seu Cadeia, de 1992. Em carta aos filhos, de Moscou, nos
festejos do 1º de maio de 1952, Graciliano, além das peripécias, relatou, com
um “cá estamos na Terra Santa”, o monumental desfile a que assistiu: “Enquanto
as organizações operárias desfilavam, Kaluguin perguntou-me quais os meus
livros que deviam ser traduzidos em russo. Talvez nenhum, respondi. E expliquei
a minha divergência com o pessoal daí”[635].
No texto de Viagem, detalha em outro
tom: “Voltando à calma, o excelente rapaz quis saber quais dos meus livros
poderiam ser traduzidos em russo. Estranhei a pergunta, na verdade inoportuna
dentro da enorme agitação. – Nem sei, Kaluguin. Talvez nenhum. Vocês é que
devem examinar isso. Tinha-me vindo o pensamento de que os meus romances nenhum
interesse despertariam àqueles homens: são narrativas de um mundo morto, as
minhas personagens comportam-se como duendes. Na sociedade nova ali patente,
alegre, de confiança ilimitada em si mesma, lembrava-me da minha gente fusca,
triste, e achava-me um anacronismo. Essa ideia, que iria assaltar-me com
frequência, não me dava tristeza. Necessário conformar-me: não me havia sido
possível trabalhar de maneira diferente: vivendo em sepulturas, ocupara-me em
relatar cadáveres”[636].
Por ocasião do aniversário de Luís Carlos Prestes publicou em A Classe Operária, 01-01-1949, uma
homenagem avessa aos salamaleques, refletida sobre a ideia de mito que cercava
a importante figura do revolucionário brasileiro (em 1980, a histórica Carta aos comunistas, de rompimento de
Prestes com o PCB, foi publicada pela editora Alfa-Omega acompanhada do artigo
de Graciliano Ramos): “Certo não concedemos auréola a Prestes: o que nos atrai
nele é a parte humana, de ordinário deixada
na sombra”; “Há em Prestes excessiva polidez. Viajará horas em pé num aeroplano
se alguém se avizinhar da cadeira dele e puxar conversa. A voz clara, baixa,
sacudida, não se eleva – é como se nos martelasse”. “Chegamos agora a um ponto
em que não distinguimos nenhum sinal de oposição: há em Prestes uma dignidade
fundamental, incontrastável. É a essência de seu caráter. Admiram-no com
exaltação, odeiam-no com fúria, glorificam-no e caluniam-no. Seria difícil
achar quem lhe negasse respeito à austeridade imutável, maciça, que o leva a
afrontar serenamente duras fadigas e sacrifícios horríveis – coisas previstas e
necessárias”[637].
Ricardo Ramos ao procurar as percepções do “meu pai stalinista”, conta que o
viu chorar duas vezes: com o suicídio do filho Márcio, em 1950, e com a morte
de Stalin, em 1953 (quinze dias antes de morrer).[638]
O jornal Tribuna Popular, do
Partido Comunista Brasileiro (então “do Brasil”), publicou os manifestos de
Graciliano, acompanhou suas participações e anunciou o candidato a deputado de
Alagoas pela Constituinte: registrou sua presença e discurso em Belo Horizonte,
em 20-09-1945; publicou seu artigo “Essa vontade é a nossa arma: Constituinte!”
em 25-09-1945; anunciou os grandes comícios do PCB pelos bairros do Rio, e,
dentre eles, relatou sua participação no da Tijuca, Praça Saenz Peña, resenhou
o discurso de Graciliano, em 07 e 09-10-1945; publicou sua conclamação “A
tarefa principal: Constituinte!”, em 10-10-1945.[639]
Bem. Nós, negrada, homens
e mulheres da canalha dos morros, não queremos que ninguém nos salve, recusamos
os presentes duvidosos dessas figuras admiráveis vistas de longe e tentamos
salvar-nos com os nossos meios. De fato nada existe dentro das nossas cabeças,
porque somos negros, canalha dos morros, e habituamo-nos a respeitar as cabeças
dos brancos da planície. Infelizmente não podemos trocar as nossas cabeças – e,
apesar de elas serem ocas, não nos resignamos a isto e acreditamos que encerram
qualquer coisa.
Ao filho Júnio, escreveu em 12-10-1945:
Agora saltou uma faísca –
e fazemos coisas que nunca pensamos fazer, até discursos. Domingo achei-me em
dificuldade séria. Num comício, na Praça Saenz Peña, houve sabotagem,
cortaram-nos o microfone – e foi preciso, diante de alguns milhares de pessoas,
andar gente em busca de pilhas, não sei quê.
Afirma a reação que a
massa é estúpida, insensível, e por isso devemos oferecer-lhe chavões e
bobagens rudimentares. Resolvi não fazer ao público nenhuma concessão: escrevi
na minha prosa ordinária, que, se não é natural, pois a linguagem escrita não
pode ser natural, me parece compreensível.
Iriam entender-me? Talvez
metade do auditório fosse formado pelas escolas de samba. E referi-me à canalha
dos morros, à negrada irresponsável, utilizando as expressões dos jornais
brancos. Era arriscado. Aceitaria a multidão essa literatura sem metáforas e
crua? Além disso Deus me deu uma figura lastimosa, desagradável, cheia de
espinhos. Com essas desvantagens, senti-me apoiado logo nas primeiras palavras,
e conversei como se estivesse em casa. De repente o microfone emperrou. Em vez
de encoivarar o resto à pressa, calei-me, dobrei os papéis e aguardei os
acontecimentos. Exigências e gritos fizeram que o miserável voltasse a
funcionar. Cheguei ao fim com diversas interrupções. Os homens dos morros
ouviram a injúria que a reação lhes atira e manifestaram-me simpatia
inesperada. E inútil, porque não pretendo ser ator. Estou velho para mudar de
profissão.
Aqui em casa todos se
meteram na grande bagunça. Madame trabalha na minha célula. As duas garotas
pregam cartazes, escrevem nas paredes – e domingo passaram o dia num caminhão,
lendo horrores num alto-falante. À noite estavam roucas. Nosso amigo Tatá
brilha, como v. tem visto, na Tribuna.[640]
Ricardo Ramos conta que juntamente com ele e os irmãos Márcio e Júnio,
Graciliano apanhou da polícia.
O comício começou, um
orador, outro, justamente quando o Velho principiou a falar estouraram o
tiroteio e a pancadaria. Abrimos caminho para o palanque, em meio ao
corre-corre, de longe o divisamos. Vinha devagar, descendo, e afinal nos
reconheceu.
Ao saber da agressão, através de Ricardo, Paulo Mota Lima, da Tribuna Popular, remeteu um repórter
para entrevistar o escritor, que negou tudo e advertiu o filho:
Pra
mim, não, pancada não tem endereço. Bateram em todos, logo você não fala.[641]
Graciliano
como candidato a deputado constituinte enviou aos alagoanos carta com o
vocativo: “Meus raros amigos”:
Nestes últimos dez anos o
mundo tem dado tantas voltas que estive a pique de fazer uma viagem a Alagoas,
só desistindo da ideia porque, tendo aqui aportado em porão de navio muito
vagabundo, não achei conveniente regressar num aeroplano.
Entre ser literato
medíocre ou deputado insignificante, prefiro continuar na literatura e na
mediocridade. E digo isto sem falsa modéstia. Reparem na significação exata das
palavras. Não considero a minha literatura insignificante: ela é apenas
medíocre e, por conseguinte, mais ou menos aceitável. Acho-me perfeitamente à
vontade na livraria. Mas na Câmara é certo que faria uma figura bem chinfrim.
Nenhuma conveniência em mudar de ofício neste fim de vida. Está explicada,
suponho, esta desambição aparente. Contudo, se me falta o desejo de passar
algumas horas por dia cochilando, rosnando apartes chochos, isto não quer dizer
que me desinteresse da política nacional e encolha os ombros à eleição. De modo
nenhum. Entreguei-me de corpo e alma a um Partido, o único, estou certo, capaz
de nos livrar da horrível situação em que vivemos, e este Partido apresenta-se
às urnas. Sou forçado a pedir a vocês, para os nossos melhores candidatos
(insisto em declarar-me completamente livre de qualquer pretensão), os vinte e
quatro votos que me poderiam, com boa vontade, conceder.
Quando nos preparamos
para dar ao país uma constituição, não é razoável que ela seja uma constituição
de proprietários.
Realmente vocês são bem
pouco numerosos. Mas cada um, nestes breves dias que nos restam, poderá
convencer uma tia ou sogra, que influirá na vizinha com rapidez, e assim por
diante.[642]
O
PCB teve desempenho fraco nas eleições em Alagoas. Graciliano obteve 62 votos.[643]
Saiu, no final de 1945, Dois
dedos – pela Revista Acadêmica, R. A. Editora, coletânea de dez contos com
ilustrações em xilogravura de Axel de Leskoschek – uma publicação propícia a
presentes no período natalino, como sugeria a resenha no Diário
da Noite, 18-12-1945[[644]],
de Quirino Campofiorito, entusiasmado com a soma refinada de literatura e artes
plásticas na edição. Em 1947, com mais três contos, o livro foi publicado pela
José Olympio, com capa de Santa Rosa e o título Insônia, que se tornou definitivo.
De acordo com as datas no Catálogo
de manuscritos do AGR, Graciliano iniciou definitivamente a escrita de Memórias do cárcere entre 22 e
25-01-1946. A data do último manuscrito é de 1951.[645]
Clara Ramos fala do movimento doméstico, lembrando que Graciliano
dizia precisar de vinte e quatro anos para escrever os quatro volumes, cálculo
previsível pela multiplicação dos seis consumidos para produzir Infância (entre 1938 e 1944). Fato
excepcional, a José Olympio pagou pela escrita da obra. Pelas falhas na quantia
contratada das entregas, fez fiado, pagando mensalmente sem falta o escritor.
Em Cadeia, Clara Ramos apresenta
fac-símile de contrato e de recibo entre Graciliano e a José Olympio,
estipulada a entrega mensal de três capítulos[646].
Em Mestre Graciliano, ela conta:
Heloísa procura tirar
Mestre Graça da madorna, com ele firmando o pacto das trezentas palavras
diárias, pelo qual o marido se compromete a cumprir o limite mínimo
estabelecido. Nos dias de moleza, porém, o pactuante inclui na contagem o
artigo, a preposição, o semantema que se combina a outro vocábulo na palavra
composta, o ponto, a vírgula, o travessão.[647]
Ao companheiro de partido, Portinari, Graciliano dedicava admiração
fraterna. Escreveu “O estranho Portinari”, em O Jornal, 01-07-1943[[648]],
lembrando-se de 1937, quando posou para o retrato da edição de maio daquele ano
da Revista Acadêmica, n. 27, sobre Angústia:
Às cinco horas julguei
que a cabeça estivesse pronta: certamente não era preciso acrescentar-lhe um
cabelo ou uma ruga. Portinari examinou-a, virou-a, mediu-a, murmurando frases
soltas, repetindo uma que se ia tornando estribilho: – Eles não sabem como é
que é.
Homem estranho,
Portinari, homem de enorme exigência com a sua criação, indiferente ao gosto
dos outros, capaz de gastar anos enriquecendo uma tela, descobrindo hoje um
pormenor razoável, suprimindo-o amanhã, severo, impiedoso. Dessa produção
contínua e contínua destruição ficou o essencial, o que lhe pareceu essencial.
Clara Ramos reproduz um bilhete e uma significativa carta do pai ao
amigo. O bilhete é de 04-08-1949[[649]],
registrando sua visita à exposição do painel “Tiradentes”, mas a visita é de
alguém avesso a vernissages.
Estive uma hora hoje a
admirá-lo. Não valia a pena vir ontem – dia de gente fina. Voltarei depois
muitas vezes, naturalmente.
A carta, de 13-02-1946, é uma reflexão estética
inquietante, divulgada por Annateresa Fabris e Mariarosaria Fabris:
A sua carta chegou muito atrasada, e receio que
esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há
trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos
deformações; contudo as deformações e a miséria existem fora da arte e são
cultivadas pelos que nos censuram.
O que às vezes pergunto a mim mesmo, com
angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a
trabalhar? Desejaremos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns
exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças?
Dos quadros que você mostrou quando almocei no
Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança
morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e
sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que
espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de
rosa, e isto me horroriza.
Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha
amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela,
não lhe parece? Veja como os nossos ricaços em geral são burros.
Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas
se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso,
porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os
ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos,
pois sem isto não temos arte.
E adeus, meu grande
Portinari. Muitos abraços para você e para Maria.[650]
Em 1946, a Livraria do Globo, Porto Alegre, publicou Histórias Incompletas, com capa
ilustrada a partir de xilogravura de Fayga Ostrower. O livro reúne além de
contos, capítulos de Vidas secas e de
Infância, acentuando como
característica do estilo geométrico de Graciliano o construtivismo por
retábulos, quadros em que o independente, fechado em si, é simultâneo ao
incompleto, que pede sequência – um estilo de fotograma, que revela sua vocação
para o cinema e pode explicar o “caos organizado” visto por Antonio Candido em Angústia[651].
A experiência foi repetida em 1960, com Histórias
agrestes, publicação póstuma organizada por Ricardo Ramos, com contos de Insônia e capítulos de Vidas secas, Histórias de Alexandre,
Infância e Memórias do cárcere.
No prefácio, Ricardo Ramos lembra que entre os manuscritos de Infância encontra-se a folha em que o
pai organizou os capítulos, cada um deles com o título emoldurado com retângulo
traçado por fortes linhas negras – num mosaico com aparência de “organograma”.[652]
Graciliano foi convidado pelo jovem comunista, primo do futuro
ministro Célio Borja, para ser patrono (ou paraninfo, em alguns registros) dos
colegiais formandos de 1946 do Instituto Lafayette. Ricardo Ramos lembra que o
pai, mesmo reclamando que o rapaz da juventude comunista, Sylvio Borba, lhe
havia arranjado uma caceteação, preparou um discurso significativo para o
evento. Célio Borja, católico que também era da turma, em depoimento contou que
houve negociação na escolha dos convidados para que se buscasse um equilíbrio
entre o comunismo e o conservadorismo – e assim o primo sugeriu que ele,
católico, fosse o orador, mas Célio empurrou a tarefa para outro colega,
Antonio Carlos Villaça: “Criou-se então uma situação desagradável, até que no
fim o Villaça não aceitava a ideia do Graciliano como paraninfo e eu aceitava
porque gostava do Graciliano. E assim foi. E o Graciliano fez um discurso
primoroso. Pequeno, mas primoroso”.[653]
Não espero que sejam
felizes: espero que sejam úteis.
Receio que estas palavras
soem mal em numerosos ouvidos. A culpa é dos rapazes que, insensíveis às nossas
glórias, voltaram as costas ao passado, quiseram saber a opinião de um transeunte.
Dirijo-me a eles de coração aberto. Não, meus caros amigos, não lhes desejo
felicidade. Seria o mesmo que desejar-lhes a morte.[654]
Graciliano foi incumbido de compor uma antologia
nacional de contos que seria publicada pela Casa do Estudante do Brasil. Como
conta no prefácio, com seu humor característico, pesquisou por todos os meios e
cantos do Brasil, enviou correspondências, folheou “revistas e jornais velhos”,
encafuou-se dois meses na Academia de Letras e “outros dois na Biblioteca
Nacional”, em busca de contos do século XIX e de meados do XX, para uma seleta
que não se limitasse aos consagrados, reparando injustiças. Com a publicação
póstuma, em 1957, Aurélio Buarque de Holanda, em entendimento com Ricardo
Ramos, escolheu e inseriu na antologia o conto “Minsk”, de Graciliano. A obra,
em três volumes, foi organizada por agrupamentos regionais: I – Norte e
Nordeste, II – Leste, III – Sul e Centro-Oeste. Contos e novelas passou em edições posteriores ao título Seleção de contos brasileiros.
Escrevi às academias de
letras do país e às diretorias de instrução pública. Em geral não me
responderam, ou deram respostas ásperas.
Graciliano traduz um desaforo vindo com solecismos, segundo ele mais
ou menos nestes termos:
Tratamos de assuntos
graves, não nos ocupamos com tolices. Não amole.
Diz que recebeu de Fernando de Noronha a notícia:
Não temos literatura. O
senhor compreende. E tal, enfim etc.[655]
Em entrevista a Homero Senna, em 1948, ao alfinetar os modernistas,
mencionou a antologia, que ainda estava em preparo.
Por dever de ofício,
pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola
há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do
modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto:
isso justifica uma glória literária?
Nas leituras que tenho
feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários
contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam
grandes em qualquer literatura.
Só posso atribuir
isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos
líderes modernistas, estes se achatam completamente.[656]
Ainda na entrevista de 1948 a Homero Senna, Graciliano comentou que
além do trabalho de inspetor de ensino, era revisor do Correio da Manhã. Clara Ramos, que acompanhava o pai como jovem
jornalista do Correio, acrescenta que
os dois empregos, somados aos parcos direitos autorais da literatura,
sustentavam então um apartamento mais amplo na Rua Belisário Távora, 480, em
Laranjeiras.[657]
Decretada a ilegalidade do Partido Comunista em 1947, seu órgão
oficial, Tribuna Popular, foi
substituído pelo extraoficial Imprensa
Popular, igualmente com a participação de Graciliano. Em O velho Graça, Dênis de Moraes informa
que Graciliano passou a trabalhar como copidesque no Correio da Manhã em 1947, substituindo Aurélio Buarque de Holanda,
por quem foi indicado. Uma das anedotas a respeito de sua aversão aos textos
farfalhudos que corrigia é o xingo que teria exclamado durante uma dessas
tarefas: “ ‘Outrossim’... ‘Outrossim”... é a puta que o pariu!” A
sala que frequentava com Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux era apelidada de Petit Trianon[658]. Audálio Dantas, em seu artigo “O
jornalista Graciliano Ramos”, retoma a densa imagem de Antonio Callado
publicada em O Estado de São Paulo,
19-03-1978: “O tigre na jaula de sol do Correio da Manhã”: “O velho Graça, numa sala que recebia de chapa o
sol da tarde, filtrado pelas persianas, batendo em listras sobre a mesa onde
ele corrigia textos importantes destinados à página nobre do jornal”[659].
Ricardo Ramos lembra a convivência divertida do pai com o dono do Correio, Paulo Bittencourt: quando este
aludiu ao estrago que os comunistas no poder fariam ao maquinário novo que
tinha adquirido para a modernização do jornal, ouviu:
Você é burro ou é doido?
Então acha que vamos quebrar as máquinas novas, desperdiçar esse patrimônio?
Vamos não. A diferença é que botamos uma mesa aqui e você vai trabalhar, em vez
de ficar saindo quando mulher telefona, viajando meses, e a gente ganhando o
seu dinheiro.
Graciliano não foi ao banquete comemorativo do cinquentenário do Correio da Manhã. Paulo Bittencourt
choramingou que seu lugar reservado ao lado dele tinha ficado vazio. Graciliano
disse que não se sentava com patrão e quando este disse que era um patrão
diferente, ouviu:
Você que pensa. Todo patrão é
filho da puta.[660]
A fundação em 1942 da sociedade que a seguir foi batizada Associação
Brasileira dos Escritores – ABDE – firmava como objetivo a profissionalização
do escritor, mas assumiu a luta pela redemocratização do país, com destaque
para o I Congresso, em São Paulo, 1945. Uma crise grave ocorreu em 1949, no Rio
de Janeiro, durante a eleição da direção nacional da associação, em que o
embate se estereotipou no confronto entre duas posições: fazer respeitar os
direitos profissionais do escritor versus fazer política, tendência atribuída
aos comunistas, que tentaram e conseguiram tomar o poder dos vencedores da
eleição, autodenominados “democratas”, na chapa presidida por Afonso Arinos. O
resultado foi uma grande debandada de associados em protesto ao comportamento
dos comunistas, que formavam a chapa de Homero Pires[661]. Rubem Braga escreveu a respeito
durante todo o processo, mas não nomeou Graciliano nem mencionou o xingo que
ele teria berrado, à guisa de pronunciamento-convite, contra as duas alas,
quando o intimaram a se manifestar. Na edição de 09-04-1949[[662]],
Diário de Notícias, Braga frisou a
altercação entre Dalcídio Jurandir e Drummond:
Vimos agora a introdução
de um novo processo (bastante velho, aliás...) de vitória eleitoral: a
violência física.
Não se envergonharam eles
em agredir um homem como Carlos Drummond de Andrade, tentando inultimente
arrebatar-lhe os livros da Associação que alguém lançara violentamente à mesa
dizendo não valerem nada, e que o poeta guardara, em sua qualidade de 1º
secretário que acabava de ser empossado da maneira mais clara e insofismável
pelo ex-presidente Álvaro Lins, com apoio da maioria dos ex-diretores.
A atual diretoria, eleita
por uma margem de 100 votos perfeitamente legítimos, está inclinada a renunciar
e retirar-se da Associação. Os que votaram nela certamente a acompanharão. A
ABDE ficará apenas com alguns escritores e com uma certa massa confusa de
meio-letrados.
Após a renúncia da chapa vencedora, os comunistas tomaram posse em
maio de 1949, com a presidência de Homero Pires (que não era do PCB, vinculado
à Esquerda Democrática). Graciliano permaneceu agrupado no conselho fiscal.
Sobre as causas da renúncia, um esclarecimento dos comunistas foi publicado em Diário de Notícias, 07-05-1949[[663]],
apontando o comportamento suspeito dos supostos vencedores:
As eleições celebradas a
26 de março chegaram ao seguinte resultado: Homero Pires, 364 votos dos
eleitores presentes, e 14 em separado; Afonso Arinos, 116 votos dos consócios
comparecentes, e 316 em separado.
Mas, explica o texto, embora fosse necessário comprovar a autenticidade
desses votos de ausentes, ao invés de chamada de nova assembleia para isso,
forçou-se a posse imediata da nova diretoria – daí o tumulto e o impedimento da
declaração de posse por parte dos oponentes.
Em 1956, após o desmascaramento do stalinismo pelo relatório Khrushchov, Dalcídio Jurandir, em longa carta
publicada na Imprensa Popular,
09-10-1956[[664]],
com pedido de desculpas pelos equívocos como militante do PCB, tocou no assunto
da ABDE:
Minha atitude nas
agitações da ABDE, por exemplo. Fomos um modelo de como tratar mal aqueles
escritores e companheiros de vida literária que divergiam e divergem de nós.
Houve, naquela ocasião, o erro de parte a parte. Mas de nosso lado,
confundíamos divergência com luta corporal, preestabelecíamos o rancor e o xingamento
sistemático. Parecíamos tomados de uma fria e monótona fúria sectária. E como o
mais responsável pelo que sucedeu na ABDE quero afirmar que aquilo foi uma
vergonha e a culpa, de certo modo, coube a mim unicamente pois me utilizei do
meu cargo naquela Associação para provocar a baderna.
A Rádio Globo anunciou a estreia em 03-05-1949 da radionovela S. Bernardo, com adaptação de Amaral
Gurgel. O evento foi saudado por vários intelectuais pelo alcance cultural de
divulgação de uma grande obra por esse meio.[665]
Clara Ramos registra nova mudança da família, para o apartamento no.
202, na rua Desembargador Alfredo Russell, 62, Leblon[666].
A respeito do velho hábito alcoólico do pai, a autora lembra:
No começo da década de
50, porém, a bebida é uma compulsão que se agrava.
Dissipa-se o pitoresco,
esquece-se a crônica dos ditos e feitos do velho Graça quando mais
“desenvolto”.
Para tratamento de
desintoxicação, o romancista interna-se, acompanhado da mulher e da terceira
filha, numa clínica de repouso na Ilha do Governador.
E pela primeira vez no
Rio, há algum exercício físico: o escritor nada nas praias ainda desertas da
ilha.[667]
Com a ABDE esvaziada, Graciliano participou da comissão organizadora
do III Congresso dos Escritores, programado para ser realizado em 1950, de 17 a
21-04, Salvador-BA. Contra a sabotagem “democrata”, o manifesto que publicaram
na renúncia e a depreciação que impingiram aos escritores que ficaram,
Graciliano escreveu um texto cheio de ironia, datado de 1º de maio de 1950,
conforme a publicação do inédito sob o título “Lembrança do III Congresso”
(incluída análise circunstanciada do período por Valentim Facioli, em “Um homem bruto da terra - biografia
intelectual”).[668]
Ausentes da ABDE os representantes verdadeiros da
literatura nacional, achei absurdo exibirmos as nossas fraquezas. Somos, na
opinião desses homens notáveis, uns pobres-diabos meio analfabetos. Desejávamos
aprender com eles, pois nos habituamos a admirá-los, e quando um batia o pé,
ameaçava afastar-se de nós, gaguejávamos com sincero receio:
– Não, não. Tudo, menos isso.
E corríamos a satisfazê-lo.
Trabalho perdido. Os mestres ásperos, em
manifesto cruel, nos abandonaram, expondo, com legítimo orgulho e rude
franqueza, as suas vantagens e as nossas deficiências.
Mas as criaturas poderosas no jornal e na
política me inspiravam grande respeito – e por causa delas não fui a São Paulo
[1945] nem fui a Belo Horizonte [1947]. Conheço o meu lugar. Temia ouvir as
palavras duras que apareceram depois no manifesto. Prudência.
Agora, vencidas as minhas objeções relativas ao
III Congresso, resolvi desenroscar-me, ir à Bahia. Disse comigo:
– Estou entre indivíduos chinfrins como eu, já
não há motivo para acanhar-me. Não temos um poeta, um romancista, graças a
Deus. Posso viajar.
Enganei-me. Em Salvador encontrei figuras
numerosas de influência nas letras – e arrependi-me de ter voado quatro horas.
Sosseguei. No plenário e na comissão dispensaram as minhas habilidades sem
prejuízo. Da plateia, observei os trabalhos, a harmonia, estranhando às vezes,
ainda sob a horrível impressão do manifesto severo, não perceber nenhum
solecismo nos discursos.
Graciliano traduziu A peste, de Albert Camus, com soluções
de texto próprias e passagens resumidas em linguagem direta – romance publicado
pela José Olympio em 1950[[669]].
Por exemplo: o texto de Camus:
On eût dit que la terre même où étaient plantées
nos maisons se purgeait de son chargement d’humeurs, qu’elle laissait monter à
la surface des furoncles et des sanies qui, jusqu’ici, la travaillaient
intérieurement.
A tradução de Graciliano:
Era como se a terra se purgasse de uma carga de
humores a rebentar em furúnculos.[670]
Márcio Ramos, o
primogênito de Graciliano, suicidou-se em agosto de 1950 depois de matar um
companheiro de pensão, por desequilíbrio psíquico e motivo banal: uma
impertinência do colega com a moça por quem Márcio era apaixonado. A tragédia
foi acompanhada pelo amigo Paulo Mercadante, que tentou, sem êxito, apaziguar a
situação desesperada do rapaz. Clara Ramos cita[671]
o depoimento do amigo:
Cheguei até Graciliano naquela tarde de sábado e
contei-lhe o fato. Senti a dor pesada cair-lhe sobre o rosto e me recordo, como
em foto meio desbotada, cobrirem as suas mãos o rosto todo, fecharem-se,
deslizando devagar até o queixo.
Ricardo Ramos lembra:
Bem depois é que me
ligou [Mercadante], querendo saber do papai: estava ainda acordado, sozinho no
escuro, fumando em silêncio.
Houve um encontro dele
[Márcio] com meu pai, no escritório de Paulo, a que ninguém teve coragem de
assistir e que o deixou ainda mais arrasado.
Então, no quarto dia,
Júnio telefonou: Márcio se suicidara. Iludindo a vigilância de minha cunhada,
saíra e comprara o veneno.[672]
Relativamente a um texto assinado por “Márcio
Ramos” no Diário de Notícias,
07-07-1940[[673]],
comprovada a autoria do primogênito (1916-1950), confirmar-se-ia sugestivo
reflexo da relação entre pai e filho no plano da criação literária: ainda que
não se possa inferir se a intenção é irônica ou dramaticamente acusatória, a
hipótese do memorialismo sob possível transfiguração ficcional de Márcio Ramos,
à primeira vista parece replicar com um “você-fez-o-mesmo-com-os-seus-filhos”
os protestos de Graciliano em Infância
a respeito do que chamou em Memórias do
cárcere, Parte III, 34, de “bárbara educação nordestina”. No momento da
publicação, “Infância (conto)” de Márcio Ramos, reproduzido abaixo, Graciliano, entretanto, havia escrito
somente sete manuscritos e publicado cinco, alguns identificados igualmente
entre parênteses como contos: “Samuel Smiles”, “Os astrônomos”, “O menino da
mata e o seu cão Piloto”, “Um cinturão”, “Fernando”, e, já escritos mas
publicados posteriormente, “Nuvens” e “Chegada à vila” (ver datas de
manuscritos e publicações em Catálogo de
manuscritos do AGR). Nenhum deles trata detalhadamente de sua alfabetização
pelo método violento da palmatória, do isolamento da criança proibida de
brincar com outras, da prisão doméstica na loja do pai, em que descobre a boa
companhia dos insetos, tal como depois Graciliano contaria, por exemplo, em
“José da Luz” e “Leitura”. Uma vez que esses tópicos foram apresentados
primeiramente pela narrativa de Márcio Ramos, fica a sugestão de que a
influência de pai para filho se deu sob os aspectos genéricos do sofrimento da
infância e da aprendizagem confusa e martirizada apresentados naqueles
primeiros capítulos escritos e publicados, e que o filho, ao imitar o gesto
narrativo do pai, acabou por influenciá-lo num contramovimento, fazendo com que
Graciliano se desse conta de que, com sua diretriz pedagógica pelo estímulo ao
autodidatismo contra a escola precária, havia reproduzido como método para
educar os filhos o que sofrera na infância: violência, prisão, isolamento. A
excepcional qualidade em estilo próprio da narrativa de Márcio Ramos faz lamentar
que não tenha florescido ou vindo a público um grande escritor neste jovem
suicida de 1950, como se comprova nestas passagens: a poesia do pisco de luz na
cal descascada em meio às paredes encardidas de poeira, os movimentos
dispersivos do menino na prisão da saleta de estudos, a placidez gaiata na
rememoração dos devaneios de sadismo programados com detalhe para gafanhotos a
serem entregues às formigas, tidas como bichos subterrâneos – nessa qualidade
companheiras propícias à companhia do presidiário condenado à introspecção – ,
o aproveitamento do relógio-réstia (que reaparecerá em Infância vindo de Angústia),
com ponderações irônicas na reflexão muito inteligente, reportada ao tempo de
menino, sobre a lerdeza da velocidade da luz e a subjetividade do tempo nas
horas que não passam, ou ainda a ambientação geral da opressão e das
expectativas criadas por refinados conhecimentos de geografia para viagens
transiberianas libertadoras. Quanto a esse aspecto, tudo indica que Márcio era
craque em geografia, como se vê em Cartas,
25-04-1931[[674]],
de Graciliano ao cunhado Luís: “Márcio está mais animado. Ele se considera uma
besta, mas quando viu um literato daqui meter a ilha de Borneo no Japão, ganhou
coragem e julga-se capaz de escrever para os jornais”. Assim, permanece na
mesma linha do pai, que relembraria depois a sua conexão juvenil entre atlas e
folhetins durante as aulas em Viçosa, quando povoava os mapas com peripécias
rocambolescas da Europa. A esses pontos fortes da narrativa de Márcio Ramos
somam-se outros decorrentes, como as fantasias de aventuras amazônicas ou o ato
falho que trai o menino ao tentar esconder do pai a escova usada como
palmatória. O filho, portanto, com sua possível réplica, afora o sadismo
cangaceiro sobre os gafanhotos como repercussão dos próprios sofrimentos, teria
sugerido tópicos e despertado lembranças que o pai viria então a desencavar de
sua própria Infância de menino
lesado, incapaz daquele sadismo infanto-juvenil, sempre impotente para reações, mas impressionado com a capacidade
de violência dos fortes. Sobre o assunto, Marili Ramos observou: “Em se
tratando de estudo, Grace foi muito exigente com os primeiros filhos.
Esquecido, talvez, de ter acerbamente condenado o método empregado para
iniciá-lo à leitura, castigava severamente os meninos”, “Uma pedagoga, hóspede
do senhor Leobino Soares, sabendo disso, convidou-o para uma conversa
particular. Dessa entrevista, ele saiu alarmado. Deu férias aos pequenos, e
quando voltou a ensinar, foi muito moderado”[675].
Moacir M. de Sant’Ana[676] informa que, em 1930, Márcio e Júnio
eram alunos do Liceu Alagoano.
Infância
(conto)
Marcio Ramos
Entre
os meus dez e quinze anos eu passava a semana trancado em uma pequena sala. Só
aos domingos podia brincar. Nos outros dias tinha que ficar das nove horas da
manhã às cinco da tarde com os olhos e o pensamento pregados na coleção da F.
T. D.
Em
frente a mim se estendia na parede um mapa-múndi; à esquerda, sobre um
tamborete alto, ficava um globo. Em volta da mesinha, nada que me pudesse
desligar do estudo.
As
paredes, caiadas há muito tempo, estavam agora revestidas de uma espessa camada
de pó. A poeira dava à cal o tom de um amarelo sem vida, a cor exata de uma
pessoa doente, anêmica, excessivamente pálida. Às vezes essa palidez se
quebrava um pouco. Em certo ponto se desprendia uma placa de cal e o branco
reflorescia como um ponto de vida nesse conjunto de morte. A sala ficava clara,
como se um pingo de luz tivesse piscado na escuridão. Entretanto, tal um
fósforo que aos poucos se vai apagando, o branco ia perdendo a sua alvura,
encardia-se. E da ligeira depressão provocada pela rachadura não ficava menor
cicatriz. Havia poeira de sobra no interior da sala.
A
uns cinco metros, sob o peso de compridas telhas, as ripas vergavam-se, apoiando-se
nos caibros. Era a parte menos uniforme da sala. O teto não tinha forro. Era
para ele que eu sempre me voltava quando a raiz quadrada ou a versão de francês
me levavam a fechar bruscamente o livro e exclamar:
–
“Que diabo! Esse domingo não chega...” Revistava então, todo o telhado, à
procura de uma novidade. De tanto o observar, eu lhe conhecia todas as
particularidades. Sabia em que ponto se estendiam as ripas mais largas e as
mais estreitas, os caibros mais grossos e os mais finos. Com mais nitidez que o
mapa do meu próprio estado eu gravara na cabeça toda aquela coberta de barro,
de madeira e de teias de aranha.
Cerca
de duas dezenas de tijolos forravam o chão da sala. Tinham a cor da argila
avermelhada, eram grandes e tão lisos como o próprio cimento. Alguns, se não me
engano, não conheciam outros pés que não fossem os meus. A não ser algumas
ligeiras rugas, não se lhes notava na superfície nenhum traço da passagem desse
inimigo da conservação, que é o tempo.
Procurando
quebrar o isolamento, por várias vezes eu trouxera, presas em caixas de
fósforos várias, um razoável número de formigas. Habituadas a uma vida
subterrânea, nenhuma outra espécie de companheiro de quarto poderia melhor se
adaptar àquela modalidade de formigueiro em que eu vivia.
E
eu cismava no excelente camarada que as formigas encontrariam em mim. Todas as
manhãs eu lhes traria, entre outros manjares, açúcar, queijo e gafanhotos
vivos. Os últimos, então, ocupariam o primeiro lugar. Depois de lhes picar todo
o corpo com um alfinete grosso, de arrancar as asas e as patas maiores, aquelas
que facilitam os saltos e os voos, eu os deixaria em contorsões, a algumas
polegadas da entrada do formigueiro. A primeira formiga que os encontrasse iria
apressada participar a descoberta às companheiras. Mais alguns minutos e várias
dezenas delas viriam, uma atrás da outra, concluir o meu trabalho.
Durante
o encontro eu ficaria ao lado das formigas: mas quando um dos gafanhotos se
resignasse a ser arrastado para o interior do formigueiro, eu intercederia em
seu favor: não porque tivesse pena dele, mas por não querer ver tão cedo o
ponto final da luta. Ela me faria esquecer um pouco o domingo, tornaria a
semana menos extensa.
Nenhum
formigueiro, entretanto, consegui instalar no buraco que fizera com um prego
bem comprido num canto da saleta. Todas as tentativas falharam.
A
reclusão despertara em mim uma acentuada curiosidade pela geografia. A folha de
papel desenhando um pedaço do mundo aparecia-me como a tela de um cinema; era
uma imagem bem viva da realidade. Acabei encontrando no mapa o companheiro de
presídio que eu tanto procurara. Quando os jornais traziam um sensacionalismo
qualquer a minha curiosidade se voltava, de início, menos para o sentido do
fato que para o lugar da terra em que ele se passara.
A
aviação se encontrava, nesse tempo, na sua fase de experiência. A travessia do
Atlântico era uma coisa do outro mundo, os “raids” se sucediam, e coberto um
novo “record”, eu o repetia na saleta, em frente ao mapa. A expedição do
general Nobile ao Polo Norte me encheu de entusiasmo. Vim a saber da existência
de numerosas ilhas que até então me eram desconhecidas e lamentei não ter um
mapa minucioso daquelas terras geladas para poder acompanhar a rota do
dirigível “Itália”.
O
sábado era para mim o pior dos dias. Véspera da caçada e do banho no poço, eu o
passava doido para vê-lo escoar-se em duas ou três horas.
Na
luta que se desenrolava entre mim e o tempo funcionava como juiz um relógio de
mecanismo bem simples. Tinha um único ponteiro: o luz do sol, que penetrando na
saleta através de uma telha de vidro, deslizava em um mostrador formado pelos
tijolos. Cada tijolo percorrido era uma hora que se passava. No inverno – não é
preciso lembrar – o meu relógio não funcionava. Há tempos, porém, que lhe
faltava corda. E todas as peças bem ajustadas levavam o ponteiro a seguir
vagarosamente o seu percurso.
Mais
que os outros estava um sábado de setembro levando um tempo sem fim para se ir
embora. De vez em quando eu levantava a cabeça em direção à réstia,
encontrando-a sempre muito atrás do ponto em que julgava achar-se. Olhava-a
demoradamente, com a cabeça cheia de interrogações e de dúvidas. A geografia e
o pequeno volume de ciências físicas e naturais me falavam da velocidade com
que a luz se propaga; e o ponteiro do meu relógio estava justamente a me dizer
o contrário. Com quem estaria a razão, com os frades, os autores dos livros em
que eu estudava, ou com o ponteiro de meu relógio? Decididamente com o último.
A luz não poderia deixar de ser a coisa mais preguiçosa do mundo. Eu tinha de
arranjar um outro relógio, um relógio que trabalhasse de verdade, que andasse depressa,
que encurtasse o tempo. Que encurtasse o tempo, perfeitamente, porque afinal de
contas o tempo nada mais é que um fenômeno oscilante, incerto. O tempo da
alegria se passa com a maior rapidez do mundo, mas o da tristeza tem uma
durabilidade infinda. Pouco importa que em qualquer dos casos tenhamos vivido
tantos minutos, tantas horas, tantos dias. Para o mundo que nos cerca, que não nos pode sentir, o fato é
medido sob certa convenção. Para nós, o verdadeiro relógio é a sensibilidade. O
ponteiro do meu relógio não era acionado pela luz do sol, mas pelas crises de
choro, de raiva, de resignação que me assaltavam dentro daquela saleta escura.
Eram estes estados dalma que levavam a réstia a passar paulatinamente de um
para outro tijolo. O mesmo não se dava com os meninos que passavam o dia
parodiando nos arredores da Cidade os filmes deTarzan e de Buck Jones.
A poucos quilômetros, em uma pequena povoação,
estacionava a estrada de ferro que ligaria a minha cidade à Capital. Quando o
apito da locomotiva me despertava eu fazia mentalmente uma viagem de Lisboa a
Vladvostock. Detinha-me nas estações mais importantes e lembrava delas tudo o
que os livros de F. T. D. me tinham ensinado: a história e a geografia de cada
uma; e à medida que os dias se passavam, o número de estações ia
aumentando.
Nesse
sábado de setembro o silvo do trem não me levou a atravessar a Europa e tomar o
transiberiano. Apesar de ter de repetir pela terceira vez um ponto de
matemática, eu estava fazendo por conta própria uma recapitulação da bacia
Amazônica. Os apitos se seguiam, depois diminuíam de intensidade. Não fui a
Vladvostock, não me preocupei em trocar a geografia pela álgebra. Fiquei na
Amazônia.
Para dar mais vida às
paisagens que a imaginação criava, fechei os olhos. Como se me encontrasse em
pleno sonho, senti as várias passagens do maravilhoso passeio. Um vento brando
a sacudir as árvores e a me açoitar o corpo nu, pronto a ferir a água num
rápido mergulho: as mãos apontando cuidadosamente a peteca para um passarinho
muitas vezes maior que um sabiá, mais bonito que um sofreu. Tive um desejo
louco de crescer e ir viver naquelas paragens. Quando, entretanto, me deixaria
a réstia chegar a ser homem, ela que se demorava tanto a dar passagem ao
sábado? Estavam bem longe os meus vinte anos! A réstia teria de passar muitas e
muitas vezes pelo tijolo.
–
Que horas faltam? Perguntava eu a mim mesmo; e me dividia entre a impaciência
pela chegada do domingo e o terror pela noite próxima: não que me inspirasse
medo aquela nossa noite de cidadezinha do interior; eu era até tido como um
menino esquisito, que não tinha medo de almas, nem do inferno. A noite que me
causava sobressaltos era a hora do castigo, a noite dos bolos: a escova a me
cair dez, vinte vezes nas mãos, quando não levava as lições certas.
– Que horas faltam? Agora a pergunta se
relacionava com a vontade que sentia de chegar à idade de fazer o que bem
entendesse e ir-me embora, morar no Amazonas. Tomando o lápis, me dispus a
levantar a cabeça e calcular o número de horas que me separavam da liberdade;
mas aí me lembrei que prometera a mim
mesmo só olhar a réstia quando estivesse certo de ter ela deixado a sala. Meio
indeciso, detive o pescoço a certa altura, sem saber a qual dos dois intentos
obedecer: se à promessa, se a consulta ao relógio. De repente, sem que eu
quisesse, a cabeça ergueu-se num impulso brusco enquanto as palmas das mãos
subiam rapida e automaticamente aos olhos.
Um
barulho de pés me arrancou, porém, do choque entre as duas vontades. A porta
rangeu; era Papai que me vinha chamar para a aula. Segui-o. O peito tremia-me,
sacudido pelos solavancos do coração. Pela terceira vez eu ia repetir a mesma
lição. Não sabia nada, e a uma resposta disparatada o velho me mandou buscar a
escova. Com as mãos já a me doer, dirigi-me à alcova; ia planejando um
esconderijo para a encomenda. À porta do quarto, vi no espelho do guarda-roupa
o braço cabeludo do velho empunhando a escova; o meu rosto vermelho e molhado
de lágrimas, a boca a soltar gritos. Rangendo os dentes, dei as costas ao
espelho e peguei com força na escova. Tentei parti-la em dois pedaços. Não
conseguindo, levei-a à boca, mordendo-a até não poder mais.
Um
grito me despertou.
–
Não quer vir hoje?
–
Já vou: estou procurando.
Levando
o braço por cima do guarda-roupa, deixei apressadamente o quarto, certo de ter
encontrado um bom esconderijo. Na sala de jantar, quase a dizer que nada
encontrara, a mão de papai se estendeu em direção à minha. Sem que eu notasse
trouxera a escova.
E
vinte bolos bem pesados me estalaram nas mãos nessa noite de um sábado de
setembro. Lá fora, as outras crianças brincavam de calçadinho de ouro e
entoavam a canção de “La Condessa”.
No
outro dia eu tinha as mãos horrivelmente inchadas; nem as podia fechar. Perdera
uma caçada, um banho no poço, um domingo.
E
uma semana duas vezes mais comprida que as de sempre me aguarda.
Segundo Ricardo Ramos, o primeiro livro sobre a
obra de Graciliano, um estudo psicanalítico publicado em 1950[[677]],
não o agradou:
Visivelmente
não queria ser entendido daquele jeito.
Passou a evitar o autor,
um médico simpático, que por três vezes me viu na rua e cobrou a sua opinião.
Eu o avisava, ele ficava calado. Enfim, chegou em casa dizendo que encontrara o
rapaz, contou como tinha sido: – Fui muito camarada. Abracei-o, falei no livro.
Indiretamente agradecendo, inventando, essas coisas. Quando me perguntou se
havia gostado mesmo, respondi: “Meu filho, nós somos dois fodidos”.[678]
No anedotário, há ainda a nota divulgada pelo Diário Carioca, 17-07-1952[[679]]:
no Correio da Manhã, Álvaro Lins
reclamou que, sem ter esse direito, também o seu exemplar Graciliano havia
jogado no lixo, dos dois recebidos: “Você acha que eu ia deixar você ler tanta
bobagem sobre mim?”– Graciliano justificou-se.
Graciliano foi eleito
presidente da ABDE em 1951 e reeleito em 1952, como noticiado, por exemplo, em Diário de Notícias, em 16-05-1951[[680]],
e, no ano seguinte, coincidindo dia e mês, em 16-05-1952[[681]].
Uma página de homenagem a Álvaro Moreyra, que lhe passava o cargo da gestão de
1950, foi publicada posteriormente em Para
todos, 2ª quinzena-11-1957[[682]]:
Conheci Álvaro Moreyra em
1937 – e desde então sempre o achei um homem bom, simples e honesto.
Nesses treze anos muita
água correu por baixo das pontes. Invencíveis países se escangalharam, outros
se dispõem com galhardia a ter o mesmo fim. No ambiente literário do Brasil
numerosas transformações se deram: gente que vivia no leste passou ligeira para
o oeste, e é comum cidadãos cautelosos acenderem ao mesmo tempo velas a Deus e
ao Diabo. Na contradança, das opiniões, Álvaro Moreyra permaneceu fiel às suas
ideias. Certo o indivíduo não é obrigado a pensar invariavelmente de um jeito.
Posso hoje ser ateu e amanhã resolver-me a adorar Jeová, cobrir de cinza a
cabeça nas lamentações, frequentar a sinagoga. Mas se a mudança rápida me for
vantajosa, leva o público a dúvidas. O escritor necessita especial coragem para
tal conversão, que inutiliza a obra realizada. Salvo se o sujeito escreve
apenas com o intuito de encher papel. Diferente espécie de coragem possui
Álvaro Moreyra. Perfeita coerência, na verdade prejudicial se virmos as coisas
do lado prático. Não é agradável andar uma pessoa a chocar em portas fechadas,
esforçar-se por escalar muros altos, enquanto em redor cavalheiros hábeis usam
com proveito escadas e gazuas. Homem honesto.
Devo referir-me aos
outros dois objetivos empregados ali no começo destas linhas. Álvaro Moreyra
tem uma singeleza quase infantil. Rijos padecimentos não lhe deitaram amargor
na alma: conservou neles estranha doçura. Oculta as dores com sorrisos,
conta-nos anedotas: parece recear transmitir-nos a sua mágoa. Somos bichos
complexos, o ofício nos torna vaidoso. E causa-nos espanto vê-lo tão sincero e
modesto. Vamos encontrá-lo à mesa, redigindo; olhamos o trabalho, sugerimos
alteração. Acha o conselho razoável e agradece. Expõe minucioso as qualidades
de um amigo, ausente, ótimo companheiro. Esfrega as mãos a exagerar virtudes
que dificilmente percebemos. Dá-nos a impressão de julgar a nossa camaradagem
um favor. Homem simples.
E bom. Não consigo
furtar-me às comparações. Manejamos folhas – e mordemo-nos. Atacar é fácil,
gostamos de atacar. Se temos ensejo de louvar alguém, ficamos atrapalhados. Não
sabemos cantar loas. Almas secas, duras. Que diabo vamos elogiar nesta miséria?
Somos ásperos. Egoístas, mesquinhos, a naufragar, buscando terra dentro do
nevoeiro. A terra está próxima, chegaremos lá. Difícil entender isso. E
continuamos a arranhar-nos. Nesta tristeza, Álvaro Moreyra nos dá uma lição.
Quer juntar-nos, ignora os nossos defeitos. Impossível notar a fraqueza e a
maldade. Homem bom.[683]
Mesmo com Graciliano na presidência da entidade, Rachel de Queiroz
saudou, em Diário de Notícias, 03-08-1952[[684]],
o aparecimento de uma nova associação, a Sociedade Carioca de Escritores,
vetada a comunistas, que se criava para acabar com a ABDE:
Já era de se pensar
novamente em reorganizar a nossa associação de classe, de vez que perdemos a
ABDE, levada de assalto pelos estalinistas para o lado de lá da cortina de
ferro.
E, pois, já que a ABDE, a
única a levar a sério os nossos interesses – está perdida, dedicada unicamente
a pesquisas da guerra bacteriológica, e à defesa da pátria soviética, temos que
começar de novo, retornar à estaca zero.
A partir de monumental congresso em 1948, dentro do contexto da Guerra
Fria, lançou-se em nova fase o Conselho Mundial da Paz, que o regime soviético
adotou com vigor, disseminando o movimento através dos PCs de todo o mundo, de
tal forma que “Paz” tornou-se, para o proselitismo reacionário, disfarce ou
sinônimo negativo de “Comunismo”. Graciliano, como presidente da ABDE,
participou de muitas manifestações pela paz, contra a bomba atômica. Sob esse
item, foi fichado na polícia política, conforme seu prontuário 11.473, como
proprietário e editor do jornal Partidários
da Paz (ou diretor da Revista Mundial
dos Partidários da Paz) além do registro de várias atividades relacionadas
ao “Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz”.[685]
Em 1951 foi a Porto Alegre, de automóvel, acompanhado de Clara Ramos e
membros da associação, para presidir o IV Congresso dos Escritores pela ABDE. A
Imprensa Popular, 07-10-1951[[686]],
publicou vários artigos sobre o evento, como o discurso da poetisa Lila Ripoll,
e notas internacionais de apoio e louvor enviadas por grandes autores, como
Pablo Neruda. Em 14-10-1951[[687]],
o jornal republicou, com correções, o discurso de encerramento[688]
de Graciliano, no Teatro S. Pedro:
Começo agradecendo a
hospitalidade que nos ofereceram em Porto Alegre. Isto é lugar-comum: os
habitantes dessa cidade podem julgar que recebi a tarefa de expor aqui
salamaleques e cortesias. Não é verdade: estamos realmente agradecidos. Não
esperávamos tanto: acomodar-nos-íamos de qualquer modo – e o que o Rio Grande
do Sul nos deu foi excessivo e nos sensibiliza.
Cavalheiros sabidos
andaram a afirmar seguros, em jornais ricos, que somos uns pobres-diabos, mais
ou menos analfabetos. Paciência. Não nos zangamos. Quando, no correr do tempo,
essas grandes, essas enorrmes suficiências perceberem que não temos propósitos
subversivos, descerão um pouco, chegando até nós – e nos ensinarão qualquer
coisa.
Ninguém teve o intuito de
jogar bombas em Porto Alegre. Desejaríamos fixar a alegria que esse nome nos
apresenta. Não estamos a serviço de nenhuma potência estrangeira. Nunca
diríamos ao gringo: “Entre. Tome conta disto. A casa é sua”.
Não, meus amigos. A casa,
pobre, é nossa. E denunciamos os traidores que desejam vendê-la.
Enfim, pequeninas
calúnias, pequeninas infâmias, não nos atingem. O Congresso, bem ou mal, deu
conta do recado; provou ser possível conseguirmos entendimentos para objetivo
comum. Escritores de várias tendências aqui se encontraram – e, apesar de todo
o veneno espalhado lá fora, não houve barulho, graças a Deus. Estamos de
acordo.
Necessitamos novas
reuniões. Falar muito, discutir, brigar às vezes. Ótimo. Sairemos dessa luta
fortalecidos. Lá fora defenderemos os nossos interesses e a cultura exígua de
que somos capazes. Surgirão descontentamentos, rumorosos descontentamentos, é
claro. Sempre haverá quem diga de nós cobras e lagartos. Que fazer? Estamos
habituados, essas ofensas não nos pertubarão.
Agradecemos especialmente
à senhora Lila Ripoll, admirável mulher franzina que realizou sozinha o
trabalho de vinte homens fortes.
Na Tribuna da Imprensa, de
24-09-1951 e de 10-10-1951[[689]],
Carlos Lacerda, chamando o encontro de “Congresso Comunista de Escritores”,
referiu-se com deboche a prática subversiva e a pautas fora de foco, insinuou o
baixo nível dos participantes, denunciou excessos de gastos e a verba que
Getúlio teria fornecido para a “farra”, além da dispensa de ponto dos
funcionários públicos participantes.
Quanto à repercussão em contexto mais amplo do “a casa é sua”, citado
por Graciliano em seu discurso, Manuel Bandeira, indignado, protestou em Itinerário de Pasárgada, lembrando que
Villa-Lobos pediu sua parceria nas letras das Canções de Cordialidade, como a de “Boas-vindas” e outras, pois o
músico, enojado dos “Happy birthday”, queria criar para tais ocasiões canções
de sabor brasileiro. Dentro desse
espírito, o poeta procurava sempre utilizar frases feitas da nossa
linguagem coloquial. A violência das acusações (veja-se, por exemplo, em Fundamentos, 09-1951[[690]])
justifica a indignação de Bandeira:
Os comunistas aproveitaram a ocasião para
praticar mais uma daquelas sordícies em que são mestres: assoalharam no seu
pasquim que a canção havia sido encomendada a Villa-Lobos e a mim pelo Ministro
da Educação para bajular uma missão norte-americana que compareceria à
cerimônia.[691]
Graciliano voltou a tossir sangue. Clara Ramos lembra que Dona Heloísa
providenciou para ele uma cirurgia das amígdalas.
Como membro do PCB e presidente da ABDE, sua documentação e passagens
foram providenciadas para os festejos do 1º de maio em Moscou e para encontros
com escritores, visitas às cidades e países da orla comunista, ao lado de uma
delegação brasileira de trinta e quatro pessoas, entre operários, escritores,
médicos, músicos, jornalistas, como lista a Imprensa
Popular, 04-05-1952[[692]].
Conta Clara Ramos que o pai também foi convidado para o sesquicentenário de
nascimento de Victor Hugo em Paris. Bastante contrariado, quando se deu conta,
já estava, acompanhado de Heloísa Ramos, pronto para o embarque, em 21-04-1952[[693]].
A experiência foi relatada em Viagem,
título póstumo, dado por Ricardo Ramos[694]
à obra inconclusa, com itens anexos de notas do que ainda deveria ser
desenvolvido.
Depois de andar por
cima de vários Estados do meu país, tinha-me resolvido a não entrar em aviões:
a morte horrível de um amigo levara-me a odiar esses aparelhos assassinos.
Meses atrás, para ir a um congresso em Porto Alegre, rolara nove dias em
automóvel. Tenho horror às casas desconhecidas. E falo pessimamente duas
línguas estrangeiras. Estava decidido a não viajar; e, em consequência da firme
decisão, encontrei-me um dia metido na encrenca voadora, o cinto amarrado, os
cigarros inúteis, em obediência ao letreiro exigente aceso à porta da cabina.
Em seguida veio outro,
que me surgiu mais tarde com o nome de Ivan Riabov e era representante da Voks
em Praga. A Voks, abreviatura, significa Sociedade
para as Relações Culturais da URSS com os Países Estrangeiros. Riabov
exprime-se em russo; fora daí não diz nada.
– Pertence a alguma
associação de classe? – perguntou-me pela boca do sujeito magro.
– Coisa nenhuma –
declarei atarantado.
Minha mulher lembrou
que eu era Presidente da Associação Brasileira de Escritores – e este exíguo
título produziu bom efeito. Tinha-me esquecido inteiramente dele, e não me
passava a ideia de que servisse para alguma coisa: o essencial era haver alguém
a esperar-me na cidade – afirmei. Os dois homens afastaram-se, regressaram
modificados, chamaram-me ao telefone.[695]
Sua
primeira viagem da vida ao exterior teve o rico roteiro de Paris, Praga,
Moscou, Leningrado, outras regiões e cidades soviéticas. Deslumbrou-se com a
Geórgia, retornando por Paris e Portugal. Conseguiu evitar a “encrenca voadora”
e voltar de navio, chegando ao Rio no Anna
C, segundo Clara Ramos, em 16-06-1952: além de beber aguardente de ameixa,
consertar os óculos que se quebraram em Paris (“integral caiporismo, o diabo
zombara de mim”), ser advertido em Moscou por usar binóculos para ver Stalin e
por jogar o cigarro no chão brilhante de mármore do metrô, outras peripécias o
lançaram em roda-viva:
Em Moscou, visita o
túmulo de Lênin e o Museu do Kremlin; interessa-se principalmente pela história
que está sendo feita nas fábricas, universidades, palácios de pioneiros. O
escritor cheio de sensibilidade manifesta-se a cada passo: certa noite sai do
Hotel Savoy à procura de uma personagem de Tolstói, encontra-a horas depois: um
velho mujique numa manhã gelada. Impressiona-o um Romeu e Julieta dançado por Ulanova, “alto em demasia para as
minhas limitações” e, principalmente, a multidão de mãos calosas que o aplaude.[696]
Ricardo
Ramos cita a lembrança de Zélia Gattai: Dalcídio Jurandir, entre constrangido e
gozador, comentou com ela e Jorge Amado que a cúpula do partido havia pedido
que ele ficasse de olho para contornar com panos quentes alguma tirada
inoportuna que Graciliano, mesmo sob vigilância, lançasse nos encontros com os
russos.[697]
Em
janeiro de 1953, ainda em continuidade às homenagens de aniversário a
Graciliano, entre verbetes de outros intelectuais, Dalcídio Jurandir declarou
em Fundamentos, 01-1953[[698]]:
No pessimista
minucioso, agita-se o lírico que namora de longe as terras reais do mais alto e
fecundo otimismo. No revoltado cheio de ideias de destruição, está um espírito
lúcido e quase contemplativo, aceitando e louvando uma revolução que desperta
no homem todas as suas forças de criação e de uma ordem harmoniosa.
Escrito
em meio-tom, contendo-se entre a ironia e o elogio, Graciliano começou a
escrever o livro (que seria intitulado Viagem) já no caminho de volta: os nove
primeiros capítulos são datados: Cannes, 31-05-1952 a 03-06-1952, Mediterrâneo,
04-06-1952, Atlântico, 05 a 15-06-1952. Continua no Rio, a partir de
19-06-1952. O último capítulo é datado no final com Buenos Aires, 05-10-1952,
cidade onde tentou cirurgia do câncer na pleura, com auxílio e presença
constante do seu ex-companheiro de prisão, Rodolfo Ghioldi, do PC
argentino. A obra foi publicada
postumamente pela José Olympio, com capa de Portinari, lançada na data de
aniversário de Graciliano, em 27-10-1954, informou a Última Hora, 26-10-1954[[699]],
assim como já tinha ocorrido em 27-10-1953 no lançamento de Memórias do cárcere. A Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, 08-11-1954[[700]],
anunciou em letras garrafais “Graciliano Ramos no índex do Partido Comunista”,
para comunicar que a Imprensa Popular não
permitiria – antes de analisar o conteúdo do livro – a publicação de seu
anúncio pela José Olympio. Também Memórias
do cárcere era obra mantida sob silêncio pelo periódico. Em anúncios da Livraria Independente pela Imprensa Popular, Viagem apareceu em meio a outras obras, uma vez sem o nome do
autor, em 23-11-1954, e outra em 25-01-1955[[701]].
O órgão do PCB, Imprensa Popular, sob
a direção de um dos irmãos amigos vizinhos dos tempos de Viçosa, Pedro Mota
Lima, apresentou resenhas, notícias e entrevistas sobre outras viagens à URSS e
ao bloco soviético, como o livro argentino Por
tierras de pan e paz, em 31-12-1954, e, com destaque para o escritor
Affonso Schmidt, anunciou sua viagem em 14-11-1954, entrevistou-o em
01-01-1955, saudou o livro que escreveria a respeito, em 05-01-1955[[702]].
Em reportagem sobre a União Soviética, José Guilherme Mendes em Correio da Manhã, 30-09-1955[[703]],
lembrou-se do que disse Graciliano na época em que preparava o livro: “Quero
escrever um livro mostrando que aquilo não é o Paraíso nem o Inferno, pois nada
disso existe”. Heloísa Ramos deu palestra sobre a URSS, na Associação Feminina,
com destaque para os cuidados com as crianças e a participação da mulher, como
noticiou Imprensa Popular, 10-07-1952.
Momento Feminino, 07-1952[[704]],
colheu suas impressões: “Saindo de um país onde, segundo afirmou o Ministro da
Educação, em 1950, morre uma criança de dois em dois minutos, percorremos as
creches, jardins da infância, e vimos crianças robustas e felizes”; “A União
Soviética tem as suas portas abertas a todos os amigos da paz, a todos que
desejam realmente ver e sentir esse mundo novo que surgiu na Pátria do Socialismo”.
Em
Viagem, Graciliano Ramos fala de seu
encontro com Sattva Brandão, filha do grande líder comunista, o viçosense
Octávio Brandão, que esteve exilado na URSS de 1931 a 1946. Sattva Brandão e
seu marido Zarem Chernov[705]
traduziram para o russo Vidas secas, publicado
em 1961.
As irmãs Volia e Sattva
Brandão, residentes em Moscou, foram visitar-me, e, em paga, estive em casa
delas, apartamento exíguo num sexto andar. Além das duas, vive lá Zarem, casado
com Sattva. Esse rapaz embrenhou-se no português; para habituar-se à língua,
iniciou a tradução de um dos meus livros com o auxílio da mulher. Achou, porém,
dificuldades. Ao avistar-se comigo, apresentou-me um caderno onde registrou
numerosas dúvidas. Sattva pretendera esclarecê-lo; tinha-se embrulhado também,
e ali no sofá, percebendo-lhe um erro, Zarem ria, asseverando loquaz haver
acertado. Parece criança, uma robusta criança de vinte e poucos anos. Isto me
aproximou dele. Não o desiludi com a afirmação razoável de que o livro não
seria publicado. Zarem pensa de maneira diferente. Para convencer-se,
datilografou meia dúzia de capítulos, ofereceu-os a dez amigos, que representam
a média dos leitores, e reuniu cuidadoso as opiniões deles. O resultado não foi
desfavorável.[706]
Referida
a André Gide, escritor homossexual, e aos livros de decepção com a URSS que
escreveu após visitar a União Soviética, Ricardo Ramos lembra a anedota: uma
senhora teria perguntado a Graciliano se ele tinha voltado da Rússia como Gide,
ao que ele respondeu: “O quê, minha senhora, pederasta?”[707]
Com
fortes dores no peito, Graciliano foi encaminhado para exames pelo jovem amigo
médico Reginaldo Guimarães. Diagnosticado o câncer no pulmão (pleura)[708],
foi para Buenos Aires, onde havia um centro avançado de tratamento. A viagem foi
custeada com auxílio do PCB, que amealhou contribuições. Mas sua condição
estava incontornável – os médicos não continuaram a cirurgia. Antes de voltar,
acompanhado de Heloísa e Clara, recuperou-se no Sanatório Anchorena, recebendo
visitas de escritores argentinos e do amigo Rodolfo Ghioldi.[709]
A
irmã Daia, Anália, que, menina, cuidava dos seus filhos na viuvez de 1920, veio
visitar Graciliano e, católica, preocupou-se em convertê-lo para sua salvação.
Como lembra Ricardo Ramos, o Padre José Leite (que tinha recebido a
dedicatória: “Ao padre Zé Leite, um santo capaz de doar sangue ao diabo”[710]),
consultado, orientou que não se devia atormentar uma pessoa doente, que
Graciliano ateu era melhor que muito católico[711].
Em Diário de Notícias, 18-12-1953[[712]],
a respeito de Memórias do cárcere, Eneida
entrevistou Padre José Leite, sob o título “Personagem muito importante”.
“Isto
se acaba” – Rodolfo Ghioldi lembra a Clara Ramos[713]
os resmungos de Graciliano, “com desgosto e serenidade”, nos momentos de dor
lancinante. Anestesiado a morfina, em doses cada vez mais consecutivas[714],
passou os meses finais de sua vida em casa, cercado de familiares e de amigos
que o visitavam, e viveu seus últimos
dias, de final de janeiro a 20 de março de 1953, na Casa de Saúde São Victor, Praia
de Botafogo.[715]
A
homenagem pelos seus 60 anos em 27-10-1952 pacificou as alas separadas havia
três anos pelo episódio da ABDE, a tal ponto que o católico Jorge de Lima
liderou a cerimônia na Câmara Municipal[716],
onde Clara Ramos representou o pai, enquanto em casa, junto aos familiares, ele
ouvia pelo rádio os discursos de Jorge Amado, José Lins do Rego, Haroldo Bruno,
Peregrino Júnior e outros. Clara Ramos lembra:
No final da reunião,
ao esvaziar-se a casa das últimas visitas, ele conclui pensativo:
– Eu vou morrer.
Amigos e inimigos juntos, a homenagear-me... Isso foi homenagem póstuma.[717]
A
revista Manchete, 15-11-1952[[718]],
publicou, em meio a fotos da cerimônia com a presença de amigos, como
Portinari, reportagem extensa e o depoimento de Graciliano a José Guilherme
Mendes, sob o título: “O romance é tudo nesta vida”. Ricardo Ramos destaca o
que o pai na conversa, publicada, acrescentou: “O romance é uma forma superior
de vida”.[719]
Moribundo,
Graciliano empenhou-se, com a ajuda de Heloísa na escrita, para desmentir o
jornalista português Marques Gastão, que o havia entrevistado no aeroporto de
Lisboa em 1952. Funcionário do salazarismo, havia reunido no volume As portas do mundo, a partir daquele seu
plantão-sucursal, entrevistas com escritores viajantes, cujos depoimentos
deturpava, segundo Edmar Morel: como relatou com detalhes o jornalista em Última Hora, 17-08-1954[[720]],
o português compôs, por exemplo, uma correlação de Stalin com Hitler e
Mussolini – repudiada por Graciliano: “eu não poderia juntar esses três nomes”.
Notas na imprensa reproduziram um texto de mesmo teor a pedido de Graciliano.
Assim o apresentou Francisco de Assis Barbosa em sua coluna de Última Hora, 05-03-1953[[721]]:
São totalmente falsas
as declarações que me atribui o autor desse livro. Trata-se de safadeza e
má-fé. Minhas convicções políticas e minhas ideias sobre literatura são
notórias. Nunca as desmenti, muito menos a esse indivíduo.
Graciliano
Ramos morreu em 20-03-1953, tendo sido enterrado em 21-03-1953 em jazigo
custeado por Paulo Bittencourt, do Correio
da Manhã. O escultor Honório Peçanha fez sua máscara mortuária, que
provocou o poema de Vinícius de Moraes:
Feito só, sua máscara paterna,
Sua máscara tosca, de acridoce
Feição, sua máscara austerizou-se
Numa preclara decisão eterna.
Feito só, feito pó, desencantou-se
Nele o íntimo arcanjo, a chama interna
Da paixão em que sempre se queimou
Seu duro corpo que ora longe inverna.
Feito pó, feito pólen, feito fibra
Feito pedra, feito o que é morto e vibra
Sua máscara enxuta de homem forte.
Isto revela em seu silêncio à escuta:
Numa severa afirmação da luta,
Uma impassível negação da morte.[722]
O
velório ocorreu em câmara-ardente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Após
discurso do vereador Paschoal Carlos Magno, o féretro foi conduzido para o
Cemitério São João Batista, túmulo 16-724[[723]]
(o bilhete de loteria de Angústia é
16.384 e o prontuário da polícia política é 11.473). Ricardo Ramos lembra:
A emoção de Jorge Amado se acrescentou ao meu
trêmulo suor, ouvi-o com insuportável nó de garganta.[724]
Em
depoimento ao Jornal do Brasil, 15-06-1984[[725]],
Heloísa disse:
Nunca fui ao cemitério
visitar o túmulo de Graciliano. Ele está vivo dentro de mim.
.
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de Moraes (Gogol, O capote), José
Lins do Rego (Lermontov, O fatalista),
Lauro Escorel (Turgueniev, O encontro),
Valdemar Cavalcanti (Dostoiévski, Ela era
doce e humilde), M. Julieta e C. Drummond (Saltykov-Schedrin, Dois pequenos mujiques), Rubem Braga
(Saltykov-Schedrin, Um mujique alimenta
dois funcionários públicos), Carlos Lacerda (Tolstoi, A morte de Ivan Ilitch), Joraci Camargo (Tolstoi, Alexis - o “Pote”), Alfredo Mesquita (Tolstoi, Os
três staretzi), Joel Silveira (Lieskov, Um
tolo), Marques Rebelo (Uspenski, O
mestre-escola de aldeia), Aurélio Buarque de Holanda (Korolenko, Uma rapariga estranha), Lourival Gomes Machado
(Garchin, O sinal), Rachel de Queiroz
(Tchekhov, O coração de Olenka),
Manuel Bandeira (Tchekhov, Vanka),
Luís Martins (Tchekhov, O violino de
Rothschild), Oswaldo Alves (Tchekhov, O
inimigo), Luís Jardim (Sologub, O
arco), Emil Farhat (Gorki, Uma noite
de outono), Edison Carneiro (Gorki, Vinte
e seis e uma), Murilo Miranda (Gorki, Kirilka),
Orígenes Lessa (Andreiev, Os sete
enforcados), Jorge de Lima (Bunin, O
cavalheiro de São Francisco), Guilherme de Figueiredo (Kuprin, O ultraje), Lia Corrêa Dutra (Kuprin, Lenotchka), E. Pequeno (V. Tikhonov, Paciência), E. Pequeno (V. Tikhonov, O lobo-do-mar), Esther Mesquita
(Artzybachev, O revolucionário),
Lúcio Cardoso (Zamiatin, A caverna),
Caio de Freitas (Seifulina, Mãe),
Wilson Veloso (Telechov, O duelo),
Osório Borba (Ehrenburg, Três cachimbos),
Moacir Werneck de Castro (Babel, O
despertar), Afonso Arinos de M. Franco Sobrinho (Olencha, O caroço de cereja), Dalcídio Jurandir
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1951. [Edição dirigida ao público infantil, capítulos extraídos de Histórias de Alexandre: “Primeira
história verdadeira [Primeira aventura de Alexandre]”, “O olho torto de
Alexandre”, “História de uma bota”, “O estribo de prata”, “A safra dos tatus”,
“Uma canoa furada”, “Moqueca”].
RAMOS,
Graciliano. Alexandre e outros heróis. Prefácio “A dioptria de
Alexandre”, de José Geraldo Vieira. São Paulo: Martins, 1974. [1ª edição,
póstuma, 1962. Contendo: Histórias de Alexandre [1ª edição: Rio de
Janeiro: Leitura, 1944: “Primeira aventura de Alexandre”, “O olho torto de
Alexandre”, “História de um bode”, “Um papagaio falador”, “O estribo de prata”,
“O marquesão de jaqueira”, “A safra dos tatus”, “História de uma bota”, “Uma
canoa furada”, “História de uma guariba”, “A espingarda de Alexandre”,
“Moqueca”, “A doença de Alexandre”, acrescidos na edição póstuma “Apresentação
de Alexandre e Cesária” e “Um missionário”], A terra dos meninos pelados
[1ª edição: Porto Alegre: Livraria do Globo, 1939, com ilustrações de Nelson
Boeira Faedrich; há registros de edição, por Fernando A. Cristóvão, em: Rio de
Janeiro: Pan Infantil, agosto e setembro de 1937 ou 1940 como HQ, por
Clara Ramos] e Pequena história da República [1ª edição, póstuma: revista
Senhor: Rio de Janeiro: nºs de março e abril de 1960]].
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Janeiro: Pan Infantil, agosto e setembro de 1937, por Fernando A.
Cristóvão, ou 1940 como HQ, por Clara Ramos].
RAMOS,
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Edição de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014.
[coletânea póstuma].
RAMOS, Graciliano. Carta a Octavio Dias Leite. Homenagem a Graciliano
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edição, especial: Rio de Janeiro: Record, 1980 - a partir da 3a.
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RAMOS, Graciliano. Cartas de amor a Heloísa. Prefácio de José Paulo Paes. Rio de
Janeiro: Record, 1992. [extraídas de RAMOS, Graciliano. Cartas. Edição de James Amado].
RAMOS, Graciliano. Conversas.
Edição de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014.
[coletânea póstuma].
RAMOS, Graciliano. Dois dedos.
Rio de Janeiro: Revista Acadêmica - R.
A. Editora, 1945. [publicação precedente à de Insônia, com dez contos: “Dois
dedos”, “O relógio do hospital”, “Paulo”, “A prisão de J. Carmo Gomes”,
“Silveira Pereira”, “Um pobre-diabo”, “Ciúmes”, “Minsk”, “Insônia”, “Um
ladrão”].
RAMOS, Graciliano. Garranchos.
Edição de Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2012. [coletânea póstuma].
RAMOS, Graciliano. Histórias
agrestes. Seleção e prefácio de Ricardo Ramos. São Paulo: Cultrix,
1960. [publicação póstuma de amostragem
da obra com “Um ladrâo”, “O relógio do hospital”, “Minsk”, “A prisão de J.
Carmo Gomes” e “Dois dedos”, de Insônia;
“Cadeia”, “Baleia”, “Contas” e “Fuga”, de Vidas
secas; “O estribo de prata”, “O marquesão de jaqueira”, “A safra dos tatus”
e “História de uma bota”, de Histórias de
Alexandre; “Um incêndio”, “Chico Brabo”, “Um intervalo”, “O menino da mata
e o seu cão Piloto” e “Venta-Romba”, de Infãncia,
e, de Memórias do cárcere, “O
advogado Nunes Leite”, “À ordem do chefe” e “Seu Mota”].
RAMOS, Graciliano. Histórias de
Alexandre. Ilustrações de Santa Rosa. Rio de Janeiro: Leitura, 1944.
RAMOS, Graciliano. Histórias
incompletas. Capa de Fayga Ostrower. Porto Alegre: Globo, 1946. [publicação
de amostragem da obra com “Cadeia”, “Festa” e “Baleia”, de Vidas secas; “Um incêndio”, “Chico Brabo”, “Um intervalo” e
“Venta-Romba”, de Infância; “Um
ladrão” e “Minsk”, de Dois dedos – e
o conto “Luciana”, posteriormente publicado em Insônia].
RAMOS,
Graciliano. Ideias novas. Revista do Brasil, ano V, n. 49, 3a. fase, Rio
de Janeiro, jul. 1942. [texto de peça teatral – inconclusa – 1º quadro, cenas
de I a VII - coligido em Garranchos, p.
192-206].
RAMOS, Graciliano. Infância.
Rio de Janeiro: Record, 1984. [1ª edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1945].
RAMOS, Graciliano. Insônia.
Rio de janeiro: Record, 1982. [1ª edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1947,
título definitivo da coletânea, com treze contos, incorporando os dez contos de Dois dedos e acrescentando:
“Luciana”, “A testemunha” e “Uma visita”].
RAMOS,
Graciliano. Linhas tortas. Prefácio
de Brito Broca. São Paulo: Martins, 1972. [prefácio suprimido em edições
posteriores].
RAMOS,
Graciliano. Linhas tortas. Rio de
Janeiro, São Paulo: Record, 1980. [1ª edição, póstuma: São Paulo: Martins,
1962].
RAMOS,
Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro, São Paulo, Record, 1985
(2 v.). [1ª edição, póstuma: Rio de Janeiro: José Olympio, 1953 (4v.)].
RAMOS, Graciliano. O
antimodernista: Graciliano Ramos e 1922. Edição de Ieda Lebensztayn e
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RAMOS, Graciliano. O prefeito escritor: dois retratos de
uma administração. Prefácio de
Luiz Inácio Lula da Silva. Rio de Janeiro: Record, 2024.
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Graciliano. Os filhos da coruja.
Edição de Thiago Mio Salla. Ilustrações de Gustavo Magalhães. São Paulo:
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Graciliano. Viagem (Tcheco-eslováquia – URSS). Rio de Janeiro, São
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Graciliano. Vidas secas. São Paulo:
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edição: Rio de Janeiro: José Olympio, 1938].
RAMOS,
Graciliano. Viventes das Alagoas. São Paulo, Rio de Janeiro: Record, Martins, 1976. [1ª edição, póstuma:
São Paulo: Martins, 1962], [foram acrescentadas em edições posteriores, sem
notificação editorial, duas
crônicas: “Comandante[s] de burros” e “Antônio Silvino”[final mutilado] em: Viventes das Alagoas. 15. ed.. São Paulo, Rio de Janeiro: Record, 1992].
RAMOS,
Graciliano. Viver em paz com a humanidade inteira; Uma visita inconveniente;
Decadência do romance brasileiro. Travessia,
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RAMOS, Graciliano (org). Seleção
de Contos Brasileiros – 1º volume: Norte e Nordeste. Explicação de Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira. Apresentação e Prefácio de Graciliano Ramos. Rio
de Janeiro: Ediouro, 1971. [1ª edição, póstuma: Contos e novelas – Seleção de Graciliano Ramos - 1º volume: Norte e
Nordeste. Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1957]; [contendo:
Pará: H. Inglês de Souza – O baile do
judeu, José Veríssimo – O serão,
Eneida de Morais – O guarda-chuva;
Maranhão: Artur Azevedo – Útil inda
brincando, Aluísio Azevedo – Demônios,
Coelho Neto – Os pombos, Viriato
Correia – Ladrão (confissão de um
assassino), Humberto de Campos – O
monstro; Piauí: Francisco Pereira da Silva – O espelho, Humberto Teles – Vento
seco; Ceará: Raimundo Magalhães – O
lobisomem, Herman Lima – Alma bárbara,
R. Magalhães Jr. – Rio movido,
Cordeiro de Andrade – Manhã triste,
Rachel de Queiroz – Retrato de um
brasileiro, Melo Lima – Pai e filho,
Moreira Campos – Coração alado; Rio
Grande do Norte: Peregrino Júnior – Ritinha,
Humberto Peregrino – Pedro Cobra,
Milton Pedrosa – O último título;
Paraíba: José Maria dos Santos – A volta
dos cães; Pernambuco: Medeiros e Albuquerque – O ratinho Tique-Taque, Alberto Rangel – Bucho-de-piaba, Mário Sette – Um
sereno de casamento, Múcio Leão – A
última viagem do Almirante Alcino Silva, Luís Jardim – O castigo, José Carlos Cavalcante Borges – Felicidade; Alagoas: Graciliano Ramos – Minsk [inclusão póstuma por iniciativa de Aurélio Buarque de
Holanda], José de Morais Rocha – O Major
Fausto, Carlos Paurílio – Orfanato,
Luís Augusto de Medeiros – Prelúdio em si
menor, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira – Retrato de minha avó, Bruno Accioly – João Urso].
RAMOS, Graciliano (org). Seleção
de Contos Brasileiros – 2º volume: Leste. Apresentação e Prefácio de
Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966. [1ª edição, póstuma: Contos e novelas – Seleção de Graciliano
Ramos - 2º volume: Leste. Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil,
1957]; [contendo: Sergipe: João Ribeiro – Só
a vista faz fé, Joel Silveira – Onde
andará Esmeraldo? ; Bahia: Urbano Duarte – Gangorra, Xavier Marques – A
vida do homem, Dias da Costa – Alucinação; Espírito Santo: Rubem Braga
– Eu e Bebu, na hora neutra da madrugada;
Rio de Janeiro: Alberto de Oliveira – Os
brincos de Sara, Domício da Gama – Só,
Raul Pompéia – Tílburi de praça,
Miécio Táti – As sete cores do Arco-Íris;
Guanabara: França Júnior – Encomendas,
Machado de Assis – A causa secreta,
Luís Guimarães Júnior – Paulo e Virgínia
(Cartas confidenciais), Pedro Rabelo – Mana
Minduca, Magalhães de Azeredo – O
Natal de frei Guido (Lenda mística), Mário de Alencar – Coração de velho, Tristão da Cunha – História da amorosa viúva e dos sete amantes
frustrados, Lima Barreto – Sua
excelência, João do Rio – D. Joaquina,
Gastão Cruls – G. C. P. A., José
Geraldo Vieira – O filho de Maria Bárbara,
Marques Rebelo – Na Rua Dona Emerenciana,
Lia Correa Dutra – Mundo perfeito,
Léonie Tolipan – A intérprete; Minas
Gerais: Afonso Arinos – Joaquim Mironga,
Godofredo Rangel – O destacamento,
Aníbal M. Machado - Tati, a garota, Rodrigo M. F. de Andrade –
O enterro de seu Ernesto, João
Alphonsus – A noite do conselheiro,
Carlos Drummond de Andrade – Um escritor
nasce e morre, J. Guimarães Rosa – A
hora e vez de Augusto Matraga, Francisco Inácio Peixoto – A fuga, Oswaldo Alves – Dorme, meu filho, Murilo Rubião – Ofélia, meu cachimbo e o mar, Otávio
Dias Leite – O defunto, Fernando
Tavares Sabino – Alucinação].
RAMOS, Graciliano (org). Seleção
de Contos Brasileiros – 3º volume: Sul e Centro-Oeste. Apresentação e Prefácio
de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ediouro,
1971. [1ª edição, póstuma: Contos
e novelas – Seleção de Graciliano Ramos - 3º volume: Sul e Centro-Oeste.
Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil, 1957], [contendo: São Paulo:
Valdomiro Silveira – Força escondida, Monteiro
Lobato – Tragédia dum capão de pintos,
Leo Vaz – A rifa, Mário de Andrade – Túmulo, túmulo, túmulo, Ribeiro Couto – O bloco das mimosas borboletas, Antônio
de Alcântara Machado – Carmela,
Sérgio Buarque de Holanda – A viagem a Nápoles,
Orígenes Lessa – A herança, Nair
Lacerda – Um feriado, Guilherme
Figueiredo – A medalha, o revólver e a
dúvida, Caci Cordovil – O homem bom,
Elsie Lessa – Encontro com o passado,
Francisco De Marchi – Bailado entre o
lógico e o absurdo, Miroel Silveira – De
como o Nenzinho chegou a homem, Lúcia Benedetti – Meu tio Ricardo, Helena Silveira – Delírio?, Amaral Gurgel – Nos
olhos de Margarida; Paraná: Nestor Vítor – Agonias, Brasílio Itiberê – Pau-dos-Ferros;
Santa Catarina: Vergílio Várzea – O velho
Sumares; Rio Grande do Sul: J. Simões Lopes Neto – Duelo de Farrapos, Alcides Maya – Guri, Dionélio Machado – Ele
era como um papagaio, Érico Veríssimo – Os
devaneios do general, Darci Azambuja – Por
pena, Ernâni Fornari – Damião, o sem
tempo, Augusto Meyer – Caminhos da
infância, Telmo Vergara – Bolinhos
Última Instância; Goiás: Hugo de Carvalho Ramos – O saci, Bernardo Élis – Pai
Norato, B. Rocha - A filha].
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< archive.org >.
Museu Imperial: buscar
“dami” < https://museuimperial.museus.gov.br/ >.
Templo Cultural Delfos:
buscar “Graciliano Ramos”: < https://www.elfikurten.com.br/ >.
UNESP – Biblioteca
Digital: < https://bibdig.biblioteca.unesp.br/ >.
.
[1] Normalização própria deste trabalho
A Fundação Biblioteca Nacional, através
da Hemeroteca Digital Brasileira, disponibiliza
desde 2012 acesso pela internet a seu acervo de jornais e revistas em: < https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx
>. Os periódicos aqui citados remetem-se a esse endereço sempre que
houver a indicação do número da edição e da tela, com as abreviaturas ed.
e t. (o número da tela nem sempre
coincide com o número de fato da página do periódico). As referências serão,
por exemplo, assim: O Índio, 22-05-1921, ed. 17, t. 2. Daí, para consultar
o site com acesso direto às páginas citadas, escolher no endereço acima o
periódico pelo nome, abrir pela pasta do ano
o número da edição e entrar com o
número da tela no campo do cabeçalho
“página atual”.
Convencionou-se indicar a
disponibilidade e a data de acesso a publicações citadas da internet. A
ausência de tal informação neste trabalho indica que as consultas foram
realizadas entre o final do século XX e o momento de sua publicação em 2024.
Afora isso, não será possível por meios simples comprová-las quando forem
tiradas do ar ou alteradas em seu conteúdo. Daí, tais referências, ao invés de
“disponível em” e “acesso em”, apresentam normalmente apenas o “em:” seguido do
endereço do site.
Referências sumárias no
texto e nas notas remetem à bibliografia final detalhada. As citações provindas
da internet não são especificamente anotadas na bibliografia final.
Sempre que adequado, os textos estão transcritos em ortografia
atualizada.
...
.
.
Edição do autor com distribuição aberta
_________________________________________________________________________________________________
[2]1892-1895 – Quebrangulo
Segundo relato de Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, Séminaire Graciliano
Ramos – Vidas secas, p. 139, nota 33, a viúva Dona Heloísa Ramos
informou-lhe que o nome completo de Graciliano era originalmente “Graciliano
Ferro Ramos de Oliveira”. Entretanto, além dessa menção, não se encontrou na
bibliografia relativa ao autor referência ou documentação com o sobrenome
materno, “Ferro”, no registro de seu nome.
[3] Não há registros de
constestação desses dados. Moacir Medeiros de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 11, informa que Graciliano nasceu
às 4 horas da tarde de 27 de outubro de 1892 “numa modesta casa da antiga Rua
Nova, n. 11, em Quebrangulo”, e apresenta fotos do imóvel, p. 135, 137. Quanto
à hora de seu nascimento, Graciliano em carta a Ló, Cartas, 27 de outubro de 1932, p. 134, confirma: “estou aqui
estragando papel porque hoje é 27 e a sua última carta me veio lembrar que
hoje, às quatro da tarde, entro nos quarenta e um”.
[4] Ver < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/quebrangulo/historico >: distrito criado com a denominação
de Quebrangulo, por lei provincial de 1856, elevado à categoria de vila com
denominação de Vitória, por decreto estadual de 1890 – portanto, no período do
nascimento de Graciliano. Por lei estadual de 1928, voltou a denominar-se
Quebrangulo.
[5] Graciliano qualificou o pai nos termos
acima em entrevista a Joel Silveira, para a revista Vamos Ler! 20-04-1939, ed.
142, t. 8-9. Entrevista reproduzida em Joel Silveira, Na fogueira: memórias, p. 278.
[6] Valdemar de Souza Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, dedica
um capítulo à família Ferreira Ferro, p. 21-28. Registra o hipocorístico
“Mariquinha” a partir da p. 29, também referido por Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 8, e O Índio, 22-04-1923, ed. 113, t. 3.
[7] Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 26, fala sobre a coincidência
da diferença de idade entre Sebastião e Mariquinha, dezoito anos, com a do
segundo casamento de Graciliano: “Aí minha avó teve sossego, o filho deixou de
histórias, do que pudesse constrangê-la. Até que ela não aguentou, provocando:
– Graciliano, você nunca mais me falou de mulher moça e marido velho.
Respondeu, encerrando o assunto: – Minha
mãe, não se fala de corda em casa de enforcado”.
[8] Ver em: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >: Sebastião Ramos de Oliveira
(Viçosa, c. 1860 – Palmeira dos Índios, 18-11-1934, aos 74 anos), Maria Amélia
Ferro Ramos, Mariquinha (c. 1878 –
Palmeira dos Índios, 04-09-1943, aos 65 anos) e os filhos nascidos depois de Graciliano:
Leonor (1894-1915), Otília (1896-1970), Clodoaldo (1898-1899), Otacília
(1900-1915), Clodoaldo (1902-1915), Amália (1903-1989), Anália (1904-1994),
Marili (1907-1987), Carmem (1908-1909), Carmem (1909-1987), Clélia (1912-1998), Lígia (1914-1990), Vanda
(1915-2000), Clóvis (1917-1979), Heitor (1921-1994). As datas indicadas revelam
que Mariquinha engravidou até os seus quarenta e dois anos de idade. Os nomes
dos dois filhos que faleceram ainda lactentes foram repetidos para batizar os
irmãos nascidos a seguir: Clodoaldo e Carmem. No contexto de Graciliano não se
encontrou referência ao costume. Para observações sobre a prática em outros
contextos, ver Fábio Augusto Scarpim, “Família, religiosidade e identidade
étnica nas práticas de transmissão de nomes de batismo em um grupo de
imigrantes italianos”, Revista Brasileira
de Estudos de População. Ver em O
Índio, 15-05-1921, ed. 16, t. 3, e em outros números, indicação da data de
aniversário do Cel. Sebastião Ramos: 16-05. Ver em O Índio, 22-04-1923, ed. 113, t. 3, indicação, na “Crônica social”,
da data de aniversário de D. Mariquinha Ramos: 19-04. Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de
uma obra, p. 23, e Marili
Ramos, Graciliano Ramos, p. 9, unem
os sobrenomes da mãe de Graciliano com um “e” aristocrático: Maria Amélia Ferro
e Ramos. Há também o registro do nome
de solteira: Maria Amélia Ferreira Ferro, em: < https://apalca.com.br/paraninfo/ >. O
Índio, 29-04-1923, ed. 114, t. 3, também registra o “e”: Maria Ferro e Ramos. O último registro dos irmãos de
Graciliano indica o nascimento do caçula, Heitor, quando o primogênito, viúvo,
pai de quatro filhos, tinha 28 anos. O nascimento e batizado de Heitor foram
noticiados em nota na “Crônica social” de O
Índio, 19-06-1921, ed. 21, t. 3. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 73, lembra, ao tratar dos apelidos íntimos dos
familiares e da definição de títulos das obras, que era Graciliano, adulto,
quem escolhia os nomes dos novos irmãos.
[9] Clara Ramos,
Mestre Graciliano – confirmação humana de
uma obra, p. 24. Segundo
Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 9,
os avós paternos de Graciliano eram Tertuliano Ramos de Oliveira
(“proprietário, cantor, boêmio, exímio fabricante de utensílios de cipó”) e
Maria da Soledade Ramos, pais de seis filhos: Sebastião, Inácio, Pedro, Jovina,
Maria (Dona) e Josefa. Os avós maternos eram Pedro Ferreira Ferro e Teresinha
Maria de Jesus Ferro, pais de sete filhos: Maria Amélia, Hermínia, Jacinta,
Serapião, Sebastiana (Mocinha) (“da idade de Grace e chamada Sebastiana em
homenagem a Sebastião Ramos de Oliveira, de quem foi afilhada”), Abílio e
Júlia. E acrescenta que Maria Amélia “quando amamentava o primeiro filho,
muitas vezes amamentou também a irmã e afilhada” de Sebastião. A autora não
comenta a homonímia do apelido entre essa Sebastiana, Mocinha, tia de
Graciliano, e a Mocinha a que ele se refere como sua irmã natural por parte de
pai, em Infância, Minha irmã natural, p. 158-165.
[10] Fac-símile do folheto em Moacir Medeiros
de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e
obra, p. 147. Em entrevista realizada por Joel Silveira para Vamos Ler!, ed. 142, t. 8-9, republicada pelo jornalista em seu Na fogueira: memórias, p. 278,
Graciliano lembra a motivação do pai ao deixar Quebrangulo [Vitória]: “casado
com a filha de um criador de gado, ouviu os conselhos de minha avó, comprou uma
fazenda em Buíque, Pernambuco, e levou para lá os filhos, a mulher e os
cacarecos”. Os avós e familiares de Graciliano por parte de mãe eram
fazendeiros da região. No 1º capítulo
de Infância, p. 11, Graciliano comenta a viagem: “Tínhamos
deixado a cidadezinha onde vivíamos, em Alagoas, e entrávamos no sertão de
Pernambuco, eu, meu pai, minha mãe, duas irmãs. Mas pai e mãe, entidades
próximas e dominadoras, as duas irmãs, uma natural, mais velha que eu, a outra
legítima, direita, dois anos mais nova, eram manchas paradas”.
[11] Infância, Nuvens, p. 11. Ver: Yêdda Dias Lima; Zenir Campos Reis
(coords.), Catálogo de manuscritos do
Arquivo Graciliano Ramos, p. 54: esse é o 6º manuscrito produzido pelo
autor, com data de 14-09-1939, mas é o 1º capítulo disposto na edição em livro
de Infância, em 1945, tendo sido
publicado anteriormente na Revista do
Brasil, n. 33, março de 1941, p. 28-32, disponível em < https://bibdig.biblioteca.unesp.br/handle/10/26343 >. As publicações
avulsas dos capítulos em periódicos quase sempre foram anunciadas como contos e
eventualmente sofreram pequenas modificações na edição em livro do conjunto de
39 capítulos. A obra foi escrita durante seis anos aproximadamente, de 1938 a
1944. Alguns capítulos de Infância não têm registro de publicação
avulsa e anterior à publicação da obra. O
lançamento de Infância, pela Editora José Olympio, foi anunciado para o segundo semestre
de 1945 – ver, por exemplo: O Cruzeiro,
18-08-1945, ed. 43, t. 24.
[12] 1895-1899 – Buíque
Impressões
da infância foi o título
preterido de Infância: ver: Exposição Graciliano Ramos – 1892-1953 -
catálogo da exposição realizada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro em 20
de maio de 1963, item 40, p. 12, < https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital > buscar “Graciliano Ramos”, verbete
descritivo de prova tipográfica com correções do autor. Ver também o título Impressões da infância em fac-símile de
datiloscrito da primeira página, em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos
Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 133.
[13] Infância,
Manhã, p. 20. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 55: 9° manuscrito, de 24-11-1940, 2° capítulo do
livro.
[14] Infância,
Nuvens, Chegada à vila, p. 12, p. 47. Ver:
Catálogo de manuscritos do AGR, p. 54: Chegada à vila, 7° manuscrito, de
30-11-1939, 6º capítulo do volume em Infância,
com publicação anterior em Diretrizes,
06-03-1941, ed. 37, t. 13, 14. Ver: São
Bernardo, cap. 25, p. 136; Angústia,
p. 28 [sexta seção], entre outras.
[16] Infância,
Minha irmã natural, p. 163. Graciliano menciona outra irmã, filha de Sebastião
Ramos: “Tia Jovina envelhecia também, e ainda envelhece, coxa e triste, em
companhia da última de minhas irmãs naturais. Meu pai distribuía migalhas a
essas pobres”. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 59-60: 23° manuscrito, de 17-02-1943, 23° capítulo
do livro, com publicações anteriores: O
Jornal, 28-01-1945, ed. 7594, t. 25, 26; Diário de Pernambuco, 04-02-1945, ed. 29, t. 15, 16, 19.
[17] Infância,
Manhã, p. 25.
[18] Infância,
Verão, p. 29. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 55: 10° manuscrito, de 12-01-1941, 3º capítulo do
livro, com publicação anterior em O
Jornal, 02-02-1941, ed. 6642, t. 13.
[19] Infância,
Um cinturão, p. 35. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 55: 4° manuscrito, de 01-05-1939, 4º capítulo do
livro, com publicações anteriores: O
Jornal, 21-05-1939, ed. 6117, t. 25; Jornal
do Comércio, Lisboa, 19-11-1944.
[20] Infância,
Uma bebedeira, p. 36-43. O costume sertanejo de entorpecer os filhos à noite
com vinho forte sugere a Graciliano não ter sido esta sua primeira bebedeira.
Ver: Catálogo de manuscritos do AGR,
p. 54: 8º manuscrito, de 15-09-1940, 5º capítulo do livro, publicado
avulsamente como conto em O Jornal,
02-11-1940, ed. 6566, t. 21, 22.
[21] Em entrevista a Joel Silveira em Vamos Ler!, 20-04-1939, ed. 142 t. 8, 9,
reproduzida em Na fogueira: memórias,
p. 278, Graciliano informa esta data: “Aí a seca matou o gado – e seu Sebastião
abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96”. Os registros usuais desse período
de seca são de 1898, como foi tematizado em A
bagaceira, de José Américo de Almeida. Sebastião Ramos havia chegado à
fazenda depois de 09-06-1895, conforme data do folheto acima em que avisa a
praça de sua saída de Quebrangulo. A respeito das secas no Nordeste, ver:
Joaquim Alves, História das secas. Século
XVII a XIX.
[22] Segundo informações
disponíveis em < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/buique/historico >, a região,
originalmente habitada por indígenas, tornou-se no século XVIII, a partir de
uma capela construída por um alagoano em sua fazenda, um povoado conhecido como
“Campo de Buique”. As hipóteses etimológicas indicam “Buique” como vocábulo de
origem tupi-guarani para “lugar de cobras” ou “terra do sal”, ou ainda como
onomatopeia referente a trombeta feita de fêmur humano que produzia o som
“buique”. Desmembrada de Garanhuns, “Vila Nova de Buique” tornou-se município
em 1871, passando em 1904 à denominação “Buique”. Por lei estadual de 1948, o
nome do município recebeu acento gráfico: “Buíque”.
[23] Esse capítulo de Infância foi resenhado por Astrogildo Pereira: “O medo do
espectro”, Diretrizes, 09-07-1942,
ed. 106, t. 12: “Os psicólogos já derramaram rios de tinta sobre o problema do
medo em geral e em particular sobre o medo dos fantasmas, das assombrações e
das almas do outro mundo. Debaixo desse último aspecto, ele tem sido também
objeto de estudos sociológicos de não menor importância, sobretudo no que se
refere ao lado por assim dizer político da questão”.
[24] Infância,
Vida nova, p. 59. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 55: 11° manuscrito, de 16-08-1941, 8º capítulo do livro, publicado avulsamente em O Cruzeiro, 01-11-1941, ed. 01, t. 34,
15.
[25] Infância,
O fim do mundo, p. 69-76. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 56-57: 16º manuscrito, de 30-01-1942, 10°
capítulo do livro, publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 2, Lisboa, 31-10-1942, e na Revista do Brasil, n. 55, setembro de 1943. Graciliano situa-se no
final do século XIX e refere-se a um cometa que chegaria “na passagem do
século”: conta que “o cometa veio ao cabo de uns dois anos e comportou-se bem”,
quando a mãe já vivia em outra cidade. O cometa Halley só foi noticiado com
intensidade na década seguinte, em 1910, quando se mostrou mais nitidamente
visível. Assunto por todo o mundo sempre vinculado a superstições, causou
terror e suicídios. Ver, por exemplo: Gazeta
de Notícias, 28-04-1901, ed. 118, t. 1; Gazeta
de Notícias, 13-03-1910, ed. 72, t. 5; O
Século, 18-05-1910, ed. 1145, t. 1-2; Correio
da Manhã, 18-05-1910, ed. 3227, t. 3.
[26] Infância,
O inferno, p. 79-80. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 56: 15º manuscrito, de 25-01-1942, 11º capítulo do
volume em Infância. Em anúncios e
notas sobre o lançamento do número de julho de 1943 da revista Unidade, há menção de texto de
Graciliano ali publicado com o título “O inferno”: ver: A Noite, 01-07-1943, ed. 11273, t. 12; O Radical, 04-07-1943, ed. 3940, t. 8. O episódio foi projetado no
menino mais velho de Vidas secas, que
leva um cocorote de Sinha Vitória ao perguntar sobre o inferno, se ela tinha
visto.
[27] Infância, O moleque José, p. 82-88. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 57: 17º manuscrito realizado
pelo autor, datado de 05-02-1942, 12º capítulo na organização final da obra em
1945, foi publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 3, Lisboa, 15-03-1943.
[28] Infância,
Um incêndio, p. 89-95. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 61-62: 26º manuscrito, produzido em 14-08-1943, 13º
capítulo do livro, publicado anteriormente em Unidade, novembro de 1944. Episódio referido em Caetés, cap. 6.
[29] Infância,
José da Luz, p. 99. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 56: 13º manuscrito, de 28-12-1941, 14º capítulo do
livro, publicado anteriormente em Diretrizes,
12-08-1943, ed. 163, t. 14 e 24.
[30] Infância,
Padre João Inácio, p. 62-68, José da Luz, p. 103. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 56: Padre João Inácio, 14º
manuscrito, de 18-01-1942, 9º capítulo do livro, publicado anteriomente em Autores e Livros - A Manhã, 16-08-1942,
ed. 2, t. 15-16. Personagens também citadas em Angústia (terceira a quinta seções, por exemplo).
[31] Infância,
Leitura, p. 106, D. Maria, p. 119. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 58-59: Leitura, 18º manuscrito, de 08-02-1942,
15º capítulo do livro, publicado anteriormente em Correio da Manhã, 27-08-1944, ed. 15283, t. 29-30; D. Maria, 20º
manuscrito, de 29-03-1942, 17º capítulo do livro.
[32] Infância,
Leitura, p. 107, 109.
[33] Infância,
Escola, p. 112. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 58-59: 19º manuscrito, de 22-03-1942, 16º capítulo
do livro. Apesar da diferença de contexto e do resultado das obras, não deixam
de ser sugestivas as similaridades subterrâneas entre as biografias do “bezerro
encourado” Graciliano e do inseto Kafka, especialmente na relação com o pai
comerciante.
[34] Infância,
Cegueira, p. 139, p. 141. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 60: 24º manuscrito, de 26-07-1943, 20º capítulo
do livro, publicado anteriormente em Vamos
ler!, 05-10-1944, ed. 427, t. 32, 33, 62.
[35] Infância,
Chico Brabo, p. 145-152. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 60-61: 25º manuscrito, de 03-08-1943, 21º capítulo
do livro, publicado anteriormente em Diretrizes,
23-12-1943.
[36] Infância,
José Leonardo, p. 156-157. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 62: 27º manuscrito, de 18-08-1943, 22º capítulo
do livro. Agradeço a Carlos Emílio Correia Lima a lembrança da expressiva
pedrinha como um momento densamente lírico da obra de Graciliano Ramos.
[38] 1900-1904
– Viçosa
Ver a cidade assim nomeada, por exemplo, em O Índio, 13-07-1924, ed. 176, t. 1, no artigo “Cultura do trigo”,
de Moreno Brandão. Por decreto estadual de 1890, a vila de Assembleia passou a
chamar-se Viçosa, tornando-se depois município. Entre variações sucessivas, o
toponímico Viçosa firmou-se em 1949. Anel, Chã Preta, Pindoba Grande viriam a
ser seus distritos ou se desmembrariam como municípios: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/vicosa/historico >.
[39] Infância,
Mudança, p. 170. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 62: 29º manuscrito, de 21-08-1943, 25º capítulo do
livro.
[40] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 14. O
pesquisador menciona a data da mudança: “novembro de 1899”. O relato da mudança
em Infância refere-se a viagem de
toda a família, ao contrário do que ocorreu na mudança por etapas para Palmeira
dos Índios cerca de dez anos depois.
[41] Infância,
Adelaide, p. 173-174. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 62-63: 30º manuscrito, de 16-04-1944, 26º capítulo
do livro, publicado anteriormente em Anuário
Brasileiro de Literatura, n. 7-8, 1943-1944.
[42] Infância,
O Barão de Macaúbas, p. 126-130. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 59: 21º manuscrito, de 27-07-1942, 18º capítulo
do livro, publicado anteriormente na revista Atlântico, n. 4, Lisboa, 21-11-1943. O pedagogo foi projetado por
Raul Pompeia na figura de Aristarco, em O
Ateneu. Ver a respeito: Alfredo Bosi,
“O Ateneu, opacidade e
destruição”, Céu, inferno, p. 38 e
46. Graciliano, nesse capítulo exemplar, altamente expressivo e articulado,
relembra sua repulsa de menino às fábulas pedantes em linguagem arrevesada e o
enjoo que lhe dava o moralismo em tom sentencioso do Barão de Macaúbas. Tratou
do assunto anteriormente em “Um novo ABC”, lamentando as precariedades
pedagógicas que se impingiam às crianças, tal como ele próprio havia
experimentado na infância. Texto coligido em Linhas tortas, p. 174-175, publicado em O Imparcial, São Luís-MA, 04-02-1938, ed. 5827, t. 3, e em Vamos Ler!, 21-04-1938, ed. 90, t. 30.
[43] Infância,
Um novo professor, p. 188-192. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 63: 31º manuscrito, de 18-04-1944, 28º capítulo
do livro, publicado anteriormente em: Correo
Literario, 14-08-1944, “Un nuevo profesor”, Buenos Aires.
[44] Infância,
Adelaide, p. 174.
[45] Infância,
Adelaide, p. 174.
[46] Infância,
Um enterro, p. 185. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 63: 32º manuscrito, de 22-04-1944, 27º capítulo do
livro, publicado anteriormente em O
Jornal, 15-04-1945, ed. 7657, t. 31.
[47] Infância,
Um intervalo, p. 195. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 64: 33º manuscrito, de 26-04-1944, 29° capítulo do
livro, publicado anteriormente em Correio
da Manhã, 24-12-1944, ed. 15384, t. 33.
[48] Infância,
Um intervalo, p. 197.
[49] Infância,
Um intervalo, p. 196. Tornar-se-á
célebre a afinidade literária e ateia de Graciliano com a Bíblia, a cuja leitura ele se dedicou assiduamente, como lembra
Marili Ramos, Graciliano Ramos, p.
32: “Meu irmão possuía uma grande encadernação da Bíblia em dois volumes.
Sempre a lia. Ainda este ano, estive com ela nas mãos”. Fernando Alves
Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura e
valores de um modo de narrar, 1977, p. 135, em nota relativa às
dificuldades de colocação pronominal mencionadas por Graciliano, observa: “Ele
próprio realizou uma aprendizagem penosa, como se pode verificar pelas notas
marginais de sua Bíblia, que ainda se conserva. Esse exemplar da tradução de
Antônio Pereira de Figueiredo, editada no Rio pela Garnier em 1864, tem as
margens cheias de anotações sobre o emprego de pronomes, juntamente com outros
comentários”. No final dos anos de 1980, a equipe “O Dilúculo” do IEB – os
pesquisadores e elaboradores do Catálogo
de manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos – visitamos Dona Ló, Heloísa
Ramos, em sua residência em São Paulo, levados pelos coordenadores Yêdda Dias Lima
e Zenir Campos Reis. A viúva de Graciliano nos mostrou em sua sala um volume da
famosa Bíblia exposta num atril. A Bíblia, em dois volumes, traz dedicatória
manuscrita como um presente de “M. Venâncio”. O Acervo Graciliano Ramos
registra para consulta dois volumes, conforme o Catálogo eletrônico do IEB –
Instituto de Estudos Brasileiros da USP – Universidade de São Paulo: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> literatura> biblioteca do
autor, itens 1 e 2:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=142853 > [vol I] e < Codigo=287271 > [vol II]. Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de
uma obra, p. 156, fala
sobre a Bíblia, “o livro de cabeceira do velho Graça. Possui uma bela edição
com ilustrações de Doré, já estragada pelo tempo e pelas observações jocosas
que o leitor, este de fato irreverente, não se coíbe de fazer às margens do Novo Testamento. Pois é o Velho Testamento que ele prefere, são
trechos do Cântico dos cânticos que
ele sabe de cor”. Ricardo Ramos, Retrato
fragmentado, p. 91-92, lembra-se não só do exemplar do pai, uma edição da
Garnier de 1864, cheia de anotações irreverentes, como também das conversas a
respeito com os monges no colégio em que atuou como inspetor de ensino. Em Letras e Artes – Suplemento de A Manhã, 07-01-1951, ed. 190, t. 2, uma pequena nota
sobre os hábitos de leitura dos intelectuais da capital registra que Graciliano
“nunca tem tempo para ler” – “por isso mesmo desistiu de ler; ou antes, só lê a
Bíblia e os livros dos amigos”. Mas o aspecto mais tocante da relação de
Graciliano com a Bíblia é esse de Infância,
acima referido – inaugural, gênese do seu estilo e da sua predileção pelo Velho Testamento. A percepção que o
menino teve da semelhança entre os desertos das cenas bíblicas e a terra seca
do seu Nordeste faz de Fabiano um Abraão que reluta em imolar o filho para o
nada: “Anda, condenado do diabo”. Apresento, a partir da formulação de
Auerbach, considerações sobre o “bíblico” e o “homérico” em Graciliano, no
artigo “O elogio do marxismo, em Graciliano Ramos”, Krypton, n. 1.
[50] Infância,
Um intervalo, Os astrônomos, Samuel Smiles, p. 196, 201, 203, 206. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 52:
Os astrônomos, 2º manuscrito, de 21-10-1938, 30º capítulo do livro, publicado
anteriormente em Diário de Notícias,
27-11-1938, ed. 3934, t. 13-14.
[52] Graciliano comentou esse aspecto em
resposta a Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras – 20 entrevistas com escritores, p. 189:
“Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de
dicionários. − Consta e é verdade. Dicionário, para mim, nunca foi apenas obra
de consulta. Costumo ler e estudar dicionários”, e acrescentou: “O que sei é que não há talento que resista à ignorância
da língua”. Entrevista publicada originalmente em Revista do Globo, nº 473, de 18-12-1948. Em Infância, p. 238, Graciliano relembrou as tertúlias de Mário
Venâncio: “Sem apanhar direito o sentido das conversas, apoderava-me de alguns
vocábulos, estudava-os no dicionário, empregava-os com energia”.
[53] Infância,
Samuel Smiles, p. 209. Samuel Smiles (1812-1904), escocês, autor de autoajuda.
Ver: Catálogo de manuscritos do AGR,
p. 52: Samuel Smiles, 1º manuscrito, de 18-10-1938, 31º capítulo do livro,
publicado anteriormente em Diário de
Notícias, 13-11-1938, ed. 3922, t. 13, 15, 16.
[54] A prima Emília, que lírica e
generosamente estimulou o menino a ser um astrônomo de letras, acabou por se
fazer núcleo paradoxal na construção narrativa, que nesse passo sugere um
aglomerado de memória entre “Os astrônomos”(30º capítulo, 2º manuscrito) e “O
menino da mata e o seu cão Piloto” (32º capítulo, 3º manuscrito), onde o mesmo
assunto, “perdidos na floresta”, aparece duas vezes. A estória negada pelo pai
era de uma família perdida na floresta. A doce menina, que havia resgatado o
primo para a leitura, agora se tornaria seu algoz ao interditar-lhe a estória
de um menino perdido na floresta. Graciliano detém-se nessa ausência de final
das estórias que o fustigaram, parecendo compor nessas duas interdições
unificadas pelo tema um símbolo de seu anseio pela literatura e da gênese do
escritor de Vidas secas, da família e
dos meninos perdidos no deserto da seca.
[55] Infância, O menino da mata e o seu cão Piloto, p. 210-214. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p.
52-53: 3º manuscrito, de 15-11-1938, publicado em O Jornal, 23-11-1938, ed. 5969, t. 25-26, veio a ser o 32º capítulo
do livro. Sobre as publicações protestantes no Brasil, ver: Micheline Reinaux de Vasconcelos, A gênese da editoração protestante no Brasil: o circuito de difusão das
publicações (1830-1920). Uma edição de 1920 de O menino da mata e o seu cão Piloto traz na quarta capa: Lisboa – Livraria Evangélica, Rua das
Janelas Verdes, 32: agradeço a Zenir Campos Reis cópia do folheto. Uma
edição disponível em Internet Archive, pela University of Toronto – Robarts Library, < https://archive.org/details/omeninodamattaes00port > traz registro também na quarta capa: Convento dos Marianos, com o endereço na
mesma rua. Em endereço similar, encontra-se a Catedral da Igreja Lusitana -
Paróquia de São Paulo. Sobre o convento adquirido
em 1872 pela Igreja Presbiteriana Escocesa, e, posteriormente, em
1898, pela Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, há informações em:
< https://igreja-lusitana.org/index.php/paroquias/paroquia-de-s-paulo-lisboa >.
[56] Infância,
Fernando, p. 215-219. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 53-54: 5º manuscrito, de 03-06-1939, publicado no Diário de Notícias, 18-06-1939, ed.
5104, t. 18, 22, tornou-se o 33º capítulo do livro. Nesse capítulo, Graciliano
menciona o poder e a violência do coronelismo: “Nunca vi regime tão forte”.
[57] Ver em Moacir Medeiros
de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano
Ramos, p. 14, 37: “Um inquérito” – entrevista de Graciliano aos 17 anos
para o Jornal de Alagoas, 18-09-1910.
[58] Infância,
Jerônimo Barreto, p. 225. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 64: 34º manuscrito, de 03-05-1944, 34º capítulo
do livro, publicado anteriormente em O
Jornal, 18-02-1945, ed. 7610, t. 27.
[59] Infância,
Venta-Romba, p. 235. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 66: 37º manuscrito, de 30-05-1944, 35º capítulo do
livro, publicado anteriormente, como “capítulo de memórias”, em O Jornal, 14-01-1945, ed. 7582, t. 25,
32; publicado posteriormente, como “conto”, em Mocidade, Maceió, julho-dezembro 1949, ed. 19, t. 41-43.
[60] Monsenhor Cícero Teixeira de Vasconcelos
(Assembleia, atual Viçosa, 08-06-1892 - Rio de Janeiro, 26-07-1967). Após os
estudos iniciais no Internato Alagoano de
Viçosa, ingressou em 1905 no Seminário
Diocesano de Maceió, ordenando-se padre em 1915. Professor, jornalista,
escritor, foi senador constituinte em 1945, de acordo com informações de
Francisco Reinaldo Amorim de Barros, ABC
das Alagoas – Dicionário biobibliográfico, histórico e geográfico de Alagoas, tomo
R-Z, p. 368.
[61] Infância,
Mário Venâncio, p. 237. Conforme fac-símile de exemplar: “publicação bi-mensal”
(no sentido de “duas vezes por mês”), em M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p.
67.
[62] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 22. O
tempo indicado de duração do jornal, mantida a periodicidade quinzenal,
implicaria mais de vinte edições. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed.
12238, t. 37 e 41, informa em nota sobre O
Dilúculo: “A princípio o jornalzinho trazia os nomes de Cícero de
Vasconcelos e Graciliano Ramos como ‘redatores’. Depois os redatores são as
mesmas pessoas, mas os nomes e a colocação destes se alteram: Ramos Oliveira e
Teixeira Vasconcelos. Mais para diante, pela altura do número 8, tornam-se ‘redatores
e proprietários’, voltando o segundo ao nome antigo, porém agora sem o de. Mais tarde ainda, o nome do Cícero
Vasconcelos – que viria a se ordenar e ser cônego, e, muitos anos depois,
senador por Alagoas – desaparece do cabeçalho, e o jornal, que até o número 7
fora ‘Órgão do Internato Alagoano’, deixa a seguir de ostentar essa declaração,
passa, finalmente, a apresentar como subtítulo ‘Periódico Literário e
Noticioso’ “.
[63] Infância,
Mário Venâncio, p. 237: “O desgraçado título foi escolha de nosso mentor,
fecundo em palavras raras”. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 64-65: 35º manuscrito, de 11-05-1944, 36º
capítulo do livro.
[64] Reprodução fac-similar em M. M. de
Sant’Ana, A face oculta de Graciliano
Ramos, p. 67.
[65] Infância,
Mário Venâncio, p. 239: “O Pequeno
Mendigo [sic] e várias artes
minhas lançadas no Dilúculo saíram
com tantos arrebiques e interpolações que do original pouco se salvou.
Envergonhava-me lendo esses excessos de nosso professor: toda a gente
compreenderia o embuste”. Trata-se de o “Pequeno pedinte”, como se verá abaixo.
[66] Moacir Medeiros de Sant’Ana, em Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 12,
lista também as seguintes publicações do menino Graciliano em O Dilúculo: “Agonia”, 28-08-1904,
“Funeral”, 29-09-1904, por Ramos de Oliveira, e “Saudade”, 24-10-1904, “O
Natal”, 25-12-1904, “Miséria sem conforto”, 03-02-1905, “O amor”, 16-04-1905,
por Ramos Oliveira.
[67] Fernando Alves Cristóvão, em Graciliano Ramos: estrutura e valores de um
modo de narrar, 1977, p. 38, apresenta transcrição do conto publicado em O Dilúculo, nº 1, 24 de junho de 1904. O
autor observa o lapso de Graciliano Ramos, em Infância, quando relembra o título com “Pequeno mendigo” ao invés
do original “Pequeno pedinte”.
[68] Reprodução fac-similar em Moacir M. de
Sant’Ana, A face oculta de Graciliano
Ramos, p. 71.
[69] Infância, Mário Venâncio, p. 238, 240. José Veríssimo, em Cenas da vida amazônica, p. 225-226,
numa sequência de descrições para retratar o serão amazônico, dedica alguns
parágrafos ao candeeiro: “É de metal amarelo. Tem a forma... não sei de quê”;
“É um pé um tanto côncavo como um pires, uma haste da grossura de um dedo
mínimo de moça bonita e quase um palmo de altura. Aqui começa o receptáculo do
azeite – do azeite, porque o querosene no serão seria um anacronismo”; “Possui
mais três aparelhos – um espevitador, um balde para aparar o azeite e um
corta-torcidas”. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, no artigo
“Recordando Graciliano Ramos: a face e os episódios menos conhecidos de um
’humour’ provinciano do escritor que faria 70 anos nestes dias de outubro”,
informa em nota : “Um exemplar da 1ª edição das Cenas da vida amazônica, de José Veríssimo, que Graciliano me
ofereceu, está multicarimbado com: ‘Ramos Oliveira/ Viçosa – Alagoas’ “.
[70] Ver em Moacir Medeiros de Sant’Ana, As leituras do jovem Graciliano Ramos,
p. 7-20
[72] Ver em
Infância, Mário Venâncio, p. 236, as lembranças da Escola Dramática Pedro Silva em Viçosa e a razão de ter tal nome:
“quiseram colocá-la sob o patrocínio de João Caetano; mas o Major Pedro Silva,
senhor de engenho, ofereceu aos amadores uma casa que se arruinava no Juazeiro,
defronte da cadeia” –, “ergueram o palco, os cenários da floresta, do palácio e
da choupana; Joaquim Correntão esmerou-se no pano de boca, vistoso, com três
deusas peitudas”.
[73] [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho,
Pensando em Graciliano, Diário de
Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42.
[74] Infância,
Laura, p. 256. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 65-66: 36º manuscrito, de 18-05-1944, 39º capítulo
do livro. No fac-símile da última página de O
Dilúculo de 26-07-1904, a “S. Amor e Caridade”, (“que me elegeu para
segundo secretário” - Infância, p.
254) aparece num anúncio para eleição de sua nova diretoria – ver em Fernando
A. Cristóvão, Graciliano Ramos: estrutura
e valores de um modo de narrar, 1977, p. 229 (fac-símiles suprimidos na
edição posterior da obra). M. M. de
Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p.
22-23, menciona discurso apresentado pelo menino Graciliano na sessão
comemorativa do 10º aniversário da Sociedade
Recreativa e Instrutora Viçosense, em 1º de maio de 1904.
[75] Infância,
Seu Ramiro, p. 242-246. Ver: Catálogo de
manuscritos do AGR, p. 66-67: 39º manuscrito, de 09-06-1944, 37º capítulo
do livro. Trata-se do último manuscrito realizado por Graciliano dentre os
publicados em Infância. Um outro,
“Minha gata”, não datado, aparentemente inacabado, foi suprimido da obra. Narra
o tempo em que passou a dormir no armazém do pai. Para combater os ratos,
apareceu uma gata. Tornou-se para ele o que havia de mais importante. Não o
censurava, não gritava etc. Afagando-a, descobriu emoções até então
desconhecidas: Catálogo de manuscritos do
AGR, p. 67.
[76] Infância,
A criança infeliz, p. 247-252. Ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 66: 38º manuscrito, de 05-06-1944, 38º capítulo
do livro.
[77] Infância,
Laura, p. 259-260.
[78] Clara Ramos, Mestre
Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 34.
[79] 1905 – Maceió
Entrevista a Vamos Ler! nº 142, 20-04-1939, ed. 142, t. 8-9, republicada em Joel
Silveira, Na fogueira: memórias, p.
279. Entretanto, Graciliano não testemunhou nada mais sobre sua vida escolar em
Maceió. Paulo de Castro Silveira, Graciliano
Ramos – nascimento, vida, glória e morte, p. 32-34, estranha o laconismo em
contraposição a outros intelectuais alagoanos que relembram com mais entusiasmo
os bons tempos passados naquele colégio. Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 32, alude, num equívoco semântico de
análise sintática, à decepção com o ensino formal em episódio relativo ao
assunto, o que teria levado definitivamente o menino Graciliano ao
autodidatismo.
[80] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 74.
[81] Agrippino Grieco, “Corja, Sinhá Dona e
Cahetés”, O Jornal, 04-02-1934, ed.
4386, t. 17, 22, ou em recorte no IEB –
Arquivo Graciliano Ramos, anota: “Dizem-me até que leu Os Maias umas 10 ou 12 vezes”. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p.
114-115, diz: “Sabe de cor capítulos inteiros de Eça de Queiroz (Os Maias, A ilustre casa de Ramires)”.
[82] 1906-1910
– Viçosa
Moacir M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e obra, p. 23,
sugere como período de estudos em Maceió apenas o ano de 1905: “após o
encerramento do ano letivo, a 4 de dezembro, Graciliano volta a Viçosa”, ano
ratificado pela legenda na ilustração da p. 171: “Prof. Agnelo Marques Barbosa
(1863-1936), diretor do Colégio 15 de Março, de Maceió, onde Graciliano estudou
durante todo o ano de 1905”. Também em Graciliano
Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84, Moacir M. de Sant’Ana informa
nestes termos o registro noticiado de uma visita de Graciliano à redação do Jornal de Alagoas: “quando em março de
1909 ele esteve alguns dias em Maceió, vindo de Viçosa, onde residia [...]”.
Assim, referências biográficas indicam sem precisão como período de internato
em Maceió apenas o ano de 1905. Há menções a período mais extenso, como se
Graciliano tivesse estudado em Maceió durante cinco anos, até mudar-se para
Palmeira dos Índios. Entretanto, várias referências, além do “onde estive pouco
tempo” do próprio Graciliano, sugerem o retorno definitivo do adolescente a
Viçosa em 1906, onde permaneceria até o final de 1910, quando passou a residir
em Palmeira dos Índios. [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho, em “Pensando em
Graciliano”, Diário de Notícias,
01-11-1953, ed. 9510, t. 42, relembra: “A loja de fazendas de Sebastião Ramos ficava
defronte da farmácia de meu pai e da casa de nossa residência”; “À noite, em
seu quarto, no sobrado do estabelecimento, quando não escrevia, Graciliano
costumava ler em voz alta Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia”; “Quase
não se passava dia em que não fosse à nossa casa conversar com meu pai”, “Quando não havia fregueses na loja,
Graciliano entretinha-se com os frequentadores habituais: João Alves Bezerra
Cavalcanti – secretário do Conselho Municipal e rábula – o tabelião Jerônimo
Barreto, meu irmão Rodolfo e eu”. Tais
vivências parecem menos do menino entre sete e doze anos que do
adolescente na rotina de Viçosa entre quatorze e dezessete anos de idade. Nos
poemas de 1909 predomina o endereço de Viçosa, Alagoas. Os dois poemas
publicados em O Malho, em 1907, com o
pseudônimo Feliciano, registram Maceió como local de origem, mas, em todos os
casos, sem comprovação de veracidade, pois Graciliano gostava de relacionar os
pseudônimos a localidades diversas, indo de S. Paulo a Porto.
[83] Em Graciliano: retrato
fragmentado, p. 73, Ricardo Ramos lembra que Graciliano considerava
seu nome “uma peste, uma desgraça”, que o “Ramos de Oliveira” parecia “pomba da
paz”. Mas a inversão dos sobrenomes para “Oliveira Ramos” não foi muito além da
rápida aparição no Echo Viçosense.
[84] Echo
Viçosense - reprodução fac-similar em M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 165.
[85] Infância,
Mário Venâncio, p. 241: assim, Graciliano avança ao 1906 do Echo Viçosense e do suicídio do amigo,
período posterior ao do ano de estudos em Maceió, uma experiência de vida,
portanto, que a rememoração de Infância pula.
Nesse capítulo, Graciliano refere-se apenas a O Dilúculo.
[86] Echo
Viçosense, 01-02-1906 - reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p.
73.
[87] Graciliano revelou pseudônimo
publicamente no inquérito do Jornal de
Alagoas, de 18-09-1910, aos
dezessete anos, em entrevista descoberta por Moacir Medeiros de Sant’Ana:
“Tinha eu quatorze anos, creio que incompletos, quando publiquei, com
pseudônimo de FELICIANO DE OLIVENÇA, dois sonetos em O Malho. Quase nada tenho feito”. Na verdade, entre os quatorze e
os dezessete anos, isto é, de 1907 ao ano da entrevista, 1910, ele havia
publicado muitos poemas em O Malho e
no Jornal de Alagoas. Entretanto,
desde então anunciou o poeta sem futuro e o prosador despachado: “Se tenho
feito alguns trabalhos poéticos – por que não confessá-lo? – é porque não tenho
talento para cultivar a escola que prefiro: a escola realista. E o verso ocupa
menor espaço nos jornais”. O Graciliano-poeta-quando-jovem tornou-se lendário,
com a participação humorada e esquiva do autor já consagrado: “Pode revelar
alguns desses pseudônimos?” – “Você é besta...”, respondeu Graciliano ao ser
abordado sobre o assunto em 1948 por Homero Senna, em República das letras, p. 183-184, e justificou-se dizendo que
aprendeu “isso” “para chegar à prosa”. Em Diretrizes,
29-10-1942, ed. 122, t. 13, em entrevista a Francisco de Assis Barbosa disse o mesmo: “Eu compunha os meus
sonetos para adquirir um bocado de ritmo”; “Jamais pretendi ser poeta”. Aurélio
Buarque de Holanda, Diário de Notícias,
07-10-1962, ed. 12238, t. 37 e 41, também se refere a esse aspecto: “Sempre
dizia que o conhecimento e exercício da versificação lhe adviera, com o
afinamento do ouvido, grande utilidade à prosa. ‘Para ser bom prosador é
necessário saber fazer versos’: opinião sua”. Osório Borba, em “O pior poeta
vivo do Brasil”, Diário de Notícias,
16-10-1938, ed. 3899, t. 13-14, ao comentar a cogitação de tal concurso pela Revista Acadêmica, em levantamento
bastante divertido dos possíveis candidatos, observa: “Dos romancistas do
momento, Graciliano Ramos não se candidata porque toda a sua produção poética
em Alagoas foi publicada sob pseudônimo, que ninguém por aqui conhece, a não
ser alguns amigos seus que recusam revelá-lo”. A respeito do também lendário
João Condé, colecionador de manuscritos e relíquias literárias, tesouros
revelados em seus, como os denominou Drummond, “arquivos implacáveis”, diz
Lúcio Cardoso, em “Perfil”, A Manhã, 23-04-1944, ed. 828, t. 3: ”voltou-se
ele para autores mais difíceis, o sr. Graciliano Ramos, por exemplo, tão
disputado por outros colecionadores, e cujas páginas, bastante raras e
anotadas, sobem dia a dia de preço, à medida que o autor de São Bernardo escreve menos. Mas já
existiam outros ‘colegas’ em campo, e os preciosos originais dos sonetos
parnasianos completos escritos por Graciliano Ramos foram parar às mãos do sr.
Lúcio do Nascimento Rangel”. Otto Maria Carpeaux, em “Graciliano: insônia e
esperança”, Jornal do Brasil,
29-08-1976, ed. 143, t. 55, relembra: “O fracasso da primeira tentativa de uma
carreira literária se compreende (o próprio Graciliano me confessou ter
escrito, então, sonetos parnasianos)”. Em Angústia
(décima seção), Luís da Silva encarna essa condição referindo-se ao tempo em
que viveu no Rio de Janeiro, quando começou a negociar poemas de sua autoria:
“Compus, no tempo da métrica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos
sonetos, aproximadamente. Não me foi possível publicá-los, e com a idade
compreendi que não valiam nada”; “Um dia, na pensão de D. Aurora, o meu vizinho
Macedo começou a elogiar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e
acabou oferecendo-me por ele cinquenta mil-réis”; “Desde então procuro
avistar-me com moços ingênuos que me compram esses produtos. Antigamente eram
estampados em revistas, mas agora figuram em semanários da roça, e vendo-os a
dez mil-réis. O volume está reduzido a um caderno de cinquenta folhas amarelas
e roídas pelos ratos”. Quanto à observação de Ricardo Ramos, relativa à sua
lembrança da conversa testamentária com o pai, quando este vetou escritos em
prosa com pseudônimos, o filho justifica a publicação de Linhas tortas, de que participou em 1962, acolhendo textos de
periódicos, muitos deles sob pseudônimo: ”Ainda que nos ativéssemos à obra
assinada, pseudônimos se revelaram, crônicas se identificaram, poesias vieram à
luz”. A respeito dos termos como relembra os vetos do pai (“Já com pseudônimo
não, não sobra uma linha, não deixe sair. E pelo amor de Deus, poesia nunca”),
Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato
fragmentado, p.
176, 191, observa a ironia de
ter aparecido justamente um estudo detalhado sobre as poesias (possivelmente
referindo-se ao estudo de Fernando Alves Cristóvão), e, sem poder aquilatar que
utilidade terão para o entendimento da obra todas as primícias repostas a
público pelo mercado de inéditos, conclui: “será difícil optar pelo respeito à
vontade do escritor, compreensível àquela altura e hoje discutível”.
[88] Em Graciliano
Ramos, poeta, trabalho publicado originalmente na Revista da Faculdade de Letras, 1971, Lisboa, colhido depois em Cruzeiro do sul, a norte – Estudos
luso-brasileiros, p. 68, Fernando Alves Cristóvão listou 21 publicações em O Malho, entre 1909 e 1914, de poemas atribuídos a Graciliano,
reproduzindo e analisando alguns deles. O autor computa 34 composições por
considerar como unidades: cada uma das dez estrofes-trioleto na publicação de Triolets, em O Malho, 25-12-1909, ed. 380, t. 33, cada um dos quatro sonetos na
publicação também única de Velhas páginas,
em O Malho, 07-01-1911, ed. 434, t.
37, e o soneto Por quê?, em O Malho, 08-08-1914, ed. 621, t. 30, que
é de outro autor, homônimo, A. d' Almeida e Cunha. Principalmente em Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p.
13-18, há minuciosa listagem dos poemas, com indicação de periódicos em que
foram publicados, pseudônimos e datas dos exemplares de O Malho, Jornal de Alagoas e Correio
de Maceió. Além desses, o pesquisador apresentou, em A face oculta de Graciliano Ramos, poemas publicados em Argos. Os levantamentos de Fernando
Alves Cristóvão e de Moacir Medeiros de Sant’Ana registram no total 39 poemas –
cômputo de que se abstrai: as publicações repetidas em outro periódico; as unidades
de cada trioleto ou soneto nos casos acima mencionados em que essas unidades
funcionam como peças de uma publicação única; a composição Por quê?, de outro autor; as brincadeiras poéticas ou epigramas
posteriores, circunstanciais, quatro, publicados em O Índio, 1921.
[89] Moacir Medeiros de
Sant’Ana registrou, sem a transcrição, a localização em periódicos de Maceió de
oito poemas – que não foram publicados em O
Malho. Quatro deles encontravam-se disponíveis para consulta no Instituto
Histórico e Geográfico de Alagoas ou no Arquivo Público de Alagoas, em pesquisa
realizada nestes locais em 2013. Assinalaram-se na lista como “sem transcrição”
apenas os outros quatro poemas que permaneceram sem acesso. Entretanto, Moacir
M. de Sant’Ana, em Graciliano Ramos.
Achegas biobibliográficas, obra de 1973, p. 84-85, lista esses poemas, com
detalhes de data de elaboração e data de publicação nos 1ºs semestres de 1909 e de 1910, e informa em
nota que não teve acesso apenas à coleção do Jornal de Alagoas do 2º semestre de 1909. Mas tais poemas não
aparecem transcritos nas obras do pesquisador. Fernando
Alves Cristóvão, em Graciliano Ramos,
poeta, não menciona os onze poemas com publicação exclusiva de Alagoas e os
sete seguintes de O Malho: Incompreensível, Confissão, Sonho de um
doudo, A tormenta, Por estas noites, Balada, Balada. Moacir Medeiros de Sant’Ana
não menciona três poemas indicados por Cristóvão, de O Malho: Triolets, A velha cruz, O velho tronco. No total, dos 39 poemas registrados, há acesso ao texto
de 35 deles.
[90] O jovem Graciliano publicou entre 1907 e
1914, como “poeta federal”, na revista carioca O Malho, e, como “municipal”, em Jornal de Alagoas, Correio de
Maceió e Argos, de Maceió: há
poemas repetidos entre Maceió e Rio, e um soneto intitulado Por quê?, do pseudônimo homônimo A. d' Almeida e
Cunha, em O Malho,
08-08-1914, ed. 621, t. 37, a subtrair da conta. A última publicação
localizada, em O Malho, 19-12-1914,
ed. 640, t. 30, “O velho tronco”, de Soeiro Lobato, é do período em que
Graciliano se encontrava no Rio de Janeiro. Há amplo acesso aos poemas
publicados em O Malho: através da Fundação Casa de Rui Barbosa:
< https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/discover> e, principalmente, através da Biblioteca Nacional, Hemeroteca Digital:
< https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx >.
[91] Anos depois, já encerrada a fase de poeta, o
viúvo Graciliano, ao participar do jornal O
Índio, 1921, publicou quatro epigramas na coluna “Fatos e fitas”, sob o
pseudônimo de Anastácio Anacleto. Aurélio Buarque de Holanda, Diário de Notícias, 07-10-1962, ed.
12238, t. 37 e 41, comentou e citou os poemetos satíricos no artigo “Um brasileiro
fala de um romancista brasileiro. Recordando Graciliano Ramos: a face e os
episódios menos conhecidos de um ’humour’ provinciano do escritor que faria 70
anos nestes dias de outubro”.
Aquela carcaça ingente
Tanta gordura juntou
Que um dia, logicamente,
– Tinha de ser – rebentou.
– Com dez arrobas de banha
Na pança, todos dirão,
É certo que a terra apanha
Pavorosa indigestão.
(O Índio, n. 1, 30-01-1921)
Falava um dia um tabelião
A um boticário desta sorte:
– “Pois, apesar da profissão
Não te desejo, amigo, a morte.
Teu inventário irei fazer
Se morres, flor dos boticários!
Mas vai decerto decrescer
A quantidade de inventários.”
(O Índio, n. 2, 06-02-1921)
De sífilis terciária aquele enfim morreu,
Magro e triste, do alcoice ignóbil fruto espúrio.
E – espanto! – engalicada, a terra que o comeu
Entrou logo a tomar injeções de mercúrio.
(O Índio, n. 3, 13-02-1921,
ed. 3, t. 1)
Tão dura assim não havia
Vida neste mundo, não.
Machado ou mão de pilão
Acabá-lo não podia.
Átropos de raiva estoura
Aquele fio ao cortar.
– Caramba! Põe-se a gritar,
Fez-me um dente na tesoura.
(O Índio, n. 6, 06-03-1921,
ed. 6, t. 1)
Em 1945, Graciliano participou rapidamente do jornal humorístico de
Apparício Torelly, também conhecido por “Apporelly”, “O Barão de Itararé”, seu
ex-companheiro de prisão. Dentro do espírito gaiato e nonsense do periódico,
publicou a crônica “O melhor dos mundos”, A
Manha, órgão de ataques ... de riso,
15-08-1945, ed. 17, t. 7, e a seguir, A
Manha, órgão de ataques ... de riso,
05-09-1945, ed. 20, t. 10, apresentou a republicação (em versão mais enxuta) do
epigrama acima, o terceiro, dos tempos de O
Índio, acrescentando o título “A um sifilítico” – e assinou: um caso
inesperado de revelação de autoria do ex-poeta, mas, ainda assim, limitada ao
exercício epigramático posterior, de 1921.
[92] Há transcrição e reprodução fac-similar
em obras de Moacir M. de Sant’Ana: A face
oculta de Graciliano Ramos, p. 47, 75, e Graciliano Ramos: vida e obra, p. 173.
[93] Transcrição e reprodução fac-similar em
Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de
Graciliano Ramos, p. 49, 77.
[94] Em Infância, Os astrônomos, p. 199, Graciliano relembra os primeiros
contatos com eles: “E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito
inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos, felizes, para mim eram
perfeitos: andavam limpos, riam alto, frequentavam escola decente e possuíam
máquinas que rodavam na calçada como trens”. Eram muitos irmãos: além do
companheiro da aventura no Rio, Joaquim Pinto Filho, das Cartas, o “velho Pinto dos pés compridos”, e do irmão Rodolfo Mota, com quem atuou no Paraíba do Sul, há referências da divulgação que Pedro Mota
Lima, o Doca, fez de seus relatórios na imprensa carioca. Pedro Mota Lima foi
jornalista, romancista e membro bastante combativo de esquerda, atuou pelo PCB
e morreu em desastre aéreo na Tchecolosváquia em 1966. Foi autor dos romances Coronel Lousada (1925), Bruhaha (1932), Zamor (1940) e Idade da pedra
(1950). Ver: < https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/LIMA,
Pedro Mota.pdf >. Nas cartas a Pinto, Graciliano às vezes se despede com
lembranças a muitos de toda a extensa família Mota Lima e, por exemplo, em Cartas, 27-11-1911, p. 18, brincando,
chama o pai deles de “Revmo. Mota Lima”. Na carta de 1º-01-1926, p. 81, diz:
“Creio que já te disse em carta anterior que fiz uma gaffe terrível com o Doca. Recebi há tempo, há muito tempo, um
cartão comunicando-me o nascimento de uma filhinha dele. No mesmo correio veio
um jornal com a notícia de que ele tinha sido preso. E eu, julgando que então,
como no governo do Hermes, a prisão de um jornalista era uma esplêndida réclame, mandei-lhe parabéns pelos dois
acontecimentos. Depois é que vi, o pobre rapaz sofreu deveras, fiquei arrependido.
Mas enfim pode ser que a prisão alguma vantagem lhe tenha trazido. Também soube
que o Rodolfo esteve seis meses na detenção, mas que tinha lá algum conforto e
até podia trabalhar. Como vai ele? Sei apenas que traduz telegramas no Correio da Manhã, escreve política e tem
uma penca de filhos”. A Joaquim, o pré-demissionário prefeito conta, em Cartas, 02-04-1930, p. 109, com muito
exagero humorístico, que ao visitarem Alagoas, Doca e a esposa Priscila foram
obrigados a ouvir a leitura de quatrocentas páginas (quiçá Caetés): “Demoraram quatro dias, muito bem empregados, como vais
ver. Enquanto eles dormiam li Bruhaha.
E imaginei que teu irmão ficaria satisfeito se ouvisse quatrocentas páginas que
tenho na gaveta, excelentes, é claro, embora eu diga, por modéstia, que são
ruins. Abri cerveja, fechei as portas”; “Passadas vinte e quatro horas, o pobre
homem, bastante comovido, pediu-me para ler o resto, acabar logo. Tentou
agradar-me explicando o soviet. De nada lhe serviu o comunismo. Ataquei-o umas
três vezes”.
[95] O pseudônimo com “Soares”, sem a
abreviação, aparece apenas no registro do poema “A gôndola”.
[96] Jornal de Alagoas, 10-02-1909. Transcrição em Moacir M. de
Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas
biobibliográficas, p. 92,
A face oculta de Graciliano Ramos,
p. 51, e em Marili Ramos, Graciliano
Ramos, p. 15.
[97] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84,
diz tratar-se de “pseudônimo do
viçosense Thomaz Rodrigues de Vasconcelos, então acadêmico da Faculdade de
Direito do Recife”.
[98] Há transcrições do poema
em que o verso aparece citado erroneamente: “coração pulsando colorido”, ao invés do correto:
“dolorido”.
[99] São 7 publicações
repetidas, os poemas sendo enviados sempre posteriormente a O Malho. Foram republicados em O Malho três poemas dos onze publicados
no Jornal de Alagoas, dois dos cinco no Correio de Maceió, e os dois que haviam sido publicados em Argos – totalizando entre os 39 poemas
localizados, 7 publicações repetidas, 11 exclusivas de Maceió, 21 exclusivas de
O Malho.
[100] Esses quatro poemas foram publicados no Jornal de Alagoas, no primeiro semestre
de 1909, período da coleção não disponível no Arquivo Público de Alagoas por
ocasião de consulta local em 18-06-2013. Moacir Medeiros de Sant’Ana, que
revelou e registrou a existência dos poemas, teve acesso a informação sobre
eles e, segundo indica seu catálogo
Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 15-16, (de 1983), esta exposição por ele organizada apresentou “A
gôndola”, mas não transcreveu nenhum dos quatro poemas em suas publicações. Por
outro lado, o pesquisador já testemunhava em nota a Graciliano Ramos. Achegas
biobibliográficas, p.
85, (de 1973), que não teve acesso à
coleção do Jornal de Alagoas do 2º
semestre de 1909 – o que indica a possibilidade de outros poemas perdidos,
caso, também como esses, não tenham sido republicados em O Malho.
[101] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84.
[102] Fac-símile em Moacir M.
de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano
Ramos, p. 79.
[103] Em 1909, por exemplo, diante do jogo de
disputas oligárquicas que levava o presidente Afonso Pena a impor para sucessão
a candidatura de seu ministro da fazenda, Davi Campista, O Malho lançou o concurso de poemas sob o mote “Se seu Campista
fosse presidente”: ver em O Malho, nº 350, 29-05-1909, ed. 350, t.
10. Dele participou (presumidamente de acordo com a localização indicada) um
alagoano, sob o pseudônimo de Aimbiré:
Se seu Campista fosse
presidente
Todo o Brasil, num grito de agonia,
Do qual não vem ao caso prestar conta,
Morreria de dor por essa afronta
À sua magistral soberania.
O arcebispo do Rio e a fradaria
Que da França nos chega, à toa e tonta,
Assombrados por verem tanta ponta
Em tão amesquinhada Senhoria,
Rezariam cem missas num momento
Por alma do País sem sentimento
Que morrera, infeliz, covardemente...
O vento da desdita sopraria,
E o diabo a quatro, mais, sucederia
Se “seu” Campista fosse o Presidente...
Maceió, Alagoas, 1909
Aimbiré
[104] O falecimento em 1928 de José Lopes dos
Reis, português naturalizado brasileiro, o “Dr. Cabuhy Pitanga”, como também,
na revista infantil Tico-tico, o “Dr.
Sabetudo”, foi noticiado com homenagens
e carinho em: O Malho, 14-01-1928,
ed. 1322, t. 38 e 55; Para todos,
14-01-1928, ed. 474, t. 19 e Para todos,
28-01-1928, ed. 476, t. 16 e 17.
[105] O Malho, 27-03-1909, ed. 341, t. 23. Para outros casos, Dr. Cabuhy
Pitanga emitia comentários espinafrantes, num jogo mútuo de provocações
farsescas com os remetentes, de que Graciliano e o amigo Mota Lima participavam
com muito gosto, como indicam as Cartas,
08-02-1914, p. 23, e 18-02-1914, p. 25 –
(esse procedimento talvez tenha inspirado, como se verá adiante, o mesmo estilo
de respostas na correspondência de O
Índio, em 1921). Por exemplo, logo abaixo da aceitação de poemas, entre
eles o Pela estrada do amor, as
observações do Dr. Cabuhy são estas:
João H. Sá Leitão (Leme)
– Muito conhecido e antigo esse processo de versejar e que o camarada chama – A musa de hoje. Só se é aí no Leme.
Todavia, como amostra do pano, aqui
vai o primeiro metro:
Eu era o vinco de sinosa
monta
que o rimu antigus
debutou n’ ocaso;
Eras o cúlmeo de vigórea
conta
no volco lestro d’ignatus
vaso.
Chama-se a isto: encher linguiça, Sr. Leitão! Nós o preferimos assado, com farofa no bucho e
as competentes rodelinhas de limão espetadas, sem esquecer o gracioso ovo na
boca...
Ou: O Malho, 29-03-1913, ed. 550, t. 23:
Menotti del Picchia (S.
Paulo) – Recebemos os seus versos em italiano macarrônico. Sentimos muito mas
não podemos atendê-lo. Um conselho: por que não os mandou ao seu colega Juó
Bananére?...
[106] O
Malho, nº 356, 10-07-1909, FCRB-ed. 356, t. 28, disponível apenas em:
Fundação Casa de Rui Barbosa. Em consulta local, de 2010, à Biblioteca Nacional
e, pela internet, a partir de 2012, faltava O
Malho nº 356 à coleção. Soneto publicado anteriormente em Jornal de Alagoas, 23-04-1909.
[107] O
Malho, nº 360, 07-08-1909,
FCRB-ed. 360, t. 36, disponível apenas em: Fundação Casa de Rui Barbosa. Em
consulta local, de 2010, à Biblioteca Nacional e, pela internet, a partir de
2012, faltava O Malho nº 360 à
coleção.
[108] O
trioleto ou triolé (que nesse período era moda nas publicações, não só de O Malho) é forma fixa usualmente de uma
só estrofe, bastante repetitiva, de oito versos, em que o 1º, o 4º e o 7º são
iguais, como, por sua vez, o 2º e o 8º.
Assim, o poeta obteve com o processo reiterativo decuplicado um ótimo efeito,
como observa Fernando A. Cristóvão, Graciliano
Ramos, poeta, p. 75: “Acertada foi a escolha do trioleto, dado que a
repetição dos versos intensifica o dramatismo desta confissão obsessiva de
amor. Já visível na estrutura de um só trioleto, mais evidente se tornou por se
prolongar num grupo de dez, organizados em poema”. Após alguns anos, a
modernidade de Manuel Bandeira mostraria sua afeição à ingenuidade repetitiva
dos estribilhos das formas medievais, e Drummond revolucionaria o “trioleto” na
obsessão incontornável de “No meio do caminho”.
[109] Jornal de Alagoas, 12-01-1910: Arquivo Público de Alagoas –
consulta local em 18-06-2013.
[110] Jornal de Alagoas, 16-01-1910: Arquivo Público de Alagoas –
consulta local em 18-06-2013.
[111] Como salienta M. M. de Sant’Ana em Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 17,
além de se ocultar nos pseudônimos, Graciliano disfarçava também os locais de
origem do autor.
[112] Em O Malho, o título foi estropiado com “Partneza tua”. Publicado
anteriormente em Jornal de Alagoas,
12-03-1910, segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 85, que registra sua localização,
indicando como título apenas “Partenza”, sem o “tua”, mas acrescido do
apositivo “quadras”. O “Dr. Cabuhy Pitanga” registrou com o título “Partensa tua” a aceitação do poema em número
posterior ao de sua publicação: O Malho,
29-10-1910, ed. 424, t. 10.
[113] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 103, indica os outros entrevistados: Marcionilo Maciel, Osman Loureiro
(futuro governador de Alagoas, quando, em 1936, Graciliano, Diretor da
Instrução Pública, foi demitido e preso), Bráulio Cavalcante (assassinado em
1912, a quem pouco antes Graciliano dedicara o poema A aranha), Moreno Brandão (futuro colaborador de O Índio), Fernando Távora, Carlos
Rubens, J. P. da Mota Lima (vizinho amigo de Viçosa, o farmacêutico Dr. Mota
Lima, pai dos jovens amigos de Graciliano e possivelmente o “Lambda” de O Índio em 1921), Olavo de Campos,
Rodrigues de Melo, Guedes Lins, Lima Junior. Cerca de três anos mais novo que
Graciliano, Osman Loureiro (27-07-1895 - 23-07-1969) coletou o próprio
depoimento em Trechos do meu caminho,
p. 205-211, publicado originalmente no Jornal
de Alagoas, 25-08-1910.
[114] M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p.
18, 37. Entrevistas a partir da edição de 12-07-1910 do Jornal de Alagoas. Em Graciliano
Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 84, Moacir M. de Sant’Ana indica
26-06-1910 como data de lançamento do inquérito.
[115] O
Malho, nº 420, 01-10-1910, ed. 420, t. 30. Transcrito por Fernando A. Cristóvão, Graciliano
Ramos, poeta, p. 70-71. O Catálogo eletrônico do IEB, Arquivo Graciliano
Ramos, registra no acervo, seção “Manuscritos recebidos de autores não
identificados”, autógrafo com o título “Na penumbra”, datado de São Paulo,
30-09-1910, assinado S. A. C. Inscrição: “O Malho”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4>
graciliano ramos> relações sociais > página 9> manuscritos recebidos
de autores não identificados > [se o acesso estiver ocultado pela repetição
do primeiro item, código: 229213, troque na barra de endereço o número final:
229214]:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229214 >.
[116] Transcrito por Moacir M. de Sant’Ana, em A face oculta de Graciliano Ramos, p.
57.
[117] M. M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 55.
[118] Três anos depois da
publicação de Argos, nº 2, outubro
1910, O Malho reapresentou o soneto
trocando “heroica expedição” por “hênica expedição”, “flautas febris” por
“florestas febris” e “Kolchis” por “Koldis”: O Malho, 20-09-1913, ed. 575, t. 47. Há transcrição da versão
correta de Argos em M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 27. Ver
também reprodução fac-similar da publicação da revista Argos e da versão de O Malho em
M. M. de Sant’Ana, A face oculta de
Graciliano Ramos, p. 85, 93. Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta, p. 78-79, apresentou a transcrição de O Malho, com os erros.
[119] Epígono do parnasianismo, o adolescente
Graciliano retoma a temática da história e da mitologia greco-romanas. Ainda
que areje os modelos embalsamados em polidos museus de cromo dos grandes
mestres do parnaso, o modo vivificante com que o autodidata se abebera dos
alfarrábios de Cesare Cantù, seja pela fantasmagoria da decadência no Último sonho de Cleópatra (mais abaixo),
seja pela formulação votiva deste terceto final de Argos, o resultado alcançado não permite, entretanto, confirmar
influência ou aproximação da renovação formal que a alta expressão poética do
grego Konstantinos Kaváfis alcançava na época, com poemas até então de
circulação limitada a seu ambiente.
[120] 1910 -1914 – Palmeira dos Índios
C. Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma
obra, p. 33.
[122] O descaroçador de
algodão terá presença marcante na configuração de S. Bernardo, de 1934 – por exemplo, no Cap. 2, p. 11: “O meu fito
na vida foi apossar-me das terras de S. Bernardo, construir esta casa, plantar
algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir
nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino
regular”.
[123] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 30-33.
[124] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 31.
[125] Graciliano Ramos, Cartas, 14-11-1910, p. 15. Publicadas em edição especial pela
Record em 1980, com exemplares numerados como brinde natalino da MPM
Comunicações, as Cartas tiveram edição
aberta ao público em 1981, com acréscimo a partir da 3ª edição, em 1982, de
nove cartas. Extraída de Cartas, houve
em 1992 uma edição pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo das cartas
de Graciliano para a noiva Heloísa Ramos, publicação comemorativa do centenário
de nascimento do autor, com o título Cartas
a Heloísa e prefácio de José Paulo Paes: Amor/humor por via postal – volume publicado no mesmo ano também pela
editora Record com o título Cartas de
amor a Heloísa.
[127] O soneto foi publicado posteriormente em O Malho com as variantes tal como estão
acima transcritas: O Malho, nº 456,
10-06-1911, ed. 456, t. 37. Para a publicação de Argos, nº 5, janeiro de 1911,
ver reprodução fac-similar em Moacir M. de Sant’Ana, A face oculta de Graciliano Ramos, p. 89, cuja versão apresenta
“Ela põe-se a grasnar”, no sétimo verso, e “De ossos mexe e remexe”, no décimo
terceiro.
[128] A limpidez racionalista de S. Bernardo irá filtrar essa percepção
aterrorizante da coruja, marca psicológica do impressionável Graciliano, para
transformar seu pio no gatilho que instiga o sentimento de culpa em Paulo
Honório.
[129] A Caixa
do Malho, O Malho, 15-10-1910,
ed. 422, t. 23, respondeu à carta de Soeiro Lobato: “(Viçosa) – Ficamos cientes
do pedido; como, porém, a poesia é enorme e os tempos andam bicudos em questão
de tempo, ficam a leitura e o parecer para quando houver mais”.
[130] Fernando A Cristóvão, em Graciliano Ramos, poeta, p. 71-74, ao
reproduzir o poema considera exagerada a menção a um “abrasador setembro” para
o ciclo europeu das estações do ano, que certamente o jovem Graciliano conhecia
através de leituras. Entretanto, o soneto II é o momento do verão e existem
registros na Europa de eventuais ondas de calor abrasador relativos ao final da
estação. (Entretanto, num trecho marcante para Graciliano, o capítulo XLII de Le mie prigioni, Silvio Pellico disse:
“Finì la state; nell’ultima metà di settembre, il caldo scemava”: “Acabou o
verão; na última metade de setembro o calor diminuía”). Em Cartas, de 27-10-1911, para Pinto Mota Lima, p. 17-18, ao insinuar
que o pseudônimo de um poema publicado no Jornal
de Alagoas era do amigo, Graciliano manifestou sua preocupação com
registros coerentes do tempo quando ironizou que “Rui d’Alcântara” tivesse
visto “estrelas numa noite
tempestuosa de junho”. A seguir, finalizou: “Mas deixemos em paz o Alcântara
(cujo trabalho agradou-me, tirando-lhe os trovões, é claro)”.
[131] C. Ramos, Mestre
Graciliano, p. 34. No
período em que Graciliano escreve as cartas de Maniçoba, junho e julho de 1911,
ele tinha 18 anos. Em Cartas, do Rio, de 10-07-1915, p. 63, para a irmã
Leonor, Graciliano, aos 22 anos, escreveu: “Tuberculosa, tu? Estás doida? Não
digas tolice. Tu estavas gorda quando de lá vim. Eu, que sempre fui magro,
graças a Deus, nunca pensei em tal doença”. Eneida lembra, em Diário de Notícias, 15-04-1962, ed.
12098, t. 38, 41, que, vivendo no Rio, o ex-companheiro de prisão apareceu-lhe
dizendo com as mãos que estava com um buraco “deste tamanho” no pulmão,
exagerando a medida para além dos limites do peito.
[132] Cultura
Política, nº 5, julho de 1941, ed. 5, t. 242-243, “Ciríaco”, coletada
postumamente em Viventes das Alagoas,
p. 40-44. Ver: Catálogo de manuscritos
AGR, p. 160, manuscrito de 02-06-1941.
[133] Ainda em 1921 e nos anos
seguintes, O Índio fazia piadas sobre
a vinda da estrada de ferro, de Quebrangulo, onde foi inaugurada em 1912, para
Palmeira dos Índios, que viria a ser inaugurada somente no final de 1933, como
indica: < https://www.ipatrimonio.org/patrimonio-cultural-ferroviario-iphan/ >.
[134] As datas de publicação em O Malho, do poema acima e dos seguintes,
explicam a preocupação do poeta em garantir que seus exemplares fossem
preservados.
[135] Cartas,
de 19-06-1911 e de 21-07-1911, p. 15-16. Padre João Inácio e José Leonardo
seriam, cada um por sua vez, título e
capítulo de Infância.
[136] Ver comentários a respeito em C. Ramos, Mestre Graciliano , p. 34-35.
[137] “Rua”, na linguagem sertaneja, significa
qualquer núcleo urbano, em contraposição às circunvizinhanças rurais, tal como
o termo é empregado por Paulo Honório, em S.
Bernardo, capítulo 4.
[138] Crônica publicada em Cultura Política, abril 1942, ed. 14, t. 197-198, e postumamente em
Viventes das Alagoas, p. 80-81. Ver: Catálogo de manuscritos AGR, p. 162:
manuscrito de 07-03-1942.
[139] Essa referência aspeada a “república”,
uma das poucas, se não estiver com outro sentido, sugere que Graciliano buscou
residir fora do ambiente familiar logo após a mudança para Palmeira dos Índios,
já que a publicação desse “Perfil” é de meados de 1911. Outras menções a
respeito aparecem em Valdemar de S. Lima, Graciliano
Ramos em Palmeira dos Índios, p. 40: “Pelo fato de andarem alguns de seus
alunos gazeando as aulas, desorganizando-lhe os programas, resolvera suspender
o curso noturno. Positivamente cacete desasnar cavalos-de-pau assim. Mas sua
república, instalada na Rua de Baixo, paredes meias com os Matos Moreira, nem
por isso deixava de viver cheia de jovens, que iam para ali realizar suas
assembleias literárias”. Também C. Ramos, Mestre
Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 36, depõe a respeito: “O salário ganho no balcão e a renda das
terras, modestamente referidas como ‘minha fazendola’, apoiam as aspirações de
independência. O rapaz deixou de residir com a família, e sua república, na Rua
de Baixo, vive agitada pelas discussões literárias”. (A experiência pode ter
influído na configuração, a partir de 1924, da pensão onde reside João Valério,
em Caetés).
[140] Depois de tantas variantes e pseudônimos,
o nome com o qual Graciliano se consagrou já aparece nessa menção de 1911.
Texto transcrito por M. M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 93, e A face oculta de Graciliano Ramos, p. 59-60. O pesquisador sugere
que “Nababo” seja pseudônimo de Joaquim Pinto da Mota Lima Filho e lembra, a
respeito da referida aparência enganosa de “misantropo e egoísta”, que Fernando
Alves Cristóvão, Graciliano Ramos, poeta,
p. 68, rebateu com a “complacência irônica” de Graciliano a pecha de “mandacaru
espinhoso” que se quis impingir a ele.
[141] Rodolfo Mota Lima, “desterrado”, irmão de
Joaquim Pinto, já tinha saído de Viçosa por essa época, como se pode depreender
de Cartas, de 27-10-1911, p. 17, na
qual Graciliano pede o número da residência de Rodolfo na Rua dos Arcos. Quando
Graciliano e Pinto foram para o Rio em agosto de 1914, Rodolfo já residia na
cidade. O oposto da visão de Infância, a poesia de Desterrado,
sob inspiração de Buíque, representa a terra da meninice com saudade, assim
como em Ritorno, publicada em O Malho de 09-08-1913 (ver abaixo).
[142] Em Cartas, de 27-10-1911, p. 18, ao amigo Pinto, Graciliano reclamou
dos tipógrafos, que numa publicação alteraram o brunido, comentando com ironia:
”É verdade que bramido e brunido são quase a mesma coisa – quase
não houve alteração”. De fato, no Correio
de Maceió, aparece o marfim bramido, mas na publicação de O Malho, acima transcrita, não houve erro.
[143] Correio de Maceió, 22-09-1911: disponível no Instituto Histórico e
Geográfico de Alagoas, Maceió, em consulta local de 17-06-2013.
[144] Ainda na carta de 27-10-1911, Graciliano diz ao amigo Pinto: “Eu sou um
mártir dos revisores e tipógrafos. Em dois sonetos meus houve estas
encantadoras trocas: pranto em vez de ponto,
triste em lugar de tonto, bramido por brunido”. As
alterações nesse poema atrapalham as rimas.
[145] Publicado
no Correio de Maceió, 01-10-1911,
conforme registro de M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 83. Transcrito em Fernando A. Cristóvão, Graciliano
Ramos, poeta, p. 79, e – sem indicação da dedicatória, da epígrafe e do
local – em Marili Ramos, Graciliano Ramos, p.
27. Publicado cerca de dois meses depois em O Malho, 09-12-1911, ed. 482, t. 37.
[146] Há registro do nome Bráulio Cavalcante
relativo a um jovem poeta, cronista, que participou de agudas lutas políticas
em Maceió. Formado em direito pela Faculdade de Recife, foi assassinado em
praça pública, aos 25 anos de idade, pelas forças do governo local, a
10-03-1912 (cinco meses após a publicação de A aranha), quando liderava grande manifestação oposicionista, de
acordo com informações de Etevaldo Amorim, “Braulio Cavalcante e o centenário
de seu sacrifício”, Gazeta de Alagoas,
14-04-2012. Ver também, do autor, memorial sobre o episódio em:
< https://historiadealagoas.com.br/braulio-cavalcante-x-tenente-brayner-a-pena-e-a-espada.html >.
[147] Na publicação de O Malho, a epígrafe, acima corrigida,
saiu estropiada. Ver: Silvio Pellico, Le
mie prigioni, p. 79, Cap. XXVI. A tradução do
trecho pode ser: “Dei igualmente atenção a uma bela aranha que revestia uma de
minhas paredes” (agradeço os esclarecimentos de Edlena da Silva Pinheiro, que
observa: o interessante na relação é que Pellico se inquieta com a ausência da
aranha, no capítulo XLII).
[148] Correio de Maceió, 03-10-1911: disponível no Instituto Histórico e
Geográfico de Alagoas, Maceió, em consulta de 17-06-2013.
[149] Francisco e Otávio
Cavalcanti, irmãos, comerciantes bem estabelecidos em Palmeira dos Índios,
foram os articuladores da candidatura de Graciliano a prefeito em 1927.
[150] Correio de Maceió, 06-10-1911.
Reprodução fac-similar em M. M. de
Sant’Ana, A face oculta de Graciliano
Ramos, p. 91. É como se nesse poema
Graciliano se despedisse da poesia de espírito solene e sentimental, assumindo
o tom irônico e desmistificador que lhe caracterizou a obra madura. Entretanto
o poeta a sério ainda continuaria na ativa por mais algum tempo.
[151] Se o plural “nós” quis indicar que a obra
estava sendo escrita em dupla (apesar do pseudônimo único), poder-se-ia pensar
em influência de O mistério da estrada de Sintra, de Eça de Queiroz e Ramalho
Ortigão. Durante a juventude, Graciliano já apresentava alta qualidade de
texto, com traços de linguagem à portuguesa,
em formulações como “estávamos a escrever”.
[152] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 83, localiza, comenta,
indicando, portanto, ter tido acesso ao texto, mas não transcreve a resenha “Literatura”, publicada com o
pseudônimo de Soeiro Lobato no Correio de
Maceió, 04-10-1911. Segundo o pesquisador, o jovem Graciliano critica a
tradução italiana de O caçador de
esmeraldas, de Olavo Bilac, realizada por Carlo Parlagreco (Il cacciatore di smeraldi, Roma, G.
Romagna & Ca., 1908): “classificou a tradução como ‘caricatura da obra de
Bilac’, inclusive porque logo na primeira sextilha havia quatro versos
quebrados, número que afirmou chegar a cerca de 150 em todo o trabalho”. No Catálogo da Exposição
Biobibliográfica de Graciliano Ramos comemorativa dos 50 anos do romance Caetés, em novembro de 1983, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 22,
o registro de Moacir Medeiros de Sant’Ana sugere que um exemplar da resenha
publicada foi exposto na ocasião. Mas permaneceu inédita.
[153] Cartas,
de 27-10-1911, p. 17-18.
[154] M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 15, não indica o nome da peça. Graciliano, em Infância, Mário Venâncio, p. 236,
situando-se cerca de dez anos antes de Palmeira dos Índios e da Escola Dramática Palmeirense (1913)
mencionada por Marili, relembra o contexto de seus onze, doze anos (1904) em
Viçosa e a organização da Escola
Dramática Pedro Silva: “E, depois de numerosos ensaios, levaram à cena O Plebeu, que arrancou lágrimas da
plateia”.
[155] Transcrito em: F. A. Cristóvão, Graciliano
Ramos, poeta, p. 79-80, e em M.
Ramos, Graciliano
Ramos, p. 28.
[156] F. R. A. de Barros, ABC das Alagoas, tomo R-Z, p. 331, sobre
José Tobias Neto, faz referência a José Tobias Filho, da Farmácia Tobias, em
Palmeira dos Índios. José Tobias Filho é mencionado como ex-intendente da
cidade em O Índio, 01-10-1922, ed.
86, t. 5, jornal onde seu nome aparece rotineiramente. Em Cartas, de 10-07-1915, Rio de Janeiro, p. 63, Graciliano diz à irmã
Leonor: “Dediquei a um amigo daí um soneto que se intitulava Cobra Mansa, e o homem ficou pensando
que eu lhe havia chamado cobra... ”; “Que penetração imensa!!!!!!!!
Salta!!!!!!”. Anos depois, quando Graciliano acabava de sair da cadeia, em
1937, noticiou-se no Rio de Janeiro que estabelecimentos de Palmeira dos Índios
fecharam suas portas em sinal de pesar e protesto por “José Tobias” ter perdido
eleição: A Noite, 11-03-1937, ed.
9007, t. 8. João Condé, em seus “Arquivos implacáveis”, O Cruzeiro, 29-12-1956, ed. 11, t. 41, publicou carta do período em
que o jovem Graciliano viveu no Rio:
Rio, 21-11-1914
Caro Tobias
Tenho o pressentimento de que estou a escrever a um personagem muito
grande, a um chefe político, um intendente ou coisa parecida. Sim, porque me
parece que seu nome saiu vitorioso das urnas, para felicidade dessa pequena
parte da nação (não vá ler danação), escolhido pelo bom senso dos eleitores,
etc., etc., etc. Se assim aconteceu, envio-lhe meus parabéns. Ora, meu caro Tobias,
estou arrependido de não haver aceitado a recomendação que você me queria dar
para um dos ministros do finado Hermes. É possível que eu hoje tivesse um bom
lugar, graças a essa pequena blague
que você queria preparar... A propósito de Hermes, você já sabe que essa
criatura levou grandes vaias e que houve aqui um princípio de revolução na
posse do novo presidente? Um barulho dos diabos: tiros, mortes, ferimentos, a
redação do “País” esculhambada pelo
povo, os lampiões da “Light” quebrados... Tudo muito desagradável... O pior é que, em minhas cavações, não tenho conseguido arranjar um emprego em nenhum
jornal. Imagine um homem como eu reduzido ao mísero papel de suplente de
revisor! É uma injustiça! Esses jornalistas idiotas não sabem compreender o
valor de um indivíduo que, apesar de modesto, se pode gabar de ter sido
professor em Palmeira dos Índios!... Um professor que dava aulas, diante de um
bando de moças, vestido de pijama... Tenho saudades de Palmeira, Tobias,
palavra d’honra. Mas parece-me que essa querida cidade serrana perdeu muito,
por causa dos medonhos automóveis que por lá chegaram, segundo me disse o
Miguel. O que nela tem valor é a graça que a natureza lhe deu, é essa vista
magnífica, essa paisagem estupenda. Ah! os horrorosos automóveis trepando o
dorso desses montes azuis e quebrando as pernas dos pobres matutos espantados!
Detesto os automóveis: cheiram muito a civilização. Acredite você que eles são
piores que as varíolas e a bubônica. Disseram-me que por aí tem havido
ultimamente grandes revoluções. Eu imagino as representações dramáticas, os
bailes no “Externato”, os leilões, os dobrados da Santa Cecília... Você, que
vive enganando a humanidade incauta com suas drogas, o que devia fazer era
arranjar uns cobres largos e vir passar uns dias aqui. Imagine que grande
quantidade de mentiras você não podia contar quando voltasse, aí, na esquina de
seu Antero, cercado por um bando de
basbaques que haviam de acreditar em todas as pilhérias que você dissesse.
Podia dizer, por exemplo, que tinha visto um médico arrancar um pimpolho da
barriga de uma mulher, munido de um rolo de barbante e de um bocado de azeite
de carrapato... Lembra-se? Impagáveis aquelas coisas, hein? Não posso continuar
a escrever, porque há aqui perto de mim, no andar térreo do prédio em que moro,
um galego muito burro a gritar, falando sobre espiritismo. Adeus. Recomende-me
a D. Maria Luiza, dê lembranças a alguns amigos que temos por aí, parece, e
disponha do amigo
Graciliano
Largo da Lapa – 110 – 1º andar.
[157] Agradeço a Afonso Henrique Fávero as
reproduções desse poema e do seguinte, homônimo, obtidas na Biblioteca Pública Estadual de Sergipe,
seguida a indicação de M. M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos antes de Caetés, p. 18. A partir de 2012 também esses poemas
tornaram-se disponíveis para consulta on-line na Hemeroteca digital da
Biblioteca Nacional.
[158] Nesse poema e no
anterior, os títulos repetidos sugerem o exercício da forma fixa, possivelmente
aprendida em Olavo Bilac, Guimarães Passos, Tratado
de versificação, p. 154: “Ultimamente, alguns poetas do Brasil adaptaram à
métrica nacional a balada francesa, típica, cuja forma foi fixada por Villon e
Marot, com três oitavas, em redondilhas (setissílabos), ou em octossílabos,
com as mesmas rimas, e seguidas de uma
quadra em que as rimas se repetem”. Em Cartas,
de 18-02-1914, p. 25, Graciliano demonstra estudar rotineiramente o Tratado.
[159] Mais uma vez, como em O piolho, acima, rompendo com a dicção
solene, Graciliano parece entrar pelo caminho desaforado de sua expressão
madura.
[160] Logo a seguir, em O Malho, 07-09-1912, ed. 521, t. 41,
seria publicado, sem assinatura, um soneto mais herético que esse:
O Beijo
Para o
Guedes Quintella
Dizem, não sei, que o Galileu um dia
Depôs nos lábios de gentil hebreia
Um beijo santo, mas que traduzia
Todo o calor de um filho da Judeia.
E narram, também, que ela, com alegria,
Outro em paga lhe deu – uma epopeia!
Tendo portanto o Cristo primazia
De ser o eleito da formosa hebreia.
Eu nada afirmo desse idílio santo:
Porque não creio que Jesus tivesse
U’a amargura que durasse tanto...
Mas, se o Cristo pecou (causa bendita!)
Foi p’ra lembrar que o mundo mantivesse
A lei do beijo na mulher bonita!
Maceió, Alagoas Valei-me
meu Santo Antonio
O ambiente intelectual de Alagoas, a crer na localização indicada,
mostrava-se propício a gerar um soneto como este, como se presume, a seguir,
pelo contexto de Guedes Quintella, a quem o poema é dedicado. Pode-se incluir
nesse contexto a irreverência do jovem Graciliano, que além disso apresentava
como característica de seu estilo expressões ponderativas, pouco líricas, como
“dizem, não sei”, “eu nada afirmo”, “não creio”. F. R. A. de Barros, ABC das Alagoas, tomo F-Q, p. 751-752,
registra o verbete QUINTELA, José Guedes (Maceió AL 20/4/1896 - - ) com as
seguintes informações: jornalista, advogado, delegado de polícia. Estudou no
Colégio 15 de março e no Colégio Diocesano, em Maceió. Cursou a Faculdade de
Direito do Recife e a da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1914,
juntamente com Romeu de Avelar, Aljamar Mascarenhas, José Portugal Ramalho e
Amarílio dos Santos lançou a revista literária Frou-Frou. ("Em 1914, em Maceió, a revista Frou-Frou era lançada”; "Publicada
pela Tipografia Fernando Costa, a revista teve apenas um número, devido a
dificuldades financeiras", segundo informações em: < https://bndigital.bn.gov.br/dossies/periodicos-literatura/personagens-periodicos-literatura/romeu-de-avelar/ >. Ver também: < https://historiadealagoas.com.br/romeu-de-avelar-o-assovio-de-cobra-de-alagoas.html >).
[161] Conforme dados
disponíveis em < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >, Marili (Maria
Ramos de Oliveira), nasceu em Viçosa, 14-01-1907 e faleceu em Paulo Jacinto-AL,
11-07-1987. Era, portanto, cerca de quatorze anos mais nova que Graciliano.
[162] M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 25.
[163] O interesse pelo Almanaque do Malho explica-se pela avaliação do Dr. Cabuhy Pitanga,
publicada na Caixa do Malho, O Malho, 31-08-1912, ed. 520, t. 24:
“Manoel Maria Soeiro Lobato (Buíque – Pernambuco) – Bem-vindo seja o poeta!
Todas as poesias belíssimas. Algumas sairão no Almanaque do Malho, para o qual pedimos-lhe, desde já, mais alguma
colaboração”.
[165] O poema tem uma atmosfera de O morro dos ventos uivantes, que seria
uma das obras de fundo de S. Bernardo.
Ver: Kalina Paiva, S. Bernardo dos ventos
uivantes.
[166] Transcrito em
Moacir Medeiros de Sant’Ana, Graciliano
Ramos – vida e obra, p. 14-16. A “minha infância, límpida e tranquila”, em
Buíque, desenhada aqui pelo convencionalismo do fingimento poético, será
revirada pelo avesso a partir de 1938 com o ritorno
à Infância sombrio, escavado pela
precisão de uma geométrica arqueologia.
[167] O
Malho, 20-09-1913, ed. 575, t. 47: três anos depois da publicação de Argos, nº 2, o poema foi republicado em O Malho com erros (ver acima).
[169] A narrativa Sudra, o poema As estrelas,
de Graciliano, e os poemas Désillusion,
Mirage, de Joaquim Pinto, não foram
localizados em publicações. Anos mais tarde, em Cartas, de 08-12-1921, p. 77, respondendo a Pinto, o viúvo
Graciliano, aos 29 anos, disse que nem se lembrava mais do nome Sudra, e na carta de 01-01-1926, p. 80,
aos 33 anos, contou ao amigo que queimara umas resmas de manuscritos
encontradas no armário de sua estante. O Catálogo
eletrônico do IEB, Arquivo Graciliano Ramos, registra no acervo, pasta
“Manuscritos recebidos de autores não identificados”, o autógrafo, poema, com o
título “As estrellas”, datado de 19-02-1913: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 9>
manuscritos recebidos de autores não identificados:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229213 >.
Agradeço a Francisco Roberto Papaterra Limongi Mariutti a consulta
local no IEB e a reprodução do manuscrito. A letra, caso seja de Graciliano,
não apresenta seu desenho característico firmado na maturidade. A assinatura,
datada de 19-2-1913, ilegível, tem traços decifráveis de “Soeiro Lobato”. As
cartas que mencionam poema sob o título “As estrelas” são de 1914, mais de um
ano depois da data anotada no manuscrito. Em 22-02-1914, ao amigo Pinto, Cartas, p. 27, Graciliano diz: “Escrevi
ultimamente As Estrelas... Se o
Padilha me der tempo, tirarei aqui uma cópia”, e em 13-04-1914, a Pinto, Cartas, p. 28: “Queres crer que a última
coisa que me saiu da cabeça foi aquele pobre Estrelas?” O manuscrito apresenta o seguinte soneto, sob o título “As
estrellas”:
Quando, na grande paz da noite, me revelas
Coisas santas, Amor, e confissões te faço
Ao tremulo fulgor dos astros que no espaço
Brilham, – pontos de luz,
doiradas sentinellas –
Escondes muita vez as pupillas tão bellas...
O teu braço gentil pulsa junto a meu braço...
Pedes que te não fite e que olhe o brilho escasso
Que, em chuva de oiro, vem cahindo das estrellas.
Olha-me, Amor...Entreabre as palpebras cerradas...
Olha mais...Junto a ti, quem pode os olhos fitos
Ter nas constellações na abobada espalhadas?
Que se fundam num beijo o meu olhar e o teu...
Olha-me assim, Amor, que os teus olhos benditos
Brilham mais, fulgem mais que as estrellas do ceo.
[170] Referência a Pautila Cavalcanti, sobrinha
de Francisco Cavalcanti, como se informa
em Cartas, p. 221 e p. 223, nota 3.
As formulações anteriores podem ser referências a Dr. Helvécio (carta de
18-02-1914 e de 08-12-1914, p. 25 e 41), à professora d. Luz (de 08-12-1914), a
Olímpia Cavalcanti, irmã de Francisco e Otávio (de 09-02-1915) e a Maria
Augusta, namorada e futura esposa de Graciliano.
[171] Mais de uma vez Graciliano correlaciona o
sobrenome “Cavalcanti” ao campo semântico de “cavalgar”.
[172] Em Cartas,
de 22-02-1914, p. 27, Graciliano perguntava provocativo: “Que é da flor?”
[173] Cartas,
02-02-1914, p. 21-22.
[177] Ver a respeito, acima, o soneto Na igreja, de Soeiro Lobato: O Malho, 31-08-1912, ed. 520, t. 46.
[178] A referência não se esclarece no contexto
dessas cartas. L’enfant sublime é a
conhecida alcunha de Victor Hugo, que perdurou até sua maturidade, desde que
assim Chateaubriand o saudou como criança prodígio e jovem poeta premiado. Ver:
Graham Robb, Victor Hugo – uma biografia,
p. 90.
[179] Além de A origem das espécies de Darwin e O capital de Marx, há registros de: A adega, 1905, romance de denúncia social, por Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928), Napoleão – o pequeno, 1852, o ataque
satírico do exilado Victor Hugo (1802-1885) a Napoleão III, A campanha de 1812 na Rússia, 1835, do
general prussiano teórico da guerra, Carl von Clausewitz (1780-1831), sobre a
derrocada napoleônica.
[180] Os “alexandrinos sem sentido”, marcantes
para sua predisposição às ideias claras e distintas, reaparecerão em crônica de
Graciliano publicada durante sua estada no Rio de Janeiro. Ver: Linhas tortas, p. 19, crônica IV, jornal
Paraíba do Sul, 15-04-1915.
[181] Cornucópia
Para esse
monstruoso Cordeiro Manso:
Nas concretizações iminentes de amores,
Desabrochando ao som de clarins infernais,
Por entre a escuridão de alvores vesperais,
Há quem possa acalmar os tétricos pavores?
Que me rebente da alma, ó cambiantes fulgores!
A candidez do afeto em pobres madrigais
Sentidos, traduzindo, em rimas não triviais,
O que venho guardando em meu cofre de dores.
Cale a musa, não diga, essa enorme excrescência,
Esse amor inclemente abafado na essência
Da versificação mais dorida do mundo.
Se a ti me não confesso, é talvez barbarismo,
Que me vem lacerando o despenhar no abismo
Para onde já me arrasta o rabiscar profundo.
Viçosa – Alagoas
Polycarpo Iapuru
O Malho, 07-02-1914, ed. 595, t. 37. Quanto à
dedicatória, há referência ao nome em Infância,
Mudança, p. 169: “Descansamos uma tarde em casa do poeta popular Cordeiro
Manso”, e em Viventes das Alagoas, Dr.
Pelado, p. 92: “Pelado era cantador, inimigo de Pacífico Pacato Cordeiro Manso,
natural de Quebrangulo e quase parnasiano”. Pacífico Pacato Cordeiro Manso nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1865. Entre 1916 e 1926
residiu no Sul do país nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do
Sul. Poeta de grande reconhecimento no seu tempo, Cordeiro Manso dedicou-se a
escrever, principalmente, romances, entre os quais se destaca: Casamento e mortalha no céu se talha.
Morreu em 1931 em Maceió, como indicava (acesso em 2014): <
casaruibarbosa.gov.br/cordel/lista_poeta.html >.
[182]
Além de ironizar os procedimentos poéticos epigônicos, Pinto Mota Lima
alcança uma expressão estética mais sofisticada que a de seu parceiro a sério,
como em “venho guardando em meu cofre de dores”, “o despenhar no abismo para
onde me arrasta o rabiscar profundo”, e, abaixo, “como um bloco de pedra em
constante delírio”. Considerar estes versos “coisa sem sentido”, “o fruto mais
perfeito da parvoíce humana” parece, portanto, exagero do Graciliano de ideias
claras e distintas. De qualquer modo, no outro poema, enviado a seguir, o Dr.
Cabuhy Pitanga detectou intenção piadista de Pinto Mota Lima, limitada talvez
ao espirituoso título, “Caracolizações psíquicas”, e vetou para a página dos
versos a publicação, reproduzindo-o apenas na seção de correspondência, a Caixa do Malho, 07-03-1914, ed. 599, t.
12, repetido em O Malho, 21-03-1914,
ed. 601, t. 13-14:
Polycarpo Yapuru (Viçosa – Alagoas) - Está muito bom para esta Caixa o seu soneto – Caracolizações psíquicas, gentilmente
dedicado ao signatário desta seção. Ei-lo, pois, para regalo de alguns novos que ainda se deliciam com o defunto nefelibatismo ou cousa que o
valha:
Caracolizações psíquicas
Deslumbrante beleza em planície nevada;
Revérberos de luz no alvorecer da luta;
As pulverizações dos marasmos do nada
São como em negra esfera altos cimos de gruta.
Contemplo a robustez da musa alcandorada,
O coruscar fulgente, em crescendo, a voluta
Espiralando branca ao sabor da nortada,
A bramar, a luzir, na faina horrenda e bruta.
Tal e qual é meu ser. Na amplidão do martírio,
Sofro as dores em si complacente e sublime
Como um bloco de pedra em constante delírio;
E se às vezes me empolga enervante moleza,
Em que o siso mergulha e que a voz não define,
É que a vida afundou na perenal chateza.
Agradecendo a dedicatória, fazemos votos pelo pronto restabelecimento
do poeta...
[183] Les morts
qui parlent (Scènes de la vie parlementaire), 1899, é obra de
Eugène-Melchior de Vogüé (1848-1910), um pioneiro na divulgação na França da
literatura russa do século XIX. O romance é ambientado no Palais-Bourbon, onde
a Assembleia nacional francesa é retratada com intrigas políticas e amorosas.
Otto Maria Carpeaux, em História da
literatura ocidental, v. 4, p. 2369, comenta o contexto do autor: “Ao comte
Melchior de Vogüé ninguém atribuirá o papel de um reformador no reino das
ideias. Mas a sua influência era grande. Desde que tinha revelado ao público
francês os mistérios, aliás não muito bem compreendidos e interpretados, do
romance russo, Vogüé passava nos ambientes literários por místico contaminado
pelo espírito eslavo. Mas foi um tradicionalista de tradições bem francesas;
nem pode ser considerado reacionário só porque tinha criticado, no romance Les morts qui parlent, os costumes políticos
da Terceira República”.
[184] Ver: Cartas,
p. 223, nota 11: rede de lojas espalhadas pelas cidades alagoanas.
[186] C.
Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação
humana de uma obra, p. 35, na verdade refere-se a 1910, seguindo o que fora anteriormente
registrado por Valdemar de S. Lima, Graciliano
Ramos em Palmeira dos Índios, p. 104: “em pleno período de férias, em 1910,
se viu compelido a instalar uma escola particular na cidade”. Entretanto, a
formulação do texto na carta de Graciliano, aos 21 anos, em 1914, contradiz a
informação de que tenha se tornado mestre quando chegou a Palmeira dos Índios
aos dezoito. Valdemar de Souza Lima faz menção ao preço da mensalidade cobrada
por Graciliano: “20$000 (vinte mil-réis) por mês e por cabeça”. José Lins do
Rego, “O mestre Graciliano”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 89-93,
lembra que, quando se conheceram em 1927, o amigo lhe foi apresentado como
“Professor Graciliano Ramos”, título que Graciliano imediatamente refugou com
resmungo.
[187] Trecho enquizilante, parece referir-se a
proxenetismo com adolescente.
[188] Cartas,
20-07-1914, p. 30, 32.
[191] Em Cartas,
Rio, 20-10-1914, p. 39, a data citada corrige outras versões.
[193] Cartas, Viçosa, 21-08-1914, p. 33. A carta, localizada em Viçosa,
contradiz C. Ramos, Mestre
Graciliano,
p. 37, quando sugere saída de Palmeira dos Índios de uma caravana de amigos, a
cavalo, que acompanhou até Quebrangulo não só Graciliano mas também Pinto, “de
onde seguem os dois viajantes de trem para Maceió, a fim de embarcar no Itassucé”. Contradiz também a nota
introdutória ao período, em Cartas,
p. 36, que indica 17-08-1914 como data de embarque para o Rio.
[194] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 87.
[195] 1914 -1915 – Rio de Janeiro
A data de chegada é registrada em Cartas,
de 20-10-1914, p. 39, e de 08-12-1921, p. 76. M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 32,
indica as datas acima, a de saída de Maceió a 24-08-1914 e a de chegada ao Rio
cinco dias depois, a 29-08-1914, além de três endereços. Em entrevista a Homero
Senna, República das letras, p. 182,
Graciliano menciona os endereços: “Todos numa zona então muito pouco
recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios”, e
acrescenta: “A pensão do Largo da Lapa está em Angústia”; “Dagoberto foi meu vizinho de quarto”. [Joaquim Pinto
da] Motta Lima Filho, Pensando em Graciliano. Diário de Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42, relembra o “nosso
quarto da rua Riachuelo”. Em Cartas,
20-10-1914, p. 39, Graciliano indicou 19-10-1914 como data da mudança da Rua
Costa Bastos, nº 88, casa 3, para a Rua do Passeio, 110 (Largo da Lapa),
advertindo, p. 42, para que não confundissem com “Rua da Lapa, que é coisa
muito diferente”. Clara Ramos, Mestre
Graciliano, p. 37, indica
como endereço Rua das Marrecas, mas em Cartas,
04-02-1915, p. 48, Graciliano contou que, morando perto da Rua das Marrecas, passara por lá para ver o número 27
(endereço no enredo do folhetim cômico A
família Agulha – ver a respeito nota abaixo), e na carta de 09-02-1915, p.
52, contou que Pinto estava dormindo em seu quarto depois de sair da casa de
Rodolfo. Em julho, Cartas, 10-07-1915, p. 61, disse que “o
Pinto ainda mora comigo”. Em 06-08-1915, p. 66, às vésperas de seu retorno para
Palmeira, indicou o endereço: “Rua Maranguape nº 13”.
[197] Como se verá adiante, talvez entre os
sujeitos antipáticos, um tornou-se depois amigo importante: Ildefonso Falcão,
que atuava no jornal O Século,
dirigido por Brício Filho (“Brício”, com “c”). Por outro lado, Graciliano
escreve, finalizando o período: “O Brito também não fez nada. Promessas...”.
Com relação ao nome “Brito”, há notícia em Correio
da Manhã, 24-01-1934, ed. 12011, t. 5, sobre o falecimento de J. Brito,
José Ângelo Vieira de Brito, natural de Palmeira dos Índios, político alagoano,
com destaque no ambiente carioca do período como jornalista e teatrólogo.
[198] Cartas,
18-12-1914, p. 44.
[199] Cartas,
nota 6, p. 223: “Pinga-Fogo”. Nome popular da rua de P. dos Índios, Rua José
Pinto de Barros, onde residiam Sebastião Ramos e família.
[200] Cartas,
08-12-1914, p. 41-42.
[201] As duas cartas, de 08-12-1914 e de 14-12-1914, somam duas
referências a soneto e uma a artigo. Não há identificação nem localização
precisa dessas produções, nem dos dois rapazes dos dois jornalecos. Quem sabe,
deduzindo-se pela proximidade das datas, o artigo pudesse ser “Na Terra do Fogo
as coisas estão frias”, publicado no Paraíba
do Sul, em 07-01-1915 e o soneto pode ter sido o que foi publicado (“O
velho tronco”) em O Malho,
19-12-1914, ed. 640, t. 30, não em um jornaleco.
[202] Cartas,
14-12-1914, p. 43-44.
[203] Como indicam as cartas,
é possível que outros poemas tenham sido produzidos e publicados no período.
Entretanto, não haverá mais referências às atividades do Graciliano-poeta a
partir daí. Em O Malho de 1914 este é
o único no período de sua estada no Rio, dentre os localizados. Fernando Alves
Cristóvão em Graciliano
Ramos, poeta, p. 77, atribuindo
autoria a Graciliano, transcreveu e analisou um soneto sob título “Por quê?”,
publicado em O Malho, 08-08-1914, ed.
621, t. 37, que posteriormente passou a ser reproduzido por vários autores, com
autoria atribuída a Graciliano. O soneto é assinado
por A.
d' Almeida e Cunha e não pelo
pseudônimo Almeida Cunha ou suas variações Soares de Almeida Cunha e S. de
Almeida Cunha, que, além disso, Graciliano usou principalmente de 1909 a 1910,
passando a Soeiro Lobato a partir de 1911. Referências a “professor Jatyr
Gomes”, a quem o soneto é dedicado, parecem ser de um professor com atuação em
São Paulo (ver, por exemplo, Michele Varotto na dissertação As apropriações das ideias educacionais de
John Dewey na antiga Escola Normal Secundária de São Carlos, p. 16. Também
ao mesmo nome é dedicado um poema localizado em S. Paulo, de Rocha Ferreira, em
O Malho, 05-01-1918, ed. 799, t. 37).
Não seria estranho ao ateu Graciliano interpelar Deus, mas o tom subalterno e
piedoso, expressões como “Régio ser” para designar solenemente o homem, a
formulação cambembe de “Quisera aprofundar” e a concepção do soneto sobre as
criações divinas não parecem ser aspectos característicos de sua autoria:
Ao amigo, professor Jatyr Gomes
Destes, ó
Deus! aos pássaros o canto,
À terra o sol
e à noite o negro manto;
Destes a
seiva à planta, o orvalho à flor
E cristalinas
lágrimas à dor.
Destes à
música o sublime encanto
E ao
sofrimento o bálsamo do pranto.
Às virgens
destes o rúbido pudor
Que as faces
tinge o frêmito do amor.
À vossa obra
mais bela, ao Régio Ser
da natureza,
destes a Mulher.
Quisera
aprofundar, porém, ó Deus!
Quisera do
mistério os negros véus
Romper –
Senhor, por que razão fatal
A tanto Bem
juntastes tanto Mal?
S. Paulo A. d’Almeida e Cunha
Por outro lado,
Graciliano, que incrementou em 1909 o pseudônimo Almeida Cunha, antepondo-lhe o
“Soares de” ou, preponderantemente, a abreviação “S. de”, deparou-se, em O Malho, 31-07-1909,
FCRB-ed. 359, t. 18, com A. Cunha assinando o
soneto Saudade!, onde o poeta lamenta
a morte da mãe e manifesta o desejo de juntar-se a ela nas delícias e hinos do
reino de Deus.
[204] [Joaquim Pinto da] Motta Lima Filho,
Pensando em Graciliano. Diário de
Notícias, 01-11-1953, ed. 9510, t. 42.
[205] As cartas de Graciliano
citam apenas o nome “Falcão”, como jornalista e poeta. Anos depois de seu
retorno a Palmeira dos Índios, o viúvo Graciliano perguntou a Pinto, em carta
de 10-05-1921, p. 74, o que “Falcão” fazia em Buenos Aires. As crônicas de
Ildefonso Falcão, diplomata já desde 1919, publicadas durante todos esses anos,
principalmente na revista Careta, e
notícias de imprensa indicam sua passagem por Barbados, Argentina e Alemanha.
Curioso foi seu entrevero com a atriz e declamadora Singerman e seu marido
empresário Stolek, em Buenos Aires: relata o caso sob o título “Singerman,
Stolek, etc.”, que, com aparente inadequação editorial, foi publicado em
capítulos na revista Verde, nºs 3, 4,
5. 1927, 1928. Posteriormente, atuou na Alemanha, promovendo relações
problemáticas com o regime nazista para a fundação do Instituto
Português-Brasileiro de Colônia, conforme dossiê na Revista Brasil-Europa-Correspondência Euro-Brasileira 124/7 (2010:2):
ver especialmente “Voz do Brasil junto ao
Instituto Português-Brasileiro de Colonia: Ildefonso Falcão e a propaganda dos
estudos lusófonos de inserção política em Pernambuco nos anos 30”, como também
artigos circunstantes, em: < http://www.revista.brasil-europa.eu/124/Indice_124.html >. Em 1933, como
cônsul em Colônia, buscou facilitar a entrada no Brasil de judeus comerciantes,
como se vê em: < https://arqshoah.com >, arquivos. Sérgio Buarque de Holanda,
conforme apontamentos biográficos da esposa Maria Amélia, na p. 12, em < https://www.siarq.unicamp.br/sbh/biografia_indice.html > , tinha Raul Bopp e
Ildefonso Falcão como grandes companheiros na Alemanha por volta de 1930. Ver:
Sérgio da Mata, “Tentativas de desmitologia: a revolução conservadora em Raízes
do Brasil”, Revista Brasileira de
História. Graciliano citou o nome completo de Falcão, mas sem outras
remissões, quando disse, no texto “Conversa de bastidores”, Linhas Tortas, p. 248, que Ildefonso o
apresentara a Guimarães Rosa em 1944. Vários periódicos, em torno de 1915,
identificam Ildelfonso Falcão como poeta, jornalista de O Século e do Paraíba do Sul
– como, por exemplo, o registro no Almanak Administrativo, Mercantil e
Industrial do Rio de Janeiro – 1917, ed. B00073, t. 1555. Em prefácio
(posteriormente suprimido de outras edições) a Linhas tortas, 1972, p. 7, 9, Brito Broca refere-se diretamente a
Ildefonso Falcão como o diretor do Paraíba
do Sul que abriu a Graciliano a possibilidade de colaboração literária
naquele jornal interiorano. Em Cartas, 10-07-1915, p. 60, à irmã Leonor, Graciliano sugere que Falcão
também atuava no Correio. Ildefonso
Falcão publicou livros de poesia: Visão
panteísta, que foi anunciado no Paraíba
do Sul, quando Graciliano publicava ali suas crônicas e ainda se encontrava
no Rio: ver, por exemplo, Paraíba do Sul,
17-06-1915, 15-07-1915, e a resenha de Osório Duque-Estrada em 26-08-1915
(Biblioteca Nacional, setor de periódicos - não disponível pelo sistema on-line
no período desta pesquisa) e A Época,
06-08-1915, ed. 1077, t. 3. Publicou também o volume de poemas Meio-dia (ver: O Malho, nº 921, 08-05-1920, ed. 921, t. 31). Na referida carta de 10-05-1921, p. 74, o viúvo Graciliano comenta
com Pinto o “último livro de versos” de Ildefonso, dizendo que nenhum dos
poemas ali supera o Job. Em resenha
do livro Visão panteísta, o Correio da Manhã, 23-08-1915, ed. 6024,
t. 2, reproduziu o soneto Job:
Job, que é a resignação, a indiferença,
arrastando-se pelas azinhagas,
ao invés de ir por onde a turba pensa,
não blasfema, entre cóleras e pragas.
Não. Mas talvez consigo se convença
de que, malgrado a lepra e as fundas chagas,
tem mais virtudes, muito menos doença,
que os sãos que o veem deitando pus às bagas.
É por isso que Job não desanima
– pois vive intimamente lastimando
essa hipócrita gente que o lastima...
E com a telha a raspar-se fala e acerta:
“que antes estar com a carne apodrentando
que a alma sentir em pústulas aberta!”
[206] Trata-se de conturbado episódio da
eleição de Nilo Peçanha para presidente do estado (governador) do Rio de
Janeiro. Entre julho de 1914 e janeiro de 1915, o Correio da Manhã e O Século, para
ficar só com os jornais onde Graciliano conseguia o escasso trabalho,
noticiaram um dos quadros mais representativos da República Velha. Candidato
pela oposição ao governo, Nilo Peçanha, em meio a todo tipo de manobra, fraude
e violência, ganhou a eleição de 12-07-1914. Novas artimanhas parlamentares,
capangagens e coações policiais tentaram substituir seu empossamento pelo do
candidato da situação, Tenente Feliciano Sodré, sob a batuta do poderoso
Pinheiro Machado. Este, chefe do P.R.C. - Partido Republicano Conservador,
eminência parda na presidência de Hermes da Fonseca (1910-1914), dava
continuidade ao mando, como se debochava, nos inícios da gestão de Venceslau
Brás (1914-1918). Como se depreende do noticiário da época, após Nilo Peçanha
ter obtido um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, Venceslau Brás
encaminhou aparato militar para garantir-lhe o direito da posse em 31-12-1914.
Logo a seguir, porém, o presidente da república convocou o congresso para
resolver o caso. Figuras como o prestigiado senador Rui Barbosa, líder do P. R.
L. – Partido Republicano Liberal, e jornais de oposição deploravam o quadro
atentatório aos princípios republicanos, assim como O Século, que manifestou sua repulsa ao perfil político de Nilo
Peçanha, mas defendeu seus legítimos direitos e o respeito civilizatório ao
Poder Judiciário. Graciliano escrevia ao pai em 09-01-1915, o dia marcado para
a convocação do congresso, refutada por imensa manifestação popular de
protesto, favorável a Nilo Peçanha. Um trecho do noticiário no dia da posse, em
O Século, 31-12-1914, ed. 2570, t. 1,
ilustra o clima do período, com destaque para o bairro malvisto na época:
“Junto à ponte das barcas, numerosos grupos de indivíduos de feias cataduras,
vestidos à moda da Saúde e apoiados em respeitáveis tatajubas, estacionavam em palestra”. “Quem atentasse demoradamente
sobre esses tipos, descobriria sem grande esforço, os desordeiros de mais
nomeada da Saúde e adjacências”. “Esse pessoal é que fora daqui, há dias, para
Niterói, para garantir de qualquer forma a posse do Sr. Sodré”; “Misturados com
esses cafajestes estavam vários soldados da polícia daquele estado, de
infantaria e cavalaria”. Quando Graciliano diz
“parece que a coisa não acaba bem”, “o povo grita pelas ruas a valer, e
os automóveis da ‘Assistência’ passam...”, ficamos sem saber se em relação aos
transportados nos “automóveis da ‘Assistência’” ele alude a capangas, a presos
ou a policiais. A aversão do jovem Graciliano a isso comprova-se com o mordaz
diagnóstico da República Velha, em crônica que reivindica ironicamente revisão
da constituição (“A constituição da república tem um buraco”) para que nela se
insira o quarto poder, na verdade único: o dos chefes políticos do coronelismo
– ver em Linhas tortas, p. 9-10,
indicando publicação (não localizada) no Jornal
de Alagoas, março de 1915. A crônica foi publicada (ou republicada) em O Índio, 24-04-1921, ed. 13, t. 2.
[207] Cartas,
09-01-1915, p. 45-46. A respeito da
hipótese de “o velho Cordeiro”, “boa criatura” e “português paupérrimo”, ter
inspirado “Seu Ribeiro” em S. Bernardo, apresento
considerações no artigo “Semente para S. Bernardo”.
[208] Trata-se de personagens de A família Agulha, folhetim humorístico
de Luís Guimarães Jr., pelo Diário do Rio
de Janeiro, entre 21-01-1870, ed. 21, t. 1, e 26-04-1870, ed. 114, t. 1,
publicado a seguir em livro, pela H.
Garnier, 1870, e 1900. Graciliano refere-se ao início do enredo: Anastácio
Temporal Agulha, depois de casar-se apaixonado pelo pé 47 de Eufrasinha
Sistema, magrela e desengonçada, é demitido da Alfândega em razão dos mexericos
da vizinha. O casal fica à beira da miséria, quando uma amiga rica de
Eufrasinha a convida para uma visita a sua residência na Rua das Marrecas, 27,
onde Anastácio oferece ao chefe da casa, Sr. Sacramento, serviços garantidos de
cabo eleitoral para seu candidato Leocádio da Boa-Morte. Toma bastante dinheiro
de Sacramento para a campanha e depois foge com Eufrasinha para Macaé. Ver:
Luís Guimarães Jr., A família Agulha, 2003.
[209] Cartas,
09-02-1915, p. 50-52. V. de S. Lima, Graciliano
Ramos em Palmeira dos Índios, p. 97-98, informa que Olímpia era irmã de
Francisco e Otávio Cavalcanti: “Dava-se, entretanto, que lá um dia Graciliano
aceitava o convite de Chico ou de Otávio Cavalcanti para o jantar”; “Otávio, celibatário
e rico armazenista, morava com uma irmã, também solteira, Olímpia, grande amiga
e confidente do futuro escritor”; “Entretanto, ao solar da Rua de Baixo acudiam
também moças e rapazes não só da família dos donos da casa como de outras a ela
ligadas. Olímpia já sabia que aquela gente queria se recrear, abria a sala de
visitas, ocupava o mocho do piano, começava a tocar”. Esse contexto,
posteriormente, já no período da viuvez de Graciliano a partir de 1920, pode
ter sido inspiração para o trio de Caetés:
Luísa e os irmãos Adrião e Vitorino Teixeira.
[210] Os alagoanos Pedro da
Costa Rego, figura de destaque no Correio
da Manhã, e Álvaro Correia Paes, seu aliado, viveram alternadamente em
Maceió e no Rio de Janeiro, entre atividades jornalísticas e políticas, como
indica F. R. A. de Barros, ABC das
Alagoas, tomo F-Q, p. 631-632. Anos depois, em 1927, Alagoas, no governo de
Pedro da Costa Rego, Álvaro Paes seria um dos amigos articuladores da
candidatura de Graciliano à prefeitura de Palmeira dos Índios, e a seguir seria
o governador que recebeu seus relatórios. Em Cartas, de 10-05-1921, p. 74, Graciliano refere-se a Costa Rego
como primo de Joaquim Pinto.
[211] Condições de miséria visíveis pela
vestimenta foram aproveitadas por Graciliano para caracterizar o nordestino que
procurava estabelecer-se no Rio de Janeiro: na burlesca crônica II, em Linhas tortas, p. 11-14, publicada no Jornal de Alagoas em 1915, o infeliz
narrador encontra um conterrâneo desconhecido, que sabe tudo sobre ele – com
acréscimos – mas não sabe o seu nome, e chamando-o de "Vespasiano",
"Tertuliano", "Valeriano", 'Feliciano",
"Diocleciano", "Maximiano", dá piedosos conselhos de como
vencer no Rio, enquanto examina o chapéu desabado, as botas sujas, a gravata
torcida, o gracioso colarinho de sua vítima. Em Angústia, p. 27 [sexta seção], Luís da Silva relembra sua estada
frustrada na capital federal: “Empregos vasqueiros, a bainha das calças roída,
o estômago roído, noites passadas num banco, importunado pelo guarda. Farejava
o provinciano de longe, conhecia o nordestino pela roupa, pela cor desbotada,
pela pronúncia. E assaltava-o”, “– Trago um romance entre os meus papéis.
Compus um livro de versos, um livro de contos. Sou obrigado a recorrer aos meus
conterrâneos”.
[212] Pelo título, se não for
um homônimo desrelacionado, fica a sugestão de que “A Carta”, de 1924, tido
como prototexto de S. Bernardo, seria
a retomada de um texto escrito em 1915. Mais de uma década depois, em Cartas, 01-01-1926, p. 80, o
viúvo Graciliano disse a Joaquim Pinto, sem mencionar títulos e sem referir-se
à retomada de qualquer texto anterior, que fabricara “ultimamente” dois contos,
“dois tipos de criminosos”. Ver Clara Ramos, Mestre
Graciliano,
p. 54-55, 76-79, 89-92, a respeito das versões de 1924, “A carta” e “Entre
grades”, respectivamente embriôes de S.
Bernardo e Angústia.
[213] Graciliano acompanhava e construía o
percurso da língua portuguesa sob a versão brasileira que lhe dava feição
própria no padrão formal da escrita: assim, muitos de seus vezos de juventude
aos poucos eram abandonados, como o “estávamos a escrever” à portuguesa, com
infinitivo preposicionado para o sentido do gerúndio, ou o “lá”, frequente nessas
cartas, que dá prioridade ao emitente para designar o “aí” dos destinários
familiares de Palmeira dos Índios.
[214] São bastante confusas as informações
sobre as publicações de Graciliano, enviadas do Rio de Janeiro para a coluna
“Linhas tortas” do Jornal de Alagoas
em 1915. Dados contraditórios se manifestam a partir da organização da
coletânea realizada pelos familiares de Graciliano no volume Linhas tortas em 1962. Essa coletânea
apresentou três crônicas como tendo sido publicadas no Jornal de Alagoas, assinadas por R. O.: a primeira, “A constituição
da república tem um buraco”, referida ao Jornal
de Alagoas de março 1915,
encontra-se em O Índio, 24-04-1921,
ed. 13, t. 2, na coluna “Traços a esmo” de J. Calisto. Teria ocorrido, então,
seis anos depois, uma republicação da crônica em O Índio, mas Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 140, nota 37,
informa que não encontrou o texto nas edições de 1915 do Jornal de Alagoas. Outro texto da época, localizado pela pesquisadora,
“Na Terra do Fogo as coisas estão frias”, foi publicado no Paraíba do Sul. As outras duas crônicas no volume Linhas tortas-1962 são também datadas de
março 1915: uma, sobre a troca de nomes que um infeliz Vespasiano ou Tertuliano
ou Diocleciano etc. é obrigado a suportar quando encontra um conterrâneo no
Rio; outra, sobre a depredação do monumento a Eça de Queiroz em Lisboa
(atentado noticiado, por exemplo, no Correio
da Manhã, 05-03-1915, ed.5853, t. 3). Sobre crônicas não publicadas em Linhas tortas-1962: Moacir M. de
Sant’Ana, em Graciliano Ramos antes de
Caetés, p. 22, registrou a descoberta da crônica “Coisas do Rio”, assinada
por R. O., publicada originalmente no Jornal
de Alagoas de 06-03-1915, mas não fez nenhuma referência a possível vínculo
com a coluna “Linhas tortas” que Graciliano iniciava no período. Além dessa,
Moacir Medeiros de Sant’Ana descobriu uma segunda crônica no Jornal de Alagoas, de 18-04-1915, a qual
o pesquisador registrou com o título genérico de “Linhas tortas”. Dentre as
crônicas desse período não coligidas em Linhas
tortas-1962, as disponíveis foram
publicadas em Garranchos-2012.
[215] Tanto a semana santa quanto o cinema dos
dias santos serão temas retomados por Graciliano: escreveu uma crônica
hilariante sobre o jejum glutão na semana santa, em O Índio, 27-03-1921, ed. 9, t. 3, recolhida em Linhas tortas, p. 73-76, crônica IX, e, no capítulo 15 de Caetés, durante os festejos natalinos,
um cartaz do cinema anuncia “Vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus
Cristo”, programa que João Valério refuga.
[216] Duas obras
hereges: o sarcasmo dessacralizador de A
relíquia, de Eça de Queiroz, é um
atentado à Semana Santa. Quanto à outra obra citada, ver: Charles Binet-Sanglé
(1868-1941), A loucura de Jesus.
Lisboa: Guimarães Editores, 1910. Para caracterizar a formação do quadro
ideológico de Graciliano é interessante a avaliação da obra de Binet-Sanglé no
ensaio de Benito Bisso Schmidt, “O Deus
do progresso: a difusão do cientificismo no movimento operário gaúcho da I
República”, cujo objetivo é examinar a difusão de teorias
cientificistas, positivismo, antropologia criminal, espiritismo kardecista para
a conformação de um estilo autoritário no movimento operário gaúcho do período,
por onde o autor avalia na concepção positivista uma etapa de transição para o
socialismo no Rio Grande do Sul, como, por exemplo, na confissão de Dyonélio
Machado em Memórias de um pobre homem
de que chegou por essa via ao socialismo.
Diz Benito Bisso Schmidt: "Os exemplos dados até aqui referem-se quase
exclusivamente à difusão das teorias cientificistas no âmbito da
social-democracia onde, sem dúvida, esta foi mais acentuada. Contudo, também
nos escritos produzidos pelos anarquistas é possível encontrar passagens
reveladoras da valorização da ciência e da razão. No jornal libertário A
Luta, por exemplo, pode-se ler uma justificativa científica para o
anticlericalismo: ‘A religião é uma enfermidade. Assim o demonstra o dr.
Binet-Sanglé, professor da Escola de Psicologia, de Paris, em uma notável série
de estudos fisiológicos subordinados à epígrafe: As leis psicofisiológicas do
desenvolvimento das religiões: ‘A religião tem como condição primeira a fé, que
suprime a razão. Dahi o crente carecendo de equilíbrio intelectual é uma vítima
assinalada para todas as sugestões’ ”. Quanto ao terceiro item de suas
leituras, Graciliano nesse caso revela em seu convívio com a Bíblia o apego pelo evangelho do Sermão da Montanha e sua mensagem
igualitária. Como vimos acima, Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 156, lembra-se
das anotações irreverentes que o pai fazia às margens do Novo testamento e de sua predileção pelo Velho testamento: “Acha que o cristianismo sobrevive porque se
encontra escorado nesse descomunal monumento literário edificado pelos judeus”.
[217] O quadro descrito pelas perguntas traz
sinais do futuro Caetés.
[218] O gosto pelo bilhar marca presença em
Graciliano até o período de Palmeira dos Índios e o enredo de Caetés. Tal afeição pelas forças
retilíneas do jogo parece combinar com o estilo racionalista e geométrico do
autor.
[219] Cartas,
02-04-1915, p. 54-56.
[220] O tema do nome errado
foi constante em Graciliano, como se viu na crônica II de Linhas tortas, p. 11-14.
No Paraíba do Sul, a primeira crônica
saiu com a assinatura “A. O.”, ao invés da abreviatura de “Ramos de Oliveira”,
R. O. – o que forneceu ótimo pretexto para o assunto da segunda, apresentada
com reflexões zombeteiras sobre a negligência com os nomes dos outros,
incluindo uma premonição – ver em Linhas
tortas, crônica V, p. 20: “Penso sempre com desgosto que, se algum dia
tiver necessidade de recolher-me a uma colônia correcional ou a um asilo de
alienados, inda poderei ver minha firma transformada numa série de algarismos.
Muito desagradável”. A partir de 1930, o nome “Graciliano Ramos” se
consolidaria. Mesmo assim, as trocas de seu nome se tornaram anedóticas: em
carta de Maceió, a Heloísa, Cartas, 30-03-1935,
p. 145, ele diz sobre uma resenha de S.
Bernardo: “O pior é que o homem me chama Gratuliano”. Em 28-02-1937, em meio
a sua visita a São Paulo, ele escreve a Ló,
Cartas, p. 180: “Os jornais disseram que chegaram e foram à festa dois
escritores cariocas: o sr. Lins do Rego e o sr. Gratuliano de Brito. Esse
Gratuliano de Brito tem-me atrapalhado a vida, é a segunda vez que me toma o
lugar. Paciência”. Na festa dos 50 anos de Graciliano, Rubem Braga enviou
lembranças do tempo em que moravam na pensão da R. Correia Dutra, no Catete:
“Ah, naquele tempo você se chamava Brasiliano porque a dona da pensão achava
que, cobrando seiscentos mil réis por quatro pessoas amontoadas num quarto, não
tinha obrigação de aprender seu nome direito”; “Ah, Brasiliano, ganhava-se
pouco, mas era divertido”: em Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 119-120.
[221] Linhas
tortas, crônica VIII, p. 28. Trata-se de uma das primeiras manifestações
publicadas de sua simpatia pelo cinema, que conduziu estruturalmente sua obra.
Já em S. Bernardo, capítulo 16, p.
92, quando Paulo Honório despreza os livros, Madalena dirá: “Perfeitamente. O
que há é que não estamos acostumados a pensar assim. Assisti um dia destes a
uma fita de cinema, e creio que aprendi mais que se visse aquilo escrito”.
Paulo Honório concorda: “E não se enche o quengo com estopadas”. Leon Hirszman
ao filmar S. Bernardo (1972), declarou:
“na verdade, eu filmara um verdadeiro roteiro cinematográfico já pronto” – em O Globo,
13-10-1973, IEB-Arquivo Graciliano Ramos (agradeço a Francisco Roberto
Papaterra Limongi Mariutti o achado e a indicação do recorte). Clara Ramos, Mestre
Graciliano, p. 148-149,
lembra-se de seu gosto por comédias de Frank Capra, por Charlie Chaplin, por
atores como Leslie Howard e Katharine Hepburn. Sobre o período da
redemocratização do país e o final da II Guerra em 1945, a autora diz, p. 166:
“faz questão de levar uma filha menina para assistir aos documentários sobre os
campos de concentração nazistas, deixa-a sair enauseada e trôpega do Cineac
Trianon, em situação oposta ao estado de ânimo saltitante em que muitas vezes
ali entrara com o pai para reprises de Fantasia
(é homem de releituras e de repetir os filmes preferidos)”. Sobre a mencionada
simpatia de Graciliano por Fantasia,
é sugestivo um retrato da época, no Correio
da Manhã, 20-06-1940, ed. 13995, t. 11: “A príncípio os cavalheiros mais
respeitáveis ainda empurraram para as crianças o fanatismo pelo desenho
animado. Depois cederam as derradeiras barricadas e ninguém mais negou o
prestígio dos bichos”. Walt Disney
esteve no Brasil em 1941 em meio ao lançamento de Fantasia: ver, por exemplo, Correio
da Manhã, 23-08-1941, ed. 14357, t. 11, em que se noticia seu encontro com
Villa-Lobos. Um aviso do Cineac Trianon, em 1945, publicado em Diário de Notícias, 21-12-1945, ed.
7106, t. 2, diz: “A Direção do Cineac previne o seu distinto público que, a fim
de não privar as crianças de assistir ‘PLUTO E A PRIMAVERA’, o primeiro notável
desenho colorido de Walt Disney de após guerra, os filmes inevitavelmente
brutais com as execuções por enforcamento e fuzilamento de nazistas na
Alemanha, somente serão exibidos nas sessões a partir das 21 horas, ficando
vedada, somente a partir desta hora, a entrada de menores de 14 anos”.
Graciliano respondeu a enquetes sobre filmes: junto a Cândido Portinari, gostou
do filme “A luz que se apaga” (1939, direção William Wellman), baseado na obra
Rudyard Kipling, em sessão especial para intelectuais, promovida, conforme nota
do Diário Carioca, 30-05-1940, ed.
3666, t. 6, e 31-05-1940, ed. 3667, t. 6, pela Livraria José Olympio, que
publicava o livro; considerou admirável
“A última porta” (1945, direção Leopold
Lindtberg), visto em sessão especial, na companhia de Guilherme de Figueiredo,
Raimundo Magalhães Jr., Murilo Mendes: “um dos melhores filmes que tenho visto
nos tempos que correm. De um assunto bastante explorado, conseguiram extrair
coisas novas, realmente magníficas”, disse ao Jornal de Notícias, 01-08-1946, ed. 92, t. 4. Entretanto, em
entrevista de 1949, ao ser indagado sobre a possibilidade de Angústia vir a ser filmado, a exemplo do
então recente “Terra Violenta”, adaptação (vexatória, na verdade) de Terras do sem fim, de Jorge Amado,
Graciliano responde: “O assunto é mais para técnicos”; “Sou um leigo e nada
entendo de cinema”, em ”Afirma Graciliano Ramos: ‘Não me considero escritor’ “,
Folha da Manhã, 25-09-1949: < https://acervo.folha.com.br/issuePrint.do?key=p-223931&issueId=24521
>. Compreensível sob o aspecto “técnico”, no entanto espanta que Graciliano
se diga “leigo de cinema” se lembrarmos que a observação de Leon Hirszman na verdade se estende para
toda a sua obra de montagem. Ver a respeito meu artigo: A figura da grade.
[222] A coluna de Graciliano no Paraíba do Sul em 1915 tinha como título
“Traços a esmo”, a mesma denominação que ele usaria anos depois, 1921, em O Índio: conforme a descoberta de
publicações, localização, comentários e transcrição de trechos por Vivice M. C.
Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de
Graciliano Ramos, p. 138, nota 31. Os organizadores de Linhas tortas, em 1962, agruparam a “Primeira Parte” do volume sob
dois subitens: “Linhas tortas” e “Traços a esmo”. Coletaram no primeiro
subitem, “Linhas tortas”, todo o período de 1915: três crônicas da coluna
“linhas tortas”, do Jornal de Alagoas,
e as treze crônicas dos “traços a esmo” do Paraíba
do Sul. O subitem “Traços a esmo” acolheu apenas as crônicas de O Índio, de 1921.
[223] Como se verá no período de 1930, a
expectativa de sucesso reduzida ao ambiente provinciano da cidade foi
tematizada em Caetés, capítulo 8, nas
veleidades de João Valério com seu romance empacado.
[224] Era muito comum, à época, esse tipo de
título (ver a coluna de muitos anos assinada por Costa Rego, “Traços da
semana”, por exemplo, Correio da Manhã,
15-03-1915, ed. 5863, t. 1, ou “Traços a esmo”, O Pharol, Juiz de Fora, 28-02-1912, ed. 49, t. 1). Graciliano
aderiu com espírito irônico às fórmulas convencionais, tanto ao utilizar o
provérbio “Deus escreve certo por linhas tortas” para indicar na precariedade
da crônica a veiculação da verdade, quanto em “traços a esmo”, para indicar seu
caráter casual.
[225] Os dois textos – a resenha sobre o livro e o artigo – não foram coligidos em Linhas
tortas-1962. Em 1972, V. M. C. Azevedo, Apports
inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 138, registrou o achado de “Na
Terra do Fogo as coisas estão frias” com a assinatura “Ramos Oliveira”. A
pesquisadora transcreveu e comentou trechos do artigo, publicado no Paraíba do Sul de 07-01-1915, antes de
que Graciliano começasse naquele periódico a coluna “Traços a esmo”, com treze
crônicas entre abril e agosto de 1915, assinando R. O. Consulta ao exemplar do Paraíba do Sul disponível na Biblioteca
Nacional, setor de periódicos, confirma a data. Assim, a datação de janeiro
antecipa a carta de Graciliano, que diz ter recebido os convites sucessivos de
Falcão após o carnaval de 1915, ou seja, meados de fevereiro. De qualquer modo,
o convite poderia ter sido especificamente para a coluna “Traços a esmo”.
Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos
antes de Caetés, p. 22, também apresenta a localização de “Coisas do Rio”,
assinada por R. O., publicada, entretanto, apenas no Jornal de Alagoas, em 06-03-1915. Sobre aquela primeira encomenda
de Falcão, a “notícia sobre um livro”, os pesquisadores não dão informações.
[226] Como foi referido acima, Ildefonso
Falcão, em agosto de 1915, publicou seu livro de poemas Visão panteísta. Já na edição do Paraíba do Sul, de 15-07-1915, anunciava-se o livro a sair “por
estes dias, no Rio”, com preço e indicação de pedidos à redação do jornal.
[227] Não há notícias a respeito do álbum dessa
poetisa e dos versos que Graciliano teria escrito nele.
[228] Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 182-183,
Graciliano responde sobre suas relações de camaradagem literária no
período: “Nenhuma. Os escritores daquele
tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de
pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os
anos de 1914-1915, em que estive aqui, assinalam, na literatura brasileira, uma
época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório
Duque-Estrada, que então pontificava...” (Osório Duque-Estrada, autor da letra
do Hino Nacional Brasileiro, assinou também uma resenha sobre Visão panteísta, de Ildefonso Falcão,
publicada no Paraíba do Sul,
26-08-1915).
[229] Graciliano usa alternadamente como
sinônimos “conto” e “novela”.
[230] Antes que em 1980 o
acervo de Graciliano fosse entregue por Heloísa Ramos à curadoria do Instituto
de Estudos Brasileiros – IEB-USP (ver: Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 13), Fernando Alves Cristóvão teve amplo acesso a
ele, incluindo os documentos que não vieram para o IEB em 1980, como um que o
pequisador descobriu, “O ladrão”, o único manuscrito então localizado de contos dos tempos de 1915, sem
que, entretanto, as possíveis publicações em periódicos deste e dos títulos
acima fossem encontradas. “O ladrão”, dado como um texto embrionário da obra,
abre o estudo minucioso sobre Graciliano realizado pelo crítico, que apresenta
nos anexos reprodução fac-similar de trecho inicial e final do manuscrito: ver
em F. A. Cristóvão, Graciliano Ramos:
estrutura e valores de um modo de narrar, p. 3 e 228 (disponível na ed. de
1977 – pois o fac-símile foi suprimido na edição posterior). O conto foi
retomado no ensaio de Fernando Alves Cristóvão, “Um inédito de Graciliano
prenuncia a obra futura”, em Diálogos da
casa e do sobrado. Estudos luso-brasileiros e outros, p. 135-141. Foi
publicado na coletânea póstuma, Garranchos,
2012, p. 40-52. O atilado senso de autocrítica facultava a Graciliano, além da
modéstia, diagnósticos como o que escreveu na dedicatória de um exemplar de Insônia a Pedro M. Maia – “não sou contista, você sabe”: ver em
Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de
Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro,
p. 143. “O ladrão”, entretanto, parece sobrepujar paradoxalmente por
antecipação as dificuldades que a dureza geométrica de Graciliano enfrentaria
na maturidade para lidar com histórias curtas isoladas em contos, ao contrário
da riqueza construtivista que provou na articulação narrativa em quadros.
Trata-se da história de um pobre-diabo que chega a uma loja ainda aberta em
noite avançada, cujo comerciante, acompanhado pelo narrador, está na
expectativa sovina de conseguir “algum freguês retardatário”. Mas o pobre-diabo
retardatário, que efetivamente aparece, desperta suspeitas, é tido como
“ladrão”. Assustado, acuado e apanhado, percorre sua via-crúcis da loja até a cadeia,
surrado não só pela comunidade acordada que se aglomera, como também pelo
narrador, pelos soldados e pelos presos que o recepcionam na cadeia. Na origem
da sua produção ficcional o jovem Graciliano revela traços da autoria que serão
permanentes, como a típica absorção das coisas vividas pelo artista de
imaginação fraca e de pés no chão: a loja com a dupla equivalente ao pai e ao
filho e o cenário limitado ao mundo que conhece: no caso, talvez a lamacenta
Viçosa, com a estação de trem e os trilhos citados, já que Palmeira dos Índios
estava à eterna espera da chegada da estrada de ferro. Alguns
estereótipos-peças que reaparecerão na obra marcada por fixações do
impressionável Graciliano aí já estão prontos: a “sentinela” de defunto, que
acaba em furdunço, o “falando com pouco ensino”, os “cachações” nos desvalidos,
como em S. Bernardo, o sistema de
surra de facão, na cadeia, com golpes alternados, um nas costas, outro no
peito, como em Fabiano, Vidas secas.
Mas ao contrário da coesão moral subjacente à condução narrativa, que enrijece
os contos de Insônia, “O ladrão” se
articula com a mistura de uma aderência à comunidade fechada e linchadora, como
demonstra o título que sentencia de saída o inocente, e de um mea-culpa
crítico, que, mesmo sem confessar explicitamente o erro, espalha insinuações do
equívoco e procura distanciar-se da cumplicidade com aquele mundo boçal,
fazendo a ironia retroagir das últimas linhas para estremecer em interrogação a
barbárie do título-carimbo estigmatizante, cuja acusação in limine havia determinado com artigo definido o andamento
conivente da narrativa. O manuscrito descoberto por Fernando Alves Cristóvão
traz a data: Rio - 27 - julho - 191[4/5]. Entretanto, além da correção do último algarismo do
ano, com 4 e 5 sobrepostos, não há qualquer outro sinal de substituição do
título, acréscimo deslocado, sobreposição ou rasura (na hipótese de que “Rio”
pudesse ter sido acrescentado sobre um texto vindo de Palmeira dos Índios).
Fernando Alves Cristóvão não apresenta outras notícias a respeito. Se a data
for de fato a da realização do conto em 1915, significa que “O ladrão” foi
concluído mais de duas semanas depois dessa carta de 10-07-1915 à Leonor em que
“O retardatário” já figurava pronto, entregue a Falcão e encaminhado. Mas não
há indícios da publicação em periódico desse “O ladrão”, que pode ser visto
como um dos melhores contos do autor. No catálogo da exposição Graciliano Ramos
de 1963 – Biblioteca Nacional, item 8, a descrição "O ladrão" traz
artigo definido e data corretos segundo manuscrito reproduzido e estudado por
Fernando Alves Cristóvão. Mas certamente o enredo do conto não foi ponto de
partida de S. Bernardo, como ali vem
anotado. Já no item 56 do catálogo, há registro equivocado, com o título “O
ladrão”, de outro conto, "Um ladrão", publicado em Insônia, um conto que Graciliano
produziu na maturidade, após a prisão e o convívio com o ladrão arrombador
Gaúcho. “Um ladrão” também foi publicado em coletânea precedente, menor, Dois dedos, de 1945. Ao contrário do
então inédito “O ladrão”, “Um ladrão” além de tudo também apareceu em
publicações circunstanciais de amostragem da obra de Graciliano: Histórias
incompletas, de 1946, e Histórias agrestes, de 1960. Para o
catálogo da exposição de 1963, buscar “Graciliano Ramos” em:
< https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital >. Ver a respeito do
desconhecido “O retardatário” e de “O ladrão”, considerações coincidentes de
Carlos Benites de Azevedo, Entre
crônicas, contos, cartas e pequenas histórias da república de Alexandre e dos
meninos pelados, p.pdf. 195-196.
[231] Antonio Candido, em “Os brasileiros e a
nossa América”, Recortes, p. 134,
destaca a importância da Revista
Americana como empreendimento de divulgação do movimento político do
pan-americanismo, que promoveu no início do século XX a aproximação entre
países latino-americanos. “Feita visivelmente por inspiração de Rio Branco”, a
publicação, com variações de periodicidade e interrupções, existiu entre 1909 e
1919. Era dirigida pelo braço direito daquele ministro das Relações Exteriores
que a instigou – o jovem diplomata Arthur Guimarães de Araújo
Jorge, algumas vezes em parceria, outras substituído pelo também diplomata
Silvio Romero Filho – ambos sempre
empenhados por sua qualidade gráfica e pela colaboração de “espíritos de alta
fama”: assim noticia A Noite,
19-06-1915, ed. 1252, t. 4, o retorno da revista depois de um ano e meio fora
de circulação – é o momento em que Ildefonso acena com a possibilidade de Graciliano
ali publicar seu conto. Antonio Candido não menciona a revista Concórdia, órgão de divulgação da
Sociedade Concórdia de Propaganda Sul-Americana, que tinha projeto correlato ao
da outra, também com publicações em português e em espanhol principalmente.
Notícias de imprensa relatam o primeiro encontro da sociedade em 1912 e a
formação da diretoria, tendo como presidente Coelho Neto, como secretário o
jornalista, da Gazeta de Notícias, Candido
de Campos, o conde de Afonso Celso no conselho consultivo, e anunciam, às vésperas do lançamento da revista Concórdia, uma “grande festa de
aproximação sul-americana no Teatro Municipal”: ver, por exemplo, Gazeta de Notícias, 07-08-1912, ed. 220,
t. 2, e 10-08-1912, ed. 223, t. 1, A
Época, 05-01-1914, ed. 525, t. 2, Correio
da Manhã, 24-07-1915, ed 5994, t. 5. A edição de Cartas registra menção à Ilustração
Francesa, mas havia no período, tendo certamente como modelo L’illustration, francesa, a revista Ilustração Brasileira, que, vinculada a O Malho, teve três fases, 1909-1915,
1920-1930, 1935-1958, e entre seus
diretores Medeiros e Albuquerque, Álvaro Moreira e o conde de Afonso Celso,
conforme informações em < https://museuimperial.museus.gov.br/ >, > dami> acesse a base> coleções> coleção revista
Ilustração Brasileira. Todas as três revistas, de “sujeitos graúdos”,
pautaram-se pela “colaboração rigorosamente escolhida” e pela alta qualidade
gráfica, em papel couché. A revista Illustração
Brasileira encontra-se disponível na internet pela Biblioteca Nacional.
(Curiosamente, nessa publicação mencionou-se sob anticomunismo barato o
Graciliano já consagrado: como “líder vermelho”, por ocasião do IV Congresso de
Escritores e, após sua morte, como excelente prosador que “realizou obras de
proselitismo” e “confessou em voz alta os seus sentimentos de adepto do credo
vermelho”: ver em Illustração Brasileira,
11-1951, ed. 199, t. 40, e 01 e 02-1954, ed. 225, t. 22).
[232] Na verdade, a carta faz referência a
quatro “novelas”, ou a cinco, se o “padre ordenado por mim” não pertencer ao
enredo das anteriores. Embora Graciliano não especifique quais seriam as “duas”
que ele poderia publicar na Revista
Americana, ele tinha se referido a A carta e a O discurso,
antes de Maldição de Jeovah, como
sendo as primeiras que Falcão conheceu, oferecidas inicialmente junto a Um retardatário, para que ele então
escolhesse qual encaminhar à Revista
Americana. Alguns dos escassos sumários que nesse período anunciaram pela
imprensa as edições da revista não mencionam nada que se aproxime dos títulos
dos contos ou do nome ou dos pseudônimos conhecidos do autor, como se vê, por
exemplo, no Correio da Manhã dos dias
18-07-1915, ed. 5988, t. 2, 10-08-1915, ed. 6011, t. 2. Não há nos acervos
consultados referências à revista Concórdia
com menção a Graciliano: ver, por exemplo, sem detalhes, sem sumário, a
minúscula nota em A Noite,
13-08-1915, ed. 1307, t. 4. Três semanas depois de encerrar sua participação
(05-08-1915) no Paraíba do Sul, na
edição de 26-08-1915 (Biblioteca
Nacional, setor de periódicos – não disponível na internet no momento desta
consulta), foi publicada, também sem
menção a Graciliano, uma nota de lançamento do quarto número da Revista Americana, com pequeno sumário.
[233] Graciliano passou a viver em Palmeira dos
Índios aos dezoito anos, depois de muita leitura, quando já tinha produzido
vários poemas e percebido seu mundo com acuidade, como testemunham as
rememorações maduras de Infância
relativas às percepções da criança.
[234] Ver observações acima, de Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 34, sobre suas suspeitas de
tuberculose aos dezoito anos. Posteriormente, Eneida, no artigo “Graciliano
Ramos – Viventes das Alagoas”, Diário de
Notícias, 15-04-1962, ed. 12098, t. 38, 41, retomando uma publicação de
1949, de sua série de reportagens “Os ranhetas”, inaugurada com Graciliano,
lembra que, entre a escrita de Vidas
secas e o nojo da colaboração à revista Cultura
Política, o ex-companheiro de prisão apareceu-lhe com ideias negras,
dizendo que estava com um buraco “deste tamanho” no pulmão, as mãos
hiperbólicas desenhando um espaço maior que o peito.
[235] Foi o que aconteceu dezoito anos depois,
com Caetés: ”Várias pessoas se
julgaram retratadas nele e supuseram que eu havia feito crônica, o que muito me
aborreceu”: ver em “Alguns tipos sem importância”, Linhas tortas, p. 194-195.
[236] As publicações de poemas de Graciliano
ocorreram a partir dos seus quatorze anos, mas eles podem ter sido produzidos
aos treze ou antes.
[238] Clodoaldo (1902-1915) morreu aos treze
anos.
[239] Carta de 26-08-1915, p. 68. Em agosto de
1915 intensificaram-se anúncios bem chamativos na imprensa carioca sobre o novo
jornal A Tarde. Em desenho de traços
fortes sobre fundo branco, a mão que segurava uma plaquinha com o nome do
jornal destacava-se dentro de um pequeno quadro claro na mancha tipográfica
escura das páginas e era encimada pelo aviso: “Aparecerá no dia 1º de
setembro”: propaganda elogiada pelos
seus divulgadores, que saudavam o surgimento do novo jornal, de alto nível, sob
direção dos jornalistas Belisário de Souza Júnior e Anatólio Valladares: ver,
por exemplo, Gazeta de Notícias,
22-08-1915, ed. 234, t. 8, Correio da
Manhã, 01-09-1915, ed. 6033, t. 4. Graciliano disse que começaria a
trabalhar em A Tarde no dia
16-08-1915, mas o “há três dias” mencionado na carta de 26-08 sugere que
começou em 23-08-1915. Segundo o reclame, o jornal apareceria em setembro. Esse
foi o período de sua volta para Palmeira dos Índios.
[240] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 16.
[241] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 16. Na entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 183, Graciliano
diz: “Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor
voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e
onde minha família estava toda sendo dizimada pela bubônica. Num só dia perdi
dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que aqui levava, tratei
de voltar para Alagoas”. Como Graciliano anunciava sua desistência desde maio,
percebe-se que as mortes na família foram um impulso circunstancial para seu
retorno a Palmeira dos Índios.
[242] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17.
[243] 1915 -1930 – Palmeira dos Índios
M. M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 31, indica o nome: Maria Augusta Amorim de Barros,
mas em via (obtida em 21-01-1978) de certidão de casamento, reproduzida, por
exemplo, em Cartas, p. 36, consta
apenas Maria Augusta de Barros, de 21 anos de idade, com registro da idade
possivelmente equivocado, pois ela teria 19 anos ao casar-se, de acordo com a
data de nascimento indicada em: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ > : Maria Augusta de Barros, nascida
em 1896, em Palmeira dos Índios, onde faleceu em 23-11-1920.
[244] M. Ramos, Graciliano Ramos, p. 17.
[245] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 56. O autor indica, no momento da morte de Maria Augusta, p. 82, o endereço
do casal na “Rua de Baixo”. A referência a esse endereço também aparece em <
https://apalca.com.br/paraninfo/ >: “Maria Augusta de Barros Ramos viveu
somente cinco anos na companhia do escritor, pois faleceu no parto de sua
filha, no dia 23 de novembro de 1920, em sua própria casa, localizada na Rua de
Baixo (atual R. Major Cícero de Góis Monteiro)”.
[246] C. Ramos, Mestre
Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 42-43. V. de S. Lima, Graciliano
Ramos em Palmeira dos Índios, p. 82, 142, alude a segregação motivada pela
“heresia”: “andara ela um tanto retraída da sociedade até que Graciliano tomara
a sábia resolução de casar também no padre. Tudo se concertara assim de
repente, e ela ficara reconciliada com o seu meio”, e ao relatar o namoro, no
final de 1927, de Graciliano com Heloísa, informa que seu primeiro casamento,
na igreja, ocorreu dois anos depois do civil: “Estava assim na cara que desta
vez ele não iria engazopar os camaradas, como fizera em 1917 quando casara
eclesiasticamente com Maria Augusta, praticamente ‘escondido’ – e fora mais
longe ainda, batizando os filhos do casal, correndo por sua conta a escolha dos
padrinhos”.
[247] Graciliano prometera à
mãe em 1914, que, se não conseguisse nada no Rio, voltaria a Palmeira,
aprenderia a comprar couro (como Delmiro Gouveia e Paulo Honório) e nunca mais
abriria um livro (Carta de 20-10-1914, p. 39-40). A reportagem biográfica de Francisco
de Assis Barbosa, Homenagem a Graciliano
Ramos,
p. 42, registra que no início de sua viuvez o autor retomava os livros “depois
de um longo período sem leituras”. Em entrevista a Homero Senna, República das letras, p. 184, Graciliano
conta que assinou vários jornais do Rio para acompanhar a Revolução Russa
(1917). Em 1921, recentemente viúvo, respondeu de Palmeira dos Índios à carta
do amigo Pinto, que havia ficado no Rio: “Há cinco anos não abro um livro”
(10-05-1921, p. 74).
[248] Ver foto de Graciliano fardado, perfilado
junto a outros colegas, em frente ao prédio do Tiro de Guerra nº 384, por
exemplo em Cartas, p. 14, ou em
Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos:
vida e obra, p. 195, que na legenda data como “foto da década de 20”. No
registro biográfico de Graciliano Ramos, como paraninfo da APALCA - Academia
Palmeirense de Letras, Ciências e Artes, consta: “Em 1916, o Governo Federal
instala na cidade de Palmeira dos Índios o Tiro de Guerra nº 384, quando
assentaram praça 120 jovens palmeirenses. Dentre eles estava o escritor
Graciliano Ramos de Oliveira”: < https://apalca.com.br/paraninfo/ > . É estranho que um homem casado,
com ares de adolescente na foto, tenha servido entre os 23 e 24 anos de idade,
em 1916. Mas a data é verossímil: é o período da implantação do serviço militar
no Brasil, promovido pela campanha em que se destacou Olavo Bilac – o que
sugere ter sido Graciliano aderente às propostas do poeta. Ver a respeito do período,
por exemplo: Dominichi Miranda de Sá, “A voz do Brasil: Miguel Pereira e o
discurso sobre o ‘imenso hospital’ “. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35,
entende que, juntamente com Cícero da Silva Pereira, Graciliano tenha servido
entre 1920/1921, portanto com 28 anos de idade, viúvo e pai de quatro filhos no
final de 1920. O Índio, 18-08-1922,
ed. 80, t. 2, noticia a viagem de reservistas convocados para uma parada em
Maceió, e cita, dentre eles, Graciliano Ramos. Em Graciliano Ramos: cidadão e artista, p. 297, Carlos Alberto dos
Santos Abel sugere a possibilidade de Graciliano ter-se inspirado na numeração
do Tiro de Guerra (mas o pesquisador não alude ao ano de 16) para compor o
número do bilhete de loteria de Angústia
em que Luís da Silva pensa obsessivamente:
16.384.
[250] Diário do Povo, Maceió, de 08-05-1917 a 22-05-1917, ed. 468 a 478,
t. 3. M. M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos. Achegas biobibliográficas, p. 88, menciona publicação de mesmo teor
no Jornal de Alagoas, 08-05-1917.
[251] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17. Em O
Índio, por exemplo na edição de 01-05-1921,
ed. 14, t. 4, anúncios da Loja Sincera indicavam o seguinte endereço:
Praça da Intendência, nº 5. A praça
tinha o nome popular de Quadro. Teve
o nome Intendência (Prefeitura) em
razão de o prédio desta estar ali localizado, e posteriormente, a partir do
centenário em 1922, foi chamada Praça da
Independência. Em Caetés, as
menções são a “Quadro” e a “Praça da Independência”: por exemplo, Capítulo 4,
p. 29. Um de seus impressos contábeis tinha o cabeçalho: “Loja Sincera –
Magnífico sortimento de fazendas, miudezas, ferragens, tintas, etc. etc. –
Sinceridade e lhaneza – Preços sem competência – 5-Praça da Intendência-5”,
como se vê em: Documentário sobre
Graciliano Ramos, Mandala Filmes, 5:53:
< https://youtube.com/watch?v=JlqbVfhydz0>.
[253] Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 72,
comenta os nomes pouco usuais
que Graciliano deu a alguns filhos: “éramos raridades”; “Júnio invariável se
tornava Júnior” e, quanto ao “Ricardo”, o barbeiro lhe perguntou: “Como é que
seu pai botou em você nome de negro?”.
[254] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 26.
[255] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 76.
[256] Homero Senna, República das letras, p. 184. Os referidos quinze anos parecem
indicar o intervalo entre o ano em que voltou do Rio, 1915, e o da mudança para
Maceió, 1930. Apesar das leituras mencionadas de 1917, é possível que de 1915 a
1920 tenha reduzido suas atividades intelectuais, segundo o que disse a Pinto
em 1921, talvez com exagero: “Há cinco anos não abro um livro” (Carta de
10-05-1921, p. 74).
[257] Há confissões familiares de dificuldade
de relacionamento entre Graciliano e a filha. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 47, diz: “Desde
que Maria Augusta morreu, Graciliano mostra indisfarçada repulsa pela
recém-nascida, nela projeta a responsabilidade da desgraça”; “Dois anos depois
do nascimento da menina, ao encontrar certo dia no portão de casa uma empregada
com uma belíssima criança ao colo, a tomará nos braços, encantado, perguntará a
quem pertence aquele bebê de anúncio publicitário. Informado de que se trata da
própria filha, devolverá a carga, a fisionomia mudada”. Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 97, anota: “A caçulinha Maria Augusta ficava geralmente ‘no canto’ ”; “Vez
por outra, a pequerrucha, notando o contraste de tratamento e revelando,
naturalmente, uma pontinha de ciúme, sussurrava para a tia: ‘O pai de Múcio
hoje trouxe confeitos para ele...’ “. Mais à frente, Clara Ramos, p.154-159,
comenta que, após morarem em duas pensões, a primeira residência que a família
teve no Rio foi na Rua Resedá, 13, onde Maria Augusta, desquitada, aos 21 anos,
veio morar com o pai. A moça estivera em colégio interno a partir de 1936,
antes de um mau casamento: “Pela primeira vez o romancista convive com sua
filha mais velha. As relações com a segunda Maria Augusta, sempre muito tensas
desde a morte da primeira, abrandam”. Loura e linda, ela lhe faz as unhas, ele
lhe acende o cigarro, ela canta, o pai fala de literatura e “ensina-lhe à
noite, na mesa da sala, a escrituração mercantil de que ela necessita no
emprego em que se inicia”. No capítulo “Mudança”, p. 162-163, Clara Ramos
indica que a “aparição da filha mais velha” obrigou-os a mudança para imóvel
mais amplo, na Rua Conde do Bonfim, 752, apto. 204 do Edifício Ana Francisca. E
que, p. 165, com a chegada do avô Américo, da tia e de Ricardo Ramos, Maria
Augusta ficou no quarto de empregada, tendo posteriormente entrado em conflito
com o pai e deixado o lar. Ivan Barros, em A
Luta Democrática, 16 e 17-04-1972, ed. 5617, t. 2, sob o título “Uma
injustiça que precisa ser reparada”, anunciou um quadro triste na vida da
mulher madura: “Maria Augusta vive numa promiscuidade que dá pena. Abandonada.
Solitária no Alto de Santa Teresa. E o pior: não recebe a sua participação nos
direitos autorais”. Maria Augusta Ramos, nascida em 23-11-1920, faleceu no Rio
de Janeiro – RJ, em 21-10-1980 (data de aniversário de casamento dos pais) –
ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >.
[258] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 34,
cita depoimento de Cícero da Silva Pereira: “Depois de sua morte, Graciliano
transfigurou-se. Ficou brusco. Introvertido. Deixou de frequentar o Bar e Café Rancho Fundo e o Bacurau – tradicionais bares
palmeirenses. Cortou relações”.
[259] A cena da morte de Madalena, em S. Bernardo, capítulo 31, parece
absorver essa experiência.
[260] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 17. Daia era o
apelido familiar da quinta irmã de Graciliano, Anália (1904-1994), doze anos
mais nova que ele. Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >. V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 82-83, detalha: “A casa da Rua de Baixo, atual Major Cícero de Góis Monteiro,
encheu-se, num instante, de parentes, amigos e conhecidos que iam
solidarizar-se com Graciliano naquele transe supremo”. Após o enterro,
Graciliano, “percebendo que não suportaria continuar vivendo naquela casa”,
acompanhado por um cortejo familiar, “rumou da Rua de Baixo para o Pingafogo”,
aceitando o convite do pai para lá ficar provisoriamente. Clara Ramos, Mestre Graciliano –
confirmação humana de uma obra, p. 47, informa que Graciliano, viúvo, depois de
passar algum tempo na casa dos pais, mudou-se da casa em que vivia com Maria
Augusta: “Ao sair da temporada curta na casa dos pais, Graciliano muda-se para
a vizinhança por imposição do coronel. É que a irmã Anália, a ‘Daia’ que lhe
assume a criação dos filhos e a direção da casa, tem apenas 16 anos e o pai não
deseja vê-la afastar-se em demasia”.
[261] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 82, cita “Colégio
Sagrado Coração” ao mencionar que o “estabelecimento no qual o literato
ensinava francês, encerrava o ano letivo com uma sessão cívica e uma
representação teatral à noite. O programa foi cancelado. Todas as atenções se
voltavam agora para os funerais da extinta, marcados para o fim da tarde”. Com
a mesma denominação do colégio, p. 104,
o autor observa que Graciliano não pedia remuneração por suas aulas.
Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 46, retoma as informações do autor
sobre o falecimento de Maria Augusta sem corrigir o nome do colégio.
Entretanto, em edições de O Índio, menciona-se
“Colégio Sagrada Família”, sob a direção de Laura Motta. Ver: O Índio, 14-08-1921, ed. 29, t. 3, e 23-03-1924, ed. 160, t. 1. Graciliano, na
edição de 13-11-1921, ed. 42, t. 3, é
citado como membro da banca dos exames finais dos cursos primário e secundário
do colégio, juntamente com os“Srns. Rev. Vigário, Dr. Luiz Medeiros”. Em Caetés,
p. 70 e p. 150, o nome ficcionalizado “Colégio Coração de Jesus”, vinculado
à hóspede professora Priscilla Fernandes, parece referir-se ao nome de fato de
colégio de Maceió – citado em O Índio, 02-12-1923,
ed. 145, t. 3, em nota festejando a chegada à cidade, vindas daquele colégio
interno, das senhorinhas Lindinalva e Lectícia, filhas de Leobino Soares,
acompanhadas de Judith Malta – nota social justamente num contexto aproveitado
em Caetés (mas Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 34, além de contar
que Graciliano a fez de cobaia para perceber a reação aos beijos no cachaço que
João Valério daria em Luísa no início de Caetés,
entende que a cena no romance, capítulo 11, da visita de duas moças à
redação de A Semana, foi vivida por
ela e uma amiga).
[262] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 83-84.
[263] R. Ramos, Graciliano:
retrato fragmentado, p. 103. Em Cartas,
01-01-1926, p. 81-82, ao amigo Pinto Mota Lima Filho, fica a sugestão pela data
da carta de que o contato fugaz com a obra do autor francês foi posterior:
“Dize-lhe também [ao Dr. Mota] que comprei o último livro de Flammarion e andei lendo aquilo uns dias, na
esperança de encontrar alguma coisa que me convencesse. Aqui para nós, deixei o
livro mais desiludido que quando comecei a leitura”. Mesmo irônica, a atenção
ao espiritismo se evidencia: uma das passagens famosas de seu primeiro
relatório de prefeito toca no assunto. Ver o relatório em Viventes das Alagoas, p. 169: “Constava a existência de um
código municipal, coisa inatingível e
obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao
espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”. Em Caetés, a ironização do espiritismo é
uma constante do enredo.
[264] A coleção do semanário
encontra-se disponível em: < https://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx>, a partir do nº 3,
de 13-02-1921, ed. 3, com algumas lacunas até o nº 201, de 18-01-1925, ed. 201,
t. 3, que traz um pequeno anúncio: ”O
Índio só circulará dia 30, em edição comemorativa”. Uma foto marcante da
iconografia de Graciliano é a da cerimônia de inauguração do jornal, em que ele
aparece elegantemente vestido de luto, com um grande chapéu negro, sentado
junto a Padre Macedo e a personalidades, respaldados por três fileiras
gradativas de mocinhas uniformizadas: ver em Cartas, p. 72 ou na edição comemorativa de um ano de O Índio, nº 52, de 30-01-1922, ed. 52,
t. 1. Não há notícias sobre o título ter sido sugestão de Graciliano, como se
fosse uma antecipação do título Caetés,
romance em que sua participação no jornal é projetada: “E eu, em mangas de
camisa, a estragar-me no escritório dos Teixeira, eu, moço, que sabia
metrificação, vantajosa prenda, colaborava na Semana de Padre Atanásio e tinha um romance começado na gaveta”
(Capítulo 2, p. 16). A designação apositiva de O Índio resumiu-se logo em abril de 1921 a “Semanário
Independente”, acrescida, a partir de agosto de 1922, de “Com aprovação
eclesiástica”. O formato costumeiro do jornal era de quatro páginas, com
anúncios postos predominantemente na última. Saía aos domingos, tinha redação e
oficina na Pça Dr. Guedes Gondim, como diretor Padre Macedo, “redactores
diversos” e, como gerente, no início, Odon Braga, cunhado de Graciliano, marido
de Otília Ramos. A partir da edição nº 10, de 03-04-1921, ed. 10, t. 4, até a
de nº 35, de 25-09-1921, ed. 35, t. 4, publicaram-se anúncios da Loja Sincera,
nas primeiras vezes dispostos lateralmente na vertical – um estilo de
propaganda, usual na época, com a posição que procurava provocar destaque ao
obrigar o leitor a virar o jornal para lê-los (Ricardo Ramos,
Graciliano: retrato fragmentado, p.
30-31, faz observações sobre a modernidade dos anúncios elaborados pelo pai). Além de
Padre Macedo, que assinava “F. Narciso” ou “Z” (como revela Graciliano em Cartas, 04-08-1921, p. 76), outro dos
redatores do jornal foi José Pinto de Barros, aluno de Graciliano, que, quando
assinava, usava um anagrama com as primeiras sílabas de seu nome inversas:
“Barpinjo”. Ver: < https://apalca.com.br/patronos/jose-pinto-de-barros/ >.
[265] Moacir M. de Sant’Ana,
em Graciliano Ramos: vida e obra, p.
35, atribui o editorial de inauguração de O
Índio a Graciliano. Entretanto, o texto sob o título “O Índio”, de 30-01-1921,
que abre a primeira página do número 1 do jornal, tem um andamento atrapalhado,
que lembra Padre Atanásio de Caetés.
Por outro lado, essa proximidade não permite relacionar imediatamente a autoria
a Padre Macedo. Ainda que Padre Atanásio, de Caetés, tenha sido inspirado no Padre Francisco Xavier de Macedo, a
comicidade atanazada do personagem contrapõe-se em muitos casos à qualidade de
articulação textual de sua fonte, cuja benignidade revela veemência humanitária
com consistência argumentativa, não necessariamente em razão de um possível
copidesque de Graciliano, pode-se presumir quando se vê em textos posteriores à
presença deste no jornal, como, por exemplo, o editorial assinado sob o
pseudônimo, atribuído ao padre, “F. Narciso”, verberar o abuso de pobres
raparigas empregadas nas casas de famílias abonadas, em “Vil exploração!”, no
nº 17, de 22-05-1921, ed. 17, t. 1, ou quando bate na tecla da educação, em “A
instrução pública em Palmeira”, no nº 54, de 12-02-1922, ed. 54, t. 1. Há uma
aula de redação encenada em Caetés,
com soluções de texto dadas pelo Padre Atanásio, no capítulo 11, p. 70:
”Deu-nos o prazer de sua encantadora visita a senhorita Josefa Teixeira, dileta
filha do abastado comerciante e nosso particular amigo Vitorino Teixeira, que
nos encantou com deliciosa palestra”. João Valério comenta com o redator que do
jeito como a nota foi escrita parecia que a conversa era com Vitorino. Padre
Atanásio resolve: “Deite um ponto no Vitorino
Teixeira, corte o que e meta
depois A visitante”. João Valério
comenta: “Louvei sinceramente a inteligência de Padre Atanásio“. Ivan Barrros, em Graciliano era assim, p. 291, reproduz em fac-símile o editorial
manuscrito de inauguração de O Índio. Embora
o pesquisador atribua a autoria a Graciliano, a letra não parece ser dele.
Maria Lúcia Palma Gama, em “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, nº 35, p. 201,
identificou a participação de Graciliano no jornal apenas com os textos
assinados por três pseudônimos: X., Anastácio Anacleto e J. Calisto,
respectivamente para as colunas “Garranchos”, “Factos e fitas” e “Traços a
esmo”. Este último título retomava em O
Índio-1921 o da coluna “Traços a esmo” de 1915, usado no jornal Paraíba do Sul – RJ. Nem sempre os
textos da coluna “Garranchos”, assinados por X, mostram com evidência e
plenamente as características do estilo de Graciliano, como, por exemplo, nas
formulações campanudas com teor moralizante da publicação de O Índio, 06-03-1921, ed. 6, t. 2.
A última das quatorze crônicas de J. Calisto, em O Índio, foi republicada,
com alterações e com o título “Habitação”, anos depois, na revista Cultura Política nº 6, 08-1941, e
coletada em Viventes das Alagoas, em
1962. Portanto, das quatorze crônicas da coluna “Traços a esmo” de O Índio, treze foram publicadas na
coletânea Linhas tortas-1962: uma, no
subcapítulo “Linhas tortas”, que acolhe a produção de 1915, e doze, no
subcapítulo “Traços a esmo”, que acolhe a produção de 1921. Além disso, há os
textos descobertos por Vivice M. C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, “Judas”, crônica
assinada por J. C., O Índio,
27-03-1921, ed. 9, t. 1, e “Uma carta”, em O
Índio, 22-05-1921, ed. 17, t. 2, assinada por G. Ramos, conforme
explicações à frente.
[266] A publicação em O Índio de dois artigos assinados por
“Lambda” provocou uma longa cadeia de equívocos que se fixou em toda a fortuna
crítica e documentária de Graciliano com a atribuição indevida do pseudônimo a
ele. Mas basta ler o primeiro dos artigos, em O Índio, nº 10, de 03-04-1921, ed. 10, t. 1, para dar-se conta de
que a trapalhada textual é a sério, e não (como as falas de Padre Atanásio em Caetés) elaborada por Graciliano para
que se contrapusesse sarcasticamente à receita prometida no título: “Como se
escreve”. Um trecho, por exemplo: “Haja o porquê
e o como está feito, porquanto este é
o complemento daquele. Assim os homens que foram ou ainda querem ser crianças,
hajam frequentado sem constrangimento ao
menos a escola primária e tenham gostado de possuir livros para lerem, –
queiram fazer-se leitores”. Ver abaixo o artigo “Pois façamo-las”, que faz a
exegese do texto e festeja a estreia da colaboração de Lambda, “experimentado
escritor que modestamente se exime de declarar seu nome, ocultando-se à sombra
de um pseudônimo com que há tempos assinou artigos magníficos na imprensa da
capital”. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos antes de Caetés, p. 21-22,
além dos dois artigos publicados em O
Índio, descobriu outros cinco textos de mesma feição sintática e ideológica
assinados com “Lambda”, publicados no Jornal
de Alagoas entre 1909 e 1913, aos quais o pesquisador também atribuiu
equivocadamente a autoria de Graciliano: “No campo das letras”, “Estudante na
roça”, “Pela mocidade”, ”Zé Pereira”, “Professiomania”. Esses textos
encontram-se reproduzidos na tese de doutoramento de Thiago M. Salla, O fio da navalha: Graciliano Ramos e a
revista Cultura Política, p. 59-60, 470, 510-527, 570-573. Em Cartas, de 04-08-1921, p. 75-76, Graciliano comentou com o amigo Pinto
sua curta participação em O Índio:
“É, realmente, de admirar que eu tivesse trabalhado nele, de parceria com um
padre. O dr. Mota publicou dois artigos, por solicitação minha. Creio que foram
as únicas coisas razoáveis que ali houve, além de alguns trabalhos do Moreno
Brandão”. Ocorre que os textos de Moreno Brandão, renomado intelectual
alagoano, vêm assinados. Tanto ele quanto o Dr. Mota Lima estavam no grupo de
intelectuais alagoanos que responderam ao “Inquérito” do Jornal de Alagoas, em 1910, de que o jovem Graciliano Ramos
participou – como indica Valdemar de S. Lima em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 103. O Índio não apresenta textos com
assinatura do farmacêutico Dr. Mota Lima – o que sugere pela coincidência de
serem dois os seus artigos, a hipótese de ser ele o “Lambda”, e Graciliano,
modesto.
[267] Foram seis publicações da coluna “Factos
e fitas”, edições de O Índio do nº 1 ao nº 6, entre 30-01 e 06-03-1921.
[268] Vivice M.
C. Azevedo, Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 141-142, relata
que, ao pesquisar o periódico, descobriu um episódio curioso a respeito: quinze
dias após a saída de Graciliano, O Índio,
nº 16, 15-05-1921, ed. 16, t. 3, noticiou o aniversário de Sebastião Ramos, na
listagem de sua “Crônica Social”, “Aniversários”: “De amanhã – o cel. Sebastião
Ramos de Oliveira, abastado proprietário neste município e pai do nosso querido
ex-companheiro de redação Graciliano Ramos”. Com isso, o número posterior, nº
17, 22-05-1921, ed. 17, t. 2, publicou “Uma carta”, assinada por “G. Ramos”,
que negou taxativamente irônico qualquer participação sua no jornal. Com o alto
estilo reconhecível, tal como praticado nos números anteriores, comparando-se
ao personagem mau-caráter de Eça de Queiroz, em Os Maias, Dámaso Salcede, que usa a mesma desculpa depois de
publicar um mexerico, Graciliano, com paradoxo gaiato, argumenta que não sabe
escrever, escrevendo: “Julguei-me vítima de uma pilhéria – desculpem-me a
franqueza – pilhéria de muito mau gosto, porque aqui todo mundo sabe que sou um
camelo”; “Não escrevo, meus caros redatores, nunca escrevi, graças a Deus, como
diria o Dámaso Salcede. Sou inteiramente impenetrável à arte que os senhores
publicistas possuem de embromar superiormente os leitores metendo-lhes
caraminholas na cabeça”.
[269] A 15ª edição de O Índio, 08-05-1921, ed. 15, t. 2, publicou esta nota no alto da
página 2: “Traços a esmo” – “O autor desta coluna retirou-se d’O Índio. De hoje em diante não serão
publicados os TRAÇOS”. Não há
notícias a respeito das razões da “retirada” de Graciliano, como algum conflito
com o jornal ou irritação com as reações dos leitores. A partir dos números
seguintes, os proprietários da empresa de energia elétrica e do cinema tiveram
tratamento mais condescendente e elogioso. Mas não muito: as reclamações voltaram
logo. Ver, por exemplo, em O Índio,
24-07-1921, ed. 26, t. 3, o artigo de cunho editorial sob o título “Luz à
vontade”, em que a “vontade” é a do proprietário da usina elétrica.
[270] Linhas
tortas, p. 82-83. Essa crônica, publicada em O Índio, 10-04-1921, ed. 11, t. 2, tem sido sempre lembrada como
uma profecia equivocada de Graciliano Ramos sobre o futuro do futebol no
Brasil. Entretanto, a crônica refere-se à chegada do futebol ao sertão, mais
especificamente à região de Palmeira dos Índios. Nesses tempos, Graciliano
dedicou-se ao bilhar e ao ciclismo, mas, ainda que não praticasse o futebol,
não há depoimentos que indiquem aversão ao esporte. Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 30, lembra que o
irmão, em torno de 1925, passou como lição para seus alunos caseiros a
descrição de uma partida de futebol que ocorreria entre os dois times de
Palmeira. Em Caetés, capítulo 21, p.
150-151, no passeio com as senhoras, João Valério passa pelo campo de futebol
do C.S.P [Centro Sportivo Palmeirense], que havia sido transformado em plantio
de mandioca e algodão. Um dirigente pretendia limpar o terreno e reorganizar o
clube, mas D. Engrácia é contra: “Isto assim está melhor do que cheio de vadios
trocando pontapés”. Durante a Copa do Mundo, em 1938, respondeu a enquete sobre
prognóstico para a partida de Brasil x Polônia: “Nunca joguei futebol. Nem
mesmo na meninice. Mas leio jornais e conheço teoricamente... o complicado
esporte das multidões. O Brasil vai ganhar. Deve ganhar”: Diário da Noite, 04-06-1938, ed. 3255, t. 12. (Sobre o resultado, Brasil 6 x Polônia 5, ver: Diário da Noite, 06-06-1938, ed. 3257,
t. 1). Como autor consagrado, frisou em depoimentos sua indiferença à música,
mas não mencionou o futebol: ver em Homero Senna, República das letras, p. 191, João Condé, Arquivos implacáveis, Flash – Graciliano
Ramos, Letras e Artes – Suplemento de A
Manhã, 01-08-1948, ed. 93, t. 8. Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p.
123-124, lembra a amusicalidade do pai, mas em relação ao futebol não indica
indiferença completa, como viu na célebre e dramática final da Copa de 50, no
momento do jogo Brasil x Uruguai no Maracanã: ”Volta e meia o Velho surgia à
porta do quarto, em pijama, limpando com pedra-pomes os dedos manchados de
nicotina, abria uma careta de expectativa, que tal?”, “ – Então, perdemos? Achei que sim, do jeito que estava. Largou contrariado: – Só falta o Getúlio voltar, desta vez
eleito”. Ricardo Ramos, sem repelir a divulgação usual de que a profecia do
Graciliano de 1921 teria sido um equívoco sobre o futuro do futebol no Brasil,
procura justificar o pai: “Graciliano teria ecoado as posições do exaltado Lima
Barreto, reagindo contra a importação de um esporte então minoritário,
decididamente elitista e racista”.
[271] Cartas,
04-08-1921, p. 76.
[272] A seção “Correspondência” deixou de ser
publicada em meados de abril. Ivan Barros, em Graciliano era assim, p. 185-192, transcreve como “bilhetes” os
textos daquela seção de O Índio e
atribui a autoria a Graciliano, sem outras explicações.
[273] Um episódio sugestivo para a
identificação das autorias é o da última crônica de “Garranchos”: O “X” do
pseudônimo vem abaixo revelado entre parênteses como “João Moraes”, depois de
anunciar que estaria na redação à espera do proprietário da empresa de eletricidade,
que se irritara com a crônica anterior. Nesta, o autor reclamava ironicamente
da precariedade do fornecimento de luz, principalmente aos sábados. Se “João
Moraes”, subscrito à nota, não assumiu de fato a briga, a gaiatice da situação
se daria sob a hipótese de o texto dessa última crônica ser realmente de
Graciliano, que, sendo assim, no momento em que deixava o jornal, empurrava
para outro a tarefa de desafiar o proprietário (ed. 14, 01-05-1921).
[274] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 19-20, lembra alguns
ensinamentos do pai: ”Não escreva algo – É
crime confesso de imprecisão”. Também não usava reticências e exclamações:
“Reticências, porque é melhor dizer do que deixar em suspenso. Exclamações,
porque não sou idiota para viver me espantando à toa”. Em Novos rumos, 07 a 13-06-1963, ed. 224, t. 5, “Presença de
Graciliano”, entrevista de Heloísa Ramos a Regina Montana, a esposa relembra
comentários semelhantes de Graciliano sobre tais aversões: “Não vivo me
admirando, nem deixo coisas por dizer. O que tem que ser dito, deve ser dito.
Para que, então, vou precisar de reticências e exclamações?” Um dos raros
momentos em que Graciliano na maturidade usa reticências é para figurar o
pensamento entrecortado e dificultoso de Fabiano na “Cadeia”, capítulo de Vidas secas.
[275] Ver a análise de características de
seu estilo em Rolando Morel Pinto, Graciliano
Ramos – autor e ator, por exemplo, p. 23.
[276] Infância,
O inferno, p. 81.
[277] R. Morel Pinto, Graciliano Ramos – autor e ator, p. 51-56.
[278] O
Índio, 20-02-1921, ed. 4, t. 1 (esse exemplar da BN traz abaixo da crônica
anotação manuscrita indicando autoria de “J. Pinto”). As sátiras ao cinema
local traem o habitué “cinemófilo”,
para usar a expressão do próprio Graciliano em Linhas tortas, VIII, p. 28. Por outro lado, as reclamações sobre o
cinema somam-se às reivindicações pela luz elétrica de qualidade, pela estrada
de ferro e pela educação formal, dentro do programa civilizatório de O Índio. Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 109, lembra que ainda nos anos 30, durante a temporada em Palmeira dos
Índios e a escrita de S. Bernardo,
Graciliano embora escrevesse a Ló xingando o cinema da cidade, não perdia uma
sessão. A carta sobre cinema, nesse período, Cartas, 10-1932, p. 131, diz: “Há uns dois dias fui ao cinema. Sabe
o que apareceu? Uma fita de Max Linder e pedaços da guerra de 1914. Calcule.
Não conhece Max Linder? Conhece nada! No tempo dele você ainda não tinha
nascido. Pois é o que se vê no cinema de Palmeira, hoje que o cinema é coisa
séria. Aqui é assim, Ló. Uma peste”.
[279] Trata-se de um
comentário sobre o artigo de “Lambda”, festejando o início de sua participação
no jornal com um artigo publicado no mesmo número. A nota decifra e resume a
proposição do texto e realça o que nele responde à campanha permanente de O Índio: criar escolas e combater o
analfabetismo.
[280] No conto de Gervásio
Lobato, “Tudo vai sem novidade”, o patrão
fica surpreso ao deparar-se, em Lisboa, com seu criado saloio, Tibúrcio. Tem esse andamento:
“— Olá! Tu por aqui, Tibúrcio? [...]
—
Então como está tudo por lá?
—
Tudo bom, muito obrigado. [...]
— E
o meu cavalo ruço… o Janota?
—
Ah! É verdade; esqueci-me de dizer-lhe; esse é que não tem lá passado muito
bem”.
E
assim, sucessivamente, aos poucos, Tibúrcio vai dando conta ao patrão de todas
as desgraças: o cavalo morrera no incêndio que passara da casa para a cocheira,
depois de cair uma tocha do velório da mãe, que havia morrido por desgosto,
pois o pai se enforcara ao ter todas as suas fazendas penhoradas. O personagem
vai acrescentando a cada fala: “Mas o resto vai sem novidade”. Ver reprodução
do conto em Gazeta de Petrópolis,
11-05-1895, ed. 36, t. 2, também publicado por Mariano Torres (org.), Maravilhas do conto humorístico.
[281] Graciliano não cumpriu plenamente a
promessa de 1914, feita à mãe, ao comentar o conselho do pai para que ele
voltasse do Rio (ver Carta de 20-10-1914, p. 39-40). Em 1921, recentemente
viúvo, retomou contato com o amigo Pinto: “Vou por aqui, arrastando-me, mal. Há
cinco anos não abro um livro. Doente, triste, só – um bicho” (Carta de
10-05-1921, p. 74); “Depois que aqui cheguei, nenhuma tentativa fiz para
garatujar coisa nenhuma. Até o dia em que o senhor vigário veio pedir-me para
rabiscar o jornaleco vagabundo de que te mandei algumas amostras, vivi sem
abrir um livro, inteiramente burrificado” (Carta de 08-12-1921, p. 77). Francisco de
Assis Barbosa, em “50 anos de Graciliano Ramos”, A. F. Schmidt et alii,
Homenagem a Graciliano Ramos, p. 42, fala sobre o início da viuvez em 1920:
“Depois de longo período sem leituras, Graciliano Ramos deu para devorar tudo
que havia de bom nas livrarias de Maceió e do Recife. Lê tudo”; “De uma feita,
trouxe para Palmeira dos Índios quase todos os volumes da Biblioteca Nelson,
que encontrara numa livraria do Recife, a mil réis cada um. Lia francês,
inglês, italiano”.
[282] Depois da atuação em O Índio, 1921, sua primeira publicação localizada, além dos
relatórios, foi em 1929, “Professores improvisados” – ver abaixo.
[283] Conforme registro no Catálogo eletrônico
do IEB: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> relações socias> página 9>
manuscritos recebidos de autores não identificados [disponíveis até meados de
2023, dos 4 itens, 3 foram ocultados pela repetição do primeiro às vésperas da
entrada de Graciliano Ramos no domínio público – se precisar, substitua o
código do endereço pelo Código=229215, conforme abaixo]:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229215 >.
Ver publicação do manuscrito em 2024, ano em que a obra de Graciliano
passou a domínio público: Os filhos da
coruja. Edição de Thiago Mio Salla. Ilustrações de Gustavo Magalhães. São
Paulo: Todavia, 2024. (Baião).
[284] O
Malho, 26-08-1922, ed. 1041, t. 9.
[285] Maria
Ramos de Oliveira (Marili) foi professora e escritora. Publicou: Graciliano Ramos; Histórias mal-arranjadas. Contos; Ficção e realidade. Contos – Prêmio Moinho Nordeste 1985. Com
“Desencanto”, participou do livro Contos
alagoanos de hoje. Com o conto “Os meus amores”, ganhou o prêmio Guimarães
Passos da Assembleia Legislativa/AAL, 1985 – conforme informações de F. R. A. de Barros, ABC
das Alagoas, tomo R-Z , p. 11.
[286] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 32. Se a citada A arte de escrever for de título dado
para coletânea de Schopenhauer, certamente sua crítica ferina entusiasmou
Graciliano e suas lições deram-lhe formação.
[287] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35,
informa: “Em fevereiro de 1922, em dependência da Intendência Municipal,
Graciliano voltou-se para o magistério, passando a lecionar português,
aritmética, história, geografia e francês a um grupo de comerciários e pequenos
negociantes da localidade, integrado, entre outros, por João Moraes, Jovino
Melo, Fredovino Maia, José Pinto de Barros, Necéforo Cavalcante, Juvenal Brena
Wanderley e Cícero Silva Pereira”. No ano anterior, no momento em que
Graciliano deixava o jornal, foi
noticiado em O Índio, 01-05-1921, ed. 14, t. 1: “Em vista da notável falta de
escolas que há aqui, resolveram alguns moços, auxiliares do comércio e
funcionários públicos, organizar um grêmio literário noturno, que se reunirá em
uma das dependências do palacete da Intendência Municipal, gentilmente cedida
pelo chefe do poder executivo. É para lamentar, entretanto, que rapazes
desejosos de obter instrução lutem com dificuldades, invencíveis talvez, para
encontrar professores. É já a segunda tentativa que faz a mocidade do comércio
palmeirense a fim de criar um estabelecimento de ensino, onde possa aproveitar
no livro as horas que lhe restam do trabalho. Infelizmente, tem encontrado
sempre as mesmas dificuldades. Todavia é necessário não desanimar. Todo o
esforço que se fizer em benefício da instrução é digno de aplausos. Tomem os
moços a direção do movimento; procurem chegar-se à civilização, de que ainda
estamos longe, já que não temos quem olhe para o lamentável estado em que
vivemos”.
[288] Como se viu acima,
Graciliano resenhou, no artigo “Literatura” (1911), a tradução para o italiano
de O caçador de esmeraldas, de Bilac.
Em seus poemas usou italiano uma ou outra vez: no título do soneto Partenza tua (1910), na epígrafe em A aranha (1911) e no título do poema Ritorno (1913). Ver Cartas, 07-02-1913, p. 19, ao amigo Pinto: “Perguntas se ainda
estudo o italiano. Não, eu não estudo nada: já sei muito, até mais do que era
preciso saber”. Em Correio da Manhã,
28-03-1953, ed. 18408, t. 2, “Graciliano Ramos (no 7º dia de sua morte)”, Otto
Maria Carpeaux lembra que Graciliano aprendeu italiano para ler Dante.
[289] “Professores
improvisados”, Viventes das Alagoas,
p. 134-135. Crônica originalmente publicada – já identificada a autoria com
“Graciliano Ramos” – na Revista de
Ensino. Órgão Oficial do Departamento Geral de Instrução Pública de
Alagoas. Maceió: Imprensa Oficial, nº 17 – setembro-outubro 1929, ed. 17, t. 50
e 51. Ver considerações a respeito em “Cuore” como também em “Graciliano e I
Malavoglia”, artigos em que abordo a relação de Graciliano com o italiano.
[290] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 107.
[291] Em “Há 50 anos – Graciliano comprou a
casa onde escreveu ‘Caetés’ e seus relatórios de prefeito”, Diário de Pernambuco, 11-01-1973, ed. 9,
t. 31, Tadeu Rocha, apoiado em documentos, informa que Graciliano comprou em
16-01-1923 a casa na Rua General Gabino Besouro, nº 12, Palmeira dos Índios.
Reformou-a visando um
escritório de estudos e e ali viveu desde então, onde permaneceu, após o
casamento em 1928, juntamente com Heloísa Ramos e filhos até sua mudança para
Maceió (M. M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 47, indica a data da mudança: 29-05-1930). Dias antes de morrer no Rio de Janeiro, a
casa foi vendida em 16-03-1953, sendo a operação conduzida por seu procurador,
o amigo Padre Francisco Xavier de Macedo. A campanha, desde 1959 encabeçada por
Valdemar de Souza Lima, enfim conseguiu do IPHAN – Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional – o tombamento e a restauração da “Casa Museu
Graciliano Ramos”, inaugurada em 1973, já com a rua sob novo nome e numeração:
Rua José Pinto de Barros, 90. (Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 34, ao mencionar a sua própria casa –
presume-se a dos pais – indica a vizinhança: dá como endereço a Rua Gabino
Besouro, 18, “hoje”, diz, “Rua José Pinto de Barros, 140”). Sobre a entrada do
processo de tombamento, no IPHAN, em 1963, ver no acervo digital do IPHAN
pareceres de Lúcio Costa e Manuel Bandeira, designados por Rodrigo Melo de
Franco Andrade – disponíveis em:
Heloísa Ramos, contra a ideia estática de “museu”, manifestou-se a
favor da denominação “casa de cultura”, em: Diário
de Pernambuco, 02-10-1972, ed. 235, t. 2.
[292] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 53-54: trata-se de uma das primeiras
referências ao hábito alcoólico de Graciliano. O imóvel, adquirido na época por
Graciliano, ficava no Pinga-Fogo, atual Rua José Pinto de Barros, tinha no
jardim a abreviatura de seu nome com enormes pontos, configurando, segundo
Clara Ramos, a palavra “GoRo”. Ricardo Ramos, Graciliano:
retrato fragmentado, p. 111, relembra o período em que convivia com o pai
no Rio: “Uma noite, cursava a faculdade e lia O homicida, de Ferri. Ele chegou e perguntou o que era, mostrei,
falou do livro mencionando trechos, destacando um ou outro aspecto, seguiu a
conversa com Beccaria, Lombroso, Garofalo”; “Riu do meu espanto: – Você acha que eu teria feito o Luís da
Silva sem estudar isso?” (Entretanto, o personagem na verdade torna-se criminoso
por efeito das grades sociais e da opressão de classe, dentro de uma
perspectiva materialista histórica – tanto quanto em S. Bernardo. Graciliano não utilizou na configuração de sua obra
concepções deterministas da sociologia criminal pelo viés dos autores acima
mencionados).
[293] Clara
Ramos, Mestre Graciliano – confirmação
humana de uma obra, p. 53. As referências da autora encontram-se esmiuçadas nos casos e
anedotas de Valdemar de S. Lima, Graciliano
Ramos em Palmeira dos Índios, capítulo “Uma transformação inevitável”, p.
91-99, que informa, entre outros detalhes: Graciliano foi filiado ao Clube de
Ciclistas de Palmeira dos Índios, e Manuel Leal esteve preso com ele em 1936
(ver: Memórias do cárcere, Parte III , 24, p. 122-123).
[294] Em Cartas,
01-01-1926, p. 80, Graciliano conta ao amigo Pinto que encontrou velharias e
manuscritos ao abrir o compartimento inferior de uma estante: “Deitei fora os
tamancos, dei os selos ao meu rapaz mais velho e queimei os papéis. Foi uma
festa na cozinha. Os pequenos ajudaram-me com entusiasmo. E como o primeiro
lamentasse a destruição de coisas que tinham dado tanto trabalho a fazer, o
segundo respondeu com um senso que me encheu de espanto: – “Para que estas porcarias ocupando a estante?” Os outros acabaram
concordando com ele e no domingo seguinte vieram perguntar-me se ainda havia
papel para queimar”. Sem referir-se à terceira narrativa, Caetés, Graciliano diz: “Não havia, que tive a fraqueza de poupar
ao fogo umas coisas velhas que me trazem recordações agradáveis e dois contos
que andei compondo ultimamente, porque tenho estado desocupado e me imaginei
com força para fabricar dois tipos de criminosos”. Em um depoimento a João
Condé, “Paulo Honório”, Graciliano diz que o personagem se configurou em um
conto escrito em 1924. Ver: João Condé (org.). Dez romancistas falam de seus personagens, texto reproduzido
por Maria Lúcia P. Gama, “Projeto para
inéditos”, Revista do IEB, n. 35, p. 204-206. Em visita à
residência de Graciliano Ramos, no Rio, Francisco de Assis Barbosa colheu seu
depoimento numa “reportagem biográfica” realizada às vésperas da comemoração em
1942 do aniversário de cinquenta anos do autor. Aí registra o depoimento sobre
a elaboração nos anos 20 de dois contos, “A carta” e “Entre grades”, além do
“horrível” Caetés, que o movimento
moderno o encorajara a fabricar, escrevendo “tal como se fala de verdade”.
Graciliano cita 1926 como o ano em que Caetés
estava pronto. De “A carta” e “Entre grades” nasceram, nos anos 30, S. Bernardo e Angústia. Ver: Francisco de Assis Barbosa, “50 anos de Graciliano
Ramos”, em Augusto
Frederico Schmidt et alii, Homenagem
a Graciliano Ramos – entrevista publicada na revista Diretrizes, 29-10-1942, ed. 122, t. 13, 14, 16, sob o título “A
vida de Graciliano Ramos”. Em A Manhã,
suplemento Letras e Artes,
01-08-1948, enquete na seção Flash
dos Arquivos implacáveis de João
Condé, Graciliano diz que escreveu Caetés
aos 34 anos. Suas cartas de
outubro de 1930 revelam que depois do convite de Augusto Frederico Schmidt para
sua publicação, Graciliano trabalhava intensamente na reelaboração do romance. O enredo de Caetés dá indicações de dois anos de
duração: de janeiro de 1926 a finais de 1927. O primeiro mês é mencionado no
final do capítulo 1: “Percorri à toa as ruas desertas, envoltas num luar baço,
tentando achar tranquilidade no pó e no calor de janeiro” (Caetés, p. 14). No primeiro ano do enredo, o ano de 1926 é sugerido
no capítulo 3, quando o mitomaníaco Nicolau Varejão conta lorotas espíritas
sobre sua vida anterior: da guerra do Paraguai [1870] foi para a Itália, onde
ficou trinta anos. E como Nicolau Varejão diz ter sessenta anos de idade, o Dr.
Liberato se espanta, zombeteiro: “Não é possível. Setenta com trinta ... Caso o
senhor tenha morrido e nascido logo que voltou da Itália, não pode ter mais de
vinte e seis [1926]” (Caetés,
capítulo 3, p. 20). No capítulo 15 é o
Natal do ano sugerido de 1926, depois ocorre o suicídio de Adrião no período
junino, passam-se com pulos sinópticos nos últimos capítulos os dois ou três
meses finais de 1927.
[295] Linhas
tortas, “Alguns tipos sem importância”, p. 194-195, publicado na revista Dom Casmurro, em 19-08-1939, ed. 114, t.
2. Como a publicação de Caetés
ocorreu no final de 1933, Graciliano indica nesse passo que a versão inicial do
romance, portanto, foi escrita em 1925.
[296] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 29: “Adalberon
Cavalcanti Lins, Natalício Medeiros, Odon Braga“. Clara
Ramos, Mestre Graciliano, p. 50, registra um
depoimento de Adalberon Cavalcanti Lins: “Certa vez após ouvir uma péssima
exposição, disse, apertando os olhos e puxando uma tragada de seu cigarro Raquel, ao mesmo tempo em que soprava a
fumaça na cinza: – Cavalcanti, deixa pra lá essa droga de
Português, que não vale nada. O bom mesmo é ser doutor. Seu pai arranja um
pistolão e dentro de pouco tempo você meterá um anelão de bacharel no dedo.
Mande o resto para o inferno”; “Minhas orelhas pegaram fogo. Em compensação a
alfinetada modificou meu comportamento. Marili Ramos e Natalício Ferreira Ferro
(meus colegas) não haveriam de presenciar outra desmoralização”. Adalberon
Cavalcanti Lins (Palmeira dos Índios, 1907-1990) tornou-se advogado, político e
escritor. Publicou romances como Curral
novo, Sidrônio, Caminhos incertos, O tigre dos Palmares, O ninho da águia. Junto
a Marili Ramos, participou da coletânea Contos alagoanos de hoje, com o conto “O homem coxo”, de acordo com
informações em: < https://apalca.com.br/patronos/adalberon-cavalcante
-lins/ >.
[297] Anos depois, Graciliano daria o célebre
conselho à irmã, então com 42 anos, referido a seu conto “Mariana”, que ele
havia encaminhado para a publicação no Correio
da Manhã, 20-11-1949, ed. 17386, t. 38: “Julgo que você entrou num mau
caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz renda, com as
complicações interiores de menina habituada aos romances e ao colégio. As
caboclas de nossa terra são meio selvagens, quase inteiramente selvagens. Como
pode você adivinhar o que se passa na alma delas? Você não bate bilros nem lava
roupa. Arte é sangue, é carne.
Além disso, não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só
podemos expor o que somos”. Como se vê, Graciliano revela as
preocupações que teve na construção de Vidas
secas. Mais adiante, diz: “Em Mariana você mostrou umas coisinhas suas. Mas
– repito – você não é Mariana. E – com o perdão da palavra – essas mijadas
curtas não adiantam” – em Cartas, Rio,
23-11-1949, p. 212-213 . Conselho com o mesmo tipo de foco nas classes, ele
tinha dado a Dona Ló, em Cartas, Maceió,
19-12-1935, p. 156-157, antes da prisão e da escrita de Vidas secas – ver à frente, no período.
[298] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 30-31.
[299] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 32-34. Marili informa que cada estrofe
refere-se a um personagem da cidade: a 1ª a um delegado, novo em Palmeira, que
tinha farmácia, barba preta e lia a sorte; a 2ª a um promotor, anticlerical
(empastelou O Índio); a 3ª a José
Tobias, o farmacêutico; a 4ª a Francisco Cavalcanti, que deixara seu armazém e
se dedicava à política e ao pôquer.
[300] M. M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 35,
informa a data da nomeação: 03-11-1926.
[301] A “patente” pode ter
sido a ele atribuída pela condição de filho do “coronel” Sebastião Ramos. Mas
Graciliano nem mesmo ironicamente se dedicou a comentar a respeito, tanto para
o seu caso como para o do pai. Por outro lado, em Infância, p. 233-234, o mendigo Venta-Romba, vendo que um
mal-entendido estava esclarecido, depois de se despedir do “major” Sebastião
Ramos, comenta aparvalhado ao receber ordem de prisão: “– Brincadeira de seu
Major”, e segue, entre os lamentos e o choro do inocente, repetindo ao ver
confirmada a sentença: “– Por que, seu Major?”. O Índio, depois de Graciliano ter ali encerrado sua participação,
contém várias menções ao “Cel. Sebastião Ramos”, incluindo uma pesquisa para
candidatos a prefeito publicada em algumas edições de 1922, onde Sebastião
Ramos ocupa sempre o último lugar entre oito ou dez candidatos. Não há
registros precisos para as circunstâncias de alguns dos qualificativos dados a
Graciliano, além do consistente “Prefeito”: “Mestre” a partir de 1914, “Major”
para os anos 20, em Palmeira dos Índios, assim como, ver abaixo, “Professor”,
e, a partir dos anos 30, “Velho”, tratamento inaugurado pela geração mais nova
dos amigos de Maceió. Nomeado com algum fundamento “jornalista”, é o que se vê,
por exemplo, em Diário de Pernambuco,
25-04-1930, ed. 95, t. 2. Homero Senna, em artigo rememorativo no Diário de Notícias, 20-03-1955, ed.
9930, t. 58, nota que Graciliano era chamado “Major Graça” pelos companheiros
da Livraria José Olympio, no Rio – percebe-se aí o estágio jocoso da patente. O hipocorístico familiar “Grace”
tornou-se “Graça” no ambiente intelectual. Graciliano foi também condecorado
com “Dr.”: no Correio da Manhã,
09-09-1930, ed. 10956, t. 2, quando o jornal noticiou que Álvaro Paes
encarregara o Dr. Graciliano, diretor da Imprensa Oficial, de um projeto de
uniformização dos orçamentos municipais, e, no Jornal do Brasil, por duas vezes: em 28-03-1934, ed. 73, t. 14,
sobre a posse do novo presidente da Associação Brasileira de Educação, quando,
em meio a longa listagem dos novos diretores estaduais, o Dr. Graciliano Ramos
aparece como responsável por Alagoas; e em 02-02-1937, ed. 27, t. 8, no
pronunciamento de Otávio Mangabeira à câmara dos deputados protestando contra a
prisão política de inocentes, entre eles o Dr. Graciliano Ramos, que acabava de
ser solto depois de passar por grandes provações. Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 79, transcreve carta
de Gastão Cruls, a quem Graciliano corrigiu por ter anexado um “Dr.” no
registro de seu nome como correspondente do Boletim
de Ariel. A autora cita a resposta de Gastão Cruls: “Estamos juntos nessa
ojeriza ao característico do bacharelismo patrício, mas como nem todos pensam
assim, tive que antepor a alguns nomes o nefasto título”.
[302] F. de A. Barbosa, “50 anos de Graciliano
Ramos”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p.
45-46. Na bibliografia de Graciliano Ramos, é rara a menção a um vínculo
de efeito entre o relatório do presidente da junta escolar e a candidatura a
prefeito de Palmeira dos Índios. Também não há referências à sua atividade na
junta escolar, nem acesso a tal relatório, quiçá um embrião do que seriam os
dois famosos relatórios do prefeito. Muitos anos depois, em 1935, quando
Graciliano era Diretor da Instrução Pública, há de sua autoria “Alguns números
relativos à instrução primária em Alagoas”, que Moacir M. de Sant’Ana apresenta
em Graciliano Ramos: vida e obra, p.
51-52, ao testemunhar ausência de documentações oficiais a respeito: trata-se
de uma publicação no Diário de Pernambuco,
28-06-1935, ed. 152, t. 13, repetida na revista A Escola, em setembro. Em todo caso, Álvaro Paes foi um dos
articuladores da candidatura em 1927 e possivelmente foi dele a visita acima
mencionada, como se vê, mais à frente, no artigo de José Lins e na crônica de
Graciliano de 1930, “Álvaro Paes”, coletada em Linhas tortas, p. 90.
[303] No final de 1945, José
Lins do Rego lamentou que o seu partido, UDN, tivesse perdido as eleições por
ser dispersivo e propôs a criação de um partido articulado, democrático e
verdadeiramente voltado para o povo, em contraposição ao Partido Comunista. Referindo-se
à publicação de José Lins do Rego do dia 05-12-1945 em O Globo, Graciliano
respondeu com o artigo “Os amigos do povo”, Tribuna Popular, 09-12-1945, ed. 171, t. 3: o partido democrático e
amigo do povo já existia: o Partido Comunista. Destacadamente no início e no
fim, como, de resto, em todo o artigo, Graciliano foi amoroso e delicado com o
amigo, sem deixar de ser preciso. Texto publicado com esse título em Linhas tortas, p. 260-261. Ver: Catálogo de manuscritos do AGR, p. 154:
manuscrito de 07-12-1945. (Ver resposta repetitiva, colada à de Graciliano, enviada por um
leitor: Tribuna Popular, em
11-12-1945, ed. 172, t. 5). Na mesma semana, a Tribuna Popular, 14-12-1945, ed. 175, t. 4, anunciou a formação da
diretoria do movimento antifascista “Sociedade Amigos da Democracia
Portuguesa”, com participação, entre outros, de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque
de Holanda, José Lins e Graciliano. Em Memórias
do cárcere, Parte IV, 5, p. 214-216, comentou a decepção que teve na cadeia
quando em 1936 o amigo lhe enviou Usina
(obra dedicada a Graciliano e a José Olympio), que acabava de ser publicada,
cujo início narrava a prisão do personagem Ricardo em Fernando de Noronha, onde
Zé Lins nunca tinha estado: “Por que se havia lançado àquilo? O admirável
romancista precisava dormir no chão, passar fome, perder as unhas nas
sindicâncias”; “A cadeia não é um brinquedo literário” (a menção a Fernando de
Noronha, onde o moleque Ricardo estava preso, é só um preâmbulo rápido do
romance completamente dedicado à mudança
do sistema de engenho de cana-de-açúcar para sua industrialização como usina).
Antes, como conta em Memórias do cárcere,
Parte I, 5, p. 61, quando conduzido preso no trem para Recife, ele via e
pensava: “À noitinha percebi construções negras num terreno alagado”; “Bem, os
célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente
não conhecia”; “Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de
semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida”. Também
em “Decadência do romance brasileiro”, Graciliano avaliou que a obra dos
romancistas de 30, entre eles seus amigos Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José
Lins do Rego, a partir do final da década tinha se degenerado. Entretanto, em
meio às vicissitudes, críticas e diferenças de estilo, a amizade fraterna entre
eles durou toda a vida, incluindo o empenho de José Lins pela libertação em
1937 do amigo preso e a hospedagem em sua casa quando Graciliano saiu da
prisão.
[304] José Lins do Rego, “O
mestre Graciliano”, em A. F. Schmidt et alii, Homenagem a Graciliano Ramos, p. 89-90. Publicado também em A Manhã, 29-10-1942, ed. 377, t. 4.
[305] Joel Silveira, Na fogueira: memórias, p.
278-279. Publicado originalmente na revista Vamos Ler!, 20 de abril de
1939, ed. 142, t. 8-9, republicado na revista Leitura, dezembro de 1942,
ed. 1, t. 11 e 12. Ver o artigo de José Lins do Rego, “O romancista Graciliano
Ramos”, recorte com identificação manuscrita por Graciliano Ramos: O Estado,
28-01-1934 [Recife] – IEB, Arquivo Graciliano Ramos, republicado em Diário
de Notícias, 25-02-1934, ed. 2212, t. 19: “Vi Graciliano numa sala com um
governador conversando sobre mamona, melhoria de sementes, todas essas pequenas
coisas que o meu amigo Álvaro Paes discutia com os matutos com a satisfação e a
gravidade de quem estivesse debatendo sobre a a existência de Deus ou sobre a
imortalidade da alma. Um companheiro provocou Graciliano Ramos para a conversa.
Falava-se de chins e de japoneses. O meu amigo todo cheio de entusiasmo pelos
últimos. O gênio de Palmeira ficou-se
com os chineses: – Gente forte, não é assim?
Cultos como o diabo“. (Ver, décadas depois, a apreciação especializada da
revolução chinesa por Graciliano Ramos,
em seu artigo “Coisas da China”, Voz Operária, 16-06-1949, ed. 4,
t. 6 e 9). José Lins acrescenta: “E foi por aí, deixando a nós da cidade
metidos entre argumentos cerrados. Mesmo assim, com essa vitória o homem não me
impressionou. Aquilo de falar de chineses, era leitura de almanaque, bizarrices
de sertanejo com leituras por cima dos assuntos. Tinha eu conhecido o Zeferino
Galvão, de Pesqueira, um sábio que sabia tudo, que tinha um dicionário de
100.000 palavras para publicar e que era cacete até as entranhas. O de Palmeira
seria sem dúvida como aquele velho de Pesqueira”. Mas convivendo com o amigo em
Maceió, Zé Lins deu-se conta de sua grandeza: “Viveu quinze anos num balcão de
loja, vendendo chapéus a matutos, passando chita feia às pobres meninas de
Palmeira. E o espírito ficou o mesmo e o olho continuou vigilante para o
mundo”; “Os matutos que não lhe pagaram as contas, os honestos sertanejos que
lhe gastaram os sapatos da sua loja com o ‘pago na safra’ que nunca chegou, se
levaram o comerciante a fechar as portas, deram ao homem de letras um material
humano mais valioso e mais rico que todas as bugigangas que ele lhes vendera
como as coisas mais finas deste mundo. Graciliano perdeu com os sertanejos
muito pano mas os seus fregueses é que foram roubados. Os seus livros, que ele
tirou de dentro dessa gente, lhe pagaram de todos os prejuízos”. (O artigo de
José Lins é do início de 1934. Graciliano tinha acabado de publicar seu único
livro: Caetés. Já tinha escrito S. Bernardo, publicado no final
de 1934). Afora um ano passado no Rio, entre 1914 e 1915, Graciliano lidou com
a loja de 1910 a 1930. Em 1927, o
governador de Alagoas era Pedro da Costa Rego (de 1924 a 1928). Seu aliado, Álvaro
Paes, foi governador (06-1928 a 10-1930) enquanto Graciliano foi prefeito de
Palmeira dos Índios e, a seguir, em Maceió, Diretor da Imprensa Oficial,
1930-1931. Graciliano, a partir de 1933, era Diretor da Instrução Pública do
Estado de Alagoas (próximo do que se chamou “secretário de educação” no Brasil,
entre os séculos XX e XXI) quando foi demitido e preso em 1936, enquanto Álvaro
Paes era prefeito em Palmeira dos Índios. O governador de Alagoas era Osman
Loureiro, de 05-1935 a 11-1937, seguindo até 1940 como interventor durante o
Estado Novo, como se vê em:
<
https://fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/osman-loureiro-de-farias
>.
[306] H. Senna, República das letras, p. 186.
[307] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36,
indica a data de 7 de novembro de 1927. Ivan Barros, Graciliano era assim, p. 318-319, transcreve o “Termo de Promessa”
da posse do prefeito em 07-01-1928, em que a data da eleição é citada duas
vezes na ata: 7 de novembro de 1927, data também indicada por Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 58.
[308] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 138-139. Valdemar de
Souza Lima nasceu na região em 1902, morou em Palmeira dos Índios nos anos 30 e
foi convidado em 1934, pelo então Diretor da Instrução Pública, Graciliano
Ramos, a ocupar o cargo de Inspetor das Escolas Primárias do município,
conforme informação de: < https://apalca.com.br/patronos/valdemar-de-souza-lima/ > . Com linguagem inventiva, é dele a
narrativa mais minuciosa sobre todo o episódio da candidatura e da atuação do
prefeito Graciliano. Sem mencionar qualquer nexo de causa com o já citado
relatório de presidente da junta escolar, Valdemar de S. Lima relata que a
proposição da candidatura foi decorrência de um trauma vivido pela cidade em
1926: o assassinato do prefeito Cel. Lauro de Almeida Lima, seguido da execução
do assassino, o administrador da Recebedoria Estadual João Ferreira de Gusmão e
Melo. O governador Costa Rego, pretendendo acabar com desvios de impostos nos
municípios, tinha dado carta branca ao fiscal eficiente e incorruptível, que,
entretanto, revertida em arrogância, criou conflitos com o prefeito. O autor
cita a gota d’água do caso (semelhante a uma passagem em “Contas”, Vidas secas, em que Fabiano relembra sua
via-crúcis): “Certo dia, fiscalizando a feira da cidade, ele se aproximou de um
pobre matuto que vendia algumas rapaduras num caixão de sabão e exigiu deste a
apresentação da coleta, que o infeliz não tinha”; “Em vista disso, Gusmão
prendeu a mercadoria e o dono dela, ordenando a um soldado que o levasse para a
cadeia” (p. 128-129). Indignações com a atitude injusta e autoritária,
difamações, quiproquós e tomadas de satisfação levaram ao assassinato do
prefeito pelo fiscal em 26-02-1926. Fugido, o fiscal foi encontrado pelo
delegado e seu destacamento, que o fuzilaram e profanaram o cadáver. Terminou o
mandato o inapto vice-prefeito Manuel Sampaio Luz, o Juca. Atentos à
necessidade de uma política não viciosa, Álvaro Paes, os irmãos Otávio e
Francisco Cavalcanti, do Partido Democrata, amigos de Graciliano, com a
proximidade das eleições lembraram seu nome, muito bem recebido pelo governador
Costa Rego. No início Graciliano recusou o convite manifestando sua repulsa
pelo coronelismo e pela histórica podridão política do país. Escapou da
pressão, que se valeu inclusive do pai, Sebastião Ramos, para tentar
convencê-lo. Finalmente diante do mexerico, reputado ao partido da oposição, de
que não aceitava porque não tinha competência e tinha medo, Graciliano
sentiu-se mordido nos brios. Tendo a garantia de seus “padrinhos” de que teria
plena autonomia, aceitou. Na carta a Chico Cavalcanti em que manifestava a
aceitação da candidatura, Graciliano arrematava com uma profecia ilustrada pela
anedota do matuto sem habilidade, burlado por um grupo que o encorajara a
montar um burro brabo, convencendo a vítima de que ela estava plenamente
capacitada para isso. Após a queda, o matuto se erguia, aos berros, empunhando
uma faca: “Apareça o filho de uma puta que disse que eu sabia montar em burro
brabo!” (Tem-se divulgado a anedota de Valdemar de S. Lima deturpada com o
acréscimo de um “não”: “Apareça o filho de uma puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!” –
equívoco que tira da frase todo o seu humor). Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p. 29,
fala em “vitória esmagadora”. Porém, entre outros, Valdemar de Souza Lima, p.
149, lembra que Graciliano não teve concorrentes na eleição: “Bem poderia
Aureliano [Wanderley] ter-lhe feito frente, disputando a prefeitura. Mas
recuara pelas razões já conhecidas. Buscava desforrar-se agora, fazendo-lhe
oposição sistemática”.
[311] Ivan Barros,
em Graciliano era assim, p. 318-319,
reproduz o “Termo de Promessa”, ata que descreve o juramento oral de praxe e as
assinaturas da documentação em sessão “no Paço Municipal”, “unidos ao meio-dia”
prefeito, vice e membros do conselho, para assumir o mandato “no triênio [sic]
1928-1931”. Ver no IEB – USP, Arquivo Graciliano Ramos, o “Termo de Promessa”,
catalogado em:
< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> carreira pública> prefeitura
de Palmeira dos Índios> outros itens do acervo, item 1:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=230107
>.
[312] Ver: < https://graciliano.com.br/site/vida/arvore-genealogica/ >: Heloísa de Medeiros Ramos, em
solteira Heloísa Leite de Medeiros, nasceu em Maceió, 11-01-1910, e faleceu em
Salvador, 23-07-1999. Graciliano, como indicam seus textos, chamava-a pelos
hipocorísticos “Ló”, “Lozinha”, “Lozíssima”, “Sinha Ló”. Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 57, informa que
eles se casaram no religioso em Maceió, no dia 16 de fevereiro de 1928, e, no
civil, quatro dias depois, tendo por testemunhas o Padre Francisco Xavier de
Macedo e Francisco Cavalcanti, no dia 20, em Palmeira dos Índios.
[313] Cartas,
16-01-1928, p. 89-90.
[315] Cartas,
20-01-1928, p. 93-94. Padre José Leite, causa involuntária do amor entre eles,
tornou-se, sempre presente, grande amigo de Graciliano.
[316] Cartas, 24-01-1928, p. 95-98. José Paulo
Paes, em Amor/humor por via postal,
Cartas à Heloísa, p. 20-21, encontrou nesse último trecho a mesma
formulação de Caetés, capítulo 1, p.
13: “A religiosidade de que a minha alma é capaz ali se concentrava, diante de
Luísa”. Há também parentesco de concepção com o soneto de 1912, “Na igreja”,
visto acima.
[317] A menção a “gente da
Saúde” lembra a notícia citada acima, quando Graciliano reportou ao pai na
carta de 09-01-1915, a agitação da cidade por ocasião do imbróglio com Nilo
Peçanha: ver: O Século, 31-12-1914,
ed. 2570, t. 1. Sobre “capangas da Saúde”, ou desordeiros desse bairro da zona
portuária do Rio, nos anos de 1910, ver, por exemplo: A Época, 27-10-1913,
ed. 455, t. 1, e, sobre tumultos armados por tais capangas na eleição da
Associação Comercial, Correio da Manhã, 05-05-1916,
ed. 6280, t. 1.
[318] Albino Mendes foi um célebre falsificador
de dinheiro, atuante no Rio de Janeiro do início do século XX, como informa O Malho, 16-01-1915, ed. 644, t. 15.
[319] A formulação fica bem ilustrada pelo
noticiário do assassinato de “Lili das Joias”, como era conhecida a demi-mondaine Rosa Schwartz, no período
em que o jovem Graciliano obtinha no Rio escassos trabalhos como suplente no Correio da Manhã, meses antes de
conseguir pouca coisa em O Século,
como relata em Cartas, de 20-10-1914
e de 18-12-1914. Ver: “Uma mulher degolada e roubada por um desconhecido”, Correio da Manhã, 08-10-1914, ed. 5705,
t. 3, e, para a solução do caso no ano seguinte, “O assassino de Lili das
Joias”, O Século, 11-09-1915, ed.
2482, t. 3.
[320] Cartas,
31-01-1928, p. 100.
[321] Segundo Cartas, nota 16, p. 224, “o sacerdote revelara ao pai de Heloísa
que o pretendente à mão de sua filha escrevia um romance, buscando com isso
valorizá-lo aos olhos do futuro sogro”.
[323] Avaliações sobre o
prefeito Graciliano, relativas às áreas de direito administrativo, de gestão
pública, a questões de personalismo, de meio ambiente e de direito de animais
têm sido enfocadas no meio acadêmico como, por exemplo, indicados na bibliografia:
Manoela Massuchetto Jazar et alii, “O prefeito Graciliano Ramos pelo olhar da
gestão urbana contemporânea”, e Fábio Lins de L. Carvalho, Graciliano Ramos e a administração pública.
[324] Memórias do cárcere, Parte I, 4, p. 51, sobre o contexto de 1930 a
1936: “Parecera-me então que a demagogia tenentista, aquele palavrório chocho,
nos meteria no atoleiro. Ali estava o resultado: ladroagens, uma onda de
burrice a inundar tudo, confusão, mal-entendidos, charlatanismo, energúmenos
microcéfalos vestidos de verde a esgoelar-se em discursos imbecis, a semear
delações”.
[325] Ver: Ângela M. dos Santos, “As interpretações
de um Código de Posturas alagoano à luz da História Social”, como também sua
dissertação O pensamento graciliânico e suas relações
sociopolíticas e administrativas em Alagoas, com farta documentação
fac-similar do percurso administrativo de Graciliano, como prefeito, diretor da
imprensa oficial e diretor da instrução pública.
[326] Em O
Índio, 11-09-1921, ed. 33, t. 3, na coluna de “Zé da Cidade”, uma nota
verberava a profusão de pornografia disponível em “A Brazileira”, comércio de
João Moraes. Curiosamente, o nome “João Moraes”, entre outros momentos, aparece
no jornal, como se indicou acima, subscrevendo o “X” da última aparição da
coluna “Garranchos”, em O Índio,
01-05-1921, ed. 14, t. 1.
[327] V. de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 146-147. Os itens indicados parecem atender à crítica publicada alguns anos
antes em O Índio, 13-03-1921, ed. 7,
t. 2, em texto com o título “Palmeira”,
assinado por “Z.” (em Cartas, 04-08-1921,
p. 76, a Pinto da Mota Lima, Graciliano atribui o pseudônimo “Z.” ao Padre
Macedo, mas o texto a seguir tem passagens, formulações e vocabulário com a precisão
sintática e o tom irônico de Graciliano):
Um olhar retrospectivo sobre nossa urbs, tão bela
em sua topografia, deixa-nos uma sensação de pesar. É que Palmeira, à maneira
de nossas formosas camponesas, tem simplesmente os adornos legados pela pródiga
natureza, enquanto a desfiguram atavios artificiais e arcaicos.
De sorte que melhor será dizer-se que é uma
cabocla mal vestida, por isso que a formosura não pode resplandecer entre uma
cabeleira em desalinho e empiolhada, nem o talhe figurar majestoso no indivíduo
andrajoso e sujo.
E nem se fale de benefícios particulares, porque,
afinal, não passam de pontos luminosos em fundo preto.
Brilham por si e para seus donos. São pérolas
engastadas num montão de ruínas.
Palmeira tem, é verdade, algumas casas mais ou
menos novas e bem feitas, um palacete
municipal, um açougue público, uma empresa de luz elétrica, um cinema com suas
fitas e bancos quebrados, um jornal que vem de nascer, bem magro, uma garage à
espera de autos, alguns templos e nada mais. Não temos estética urbana, que
aqui as vias públicas imitam perfeitamente as veredas tortuosas de nossos
antigos pebas.
Cada rua tem seu ziguezague.
E fosse só isso, inda bem.
Há pior, muito pior: o açude fétido e imundo, que
lhe empesta o ambiente, transformando esta parte suavíssima do sertão em um
foco de epidemias. Mesmo assim, é o deleite de grande parte da população, que,
como os nossos suínos, lá está todas as horas do dia, mergulhada e bem contente
de seu mal-aventurado bem-estar.
E que se não diga cousa alguma das exibições
pornográficas e descaradas, em plena rua, à vista de todos aqueles que,
forçados, hão de passar o velho paredão.
E assim progride nossa Palmeira, coberta de
andrajos e cheia de micróbios. Até quando? Ninguém sabe. Seu futuro está nas
mãos dos que a governam. Não lhes sei os intuitos. Entretanto, não lhes ignoro
as promessas.
O resultado de dois anos foi de algum modo
satisfatório. Demonstrou regular administração e critério. Agora, porém, o
busílis! Muitas vantagens, muita coisa projetada.
Têm razão. A árvore é bem nascida. Com boas
chuvas crescerá, e teremos flores e frutos. Que sejam doces.
Z.
(Segundo registros históricos da Câmara Municipal da cidade, em:
<
https://palmeiradosindios.al.leg.br/institucional/historia > [havia acesso
em 2011], a administração de 1919 a 1921 teve como intendente (prefeito) Lauro
de Almeida Lima e, como vice, Francisco Cavalcanti; na de 1921 a 1923, o
intendente foi Francisco Cavalcanti e o vice, Luiz Ferreira de Souza).
[328] Ver: < https://palmeiradosindios.al.leg.br/institucional/historia
> [havia acesso em 2011]. Texto não assinado de O Índio, 13-02-1921, ed. 3, t. 1, acima, criticava a mendicância
com bem menos compaixão que a do menino Graciliano em seu conto “Pequeno
pedinte”. Citando a alma piedosa do Bispo Myriel de Os miseráveis, de Victor Hugo, reclamava do excesso de pedintes
“malandros robustos” que se disfarçavam com farrapos e propunha greve de
esmolas para obrigá-los “a arrebentar-se de fome ou a pegar no cabo da peroba”.
[329] Ver: Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 147-148. O autor relata vários episódios de entreveros, que, em seu primeiro
relatório, Viventes das Alagoas, p.
170, Graciliano resume: “Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates.
Todos os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca. Perdi
vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram
falta”. Em reportagem com dados equivocados, Freitas Neto cita, sem indicação
de fonte ou data, trecho de uma carta de renúncia do vice-prefeito José Alcides
de Morais: “Reputo contraproducente e, portanto, prejudicial aos interesses do
município, a política anti-econômica de pressão aos criadores, que a atual
administração municipal vem exercendo. A continuação dessa política matará
inevitavelmente a iniciativa privada, descontentando e dispersando a população
rural, que é nosso melhor elemento de trabalho e progresso”, em:
< https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19721022-29928-nac-0280-lit-4-not
>.
[330] Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 149-151, nomeia o velho cacique como “major”. Em meados de 1936, enquanto
Graciliano se encontrava preso no Rio de Janeiro, jornais noticiaram a prisão
preventiva, em Alagoas, do coronel Aureliano Vargas Wanderley, presidente da
câmara municipal na administração de Álvaro Paes, o ex-governador que se
tornara prefeito de Palmeira dos Índios naquele período. O coronel era acusado
de ser o mandante do assassinato de um agricultor. Ver: A Noite, 09-05-1936, ed. 8739, t. 11, e Diário de Notícias, 05-05-1936, ed. 2877, t. 2. Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato fragmentado, p.
37-39, conta a história que, desacorçoado, ouviu do pai, a respeito de um
capanga torturado na polícia para indicar o mandante do atentado a tiros, sem
feridos, que o prefeito sofrera enquanto passeava de automóvel com Dona Ló
(grávida de Ricardo – portanto, em 1928). Interrogado o pistoleiro, torturado,
e sem conseguir a indicação do nome do mandante, Graciliano ordenou que o
libertassem, prometendo ao criminoso que seria morto se voltasse a Alagoas. Graciliano
nunca fez referência explícita a esse atentado. O filho moço, no Rio de
Janeiro, ao ouvir inquieto a história, lembra que o pai respondeu: “Queria o
quê? Você morto, sua mãe morta? Ou eu? Não, certamente. Então?”
[331] R. Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 33-34.
[332] Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 152. Tadeu Rocha, em Modernismo & regionalismo, p. 160,
transcreve bilhete de Graciliano ao Dr. Hebreliano Wanderley, pedindo dados do
Posto para o 1º relatório:
Gabinete do Prefeito
Palmeira dos Índios
Alagoas
Em 20 de dezembro de 1928.
Amigo Doutor Hebreliano:
Estou arranjando qualquer coisa parecida
com um relatório, que sou obrigado a publicar em janeiro.
Ainda está em esboço, mas, para adiantar o
serviço, tenho de fazê-lo aos poucos, nas horas vagas.
Como necessito ter tudo preparado no dia
8, peço-lhe o obséquio de mandar-me uma exposição dos trabalhos realizados até
agora por esse “Posto”.
Amigo
Graciliano Ramos
[333] Neste período como
prefeito (ao contrário da oportunidade que Graciliano terá como Diretor da
Instrução Pública de Alagoas entre 1933 e 1936), a educação ficará sem destaque
em meio à diversidade dos problemas resolvidos em sua administração. A vigorosa
contrariedade com a baixa qualidade da educação, que as rememorações de Infância demonstram ter sido uma
percepção vinda da criança, manifesta-se nas cartas do rapaz e torna-se uma das
principais linhas editoriais de O Índio
em 1921. Presente em toda a sua obra, suas avaliações-esterótipo, petrificadas
na fixação obsessiva do diagnóstico (uma delas é a das
“professoras-analfabetas”), aparecem
escassamente nos relatórios. No relatório interno ao Conselho Municipal, de
março de 1928, Graciliano diz: “Acho absurdo despender um município que até
agora nada gastou com instrução, 2:000$000 para manter uma banda de música”,
em: Mário Hélio G. de Lima, Graciliano
Ramos. Relatórios, p. 33-34. No
2º relatório, de 1930, exercício de 1929, sem especificar a condição das
escolas em cada aldeia e o modo como foram implantadas, diz no item
“Instrução”: “Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Mandioca, Anum e
Canafístula. O Conselho mandou subvencionar uma sociedade aqui fundada por
operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. Presumo que esses
estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professoras
revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância. Escolhidas
algumas delas, as escolas entraram a funcionar regularmente, como as outras.
Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a
habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar
sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros”. Em: Viventes das Alagoas, p. 179.
[334] Ver: Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 152.
[335] Pouco antes de sua renúncia, uma nota de A Noite, 13-03-1930, ed. 6581, t. 6, Rio
de Janeiro, anunciava: “O prefeito de Palmeira dos Índios comunicou ao
governador Álvaro Paes já estarem prontos 27 quilômetros da estrada de rodagem
ligando aquela localidade à de Santana do Ipanema”. Em 1937, quando Graciliano,
após sua prisão, vivia no Rio, escrevia Vidas
secas e publicava capítulos nos jornais, o Diário de Notícias, 09-07-1937, ed. 3238, t. 2, mencionava, em nota
a respeito de obras contra as secas, a “estrada de rodagem de Palmeira a
Santana do Ipanema, construída há oito anos pelos prefeitos Graciliano Ramos e
Ormindo Barros”.
[338] A
Manhã, 01-08-1948, Suplemento
Letras e Artes, ed 93, t. 8. Também em 1948, em entrevista a Homero Senna,
“Revisão do Modernismo”, República das
letras, p. 186, à pergunta: “ – Consta que, como prefeito, soltava os
presos para que fossem abrir estradas...”, Graciliano respondeu: “– Não era bem
isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no
município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem
difícil”. Anos antes do Graciliano prefeito, em O Índio, 11-09-1921, ed. 33, t. 3, o procedimento já era mencionado
em nota da coluna “Cousas d’aqui” de “Zé da Cidade”: “Os presos estão entupindo
o buraco das ruas. Inda bem. Ao menos fazem exercício físico, o que servirá
muito para a sua (deles) saúde”.
[339] Ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >: Ricardo Ramos, nascido em
04-01-1929, tornou-se renomado escritor. Faleceu em São Paulo, 20-03-1992.
[340] Álvaro Paes, nascido em Palmeira dos
Índios, foi jornalista, professor, diretor da imprensa oficial de Alagoas nos
anos 10 e prefeito de Itaguaí, no Rio de Janeiro (como informou orgulhosamente O Índio,
12-06-1924, ed. 172, t. 3). Foi aliado de Costa Rego e deputado
estadual e federal. Houve muita afinidade entre Graciliano e Álvaro Paes no
espirito do tempo em que eclodiu a revolução de 30. Governador de Alagoas
(entre junho de 1928 e outubro de 1930), foi deposto pelo novo poder, quando na
verdade, junto a Graciliano, representava os professados anseios modernizantes
e civilizatórios daquela revolução, com bem mais consistência que a “demagogia
tenentista”. Vivice M. C. Azevedo, Apports
inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 122-123, lembra que Graciliano
tornou-se das administrações municipais alagoanas o símbolo do dinamismo
empreendido por Álvaro Paes, citando o Jornal
de Alagoas de 14-08-1930: “À frente dos melhores prefeitos do atual triênio
esteve até há pouco o Sr. Graciliano Ramos, pela inteligência, pela atividade,
pela energia, pela honestidade e pela felicidade de suas iniciativas”.
Graciliano escreveu sobre o amigo na crônica coletada em Linhas tortas, p. 89-91, s.d. (Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos antes de Caetés, p. 33,
informa que foi publicada no Jornal de
Alagoas, 12-06-1930, assinada por “G. R.”): “Às vezes Álvaro Paes encontra
no sertão alguns sujeitos pedantes, abominavelmente sabidos, desses que
aprendem o francês do Pereira e vivem a estropiá-lo, a torto e a direito, em
leituras inúteis. Não se perturba. Fala em Anatole France, em Renan e na
Grécia. Depois, com sagacidade, vai metendo na conversa, em doses adequadas às
circunstâncias, agricultura, pecuária, bancos e açudes. Um homem bom e de
paciência rara. Há pouco tempo, em trânsito por esses cafundós onde Judas perdeu
as botas, saltou do automóvel e entrou num casebre que tinha por mobília dois
tamboretes e uma esteira. Visitou as plantações e deu à família conselhos que
levaram o dono da casa a oferecer-lhe, comovido, um tatu. Aqui vai uma prova da
bondade e da paciência de Álvaro Paes. Ele ama o sertão, está convencido de que
existem ali recursos imensos. E quer transmitir aos outros o entusiasmo que o
anima. Por isso, quando viaja, acompanham-no alguns citadinos, ordinariamente
literatos, a quem ele vai impingindo imoderados louvores à beleza e à riqueza
da terra”. Álvaro Paes, depois de ser deposto pela Revolução de 30, foi
prefeito de Palmeira dos Índios no período em que Graciliano era preso e
conduzido ao Rio de Janeiro. Ver: “Congresso das Municipalidades Alagoanas”, A Noite, 06-03-1936, ed. 8685, t. 2.
[341] Os relatórios foram publicados no Diário Oficial do Estado de Alagoas nos
dia 24-01-1929 e 16-01-1930, como informa Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36. O
primeiro foi apresentado a partir da página 2, o segundo ocupou com destaque a
1ª página. Ver fac-símiles reproduzidos em "Graciliano Ramos criou
'manual' do político irônico ao renunciar a prefeitura 90 anos atrás",
David Lucena, Folha de São Paulo, 10-04-2020:
[342] Em 1937, tendo ido a São Paulo a convite
de Oswald de Andrade, Graciliano escreveu a Heloísa: “Acredita você que me
vieram falar dos relatórios da prefeitura de Palmeira? Pois é verdade. Por onde
me vire esses infames relatórios me perseguem” – em Cartas, 28-02-1937, p. 179.
[343] Ver, a respeito, meu
artigo Os relatórios de Graciliano Ramos:
“Northrop Frye, numa obra [Anatomia da
crítica] que acolhe intensa erudição para responder ao que é literatura
através de uma articulação teórica complexa, mostra a dificuldade de
circunscrever seu objeto quando define a linguagem por duas direções: a direção
para a literatura, interna, centrípeta, e a direção para a referência fatual,
externa, centrífuga. Mas observa que os textos externos frequentemente
sobrevivem em razão de seu estilo ou de sua configuração verbal atraente,
depois que sua funcionalidade para a representação dos fatos se perdeu. Sobre a
retórica da prosa não literária, a respeito de alguns sermões, cartas, o
discurso de Lincoln, a fala de Vanzetti, as falas de 1940 de Churchill, diz:
‘Nenhum destes teve intenção primacialmente literária, e teria falhado a seu
propósito inicial se tivesse tido, mas são todos literários agora, e dados para
o crítico’. Sem que se possa, entretanto, negar-lhes ‘intenção primacialmente
literária’, vêm à mente do leitor brasileiro os casos riquíssimos dos sermões
de Vieira e de Os sertões, de
Euclides da Cunha – este, um ensaio de história, geografia, sociologia dado
irrefutavelmente à literatura como não romance. Em menor escala podemos
considerar assim também os relatórios do prefeito Graciliano, cuja aplicação de
âmbito mais prosaico e reduzido a dois anos, faz deles peças, em sua pequenez
de funcionalidade externa, mais ainda significativas para o campo literário”.
Ver análise com quadros de ocorrências linguísticas e figuras retóricas em:
Sônia Jaconi, A transgressão sertaneja do gênero relatório:
revelação do escritor no texto do prefeito Graciliano Ramos (tese) e sua publicação em livro, Graciliano Ramos: o prefeito escritor.
[344] Além das comprovações apresentadas mais
abaixo, Ricardo Ramos, em Graciliano:
retrato fragmentado, p. 39-40, menciona que, segundo Jorge Amado, José
Américo de Almeida teria sido, talvez, o divulgador dos relatórios no Rio de
Janeiro. Pedro Mota Lima, da família vizinha e amiga do jovem Graciliano em
Viçosa, divulgou-os na imprensa carioca. Ver: A Manhã, 12-05-1929, ed. 1054, t. 14, sob o título “O riso
higieniza o espírito” e o subtítulo “Bom humor oficial...”. Quanto à menção de
Jorge Amado, ver sua entrevista a Marilene Felinto e Alcino Leite Neto, Folha de São Paulo, 06-07-1991,
reproduzida em: < https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2020/12/muro-de-berlim-estava-caindo-na-minha-cabeca-disse-jorge-amado-a-folha.shtml
>.
[345] O Jornal
do Brasil, 17-01-1930, ed. 15, t. 6, reproduz telegramas de apoio ao
candidato a presidente da república, Júlio Prestes, e registra, entre eles, o
assinado pelo Prefeito Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios, Alagoas: “10 –
O Sr. Senador Costa Rego encontrando-se nesta cidade, em excursão de propaganda
política, realizou hoje notável conferência sobre a candidatura de V. Ex. à
Presidência da República. Saudações respeitosas”. De Recife, o getulista Diário da Manhã, 01-03-1930, ed. 301, t.
9, com título referido à “terra do Sr. Álvaro Paes” e rubrica de “Palmeira dos
Índios”, dá notícia com feição capciosa de violências do chefe situacionista na
campanha eleitoral e diz, sem nomear, que o prefeito, um “símile de Washington
Luís das mensagens ocas, não descansa do trabalho afanoso de conseguir votos
para o Julinho”.
[346] Relatório ao Governador do Estado de
Alagoas [1º], Viventes das Alagoas,
p. 159-173.
[347] Desde os tempos de O Índio, nos três meses que Graciliano esteve no jornal, em torno
de fevereiro a abril de 1921 (de 31-01-1931 a 01-05-1921), era aguda e
rotineira a crítica à empresa de energia elétrica que se instalara na cidade –
o que culminou na “intimação” ao Sr. Garcia, o proprietário, no último
“Garranchos”, O Índio, 01-05-1921,
ed. 14, t. 1, quando Graciliano deixou o jornal. Mas Padre Macedo, em O Índio, 09-10-1921, ed. 37, t. 2,
coloca Graciliano e Manoel Garcia de Almeida na lista de convidados para a
inauguração da luz elétrica na Igreja Matriz. No ano seguinte, sob o título
“Lei 132”, O Índio, 05-01-1922, ed.
53, t. 2, noticiou a expansão do contrato de fornecimento de luz que o
intendente (prefeito) Francisco Cavalcanti acabava de assinar com o
proprietário. Meses depois, em O Índio, 02-04-1922,
ed. 61, t. 1, apareceu uma interpelação com acusações fortes ao Sr. Garcia.
Finalmente, O Índio, de 02-07-1922,
ed. 74, t. 3, informou que Leobino Soares da Mota, mal adquirira a empresa, já
oferecia luz gratuita às igrejas da cidade. A nota agradece e recomenda o novo
proprietário a “Deus Remunerador”.
[348] Ver nota acima sobre o
artigo “Palmeira”, assinado por Z. em O
Índio, 13-03-1921, ed. 7, t. 2 : “uma cabocla mal vestida”; “a formosura
não pode resplandecer entre uma cabeleira em desalinho e empiolhada”, “coberta
de andrajos e cheia de micróbios”.
[349] No relatório interno para o Conselho
Municipal, de 19-03-1928, antes de completar três meses como prefeito,
Graciliano descreve a situação financeira da cidade, os problemas a serem
enfrentados e conclui: “De resto o contribuinte, que se desempenha bem para com
a repartição estadual e federal, está habituado a pagar à Prefeitura se quer,
como quer e quando quer [passagem posteriormente mencionada no primeiro
relatório]. Isto se explica pelo fato de sermos todos, prefeitos, conselheiros
e contribuintes, mais ou menos compadres”. Em: Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 34.
[350] 2º Relatório ao Governador do Estado de
Alagoas, Viventes das Alagoas, p.
175-185.
[352] Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 78.
[353] Em História
do romance Caetés, p. 14, Moacir M. de Sant’Ana cita o jornal de Penedo
relativamente a trechos do 1º relatório transcritos do Jornal do Brasil: “De uma Prefeitura alagoana”, em A Semana, Penedo, 07-04-1929 . Em
novembro de 1941 a Revista do Brasil,
nº 41, publicou a resposta do prefeito Graciliano juntamente a uma carta
referente ao 2º relatório, com datação de Penedo, 02-02-1930, enviada por
Jurandir Gomes, que criticava a menção de Graciliano à má remuneração do
trabalhadores da prefeitura (como se o prefeito estivesse justificando, quando
na verdade ele estava denunciando a situação). A resposta manifestou simpatia
aos elogios e ao equívoco de leitura do rapaz (o qual veio a ser seu colega de
colaborações episódicas à revista Novidade,
de Maceió, em 1931). Ver em Garranchos, p.
189-191, e, em F. R. A de Barros, ABC das
Alagoas, tomo F-Q, o verbete na p. 114, “GOMES JÚNIOR, Jurandir”, em que o
emissor é citado, como também o registro disseminado do nome “Jurandir Gomes”,
com participações em academias, instituições culturais e publicações alagoanas.
[354] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 36. Há
também o registro de Moreno Brandão, na rubrica “Aspectos do sertão”, do Correio Paulistano, 14-12-1929, ed.
23736, t. 6, em que cita a alta capacidade administrativa do prefeito na
pujante Palmeira dos Índios: "Chama-se ele Graciliano Ramos. É um fino
humorista, cujo relatório apresentado este ano ao Conselho Municipal [sic] deu
ensejo aos mais largos e disparatados comentários por parte da imprensa de todo
o país, habituada apenas a descobrir superioridades mentais nos centros
populosos das regiões parálicas, e, sobretudo, na sede do governo da
União". Dentro do espírito laudatório pró construção de rodovias, o
jornalista cita a obra de destaque de Graciliano e seu modus operandi: “Os trabalhadores empregados na abertura dessa
rodovia percebem de 3$000 a 3$500 por dia, o que é um salário muito elevado em
terras onde a vida é muito barata e simples”. Além disso, anuncia, sem nomear, Caetés: “apesar de empolgado pela vida
prática, ainda não se desvinculou de suas tendências literárias, consoante o
demonstra o fato de haver escrito recentemente um belo romance, que se conserva
inédito por falta de editores”.
[355] Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos. Relatórios, p. 84-87. O pesquisador transcreve também uma
publicação do Correio da Pedra,
15-09-1929, com elogios aos trabalhos do prefeito de Mata Grande e de
Graciliano, p. 88-89. Moacir M. de Sant’Ana, em História do romance Caetés, p. 13-14, informa: os três artigos em O Semeador foram publicados sob o título
“A Prefeitura de Palmeira”, nos dias
25-01-1929, 04 e 05-02-1929; o 2º relatório mereceu (como o 1º, com “Prefeitos
laboriosos”, 15-09-1929) um editorial do Correio
da Pedra, 02-03-1930, sob o título “Um administrador”: rebateu críticas
feitas por outros órgãos da imprensa alagoana, “por motivo de sua linguagem
julgada por muitos inconveniente para documentos oficiais”, argumentando que
existiam “no relatório em questão expressões um tanto ásperas, mas para os que
as interpretam ao sabor de suas paixões“.
[356] Jornal
do Brasil, 27-02-1929, ed. 50, t. 6.
Ver também Diário de Pernambuco,
04-03-1930, ed. 53, t. 2, e trechos do relatório, indicando como fonte o Diário da Manhã, Recife, março de 1929,
reproduzidos na “Nota pitoresca da semana” do Correio da Manhã, 07-12-1947, ed. 16288, t. 42.
[357] Última
Hora, de 24-03-1953 a 30-03-1953, ed. 546, 547, 548, 549, 550, 551, t. 2.
Mário Hélio G. de Lima, Graciliano Ramos.
Relatórios, p. 95-104, reproduz os
artigos como publicação da Gazeta de
Alagoas, entre 05-04-1953 e 24-05-1953.
[358] Francisco Inácio Peixoto, da revista Verde, foi um implantador ousado da
arquitetura moderna em Cataguases-MG, através, por exemplo, da mobilização de
Oscar Niemeyer. Ver: Tiago Cavalcante da Silva, “A arquitetura modernista de
Cataguases na correspondência pessoal de Francisco Inácio Peixoto”. F. Inácio
Peixoto participou da coletânea de contos editada por Graciliano Ramos, com o
conto “A fuga”, em Seleção de Contos
Brasileiros – 2º volume: Leste.
[359] Sobre a Livraria Schmidt Editora e o
contexto editorial, ideológico e cultural de 1930, ver Laurence Hallewell, O livro no Brasil, p. 466-474.
[360] Em entrevista a Homero
Senna, República das letras, p. 186,
coletada de O Globo, 18-12-1948, ao
invés de mencionar o convite para a publicação de Caetés, Graciliano diz: “Por intermédio de Rômulo de Castro,
Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse
artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo,
nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião estava de
mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial”. De fato,
além das tratativas para a publicação, houve por parte de Rômulo de Castro -
Schmidt sugestão de que Graciliano lhes mandasse artigos para imprensa, tal
como comprova a carta de 24-07-1930, reproduzida por Wellington Pascoal de
Mendonça, A consagração de Graciliano Ramos,
p.pdf. 53:
Meu caro Graciliano,
Como vai, meu amigo? Em que está pensando? Ainda não reparou que o seu
livro é esperado com ansiedade?
V. precisa decidir-se: ou edita V. mesmo os "Caetés", ou nos
manda os originais.
Ainda não veio resposta a minha última carta. V. está assim tão sem
tempo?
Junto mais dois jornais para V. ver mais coisas.
Graciliano, V. não poderia mandar um artigo para as "Novidades
Literárias"?
Escreva, por favor, qualquer coisa sobre Alagoas, sobre os
Cangaceiros, sobre o que V. quiser.
Espero sua resposta imediata.
Considere-se abraçado pelo seu amº
Rômulo
Ver: Catálogo eletrônico do IEB: < https://www.ieb.usp.br/ >:
acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano
ramos> relações sociais> página 1>
contato com Rômulo de Castro> item 2:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229767 >.
De acordo com notas e informes da imprensa do Rio de Janeiro, o jornal
“As Novidades Literárias” foi uma publicação conduzida por Augusto Frederico
Schmidt, Djalma Cavalcanti e Jayme Ovalle. Tais informes indicam, sem menção a
Graciliano Ramos, que o quinzenário durou cerca de seis edições em 1930, com
profusa participação de renomados intelectuais. Ver, por exemplo: O Paiz, 06-07-1930, ed. 16694 t. 7; Para Todos, 02-08-1930, ed. 607, t. 38; O Jornal, 07-09-1930 ed. 3626, t. 9; O
Jornal, 15-01-1931, ed. 3736, t. 11.
[361] Em Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 37, sem reprodução fac-similar ou indicação de
fonte, Moacir M. de Sant’Ana informa que Graciliano, nessa data, “em telegrama
lacônico, dirigido de Palmeira dos Índios, comunicou ao chefe do governo
estadual, sua renúncia: ‘Exmo. Governador do Estado – Maceió – Comunico a V.
Excia. que hoje renunciei ao cargo de Prefeito deste município. Saudações.
Graciliano Ramos’ “. Ver em Catálogo eletrônico do IEB registro de carta de
Álvaro Paes, datada de 14-04-1930, agradecendo os serviços prestados e acusando
recebimento das prestações de contas e do telegrama de Graciliano informando a
renúncia: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4>
graciliano ramos> relações sociais> página 1> contato com Álvaro Paes:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229693 >. Não há registros de combinação da
renúncia com Álvaro Paes que envolvesse antecipadamente o convite para o cargo
de Diretor da Imprensa Oficial. Valdemar de S. Lima, em Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, p. 154, a respeito da
interrupção do mandato em meio à construção da rodovia, diz: “quando Álvaro
Paes o levou para Maceió, a fim de ocupar o cargo de Diretor do Diário Oficial, 30 quilômetros [sic]
dela – mais tarde aproveitados pela antiga IFOCS na construção da estrada de
rodagem Central de Alagoas – tinham sido entregues ao tráfego”. (Em A Noite, 13-03-1930, ed. 6581, t. 6,
noticiou-se 27 quilômetros). Graciliano, em
Leitura, 12-1942, ed. 1, t.
12, relembra o momento nesses termos: “Em princípio de 1930 larguei a
prefeitura e dias depois fui convidado para diretor da imprensa oficial”.
[362] Diário
de Pernambuco, 25-04-1930, ed. 95, t. 2.
No Rio de Janeiro, A Noite, 16-04-1930,
ed. 6615, t. 2, publicou pequena nota.
[363] Ivan Barros, em Graciliano Ramos era assim, p. 43, registra em nota a informação de
Heloísa Ramos de que todo o estoque da Loja Sincera foi vendido, como
liquidação, em uma semana. Valdemar de S. Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios, no capítulo “O
comerciante”, p. 58-73, testemunha detalhadamente circunstâncias da Loja
Sincera: a fachada tinha em alto-relevo o nome “Graciliano Ramos”. Graciliano
trabalhou ali cerca de 19 anos. Deu à loja uma configuração límpida e fluente
no modo de organizar os espaços, a disposição de tecidos e outras mercadorias,
além de elaborar um formulário-teste para selecionar empregados, escolhidos com
eficiência enxuta. Estabeleceu para cada produto um “preço fixo”. Tornou-se
guarda-livros, autodidata em contabilidade, fazia registros com precisão
técnica, manuscritos, numa cidade em que era raridade a máquina de escrever, à
qual sempre foi indiferente (entretanto, Heloísa Ramos em depoimento ao Jornal do Brasil, 19-04-1981, ed. 11, t.
46, a respeito da doação ao IEB dos manuscritos e outros itens de Graciliano,
diz que deixou para Palmeira dos Índios a máquina de escrever, na qual ele
batia as faturas da loja – “Porque os livros ele sempre escreveu a mão”). Tinha
a seu lado um lavatório, a obsessão das mãos limpas e a ojeriza a dinheiro:
estendia sua carteira para que o outro com quem negociava retirasse a quantia
devida (como lembra Marili Ramos, Graciliano
Ramos, p. 29). Repelia publicidade da loja (afora em O Índio), mais ainda quando espalhafatosa. Cobrava devedores com
delicadeza. Repudiava malandragens e truques para sonegação de impostos.
Adquiriu, um ano antes da morte de Maria Augusta, o prédio em que ficava o seu
estabelecimento. O biógrafo conta o caso em que o pai Sebastião Ramos, para
valorizar mais o algodão que fora vender em Maceió, propôs aos compradores a
inclusão, no preço, de dívida da Loja Sincera que Graciliano teria de pagar a
eles mais à frente. Quando soube da “surpresa” preparada pelo pai, Graciliano
repudiou a interferência nos seus negócios e exigiu do pai que desfizesse a
combinação. E assim, com a crise mundial de 1929, diante do convite do amigo
Álvaro Paes para ser Diretor do Diário
Oficial, ponderou e resolveu liquidar a Loja Sincera: p. 73: “Pagou todas
as dívidas; e em abril de 1930, quando arrumou os troços para se mudar para
Maceió, contava só com trinta contos de réis no bolso”. Mais à frente, p. 155,
referindo-se ao momento da Revolução de 30, em outubro, o autor comenta a
situação de Graciliano em Maceió, como Diretor da Imprensa Oficial do governo
deposto: “Para o sertão não lhe convinha voltar. Tinha vendido a loja e alugado
o prédio”.
[364] 1930-1936
– Maceió
Segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 47, ele chegou a
Maceió com a família em 29-05-1930, passando a residir na Rua Boa Vista, 384.
Assumiu o cargo em 31-05-1930, de acordo com o fac-símile do ofício manuscrito
que o pesquisador apresenta na p. 239, com a legenda: “Graciliano Ramos
comunica ao Secretário do Interior haver assumido o cargo de Diretor da
Imprensa Oficial”. (Vivice M. C. Azevedo, em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 125, lembra que dois de seus artigos publicados
são de abril 1930 (os “macobebas”) e que o Jornal
de Alagoas de 03-05-1930 lhe deu boas-vindas, informando que Graciliano
estava em Maceió “há dias”).
[365] Cartas,
12-06-1930, p. 110.
[366] Antonio Candido, em “No aparecimento de Caetés”, Ficção e confissão, p. 92-95, observa a importância do grupo para a
recepção da obra, num evento de concentração que se revela "um fato
importante de sociabilidade literária, considerada como estímulo à produção e à
formação de juízos críticos – o que significa que pode ter influído na própria
natureza do discurso que se elaborava ou se projetava a partir de Maceió":
“um grupo intelectual que funcionou como público restrito de alta qualidade,
cujo papel foi não apenas receber o livro, mas manifestar o seu juízo sobre ele”.
Destaca a “leitura” de Santa Rosa configurada pelo desenho de sua capa para o
romance e as resenhas de Valdemar Cavalcanti e de Aurélio Buarque de Holanda,
publicadas no Boletim de Ariel (respectivamente
nos números de dezembro 1933, ed. 3, t. 7 e fevereiro 1934 [pasta 1933 da
Hemeroteca BN], ed. 5B, t. 15 a 17). Trata-se, pois, para Antonio Candido, do
fato, “importante para a história literária, de um autor, vinculado a um grupo
intelectual numa determinada cidade, produzir um livro que o grupo é capaz de avaliar
imediatamente nos devidos termos, compreendendo o seu significado e
distinguindo aspectos que se tornariam por assim dizer canônicos no
desenvolvimento da crítica posterior”.
[367] Como observa Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 47-48,
há várias referências à presença marcante de Graciliano no bar: Valdemar
Cavalcanti considera que o grupo fez de um café insignificante, o “Café do
Cupertino”, “quase um centro de irradiação cultural”; “E Graciliano estava
sempre presente às intermináveis discussões, fumando, um após outro, o seu
‘Selma’ ponta de cortiça”. Em Momento, de
março de 1934 (IEB - Arquivo Graciliano Ramos - Recortes), na resenha “Nota
sobre ‘Caetés’ ”, Aderbal Jurema diz: “Eu julgava encontrar no romance de
Graciliano Ramos, aquele silencioso companheiro de banca do Café Central de
Maceió, o desenvolvimento de uma tese social”. O crítico comenta que não
esperava um livro somente humano, introspectivo, sem foco na desigualdade de
classes. No Café, das conversas pitorescas, surgiam civilizadas questões
políticas e literárias. Graciliano sempre falava por último, admirável pelas
opiniões seguras, em meio a excitantes xícaras de café: “Por tudo isso me
surpreendeu o plano do romance de Graciliano”. Anos depois, em resenha sobre Memórias do cárcere, em Diário de Notícias, 07-03-1954, ed. 9613, t. 54, Aderbal Jurema relembra com
emoção quando o conheceu no Café, “já com os mesmos tiques e as mesmíssimas
idiossincrasias que, mais tarde, iriam dar nervo e sangue aos seus melhores
romances, inclusive o São Bernardo,
que ele me deu para ler ainda nos originais datilografados”; “Era, naquela
época, um homem maduro, embora não tivesse completado quarenta anos, e que
falava medindo as palavras, atento não somente à construção da frase, mas,
sobretudo, ao vocábulo exato para exprimir o que queria transmitir aos
companheiros de mesa de café. Lembro-me bem de seu aspecto caipira, as pernas
cruzadas, o cigarro ao canto da boca que vez por outra soltava um palavrão como
um desabafo”. Raul Lima, em Diário de
Notícias, 25-08-1946, ed. 7312, t. 24, lembra que era revisor da Imprensa
Oficial quando para seu desagrado Graciliano chegou como diretor e acabou com
“um acordo dos revisores, segundo o qual trabalhávamos apenas três vezes por
semana”. Mas ressalta a atenção do diretor: “não deixava de descer
frequentemente ao revisor jornalista e literatelho e falar-lhe de livros e
leituras. Em breve a crítica saudaria, com especial ênfase, o livro Caetés, daquele burocrata ainda meio
matuto que se revelava dono de um estilo e uma linguagem notáveis de sobriedade
e precisão”. E em “Lembrança de Aloísio Branco”, Diário de Notícias, 15-09-1946, ed. 7330, t. 26, Raul Lima ameniza
a dor da perda do jovem inteligente e criativo com a lembrança do convívio com
ele e o grupo da “pequenina capital das Alagoas”, “nas mesas do Ponto Central,
onde Graciliano incinerava, com a brasa do cigarro, pequenos torrões de açúcar.
Nessas mesas, que uma mulher – Rachel de Queiroz –, com certa estranheza do
meio provinciano, então igualmente frequentou, um funcionário do Banco do
Brasil [Santa Rosa] desenhava, sobre o mármore, bonecos e garatujas”. Aurélio
Buarque de Holanda, em entrevista a Homero Senna, República das letras, sob o subtítulo “À noite, no ‘Ponto Central’
“, p. 244-245, lembra: “Um grupo notável, como outro talvez nunca mais se reúna
em pequena capital de província”; “À noite, o grupo – com exceção de Jorge de
Lima – reunia-se no ‘Ponto Central’, não faltando às conversas outros
escritores mais jovens”. Aloísio Branco, morto aos vinte e oito anos, “foi uma
das mais brilhantes promessas de ensaísta que já tivemos”. E destaca o
fenômeno: “Vários dos mais importantes livros da moderna literatura brasileira
foram escritos, então, em Maceió: Angústia,
de Graciliano Ramos; Menino de engenho,
Doidinho, Banguê, parte do Moleque Ricardo, de José Lins do Rego”.
Jorge Amado, Navegação de cabotagem,
p. 29, foi a Maceió em 1933, vindo do Rio de Janeiro via Penedo, entusiasmado
para conhecer Graciliano depois de ter lido – antes de serem retirados por
Graciliano – os originais de Caetés que
até então estavam na livraria de Schmidt. Fala do encontro: “fui encontrá-lo
num bar, bebia café negro em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra
– todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da
roda. Ficamos amigos na mesma hora”; “Eu o recordo como vi pela primeira vez,
na mesa do bar: chapéu-palheta, a bengala, o cigarro, a face magra, sóbrio de
gestos. Parecia seco e difícil, diziam-no pessimista, era terno e solidário,
acreditava no homem e no futuro”.
[368] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 47-48. Para consultar currículos e obras dos
participantes, especialmente os alagoanos, ver: Francisco Reinaldo Amorim de
Barros, ABC das Alagoas – Dicionário
biobibliográfico, histórico e geográfico de Alagoas.
[369] Theo Brandão, médico e folclorista, e,
citado acima, Moacir Soares Pereira, químico, bacharel em direito e (assim como
José Lins do Rego) ativista do integralismo, com o qual rompeu por repulsa ao
nazismo, são certamente as duas figuras citadas, junto a “Zelins”, na crônica
“Doutores”, de Maceió, em que Graciliano comenta o valor do título “doutor”,
tal como a transcreve Vivice M. C. Azevedo, em Apports inédits à l’ouvre de Graciliano Ramos, p. 136: “Têm,
naturalmente, as suas honras de sabedoria oficial no consultório ou na
repartição, mas findo o trabalho, escondem o anel, dobram a carta e vão para os
cafés discutir fitas do [cinema] Floriano, literatura, sociologia e outras
habilidades. Um sujeito da rua grita para eles: – Oh Theo! Oh Moacir! Como vai,
Zelins?” Ver: Garranchos, p. 129-132,
e:
< https://historiadealagoas.com.br/theo-brandao-do-folclore-alagoano.html >,
< https://historiadealagoas.com.br/integralistas-em-alagoas.html >
e
< https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/mspereira.html >.
[370] Rachel de Queiroz, em “Centenário de
Graciliano”, O Estado de São Paulo, 17-05-1992,
Caderno 2, acervo p. 66, relembra o período: “conheci Graciliano antes mesmo de
ele ser editado; e nem o conheci pessoalmente, então, foi só no papel. Era em
1932, e eu visitava Augusto Frederico Schmidt na sua Livraria Católica, na
Travessa do Ouvidor. Era uma loja comprida, com o escritório no fundo”; “Schmidt
me tomara os originais de João Miguel
(que eu resgatara dos comunistas), meteu-os na gaveta e, dessa mesma gaveta,
puxou outro original, pessimamente datilografado, e me mandou que o folheasse:
‘Leia!’ E como eu levantasse os olhos ele ordenou de novo: ‘Vá lendo’. E eu fui
lendo, encantada e reverente: eram os originais de Caetés. Por fim me tomou da mão o manuscrito e me contou quem era
aquele alagoano ‘um Eça de Queiroz, é o puro Eça!’”; “Quando, em fins de 1934,
fui morar em Maceió, já Graciliano era nacionalmente famoso, já publicara São Bernardo”; “embora mal passasse dos
40 anos, para nós”, “todos na casa dos 20 anos”, “era o ‘ ‘velho’ Graça, o Mestre’ ”. Em:
< https://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19920517-36005-nac-0066-cd2-2-not >,
ou: < https://blogdoims.com.br/salvando-os-originais-de-angustia-por-elvia-bezerra/ >.
[371] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 47-48. Para o contexto de Maceió e as
movimentações culturais do período, ver: Moacir M. de Sant’Ana, História do
Modernismo em Alagoas - 1922-1932; Documentário do Modernismo
(Alagoas: 1922-1931).
[372] Em “Visão de Graciliano
Ramos”, publicado em Diretrizes , 29-10-1942,
ed. 122, t. 7, 23, e como posfácio a Angústia,
Otto Maria Carpeaux a seguir reforça essa qualificação, p. 232: “O nosso amigo
comum Aurelio Buarque de Holanda chamou-me a atenção para a circunstância de
representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo diferente de
romance”. Rachel de Queiroz disse o mesmo: “Os livros de Graciliano Ramos são
todos diferentíssimos uns dos outros, parecem escritos cada um por um homem diverso,
vivendo em mundos opostos”, em Diário de
Notícias, 09-10-1938, ed. 3893, t. 13 e 14. Nenhum deles observa que os
romances diferentes resultam da própria inteireza do estilo único de retábulos.
É o resultado da uniformidade do estilo marcante de Graciliano, que recorta com
precisão e realismo, dentro de seu contexto, cada uma das classes sociais e com
isso esgota sua ficção.
[373] Cartas, 18-08-1926 p. 83-86. Sobre as línguas,
disse ainda: “Um
sertanejo daqui foi o ano passado a Bauru, ao café. De volta, confessou-me que
o que lá havia mais extraordinário era se falarem mais de vinte línguas,
difíceis, principalmente a ‘língua paulista e a língua japão’ ”. Em Memórias do cárcere, Parte III, 34,
relembrou a velha história: “Os paranaenses, graves, metódicos, arrumavam-se
para descansar da melhor maneira, examinavam lentos a sala acanhada, permutando
cochichos. Lembrei-me de um caboclo da minha terra, impelido ao sul finda a
ilusão da borracha. De regresso, com chapéu de abas largas, roupa de casimira e
relógio, esse tipo me dissera: – ‘Vossa mercê não imagina. Em São Paulo há um
bando de línguas. Língua Bahia, língua Mato Grosso, língua Paraná. São
diferentes da nossa, mas o senhor entende. O que ninguém entende é a língua
Japão: essa é uma língua filha da puta’ ”. Em outro contexto, anos depois,
1952, Graciliano atacou explicitamente Mário de Andrade em “Uma palestra”, Linhas tortas, p. 275-276: “No Brasil,
nesse infeliz meio século que se foi, indivíduos sagazes, de escrúpulos
medianos, resolveram subir rápido criando uma língua nova do pé para a mão, uma
espécie de esperanto, com pronomes e infinitos em greve, oposicionistas em
demasia, e preposições no fim dos períodos. Revolta, cisma, e devotos desse
credo tupinambá logo anunciaram nos jornais uma frescura que se chamava
‘Gramatiquinha da fala brasileira’ “.
[374] F. de A. Barbosa, “50 anos de Graciliano
Ramos”, A. F. Schmidt et
alii, Homenagem a Graciliano Ramos,
p. 43-45.
[375] Dom
Casmurro, 13-07-1940, ed. 157, t. 2, coligida em Linhas tortas, p. 147-151.
[376] Dom Casmurro, 12-12-1942, ed. 280, t, 3.
[377] Carta apresentada por Moacir M. de
Sant’Ana, em História do romance Caetés,
p. 37-38, com observação na p. 10: encontrada posteriormente à publicação em
1980 da correspondência de Graciliano, a carta foi ditada ao pesquisador em
telefonema de São Paulo, 02-11-1983, por Heloísa Ramos. Apesar da observação, o
pesquisador não menciona uma possível resposta de Graciliano a essa carta. Ver:
< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo on-line> página 4>
graciliano ramos> relações sociais> página 1> contato com Rômulo de
Castro> item 1:
<
http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229766 >.
[378] O grupo de Maceió
formou-se e se dissolveu gradativamente durante a década, rumo ao Rio de
Janeiro: Jorge de Lima em 1931, com Aloísio Branco (que retornou – e faleceu em
1937), José Lins do Rego em 1935, Graciliano (preso) em 1936, Aurélio Buarque
de Holanda em 1938, Rachel de Queiroz, que retornou em 1939, entre tantos
outros do grupo de Maceió, como Valdemar Cavalcanti e Alberto Passos Guimarães.
Para o percurso desse grupo, que, concentrando-se em Maceió nos inícios dos
anos 30, projetar-se-ia pelo Rio de Janeiro nos finais da década, articulado a
debates entre Modernismo e Regionalismo, ver: Simone Silva, “A ‘roda de Maceió’ e o projeto regionalista.
Uma perspectiva etnográfica das disputas ocorridas no mundo do livro dos anos
1930”; como também: Vamireh Chacon, “Gilberto Freyre, Mário e Oswald de Andrade”;
Neroaldo Pontes de Azevedo, Modernismo
e regionalismo (Os anos 20 em Pernambuco); Tadeu Rocha, Modernismo & regionalismo. Para uma
percepção abrangente e minuciosa do período e referências bibliográficas
exaustivas de sua fortuna crítica, ver: Luís Bueno, Uma história do romance de 30.
[379] Correio da Manhã, 22-07-1930, ed. 10914, t. 6. E, assim, durante
todos esses anos antecedentes à publicação de Caetés, surgiram notícias da obra.
[380] Revista
de Ensino, 09 e 10-1929, de Maceió, ed.
17, t. 50-51 – crônica coletada em Viventes
das Alagoas, p. 133-135.
[381] Diário
de Notícias, 25-07-1930, ed. 44, t. 3.
[382] Vamos
Ler! n. 65, 28 de outubro de 1937, com manuscrito registrado no Catálogo de manuscritos do AGR, p. 174.
Os textos das duas crônicas estão coligidos em Garranchos, p. 125-128, 160-163.
[383] Texto também publicado em O Jornal, 11-09-1938, ed. 5904, t. 25 e
27.
[384] Ricardo Ramos, Retrato fragmentado, p. 36-37.
[385] Novidade,
16-05-1931, ed. 6, t. 8.
[386] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 72. Ver também: Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50.
[387] Texto coligido em Linhas tortas, p. 89-91. A respeito, ver
nota em Diário de Notícias, 24-08-1930,
ed. 74, t. 4, que noticia viagem de Álvaro Paes pelo interior para inspecionar
obras, acompanhado do “jornalista Graciliano Ramos” e do “Dr. Jorge de Lima”.
[388] Boletim
de Ariel, Rio de Janeiro, n. 3, dezembro de 1933, p. 81, ed. 3, t. 25 -
trecho “de um romance a apparecer: Os
Cahetés”.
[389] Momento,
Recife, n. 2, dezembro de 1933, p. 10 - reprodução fac-similar em: Carlos
Benites de Azevedo, Entre crônicas,
contos, cartas e pequenas histórias da república de Alexandre e dos meninos
pelados, p. 154.
[390] A Noite. Rio de Janeiro, 07-02-1934, ed. 205, t. 14 - apresentação
na seção “Noite Ilustrada” de trecho de Caetés:
“mais um escritor nortista”, com destaque “pela singularidade do tema e pela
feição agradável e despretensiosa do estilo”.
[391] Literatura, Rio de Janeiro, n. 18, 20-06-1934, p. 1 - resenha sobre
Doidinho, de José Lins do Rego – em Garranchos, p. 133-137.
[392] Diário da Manhã. Recife, 30-08-1934, ed. 830, t. 16 - publicação de
trecho de Caetés na seção “Um conto
para ler no bonde”.
[393] Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, n. 12, 09-1934, ed. 12B [pasta
1933], t. 15-16 - trecho “do romance a apparecer: S. Bernardo”.
[394] Folha de Minas, Belo Horizonte, 17-02-1935 - resenha coletada em Linhas tortas, p. 92-96, sob o título “O
romance de Jorge Amado”.
[395] Diário de Pernambuco, 10-03-1935, ed. 57, t. 11 – em Garranchos, p. 138-142.
[396] Diário de Pernambuco 28-06-1935, ed. 152 t. 13; A Escola, Maceió, vol. I, p. 13-14, set.
1935, fasc. 1 – os detalhes bibliográficos estão indicados em Aline da S.
Santos, Graciliano
Ramos: literato e gestor - contribuições à educação alagoana (1920 - 1940).
Em Garranchos, p. 143-145.
[397] Diário
de Pernambuco, 24-01-1936, ed. 20A, t. 10.
[400] Para contextualizar essa publicação
recifense, anunciada como o “Boletim de Ariel do Norte”, ver a diatribe de
Murilo Mendes em Boletim de Ariel, 12-1935,
ed. 3, t. 7, “A poesia e os confusionistas”: o poeta ataca o esquerdismo e a
“incultura proletária” dos “juremistas” –
no que inclui Valdemar Cavalcanti –
depois que a publicação considerou ridículo que ele e Jorge de Lima
escrevessem poemas a Jesus.
[402] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 80. Em registros da publicação, na coleção
incompleta da Hemeroteca Digital da BN, constam como correspondentes da revista
em Alagoas: Valdemar Cavalcanti: Boletim
de Ariel, 09-1932, ed. 12, t. 2 ; e Raul Lima: Boletim de Ariel, 10-1935 a 09-1936, ed. 1[pasta 1935], t. 8, e
10-1938, ed. 1, t. 3.
[403] Ver passagem da carta para Alceu de
Amoroso Lima em que Jorge de Lima conta que esteve no velório da criança e
comenta o temperamento de Graciliano Ramos, “uma figura fora do comum”, dizendo
que ele estava “até alegre” e querendo conversar. Carta de 08-09-1930, obtida
do Centro Alceu Amoroso Lima pela
Liberdade, através de Leonardo D’Ávila, por Lygia Barbachan Albuquerque
Schmitz, transcrita em sua dissertação: Cartas
de Graciliano Ramos: caput mortuum de uma vida literária, p.pdf. 81. Em 1935, ao falar da incômoda
miséria que Jorge Amado expunha em Suor,
Graciliano incluiu Jorge de Lima em lado oposto: “Há uma literatura antipática
e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa de coisas agradáveis, não
se molha em dias de inverno e por isso ignora que há pessoas que não podem
comprar capas de borracha” – em Linhas
tortas, “O romance de Jorge Amado”, p. 92.
[404] Segundo Moacir M. de
Sant’Ana, em Graciliano Ramos: vida e
obra, p. 41, Ló levou para a casa da avó Austrelina Leite de Medeiros, em
Pilar-AL, Múcio, Maria Augusta e Ricardo, e Graciliano ficou em Maceió com
Márcio e Júnio, que estudavam no Liceu
Alagoano. Entretanto, em Cartas,
27-09-1930, p. 112, Graciliano diz a Ló que deu o recado dela a Múcio. E em Cartas, 01-10-1930, p. 113, Graciliano
diz à esposa: “Não se importe com Múcio nem com a roupa. No dia do aniversário
dele mandei arranjar por Alaíde tudo que ele precisava, da cabeça aos pés”; e
“Recebi agora uma carta de Márcio. Não me manda dizer se melhorou”. Como se
brincasse com alguma observação de Ló, assinou com o cognome “gato”, do que
fará menções também nas cartas de 1932.
[405] Sobre o assunto, ver
acima: o Correio da Manhã,
09-09-1930, ed. 10956, t. 2, noticiava nessa época que Álvaro Paes encarregara
Graciliano, diretor da Imprensa Oficial, de um projeto de uniformização dos
orçamentos municipais.
[406] Bordão do Dr. Liberato, médico,
personagem de Caetés.
[407] A Casa Ramalho foi uma
importante livraria, papelaria e editora de Maceió, que se anunciava fundada em
1893. Como editora publicou obras variadas, teóricas e literárias, de
intelectuais alagoanos e, em 1938, lançou a revista Alagoas – mensário ilustrado (agosto 1938, ed, 1, t. 5), com
participação expressiva dos intelectuais de Maceió (ver, por exemplo, o índice
da edição de setembro 1938, ed. 2, t. 6). É por meio dessa casa que depreciativamente João Valério em Caetés devaneia publicar o seu “Caetés”,
como diz no capítulo 3, p. 23: “numa brochura de cem a duzentas páginas, cheias
de lorotas em bom estilo, editada no Ramalho”. É o movimento especular de
ironia consigo mesmo que Graciliano projetava com feição provinciana – tal
comentário nessa carta a Ló se aproxima do que diz João Valério no capítulo 8,
p. 51: “As minhas ambições são modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e
transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo
Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmácia Neves, no café
Bacurau, dissessem: ‘Então já leram o romance do Valério?’ Ou que, na redação
da Semana, em discussões entre
Isidoro e padre Atanásio, a minha autoridade fosse invocada: ’Isto de selvagens
e histórias velhas é com o Valério’ “. Apresento, a respeito, observações em“A
inexistência de Caetés”.
[408] Cartas,
26-09-1930, p. 111.
[409] Cartas,
04-10-1930, p. 114-115.
[410] O médico José Carneiro de Albuquerque foi
prefeito de Maceió de 1928 a outubro de 1930. Destacou-se por uma administração
dinâmica, incluindo combate sanitário às formigas. Foi um dos médicos que
atendeu Graciliano, em 1932 – ver abaixo. O otimismo leibniziano é satirizado
por Voltaire, em Cândido, ou o otimismo,
com o bordão “o melhor dos mundos possíveis” que acompanha peripécias
rocambolescas regadas de carnificina.
[411] Cartas,
07-10-1930, p. 115.
[413] Cartas, 11-10-1930, p. 117. Há muitas anedotas em torno da atuação
de Graciliano durante esse período, mas o que há de mais verídico certamente é
seu depoimento com as reminiscências sobre o quartel do 20º Batalhão de Maceió,
quando chegou ao local, preso, em 1936 - em Memórias
do cárcere, Parte I, 4, p. 50-51: “Estivera ali em 1930, envolvera-me
estupidamente numa conspiração besta com um coronel, um major e um comandante
de polícia, e vinte e quatro horas depois achava-me preso e só. Dezesseis
cretinos de um piquete de Agildo Barata haviam fingido querer fuzilar-me. Um
dos soldadinhos que me acompanhavam chorava como um desgraçado”. Ainda
referindo-se ao momento de 1936, acrescenta na p. 51: “desci do automóvel,
atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com
braçadeiras vermelhas”. Mais à frente, Memórias
do cárcere, Parte III, 22, p. 114,
fala de detalhes da prisão e de sua expectativa no período de detenção
durante a Revolução de 30: “Eram dezesseis malucos. Esvaziaram-me os
pneumáticos do carro, encheram-me de perguntas e ameaças. Atrapalhado em
excesso, não respondi; tirei do bolso um papel e mastiguei-o. Preso, estirado
na cama, o chapéu cobrindo-me o rosto, ouvi pancadas; sentei-me, vi perto um
indivíduo a bater com a soleira do fuzil no chão, querendo assustar-me. – ‘Você
dispara esse diabo e mata um companheiro. Com licença.’ Estirei o braço e virei
a asa do registro de segurança. Achava-me bastante apreensivo, mas era receio
comum. Alguns dias de reclusão, vários aborrecimentos. Mal sério não me fariam
aqueles militares vagabundos, incapazes de pegar direito numa arma”. A
lembrança desses dias comporá onze anos depois a crônica satírica “Bagunça”,
que esculhambaria já pelo título a solenidade da revista estadonovista Cultura Política, 10-11-1941, ed. 9, t.
395-396, “Edição extraordinária comemorativa do quarto aniversário do regime de
10 de novembro de 1937” – se o editor não suprimisse títulos além de preparar
capciosas sinopses: crônica coletada em Viventes
das Alagoas, p. 58-61: “A cidade amanheceu calma e tudo indicava que assim
permaneceria muitos anos”; “Um jornal afirmou que as coisas iam bem, outro
arriscou timidamente que talvez elas pudessem melhorar um pouco”; “Ao meio-dia
chegou, num telegrama curto do Presidente da República, a informação de que
tudo se achava em ordem”; “O Governador mandou o telegrama à Imprensa Oficial,
depois telefonou mandando suspender a publicação dele”; “Às duas horas, reuniu
os secretários, o comandante da polícia e amigos de confiança”; “Mas o
comandante da polícia exibia disposições belicosas: num instante organizou
planos, guarneceu as fronteiras e dinamitou as pontes sem dificuldade”; “Uma
noite alguns cavalheiros ponderosos tiveram uma longa entrevista com o Governador.
Ignoram-se os termos da conversa. Provavelmente se referiram a D. Pedro II e às
desgraças que ameaçavam o Estado. Às onze horas S. Ex.ª embarcou”. E termina
com uma síntese perfeita do período: “Vários se acautelavam, pensando no Rio,
e, bastante dignos para renegar de chofre convicções antigas, limitavam-se a
introduzir no bolso um lencinho encarnado. Via-se dele uma ponta discreta, que,
em conformidade com as notícias, mergulhava ou reaparecia. Depois da vitória
foram esses os mais afoitos e intransigentes. Não mereceram demasiada atenção.
A maioria animava-se de verdade, oferecia moedas de prata para a liquidação da
dívida externa, esperava que altos-fornos se construíssem de repente, corresse
o petróleo e a população subisse a duzentos milhões. Esses desejos
encurtaram-se, mas ainda ficaram extensos, e moços verbosos, falando muito na
realidade brasileira, procuraram em países distantes receitas convenientes aos
males nacionais. Os políticos maduros, educados na poesia e na retórica,
arrepiavam-se ouvindo sujeitos imberbes que se agarravam à economia e à
sociologia, citavam livros desconhecidos. – Que materialismo!”(Com o mesmo teor
a respeito dos pusilânimes oportunistas de 30, foi publicada em Novidade, 06-06-1931, ed. 9, t. 6, por
Lima Júnior ,“Carta a um antigo correligionário político”, assinada com o nome
do filósofo sofista que se manteve fiel
ao paganismo, “Libânio”, 314-394 d. C.). Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 74-75, declara: “O próprio Diretor da
Imprensa Oficial escreve o folheto visando a acalmar o povo: os bichos-papões
que o assustam existem apenas nas imaginações exaltadas”; “Os folhetos
tranquilizadores, impressos em papel verde, são atirados de um aeroplano sobre
a população”. Mas logo as “tropas de Juarez Távora entram em Maceió com Agildo
Barata no comando e uma grande curiosidade: – Cadê aquele sujeito que disse que
a gente era alma do outro mundo?”; “Seguira para Palmeira. Subitamente
reanimado, fora articular a resistência com meia dúzia de conspiradores. É, no
entanto, detido e recambiado ao quartel do 20º Batalhão, onde passa uma noite”.
Segundo Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 42, o boletim pedido por Álvaro Paes, citado na
carta a Ló, pode ser o intitulado “O povo deve confiar no governo” (cujo
fac-símile o pesquisador apresenta na p. 217): um texto solene que fala de
boatos sobre a revolução como “obra satânica dos inimigos da paz e da ordem”. O
pesquisador ressalva que o registro acima de Clara Ramos poderia ser de um
outro boletim, com menção aos revolucionários como “almas do outro mundo”.
Marili Ramos, em Graciliano Ramos, p.
57, conta que também participou das encrencas: Graciliano, tendo encontrado
Palmeira já aderida aos revolucionários, na volta foi detido em S. Miguel dos
Campos: “Em tais circunstâncias, Heloísa e eu não esperando que ele voltasse
vivo, enterramos os originais de Caetés,
numa lata tampada, em baixo de um pé de sapoti, no quintal da casa de minha
irmã Otília, em Jaraguá. Graças a Deus, já alta noite, ele chegou”. Moacir M.
de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e
obra, p. 44, detalha que o episódio ocorreu dias depois da fuga de Álvaro
Paes, quando Heloísa já havia voltado com as crianças para casa, assim tendo
ido com a cunhada esconder o manuscrito no bairro de Maceió em atenção ao
pedido de Graciliano para que a esposa zelasse pelos originais do romance.
Heloísa não seguiu entretanto sua recomendação de que se precatasse e não
saísse de casa.
[414] ver: < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica/ >. Luíza de Medeiros Ramos Amado foi
casada com James Amado (1922-2013), viveu em Salvador-BA, e, segundo noticiário
sobre seu falecimento, em 07-02-2022, estava morando com a filha em São Luiz de
Paraitinga - SP. Ver, por exemplo: < https://aloalobahia.com/fotos/filha-de-graciliano-ramos-morre-aos-90-anos-em-salvador
>.
[415] A respeito da revista e do movimento
editorial da Maceió no período, ver: Ieda Lebensztayn, Graciliano Ramos e a Novidade: o astronomo do Inferno e os meninos
impossiveis, e: Carlos Moliterno, "Nota sobre publicações literárias
em Maceió, nas décadas de 20 e 30":
[416] Luiz Augusto de Medeiros
(1905-1984), irmão, primogênito, de Heloísa e padrinho de batismo de Luíza
Ramos, foi médico oftalmologista e escritor. Foi dos primeiros leitores de
Graciliano e grande admirador de sua obra, incluindo as crônicas de “J.
Calisto” que lia em O Índio quando
era adolescente. Em 1957 participou
na televisão do programa de prêmios “O céu é o limite” respondendo sobre
“Graciliano Ramos” (perdeu quando do lapso na resposta sobre as palavras que
Luís da Silva em Angústia garatujava
com as letras do nome “Marina”: “ar,
mar, rima, arma, ira, amar” ou “ar, mar, ria, arma, ira”) –
ver em: O Mundo Ilustrado,
08-01-1958, ed. 2, t. 40-41. Com alguma convivência no meio intelectual, suas
participações foram registradas, por exemplo, em A Manhã, 21-11-1944, ed. 1009, t. 3, no informe de que ele e Willy
Lewin traduziriam obras de Gérard de Nerval. Mas posteriormente no lançamento
de Aurélia constou apenas a tradução de Luiz Augusto de
Medeiros e capa de Santa Rosa – por
exemplo, na resenha assinada por A. F. em A
Manhã, 04-05-1945, ed. 1144, t. 3. No período, mencionava-se sua coletânea
de contos sob o título As mãos, a
sair, como em A Manhã, 05-10-1944,
ed. 969, t. 3. Publicou o conto “Fila A n. 20” em Leitura, 09-1943, ed. 10, t. 26-29. O conto “Prelúdio em si menor”
foi referido à revista Letras
Brasileiras, em meio a textos de Murilo Mendes e Drummond, no anúncio
publicado em A Manhã, 22-03-1945, ed.
1109, t. 7: o conto foi publicado em Vamos
Ler!, 10-05-1945, ed. 458, t. 10, 11, 56. “Prelúdio em si menor” foi
coletado por Graciliano Ramos (org.) em Seleção de Contos Brasileiros – Norte e
Nordeste (v. 1), como também em Romeu de Avelar (org.), Antologia de contistas alagoanos. Ainda
de autoria de Luiz Augusto de Medeiros, o conto “Leonídio” foi
publicado por Ricardo Ramos (org.), em Contos alagoanos de hoje.
[417] Em carta datada de
15-04-1931, Rômulo de Castro dizia a Graciliano que Schmidt iria enviar-lhe as
provas de Caetés, que estavam sendo
impressas em São Paulo : “Ele vem
demorando por causa da crise. De fato está um buraco o negócio...
principalmente de livros” – ver em Wellington Pascoal de Mendonça, A consagração de Graciliano Ramos,
p.pdf. 53.
[418] Cartas,
25-04-1931, p. 118
[419] Valdemar de Souza Lima, Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios,
p. 157-158. Em A Noite, 15-01-1931,
ed. 6876, t. 7, uma nota de Maceió indica a formação de várias comissões para
“apuração de responsabilidades funcionais ou criminais em diversos municípios
do Estado”, entre eles, Viçosa, Quebrangulo e Palmeira dos Índios. A data da
sentença reproduzida por Valdemar de Souza Lima é de 27-07-1931, mas em Cartas, 03-08-1931, p. 119, a nota do
editor diz que se trata de alusão a tal processo. Assim sendo, Graciliano,
alguns dias depois da data acima indicada da absolvição, dizia ao pai: “Creio
que a denúncia não terá consequências, mas não tenho certeza. Não pedi nada a
Benon Maia, primeiro porque não gosto de fazer pedidos, em segundo lugar porque
os homens que estão no governo não têm interesse em satisfazer-me. Entre eles
há alguns que são meus inimigos pessoais. Far-me-ão o mal que puderem, o que é
razoável. Eu faria o mesmo. A verdade é que não vou ao Palácio dos Martírios
senão forçado, e os negócios daqui da Imprensa são resolvidos pelo telefone ou
por ofício. A desorganização em que está aí o município presentemente não me
preocupa. Qualquer transformação agora seria inútil. É maluqueira a gente
comprometer-se à toa. Não sei se me faço compreender. Pensa que, se me
aparecesse a possibilidade de uma combinação para modificar isso por aí, eu
desejaria colaborar nela? As nomeações de delegados de polícia não valem nada,
só servem para alimentar a vaidade de alguns coronéis que estavam encostados há
vinte anos e que agora infelizmente surgiram. O que nos falta é um plano de
trabalho, uma orientação segura, coisa que só será obtida por gente que conheça
as necessidades e as possibilidades do Estado. Isso não se conseguirá nunca nos
mexericos das repartições, necessita entendimento com os homens que produzem. E
adeus, que estou hoje muito besta. O aluguel da casa não serve, é melhor
deixá-la fechada”.
[420] Artigo assinado por R.
C., intitulado “Cahetés”, no Jornal d [...?]
(IEB – Arquivo Graciliano Ramos – Recortes - sem o nome completo do jornal e
datado com grafia manuscrita de Graciliano: “8-11-1931”). O articulista elogia
as publicações de Schmidt-editor, incluindo, entre obras de renome, o
“esperadíssimo” Caetés. Afirma mas
põe em dúvida o caráter nordestino do romance, urbano, de cidadezinha
sertaneja, negando qualquer aproximação com A
bagaceira, de José Américo de Almeida. E faz a relação com Machado. A
comparação com Machado perseguiu
Graciliano pela vida toda e, como se vê, antes mesmo de ser publicado. Em
“Machado de Assis”, artigo coletado em Linhas
tortas, p. 109, ele reclama: “Se um sujeito admitia a concordância e não
trocava o lugar das palavras, o jornal dizia: ‘Bem. Isto é Machado de Assis.’
Se o camarada evitava o chavão e não amarrava três adjetivos em cada
substantivo, a explicação impunha-se: ‘Muito seco, duro. Esqueleto. Machado de
Assis.’ Faltavam num livro cinquenta páginas de paisagem? ‘Claro. Esse homem
aprendeu isso com Machado de Assis. É a história da casa sem quintal.’ “
(Humberto de Campos, em Brasil anedótico,
p. 130, registra a expressão como lembrança de uma conversa com Coelho Neto,
que teria usado a formulação “casa sem quintal” para qualificar a literatura de
Machado). Em depoimento a O Dia,
04-05-1941, ed. 5444, t. 9, Graciliano destaca, antes de Zola, a influência
fundamental de Balzac: “um deslumbramento”, “o maior romancista do mundo”.
Acentua a força de As ilusões perdidas:
“Ali há de tudo, desde a base econômica, admiravelmente definida e levantada e
dentro da qual o livro tem durabilidade eterna”. Depois, Eça de Queiroz, que,
na verdade, ele vê como uma derivação dos franceses. E o artigo conclui: “Ao
contrário, porém, do que se pensa, Graciliano não foi influenciado por Machado
de Assis”; “Não considera Machado um caso de genialidade e dele se julga
afastado por uma questão de educação literária e por imperativo do
temperamento. – ‘Meu espírito formou-se num ambiente de riso claro e vivo –
continua o romancista. Ao demais, o que me distancia de Machado é o seu medo de
definir-se, a ausência completa da coragem de uma atitude. O escritor tem o
dever de refletir a sua época e iluminá-la, ao mesmo tempo. Machado de Assis
não foi assim. Trabalhando a língua como ninguém, podia, no entanto, fazer uma
grande obra viável às ideias. Não amo Machado. E releio Eça de Queiroz... pelo
que ele me transmite, harmoniosamente, do espírito francês’”. A carta de
Graciliano de 1946 a Haroldo Bruno, Estudos
de literatura brasileiras, p. 97-99,
entre muitos pontos relevantes, menciona Machado sob o mesmo
diagnóstico, mas em termos mais ásperos:
Rio
– 1 – Setembro – 1946
Prezado
Sr. Haroldo Bruno:
Muito lhe agradeço a carta de 12 de agosto e o
excelente artigo vindo com ela. As nossas opiniões coincidem, exceto nos
elogios que me dispensa. Mas isto pode ser considerado falsa modéstia – e
convém mudarmos de assunto. Conversemos à toa, sem ordem, a respeito de alguns
pontos de seu trabalho.
Na verdade é bem desagradável sermos discípulos
de algum figurão que às vezes desconhecemos. Na América do Norte acharam-me
este ano três mestres nunca lidos por mim. Certos críticos insistem nessas
filiações: indispensável imitar alguém. Quando apareci, deram-me por modelo o
velho Machado e expuseram para isso razões interessantes. Não admitem que
andemos sem muletas: somos todos coxos. Aqui entre nós: sempre julguei Machado
de Assis um sujeito de maus bofes e bastante covarde. Assim, seu juízo me traz
verdadeiro alívio.
Muito justa a observação referente à mudança que se
operou do primeiro ao último livro. Realmente, no começo apenas desejei mostrar
uma cidadezinha do interior – fuxicos, preguiça, conversas à porta da farmácia.
Até por volta de 1930 surgiram ataques à novela de costumes, ao estudo social,
ao documento, e elogios imoderados ao romance introspectivo. Sem dúvida,
pretendiam anular o fator econômico – e em consequência apresentaram-nos
fantasmas. Ora, essas divagações arbitrárias não me despertavam interesse.
Achei que só realizaríamos introspecção direita examinando a coisa externa,
pois o mundo subjetivo não exclui o objetivo: baseia-se nele. Quem fugia à
observação tinha evidentemente um fim político, mas as mofinas contra as
reportagens eram de fato razoáveis. Conseguiríamos, evitando a parolagem chinfrim
dos comícios, ferir os nossos inimigos com as suas próprias armas. Usaríamos
até a linguagem correta, instrumento que de ordinário eles não utilizam. A
sintaxe é também arma, não lhe parece? É meio de opressão. Assim pensando, fiz
os meus últimos livros.
Bem. Como o tempo é escasso, não lhe mando uma
carta: vai apenas, por enquanto, este bilhete. Alegra-me a ideia de ler os seus
contos, quando V. para aqui vier, o que, desejo, acontecerá breve. Realmente,
para que vivermos no Nordeste? Prendemo-nos à concha, mas isto não traz
conveniência a ninguém – e um dia nos agarram, metem-nos de chofre num porão e
obrigam-nos a viajar. Está certo: não precisam de nós. Espero que o meu amigo
se decida a vir logo, antes que o forcem. Toco neste ponto, relendo o fim da sua
carta, porque estou cheio de lembranças. Tenho aqui ao lado vários capítulos de
uma história de cadeias;
possivelmente não chegarei à última página, pois tenho mais de cinquenta anos e
o negócio dará talvez uns quatro volumes. Como Infância foi composto em sete anos, presumo, assim andando em
marcha de caranguejo, não concluir o trabalho num quarto de século. Rebentarei
antes, é claro: a colônia correcional me arrasou os pulmões.
Adeus, por hoje. Novos agradecimentos e abraços,
que tenciono dar-lhe pessoalmente. Amigo às ordens,
a) Graciliano Ramos
Agradeço a Zenir Campos Reis a indicação da carta e a recomendação de
sua importância – a respeito, ver seu ensaio: Tempos futuros. Décadas depois de muitas discussões sobre o
assunto, Roberto Schwarz abordou com vigor o equívoco da percepção de um
Machado de Assis omisso.
[421] O verbo tem a intenção de sugerir que já
em 1931 Graciliano escrevia S. Bernardo, em
razão de expressões e comentários vinculados ao livro que aparecem em carta de
16-10-1931 a Aloísio Branco: “trabalhos
rurais”, “oito capítulos perdidos” (formulação semelhante aos “dois capítulos
perdidos” de Paulo Honório), “leitura dumas coisas sobre zootecnia para
descobrir o Schwitz e o Caracu”. Aloísio Branco, que se tinha mudado com Jorge
de Lima para o Rio de Janeiro, frequentava a livraria de Schmidt, como se vê
abaixo:
Imprensa Oficial
Gabinete do Diretor
Maceió
Aloísio:
Desejo que Nosso
Senhor o ilumine sempre com sua divina graça.
Você não me mandou
endereço, naturalmente porque vive fora da terra. Infelizmente o carteiro não
vai a esses lugares por onde você anda – e eu sou forçado a escolher uma região
intermediária, a Livraria Católica. Está o meu amigo agora lá, mexendo nos
livros e desejando que uma guerra das brabas espatife todas as máquinas e traga
aos homens a quantidade de sofrimento necessário à salvação que procuramos.
Nós aqui
continuamos a achar bom o automóvel, pelo menos para levar com rapidez
confissão e absolvição a um doente que quer morrer depressa. E pensamos que o
linotipo e os navios nos oferecem publicações católicas sem atraso e numerosas.
A propósito de
linotipo, ainda não me vieram as provas [de Caetés].
Mas recebi uma carta de S. Paulo com a notícia de que a composição está
concluída. O resultado dessa demora é que fiquei desanimado e abandonei os
trabalhos rurais a que me vinha dedicando. Oito capítulos perdidos e mais a
leitura dumas coisas sobre zootecnia para descobrir o Schwitz e o Caracu.
Deixei isso.
O café abundante
continua a arrasar-me os nervos. Nenhuma leitura, além de duas obras sobre a
Rússia, pouco interessantes. Vi esse livro de que você falou: o Aurélio esteve
a cacetear-me com um pedaço de diálogo muito mal feito.
Adeus, meu caro
Aloísio. Desejo-lhe felicidades. Abrace o Rômulo e o Schmidt. E abrace-me
também.
Graciliano
Maceió – 16-10-1931
Trata-se de carta apresentada em encarte fac-similar por Tadeu Rocha,
em Modernismo & regionalismo.
[422] Clara Ramos, em Mestre Graciliano, p. 75, indica a circunstância de seu pedido de
demissão do cargo em que fora mantido pela revolução de outubro de 1930:
“Mestre Graça só deixará o cargo no fim do ano vindouro, quando, pretextando
necessidade de compressão de despesas, exigirem dele a redução de vencimentos
de um funcionário sob suas ordens”. Ver reprodução fac-similar do pedido de
demissão de Graciliano em: Ângela M. dos Santos, O pensamento graciliânico e
suas relações sociopolíticas e administrativas em Alagoas, dissertação que
apresenta conjunto de documentação do percurso administrativo de Graciliano.
[423] Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras – 20 entrevistas com
escritores, p. 186-187.
[424] Clara Ramos, Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 77.
[425] Cartas, 30-05-1932, p. 119-120. Nota da edição informa que
Graciliano "submeteu-se a cirurgia para livrar-se de abscesso resultante
de uma queda". Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 50, acrescenta: “a 14 de abril daquele ano de 1932
internou-se no Hospital S. Vicente, da Santa Casa de Misericórdia, de Maceió,
onde foi operado pelo Dr. Clemente Magalhães da Silveira”; e, depois das
semanas de internação, “foi convalescer na residência do sogro, Américo Augusto
de Medeiros, na antiga Rua do Macena, nº 159, (Cincinato Pinto), na capital
alagoana, onde permaneceu até 29 de junho, quando regressou a Palmeira”. Marili
Ramos, Graciliano Ramos, p. 58,
relembra 1932: “ensinou na sacristia da matriz, hoje catedral. Foi aí que ele
transformou a novela A carta em S. Bernardo – romance terminado em
Maceió, na casa do senhor Américo Medeiros, seu sogro”. Há referências sempre
vagas à escola aberta por Graciliano na sacristia da enorme igreja matriz Nossa
Senhora do Amparo, que Padre Macedo construía, mas não há notícias sobre a configuração
e a continuidade de tal atividade pedagógica. Em Memórias do cárcere, Parte III, 8, p. 52, Graciliano lembra as
sequelas da psoíte em 1936, enquanto se arrastava, preso, transferido para a
Ilha Grande, no caminho da Colônia Correcional: “As dores no pé da barriga
avivavam lembranças insuportáveis do hospital. Meses compridos vira-me forçado
a amparar-me a uma bengala; esse arrimo agora me fazia grande falta, e os
passos arrastavam-se trôpegos, indecisos, parando a cada instante. Os soldados
começaram a impacientar-se, e isto agravou a dificuldade. Tentei elastecer a
carne entanguida, propensa à imobilidade; experimentei a sensação de ter um
dreno de borracha metido no ventre”. Em passagem anterior, ele relembra as
confusões da internação e da cirurgia em 1932: Memórias do cárcere, Parte II, 11, p. 269, 270: “E a mesa de
operações, o escalpelo, um médico indiferente a dizer: – ‘Não adianta. Vamos
fechar isto.’ Um páreo entre Clemente Magalhães e dr. José Carneiro. Morrerá,
viverá? Clemente afirmava, dr. José Carneiro negava, queria, chateado, coser
aquilo e mandar-me logo para o necrotério. Afrânio Jorge me segurava a cabeça e
não consentia o homicídio”; “Dr. José Carneiro fora pago, indevidamente, na
minha opinião. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me o
ventre, o coração fatigado a subir, a descer, padre José Leite velando,
oferecendo-me livros, contando, para entreter-me, histórias de Rodrigo Bórgia.
Colapso de uma hora. O coração velho ia aquietar-se, dias longos de névoa, Mário
Marroquim a discutir política, só. Minhas primas Alena e Lica sussurravam”;
“Sombras, nuvens, escuridão, um relógio fanhoso a bater, cochichos, o deslizar
de vultos amarelos, bichos moles e fosforescentes enroscando-se”.
Sobre Dr. Clemente Magalhães da Silveira Filho, origem de sua família
e outras relações:
Sobre Dr. José Carneiro: < https://historiadealagoas.com.br/historia-do-medico-que-deu-nome-ao-hospital-escola-doutor-jose-carneiro.html >.
Sobre Dr. Afrânio Jorge: < https://historiadealagoas.com.br/dr-afranio-jorge-e-o-historico-conflito-com-os-filhos-do-governador-fernandes-lima.html >.
Relativamente aos desdobramentos da psoíte e da cirurgia, há uma
informação inesperada de José Condé colhida na sua detalhada reportagem
biográfica “Graciliano Ramos”, em O
Cruzeiro, 15-04-1939, ed. 24, t. 11-12: “Graciliano que está inteiramente
restabelecido da doença, pensa voltar novamente ao Rio. Chega a marcar a data
do embarque, mas, na véspera, é surpreendido com a sua nomeação para diretor da
Instrução Pública do Estado”.
[426] Cartas,
20-08-1932, p. 120-121.
[431] O nome “Luís” nessa passagem não é
explicitado. Luiz Augusto de Medeiros, o cunhado, como visto acima, morando no
Rio, certamente procurava notícias sobre o andamento da edição de Caetés.
[432] Toda a história dessa publicação foi-se
configurando como uma lenda provinciana e exclamativa, em que o falatório vai
desde Santa Rosa a José Américo de Almeida mostrando os relatórios, que trazia
do Nordeste, e garantindo, no Rio, que o ex-prefeito alagoano tinha um romance
inédito, até as peripécias que, por exemplo, resume Josélia Aguiar em Jorge Amado – uma biografia, p.pdf. 55,
em que os amigos brigam pela devolução dos originais (que a seguir Jorge Amado
vai buscar de volta em Maceió): “Empenhado em pressionar o poeta-editor, Jorge
uniu-se a Santa Rosa. Contaram ainda com um terceiro elemento que desembarcara
por aqueles dias, outro literato da roda alagoana e hóspede na mesma pensão do
Catete, o jornalista Alberto Passos Guimarães, que, vestindo a única roupa que
tinha – calça de listas e paletó mescla –, impressionava com ares de advogado.
Fingindo ser representante de Graciliano, encontrou-se com o editor, a quem
ameaçou com severo processo”. Ver a entrevista de Jorge Amado a Marilene
Felinto e Alcino Leite Neto em 1991:
< https://almanaque.folha.uol.com.br/leituras_18out00.shtml >. Ou, como Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 67, conta – uma
história ocorrida às vésperas de seu nascimento – a respeito da irritação
paradoxal do pai, tanto com o romance salvo da fogueira quanto com a demora de
sua publicação: “E enquanto desproposita em Alagoas, amaldiçoando o editor,
José Geraldo Vieira, no Rio, ao entrar numa tarde na editora da Rua Sachet,
depara com o poeta em agoniado monólogo, a caminhar de um lado para outro: – Caetés! Será que esqueci no táxi quando
vim do almoço com Nazaré Prado? Ou deixei na barca de Paquetá, ao voltar das
meninas do Ovalle?” – mas a autora esclarece onde estavam os originais: “Os Caetés permanecem temerosos, esquecidos,
no bolso de uma capa do editor” (a anedota encontra-se detalhada no prefácio a Alexandre e outros heróis, “A dioptria
de Alexandre”, de José Geraldo Vieira). As notícias sobre Caetés, desde 1930, continuavam a pingar em notas e promessas:
em O Jornal de 09-07-1930, ed. 3574,
t. 12: “Deve aparecer breve o romance do sr. Graciliano Ramos – Caetés. Em 1931, O Jornal, 16-01-1931, ed. 3737, t. 12, foi mais discreto e Caetés passou a romance de um “jovem
escritor alagoano ainda desconhecido no Rio”. Mais para o final do ano, O Jornal, 14-10-1931, ed. 3696, t. 8,
publicou nota de mesmo teor, acrescentando que se tratava de edição de Schmidt.
Num reclame geral da editora, de meia página em O Jornal, 13-12-1931, ed. 4025, t. 15, anunciando muitos
lançamentos, como o João Miguel de
Rachel de Queiroz, Oscarina de
Marques Rebelo, O país do carnaval de
Jorge Amado, além da contratação de Casa
grande & senzala, apareceu em letras garrafais Caetés, com a menção sucinta: “o grande romance do Norte,
ansiosamente esperado”. Logo no início do ano seguinte, o mesmo O Jornal, 15-01-1932, ed. 4049, t. 11,
dizia que dois livros novos seriam lançados naquele mês por Schmidt Editor: Instinto do Brasil, do Ribeiro Couto, e Caetés, de Graciliano Ramos. No mês em
que finalmente Caetés iria chegar às
livrarias por Schmidt Editor, uma nota publicada no Diário Carioca, 03-12-1933, ed. 1637, t. 23, perguntava cheia de
equívocos: “Por que será que Adersen Editores estão retardando tanto Caetés, apesar de considerá-lo um bom livro?”
[433] Graciliano fez
constantemente essa comparação. Por exemplo, em Memórias do cárcere, Parte II, 3, p. 225, quando viu, “com um
estremecimento de repugnância”, seu primeiro romance sendo lido e se explicou,
envergonhado, considerando sua publicação em 1933 um acidente: “julgava-me
então capaz de fazer obra menos ruim, meses atrás concluíra uma novela talvez
aceitável”. Entretanto, em Cartas, p.
165, bilhete enviado do Pavilhão dos Primários a Heloísa, em 27-03-1936, diz:
“Entre os livros existentes, encontrei um volume do Caetés, que foi lido por um bando de pessoas”. Em entrevista,
inédita, de 1941, para Gazeta Magazine,
realizada por Paulo de Medeiros e Albuquerque e cedida em 1973 para o amigo Ivan Barros publicar, Graciliano conta
a história de Caetés: em 1930,
atendendo ao convite de Schmidt, enviou-lhe os originais: “Pouco depois recebi
uma carta de Prudente de Morais, neto, fazendo sérias restrições ao livro. A
razão estava com ele” – em Ivan Barros, Graciliano
era assim, p. 160-161, coletada em Conversas,
p. 101-109. Ivan Barros inicia a transcrição da entrevista com uma mensagem
que o jornalista lhe enviou: “Meu caro Ivan:”, “Quando, em 1941, eu lhe levei
meu exemplar da 1ª edição do romance Caetés,
Graciliano, depois de relutar um pouco, escreveu o seguinte: ‘Paulo de Medeiros
e Albuquerque: uma desgraça ter de autografar isto. Não é livro, não é nada.
Enfim, como não há outro jeito, aqui deixo a minha assinatura. Um abraço do
Graciliano Ramos’ “. Pedro Dantas (o pseudônimo permanente de Prudente de Morais,
neto) relembra em “Graciliano – o estilo de uma amargura nos porquês de um
bom-dia”, Suplemento Literário, O Estado de São Paulo, 22-10-1972, ed.
795, t. 1: “Farejando novidades recém-desempacotadas, no palanque dos fundos da
Livraria Católica, na Rua Rodrigo Silva, ao lado da Igreja, depois demolida, de
Nossa Senhora do Parto, dei com os olhos numa pasta que denunciava os originais
de algum livro a publicar. Abri e comecei a ler. Li um capítulo inteiro”.
Prudente de Morais, neto conta que não conhecia o autor e nem sabia dos
relatórios, tal como ali soube por Rômulo de Castro, o qual lhe propôs que
levasse a obra por uns dias para ler em casa. Depois, como após a leitura
Prudente pediu que transmitisse ao autor seus comentários críticos, Rômulo
sugeriu que ele próprio escrevesse a Graciliano. E, assim, escreveu ao
desconhecido, “transmitindo-lhe a opinião altamente favorável que formara à
leitura dos originais dos seus Caetés.
Expunha-lhe, também, algumas poucas reservas, das quais já nem me lembro bem.
Lembro-me de haver esboçado uma improvisada ‘Teoria’, a respeito das habituais
debilidades dos nossos romances. A ideia era mais ou menos esta: nosso romance
ressentia-se da pouca densidade da nossa vida social, que não oferecia
suficiente ‘matéria romanceável’ – donde as deficiências do gênero, entre nós”;
“Graciliano respondeu-me com uma esplêndida carta, bem característica do seu
temperamento. Falava da alegre surpresa que fora a palavra de um desconhecido,
que o correio lhe trouxera em momento de dúvida e depressão, recebia com desconfiada reserva a opinião
elogiosa, mas lia com vidro de aumento as duas ou três ressalvas críticas. E
contestava formalmente minha esboçada teoria sobre o romance”. Prudente de
Morais, neto lembra que Graciliano dizia que não nos faltava “matéria
romanceável”: “Se não sabíamos aproveitá-la, era por incapacidade pessoal, era
por burrice”; “Não tenho certeza se essa última palavra constava do texto da
carta ou se lhe foi acrescentada mais tarde, em conversa sobre o mesmo assunto.
Conversa retomada mais de uma vez, quando o escritor, já então consagrado,
fazia ponto na Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor”. Essa “teoria” no
feitio do “tamanho fluminense” de José de Alencar (ver Roberto Schwarz, “A
importação do romance e suas contradições em Alencar”, Ao vencedor, as batatas), contestada por Graciliano incluindo
possivelmente uma autocrítica relativa a Caetés,
foi retomada com destaque em “Decadência do romance brasileiro”. Nesse texto
ele saúda os eventos da Semana de 22 e da Revolução de 30 e indica suas
vicissitudes, que, no entanto, acabaram com a retórica tão bem representada
pela obra de Graça Aranha: “As novelas que apareceram no começo do século,
medíocres, falsas, sumiram-se completamente. Uma delas, Canaã, que
obteve enorme êxito, dá engulhos, é pavorosa”.
Trata-se de artigo publicado em Literatura,
nº 1, Rio de Janeiro, setembro 1946, p. 20-24, publicado posteriormente em Diário de S. Paulo, 22-03-1953, Monitor Campista, Campos, 28-03-1953, na
revista Travessia, em 1983, v. 4, n. 6, p. 93-98, e em Garranchos, p. 262-267. Ver J. C.
Garbuglio et alii, Graciliano Ramos,
p. 114-116, com manuscrito datado de 20-10-1941, e Catálogo de manuscritos do AGR, p. 170-171. O artigo foi publicado primeiramente com traduções
no exterior: em Nueva Gaceta, n. 11,
dezembro de 1941, Buenos Aires, em :
<
https://americalee.cedinci.org/wp-content/uploads/2019/09/NUEVAGACETA_AIAPE_n11.pdf>, citado em
Otto Maria Carpeaux, Pequena bibliografia
crítica da literatura brasileira, p. 252, como “Decadencia de la novela
brasileña”, Nueva Gaceta
(erroneamente localizada em Montevideo), além da publicação: “The decline of
the Brazilian novel”, Smith College monthly. Northampton, Mass, feb.
1943, p. 21-22, 28 - como consta no catálogo da exposição Graciliano Ramos –
Biblioteca Nacional, 1963, item 98:
< https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital (> buscar “Graciliano
Ramos”). Em carta a Nelson Werneck Sodré, Rio de
Janeiro, 02-10-1942, Graciliano diz: “No começo do ano [sic], publiquei na
Argentina um artigo sobre a decadência do romance brasileiro, coisa que
felizmente os meus amigos não leram. Umas afirmações desagradáveis. Como não
haveríamos de estar em decadência? Vivemos dormindo, alguns sonhando histórias
bestas que julgam romances, e, em conformidade com hábitos péssimos da terra,
são elogiados por amigos inescrupulosos. Tão cedo não teremos livros como Banguê, Jubiabá, João Miguel. Essa gente
secou”: ver manuscrito em < https://bndigital.bn.gov.br/acervodigital (> “Graciliano
Ramos”). Ver também a menção ao debate com Prudente de Morais, neto em “O fator
econômico no romance brasileiro”, Linhas
tortas, p. 253-259, coletado de O
Observador Econômico e Financeiro, 04-1937, ed. 15, t. 45-47, “O fator
econômico no romance” [sem “brasileiro”] e republicado na Tribuna Popular, 15-07-1945, ed. 48, t. 9-10, como “O fator
econômico no romance brasileiro”. O Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 153-154, registra o manuscrito, de 1937, sem o
adjetivo “brasileiro”.
[434] Cartas, 08-10-1932, p. 130.
[435] A menção à “economia
política” mostra-se sugestiva se lembrarmos que a conceptualização marxista
subjacente à obra de Graciliano Ramos, a partir de S. Bernardo, deixa no romance traços alegóricos da “construção do
burguês” – para usar a expressão de
Carlos Nelson Coutinho, Literatura e
humanismo, p. 140-153. Apresento considerações a respeito em “O elogio do
marxismo em Graciliano Ramos”, como
também em “Fausto, O manifesto comunista e S. Bernardo”.
[436] Cartas,
24-10-1932, p. 133.
[439] Em “Paulo Honório”,
depoimento a João Condé, Graciliano conta que depois da cirurgia retomou a
escrita do romance “em Palmeira dos Índios, na minha casa do Pinga-Fogo,
ouvindo os sapos, a ventania, os bois de seu Sebastião Ramos. Às vezes meu pai
me visitava carrancudo, largava uns monossílabos. A carranca e fragmentos de
velhas narrações dele combinaram-se na edificação de Paulo Honório.
Infelizmente esse colaborador morreu em 1934 e não chegou a ler o romance” –
texto publicado em João Condé, Dez romancistas
falam de seus personagens, 1946. Ver registro do manuscrito no IEB em Catálogo de manuscritos do AGR, p. 171-172.
Em “Alguns tipos sem importância”, em
Dom Casmurro, 19-08-1939, ed. 114, t.
2, coligido em Linhas tortas, p. 195, Graciliano mencionara o pai com outra
direção: “É possível que esse sujeito [Paulo Honório] reflita alguma tendência
que no autor existisse para matar alguém, ato que na realidade não poderia
praticar um cidadão criado na ordem, acostumado a ver o pai, homem sisudo e
meio termo, pagar o imposto regularmente”. O manuscrito se encontra no IEB,
como descreve o Catálogo de manuscritos
do AGR, p. 150 (além da publicação em Dom
Casmurro, Brito Broca, no prefácio a Linhas
tortas, edição de 1972 – prefácio suprimido em edições posteriores – p. 12,
diz sobre “Alguns tipos sem importância”: “O amigo a que Graciliano se refere e
que lhe pedira esse artigo foi o autor destas linhas. Atendendo a uma
solicitação de Júlio S. de Toledo, diretor da revista Publicações Médicas, de São Paulo, procurei obter de Graciliano uma
crônica para a seção ‘Variedades’ daquele periódico“).
[440] Clóvis Ramos, o irmão vinte e cinco anos
mais novo, desde menino lidando com gado e lavoura, conta que Graciliano veio a
ele para perguntar sobre a vida de uma fazenda: “Perguntou não me lembro o quê,
e eu, irritado porque estava fazendo umas contas de um gado que vendi, respondi
rispidamente: ‘Sei lá! Quem pariu Mateus
que o balance’. Graciliano me agradeceu, todo alegre, dizendo que era daquela
frase que precisava” – em Jornal do
Brasil, 21-10-1972, ed. 184, t. 44, depoimento reproduzido por Clara Ramos,
Mestre Graciliano, p. 79. A
expressão, com a grafia “mateu”, em minúscula e sem s, é usada no cap. 11 de S.
Bernardo, p. 63, quando Paulo Honório se recusa a dar mais dinheiro ao
jornalista Costa Brito, da Gazeta.
[441] Cartas,
01-11-1932, p. 134-135.
[445] < https://graciliano.com.br/vida/arvore-genealogica >: Clara Medeiros Ramos, nascida em
Maceió, 09-11-1932, falecida no Rio de Janeiro – RJ, 07-04-1993. Em Cadeia,
p. 99, Clara Ramos apresenta fac-símile da dedicatória que Graciliano lhe
fez em exemplar de S. Bernardo: “Para
Clarita, irmã gêmea de São Bernardo,
vinte anos atrás. Muitos abraços. Graciliano 9-novembro-1952”. A autora apresenta uma foto relativa à
passagem que transcreve de Memórias do
cárcere, Parte II, 11 , p. 267, 270: “Perplexo, tomei o envelope. Era
realmente para mim, rasguei-o, vi um cartão, a fotografia de meus três filhos
mais novos”; “num instante as crianças me apareceram vivas e fortes: tinham
deixado a praia, a areia branca de Pajuçara, feito longa viagem, transposto
diversas grades – e estavam no cubículo 35. Uma delas usava boina [Luíza], um
laço de fita ornava os cabelos da segunda [Clara]; as camisinhas leves deixavam
à mostra as pernas afeitas às correrias ao sol; ao centro, o garoto carrancudo,
com jeito de homem”. Ao lembrar-se da psoíte e da elaboração de S. Bernardo, Graciliano acrescenta: “A
garota que ali estava no cartão, de pernas à mostra e fita no cabelo, nascera
quando se findava essa história rude e agreste. Dois filhos gêmeos – uma
criança viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladrão”. (Na
dedicatória à Clarita, percebe-se que Graciliano não fazia caso do S. Bernardo abreviado no “São”. De acordo com a transcrição
impressa das cartas, às vezes São Bernardo vem grafado na forma extensa, sem
grifo, mas predomina sua formulação como título da obra, abreviado e em
itálico: S. Bernardo).
[446] A carta, de 03-01-1933, encontra-se
reproduzida integralmente em fac-símile na edição comemorativa dos 80 anos de Caetés, 1. ed. [recurso eletrônico],
2013, p.pdf. 195. Graciliano menciona Valdemar Cavalcanti, aludindo a sua
intermediação, lista cláusulas com as quais concorda e indica a redação
adequada para outras. Pede que expliquem o sentido da expressão “igualdade de
condições”, questiona seu contexto e encerra: “O livro não terá duas edições,
está claro. Mas se por acaso tivesse, não a daria por duzentos exemplares,
porque isso apenas chega para a distribuição gratuita”; “São estas, prezados
Senhores, as alterações com que me contentarei, insignificantes, como veem”;
“Se lhes agrada o negócio, tenham a bondade de remeter-me (por via aérea será
melhor) novo contrato, que será definitivo, e que devolverei sem demora, depois
de escrever nele as coisas necessárias”. Wellington Pascoal de Mendonça, em sua
dissertação A consagração de Graciliano
Ramos, p.pdf. 62 e 57, transcreve correspondência vinculada a Valdemar
Cavalcanti – o que comprova o empenho do
amigo e admirador, um agente literário informal pela publicação de Caetés. Em carta a Valdemar Cavalcanti,
da Adersen Editores, de 13-04-1933, cerca de três meses depois da carta de
Graciliano acima mencionada, Sebastião de Oliveira Hersen (o “-ersen” em
sociedade com o “Ad-“, Adolfo Aizen)
lamenta que sua situação financeira tenha inviabilizado a publicação.
Recebera no Rio o gerente da impressora de São Paulo que lhe mostrara as provas
(222 páginas), “já revistas pelo Graciliano Ramos”, mas não fora possível negociar a compra com
preço razoável. Diz que logo estará em Maceió, quando poderão “se lhes
interessar ainda, combinar outro prazo para a saída de Caetés, assim como para S.
Bernardo. Mas só lhe proporei qualquer modalidade de negócio quando estiver
com o dinheiro no bolso, isento, pois, de nova gafe. Converse com o Graciliano
Ramos e me diga depois qualquer coisa”; “Os originais dele [Caetés] e do S. Bernardo estão em meu poder, à inteira disposição do autor, não
pagando aluguel [sic] pelo tempo em que continuarem aqui, assim como o desenho
de Santa Rosa, que, no caso do Caetés ser
feito noutra parte, eu faria questão fechada de oferecer, gratuitamente, é
claro”. Wellington Pascoal de Mendonça transcreve também, p.pdf. 57, uma carta
de 19-04-1933, à Companhia Editora Nacional, de Valdemar Cavalcanti, que
apresenta Caetés como “água forte” de
“vidas em desordem”, não meramente “postais” de “cidadezinha do interior”, e
propõe sua publicação pela editora, incluído o prelo de São Paulo e a capa de
Santa Rosa. Relata toda a história, a relação com Schmidt e o modo como o editor
fez os originais circularem entre intelectuais no Rio de Janeiro. Destaca a
prestigiosa apreciação de Prudente de Morais, neto: “E criou-se no pequeno
círculo uma sensação de surpresa: a de uma boa descoberta. Uns até levaram seus
comentários à imprensa. Lembro-me bem de um artigo de Jorge Amado, o romancista
de O país do carnaval, no número de
novembro do Boletim de Ariel, no qual
se encontra o nome de G. Ramos na vanguarda dos maiores escritores do Norte. E
ainda hoje estão empatadas, em composição, as 220 páginas do livro, – na
Sociedade Impressora Paulista – o que aliás poderá facilitar, a esta Editora,
caso queira entrar em negociações com a edição, um largo beneficiamento
econômico. Com a saída do Caetés,
poderá entrar para a fecundação dos prelos, um outro romance de Graciliano
Ramos, o mais recente: S. Bernardo –
retrato da vida rural sertaneja”.
[447] Em Vamos
Ler!, 20-04-1939, Joel Silveira – “Graciliano Ramos conta a sua vida”, ed.
142, t. 8-9, reportagem reproduzida em Joel Silveira, Na fogueira, p. 278-280, coletada em Conversas, p. 88-96.
[448] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 58, detalha: “Em 1933 e 1934, ele morou na
Praça do Montepio, hoje Bráulio
Cavalcante e o resto do tempo que viveu em Alagoas foi na rua da Caridade,
167”. Indica o atual nome da rua, Desembargador Almeida Guimarães, nas
proximidades da sede do C. R. B.- Clube de Regatas Brasil, em Pajuçara. E
conclui: “Foi aí que ele foi preso”.
[449] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 50-51.
[450] Jorge Amado, Navegação de cabotagem, p.pdf. 29. Mais
do que Jorge Amado confessa, há anedotas que falam de sua ida a Maceió,
combinada com Schmidt, com o objetivo de resgatar Caetés. Em Memórias do
cárcere, Parte II, 3, p. 225, v. 1, Graciliano relembra: “A publicação
daquilo fora consequência de uma leviandade. Escrita dez anos antes, a
miserável história passara às mãos do editor Schmidt e emperrara. Já revistas
as provas, tinham surgido obstáculos, demora, cartas, desavenças e a entrega
dos originais a amigos meus do Rio. Em 1933 Jorge Amado me visitara em Alagoas,
dissera que Schmidt queria editar o livro; mas não me convinha o negócio:
julgava-me então capaz de fazer obra menos ruim, meses atrás concluíra uma
novela talvez aceitável. Jorge se conformara com a recusa. Deixando-me, apossara-se
dos malditos papéis e dera-os ao livreiro”. Jorge Amado conspirou com D.
Heloísa: segundo Dênis de Moraes, em O
velho Graça, 2012, p. 96: “Em segredo, Jorge convenceu Heloísa a
entregar-lhe os originais. E assim o livro voltaria às mãos de Schmidt, sem que
Graciliano desconfiasse. Quando o complô lhe foi revelado, já era tarde”. Clara
Ramos, Mestre Graciliano, p. 69,
conta que a dedicatória do livro a três amigos foi obra de Jorge Amado: “O
romance é finalmente publicado em 1933 [dezembro], sob a rubrica Schmidt
Editor. Alberto Passos Guimarães encarrega-se da revisão das provas. Santa Rosa
faz a capa. E Jorge Amado, a dedicatória, onde se inclui, por direito, (fora
inclusive o supervisor da edição). O livro sai dedicado aos três amigos”; “Se
Graciliano aprova a auto-homenagem e a conserva nas edições seguintes, o mesmo
não acontece com a edição em si, fato que irá lamentar sempre, em sua
idiossincrasia ao livro”. Em dedicatória autógrafa de exemplar de Caetés a Pedro Moacir Maia, como
reproduzida em Cartas inéditas, p.
143, Graciliano se desculpa: “Essa segunda edição foi jogada ao público por
motivo de ordem econômica”.
[451] No depoimento-entrevista colhido de
Graciliano, certamente em um texto elaborado posteriomente às conversas em
café, bancas de jornais e na livraria, José Condé relata assim o ano de 1933:
“Conhece nesta época o romancista Jorge Amado, que traz os originais de São Bernardo para a editora Ariel, no
Rio”: O Cruzeiro, 15-04-1939, ed. 24,
t. 11-12. Entretanto, na “enquete”, acima citada, para Gazeta Magazine, 1941, de Paulo de Medeiros e Albuquerque,
publicada por Ivan Barros em Graciliano
era assim, p. 157-163, Graciliano
não diz explicitamente que Jorge Amado levou os originais de S. Bernardo para a Editora Ariel: “Nessa
época [1933] apareceu por lá Jorge Amado. E ele, grande amigo, insistiu muito
para que eu publicasse São Bernardo. É,
portanto, um pouco padrinho do livro”. Sobre S. Bernardo, Graciliano acrescenta: “Tem algumas passagens que me
satisfazem. Mas englobado vale pouco. É menos ruim do que Caetés, mas não chega a ser um romance. Mas, levado,
principalmente, pela opinião de Jorge Amado, mandei os originais para Gastão
Cruls, então da Ariel Editora”. Ver acima, em carta da Adersen Editores a
Valdemar Cavalcanti, em 13-04-1933, Hersen diz que está com originais de Caetés e S. Bernardo. Clara Ramos, Mestre
Graciliano, p. 79-80, reproduz carta de Gastão Cruls a Graciliano, de
29-03-1934 (quase um ano depois), combinando a publicação de S. Bernardo. Gastão Cruls elogia Caetés, conta que estava pronto para
publicá-lo quando Schmidt reassumiu o processo e propõe o contrato: “Já li também, nos originais, o São Bernardo, e é sobre esse assunto que
lhe quero falar. Aceitamos lançá-lo, não imediatamente, quando temos
compromissos anteriores de outras edições, mas daqui a algum tempo, no máximo
até agosto ou setembro. Acho mesmo que esse retardo será propício à maior
divulgação dos Caetés, que lhe
prepara o caminho para a segunda vitória. Quanto às condições da edição, seriam
mais ou menos estas, a serem confirmadas posteriormente por carta-contrato.
Edição de 2000 exemplares cabendo ao autor 10% sobre o preço bruto da edição.
Os pagamentos serão feitos 5% seis meses após o aparecimento do livro no
mercado e 5% quando a edição estiver totalmente esgotada. Mande-me dizer com
franqueza se acha bem tudo isso”. Depois, em dezembro de 1934, além do atraso
no prazo combinado, S. Bernardo foi
editado com apenas 1000 exemplares, e Gastão Cruls justificou-se: “Se o seu Caetés não tivesse tido uma tão má
divulgação e distribuição, eu não hesitaria em fazer 2000 exemplares”.
[452] Recorte de resenha de Jorge Amado, sem
título, com identificação manuscrita de Graciliano Ramos: “Literatura 5 - dezembro -
1933”, Recortes, IEB – AGR.
[453] “Um romance: ‘Cahetés’ ”, com
identificação manuscrita de Graciliano Ramos: “Rio Magazine - janeiro-1934”: Recortes, IEB – AGR.
[454] Diário
de Notícias, 14-01-1934, ed. 2178, t. 20.
[455] Boletim
de Ariel, 02-1934, ed. 5b [pasta 1933], t. 15-17. Ver sobre Caetés e a importância do seu ambiente
de recepção, Antonio Candido, “No aparecimento de Caetés”, em Ficção e
confissão, p. 92-101. Outras resenhas: Valdemar Cavalcanti, Boletim de Ariel, 12-1933, ed. 3, t. 17;
De Cavalcanti Freitas, Boletim de Ariel,
03-1934, ed. 6b [pasta 1933], t. 20; Agrippino Grieco, “Corja, Sinhá Dona e
Cahetés”, O Jornal, ed. 4386, t. 17,
22; José Geraldo Vieira, A Nação,
04-02-1934, AGR – IEB, recorte com identificação manuscrita de Graciliano Ramos
(não localizado na hemeroteca digital da BN, segundo tal indicação); José Lins
do Rego, Literatura, 05-02-1934, no
IEB-AGR. Além da resenha, José Lins do Rego publicou o famoso (com a menção
brincalhona à suposta cultura de almanaque de Graciliano) “O romancista
Graciliano Ramos”, Diário de Notícias,
25-02-1934, ed. 2212, t. 19.
[456] “Paulo Honório”, em João Condé, Dez romancistas falam de seus
personagens, 1946, e Jornal de Letras,
12-1949, ed. 6, t. 2; apresentado por Maria Lúcia Palma Gama, “Projeto para
inéditos”, Revista do Instituto de
Estudos Brasileiros, n. 35, 1993, coletado em Garranchos, p. 271-276. Ver registro do manuscrito no IEB em Catálogo de manuscritos do AGR, p.
171-172.
[457] Beira-Mar,
27-10-1934, ed. 434, t. 48.
[458] Em setembro, o Boletim de Ariel, 09-1934, ed. 12b [pasta 1933], t. 14, dava a
“auspiciosa notícia”: “já entrou para o prelo, confiado a Ariel, editora ltda.,
mais um trabalho de Graciliano Ramos, o romance S. Bernardo, obra cheia de palpitante interesse e que consagrará
definitivamente o nome do ilustre escritor alagoano”. Uma nota do Diário de Notícias, 20-05-1934, ed.
2284, t. 19, anunciava que em setembro sairia dos prelos da Ariel S. Bernardo, o segundo romance do
“vitorioso autor” de Caetés.
[459] Ver, por exemplo: Gazeta de Notícias, 23-12-1934, ed. 78,
t. 5, por Lúcia Miguel Pereira. A crítica de Augusto Frederico Schmidt, Diário de Notícias, 16-12-1934, ed.
2455, t. 17 e 20, foi atacada por Jorge Amado em “S. Bernardo e a política literária”, Boletim de Ariel, 02-1935 – recorte com identificação manuscrita de
Graciliano Ramos, em AGR – IEB – resenha repetida no Jornal de Alagoas, 21-04-1935 – AGR – IEB, recorte com
identificação manuscrita de Graciliano. A resenha furiosa de Jorge Amado
relatou sua enquete perguntando a outros intelectuais como interpretavam a má
intenção na apreciação morna de Schmidt, que teria tratado depreciativamente
com ligeireza aquele que se revelava em S.
Bernardo um dos maiores escritores da literatura brasileira. Mas o que
parece ter mais divertido Graciliano foi a crítica de Antonio Tavernard, que,
afora as “passagens sujas de palavrões”, considerou o romance grandioso e sua
personagem shakespeariana, anunciando cheio de entusiamo, o novo autor:
“Gratuliano Ramos – conservo este nome e conserve-o quem me ler! Ele há de ser
o Dostoiévski tropical!” – recorte em AGR – IEB, com identificação datiloscrita
“Folha de Minas, Belo Horizonte
[sic], 03-03-1935” e anotação manuscrita de Graciliano Ramos: “Antonio
Tavernard (Belém - Pará)”. Em carta de
Maceió, Cartas, 30-03-1935, p. 145,
Graciliano dá notícias de sua rotina a Ló: "estive até tarde em casa do
Aloísio (o integralista), e como li os pedaços de uma prosa do Plínio Salgado,
o sono me agarrou quando voltei e dormi doze horas pouco mais ou menos"; "Acabo
de receber uma carta do Gastão com várias notícias e dois artigos: um do Pará,
outro de Minas. A crítica do mineiro está bem feita. O paraense ataca a minha
linguagem, que acha obscena, mas diz que eu serei o Dostoiévski dos Trópicos.
Levante-se e cumprimente. Uma espécie de Dostoiévski cambembe, está
ouvindo?"; "Adeus, Ló. Cuidado com os meninos, especialmente com a
Luísa, por causa das tendências comunistas dela". (Luíza, ao quatro anos,
tinha assustado um padre ao apresentar-se a ele dizendo ser comunista – como
depõe no documentário O universo
Graciliano, de Sylvio Back. Em carta anterior, 24-03-1935, p. 142,
Graciliano tinha mencionado o episódio da viagem de Ló com as crianças para
Palmeira dos Índios: “Acabo de ler o papel que v. me mandou contando as aventuras
da cambada no trem, especialmente o comunismo de nossa amiga Luísa”).
[460] Oscar Mendes, “Egoísmo”, Folha de Minas, 17-02-1935, recorte com
identificação manuscrita de Graciliano, em AGR – IEB.
[461] Em resenha de Caetés, Eloy Pontes diz: “O Sr. Graciliano Ramos escreve, às vezes,
com os verbos no tempo no presente e no tempo passado no mesmo período, o que
nos parece erro evidente de sintaxe”. – O
Globo, 07-05-1934, recorte com identificação datiloscrita, AGR – IEB. A
respeito do uso do presente no romance, apresento considerações em “A
inexistência de Caetés”.
[462] A citação foi repetida anos depois, com o
mesmo intuito, em “Uma palestra”, mas no contexto de suas atividades no PCB -
coligida em Linhas tortas, p.
274-277, datada de fevereiro 1952. A Imprensa
Popular noticiou repetidas vezes o evento, sempre mencionado como discussão
dos trabalhos de Stalin sobre linguística. Na palestra, de que Graciliano fez
parte sem nenhuma menção a Stalin, os outros colegas participantes falaram da
teoria de Marx sobre linguística e da
contribuição de Stalin. Sobre a fala de Graciliano foi dito que “leu um
trabalho sobre linguagem literária mostrando os equívocos e as tolices que
circularam por um tempo em nossa vida literária a respeito de uma ‘língua
brasileira’ que não existe”. O texto não titubeou em forçar a nota, dizendo que
Graciliano “defendeu a preservação da língua nacional, comprovando as
afirmações de Stalin a respeito de que uma língua não se transforma por saltos
nem pertence a esta ou àquela classe”. A palestra ocorreu na Escola do Povo, sob patrocínio da
revista Para todos, como indica a Imprensa Popular, 23-12-1951, ed. 949,
t. 9. O jornal na edição de 17-02-1952, ed. 986, t. 3, anunciou o número de
fevereiro da Para todos contendo em
seu índice “Graciliano Ramos e a arte de escrever – contribuição à
linguística”.
[463] Ao contrário do que supõe a seguir,
Graciliano não só “reincidirá” na criação de outras obras como também
formalizará a complexidade dessa concepção no discurso indireto livre de Vidas secas. Ver: Alfredo Bosi, Céu, inferno. Como se verá à frente, o
assunto será retomado por Graciliano nos embates com o jdanovismo-PC, e em
comentários de sua última obra, Viagem.
[464] A carta foi divulgada
por Gutemberg da Mota e Silva, Jornal do
Brasil, 17-01-1980, ed. 284, t. 37, sob o título “A revolução social me
levaria à fome e ao suicídio” e com reprodução do manuscrito. Segundo o
jornalista, a carta, guardada com muito carinho por Oscar Mendes, pernambucano
radicado em Minas, foi posta a público com relutância, pois o receptor se
sentia constrangido pelos elogios que lhe remetera Graciliano Ramos. Graciliano
se despede com “Considere-me um seu amigo e admirador”, data de Maceió,
05-04-1935, com o endereço do sogro: Rua do Macena, 159. Outro crítico a quem
escreveu foi Jayme de Barros. Em Cartas,
a Ló, 03-04-1935, p. 146-147, Graciliano lembra que Paulo Honório escreveu a
negócio para Minas (Capítulo XXXVI, último: “Há cerca de quatro meses, porém,
enquanto escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negócio confuso de
porcos e gado zebu, ouvi um grito de coruja e sobressaltei-me”): “Pois eu agora
acabo de escrever duas cartas a dois sujeitos de Minas, sobre o mencionado
Paulo Honório. Não tratei de porcos – só
literatura. Os dois sujeitos são o Oscar Mendes e o Jaime de Barros, que
escreveram dois artigos muito sérios, um na Folha
de Minas, outro no Estado de Minas,
a respeito do S. Bernardo. Umas
cartas literárias, cheias de merda de galinha. Paciência. Eu sou um literato
horrível, e só dou para isso. Tenho procurado outras profissões. Tolice. Creio
que meu pai e minha mãe me fizeram lendo o Alencar, que era o que havia no
tempo deles. O Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai
para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 — e eu só penso nos
romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar. Em 1914-1918
morreram uns dez ou doze milhões de pessoas. Agora morrerá muito mais gente.
Mas pode ser que a mortandade dê assunto para uns dois ou três romances – e tudo
estará muito bem. Por aí vê você que eu sou um monstro ou um idiota”; “Mesmo os
que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos
inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com
igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas
chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos
cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica. Tudo isto é muito
pedante e muito besta, mas é continuação das cartas que escrevi ao Oscar Mendes
e ao Jaime de Barros. Apenas suponho que esta vai saindo melhor, o que é
ridículo. Mas você, na que recebi hoje, falou-me na possibilidade de vivermos
aí, se não estou enganado. É possível que nos metamos outra vez em Palmeira, que
eu compre algodão e venda trapos, mas com certeza hei de comprar e vender muito
mal. Comprando algodão ou vendendo fazenda, construindo o terrapleno da lagoa
ou entregando os diplomas às normalistas (não vale a pena contar: foi uma
estopada), hei de fazer sempre romances. Não dou para outra coisa. Ora aqui há
uns dois ou três indivíduos que falam comigo. Aí não há nenhum. Estou, pois,
com vontade de ir para Minas, onde há muitos leprosos. Talvez encontre outros
doentes como eu”.
[465] Sobre as primícias literárias de Heloísa
Ramos, com destaque para o nome “Maria Antônia”, personagem ou título de algum
texto que ela procurava elaborar (em Cartas,
o anexo de identificação de nomes próprios indica: “Maria Antônia - Mulher do
povo, de Palmeira dos Índios”), várias vezes Graciliano trata do assunto: Cartas, 19-12-1935, p. 156-157: “Como andam o
plus-valor e a circulação das mercadorias? Volto ao conselho que lhe dei pela
manhã. Estou convencido de que você poderá, com algum esforço, escrever umas
páginas boas. Experimente, veja se consegue arranjar aí um assunto. Estude a
gente miúda, deixe a burguesia, que já aproveitei e não é interessante. Falo
sério. Parece-me, depois das letras recebidas ontem, que você é uma sujeita
capaz de realizar qualquer coisa boa. Seria ótimo que isto acontecesse. Tenha
coragem. Compre uma caneta, umas folhas de papel, entenda-se com a Doca, com a
sua lavadeira, criaturas deste gênero, que não utilizo porque não as conheço
bem”. Em 30-12-1935, p. 158:
“Sapeque a história, sinha Ló, aceite o meu conselho. A sua nova carta reforça
a minha opinião. O material de que você me fala é ótimo. As fateiras, o casal
de retirantes, o culto dos bodes, tudo muito bom, digno de ser aproveitado.
Veja se consegue arranjar um cordão e amarrar isso”; “Atire-se às fateiras, aos
protestantes e aos dois sertanejos. A sua lembrança de aproveitar esse material
para mim tem graça. As observações duma pessoa não servem a outra pessoa, sinha
Ló. O que lhe disse está dito. Uma opinião: não me parece que o enredo seja
coisa demasiado importante. Não me preocupo com enredo: o que me interessa é o
jogo dos fatos interiores, paixões, manias etc. Você não se ocupará com isso,
creio eu. Descreva a sua gente por fora, mexa com ela, obrigue-a a mover-se, a
falar”. Em 28-01-1936, p. 161: “Mande-me notícias de Maria Antônia. Pergunta-me se
essa criatura deve falar como toda a gente. Está claro. Pois havia de usar
linguagem diferente? Falar como as outras pessoas, sem dúvida. Foi o palavreado
difícil de personagens sabidos demais que arrasou a antiga literatura
brasileira. Literatura brasileira uma ova, que o Brasil nunca teve literatura.
Vai ter de hoje em diante. E você deve trabalhar para que Maria Antônia entre
nela. Veja se consegue pegar a vida dela, a do curandeiro, isso que aí deixamos
assentado. Imagino que a preguiça não lhe amarrou as mãos. Enfim tem você um
excelente material, material como poucos sujeitos encontraram. Pode dar coisa
muito boa. O que é preciso é ter muita coragem e muita paciência, trabalhar
seis meses, um ano, várias horas por dia, sem grandes esperanças”. Tempos
depois, após a prisão, Graciliano na pensão do Rio mudou de ideia em relação à
oferta de Heloísa para que ele aproveitasse suas tentativas literárias – ver em Cartas,
14-03-1937, p. 189-190: “Outra coisa: o Garay me pediu um conto regional
para La Prensa. Você quer mandar-me as suas notas sobre a história de
Ana Maria [em 1935 era “Maria Antônia”] ? Talvez com isso eu faça o conto para
o argentino. Se você não quiser escrever a história, é claro. Não tem muita
pressa. Seria necessário enviar-me a oração, que é o mais importante do caso.
Para que servia a oração? Seria possível arranjar uma oração que se adaptasse
ao fim da narrativa, uma oração de verdade, com as palavras que os matutos
empregam? Se não conseguir toda, basta que venham algumas palavras. Uma oração
para doença nervosa, para afastar o espírito, não é isto? Não me lembro
direito. Terminei ontem um conto horrivelmente chato. O protagonista não tem
nome, não fala, não anda. Está parado num canto de parede e escuta um político
também sem nome. A chateação, que saiu comprida, é para descobrir o que o
personagem pensa, encolhido, calado [ver: “Um pobre-diabo”, Insônia – Diário de Pernambuco, 15-08-1937, ed. 235, t. 17]. A pior amolação
deste mundo. Um sujeito disse no Jornal que os romancistas de hoje são
todos muito cacetes e o mais cacete de todos sou eu. Ele tem razão. O conto que
terminei ontem é uma estopada que nenhum leitor normal aguenta”.
[466] Além da casa do sogro na Semana Santa e
no trabalho após o expediente, Graciliano dedicava-se à escrita de Angústia no próprio cenário. Clara
Ramos, Mestre Graciliano, p. 89, fala
sobre as visitas de Aurélio Buarque de Holanda à Rua da Caridade, 167, em
Pajuçara: “É ali que Graciliano costuma escrever, de cuecas, em companhia
apenas do Aulete, dos maços de cigarros e caixas de fósforos, de uma garrafa de
aguardente, de um bule de café. Sua família está fora”; “Assim o Aurélio
narrará o preâmbulo de suas visitas dominicais: ele enfia o olho pela
fechadura, mas não enxerga nada porque o dono da casa dependurou na chave um
paletó que o protege de indiscrições. O visitante dá então alguns pinotes,
grita por cima do muro. Graciliano vem lhe abrir a porta. Depois lê para o amigo
páginas do livro que está escrevendo”.
[467] Na mocidade, em O Índio, Graciliano já tinha tratado de modo hilariante a Semana
Santa e o jejum – em Linhas tortas,
p. 73-76. Na carta a Ló, Cartas, p.
149-151, Quinta-feira Santa [18-04-1935], a acidez provocativa é mais intensa:
“Hoje ninguém trabalha, que é pecado, por causa da morte do J. Cristo,
esse rapaz que andou fazendo discursos na província e acabou tentando chefiar
revolução na capital”; “Em todo o caso penso no J. Cristo, sem nenhuma
simpatia, está visto. Foi o pior dos revolucionários, muito mais prejudicial
que o Juarez Távora”; “Depois tudo se endireita, porque a revolução daqui foi
miudinha, uma revolução besta, sem mártires, sem santos, sem doutores. A do J.
Cristo foi a encrenca mais desastrosa que a humanidade já aguentou. Há dois mil
anos que rebentou o fuzuê, e nunca mais as coisas voltaram aos eixos. Estou
aqui pensando no que seria o mundo se o J. Cristo, em vez de se entregar àquela
mania que todo judeu tem de consertar o que está certo, tivesse ficado em casa,
fabricando bancos e mesas, como o marido da mãe dele. O mundo seria hoje menos
feio, menos triste, menos besta, menos safado, menos ruim. Nem vale a pena
tentar a comparação. Quando o J. Cristo começou a fazer meetings na
beira do lago, as coisas iam assim assim, nem muito bem nem muito mal. Em todo
o caso iam melhor que hoje. J. Cristo meteu os pés pelas mãos e esbagaçou tudo.
E o que veio foi esta porcaria que se vê. Estou aperreado, Ló, com a besteira
daqueles rapazes que acreditaram nas conversas dele. Rapazes sérios, gente de
trabalho, até homens casados, largaram as ocupações de cada dia e saíram atrás
do Filho do Homem, procurando o reino do Filho do Homem. Outros aqui procuram o
reino do Alberto [presume-se: Alberto Passos Guimarães, da revista Novidade, um dos presentes na
dedicatória de Caetés, foi militante
comunista, pelo PCB], que está ficando tão feroz como o J. Cristo. Só falta
pegar um chicote e expulsar do Tesouro, do Palácio dos Martírios e da
Prefeitura os vendilhões que lá vivem, roendo um ordenado mesquinho, coitados”.
[468] Cartas,
p. 151-153, Sábado de Aleluia [20-04-1935].
[470] Graciliano só se refere a calçados e
fardamentos. Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano
Ramos: vida e obra, p. 57, anota que a implantação da merenda escolar
atribuída à administração de Graciliano foi afirmada por Clara Ramos e Medeiros
Lima. Ricardo Ramos, em Graciliano:
retrato fragmentado, p. 45-46, 48 faz a mesma afirmação, com nuances. Nos mesmos termos que posteriormente
Clara Ramos citaria, Medeiros Lima, em “Um homem do tamanho de sua obra”, Politika, 06 a 12-11-1972, ed. 55, t.
40-44, relata que ao encontrar uma escola vazia, professoras ali ociosas,
ausentes as crianças pobres que não tinham roupas e precisavam ajudar os pais
pescadores, Graciliano ordenou: ” – A partir de
amanhã as senhoras irão de porta em porta convidar as crianças a virem à
escola. Digam aos pais que de agora em diante elas terão merenda paga pelo estado”.
“Em quinze dias de campanha, todas as salas de aula do grupo estavam lotadas.
As crianças acorreram em massa. Alarmada, a diretora telefona: – Doutor [sic]
Graciliano, o senhor precisa vir aqui. Não tenho onde acomodar os meninos. Não
dispomos de bancos suficientes”. Então, Graciliano autorizou a compra de
caixotes. A seguir promoveu o fardamento oferecendo às crianças tecido e
calçados. Em Mestre Graciliano, p.
85-87, Clara Ramos aborda detalhadamente o assunto qualificando Graciliano
Ramos como “precursor da merenda escolar no país”, que será oficialmente
instituída em 1955 a partir da atuação de Josué de Castro. Cita Emil Farhat em
seu relato sobre o “teimoso secretário” que resistia às intenções politiqueiras
do interventor de criar novas escolas, afirmando em contraposição a essa
diretriz que o necessário era construir cozinhas nas já existentes. Além disso,
Clara Ramos lembra a contrariedade que causou a supressão nas escolas do Hino
de Alagoas (a “estupidez com solecismos”) e o fim dos apadrinhamentos, como
também a irritação das normalistas da capital com a efetivação de professoras
do interior por meio de concursos após preparação formativa e, para documentar
a gratidão dos justos, reproduz a carta que uma dessas professoras enviou a
ela.
[471] Ver referência bibliográfica detalhada
em: Aline da S. Santos, Graciliano Ramos: literato e gestor -
contribuições à educação alagoana (1920 - 1940), p.pdf. 42, 55: A
Escola, Maceió, vol. I, p. 13-14, set. 1935, fasc. 1; texto também
publicado em: Diário de Pernambuco,
28-06-1935, ed. 152 t. 13, sob o título “Alguns números relativos à instrução
primária em Alagoas” – coletado em Garranchos,
p. 143-145.
[472] Ver nota em Diário de Pernambuco, 21-10-1933, ed. 241, t. 2, sobre a condição
dos exames sob presidência de Graciliano Ramos: “Conforme estava anunciado teve
lugar, ontem e anteontem, o início das provas do concurso a que vêm se
submetendo 78 professoras das diversas escolas isoladas do interior do estado,
que se acham afastadas dos cargos respectivos por determinação do Diretor da
Instrução Pública, em virtude da falta do diploma necessário ao exercício do
magistério”.
[473] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 53-54,
55.
[474] Em carta a Sebastião Ramos, Cartas, 01-06-1934, p. 140, Graciliano
avisa: “Provavelmente domingo estarei aí para uma visita ao lugar onde vai ser
construído o grupo escolar. É um convite do Interventor, que deseja conhecer o
sertão e dar aos sertanejos um bando de coisas que eles merecem. Se houver
festas por aí (Deus me livre disso) o homem se alojará onde quiser; se não
houver festas, a minha obrigação é convidá-lo para almoçar em sua casa”.
[475] Há várias e diversificadas notícias sobre
Graciliano Ramos como Diretor da Instrução Pública: sua nomeação, divergências
e possível saída do cargo logo no
primeiro ano (que não ocorreu), sua negativa de assumir nova ortografia: Diário Carioca, 21-01-1933, ed. 1367, t.
2, Correio da Manhã, 03 e 10-11-1933,
ed. 11941, 11947, t. 2, t.3, Correio da Manhã, 07-07-1934, ed. 12151,
t. 2.
[476] Em entrevista no início de 1936,
Graciliano indicava outra quantia – ver a seguir.
[477] Há ampla bibliografia a respeito. Para um
enfoque a partir de Natal-RN, ver: Homero de Oliveira Costa, A insurreição comunista de 1935, em:
< https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/19524 >.
[478] Diário
de Pernambuco, 24-01-1936, ed. 20A, t. 10.
[479] Em Memórias
do cárcere, Sebastião Hora, preso, aparece com destaque – por exemplo,
Parte I, 5, p. 55: “Na antevéspera Sebastião Hora, médico, presidente da
Aliança Nacional, fora metido entre operários, atravessara a cidade carregando
a bagagem e viajara de segunda, com as portas trancadas”.
[480] No Diário
de Pernambuco, de 06-12-1933, ed. 278, t. 6, na seção “Alagoas”, uma nota
informava a chegada à capital de Madame Conrad, que: “por iniciativa da
Companhia Nordeste do Brasil, fará demonstrações práticas da utilidade e
aplicações domésticas dos refrigeradores ora oferecidos ao público. As
referidas demonstrações serão feitas na Escola Profissional Feminina, com a
gentil anuência do digno diretor da instrução pública, sr. Graciliano Ramos,
com a colaboração da competente e dedicada diretora do mesmo estabelecimento,
professora Carmen Novais”. Clara Ramos, em Mestre
Graciliano, p. 88-89, reproduz uma
anedota de Aurélio Buarque de Holanda: o então secretário do prefeito
encaminhara a Graciliano uma senhora em busca de colocação na Escola
Profissional. Logo a senhora retornou, mostrando indignada a Aurélio o bilhete
que Graciliano lhe tinha entregado como carta de apresentação: “D. Carmem – A
portadora pretende um lugar de florista nessa Escola. Há disso por aí? Diz ela
que sabe fazer flores tão perfeitas que enganam as abelhas. Criado de V. Exa. –
Graciliano Ramos” – ver em: Correio da
Manhã, 21-05-1944, ed. 15199, t. 33-34, Aurelio Buarque de Holanda,
“Depoimento sobre Graciliano Ramos”.
[481] Cartas,
28-01-1936, p. 161.
[482] Em carta a José Lins do
Rego, de 10-09-1935, Graciliano comentava o ambiente de Maceió: ”Recebi já há
dias O moleque Ricardo, que foi
devorado em pouco tempo. Não lhe mando parabéns: isto é desnecessário, você bem
sabe o que fez. O receio meio ingênuo que tinha de o livro sair inferior aos
três primeiros com certeza desapareceu. Vi uma nota de Carlos Lacerda,
bem-feita, mas uma verdadeira denúncia à polícia. Tenho a impressão de que você
está aí metido em dificuldades por causa da questão social. O livro é
excelente, como os outros, mas o que
achei admirável foram as páginas 268, 269, 282 e 283. Nunca você escreveu coisa
igual às duas últimas páginas. Achei interessante serem os personagens quase
todos negros e mulatos. Influência americana? Nada de imitação, está claro. Não
encontrei figura semelhante às dos romances negros que aqui lemos. Os seus
negros e os seus mulatos são muito diferentes. Ótimo. Enfim está você aí
coberto de glória, em véspera de ser lido em russo e preparando-se para
escrever o quinto romance, segundo me diz o Aurélio numa carta a lápis. Esse
animal está no Recife, fazendo exames. Escrevi há dias ao Zé Olympio, pedindo
um milheiro do Humberto de Campos, que tem sido aqui bastante esculhambado.
Terminei a minha história, mas não sei se a publique. Se isto acontecer, será
lá para o ano vindouro, como lhe disse. Preciso endireitar e cortar umas
coisas. Diz o Aurélio que você está com vontade de vir para o Norte. É bom para
nós, mas isto por aqui está uma peste: hoje a Gazeta de Alagoas me atacou porque não fui ouvir um discurso do
Armando Wucherer sobre a pátria, no dia 7 de setembro. Imagine. Adeus, Zelins.
Abraços do Graciliano”. Carta com manuscrito reproduzido em Jornal do Brasil, 12-09-1977, ed. 157,
t. 30-31, e transcrita em Eduardo F. Coutinho e Ângela
Bezerra de Castro (orgs.), José
Lins do Rego, p. 51. Curiosamente, Armando Goulart Wucherer
publicou em 07-09-1943, no Diário da
Manhã, ed. 907, t. 11, um texto
irreverente sobre D. Pedro I – ver em edição de Edberto Ticianeli: < https://historiadealagoas.com.br/a-epopeia-de-um-louco.html >. Em Cartas, 28-02-1937, p. 179, de São Paulo
para Ló, Graciliano compara o ambiente intelectual de lá ao poeta alagoano,
nestes termos: “Ninguém leu Angústia
mas vi pessoas que acham Caetés um
excelente livro. Fiquei encabulado a princípio, depois lembrei-me de que estava
em S. Paulo, onde essa história de literatura não é muito melhor que em Maceió.
Excetuando um número reduzido de criaturas, algumas decadentes, o resto não se
afasta muito de Armando Wucherer”. A crítica ao Hino de Alagoas não ocorreu por
iniciativa de Graciliano Ramos. Já em 1921, Moreno Brandão, com delicadeza e
consideração ao autor da letra, apontava em meio a tanta beleza, “inaturável
solecismo” – ver O Índio, 18-12-1921,
ed. 46, t. 1. Graciliano foi mais impiedoso. Em O Índio, 20-02-1921, ed. 4, t. 2, ridicularizava hinos, como se vê
nos “Traços a esmo” de J. Calisto: "as patriotices rimadas são a causa das
enxaquecas de muita gente que tem ouvidos para ouvi-las, mas não tem estômago
suficientemente forte para digeri-las. As canções patrióticas! Já leram acaso
alguma delas? Já tiveram ocasião de fixar os olhos nas palavras que elas contêm
e, o que é mais, procuraram agarrar a ideia que as palavras deveriam encerrar?
'Amor febril/Pelo Brasil/No coração/Não há quem passe'. Entenderam? Eu também
fiquei no mesmo. Vamos modificar a ordem em que aquilo está feito, a ver se
será possível extrair-se dali um pensamento qualquer. 'Não há quem passe amor
febril no coração pelo Brasil'. Entenderam agora? Nem eu. 'No coração, não há
quem passe amor pelo Brasil'. Eu cada vez percebo menos". “Agora imaginem
os senhores um pacato burguês que paga imposto e vai a sessão do júri
doidamente apaixonado, metendo os pés pelas mãos, suspirando e desandando a
cabeça, a exigir com ânsia, a reclamar com ardor o objeto de sua maluqueira. E
qual é o objeto? O Brasil. É incrível, mas é o Brasil. Está-se a ver o patriota
ardente revirando o olho, a gemer nos paroxismos de seu amor febril: – Ai
patriazinha de meu coração! Estou que já não posso mais...” – ver essa crônica,
entre outras referências a hinos, em Linhas
tortas, 58-59. Ver em edição de Edberto Ticianeli, “O republicano Hino de
Alagoas”, histórico bastante detalhado de hinos brasileiros com enfoque nas
décadas de discussões de longa duração sobre o Hino de Alagoas:
< https://historiadealagoas.com.br/o-republicano-hino-de-alagoas.html >.
[483] O Diário
da Manhã, Recife, 06-03-1936. ed. 306, t. 12, entretanto, recebeu a seguinte
informação, divulgada sob o título “Atos oficiais”: “O governador do Estado de
Alagoas, por atos de ontem” – “exonerou a pedido o cidadão Graciliano Ramos de
Oliveira do cargo, em comissão, de Diretor da Instrução Pública do Estado”.
[484] A desconfiança de Graciliano de que tenha
sido preso em razão de denúncia de parente é uma constante que pode ter
inspirado o conto “A prisão de J. Carmo Gomes”, Insônia. Clara Ramos, em Mestre
Graciliano, p. 165-166, observa: “O escritor conjectura se não teria sido o
pai de Heloísa o seu denunciante. Há muito o elegera o suspeito principal. Não
teria o velho, atormentado com os ciúmes da filha, imaginado estar salvando seu
casamento ao afastá-lo de uma jovem escritora, com quem na verdade nada
tivera?”; “Graciliano romanceia de fato. O sogro pertence à categoria dos seres
amoráveis, sem vocação para o mal”.
[485] Memórias
do cárcere, Parte I, 2 e 3, p. 38-49.
[487] Diário
de Pernambuco, 05-03-1936, ed. 54, t. 2
[488] A
Nação, 11-03-1936, ed. 971, t. 6.
[489] O
Jornal, 15-03-1936, ed. 5134, t. 9.
[490] 1936-1953 – Rio de Janeiro
Em Cartas, p. 165, nos bilhetes da prisão (quase todos sem datas), ele
já definia para Heloísa: “Não pretendo voltar a Alagoas. Peça os conselhos de
seu Américo para que as coisas não fiquem muito ruins. Vou ver se consigo
trabalhar para o José Olympio ou outro editor”.
[491] Ver Catálogo
de manuscritos do AGR, cota “Memórias do cárcere”, p. 69-129, contendo
fundamentalmente manuscritos datados de 1946 a 1951. Entretanto, o arquivo (ver
no Catálogo, p. 71) guarda
manuscritos de 1937, 11 folhas, frente e verso, certamente abandonadas, com
passagens como estas: [p. 1] “Iniciando
estas memórias, repito mentalmente a pergunta que há mais de um ano faço a mim
mesmo”; [p. 2] “Isso me causava alegria e desapontamento: o material que desejava
aproveitar existia ainda, existia sempre na minha memória, era um tesouro que
eu queria guardar com avareza, mas um tesouro de podridões. Quando alguém me
falava nele, sobressaltava-me. E pensava no trabalho. Era necessário trazê-lo
para cima, sujar as mãos naquelas imundícies, apresentá-las ao público,
oferecer à gente cá de fora uma visão do esgoto por onde me arrastei por onze
meses”; [p. 5] “como não vamos narrar o que se passa nos livros e nos salões,
empregaremos o palavrão indispensável, condenado pela crítica e insubstituível,
pois não pretendemos fazer literatura, mas dizer honestamente o que vimos nas
cavernas sociais”; “pareceu-me depois que uma narrativa escrita ali poderia
sair com ares de reportagem”; “Julgo-me absolutamente vazio; apesar de viver
aqui fora, sinto às vezes que tudo em redor se aperta e estreita, as nuvens que
me toldavam o espírito reaparecem, engrossam, tenho uma escuridão dentro do
cérebro”; [p. 8] “Lamento não ter tomado
algumas notas, que teriam vindo para o exterior nos dias de visita. Perdidas as
primeiras, que atirei na água, não me aventurei a fazer outras”; “Os únicos
manuscritos que trouxe de lá foram três contos que fiz na Casa de Correção, um
pequeno vocabulário de malandros e as assinaturas autógrafas de algumas
centenas de detentos”; “Não são os acontecimentos miúdos, a chatice, o ramerrão
de cada dia que me levam a escrever. O que me interessa não são os fatos, que
poderiam, espichados, conter-se em algumas folhas. As figuras, sim, bem
estudadas, dariam para encher muitos volumes. Vendo o nome delas, tudo se
reconstitui. É como se abrissem de novo as portas de ferro e outra vez me
lançassem na sombra onde elas se movem. Esses nomes estão escritos no alto da
página de um livro que tenho aqui aberto sobre a mesa. Folheio o volume e as
fisionomias se [p. 9] avivam, o quarto pequeno onde me hospedo cresce, surgem
pouco a pouco o nauseabundo porão do Manaus, as galerias da Casa de Detenção, a
Sala da Capela, a enfermaria, o Pavilhão dos Primários, o alojamento da Colônia
Correcional. Se eu acreditasse em presságios, diria que um aviso misterioso me
perturbou o sossego durante meses. É estranho como certas coincidências tomam
vulto e nos levam a fantasiar absurdos. Muito antes que essa transformação se
operasse na minha vida, num tempo em que de forma nenhuma eu podia prever
semelhantes ocorrências, a ideia da prisão começou a perseguir-me e tornou-se
quase uma obsessão. Numa história que então escrevi as grades pretas e sujas
aparecem com insistência espantosa. Aquilo me irritava. Muitas vezes tentei
libertar-me disso, mas a desagradável constante resistiu e tornou-se
preponderante na orientação do romance”; [p. 11] “II – A 3 de março de 1936
tive uma série de aborrecimentos pequenos, mas tão numerosos, tão cheios de
circunstâncias ridículas ou idiotas, que perdi a paciência. Eram coisas
absolutamente estúpidas e que por si mesmas nada valiam”; “Eu tinha passado
toda a manhã concluindo o último capítulo dum romance em que a ideia da prisão
vinha com insistência ao espírito do protagonista. O acúmulo de maçadas
insignificantes que me apareceram depois do trabalho penoso irritou-me tanto
que, como alguém aludisse a várias prisões efetuadas na véspera, invejei a
sorte dos presos”; [p. 16] “Efetivamente nos meses que se sucederam àquele dia
aziago estive em contato com vários escritores, e nunca ouvi dizer que algum
deles tivesse sido preso por haver publicado um livro”; [p. 21] “Revi aquele
casarão que tinha visitado uma única vez em outubro de 1930, pela madrugada do
dia 13. O governador tinha fugido à meia-noite e três oficiais haviam formado
uma espécie de junta governativa. Eu entrara ali convidado, ou intimado, quase
como agora, e ao formular o pedido de demissão do cargo que ocupava, os
militares se haviam mostrado surpreendidos. Eles próprios não sabiam o que ia
sair daquela confusão”; “Como eram bem educados os militares!”. [p. 5 folha 1]
“16 – setembro – 37” [período em que escrevia Vidas secas, na pensão] ”interroguei o guarda e ele me deu notícias
magníficas. Se os rapazes tinham ido para a ilha, melhor para eles. Tinham
feito reparos no lazareto, mandado para lá muitas camas, colchões, lençóis.
Aquilo estava bom, os presos políticos comiam bem e passavam o dia passeando e
tomando banho de mar. Desconfiei da história, mas pouco a pouco me acostumei a
esses banhos de mar, que me faziam falta, e às camas sem percevejos. Não há
nada mais besta que um pequeno-burguês. Acreditam que cheguei a desejar ir para
a colônia? Desejei”.
[492] Sobre a importância histórica e literária
da obra, ver, por exemplo, a mesa-redonda comemorativa do centenário de
Graciliano Ramos, em evento na USP coordenado por Zenir Campos Reis: Alfredo
Bosi, “A escrita do testemunho em Memórias
do cárcere”, em Literatura e resistência, p. 221-237;
Boris Schnaiderman, “Duas vozes diferentes em Memórias do cárcere?”, Estudos Avançados; Jacob Gorender, “Graciliano Ramos:
lembranças tangenciais”, Estudos
Avançados. Ricardo Ramos, na “Explicação final” da obra, Memórias do cárcere, p. 319, v. 2,
comenta as circunstâncias que deixaram o livro sem conclusão e as
possibilidades do título a que Graciliano aludia: “Memórias do cárcere” ou
“Cadeia”: “Inclinava-se por um, mais tarde iria preferir o outro. Não valia a
pena forçar a escolha”. Na entrevista a Homero Senna, em 1948, “Revisão do
Modernismo”, República das letras, p.
187, Graciliano mencionou “Memórias da prisão”. Na publicação de capítulo em Fundamentos, 06-1948, ed. 1, t, 26-27, o
título é “Memórias da cadeia”.
[493] Memórias
do cárcere, Parte I, 1, p. 33-34.
[494] O Capitão Lobo tornou-se lendário no contexto
da obra de Graciliano. Ver, por exemplo, seu depoimento em conjunto de artigos
com Heloisa Ramos e Antonio Candido: “General Lobo recorda que seu prisioneiro
era muito desconfiado”, Jornal do Brasil,
26-10-1972, ed. 189, t. 13. Diz
equivocadamente que conviveu com Graciliano 45 dias no Forte das Cinco Pontas,
em Recife (Graciliano indica que no dia 06-03-1936 estava em Recife, quando
conta que soube pelo jornal da prisão de Prestes. Mas ficou ali poucos dias: A Noite, ed. 8689, t. 27, anunciava em 11-03-1936
que Graciliano e Sebastião Hora, presos, estavam a caminho do Rio pelo navio Manaus). Guilherme Figueiredo, em Manchete,
30-01-1954, ed. 93, t. 66, referindo-se a reportagem em edição anterior sobre
companheiros de prisão de Graciliano, escreve ao repórter observando que faltou
uma personagem: “É o Capitão Lobo, que ofereceu um livro de cheques a
Graciliano, quando este esteve preso em Alagoas” [correção: foi em Recife]; “Em
1947, quando o então Tenente-Coronel José de Figueiredo Lobo veio ao Rio,
levei-o à Livraria José Olympio, para encontrar mestre Graça. Perguntei a este:
‘Conhece este homem?’ E o romancista, com sua secura sincera, olhou-o e
respondeu: ‘Não’. Ao que o ‘Capitão Lobo’ retrucou, rindo: ‘Se eu tivesse sido
um safado, o senhor não esqueceria a minha cara’ ”. Guilherme Figueiredo
informa sobre o então Tenente-Coronel Lobo: “Conheço-o desde 1932, quando foi
ajudante de ordens de meu pai [Euclides de Figueiredo] na Revolução
Constitucionalista. É meu cunhado”.
[495] Esse episódio foi publicado, sob o título
“O porão do Manaus”, no Correio da Manhã, 25-12-1949, ed. 17416,
t. 45, 53.
[496] Foi Sérgio, isto é,
Rafael Kamprad que causou
estremecimento de repulsa em Graciliano quando este se deparou com o rapaz
lendo Caetés: “– Pelo amor de Deus não
leia isso. É uma porcaria. Ingênuo, tentei explicar-me, em grande embaraço”.
Depois, o russo leu a jato resumidamente umas páginas de S. Bernardo, passando por cima das “insignificâncias”, para espanto
de Graciliano: “Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me
em excesso, por natureza, e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões”
– em Memórias do cárcere, Parte II,
3, 4, p. 225 e 230.
[497] Diz Nise da Silveira em
depoimento a Manchete, 09-01-1954,
ed. 90 t. 24-27 (“Graciliano e seus companheiros de cárcere – Doze personagens
falam de um autor”, reportagem de Darwin Brandão - apresentando depoimentos de
Heloísa Ramos, Vanderlino Nunes, Maurício Lacerda, Barão de Itararé, Otávio
Malta, Eneida, Francisco Chermont, Beatriz Bandeira, Campos da Paz Jr, Barreto
Leite Filho, Hermes Lima): “A morte do amigo e pouco depois este livro de memórias, puxando de funduras distantes
tanta coisa que buscavam esquecimento, emocionaram-me profundamente. Em tal
estado de espírito prefiro o silêncio. Mas este terrível Darwin Brandão me
atenaza e me obriga a bater com a pena desajeitada sobre nervos esfolados. Sim,
Graciliano e eu fomos muito amigos. Era uma dessas especialíssimas, raras
amizades nas quais as pessoas se comunicam de verdade, íntimo a íntimo. Nas
nossas conversas, as palavras acabavam sobrando, desnecessárias, porque nos
entendíamos quase de imediato, embora uma ou outra vez tivéssemos opiniões
diferentes. Mas opiniões e entendimentos são duas coisas bem diversas. Quando
as opiniões divergem e o entendimento persiste, então a amizade é segura e
tranquila. Sendo assim, está claro que nunca achei Graciliano um sujeito
esquisito, como diziam alguns. Impressionava-me ver tão transparente, por trás
de suas sobrancelhas arrepiadas, constante maravilhamento diante de todas as
manifestações de bondade. Mesmo procurando decifrar-lhes a motivação, não
conseguia desmontá-las a ponto de esgotar a surpresa e o encanto que lhe
traziam. Sabia reconhecê-las de longe por pequenas que fossem, recolhia-as como
quem guarda pedaços de ouro. Não deixariam de ser encerrados em seu [ ] o copo
de água que lhe deu um policial – nem o sorriso de simpatia do padre Falcão.
Muitas vezes Graciliano me falou do gesto extraordinário do Capitão Lobo, tal
se me mostrasse um objeto de nunca vista preciosidade. Inclinava-se sobre o
caso de Paulo Turco, o detento que tomara na mais gratuita das escolhas o
encargo de educar duas meninas mulatas, vizinhas do presídio, com a paixão
contida do botânico que tem diante dos olhos uma planta exótica. Comentou esta
história comigo várias vezes, nunca no tom de quem está fixando uma figura para
livro, porém perplexo ante o mistério do homem vivo. Não era necessário que a
aparição da bondade se fizesse num amigo ou companheiro, nem que se dirigisse a
ele próprio. Admirava-a no agente de polícia, no padre, no oficial
representante da ordem burguesa, no arrombador. Compreende-se que pessoa assim
afinada para captar o bem nos mais variados comprimentos de onda, fosse do
mesmo modo sensível a quaisquer manifestações da brutalidade, da perfídia, do
mal. Tinha, pois, que tomar medidas de defesa. Vestir carapaça dura, enrolar-se
em arame farpado. Desde a infância vinha procurando aprender e assumir o pior.
Não digo aceitar ou conformar-se, ele estava a mil léguas de ser um
conformista, mas a tomar sobre si as situações piores tal como se
apresentassem, coisa que estudou em si mesmo, em muitas oportunidades, quando
era difícil. Na Casa de Correção, onde o conheci de perto, Graciliano vivia a
cadeia arbitrária na maior serenidade. Nunca o vi inquietar-se sobre a possível
hora da liberdade. Não se assemelhava a esses viajantes que, no trem ou no
avião, agitam-se em incessantes movimentos improdutivos e perguntam a todo
instante: quando chegaremos? Graciliano – parecia um velho embarcadiço que não
se importava que o porto de desembarque estivesse perto ou longe. Foi por isso
um companheiro ideal de prisão. A mim ajudou muito e deve também ter ajudado a
outros”. Sobre a personagem “Caralâmpia” de A
terra dos meninos pelados, escrito à saída da prisão em 1937, Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 117, 118, 119,
informa: “Duas pessoas são associadas a Caralâmpia: Nise da Silveira e a filha
mais nova do escritor, que em 1937 chega ao Rio. É, no entanto, a Nise que a
personagem intimamente se liga”. Clara Ramos lembra as estratégias dos amigos
de prisão na enfermaria da Casa de Correção: “Para impedir a invasão
incessante, dia e noite, de sua intimidade e, principalmente para escapar ao
cotidiano horrível, a Dra. Nise da Silveira construiu um lugar à parte onde se
refugiar, privando apenas consigo mesma e alguns convidados especialíssimos: o
mundo de Caralâmpio”; “A denominação do refúgio vinha de longe. Datava do tempo
em que, filha de um professor de Matemática, Nise deparara com determinado
fulano de tal Caralâmpio numa lista de chamada e intercedera em seu favor: –
Não reprove esse Caralâmpio. Gostei do nome”; “O pedido não pudera ser
deferido. Estava o protegido da menina de tal sorte por fora da Matemática, que
depois disso ficou na família como sinônimo do indivíduo alheio a tudo, à
realidade inclusive – o tipo aluado das nuvens”. “Eneida de Moraes, ao divisar
na rua a psiquiatra magra e miúda, numa embalagem física realmente incompatível
com o peso e a maturidade cerebrais, faz trovejar de uma calçada à outra seu
efusivo vozeirão: – Ô Caralâmpia!!”; “Graciliano e a doutora encontram-se na
Livraria José Olympio, numa língua rica em símbolos embrenham-se nesse
território fantástico onde poucos são acolhidos”; “José Lins, impossibilitado
de decodificar a conversa meio maluca que Mestre Graça mantém com a médica,
vê-se excluído das mirabolantes paragens. Fica ofendidíssimo, Nise faz menção
de mostrar-lhe o caminho. Mas Graciliano barra-lhe a entrada: – Deixei-o de fora.
Se não entrou logo, não entra mais”.
[498] Ver: Eneida de Moraes, Aruanda
- Banho de cheiro; Maria Werneck, Sala
4; Beatriz Bandeira faz breve menção
ao período em suas memórias sobre o exílio na ditadura posterior, de 1964:
Beatriz Bandeira Ryff, A resistência (Anotações
do exílio em Belgrado).
[499] Ver reprodução de documento do prontuário
de Graciliano Ramos, indicando o período em que ficou na Colônia Correcional,
de 11-06-1936 a 29-06-1936, em Fabio Cesar Alves, Armas de papel, p. 163. Também Dênis de Moraes, em O velho Graça, p. 355, na edição de
1993, transcreveu, segundo documentação pesquisada, o “Prontuário n. 11.473” do
“Dossiê da Polícia Política sobre Graciliano Ramos” em que constam as datas:
11-06-1936 – (com a descrição:“Com ofício 893-S/2, foi transferido para a
Colônia Correcional de Dois Rios”) – e a data do retorno, registrada em
29-06-1936 – (“Procedente da Colônia Correcional, foi recolhido à Casa de
Detenção, com ofício no. 966-S/2”) – indicando, portanto, 18 dias de
permanência naquele campo de concentração. Entretanto, Heloísa Ramos, em carta
de 1936 ao irmão, logo após a volta de Graciliano da Colônia, fala em 11 dias –
carta reproduzida em Jornal do Brasil,
15-06-1984, ed. 68, t. 29. A respeito, convém lembrar os dias passados na estadia
de transferência do Pavilhão dos Militares, que, junto à viagem à Ilha Grande,
ocupam os capítulos 1 a 7 da Parte III de Memórias
do cárcere. De qualquer modo, o contraste com os muitos meses passados nos
outros locais de prisão revela, pela equivalente quantidade narrativa da
terceira parte de Memórias do cárcere,
a intensidade da experiência e a intenção da denúncia minuciosa. Um comunicado
grotescamente cínico – em Correio da Manhã, 25-06-1936, ed. 12765,
t. 7, às vésperas do retorno de Graciliano, sob o título: “Restauração moral e
física dos criminosos – Um ligeiro traço da história da Colônia Correcional de
Dois Rios (Comunicado da Diretoria Geral de Comunicações e Estatística da
Polícia Civil do Distrito Federal)”, trazia trechos desse jaez: “A Colônia da
Ilha Grande vai, por ingentes esforços da administração, produzindo resultados
dignos de nota, quer nas atividades requeridas pelas pequenas indústrias, quer
no trato da terra, concretizando, tanto quanto possível, os objetivos sociais
de reabilitação pelo trabalho e instrução”.
[500] Ver a resenha-crônica
“Porão”, de Graciliano, coletada em Linhas
tortas, p. 97-99, com manuscrito datado de 29-07-1937, conforme registro em
Catálogo de manuscritos do AGR, p.
143 – a respeito de Newton Freitas e de
seu anunciado livro com aquele título. Em Memórias
do cárcere, Parte III, 2, p. 17, Graciliano, enquanto esperava no Pavilhão
dos Militares a transferência para a Colônia Correcional, entre os que
retornavam de lá quase irreconhecíveis, deformados pelos maus-tratos, viu
Newton Freitas, que: “anunciou o propósito de narrar em livro a viagem no porão
do Campos. Excelente ideia. Eu é que
não tinha desejo nenhum de escrever”. Segundo Lívia Rangel, Um capixaba
entremundos. Newton Freitas: vida e obra, p.pdf. 18, “O Porão” foi
publicado entre junho e julho de 1937 no jornal paulista O Dia, e, em outubro, no jornal uruguaio Justicia, traduzido sob o título “La Bodega: impresiones de la
carcel”; “Quando o artigo de Graciliano sobre o relato de Newton saiu na
imprensa, o capixaba estava livre há quatro meses. Nessa época, ele havia
começado a redigir o segundo texto de suas memórias como preso político, agora
descrevendo a rotina presidiária de Dois Rios, as tormentas e injúrias
sofridas, sem ocultar as cenas de agonia e martírio, os constrangimentos
morais, as violências físicas e as mortes que presenciou na ‘ilha infernal’.
Esse segundo texto recebeu o título de ‘Colônia – relato dos dias como preso
político’, o qual saíra tão sucinto quanto o primeiro, apenas com uma estrutura
narrativa melhor ordenada”. Além disso, a pesquisadora dá informes bastante
circunstanciados sobre o autor e a obra, p.pdf. 30-32, onde se lê: “Apesar de
Newton ter manifestado desde o início a intenção de transformar a sua narrativa
em livro, o projeto não se concretizou”. Ver também da autora a tese de
doutoramento pela USP: Lívia Rangel, Lídia
Besouchet e Newton Freitas: mediações políticas e intelectuais entre o Brasil e
o Rio da Prata (1938-1950), especialmente sobre “Porão” nas p.pdf. 21,
125-130. Newton Freitas manteve correspondência com Mário de Andrade: ver Raul
Antelo (org.). Correspondência: Mário de
Andrade e Newton Freitas, edição que, sem mencionar a escrita em português
de “Porão” (publicada na imprensa) e de “Colônia”, apresenta em apêndice os originais em espanhol, vindos do Uruguai,
e traduz estes textos com os títulos: “A cela” e “A colônia”. Os relatos de
Newton Freitas coincidem bastante com as informações de Memórias do cárcere. A apresentação deles, assinada por A. N. D.,
Montevideo 1938, elogia a objetividade do relato – como se replicasse a crítica
de Graciliano – ver nota a seguir. (Obs.: Correspondência:
Mário de Andrade e Newton Freitas reproduz na p. 17 um relato de Newton
Freitas em que um brasileiro lhe pergunta em Buenos Aires: “– Você não é autor
de uma reportagem sobre prisões no Brasil e aparecida em A Plateia?”). Ver em Dom
Casmurro, 17-06-1937, ed. 6, t. 4, anúncio de “Porão”, que seria publicado
pela Editora Moderna.
[501] Em depoimento a Manchete, 09-01-1954, ed. 90 t. 26
(“Graciliano e seus companheiros de cárcere – Doze personagens falam de um
autor”, reportagem de Darwin Brandão) –
diz Vanderlino Nunes: “A leitura das Memórias
do cárcere de Graciliano Ramos acende em nosso coração um sentimento de
saudade e revolta. Saudades de tantos companheiros com quem compartilhamos dias
de sofrimento e incertezas; revolta pela injustiça que jamais perdoaremos.
Transformados em personagens desse grande escritor, de um mestre que se tornou
clássico da língua portuguesa, fomos, por assim dizer, convocados por Graça a
servi-lo como elementos indispensáveis ao seu depoimento corajoso e honesto.
Ele, como nós, foi vítima do terror. Mergulhou na noite negra do fascismo que também
envolveu a nossa terra. Mas como era um homem que vivia ao sol, não podia
deixar de trazer para a luz os aspectos revoltantes, dolorosos, humilhantes que
experimentou. Privado da liberdade, sabia lutar por ela. E dizia que tudo
haveria de escrever. E como o fez. Eu que tive a felicidade de privar da
intimidade de Graça, contando com sua amizade em bons e maus momentos,
estranhava quando ele me dizia que nunca poderia ser um repórter. Gênero
difícil – afirmava. No entanto, as suas memórias o revelam como o repórter
completo, o mais arguto e o mais fiel de que tenho notícia. Naqueles quatro
volumes a narrativa admirável, límpida, num estilo elegante, correto, digno de
ser imitado. Nada falta. Não há excessos. Do ângulo em que me achava na prisão,
vi exatamente o que ele viu. Outros por ele citados, encontrados em sítios
diversos, terão de notar, forçosamente, a mesma exatidão, a mesma informação
precisa, minuciosa e verdadeira, que só a um repórter privilegiado é dado
transmitir. Sua obra póstuma equivale a um retrato de corpo inteiro de uma
época em que o aviltamento atingiu o máximo. É um retrato que exprime a
verdade. Sem qualquer atavio. É feio e cruel porque assim era o ambiente que o
raio de sua objetiva alcançou. Como ferro em brasa, queimará as mãos de uns
poucos, deixando-as em chaga. A maioria, porém, recolherá com alegria as Memórias do cárcere, o livro que estava
faltando”. Depois da saída da prisão, carta de Graciliano a Ló, Cartas, 28-02-1937, p. 177, indica que
Vanderlino era seu companheiro de quarto na pensão: “Aqui vão, como ficou
estabelecido, os acontecimentos da semana. Fui morar na Rua Correia Dutra, 164,
numa pensãozinha modesta, onde tenho um quarto com Vandelino”. Sobre não ser
“repórter” é esclarecedora a reflexão que, antes de escrever suas memórias,
Graciliano apresentou na crônica “Porão”, de 29-07-1937, coletada em Linhas tortas, p. 98-99, sobre o então
anunciado livro de Newton Freitas, que publicava capítulo na imprensa: “Essa
história que Newton Freitas está publicando em jornal e certamente vai publicar
em volume poderia ser um dramalhão reforçado, com muita metáfora e muito
adjetivo comprido. O assunto daria para isso”; “Não aconteceu semelhante
desastre. Newton Freitas conta uma história pavorosa em linguagem simples”;
“Newton Freitas não é ficcionista. Fazendo reportagem, procura ser
rigorosamente escrupuloso – e se algum pecado comete, é por tornar-se às vezes
conciso demais”; “O autor só nos mostra a parte externa dos indivíduos. As suas
personagens andam bem, falam, mexem-se. Notamos os seus movimentos e vemos onde
elas pisam, mas não percebemos o interior delas. Estão atordoadas,
evidentemente, não podem pensar direito, mas teria sido bom que os
acontecimentos se apresentassem refletidos naqueles espíritos torturados. Seria
preferível que, em vez de vermos um soldado empurrando brutalmente os presos
por uma escada com o cano duma pistola, sentíssemos as reações que o soldado, a
pistola e a escada provocaram na mente dos prisioneiros. Tendo da multidão que
nos descreve uma visão puramente objetiva, Newton esgotou o assunto depressa e
a narrativa saiu curta”. Curiosamente Newton Freitas publicou em Dom Casmurro, 17-06-1937, ed. 6, t. 5, o
artigo “Papel, tinta e cachaça” em que elogia a capacidade de Graciliano para
ver as personagens por dentro. Nas primeiras páginas de Memórias do cárcere, Parte I, 1, p. 35, além de sugerir a
possibilidade de não finalização da narrativa que inicia, Graciliano alude à
publicação de Newton Freitas: “Estou a descer para a cova, este novelo de
casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão – e
provavelmente isto será publicação póstuma, como convém a um livro de
memórias”. E ao lembrar que entre os envolvidos, há especialistas capazes de
lidar competentemente com o assunto, acrescenta: “Há também narradores, e um já
nos deu há tempo excelente reportagem, dessas em que é preciso dizer tudo com
rapidez”.
[502] Gaúcho e o vigarista
Paraíba forneceram material literário para Graciliano. Certamente o conto “Um
ladrão”, de 1938 (Catálogo de manuscritos
do AGR, p. 31), onde Gaúcho é citado constantemente no enredo, foi
alimentado por essas pesquisas in loco.
Graciliano também publicou em Vamos Ler!,
20-05-1937, ed. 42, t. 3, a crônica “Contos do vigário” (coletada em Linhas tortas, p. 154-155), cheia de
gírias, com passagens como esta: “O ano passado um punguista competente me
asseverava que os homens se dividem em duas classes, malandros e otários, que o
otário foi naturalmente feito para sustentar o malandro e não pode deixar de
ser afanado. Dois tipos completamente diversos, na opinião do punguista: o
otário nunca se vira, o malandro vira-se, isto é, sabe engrupir”; “O operador e
o campana têm o paco; a vítima tem a grana. O negócio consiste na substituição
da grana pelo paco. E a conversa é sempre a mesma, essa gente que se vira não
tem imaginação. O paqueiro começa uma história mole, bancando trouxa, depois o
esparro entra no jogo e dá informações. Não há nada mais besta. Pois um homem
da Pauliceia caiu na papa e soltou a grana. Um furto de quatro lucas e meio,
como se diz em linguagem técnica”.
[503] A respeito de Manuel Leal, o velho amigo,
caixeiro-viajante, habitual hóspede da família em Palmeira dos Índios nos
meados dos anos 20, Clara Ramos, em Mestre
Graça, p. 53-54, conta que Graciliano, na época, além do Café de
propriedade do Genésio, que ele apelidou de Bacurau, frequentava o bar de
Balbino Freire, “cuja afluência quadruplicou com os torneios de bilhar travados
com Manuel Leal. Esse parceiro é um rapagão de farta cabeleira negra que será
reencontrado depois, em má situação, no porão do Manaus. Antes de se converterem em personagens de Memórias do cárcere, os craques, de fato
dois virtuoses do taco, enchem as noites vazias da província com o entusiasmo
de suas torcidas”.
[504] O episódio foi publicado em Correio da Manhã, 19-04-1952, ed. 18121,
t. 10. Ver registro de manuscrito em Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 114. A Biblioteca Nacional disponibiliza arquivo
com título “Paraíba” – manuscrito datado de 11-06-1949, que narra o encontro
com o vigarista pernóstico:
< https://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_manuscritos/mss_I_07_13_007A/mss_I_07_13_007A.pdf >.
[505] Cubano tornou-se um
personagem marcante para Graciliano: em “Flash”, coluna de enquete dos
“Arquivos implacáveis” de João Condé, A
Manhã, Letras e Artes, 01-08-1948, ed. 91, t. 8, ele foi citado em um dos
itens: “Seus maiores amigos: Capitão Lobo (um oficial conhecido na prisão de
Pernambuco), Cubano (vagabundo encontrado na Colônia Correcional), José Lins do
Rego e José Olympio”. Segundo a caracterização de Cubano em Memórias do cárcere, Parte III, 13 e 18,
p. 76 e 100, ele “aguentava-se no papel de cão de fila”;
“Caminhando, movia-se todo, para um lado, para outro, como se as juntas não
funcionassem bem”; “Naquela manhã apenas me disse e repetiu o número do
batismo: 35.35. Ou 33.35, não me lembro direito”; “Um dia o moleque largou o
berro de comando e volveu para mim o seu andar curioso de boneco de molas: –
Quando eu mandar a formatura, não é preciso o senhor se incomodar não. Sente-se
numa daquelas camas, lá no fundo”.
[506] As relações familiares com o conterrâneo,
o major diretor da prisão, foram propícias: em bilhete da prisão, Cartas, p. 166, Graciliano diz a
Heloísa: “Para as visitas é necessário novo cartão da polícia. Em todo o caso,
como você conseguiu entendimento com o major, espero-a terça-feira. Esperei-a
ontem o dia todo, até imaginei que houvesse doença”.
[507] A importância de Benjamín de Garay para a
divulgação da literatura brasileira na Argentina e países vizinhos foi
amplamente documentada por Pedro Moacir Maia, em Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín
de Garay e Raúl Navarro. Garay iniciou seu contato com a literatura
nordestina de 30 com atenção destacada a Graciliano Ramos, com quem se
correspondeu desde 1935, correspondência intermediada por Heloísa Ramos em
1936, durante o período da prisão. Como se vê pela correspondência e por
menções constantes ao tradutor no contexto da obra, a atenção de Garay foi tão
significativa para a divulgação em espanhol da obra de Graciliano quanto para
as remunerações modestas que as publicações de seus textos na imprensa
argentina propiciaram. Ver comentários de Monteiro Lobato sobre Garay no Diário de Notícias, 09-08-1936, ed.
2957, t. 19-20: na crônica “Estranho caso de namoro”, Lobato fala de pessoas
que se apaixonam por um país, com enfoque em Benjamín de Garay: ”Este chega a
fazer do nosso país a sua Dulcineia”. Informa que, para superar as resistências
editoriais, Garay fundou uma editora e anuncia títulos brasileiros a serem
publicados, entre eles Feudo bárbaro [seria
a tradução de S. Bernardo, mas gorou]
: “O curioso no caso de Garay é que a grande calamidade de sua vida foi esse
xodó pelo Brasil”; “Se está pobre e ainda obrigado a viver da pena, deve-o
exclusivamente ao invencível rabicho pela nossa terra”. Ver também A Manhã, 07-02-1943, ed. 461, t. 4: Gilberto
Freyre, em “O Velho Garay”, também fala de estrangeiros que divulgam a cultura
brasileira para deter-se em Garay e propor um reconhecimento oficial das
instituições brasileiras ao seu trabalho. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 270, nota 1, reproduz trecho da carta de
Garay em seu primeiro contato com Graciliano, depois de ter notícias de suas
obras pelo Boletim de Ariel.
[508] Os três contos produzidos nesse período
de prisão, na Sala da Capela, tiveram edições variadas (ver bibliografia) e
afinal compuseram os contos de Insônia. Ver
Catálogo de manuscritos do AGR, p.
29-30: “Paulo”, datado de Sala da
Capela, 09-07-1936, publicado em O Jornal,
18-04-1937, ed. 5473, t. 25, com ilustrações de Santa Rosa; “O relógio do
hospital”, Sala da Capela, 26-07-1936, publicado em La Prensa, Buenos Aires, 24-10-1937, com ilustração de Miguel
Petrone; “A testemunha”, Sala da Capela, 08-08-1936, publicado na Revista do Brasil, Rio de Janeiro, ano
I, n. 1, julho de 1938.
[509] O “romance encrencado”
teve uma demorada história desde sua escrita, além de ter sido lançado com o
autor na cadeia. Em carta de Maceió a Heloísa, Cartas, 22-03-1935, p. 140-141, Graciliano diz que não mexe no
romance (calcula-se) desde outubro de 1934: “Acabo de almoçar e, como é
natural, bebi um bocado de aguardente. Vou dormir. Em seguida retomarei o
trabalho interrompido há cinco meses. Julgo que continuarei o Angústia, que a Rachel acha excelente,
aquela bandida. Chegou a convencer-me de que eu devia continuar a história
abandonada. Escrevi ontem duas folhas, tenho prontas 95. Vamos ver se é
possível concluir agora esta porcaria. É quase uma hora. Creio que sapecarei o
segundo horário da repartição. No quintal procurarei escrever a continuação do
romance, que se passa num fundo de quintal, como v. sabe. Sairá uma obra
notável”. Luiz Augusto de Medeiros, no programa de prêmios na tv “O céu é o
limite”, respondendo sobre a vida e a obra do cunhado, como noticia o Diário de Pernambuco, de 11-10-1957, ed.
232, t. 13, afirmou que na verdade ele iniciou Angústia após o carnaval de 1934, em não em 1933 como Graciliano
teria dito em uma entrevista. Na semana santa de 1935, escreve para Ló, Cartas, p. 152: “Terminei o espetáculo
da companhia lírica. O primeiro ato é no Farol, como já disse, o segundo aqui
no fundo do quintal, ao pé da mangueira, que nunca existiu”; “O ciúme de Luís
da Silva é uma doença horrível”; “Por enquanto pretendo entregar-me
inteiramente a este desastre que preparo e que terá, se aparecer um editor
maluco, cinquenta leitores do Amazonas ao Prata, talvez nem tanto. Em seguida o
Lívio Xavier, e os outros comunistas amigos da Rachel me arrasarão”. Em 1935,
p. 153, carta sequente sem data, Graciliano fala de uma recebida de José Lins:
“Recados para a Rachel, que ainda não voltou do Recife, e uma proposta do José
Olympio, que se oferece para editar o Angústia, ainda não escrito.
Edição de três mil exemplares”. Em carta a José Lins do Rego, de 10-09-1935
(ver acima), Graciliano dizia: “Terminei a minha história, mas não sei se a
publique. Se isto acontecer, será lá para o ano vindouro, como lhe disse” –
em Eduardo F. Coutinho e Ângela Bezerra de Castro
(orgs.), José Lins do Rego,
p. 51. Em Cartas, p. 154, diz a Ló em
14-12-1935: “Continuo a emendar o romance, que o Zé Olympio quer publicar em
janeiro”. Em Memórias do cárcere, Parte
I, 29, p. 183-184, um rótulo de garrafa de cachaça no porão do Manaus provoca a lembrança: “A sala de
jantar da minha casa em Pajuçara reconstituía-se. Era noite. Sentado à mesa,
entranhava-me na composição de largo capítulo: vinte e sete dias de esforço
para matar uma personagem, amarrar-lhe o pescoço, elevá-la a uma árvore,
dar-lhe aparência de suicida. Esse crime extenso enjoava-me. Necessários os
excitantes para concluí-lo. O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a
aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada, queria
abandonar a tarefa e obstinava-me nela, as ideias a pingar mesquinhas, as mãos
trêmulas. Rumor das ondas, do vento. Pela janela aberta entravam folhas secas,
um sopro salgado; a enorme folhagem de um sapotizeiro escurecia o quintal”. Um
dos companheiros do porão, incômodo, tagarelava com abundância: “A
voz dele, um burburinho, desmaiava no som das ondas, do vento; as ondas não quebravam
no costado velho da embarcação, o vento não entrava pela vigia: eram ruídos
longínquos a embalar-me o trabalho, na minha sala de jantar”; “Dificuldade enorme para
assassinar o homem, passar-lhe a corda ao pescoço, deixá-lo pendurado a um
galho, na escuridão. Que iriam pensar daquilo? Abrira-me com o editor:
afirmara-lhe, em carta, que ele não venderia cem exemplares da história”.
Em
dedicatória manuscrita em edição de 1947 de Angústia,
Graciliano escreve: “Rachel: este
livro não é meu: é nosso. O seu trabalho para arrancá-lo foi pelo menos igual
ao meu, sem exagero”. Há a anedota que Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 92, registra: “Um dia ele se excede na
aguardente e atira no lixo os originais de Angústia.
Heloísa atenta para a excepcionalidade da situação. Comunica o fato para Rachel
de Queiroz. As duas mulheres unem-se na busca aos autógrafos, vão encontrá-los,
molhados, no quintal. E o Zé Lins dá a sua risada e a sua versão muito pessoal
do episódio: Mestre Graça forrara, com papel impermeável, um recanto seguro do
quintal; ali depositara com cuidado a papelada”. Ver a respeito notícias e
reproduções por Elvia Bezerra em: < https://blogdoims.com.br/salvando-os-originais-de-angustia-por-elvia-bezerra/ >. Há registros de
outros títulos cogitados para o romance: Um
colchão de paina (um luxo para oferecer a Marina) e 16.384 (o bilhete premiado que propiciaria aquele luxo e vida
tranquila) – termos presentes no enredo como obsessões de
Luís da Silva, mas não mencionados nas cartas, que desde o início nomeiam o
romance apenas como Angústia: ver a respeito, entretanto, lembrança
de Ricardo Ramos, em Graciliano: retrato
fragmentado, p. 73: o romance estava acabado e sem título, com a escolha
entre os três a definir . Em novembro de 1935, no Boletim de Ariel, 11-1935, ed. 2, t. 21, José Olympio, com a
listagem de publicidade sob o título “publicaremos brevemente”, já anunciava Angústia, assim como em nota de O Cruzeiro, 23-05-1936, ed. 29, t. 51.
Em junho de 1936, o Diário de Notícias,
28-06-1936, ed. 2923, t. 19, publicou trecho de Angústia em que Luís da Silva se imagina sob a opressão
revolucionária das assembleias comunistas: “Camarada Luís da Silva, antes da
revolução você elogiava os políticos safados do interior, os prefeitos ladrões.
Onde está o dinheiro que essa gente lhe deu?” Julião Tavares estaria fuzilado
ou enforcado e Marina trabalharia num orfanato. Em julho de 1936, o Boletim de Ariel, 07-1936, ed. 10, t. 3,
publicava “Infância”, “trecho de Angústia,
no prelo” – a seguir o romance apareceu na listagem das “novidades de agosto”.
O Diário de Notícias, ed. 2969, t.
17, informava em 23-08-1936: “acaba de aparecer o novo romance do sr. Graciliano
Ramos: Angústia”. Houve muitas
resenhas sobre o livro, mas Graciliano, em bilhete da prisão, Cartas, p. 167, reclamava: “Recebi, na
hora do almoço, a notícia que você me mandou e o conto do Tatá. A nota é uma
tolice, o que não admira em jornal de Maceió: só podia sair maluqueira. A
literatura de Ricardo é fantástica — super-realismo ou coisa semelhante. Quando
escrever para casa, diga-lhe muitas amabilidades, para que ele continue a fazer
versículos bíblicos. É fantástico. Se não me engano, o Angústia morreu. Um silêncio de morte. A saúde vai bem, mas
continuo a não poder trabalhar”. Apesar da reclamação de Graciliano, sobre “um
silêncio de morte”, foi anunciado o júri do “Prêmio Lima Barreto” da Revista Acadêmica, no Diário de Notícias, 11-10-1936, ed.
3011, t. 18: “Mário de Andrade, Aníbal Machado e Álvaro Moreira”, e, menos de
quinze dias depois, com Graciliano ainda preso, o Diário de Notícias, de 25-10-1936, ed. 3023, t. 19, informava que o
“Prêmio Lima Barreto” para romances de 1936 tinha sido atribuído a Angústia. Depois de sair da prisão,
Graciliano escreveu a Ló, Cartas, 14-02-1937,
p. 174, no carnaval de 1937: “Mais tarde encontrei o
Murilo, fui à Revista Acadêmica e tomei umas bebidas em companhia da
tropa de lá”; “Marques Rebelo declarou que do Prêmio Lima Barreto eu só
receberia um conto, novecentos e quarenta, porque o Murilo ia deduzir sessenta
mil-réis de gim bebidos na véspera”. Deduz-se, então, que o prêmio seria de
dois contos de réis, mas Graciliano nas cartas sempre reclamava que Murilo,
pelo jeito, não iria desembolsar o dinheiro: em Cartas, 03-03-1937, p. 185,
ele disse a Ló: “Prometi a fotografia pela décima vez, enquanto ele me prometia
o dinheiro do prêmio”, e , em 08-03-1937, p. 186: “De volta encontrei o Murilo
Miranda, que positivamente não tem a intenção de pagar o prêmio da Revista”. Em carta a Ló, de 28-03-1937,
p. 194, disse, sem especificar: “Aquele negócio da Revista está sendo pago aos pedaços. Não lhe posso mandar nada”. Em
Cartas, 11-04-1937, p. 197, a Ló: “Não
sei se já lhe disse que Portinari me fez um retrato maravilhoso. Bandeira me
disse há dias que muita gente anda com dor de corno por causa desse retrato. É
formidável. Murilo quer metê-lo na Revista e ficar com ele. Tem graça. O
retrato vale mais que o prêmio. A Revista Acadêmica, sob
direção de Murilo Miranda, teve o no. 27, maio de 1937, dedicado a Angústia, “Prêmio Lima Barreto” 1936,
com ensaios de Mário de Andrade, Aníbal Machado, Álvaro Moreyra, Rubem Braga,
Peregrino Júnior, João Silva Melo, A. D. Tavares Bastos, José Bezerra Gomes,
Emil Farhat, Paulo Saraiva, Aydano do Couto Ferraz, Bezerra de Freitas, notas
de Jorge Amado e Oswald de Andrade e dois retratos de Graciliano, feitos por
Adami e por Portinari – o de Portinari, Graciliano reivindicou e decorava sua
casa. O número seguinte da revista publicou uma carta de agradecimento do
autor, datada de 11-06-1937, Revista
Acadêmica, n. 28, junho de 1937, coligida em Garranchos, p. 151-154: “Esse caso do Prêmio Lima Barreto é diferente dos outros. Parece que não houve
precisamente a intenção de julgar um romance nem de saber se o autor dele
poderia fazer trabalho menos mau”; “Estou convencido de que me quiseram dar uma
compensação. Aníbal Machado, Álvaro Moreyra e Mário de Andrade desfizeram
agravos e combateram moinhos reais. Eu estava sendo triturado por um desses
moinhos. E a solidariedade de alguns intelectuais brasileiros teve para mim
significação extraordinária”; “Refletindo bem, penso que o prêmio não foi
concedido a mim, mas a várias centenas de criaturas que se achavam como eu. Não
se tratou de literatura, evidentemente. O que não quer dizer que, achando a
decisão injusta, como acho, eu não a considere um ato de coragem indispensável
num momento de covardia generalizada, ato imensamente útil, se não a mim, pelo
menos a outros, que poderão respirar com alívio e dizer o que pensam”.
[510] Na edição seguinte, em 1941, o romance
foi consertado: continuou pela José Olympio, com desenho de Santa Rosa e a
rubrica “2ª edição, revista” na capa – Clara Ramos, em Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra, p. 148, lembra
os preparativos: “A mulher e a menina mais velha o auxiliam na revisão da
segunda edição de Angústia. Enquanto
a revisora de nove anos se restringe aos trechos selecionados pela censura
caseira, a adulta pega o trabalho pesado. Heloísa é uma eficientíssima
colaboradora que acumula as funções de leitora, datilógrafa e auxiliar de
revisão. Como atualmente passa as suas tardes no Ministério da Saúde, é de
madrugada que acompanha o marido na leitura das provas. Precisa então molhar a
cabeça para manter-se acordada”. O
Cruzeiro, 18-10-1941, ed. 51, t. 10, noticia a 2ª edição de Angústia, “revista carinhosamente pelo
autor”.
[511] Posteriormente, a formulação “formoso
romance” apareceu em nota sobre o lançamento da segunda edição de Angústia, em A Manhã, 09-11-1941, ed. 13, t. 28. Sobre a linguagem forte de Angústia, ver: Valeska Limeira Azevedo
Gomes, Expressões risíveis na obra de
Graciliano Ramos: uma leitura de Angústia.
[512] Ver Fernando Morais, Olga.
[513] Boris Schnairdeman, em Duas vozes diferentes em Memórias do
cárcere?, Estudos Avançados, e Jacob Gorender, em Graciliano Ramos: lembranças tangenciais,
Estudos Avançados, apontam o equívoco
de Graciliano ao referir-se a “fornos crematórios” e “câmaras de gás” em 1936.
[514] A atuação de José Lins pela libertação de
Graciliano foi fraterna e decisiva. Herman Lima, Auxiliar de Gabinete de
Getúlio Vargas entre 1933-1937, conta em suas memórias, Poeira do tempo, “Capítulo que Graciliano Ramos não escreveu”, p.
307-309, que ouviu de José Lins do Rego “na rudeza de nordestino generoso e
leal”: “ – Herman, você diga ao Presidente Vargas que ele precisa mandar soltar
o Graciliano Ramos”. O acanalhamento cabotino sequente, coadjuvante da
narrativa cúmplice, impõe sua transcrição para registro histórico: “O Doutor
Getúlio, de roupão de seda azul, diante da mesa atulhada de livros e processos,
fumava o indefectível charuto, no gabinete onde despachava a papelada que havia
sobrado da noite anterior, necessitando maiores exames seus. Achava-se então de
pé, e me ouviu sem pestanejar, até que, ao findar o meu recado, fechou um dos
olhos, naquele seu sestro habitual, tão conhecido de seus familiares. Depois,
virando a cabeça para o alto, a mirar algum ponto imaginário, me respondeu com
estas outras palavras, também rigorosamente registradas na minha retentiva, desde
aquela hora: – Você diga ao Zé Lins que
neste caso de comunismo eu não mandei prender ninguém, mas também não mando
soltar ninguém. Isso é lá com a Polícia. Mas, autorizo-o a falar com o General
Pinto, dizendo da minha parte que indague do Filinto Müller se há alguma coisa
apurada contra o Graciliano, e, do contrário, naturalmente que soltem o homem”.
A seguir, pelas tramitações de autoridades entre Alagoas e Rio, o “nada consta”
encaminhou a libertação de Graciliano: ver reprodução fac-similar do documento,
de 12-01-1937, com o “ponha-se em liberdade” assinado por Filinto Müller, em
Fabio Cesar Alves, Armas de papel, p.
22. Pisando em ovos, desculpando-se de
modo cuidadoso, qualificando os romances de Graciliano como “livros em que o
problema humano importa muito mais que o social”, Augusto Frederico Schmidt
publicou uma advertência sobre o equívoco de sua prisão – em “A propósito do
sr. Graciliano Ramos”, em Diário Carioca,
22-12-1936, ed. 2590, t. 4. Dias depois, retomou o assunto em defesa de
integralistas presos na Bahia: “Erro e injustiça”, Diário Carioca, 27-12-1936, 2595, t. 4. Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 132, conta que
Schmidt presenteou a família na pensão com uma rica cesta de natal, indicou a
possibilidade de morarem numa casa confortável e arranjou um emprego de ótimo
salário para Graciliano. Ver depoimento de Pompeu de Souza em Diário Carioca, 08-02-1947, ed. 5713, t.
4: ao presenciar a boçalidade
autoritária contra seus empregados praticada pelo novo patrão, Graciliano
imediatamente desistiu do emprego, como deixa ver na crônica “O Sr. Krause”, em
Linhas tortas, p. 180-184.
[515] Em Cartas,
p. 167, bilhete da prisão, Graciliano diz a Ló: “Essa história de defesa
não me agrada. Estou resolvido a não me defender. Defender-me de quê? Tudo é
comédia e de qualquer maneira eu seria péssimo ator”.
[516] Graciliano conta em Memórias do cárcere, Parte IV, 24, p.
300, que a seguir conheceu melhor Sobral Pinto: “Palavra aqui,
palavra ali – notei que ele era pobre também. E por isso queria libertar-me. As
nossas ideias discrepavam. Coisa sem importância. Sobral Pinto, homem de
caridade perfeita, queria tirar da cadeia um bicho inútil, na minha opinião, um
filho de Deus, na opinião dele”.
[517] Jornal
do Brasil, 15-06-1984, ed. 68, t. 29.
[518] Ver Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 115, e, sobre José Lins do Rego, Jornal do Brasil, 05-06-1971, ed. 50, t.
37, Jornal do Brasil, 12-09-1977, ed.
157, t. 30-31. Esses primeiros meses após a saída da prisão foram
ficcionalizados por Silviano Santiago no romance Em liberdade, que encarna Graciliano Ramos e fantasia a existência
do manuscrito de um diário que publica.
[519] Uma nota maledicente no Correio da Manhã, 17-12-1936, ed. 12915,
t. 4, sob o título “Uma nova repartição”, dizia que Vargas havia incumbido
Capanema de policiar a moralidade na literatura infantil e indicar orientações
para sua produção no país e que o ministro tinha criado, então, de modo
discutível e permanente, a Comissão de Literatura Infantil, com alguns
participantes “dissolventes e até comunistas”. Fizeram parte da comissão, além
de pedagogos, escritores como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima,
Murilo Mendes, José Lins do Rego. As cartas de Graciliano escritas a Ló no
período do concurso dão várias informações sobre o livro infantil que
preparava: Cartas, 14-02-1937, p.
173: “Nada fiz depois da sua saída. Apenas acabei de emendar os meninos
pelados, que não sei se prestam. Vi hoje uns desenhos admiráveis que o Santa
vai mandar para o mesmo concurso de coisas infantis. Os meus meninos não valem
nada diante das figuras do nosso amigo, um circo de cavalinhos formidável.
Formidável”. O concurso organizou-se em três níveis: 1 - gravuras para
pré-escolares; 2 - literatura para crianças de 8 a 10 anos; 3 - literatura para
crianças acima de 10 anos de idade. Graciliano participou do grupo
intermediário. Em 21-02-1937, p. 175-176, diz: “Gastei horas e horas
consertando os meninos pelados, que afinal foram ontem para a escola Remington,
donde voltarão copiados amanhã. Até agora há poucos livros na comissão,
conforme disse o Zélins. Provavelmente não aparecerão coisas muito melhores que
os meninos pelados. Mas não acredito no prêmio, como não acredito no da Revista
Acadêmica. Isso está parecendo uma grande safadeza”. Uma nota no Correio da Manhã, 25-02-1937, ed. 12973, t. 4, informava que o
prazo para inscrição no concurso havia sido prorrogado até 02-03-1937.
[520] Em Cartas,
28-03-1937, p. 193-194, Graciliano diz a Ló: “Fez você muito bem vendendo
os animais que restavam. Estranhei que ainda tivessem escapado as duas reses.
Provavelmente essas duas que ficaram não sabiam que eram minhas. Se soubessem
teriam morrido como as outras”; “Fique com o que apurar desse venda de Macacos.
Preciso roupa, o dinheiro da Revista não
chega para tudo”; “Vou cavar os cobres com um artigo enorme sobre a economia no
romance”. (Clara Ramos, Mestre Graciliano,
p. 41, fala sobre os tempos de 1915 em Palmeira dos Índios: “O coronel
Sebastião Ramos firmara-se no ruralismo. Adquirira Macacos, propriedade magnífica na zona serrana”).
[521] A
terra dos meninos pelados, em Alexandre
e outros heróis, p. 135. Clara Ramos comenta em Mestre Graciliano, p. 117.
[523] Assim Graciliano relata
em várias cartas do período para Heloísa: Cartas,
14-02-1937, p. 174-175: “Domingo desci à cidade. Ao saltar na
Galeria Cruzeiro, encontrei o Rubem, que me apresentou a mulher. Nesse ponto um
sujeito vestido de fêmea vomitou-me a roupa, e voltei para casa, cheio de nojo
e amaldiçoando o carnaval”; “Ontem, no José Olympio, encontrei o Rubem e a
Zora, mulher dele. Fomos ao hotel onde estão, no Catete, e ganhei da Zora uma
partida de xadrez. Essa cidadã é filha dum aventureiro sérvio que esteve na
Abissínia, onde Menelik fez dele visconde. De sorte que Zora é viscondessa na
Abissínia, viscondessa negra, uma criatura filha de sérvio e terrivelmente
branca”. Em 14-03-1937, p. 189: “Você conheceu Simeão? Ele esteve aí em casa
uma vez, com Valdemar e Teo. É um rapaz simpático, amigo do Rui, um sujeito
nervoso, meio doido, médico, literato. Arranjou uma discussão tremenda com o
Rubem, que está aqui na pensão com a Zora”. Em 22-03-1937, p. 190-193: “Preciso
sair, vou levar o Angústia a Gilberto Amado e depois almoçar com
Portinari, que me vai fazer um retrato. Não continuo porque Rubem me entrou no
quarto e provavelmente vai contar gatos”. Em 31-03-1937, p. 196: “São quase
seis horas da manhã. Daqui a pouco vou começar o conto para a Argentina.
Vanderlino, que está aqui espichado na cama, acorda com o barulho do despertador
e marcha para o jornal. D. Laura chorará com ciúmes do marido e ouvirá as
consolações de d. Elvira. Rubem escreverá crônicas para o rádio, Zora irá para
o colégio, onde termina o curso. Anteontem deu-se um caso engraçado. Entrei com
Rubem num café da Rua Gonçalves Dias. Minutos depois entrou Zora e começou uma
galinhagem desgraçada com o Rubem. Por infelicidade um sujeito velho
aproximou-se: era o professor de Latim, que fez uma cara feia por encontrar a
aluna abraçada com um homem. O pior é que Zora não pode dizer que é casada: no
colégio passa por solteira. É uma garota de dezoito anos. Se soubessem que ela
tem marido, os colegas ficariam assanhados, voariam para cima da viscondessa
abissínia”.
[525] A partir de Angústia em 1936, a obra de Graciliano
foi publicada, incluindo novas edições das anteriores, quase exclusivamente
pela editora José Olympio – até 1959. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 209-210, observa que nesse último período
havia negligência nas republicações: “Em meados de 1959, perguntamos a José
Olympio o que seria de Graciliano, de seus livros, no ano vindouro. Chamou o
irmão, Daniel Pereira, que assumira o comando. Ele foi curto e grosso: nem
pensar”; “Fomos para a Martins, que publicava Jorge Amado. Exatamente em 1960,
com edições prefaciadas e ilustradas, que rápidas retomaram o ritmo do
escritor, ativando-o. Em pouco, Vidas
secas vendia 300 mil exemplares num ano. E os demais livros seguiam o
padrão, com desenvoltura”.
[526] Ver: Gustavo
Alejandro Sorá, Brasilianas. José Olympio e a gênese do mercado editorial brasileiro,
e Lucila Soares, Rua do Ouvidor, 110 –
Uma história da Livraria José Olympio. Para ilustrar o quadro, é
interessante o depoimento de João Cabral de Melo Neto, herdeiro que consolidou
o veio da linguagem nordestina. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 193, relembra: “Sentados num corredor de
hotel, enquanto lá dentro jantavam, animados, escritores de várias instâncias
literárias, João Cabral e eu nos abstínhamos, enfastiados. Um pelo
temperamento, outro pela rotina. Aí falamos de meu pai. E João Cabral,
inesperado, me declarou: – Eu não o conheci. Surpreso, pois até eu vinha com
João desde longe, reagi: – Não é possível! João Cabral simplesmente declarou: –
Eu o via na José Olympio e não me aproximava. Por mais que quisesse, era
inatingível. Nunca cheguei nem perto”.
[527] A percepção acanalhada do mundo tende a
tachar o senso crítico de “pessimismo”. Esse hábito reacionário aparece em
vários registros críticos e anedotas a respeito de Graciliano Ramos, do tipo:
“Bom dia”, resposta: “Você acha?”, ou “Do jeito que a coisa anda, vamos ter que
pedir esmolas”, resposta: “A quem?” Ver, por exemplo: Jornal do Brasil, 07-09-1941, ed. 211 t. 11; Letras e Artes - Suplemento de A Manhã, 10-04- 1949, ed. 121 t. 14
e 13; Letras e Artes - Suplemento de A
Manhã, 04-09-1949, ed. 136 t. 11; Manchete,
20-12- 1952, ed. 35 t. 40.
[528] Ver foto do banquinho em
Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos:
estrutura e valores de um modo de narrar, edição de 1986, p. X, com a
legenda: “Pertenceu à Biblioteca Alfredo Pujol, adquirida pelo editor José
Olympio, que doou o banco ao Arquivo-Museu de Literatura da Fundação Casa de
Rui Barbosa” – “o banco do Graciliano”, assim referido por Drummond na crônica
“A casa”, de Fala, amendoeira, como
lembra Clara Ramos, Mestre Graciliano,
p. 139. Fernando A. Cristóvão, p. 152-153, 160-161, 363, incorpora em suas
análises e lista o manuscrito abandonado do romance J. Carmo Gomes ambientado na José Olympio – figurada como “Livraria
do Soares”. Trata-se da continuidade do conto “A prisão de J. Carmo Gomes”(a
“parte I”) em mais três partes, com um Graciliano aderidamente autobiográfico,
dividido em dois, significativamente como no conto “Paulo”, e num conflito com certa
equivalência: “J. Carmo Gomes”, o “comunista” e “Christiano Pereira”, o
“escritor”. Fernando A. Cristóvão publicou as partes III e IV na Colóquio Letras, n. 3 e n. 4, Lisboa,
Gulbenkian, 1971, e em sua coletânea Cruzeiro
do sul, a norte - Estudos luso-brasileiros. A parte II foi
publicada por Erwin
Torralbo Gimenez, Estudos Avançados, vol.
27, n. 9, 2013. Na crônica “A livraria José Olympio”, Linhas tortas, p. 121, Graciliano diz: “Está
aí um lugar onde se encontra excelente e abundante material para um romance,
que poderia ser editado ali mesmo”. Em Cartas,
09-04-1938, p. 204, ao filho Júnio, disse: “Durante uns três dias Fabiano fez alguma figura
na vitrine. Depois escondeu-se e os compradores se sumiram. É o diabo. Vamos
ver o que dizem os críticos. Dias da Costa, que publicou esta semana um bom
artigo, acha que Fabiano, sinha Vitória, os dois meninos e Baleia serão muito
atacados. Está bem, vamos esperar isso. E enquanto esperamos vivemos chocando
um projeto vago, qualquer coisa a respeito dum romance que vá da favela ao
arranha-céu onde os tubarões da indústria digerem o país, e entre o morro e o
escritório – a livraria, o jornal, a pensão do Catete, o restaurante Reis, o
bar automático, o cinema, o teatro, o mangue e o café da Cinelândia. Enfim tudo
indeciso, provavelmente não será escrito o livro”. Ricardo Ramos, em Retrato fragmentado, p. 106, lembra que
o projeto do romance foi logo abandonado: “A quem perguntava que fim tinha
levado o livro, mais de uma vez o ouvi explicar-se: – Eu não sentia aquilo”. O
interessante da história é que o último capítulo não escrito de Memórias do cárcere (as primeiras
sensações ao sair da prisão) aparece
ficcionalizado nesse romance inconcluso. Outro romance abandonado por
Graciliano é o “Manuscrito João Pinho”, conforme o título que lhe atribuiu
Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos:
estrutura e valores de um modo de narrar, edição de 1986, p. 160 e nota 15, p. 219-220: o
pesquisador teve acesso a três capítulos num conjunto lacunar. (Curiosamente,
V. de S. Lima, Graciliano Ramos em
Palmeira dos Índios, p. 93, cita um dos colegas de bilhar de Graciliano dos
tempos de Palmeira, homônimo: “João Correia Pinho”). Heloísa Ramos, em
entrevista a Novos Rumos, 07a13-06-1963,
ed. 224, t. 5, considera que o romance seria uma composição a partir dos contos
Luciana e Minsk, de Insônia. Fernando
A. Cristóvão registra menção paralela, em “J. Carmo” e em “João Pinho”, do
Soares e de outro personagem. O pesquisador também observa que há diferenças
decisivas entre a narrativa do “Manuscrito João Pinho” e a dos citados contos
de Insônia.
[530] Os dois casos são narrados em suas
memórias de 1998: Joel Silveira, Na
fogueira, capítulo 66, p. 283-284 (ao contrário do que se divulga, a
entrevista de Graciliano, em 1948, foi concedida a Homero Senna e não foram
mencionados esses tópicos do Golfo das Alagoas e do escritor-e-lavadeiras). Em
Mário Hélio Gomes de Lima, Graciliano
Ramos. Relatórios, um depoimento
de Joel Silveira mais detalhado, “Graciliano sempre Graciliano”, p. 15-25, além
dos itens acima referidos, comenta, por exemplo, que por ocasião do lançamento
de seus contos sob o título Onda raivosa,
desatou uma polêmica juvenil, inoportuna, contra a resenha de Mário de
Andrade sobre seu livro, predominantemente elogiosa, mas equivocada numa
correção. Os textos de Mário de Andrade, a respeito, são: “A palavra em falso”
e a réplica “A raposa e o tostão”, em Diário de Notícias, 06-08-1939, ed.
5146, t. 14 e 27-08-1939, ed. 5164, t. 14 – intermediados pelos de Joel e de
Jorge Amado em Dom Casmurro,
“Tristeza de ler Mário de Andrade”, 12-08-1939, ed. 113, t. 8, e “A solidão é
triste...”, “Fala um tostão”, 02-09-1939, ed. 116, t. 2. O jornalista conta que
Graciliano entrou na briga publicando as crônicas sobre a qualificação de
“tostão” empregada por Mário para uma literatura descuidada e menor: “Os
sapateiros da literatura” e “Os tostões do sr. Mário de Andrade” – ver em Linhas tortas, p. 187-188, p. 189-190.
Apesar da cordial hostilidade entre Graciliano e Mário de Andrade, Graciliano
defendeu também a necessidade da técnica na arte, como Mário de Andrade, que
alertava para que não se confundissem as rupturas do modernismo com desleixo.
Conta ainda Joel Silveira que, depois disso, quando entrava na Livraria José
Olympio, José Lins do Rego gritava para o fundo: “– Seu Graça, o tostão está
chegando”.
[531] Ver em Cartas, 14-02-1937, p. 174: “Apporelly
apresentou-me ao Oswald de Andrade, que me apresentou a mulher e ficou em
silêncio meia hora, numa cadeira junto à minha. Não lhe disse uma palavra e
tive a impressão de que ele nunca tinha visto o meu nome. Afinal o homem se
voltou e perguntou-me: – ‘Então v. é Fulano mesmo?’ Ficamos camaradas”; “Com Oswald de Andrade e Bárbara, a mulher
dele, fui à Praça 11, ver os pretos do morro. Oswald pediu-me o Angústia,
que ainda não conhecia. Quarta-feira dei-lhe, na livraria do José Olympio, o
volume que aqui havia. Quinta-feira tive na Avenida uma prova do exagero e da
insinceridade dos paulistas. Oswald de Andrade afirmou-me que Angústia havia
abafado a banca (uma frase da Nise) e que agora era um trabalho sério escrever
no Brasil. Para não fazer coisa que se assemelhasse àquilo, não valia a pena
escrever. Comparou o troço com obras grandes da Europa e dos Estados Unidos.
Quis saber a minha maneira de trabalhar e perguntou quantos anos tinha gastado
para fazer o livrinho. Enfim uma série de conversas que, se fossem levadas a
sério, me encheriam de vaidade. Não foram nem encheram, graças a Deus, mas é
possível que o romance não seja mal recebido em S. Paulo”.
[532] Ver em Cartas, 21-02-1937, p.
176: “Almocei ontem com o José Olympio, que me falou na possibilidade de se
arranjar um emprego qualquer em S. Paulo. Creio que já lhe disse que o Oswald
de Andrade havia insistido comigo para que fosse morar lá. Tudo muito vago”;
28-02-1937, p. 178: “Na livraria Zélins queria achar quem aceitasse um convite
para vir a S. Paulo. Ninguém queria vir. Julgo que ninguém queria vir, porque
ele me convidou com tanta insistência que fiquei desconfiado. Recusei as
passagens gratuitas, hospedagem etc. Estava com remorso de abandonar o conto e
uns vagos projetos de trabalho. José Américo e Otávio Tarquínio submeteram o
caso a votação e acharam que eu devia fazer a viagem, que todos pensavam assim.
Unanimidade na votação. Mais tarde, no café, João Alphonsus e Manuel Bandeira
aconselharam-me a não perder uma boa ocasião de conhecer S. Paulo”.
[533] Em Cartas, de São Paulo, 28-02-1937, p. 178-180, para Ló, Graciliano
fala da agenda intensa que ele e José Lins enfrentaram, visitando o Brás e o
Anhangabaú, núcleos de imigrantes japoneses, russos, estonianos, finlandeses e
muitos eventos: “Às dez horas de sexta-feira embarcamos. A minha cama, como
você deve esperar, tinha o número 13. Não dormi bem não, mas dormi e aqui
cheguei ontem pela manhã”; “Na estação encontrei uns cidadãos importantes,
donos duma dessas companhias que distribuem artigos para a imprensa”; “Trepamos
num automóvel, percorremos a cidade e fomos hospedados num hotel de criados
fardados, com um luxo infeliz e dois elevadores. Estamos no quarto andar,
apartamento 401”; ”Andei nisso incógnito, naturalmente. Apenas durante o
almoço, no Automóvel Clube ou coisa parecida, um lugar onde se reúne a
plutocracia paulista, ministros e o diabo, ouvi um português sapecar o meu nome
perto de mim. Parece que ele falava em escritores. Feitas as apresentações, o
homem se espantou de me encontrar ali e deu-me uns recados que trazia de
Lisboa. Prometeu-me levar ao José Olympio uns livros que me mandavam uns
romancistas portugueses”; “À noite tivemos um banquete. É verdade, um banquete
medonho de mais de cento e cinquenta talheres. Naturalmente você está aí arrancando
os cabelos ao pensar que apareci nesse banquete com a roupa com que
desembarquei na Colônia. Explica-se: é que não tenho outra”; “Os únicos animais
que usavam smoking eram os criados. Em todo o caso é bom você ter cuidado para
as traças não acabarem de comer o meu smoking”; “Acordei hoje bem-disposto. O champagne
e o whisky não me fizeram mal. Zélins está um Sardanapalo. Pediu os
jornais pelo telefone e leu-os metido na banheira, num banho fumegante. Agora
está espichado na cama, enrolado num roupão, conversando pelo arame com Oswald
de Andrade, que promete estar aqui dentro de meia hora”; “Creio que vou
escrever qualquer coisa para os rapazes que nos têm obsequiado mas eles só dão
cinquenta mil-réis por artigo”. Em Cartas,
ainda em São Paulo, 01-03-1937, p. 180-182, o relato de Graciliano indica que a
agitação continua: “Oswald de Andrade chegou às oito horas e, feitos uns
elogios a Usina, reconciliou-se com Zélins, de quem era inimigo
terrível. Deu-me umas notícias de fazer dormir em pé. Depois que transmiti a
ele um recado do Rubem, que foi convidado para trabalhar num jornal daqui,
Oswald voltou a tratar da minha vinda para S. Paulo. Falou-me de Sérgio
Milliet, que ainda não conheço e a que já me referi em uma das minhas cartas.
Quando conheci Oswald no Rio, pelo carnaval, ele passou meia hora calado,
depois me disse de supetão que Sérgio Milliet tinha feito ao Angústia umas
referências de espantar. Ao avistar-me com Mário de Andrade aconteceu coisa
parecida: o autor de Macunaíma não conhecia Angústia, mas Sérgio
Milliet lhe havia dito do livro isto, aquilo etc. O Murilo e os outros rapazes
da Revista já me tinham dito que esse homem dava ao livrinho um valor
excessivo. Bem. Não pedi nada ao Oswald, mas, ao sair do Rio, ele me garantiu
que encontraria meio de trazer-me para aqui. A promessa justificaria a viagem que fiz, mas realmente não pensei
nela quando embarquei. Várias pessoas torciam para que me mudasse para S.
Paulo, entre elas o Prado, excelente rapaz de quem me tornei camarada, apesar
de ele ser político e deputado perrepista. Eu ignorava que Sérgio Milliet fosse
troço. Pois é chefe aí de qualquer coisa. Oswald me disse que tinha falado com
ele a respeito dum lugar que me serve. Não sei de que se trata. A coisa depende
de Sérgio Milliet e de outro que não conheço nem de nome, mas que é meu amigo
na opinião de Oswald. Não creio muito nisso, que está me parecendo fácil
demais, o que nunca me acontece, mas enfim talvez tenha sido bom eu ter perdido
ontem o trem para o Rio. E também foi bom não ter ficado em casa pelo carnaval,
procedimento que você censurou à toa. Bem. Vamos aos acontecimentos de ontem.
Descemos com Oswald. No andar térreo encontramos os dois rapazes da companhia
de publicidade e mais o Rubens do Amaral, jornalista velho, sujeito de valor.
Eles tinham um programa complicado. Fomos à casa do Oswald buscar Bárbara.
Entre outras coisas, lá vimos uns quadros maravilhosos. Saímos, passamos o dia
na Rivière, almoçamos num restaurante à beira da represa, que é uma espécie de
lago da Suíça”; “Jantamos em casa de Oswald. Um jantar maravilhoso que a
Baiana, uma preta que nos foi apresentada na cozinha, preparou. Ele tem dois
filhos: um rapaz, que é pintor [Oswald de Andrade filho, Nonê], e um pequeno de
seis anos [Rudá de Andrade], da Pagu. Leitura dum capítulo do romance Marco
Zero, do dono da casa. Parece que vai ser uma obra notável. Pela manhã ele
nos tinha dado volumes do Serafim Ponte Grande, e na viagem Rubens do
Amaral teimava em ler uns pedaços horríveis em voz alta, parando sempre nos
lugares que Bárbara não podia ouvir. Parava sempre, não havia página que
pudesse ser lida. Durante o jantar os dois rapazes se levantaram algumas vezes
e telefonaram a um terceiro a respeito das nossas passagens de volta. Saímos.
No hotel uma surpresa: só havia passagem para um. Acompanhamos Zélins à
estação, depois entramos num cinema, onde vimos o Gordo e o Magro. E agora,
oito da manhã, estou aqui no hotel, só, à espera do café e sem saber como
empregar o dia”; “Em todo o caso preciso falar com Oswald de Andrade e ver se
encontro o Sérgio Milliet, que chega hoje. Não sei, pode ser que esta viagem me
seja útil. O número treze tem-me perseguido. O lugar onde me deitei no wagon
era número treze, a cadeira onde me sentei no banquete número treze. No
bilhete de volta, que já me chegou, parece que a cama também é treze. Estou
ficando supersticioso. É um bom número, nunca me fez mal. Aqui ninguém me
conhece, não encontrei o meu livro em parte nenhuma. Veja que sou um cidadão
perfeitamente desconhecido do público”.
[534] Em carta do Rio,
03-03-1937, p. 183-185, Graciliano relata a Heloísa as últimas peripécias
paulistanas e as sequências cariocas: “Julgo que, na minha carta de anteontem,
fiquei ali por volta de nove horas, sentado na cama enorme do Hotel Terminus, à
espera do café e do banho”; “Às dez horas os dois rapazes da linha de jornais
me perguntaram por que não tinha aparecido cedo no escritório deles, como havíamos
combinado na véspera. Ia desculpar-me, mas Oswald de Andrade, que estava com
eles, me convidou para almoçar”; “Levei as suas cartas ao correio e fui à casa
de Oswald, onde me recebeu uma datilógrafa bonita que tem uma mancha escura,
quase preta, debaixo do olho esquerdo. Estava acabando de bater na máquina um
capítulo de romance destinado à Revista”; “Fomos depois ao atelier de pintura do filho do Oswald [Nonê
de Andrade], moço que veio da Europa, inteligente e simpático como o diabo”;
“Depois do jantar, Bárbara me leu dois contos que fez para o concurso do
Ministério da Educação. Tinha mandado três cópias ao Santa Rosa, mas como o
Santa não tinha respondido, deu-me outras cópias para a comissão. Sérgio
Milliet não havia voltado. Oswald queria que eu demorasse mais um dia para
encontrar-me com ele, mas receei tornar-me importuno. Mais um dia de hotel e
amolações seria demais para as pessoas que me receberam sem conhecer-me. O
autor de Serafim Ponte Grande falaria com Sérgio Milliet a respeito
dessa história de colocação, história que saiu da cabeça dele e em que não
acredito muito, como lhe disse”; “Às nove horas achava-me no hall do hotel, com
um livro aberto e com os olhos fechados. Despertaram-me os dois rapazes, que
iam pagar as despesas. Minutos depois estávamos na estação. Insistiram para que
eu colaborasse na empresa deles”; “Disseram-me que o representante deles aqui
me procuraria a fim de combinar o pagamento e o número de artigos, artigos
miúdos, que eles não querem trabalho extenso. Às dez horas deixei S. Paulo”. De
volta ao Rio: “Fui à livraria, encontrei Zélins, Santa, Jardim. Fomos ao
Ministério levar os álbuns de figuras dos dois últimos e os contos de Bárbara”;
“No Ministério conheci Carlos Drummond de Andrade, um sujeito seco, duro como osso”;
“Marchamos para a Cinelândia, entrei na Revista e entreguei ao Murilo o
capítulo do romance do Oswald”; “Preciso ver se arrumo uma espécie de artigo
para S. Paulo. Se de outra vez eu não puder escrever muito, não se espante:
necessito trabalhar”. Dias depois, nos “relatórios semanais”, Graciliano
escreve a Ló, Cartas, 08-03-1937, p.
186: “Pois, depois que voltei de S. Paulo, meti-me em
casa. Não sei se lhe disse que Franchini me tinha pedido uns artigos para os
jornais dele. Tinha me falado em seis artigos por mês, o que deve ser engano,
pois os outros colaboradores apenas fazem dois. De qualquer forma estive esta
semana arranjando os troços enquanto espero que o representante receba as
instruções a que Franchini aludiu quando nos despedimos. Eles pagam pouco,
julgo que cinquenta mil-réis por colaboração. Escrevi nestes últimos dias umas
cinco tolices. Vou procurar o representante dos paulistas”. Em 14-03-1937, p. 188: “Fez
ontem dois meses que lhe apareci no Méier e fomos pedir a Naná [esposa de José
Lins do Rego] uma cama para dormir. E nestes dois meses tenho rolado daqui para
ali, à toa, andei até em S. Paulo. Viagem inútil. Fui procurar os
representantes da I.B.R., essa companhia de que falei. Encontrei lá uma
italiana zangada e falando inglês, mas não achei nada referente às instruções
sobre os artigos pedidos. Um dos homens, um doutor amável, foi correto: – ‘Não
tem dúvida. Se os diretores pediram seis artigos por mês, o senhor pode
trazê-los’. Não levei nada, por escrúpulo. Estou me acostumando às conversas
dos paulistas. Em todo o caso vou escrevendo uns troços, que serão depois
vendidos, a eles ou a outros”. Um ano antes, no tempo em que Graciliano era
conduzido preso, a Gazeta de Notícias, em
10-03-1936, ed. 57, t. 5, já dava notícias laudatórias dessa recém-fundada
empresa de São Paulo. Sob manchete e subtítulo “Elementos propulsores da nossa
imprensa”, “Visita do chanceler Macedo Soares às instalações da I. B. R.,
empresa de intercâmbio jornalístico em S. Paulo”, afirmava-se: “Contando com
corpo redacional dos mais brilhantes, constituído por técnicos de grande
renome, a nova empresa tem, como era de se esperar, o melhor acolhimento no
seio da imprensa”, nomeando os responsáveis: “Dirigem a I. B. R., aliás com
todo o brilho, os srs. M. Franchini Netto e Oswaldo Quartim Barbosa”. Nesse
período final dos anos de 1930, junto a outros colegas literatos, subscritos
com o “copirraite da I. B. R.”, os textos de Graciliano foram publicados no Diário de Notícias, como, por exemplo,
em 02-10-1938, ed. 3887, t. 13, “Cabeças”, recolhido postumamente em Viventes das Alagoas, p. 139. Vinculado a tal copirraite, Graciliano
chegou a publicar trechos de Vidas secas,
como em “Travessura” – “trecho de romance”, em 23-01-1938, ed. 3675, t. 17-18, mas a quase totalidade de sua produção
para a I.B.R. são crônicas e resenhas recolhidas em Linhas tortas. Em 08-03-1937, ele dizia a Ló, Cartas, p. 187, que vislumbrava nas resenhas um filão para a venda
de seus artigos: “Mas antes tentarei escrever cinquenta mil-réis de literatura.
Falta assunto. Talvez faça alguma coisa sobre os livros novos do José Olympio.
As memórias de Oliveira Lima renderam um escândalo medonho. Uns sujeitos
desconhecidos têm atacado estupidamente o Caminho de pedras. Ainda ontem
o Jornal trouxe uma coisa besta que tentava escangalhar esse livro, uma
opinião integraloide como a de Sucupira”: ver em O Jornal, 07-03-1937, ed. 5438, t. 30, a resenha de L. de M. Campos
que desanca o romance e a autora, Rachel de Queiroz.
[537] “A propósito da seca” foi publicado em O Observador Econômico e Financeiro, em
edição datada de 02-1937, ed. 13, t. 89, texto coligido em Linhas tortas, p. 132. “O fator econômico no romance” foi publicado
no Observador na edição datada de
04-1937, ed. 15, t. 45-47, coligido em Linhas
tortas como “O fator econômico no
romance brasileiro”, p. 253-259. Dias depois da carta de 08-03-1937, Graciliano
disse a Ló na de 31-03-1937, Cartas, p.
194: “O troço que escrevi para o Observador
em casa do Zélins era horrível, nunca pensei que me dessem por aquilo mais
de vinte mil-réis. Deram cem, mas não supus que pedissem outro. Pois a semana
passada o Olímpio Guilherme telefonou umas quatro vezes aqui para a pensão,
procurando-me. Quando eu entrava em casa, recebia a notícia de que me haviam
chamado ao telefone. Afinal falei pelo arame com o diretor da revista e dois
dias depois aceitei a encomenda dum artigo sob medida: três páginas, três mil
palavras a respeito da influência da economia no romance brasileiro”.
[538] Sem outros
desdobramentos localizados, Graciliano publicou em 1942, um trecho da peça Ideias novas - 1º
quadro, cenas de I a VII – que, portanto, presume-se, ficou inconclusa:
Revista do Brasil, ano V, n. 49, 3a. fase, Rio de Janeiro, jul. 1942.
Referida por Fernando A. Cristóvão, Graciliano Ramos:
estrutura e valores de um modo de narrar, ed. de 1986, p. 362. Texto
coligido em Garranchos, p. 192-206.
[539] A previsão de Ló se
confirmou: Graciliano obteve o 3º lugar na categoria intermediária. O Jornal do Brasil, em 05-03-1937, ed. 53,
t. 13, anunciava cerca de oitenta inscritos, entre eles A terra dos meninos pelados, sob o pseudônimo “L. Silva”. Em carta
a Ló, de 08-03-1937, Cartas, p. 186,
a respeito de concursos e prêmios, desconfiado de que a Revista Acadêmica não lhe pagaria, Graciliano comentava: “Tudo isso
é uma pilhéria desagradável, e foi um desastre Valdemar ter metido aquelas
notas na Gazeta. E desastre maior
haver noticiado a publicação dos meninos pelados. Como você sabe, essa história
foi escrita para um concurso e mandada para o ministério com pseudônimo [“L.
Silva”]. O nome do autor não podia ser descoberto antes do julgamento. É
verdade que eu não tinha esperança de alcançar o prêmio, mas enfim havia
oitenta concorrentes e eu era um deles. Agora, dois meses antes da apuração, a
nota da Gazeta me exclui do concurso.
O intuito de Valdemar não foi esse, é claro, mas se ele soubesse que a história
tinha sido escrita para um concurso, não publicaria aquilo. Não desejo que se
diga mais nada sobre os meninos pelados e sobre a conversa da Revista. É bom ele não pensar que estou
ressentido (realmente não estou), mas qualquer publicidade me prejudica. Afinal
o meu afastamento do concurso foi um bem: não me preocuparei com essas coisas
incertas. E eu só tinha feito aquilo por insistência do Rodrigo. Acabou-se, não
tem importância”. Graciliano não foi eliminado do concurso. Já em abril, o Correio da Manhã, 03-04-1937, ed. 13004,
t. 2, anunciava o resultado para a categoria desenhos, pré-escolar: em 1º
lugar: Santa Rosa, com O circo; 2º: Luiz Jardim, O tatu e o macaco; 3º: Paulo Werneck e
Margarida Estrella, A carnaubeira. O
resultado para as duas categorias seguintes só saiu em junho, como noticiou o Correio da Manhã, 26-06-1937, ed. 13073,
t. 7: na série para crianças de oito a dez anos: 1º: Lúcia Miguel Pereira, [A]
fada menina; 2º: Marques Rebelo e Arnaldo Tabayá, A casa das três rolinhas; 3º: Graciliano Ramos, A terra dos meninos pelados. Para a
terceira categoria, crianças acima de dez anos: 1º: Luiz Jardim, Boi Aruá; 2º: Esther da Costa Lima, A grande aventura de Luiz e Eduardo; 3º: Érico Veríssimo, Aventuras de Tibicuera. Para a contextualização do concurso, ver:
Aline Santos Costa, A Comissão Nacional
de Literatura Infantil e a formação do público leitor infanto-juvenil no
Governo Vargas (1936 – 1938). Além de várias representações em teatro, A terra dos meninos pelados foi encenado
no período natalino de 2003 pela TV
Globo num musical em quatro episódios com adaptação livre por Cláudio Lobato e
Márcio Trigo, como indicam notas e anúncios, por exemplo, no Jornal do Brasil, de 16e17-05-1971, ed.
33, t. 60, de 01-06-2003, ed. 54, t. 56, e de 19-12-2003, ed. 255, t. 99.
[540] Cartas,
11-04-1937, p. 197-199.
[541] Dentre as primeiras publicações de
Graciliano ao ser libertado, está “Dois dedos”, no Diário de Pernambuco, 17-01-1937, ed. 60, t. 15 e 16. O conto
também foi publicado antes, em O Jornal,
10-01-1937, ed. 5391, t. 23, às vésperas de Graciliano sair da prisão. Mas o
conto é do final de 1935, escrito para atender ao pedido de Benjamín de Garay –
como se depreende das cartas em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos,
p. 28, a de 13-12-1935: “Mas é o diabo, seu Garay. Eu nunca escrevi contos, e
nem sei se me seria possível, enchendo-me de boa vontade, arranjar uma história
decente”, e, logo após sua prisão, a carta de Heloísa para Garay, p. 33, de
07-03-1936: “Comunico-lhe que já pus no correio o conto que o senhor pediu para
a revista El Hogar”. Mais de um ano
depois, portanto, Graciliano pergunta a Garay sobre o “Dois dedos” nessa carta
de 22-04-1937, p. 45-46 (posteriormente ele soube que o conto foi publicado em Mundo Argentino, como diz em Cartas,
a Ló, 13-05-1937, p. 202-203). Em
Memórias do cárcere, Parte I, 5, p.
59, Graciliano comenta o momento em que era conduzido preso, no trem para
Recife, no início de março de 1936, quando pediu ao investigador Tavares, seu
conhecido, que entregasse ao retornar um bilhete a Heloísa: “Benjamin Garay
andava a traduzir-me um livro, a dizer que o traduzia [Feudo bárbaro], e forçava-me a gastar papel e tempo numa
correspondência longa. Ultimamente me exigira colaboração para não sei que
revista de Buenos Aires. Pensei num conto deixado na gaveta sapecado, cheio de
abundantes minúcias exasperadoras, e, a lápis, em pedacinhos de papel
arrancados da carteira, sugeri a minha mulher que tirasse duas cópias dele e
mandasse uma a Garay”. Em Memórias do
cárcere, Parte II, 12, p. 176, em maio de 1936, Ló, ao chegar ao Rio de
Janeiro, quando o visita na prisão, confirma que enviou o conto para Garay.
Graciliano rememora: “– Bem. Dá essa droga a José Lins, depois que ela aparecer
em espanhol. Vamos ver se ele arranja publicação numa revista daqui. Sempre são
alguns cobres” (depois da publicação na Argentina, houve no início de 1937,
como se viu acima, mais de uma publicação do conto no Brasil). Em Memórias do cárcere, Parte IV, 2, p.
199, como já foi citado no período, julho de 1936, depois da Colônia
Correcional, Graciliano fala sobre o dinheiro pago pelo conto, que Ló recebera
de Garay: 25 pesos, 100 mil réis. O Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 28, registra o manuscrito “Dois dedos”, datado de
23-11-1935.
[542] Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos
Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 45-46. Ver reprodução fac-similar, p.
134-135, da publicação de “El reloj del hospital” em La Prensa, Buenos Aires, 24-10-1937, com a nota a respeito da
ilustração: “A ilustração de Miguel Petrone para ‘O relógio do hospital’
agradou tanto a Graciliano Ramos que lhe foi oferecida”. Além disso, Pedro Moacir
Maia reproduz outra publicação, “A
prisão de J. Carmo Gomes”, p. 136 (fac-símile), e registra várias menções a
tratativas de tradução, como de “Um pobre-diabo”, p. 67, e principalmente dos
capítulos de Vidas secas.
[545] “Norte e Sul”, coligida em Linhas tortas, p. 135-136, retoma como
assunto, do mesmo modo que em “O fator econômico no romance” e em “Porão”, a
essência de sua obra, que já se manifestava desde Caetés, como viu Antonio Candido em Ficção e confissão, p. 17: “Em Graciliano, já neste livro de
estreia (não por acaso escrito na primeira pessoa), cenas e personagens formam
uma constelação estreitamente dependente do narrador; a vida externa, os fatos,
os outros se definem em função do ‘pensamento dominante’ – o amor por Luísa”.
Ver em nota acima a carta a Haroldo Bruno.
[546] Em História concisa da literatura brasileira, p. 471, Alfredo Bosi
avalia a obra de Otávio de Faria: “O drama das consciências atribuladas,
divididas entre o pecado e o ideal de santidade, daria matéria para vigorosos
romances intimistas, caso o escritor fosse capaz daquela contensão estilística
de um Mauriac ou de um Julien Green, narradores que lhe são afins. Mas há uma
tal dispersão nos seus últimos livros que os conflitos morais não logram
caracterizar-se e perdem-se na enxurrada de diálogos frouxos e anotações
psicológicas banais. Quem apreciou certos momentos felizes naquela história de
meninos angustiados pelo sexo, que é Mundos
mortos, e leu com admiração as últimas páginas de Caminhos da vida, não
deixará de lamentar a queda formal que se deu nas obras seguintes onde
tão descompassadas andam intenção e fatura. E mais deplora ainda a carência de
equilíbrio e de senso construtivo quando sente que as ambições do autor, se
realizadas, o situariam num lugar privilegiado do romance contemporâneo”.
[547] Luís Bueno aborda minuciosamente a
polêmica, apontando sua divisão como marca estruturante da época: Uma história do romance de 30,
especialmente p. 401-439 (“Saindo da polarização”) e p. 619-640 (“Diante do
outro: Angústia”). A resposta de Otávio de Faria, “O defunto se
levanta...” foi publicada em O Jornal,
30-05-1937, ed. 5508, t. 25 e 26. Ver também para um apanhado detalhado do
contexto e discussão de seus valores, Manoel Freire Rodrigues; Samara Inácio
Silva, “O desvanecimento dos romances intimistas dos anos 30”.
[548] Ver Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 21-25: “Baleia”-04-05-1937 [9],
“Mudança”-16-07-1937 [1], “Sinha Victoria”-18-06-1937 [4], “Cadeia”-21-06-1937
[3], “O menino mais novo”-26-06-1937 [5], “O menino mais velho”-08-07-1937 [6],
“Inverno”-14-07-1937 [7], “Festa”-22-07-1937 [8], “Contas”-29-07-1937 [10],
“Fabiano”-22-08-1937 [2], “O mundo coberto de pennas”-27-08-1937 [12], “O
soldado amarello”-06-09-1937 [11], “Fuga”-06-10-1937 [13]. A numeração entre
colchetes indica a ordem em que os capítulos foram publicados no livro.
[550] Cartas,
07-05-1937, p. 200-202. Ao falar em “quarta história” (caso esteja se referindo
ao conjunto do futuro Vidas secas) a
carta de Graciliano deixa ver que
“Baleia” pode não ter sido a primeira, ainda que tenha sido o primeiro
manuscrito passado a limpo e publicado.
[551] Crônica publicada em Linhas tortas, p. 168-169. Trata-se do rio Paraíba. Graciliano fala
sobre a peça teatral de Carlos Lacerda, mas em cartaz com a autoria incógnita
devido a perseguições e censura – agradeço a Telê Ancona Lopez a informação, por
ela obtida através de Moacir Werneck de Castro em correspondência pessoal, Rio,
3 de maio 89. O Catálogo de manuscritos
do AGR, p. 142, registra publicação da crônica em O Popular, 17-09-1937.
[555] Como Graciliano
revelou a Garay: “O meu plano foi este, meu caro Garay: fiz uma série de contos
com os mesmos personagens. Nada de originalidade, questão de pecúnia, somente:
os contos poderão ser publicados em jornal, o que não aconteceria se eu lhe
enviasse capítulos de romance. Cada história começa e acaba, naturalmente, sem
prejuízo para o leitor, mas todos juntos formam um romance, que não edito agora
porque o público tem coisas muito mais sérias em que pensar e não perde tempo
com literatura” – carta de 08-12-1937, em Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus
tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro, p. 67.
[556] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 128-129, acrescenta que o pai usava também
outras expressões sertanejas: “Não se meta a cavalo de cão. Veja só o diabo
para que tece! Calada, surucucu!” E lembra: “Para que o velho Graça possa
dormir à tarde, Heloísa leva as crianças à praça do Largo do Machado”.
[557] Clara Ramos, Cadeia, p. 169-170.
[559] Dênis de Moraes, em O velho Graça, 2012, p. 165, indica dados diferentes: “No segundo
semestre de 1938, por interferência de amigos como Prudente de Morais, neto,
Graciliano foi nomeado para exercer temporariamente a função de
assistente-técnico na secretaria-geral da Universidade do Distrito Federal
(UDF). Com validade de 6 de outubro a 31 de dezembro, o contrato assegurava
remuneração mensal de 900 mil-réis”. Por outro lado, o IEB registra o documento
de sua nomeação com data de 05-11-1938:
< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> carreira pública> secretaria
geral de educação e cultura> itens 1 e 2 (para item 2, 03-11-1938,
Codigo=405521):
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=405517 >.
[560] Carta a Octavio Dias Leite, publicada em
“Homenagem a Graciliano Ramos”, Margens.
Revista de Cultura, n. 3, p. 40-41.
[561] Pode-se notar o título “Baleia”,
rasurado, no fac-símile do datiloscrito reproduzido por Pedro M. Maia, Cartas inéditas de Graciliano Ramos a seus
tradutores argentinos, p. 140. Ver:
[563] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p.129. Segundo Dênis de Moraes, Schmidt sugeriu
“Vidas amargas” e Daniel Pereira, irmão de José Olympio, “Vidas secas” – O velho Graça, 2012, p. 161.
[564] No Boletim
de Ariel, 04-1938, ed. 7, t. 23, a obra foi anunciada juntamente com a 2ª
edição de São Bernardo. Em recorte no
AGR-IEB, com identificação manuscrita de Graciliano, a nota de “Livros novos”
de O Estado da Bahia, 07-04-1938,
diz: “Este autor estreou, nas letras nacionais, com o romance Caetés, há exatamente 5 anos. Era um
livro seco, um livro sem frases. Inaugurava um período novo na literatura
brasileira. O sofrimento dos personagens aparecia em bruto, de maneira quase
brutal. Depois, em 1934, veio o São
Bernardo, um livro que escapava a qualquer qualificação, porque o drama
sentimental de Paulo Honório, explodindo em súbitas brutalidades, simplesmente
atordoava o leitor diante da força de humanidade do romancista, que o prendia
da primeira à última página. Depois veio Angústia,
em 1936... Deste livro tem-se dito muita coisa, inclusive que ele é a obra
máxima de Graciliano Ramos. Um livro que leva a análise psicológica do
personagem às últimas consequências, torturando-o, fechando-o num círculo de
dolorosa angústia, que contagia o leitor. Livro denso, amargo, triste, esse
livro deixou para trás, no gênero, até mesmo Machado de Assis, entretanto o
maior de nossos romancistas. E houve mesmo quem afirmasse que esse Angústia era o mais humano dos romances
nacionais”. “Depois de dois anos de
silêncio, Graciliano volta ao público com o seu romance Vidas secas, agora editado pela Livraria José Olympio. O romance
conta a vida de uma pobre família de ‘flagelados’, um homem, uma mulher, dois
meninos e uma cachorrinha, que procuram viver o mais humildemente possível na
terra calcinada do nordeste”. “Livro interior, apesar de num ambiente regional,
este Vidas secas abre caminho para
uma nova forma de romance, que vem substituir, com vantagem, o romance regional
– o romance de análise psicológica das populações nordestinas”.
[565] Vidas
secas recebeu, junto a outras obras latino-americanas, o prêmio da Fundação William Faulkner, como obra representativa da literatura
brasileira contemporânea. Ver: Leitura,
02-1963, ed. 68, t. 4; Correio da Manhã, 02-03-1963, ed. 21444,
t. 3: “Graciliano está entre os 14 premiados da Fundação Faulkner”.
[566] O filme foi premiado e teve grande
sucesso, tanto no Brasil como no
exterior, com destaque para o Festival de Cannes. Ver, a respeito das
limitações do filme: Neusa Pinsard Caccese, "Vida secas: romance e fita",
Sônia Brayner (org.), Graciliano Ramos,
(Fortuna Crítica, 2), p. 158-164.
[568] Homero Senna, “Revisão do Modernismo”, República das letras, p. 190
[570] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato
fragmentado, p. 91-92.
[571] Correio
da Manhã, 29-09-1938, ed. 13464, t. 2.
[572] A carta é cheia de respeitosa ironia – o
que agrava o deboche e lhe dá um teor acanalhado que a torna positivamente
inviável. Ver trechos e comentários em Dênis de Morais, O velho Graça, 2012, p. 172-173. A carta esteve disponível na
internet em reprodução fac-similar. Ver reprodução em Cláudio Roberto da Silva,
Entre literatura, memória e história: a
escrita de si em Getúlio Vargas e em Graciliano Ramos, anexo. Traz o
seguinte texto arrascunhado:
Rio – 29 – agosto – 1938
Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas:
Peço permissão a V. Excia. para entretê-lo com alguns fatos de pequena
importância, referentes a um indivíduo. Desculpe-me V. Excia. importuná-los com
eles: são insignificantes, mas a verdade é que deviam ter sido narrados há
quase dois anos. Resumo-os em poucas linhas.
Em princípio de 1936 eu ocupava um cargo na administração de Alagoas.
Creio que não servi direito: por circunstâncias alheias à minha vontade, fui remetido
para o Rio de maneira bastante desagradável. Percorri vários lugares estranhos
e conheci de perto vagabundos, malandros, operários, soldados, jornalistas,
médicos, engenheiros e professores da universidade. Só não conheci o delegado
de polícia, porque se esqueceram de interrogar-me. Depois de onze meses
abriram-me as grades, em silêncio, e nunca mais me incomodaram. Donde concluo
que a minha presença aqui não constituía perigo.
Mas eu vivia em Maceió, era lá que trabalhava, embora o meu trabalho
tenha sido julgado subversivo. Quando me trouxeram para o Rio, imaginei muitas
coisas: que me conservassem detido e arranjassem um processo, que me
devolvessem ao lugar donde me tiraram, que me dessem meio de viver em outra
parte. Está claro que a comissão incumbida de malhar o extremismo não era
obrigada a oferecer-me colocação; retirou-me, porém, o ofício que eu tinha, e
até hoje ignoro por que se deu semelhante desastre.
Adotei,
em falta de melhor, uma profissão horrível: esta de escrever, difícil para um
sujeito que em 1930 era prefeito na roça. Se não me houvesse resignado a ela,
provavelmente não estaria agora redigindo estas impertinências, que um negócio
de livraria me sugeriu a semana passada. O meu editor referiu-me com entusiasmo
a publicação de cinquenta miheiros dos discursos de V. Excia. – e isto me
trouxe a ideia esquisita de que V. Excia. havia descido um pouco. Apesar de
vivermos enormemente afastados, dentro de alguns dias nos encontraremos numa
vitrine, representados por discursos políticos e por três ou quatro romances.
Essa vizinhança me induz a apoquentá-lo, coisa que não teria sido possível
antes de 1930.
V. Excia. é um escritor. Mas, embora lance os seus livros com uma
tiragem que nos faz inveja, não vai ganhar muito e sabe que neste país a
literatura não rende. Andaria tudo bem se tivéssemos exportação, pois o mercado
interno é lastimável. Um bluff a
exportação. Ultimamente uma companhia americana resolveu traduzir para o
espanhol alguns romances brasileiros. Com certeza apareceram dificuldades: as
obras escolhidas encalharam. E é provável que circulem na América do Sul os
livros da Academia. V. Excia. conhece os livros da Academia? Realmente o sr.
conde Affonso Celso entregou a alma a Deus, mas podemos estar certos de que o
substituto dele não será melhor. Enfim não possuímos literatura, o que temos é
diletantismo, um diletantismo produtor de coisas ordinariamente fracas.
Mas estou descambando em generalidades, e no começo desta carta pedi
licença para tratar dum caso pessoal. Como disse a V. Excia., a comissão
repressora dum dos extremismos, do primeiro, achou inconveniente que eu permanecesse
em Alagoas, trouxe-me para o Rio e concedeu-me hospedagem durante onze meses.
Sem motivo, suprimiu-me a hospedagem, o que me causou transtorno considerável.
Agora é necessário que eu trabalhe, não apenas em livros, mas em coisas menos
aéreas. Ou que o Estado me remeta ao ponto donde me afastou, porque enfim não
tive intenção de mudar-me nem de ser literato.
Como declarei a V. Excia., ignoro as razões por que me tornei
indesejável na minha terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei vinte
mil crianças nas escolas e em três anos coloquei nelas cinquenta mil, o que
produziu celeuma. Os professores ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que
se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos. Não sei bem se
pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá
naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem.
Sinto muito, Sr. Presidente, haver-lhe roubado alguns minutos. Mas a
culpa é de V. Excia., que vai editar o seu livro numa casa onde trabalham
sujeitos completamente desconhecidos. Pelo êxito dele, que julgo certo, aqui
lhe trago as minhas felicitações.
Caso V. Excia. queira ocupar-se com o assunto desta carta, peço-lhe
que se entenda com o meu amigo Mauro de Freitas, uma das poucas pessoas
decentes que aqui tenho conhecido.
Apresento-lhe os meus respeitos, senhor presidente, e confesso-me
admirador de V. Excia.
[574] Jornal
do Brasil, 20-04-1980, ed. 12, t. 43.
[575] Alzira Vargas, Getúlio Vargas, meu pai, p. 175.
[576] Paulo Mercadante, Graciliano Ramos: o manifesto do trágico, p. 94-99, episódio
referido pelo autor no documentário de Sylvio Back, O universo Graciliano, em que comenta que Getúlio, “sozinho”,
poderia estar acompanhado de seguranças à distância. Ver também Antônio C.
Villaça, Saltimbancos da Porciúncula,
p. 40. Para uma análise da cooptação por Getúlio Vargas dos intelectuais no
Estado Novo, ver Adriana Coelho Florent, Graciliano
Ramos em seu tempo, especialmente o item
“A função do escritor durante o Estado Novo e o papel do ministério de
Capanema”, p. 109-113.
[577] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 142-143.
[578] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 143-145.
[579] Vamos
Ler!, 23-05-1940, ed. 199, t. 3 e
58; Linhas tortas, p. 206-207.
[580] Linhas
tortas: “Prêmios”, p. 197-199, “Um livro inédito”, p. 152-153, “Conversa de
bastidores”, p. 246-249. Graciliano deixou um manuscrito, datado de 05-01-1941,
repetindo e aprofundando a análise crítica de “Um livro inédito”, como indica
sua publicação na revista Teresa, n.
2, USP, 2001, p. 82-85, coligida em Garranchos,
p. 179-184 (a figuração que Graciliano faz nesse texto parece mais adequada
à personagem masculina “Oronte” de O
misantropo, de Molière, mas a transcrição do manuscrito realizada pela
edição de Teresa, repetida em Garranchos, indica “Orante”, personagem
feminina de Les fâcheux, conforme
nota de ambas as publicações).
[581] O
Tico-Tico – jornal das crianças, 27-12-1939, ed. 1786, t. 29.
[582] Suplemento
Juvenil, 24-05-1941, ed. 1015, t. 5.
[583] Pequena
História da República, em Alexandre e outros heróis, p. 155-207.
[584] Cultura
Política, 08-1944, ed. 43, t. 226.
[585] Linhas
tortas, “Booker Washington”, p. 211-214. O Catálogo de manuscritos do AGR, p. 150, registra o manuscrito
datado de 2 nov. 1940.
[586] A
carta encontra-se disponível no Arquivo Anísio Teixeira, FGV CPDOC, Programa de
Arquivos Pessoais, pasta AT c 1938 08 04:
< https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=AT_Corresp&hf=www18.fgv.br&pagfis=5621 >.
[587] Ver Anísio Teixeira em FGV CPDOC ,“guia
de fundos”:
< https://www18.fgv.br/gci/cpdocguia/detalhesfundo.aspx?sigla=AT > .
[588] Ver Haroldo Ceravolo Sereza, “Da revista
ao livro: Brandão entre o mar e o amor (1941)”.
[589] IEB – Arquivo Graciliano Ramos – texto
dirigido à Célula Theodore Dreiser, do PCB:
< https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos>
literatura> textos inéditos> discursos> página 4, item 40:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229149 >, coletado em Garranchos, p. 277.
[590] Como indicado acima, ver: Adriana Coelho
Florent, Graciliano Ramos em seu tempo,
item “A função do escritor durante o Estado Novo e o papel do ministério de
Capanema”, p. 109-113.
[591] Título sugerido por Jorge Amado, como
indica Ricardo Ramos, Graciliano: retrato
fragmentado, p. 35. Alguns dos textos da coletânea têm outra origem: por
exemplo, a primeira publicação da coletânea, “Carnaval 1910”, vem de O Cruzeiro, 14-02-1942. Alguns textos
não estão em Viventes das Alagoas,
apesar de publicados em Cultura Política: “A viúva Lacerda”, 07-1944, ed. 42, t.
77-178, “Booker Washington”, 08-1944, ed. 43, t. 226-228 – coligidos em Linhas tortas, respectivamente p.
191-193 e p. 211-214. Em Cultura
Política, nas edições de 1941 até meados de 1942, as crônicas vinham sem
título e muitas eram introduzidas por uma sinopse que procurava amoldar o
conteúdo ao proselitismo ideológico do Estado Novo: ver acima nota sobre
“Bagunça”. A crônica “Uma visita inconveniente”, Cultura Política, 12-1942, ed. 22, t. 165-166, não foi publicada
nem em Viventes das Alagoas, nem em Linhas tortas – como indicam observações
a respeito em Catálogo de manuscritos do
AGR, p. 171, e em Maria Lúcia Palma Gama, “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros,
nº 35, p. 204. A crônica foi publicada na revista Travessia, em 1983, v. 4,
n. 6, p. 102-104, e coligida em Garranchos,
p. 221-225.
[599] A
Manhã, 01-08-1948, ed. 93, t. 8.
[604] Dom
Casmurro, 31-05-1941, ed. 202 t. 1; em Linhas
tortas, p. 218-221. Datado de
02-02-1944, “A imprensa francesa clandestina”, Linhas tortas p. 243-245.
[605] Texto divulgado por
Dênis de Moraes em anexo a O velho Graça,
2012 – a partir da publicação em Renovação, maio-junho 1944.
[606] Mestre Graciliano, p. 175-177, reproduz uma carta de Graciliano à
sua nora Natália, esposa de Júnio. Diz Clara Ramos que o pai considerou a moça
muito inteligente e com traços de literata. A carta de 19-11-1944 conta uma
engraçada história sobre a negociação do preço da reforma de um divã de sua
casa. E deteve-se, sempre jocoso, sobre negociações de tradução de suas obras:
“Em maio do ano passado certo Committee
on Cultural Relations with Latin America, de New Haven (no outro mundo), me
pediu permissão para traduzir Angústia
em língua de branco. Mandei a licença, embora não confiasse na história, por
causa das numerosas safadezas que me têm vindo de Buenos Aires. Em março deste
ano, novo pedido do mesmo Committee,
agora assinado por um gringo da Califórnia e relativo a S. Bernardo. Nem dei resposta. Pois agora me chega uma carta de
editora rica de Nova Iorque oferecendo-me contrato vantajoso sobre Angústia e aceitando a tradução do homem
de New Haven. Como a proposta vem cheia de salamaleques referentes aos outros
romances meus, passados, presentes e futuros, estou fazendo projetos imensos
para quando me vierem os dólares e tencionando mudar inteiramente a vida. Em
primeiro lugar, comprarei vários divãs, pois o que o judeu reformou é chinfrim
e não convém a um artista lido na América do Norte. Em seguida esquecerei a
minha língua: entrarei a falar inglês, como Jararaca e Ratinho. E, cidadão
importante, deixarei de trabalhar. Viveremos todos numa grande casa enfeitada
de penduricalhos”. Mais à frente, p. 179, Clara Ramos cita um depoimento do
pai: “A última edição de minhas obras rendeu 50 contos. Da edição americana de Angústia, recebi 10 contos apenas. Tenho
também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e
no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e
as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco”. A história da tradução
norte-americana e do mencionado contrato milionário foi recomposta, a partir de
pesquisa do acervo familiar, por Eliza Mitiyo Morinaka, Tradução como política : escritores e tradutores em tempos de guerra
(1943-1947). Em uma das passagens, p. 244, a autora relata: “O contrato de cinco longas páginas
foi assinado por Graciliano Ramos em 16 de novembro de 1944. Uma das cláusulas
previa os direitos para a publicação de dois outros romances, contanto que os
manuscritos fossem aceitos pela Alfred Knopf. Porém, a editora Knopf não se
interessou mais pelos romances do escritor”. Ver resposta de Graciliano no Catálogo
eletrônico do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros da USP – Universidade de
São Paulo: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo>
arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações
sociais> página 9> organização original da correspondência>
correspondência ativa> página 9: itens 81 e 82. A ficha apresenta descrição
do conteúdo, em carta a Alfred Abraham Knopf, de 28-10-1944: “Graciliano
responde a uma carta de 17 de outubro de 1944, que trata das condições
estabelecidas pela editora para a publicação do romance Angústia em inglês. Concordando com a proposta, declara-se à espera
do contrato. Agradece os elogios ao romance e o interesse por editar outros
livros seus. Em sua gratidão, destaca a seriedade do editor Knopf, preocupado
em escolher bem o tradutor, a pessoa a quem confiar, nas palavras de
Graciliano, ‘o horrível trabalho de passar obras de arte de uma língua para
outra’. E o escritor se refere ao ‘acaso feliz’ que lhe permitiu, ‘ignorando a
Norte-América’, haver aceitado o oferecimento de Kaplan, tradutor referendado
pela editora. Quanto a novas traduções, Graciliano se refere a S. Bernardo e Vidas secas, chamando-as ‘duas histórias talvez legíveis’. Anuncia
que enviará, quando estiverem prontos, um volume de contos e outro de memórias
(Insônia saiu em 1947; Infância, em 1945) e que talvez ‘um
deles não seja inteiramente ruim e desperte aí algum interesse’ ”:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229268 >.
[607] Informações sobre o escritor, poeta e
tradutor Serafín José García, uruguaio, assim como reproduções em ebook de sua
obra, podem ser obtidas no site de edição sofisticada: < https://serafin.uy/ >. Ver a partir daí trecho de sua
tradução de Angústia, publicado em Marcha, 04-08-1944, n. 244, p. 14-15,
com uma apresentação do tradutor, que compara Graciliano a Dostoiévski: “Do
atormentado quanto genial romancista russo tem o autor de Angústia a segurança introspectiva e o agudo poder de captação
psicológica”: < https://anaforas.fic.edu.uy/jspui/handle/123456789/75467 >. O Catálogo eletrônico do IEB
registra no AGR três cartas de Serafín a Graciliano”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 7>
contato com Serafín J. García: de 03-08-1943: “Serafín García fala sobre o
interesse do Editorial Rueda em publicar Angústia
em Buenos Aires, e pede permissão para enviar os acordos relativos aos direitos
da tradução e da edição à Argentina”; de 25-10-1945: “explica o atraso na
entrega de cartas e de um exemplar de Angústia,
devido à censura no país e a atrasos administrativos, e agradece pelo exemplar
de Infância enviado por Graciliano”;
de 16-12-1945: “comenta um mal-entendido quanto aos direitos de autor da edição
uruguaia de Angústia”:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229743 >, e códigos 229744,
229746. O Catálogo eletrônico do IEB registra também as cartas relacionadas, de
Graciliano a Serafín: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo>
arquivo> catálogo on-line> página 4> graciliano ramos> relações
sociais> página 9> organização original da correspondência>
correspondência ativa> página 9: itens 85 a 89, com descrições minuciosas
nas fichas, como por exemplo, no item 85, em carta de 19-07-1945: “Graciliano
responde a uma carta de 20 de junho de 1945, que lhe serviu para entender
várias confusões, decorrentes de se terem extraviado algumas enviadas por
Serafín. Recebera apenas uma, das mãos do irmão do amigo, na livraria José
Olympio. Confessando embora relaxar às vezes a correspondência por causa ‘das
amolações e da escassez do tempo’, explica que não era este o caso, e sim arte
do ‘diabo’ a perturbar-lhes as comunicações. Em seu estilo autoirônico
singular, aponta esse desencontro involuntário entre amigos como sinal das
difíceis relações de então, entre os países da América do Sul. Como exemplo,
narra suas peripécias para localizar uma ‘mulher invisível’ que lhe deixara um
recado na livraria, D. Cleo, portadora de carta de Buenos Aires. Viajava por
Minas e São Paulo e sempre se desencontrava com Graciliano quando ia à José
Olympio. Só depois de seis meses ela lhe deixou a encomenda: carta de Jorge
Amado, oitenta pesos argentinos e o pedido de uma colaboração para a Nueva Gaceta, feito por Rodolfo Ghioldi.
Assim, Graciliano entende que um engano de endereços determinou a demora de Burbujas [livro de contos de Serafín,
1945] do Uruguai para o Rio. Agradece ao amigo a mediação com os editores da Independencia [editora de Angústia, 1944] e a proposta de publicar
seus outros livros, depois da ‘magnífica’ edição de Angústia. Manifesta sua expectativa quanto à remessa de En carne viva e Asfalto [obras de Serafín] e explica que tardaria a remeter Vidas secas, esgotado até nos sebos, com
reedições previstas apenas para o ano seguinte, dada a ‘ditadura da tipografia’.
Promete então ‘as impressões da infância’, cujas quartas provas já haviam sido
revistas. A um pedido para representar o Brasil numa antologia de contos
americanos, nega ser contista, mas se dispõe a selecionar ‘uns casos muito
vagabundos’ que, segundo ironiza, chegariam ao Uruguai pelo correio depois de
publicado o livro”. Carta de 19-07-1945 em:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229271 > e carta de
12-11-1945, código 229272, carta de 13-10-1945, 229273. Ver também “Con
Graciliano Ramos”, em que o tradutor fala do encontro com ele no Rio de Janeiro
– depoimento publicado na coletânea de narrativas de seus contatos com vários
escritores: Serafín J. García, Primeros
encuentros, p. 26-30.
[608] Ver contextualização em
Pedro Moacir Maia, Cartas inéditas de
Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamín de Garay e Raúl Navarro,
p. 118. Em “Uma tradução frustrada”, p. 113-119, Pedro Moacir Maia faz um
relato detalhado dos quiproquós, em torno de 1938, com a tradução que teria
sido a primeira da obra de Graciliano: S.
Bernardo, com o título Feudo bárbaro
(título de que Graciliano não gostou. Garay argumentou que em espanhol “S.
Bernardo” não teria sentido). Mas o projeto não foi adiante. A tradução estava
sendo realizada por Raúl Navarro (que chegou a produzir cinquenta páginas). Foi
a ele que Graciliano escreveu em novembro de 1937, p. 123, em resposta a seu pedido
de dados biográficos para a publicação de dois contos (em antologia, segundo
Pedro M. Maia, p. 115, “Dois dedos” e “O relógio do hospital”, que já tinham
sido publicados em jornais argentinos): “Os dados biográficos é que não posso
arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia
na roça e negociava. Por infelicidade virei prefeito no interior de Alagoas e
escrevi uns relatórios que me desgraçaram. Veja o senhor como coisas
aparentemente inofensivas inutilizam um cidadão. Depois que redigi esses
infames relatórios, os jornais e o Governo resolveram não me deixar em paz.
Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital,
coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis – Caetés, publicado em 1933, S. Bernardo, em 1934, e Angústia, em 1936. Evidentemente, isso
não dá uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas
mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances”.
[609] Em Templo
Cultural Delfos, >“Graciliano Ramos”, < https://www.elfikurten.com.br/ >, Elfi Kürten Fenske apresenta
traduções das obras de Graciliano em listagem detalhada, que pode ser somada à
relação incompleta publicada, por exemplo, na edição comemorativa dos 80 anos
de Caetés. Elizabeth Ramos e Eliza
Mitiyo Morinaka apresentam em seus estudos (ver bibliografia) questões sobre
tradução com abordagem específica de aspectos da obra de Graciliano e tabelas
com identificação de seus tradutores em diversos países. Com complementação e
correção parciais desses registros, segue uma listagem das traduções (afora as
edições em Portugal), em que Vidas secas
aparece com destaque, traduzido em dezessete idiomas:
Alemão
Nach eden ist es weit [Vidas secas]. Tradução
Wilhelm Keller. Tübingen-Basel: Horst Erdmann, 1965.
São Bernardo. Tradução Wilhelm
Keller. Frankfurt: Fischer Bucherei, 1965.
Angst [Angústia]. Tradução
Willy Keller. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1978.
Karges Leben [Vidas secas]. Tradução
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Tradução Pavla Lidmilová. Praga: Odeon, 1983.
Turco
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[610] O Jornal, 19-08-1944, ed. 7458, t. 11.
[611] Diário
de Notícias, 21-05-1939, ed. 5080, t. 18.
[612] Para tomar conhecimento das divertidas
mentiras do Barão de Münchhausen, consultar: Rudolph Erich Raspe, Aventuras maravilhosas do celebérrimo Barão
de Münchhausen. Para uma avaliação de Histórias
de Alexandre pelo viés psicanalítico, ver: Wagner da Matta Pereira, Um olho torto na literatura de Graciliano
Ramos.
[613] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 164. Anos depois, o comediante nordestino
Chico Anysio criou um quadro em seus programas televisivos em que Alexandre
aparecia como “Pantaleão” (figurando o olho torto com óculos em que uma das
lentes era escura) e Cesária passou a “Terta”, que confirmava as lorotas do
marido após sua pergunta, que se popularizou: “É mentira, Terta?”: Chico Anísio,
É
mentira, Terta? A publicação registra como sua fonte o folclore
nordestino.
[614] Como indicado na bibliografia deste
trabalho, as sete histórias selecionadas foram: “Primeira história verdadeira
[Primeira aventura de Alexandre]”, “O olho torto de Alexandre”, “História de
uma bota”, “O estribo de prata”, “A safra dos tatus”, “Uma canoa furada”,
“Moqueca”.
[617] Leitura,
09-1945, ed. 33, t. 74.
[618] Diretrizes,
25-05-1944, ed. 208, t. 15.
[619] Para uma apreciação comparativa das
percepções da infância, ver: Elizabete Maria Álvares dos Santos, A opressão da criança em Graciliano Ramos e
Charles Dickens.
[620] Ver em Vinicius Dantas, Bibliografia de Antonio Candido, p. 69:
“Notas de Crítica Literária – Graciliano Ramos”, (I), (II), (III), (IV) e
(Conclusão), em edições sucessivas de 5as. feiras, p. 4, do Diário de S. Paulo, 04-10-1945, 11-10-1945, 18-10-1945, 25-10-1945
e 01-11-1945. O pesquisador descreve o percurso do conjunto, já sob o título
“Ficção e confissão”: como introdução da 3a. edição de Caetés, 1955, até a 7ª edição, 1965, e, a seguir, da 12ª edição de São Bernardo, 1970, até a 20ª edição,
1973. No prefácio da edição em livro, 1992, Antonio Candido relembra, com
pequena variação das datas, na p. 10: “Tempos depois da sua morte [de
Graciliano], Antonio Olavo Pereira, que dirigia a sucursal paulista da Editora
José Olympio, me convocou para dizer que Graciliano tinha manifestado o desejo
de que fosse escrita por mim a introdução à próxima edição de sua obra. Foi
assim que refundi os cinco artigos, escrevi a análise de Memórias do cárcere
e uma conclusão, compondo o ensaio Ficção
e confissão, que de 1955 a 1969 foi, situada no 1º volume, Caetés, a
introdução desejada pelo grande escritor. A princípio, na edição José Olympio,
do Rio; depois, na edição Martins, de São Paulo. Em 1969 Martins a deslocou
para São Bernardo e em 1974 resolveu aposentá-Ia. Deste modo saiu de
circulação o meu ensaio, do qual José Olympio fizera em 1956 uma tiragem à
parte em pequeno volume, cujos 1.000 exemplares se esgotaram depressa”.
[621] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 11.
[622] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 7-9: “Este foi o
nosso único contacto epistolar. Houve outro, pessoal, no começo de 1947, num
jantar em casa de Lúcia Miguel Pereira e Octavio Tarquínio de Sousa, promovido
para nos apresentar um ao outro”.
[623] O PCB – Partido Comunista do Brasil foi
interditado em 1947 sob alegação de não ser partido brasileiro, mas uma seção
internacional como indicava seu nome Partido Comunista do Brasil. Em 1961, em busca de legalização, trocou o nome para PCB
– Partido Comunista Brasileiro. A
seguir, uma dissidência fundou em 1962 o PCdoB – Partido Comunista do Brasil.
Ver histórico em: < https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/Partido%20Comunista%20Brasileiro%20(PCB)%20-%20Primeira%20Rep%C3%BAblica.pdf >.
[628] Ver notícia sobre os homenageados entre
vários intelectuais como Dyonélio Machado e Niemeyer, em: Tribuna Popular, 23-04-1946, ed. 282, t. 1 e 6.
[629] Ver listagem pormenorizada que indica
intensa participação política de Graciliano, em fichas policiais apresentadas
por Dênis de Moraes, “Os ventríloquos de Zdanov”, O velho Graça, 2012, especialmente p. 240-244.
[632] No entanto, ainda em
1946, o que se registrou no momento de sua filiação (acima, Tribuna Popular, 18-08-1945, ed. 77, t.
1 e 2), Graciliano retomava em “O Partido Comunista e a criação literária”, Tribuna Popular, 22-05-1946, ed.
3016, t. 3, coligido em Garranchos, p. 259-261: “Afirmam
cidadãos vultosos que no Comunismo não existe ambiente favorável à criação
literária; chegando aqui, murchamos, deitamos um pouco de chumbo nos miolos e
somos utilizados em serviços módicos: distribuir folhas volantes, bater palmas
em comícios, pichar muros. Isso – e nada mais”; “Afirmação contraditória. Por
volta de 1936 esses mesmos cavalheiros impugnaram com vigor os produtos
vermelhos. Sem examiná-los, sem declará-los bons ou maus como arte, exigiram
simplesmente a prisão dos autores. Chegaram a ver realizados os seus desejos –
e hoje não é razoável negarem o que ontem badalaram, numa crítica policial
bastante safada”; “É desnecessário asseverarmos que o Partido Comunista nenhum
dano causa à produção literária”; “E é claro que não haveria conveniência em
fabricar normas estéticas, conceber receitas para a obra de arte. Cada qual tem
a sua técnica, o seu jeito de matar pulgas, como se diz em linguagem vulgar”.
[634] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 215-216.
[639] Tribuna
Popular, respectivamente: 20-09-1945, ed. 105, t. 5 e 8; 25-09-1945, ed.
109, t. 3; 07 e 09-10-1945, ed. 120, t.
1-2, ed. 121, t. 1-2; 10-10-1945, ed. 122, t. 3.
[642]
Reproduzido por Maria Lúcia Palma Gama, em “Projeto para inéditos”, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros,
nº 35, p. 210-211. Texto coligido em Garranchos,
p. 255-258. Original registrado em Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 185-186.
[643] Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 208.
[644] Diário
da Noite, 18-12-1945, ed. 3973, t. 15.
[645] Memórias do cárcere foi filmado por
Nelson Pereira dos Santos. O lançamento do filme em 1984, nos estertores da
ditadura militar de 1964-1985, recebeu atenção de Florestan Fernandes em seu
artigo sobre a obra e o filme: “Os que falam de ‘literatura crítica’ e de ‘arte
engajada’ quase sempre permanecem na periferia dos símbolos e na superfície da
luta política. Graciliano Ramos travou o combate ao nível mais profundo da
defesa da dignidade do eu e da condenação irretratável do despotismo
institucionalizado. Temperamento e circunstâncias acenderam a chama do
‘intelectual revoltado’, gerando-se assim a única obra de denúncia integral e
de desmascaramento completo existente em nossa literatura”; “Não voltei a ler o
livro. Nem agora, que senti um ímpeto irrefreável de incentivar os leitores a
não perderem a sua transposição cinematográfica. O vigor do livro, na minha
memória, prende-se à revolta íntima, ao afã de denunciar e desmascarar além e
acima dos limites do inconformismo ideológico e político, de buscar uma
objetividade tão intransigente e penetrante que nos lembra a ‘verdadeira
ciência’, no sentido de Karl Marx” – em Florestan Fernandes, "Memórias do
Cárcere. Sociólogo analisa adaptação cinematográfica do clássico de Graciliano
Ramos", Folha de S. Paulo, Colunas Eternas, 20-08-1984. Republicado em
Folha de S. Paulo, 19-01-2022. Reproduzido por Débora Mazza em:
< https://aterraeredonda.com.br/memorias-do-carcere-segundo-florestan-fernandes/ >.
[646] Clara Ramos, Cadeia, p. 48.
[647] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 181; ver
no Catálogo de manuscritos do AGR, a
data de finalização de cada volume: p. 91 (1ºv -27-05-1947); p. 105 (2ºv-12-09-1948); p. 118
(3ºv-06-04-1950); p. 128 (4ºv-01-04-1951). As datas de conclusão dos
manuscritos apresentadas por Clara Ramos diferem no 1ºv, 28-05-1947, e, no
último, 01-09-1951. Em Cartas, 12-10-1945,
p. 207, ao filho Júnio, Graciliano anunciava seu projeto: “Findos alguns
compromissos neste resto de ano, iniciarei um trabalho a respeito das prisões
de 1936. É difícil e arriscado: tenciono apresentar aquela gente em cuecas, sem
muitos disfarces, com os nomes verdadeiros. Necessito a autorização das
personagens: não tenho o direito de utilizar gente viva num livro de memórias
que encerrará talvez inconveniências”.
[648] O
Jornal, 01-07-1943, ed. 7378, t. 4.
[649] Ver fac-símile em Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 312.
[650] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 130-131. Sobre a carta, colhida do Projeto
Portinari e divulgada por Annateresa Fabris e Mariarosaria Fabris, ver das
autoras A função social da arte:
Cândido Portinari e Graciliano Ramos.
[651] Antonio Candido, Ficção e confissão, p. 60.
[652] Ver Catálogo
de manuscritos do AGR, p. 68.
[653] Célio Borja, “Setenta anos de memória e
história”, Depoimentos. Faculdade de Direito da UERJ.
[654] Citação do discurso do pai por Ricardo
Ramos, Graciliano: retrato fragmentado,
p. 80-81; manuscrito no AGR-IEB, coligido em Garranchos, p. 268-270.
[655] Graciliano Ramos (org), “Prefácio”. Seleção de Contos Brasileiros, v. I,
p. 15-16.
[656] Homero Senna, “Revisão do
Modernismo”, República das letras, p. 185.
[657] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 179.
[658] Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p.
231-237.
[659] Audálio Dantas, “O jornalista Graciliano
Ramos”, Jornal da UBE, nº 102, p. 12.
[660] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 87-88.
[661] Ver histórico detalhado em Dênis de
Moraes, O velho Graça, 2012, p.
244-247.
[662] Diário
de Notícias, 09-04-1949, ed. 8115, t. 3.
[663] Diário
de Notícias, 07-05-1949, ed. 8141, t. 7.
[664] Imprensa
Popular, 09-10-1956, ed. 1934, t. 3.
[665] Ver recorte em AGR-IEB: O Globo,
29-04-1949 e 30-04-1949, com identificação manuscrita de Graciliano Ramos. A
notícia acrescenta que o contrato de tradução de Angústia nos EUA incluiu o direito à representação da obra na
televisão. A seguir, Clara Ramos passou a atuar como rádio-atriz – ver
entrevista a Carioca, 09-02-1950, ed.
749, t. 39: “Mais uma ‘estrela’ na constelação do rádio”.
[667] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 228.
[668] Valentim Facioli, “Um homem bruto da
terra - biografia intelectual”, em José Carlos Garbuglio et alii, Graciliano Ramos, p. 80-87, 116-117.
[669] Ver: Cláudio
Veiga, “Graciliano Ramos, tradutor de Camus”, Aproximações, p. 85-94; Padma Viswanathan, “Graciliano Ramos, tradutor de Albert Camus”,
site A Terra é redonda.
[670] Ana Maria Bicalho, “Graciliano Ramos, o
tradutor visível”, Itinerário, n. 7,
p. 149.
[671] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 221.
[672] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 132-134.
[673] Diário
de Notícias, 07-07-1940, ed. 5428, t. 13 e 15.
[674] Cartas,
25-04-1931, p. 118.
[675] Marili Ramos, Graciliano Ramos, p. 19.
[676] Moacir M. de Sant’Ana, Graciliano Ramos: vida e obra, p. 41.
[677] H. Pereira da Silva, Graciliano Ramos – Estudo crítico-psicanalítico. O texto é bastante
ralo no uso da psicanálise e de termos freudianos, como, destacadamente por
exemplo, “complexo de édipo”.
[678] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 119-120.
[679] Diário
Carioca, 17-07-1952, ed. 7373, t. 3.
[680] Diário de Notícias, em
16-05-1951, ed. 8759, t. 2.
[681] Diário de Notícias, em
16-05-1952, ed. 9062, t. 2.
[682] Para todos, 2ª
quinzena-11-1957, ed. 37, t. 10.
[683] Em apresentação ao livro de memórias de
Álvaro Moreyra, Antonio Carlos Secchin informa que as orelhas da edição de 1954
traziam texto de Graciliano com esse teor: Álvaro Moreyra, As amargas, não..., p. VIII.
[684] Diário
de Notícias, 03-08-1952, ed. 9129, t. 41.
[685] Ver: Dênis de Moraes, O velho Graça, 2012, p. 240-244; Mário
Magalhães, “Memórias de um militante stalinista”, Folha de São Paulo, 09-03-2003.
[686] Imprensa
Popular, 07-10-1951, ed. 903, t. 9.
[687] Imprensa
Popular, 14-10-1951, ed. 909, t. 3.
[688] Reproduzido em Travessia, v. 4, n. 6, UFSC, p. 99-100, 1983, sob o título “Viver
em paz com a humanidade inteira”, coligido em Garranchos, p. 323-326.
[689] Tribuna
da Imprensa, 24-09-1951, ed. 540, t. 1, 10; Tribuna da Imprensa, 10-10-1951, ed. 554, t. 8.
[690] Fundamentos, 09-1951, ed.
22, t. 9: “Estes versos são o produto do exercício calculado e frio do que
resta, de técnica poética, a um homem apodrecido. Estes versos são da lavra de
Manuel Bandeira” etc.
[696] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 231-234.
[701] Imprensa
Popular, 23-11-1954, ed. 1360, t. 5; Imprensa
Popular, 25-01-1955, ed. 1411, t. 5.
[702] Imprensa
Popular, 31-12-1954, ed. 1392 t. 4; 14-11-1954, ed. 1354, t. 3; 01-01-1955, ed.
1393, t. 3; 05-01-1955, ed. 1395, t. 4.
[703] Correio
da Manhã, 30-09-1955, ed. 19177, t. 1 e 8. Para avaliação comparativa entre obras com esse foco e as decorrentes
inquietações ideológicas, ver: Marcel Lúcio Matias Ribeiro, Impressões de Viagem.
[705] O Arquivo Edgard
Leuenroth, Unicamp, conserva correspondência relacionada a Octavio Brandão.
Duas cartas – uma de Sattva Brandão, 1950, e outra de Zarem Chernov, 1957
(esta, de cunho familiar) – foram traduzidas por Erick Fishuk e apresentadas em
seu site:
< https://fishuk.cc/2015/11/brandao1.html > e < https://fishuk.cc/2015/11/brandao2.html >. Na primeira, Sattva revela que não sabe bem quem seja Graciliano
Ramos e pede às irmãs no Brasil que mandem dados e obras dele, se possível a
partir de contato com o autor, pois precisam dessas informações: Vólia está
escrevendo sobre ele e sobre Monteiro Lobato para a Enciclopédia Soviética.
[706] Viagem,
11 (21-junho-1952), p. 70. O Catálogo eletrônico do IEB registra carta de
Sattva Brandão a Graciliano, datada de 21-07-1952, em que “comenta sobre a
publicação do capítulo ‘Prisão’, de Vidas
secas, em revistas russas”: < https://www.ieb.usp.br/ >: acervo> arquivo> catálogo
on-line> página 4> graciliano ramos> relações sociais> página 7>
contato com Sattva Brandão:
< http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229701 >
[707] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 44.
[708] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 165-167.
[710] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 242.
[711] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 175.
[714] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 168.
[715] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 244-245.
[716] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 169.
[717] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 243.
[719] Ricardo Ramos, Graciliano: retrato fragmentado, p. 114.
[723] Clara Ramos, Mestre Graciliano, p. 249.
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